Chapter Text
Aguiar nunca foi a pessoa de alguém, mas sempre deveria estar lá por todos. Esse pensamento é uma percepção que o persegue desde que ele é uma criança. Ele era apenas uma ferramenta para seus pais, um aprendiz para sua mestra, um protetor para sua irmã, mas nunca deveria esperar nenhum retorno dessas relações.
Não se engane, ele tinha bons amigos, mas não era o melhor amigo de ninguém. E, depois do seu relacionamento com Jae e Labirinto não ter dado certo, ele chegou à conclusão de que talvez também não seria um bom namorado. Sempre um amigo, nunca o amante. Sempre a segunda opção e não deveria desejar nada além disso.
Então, Kemi chegou um dia acompanhada desse novo amigo. Pomba, ele se apresentou, era aparentemente o amigo de um amigo de seu namorado, Eloy. Foi uma história confusa e engraçada porque ela o tratava como um de seus protegidos, quase um filho, mesmo que o garoto em questão tivesse seus vinte anos. A princípio, Aguiar nem ligou, aceitando o novo acréscimo ao grupo de braços abertos como todos os outros. Mas as coisas começaram a mudar.
Apesar de tímido, Pomba era tão cuidadoso quanto ele para com os demais. Servia chás quando sentia que estavam mal e fazia o possível para ajudar e aconselhar quando necessário. Ele sempre parava para ouvir o que todos tinham para dizer, mesmo que isso tomasse um tempo precioso de seu dia. Mas, principalmente, ele ouvia o que Aguiar tinha para dizer. Aguiar costumava desabafar com Labirinto, mas eles se afastaram depois que ele e Jae começaram a namorar. Não era como se eles não conversassem ainda, mas agora não era mais como antes. Por isso, quando Pomba começou a se colocar à disposição para ser seu novo ouvinte, ele se sentiu acolhido.
Com o tempo, os dois foram se aproximando, Pomba sempre gentil e acolhedor e Aguiar divertido e protetor. No início, foi algo sutil, quase impossível de perceber, mas no voo de uma semana, se tornou escancarado. Eles se encontravam e logo eram puxados para a órbita um do outro. Eles passavam todo o rolê colados, rindo e se divertindo. Trocando piadas sutis e olhares cúmplices, como amigos de longa data. O braço de Aguiar sempre ao redor do rapaz que mal parecia notar a mudança sutil do clima quando isso acontecia.
— Aguiar, vai com calma. - Comentou labirinto certa vez e Jae concordou. — Não quero que se machuque… ou que machuque o Pomba.
Todos sabiam como Aguiar era intenso, para dizer o mínimo. Apesar da aparência de machão, ele era sentimental e profundamente sensível. Ele sente com muita força e com todo o coração, e demonstra com mais força ainda. E é isso que preocupava seus amigos, pois ele poderia criar expectativas “altas” e acabar magoado no fim. Aguiar não é do tipo que demonstra fraqueza, não, ele definha em silêncio, o que é bem pior.
Além disso, seu passado, sua personalidade, seu modo de viver, Pomba não parecia o tipo de pessoa que poderia lidar com tanto.
— Eu não sei do que está falando. - Foi sua resposta, mas ele sabia bem o que estava acontecendo, apenas queria aproveitar enquanto durava.
. . .
Talvez a maior chave de virada tenha acontecido no aniversário de Kemi. Ela tinha feito uma grande festa para comemorar, conseguindo reservar uma sala VIP do The Monica Club e convidar todos os seus amigos.
Aguiar chegou um pouco atrasado por conta de um caso que estava tomando mais tempo do que o necessário. Ele pensou que ir à festa aliviaria um pouco o estresse, mas seu humor azedo assim que seus olhos pousaram em Pomba, que estava lá do outro lado da balada, sentado em um sofá com Franco.
Franco era o guitarrista dos Psikoleras, alguém que Aguiar pouco conhecia, mas que sabia ser um amigo próximo de Pomba. Eles estavam rindo sutilmente de algo que Franco disse, colocados lado a lado com um dos braços de Franco sobre os ombros de Pomba. Ele não quis ir lá atrapalhar, mas aquela cena fez algo feio e doloroso crescer em seu peito.
Sua falta de ânimo foi atribuída ao estresse do dia, uma coisa que todo mundo acreditou e se propôs a ajudá-lo a esquecer, enfiando petiscos e cerveja gelada em sua goela abaixo. Com certo esforço, Aguiar conseguiu desviar o olhar e ir para o balcão se acomodar.
— Dia estressante? - Pomba perguntou repentinamente, surgindo ao seu lado. Fazendo Aguiar perceber só agora que ele havia atravessado a sala.
— É, algo assim. - Ele deu de ombros e Pomba sorriu, fazendo seu coração errar uma batida. — Achei que fosse ficar com o Franco. - Ele comentou após um gole em sua cerveja.
— Ah, não, ele está com o Alê. - Ele respondeu tranquilamente, apontando para o amigo do outro lado com o resto da banda. — Eu só estava esperando você chegar.
— Eu? - Aguiar o olhou surpreso e Pomba riu.
— É! Por um momento, achei que não fosse vir. - Respondeu, coçando o braço meio sem graça. — Seria meio chato sem você aqui.
Aguiar não sabia por quê, mas se sentiu especial naquele momento. Era assim que os outros se sentiam? Era assim que era ser a pessoa de alguém? Ele abraçou a lateral de Pomba como sempre fazia e o manteve ali, possessivo, sorrindo como um vencedor.
.
Bastaram algumas cervejas e Aguiar estava todo carinhoso e manhoso com Pomba. Deixando carinhos em sua cintura e aninhando o rosto no topo de sua cabeça. Apesar de inicialmente todos se preocuparem com o possível desconforto que isso estava causando em Pomba, logo deixaram de lado quando o pegaram rindo tímido e retribuindo o carinho com igual atenção.
Pomba sorria abertamente quando Aguiar apoiava o queixo em sua cabeça e retribuía os abraços ou apenas acariciava seus braços com cuidado enquanto conversavam sobre assuntos aleatórios e que se confundiam no barulho da música alta.
Kemi, obviamente, foi a primeira a perceber isso e foi sutil em cutucar Dalmo para apontar o fato, já o homem nem pensou em ser discreto ao descobrir e logo soltou: — Calma, Aguiar, ninguém vai roubar o pombinha de você não! - Todos riram alto.
Aguiar apenas firmou seu aperto ao redor de Pomba enquanto lançava um olhar sapeca para os amigos. Pomba ficou vermelho e escondeu o rosto em seu ombro, rindo baixinho.
.
A noite terminou de maneira mais tranquila, com despedidas risonhas e bêbados sendo carregados. Aguiar já começava a se arrepender das cervejas que virou conforme caminhava até o carro. Apesar de bêbado, ele ainda podia dirigir, mas uma mão ágil veio na frente tomando as chaves dele.
— Nada de dirigir após beber. - Disse Pomba, divertido, e Aguiar riu.
— Ata, e eu vou para casa como? Voando? - Ele questionou, irônico, enquanto ainda caminhavam em direção à caminhonete.
— Eu te levo. - Pomba respondeu confiante. De fato, Pomba mal havia bebido naquela noite, se tivesse tomado uma cerveja era muito, principalmente porque quando alguém lhe entregava um shot ou um copo ele rapidamente dava para Aguiar beber em seu lugar.
— E desde quando você tem carteira? - O delegado perguntou, confuso.
— Sempre tive, só não tenho carro mesmo. - O rapaz deu de ombros, abrindo a porta do passageiro para Aguiar entrar. — Vamos?
— Valeu, pombinha. - Ele agradeceu com um sorriso acariciando seu rosto antes de entrar no carro.
A viagem até a casa de Aguiar foi tranquila. Enquanto Aguiar dirigia como um piloto de fuga, sempre em altas velocidades e fazendo manobras, Pomba era mais cauteloso e mantinha uma velocidade constante. O carro mal chacoalhava e ele não acertou nenhum buraco sequer. Ele era um ótimo motorista.
Aguiar quase dormiu no banco do passageiro com a calmaria do momento. Quando seus pensamentos voltaram da leve névoa entre o sono e a bebida, ele já estava dentro de casa, sendo guiado pelas mãos gentis e calmas de Pomba.
— Vem, você precisa se deitar. - Ele disse calmamente enquanto abria caminho entre suas cachorras. Belinha e Princesa abanavam os rabinhos para eles, mas não latiam ou avançavam sobre Pomba, o que surpreendeu Aguiar já que elas odiavam visitas.
Eles chegaram ao quarto com passos pacientes. Pomba o sentou na beira da cama, para poder tirar seu casaco e sapatos, antes de ajudá-lo a se deitar. Pouco antes de que pudesse se afastar, Aguiar agarrou seu pulso e o puxou para perto de si, fazendo o rapaz quase cair sobre ele, mas este se segurou na cabeceira, os deixando face a face.
— Fica aqui comigo. - A voz de Aguiar era baixa no escuro enquanto ele observava os olhos surpresos de Pomba. — Não precisa ser para sempre… só hoje…
— … - Pomba respirou fundo, observando os distantes e marejados olhos de Aguiar. Havia algo a mais ali, mas ele preferiu não questionar. — Tudo bem, eu fico. - Ele sorriu timidamente antes de se afastar um pouco, só o suficiente para tirar os próprios sapatos e casaco. Ele se deitou ao lado de Aguiar e segurou sua mão. Houve um longo momento de silêncio em que eles apenas se observavam. — Está tudo bem? - Perguntou, preocupado.
— Eu gosto tanto de você… - Ele sussurrou, quase como um segredo, antes de puxar Pomba para mais perto.
Aguiar o abraçou, forte e seguro, afundando o nariz entre os cachos de seus cabelos para sentir seu cheiro profundamente. Seu coração batia feliz e apertado enquanto Pomba abraçava sua cintura firmemente, aconchegando-se.
.
Na manhã seguinte, Aguiar acordou com a cabeça latejando e levemente confuso. Ele ainda podia sentir o abraço fantasma de Pomba em seu corpo, mesmo estando sozinho. Ele se levantou sem ânimo algum para trabalhar e perguntou se aquilo tinha ou não sido um sonho, mas as pílulas de aspirina na mesa de cabeceira não o deixaram se enganar.
“Para sua ressaca. - Pomba” dizia um bilhete.
