Work Text:
A janela batia com o vento, o som inconfundível de uma forte chuva acertando os vidros, a porta e todo o teto. Do lado de dentro da casa, estava tudo silencioso, exceto pelo barulho constante das pancadas da chuva e do ruído contínuo da televisão ligada, mas há muito tempo esquecida. A ventania forte lá fora fazia aquele som que Veríssimo, quando criança, acreditava ser dos fantasmas da cidade. Hoje, mais velho, ele acha que pode ser o murmúrio das almas que atormentam o mesmo, quem sabe?
Mesmo com quase tudo fechado, o frio invadia o ambiente, como se estivesse atravessando o interior de seu corpo e correndo por todos seus membros. Essa sensação o fazia querer correr para seu quarto e se enrolar em diversos cobertores, onde ele sabia que poderia se esquentar, mas também sabia que ia acabar com o mesmo destino, sabia que não encontraria o conforto desejado, aquele que ele mais sente falta em dias como esse. Um conforto que uma vez ele pôde experienciar, mas que hoje não passa de lembranças de um passado onde ele acredita não conseguir esquecer.
Sentado no sofá, com uma almofada em suas costas e outra em seu colo, pensava em como já sentia falta de Mia. A garotinha ruiva tinha ido passar a noite na casa de uma das amigas, onde algumas outras foram convidadas para uma festa do pijama de aniversário. A menina merecia ter uma infância normal, apesar de tudo que a cerca. Ela não deveria crescer desgarrada dos costumes infantis. Veríssimo amava sua filha, mais do que tudo. Quando ela nasceu, sua prioridade se tornou ela e seu bem-estar.
Cansado do barulho de batidas da janela, o homem decide se levantar para a fechar direito. No entanto, antes que pudesse fazer qualquer movimento, ele escuta batidas pesadas em sua porta. O som alto invade todo o cômodo e Veríssimo não consegue evitar virar a cabeça em direção ao barulho, os olhos intrigados encarando a madeira, como se pudesse enxergar através dela. Era tarde da noite, um dia qualquer da semana o qual Veríssimo não sabe dizer qual é. Quem poderia estar em sua porta? No meio da chuva, ainda por cima. O que ele poderia esperar, o homem não sabe dizer.
Ele decide agir contra todos os seus instintos e começa a se levantar, calçando seus chinelos e caminhando lentamente até a porta. Como se estivesse impaciente, as batidas retornam, mais fortes, mais frequentes, mais desesperadas.
Veríssimo segura a maçaneta com força, respira fundo uma vez e abre apenas uma fresta da porta. Porém, o que ele vê do outro lado o faz parar bruscamente. A figura alta, de ombros largos e jaqueta vermelha, fez seus olhos se arregalarem e seu coração palpitar de uma maneira que nunca havia feito antes. Ele afasta a porta completamente agora, a brisa fria do lado de fora batendo em seu rosto e arrepiando todo seu corpo. Veríssimo vê o rosto de Cristino, depois de todos esses anos. Mas a expressão em seu rosto era de dor. Havia gotas de sangue salpicadas em sua bochecha e queixo, e um braço circulava sua barriga, como se estivesse segurando um ferimento. Suas roupas estavam encharcadas e grudavam por toda sua pele. Veríssimo franze a testa e abre a boca para falar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, o homem corpulento cai para frente, não dando outra escolha para ele a não ser o segurar com todas as forças. Mas, antes do homem desmaiar, Veríssimo viu o lampejo de algo em seus olhos. Uma mistura de alívio, por finalmente ver Veríssimo, e dor, seja pelo ferimento que segurava ou por tudo que passaram.
Seu chapéu e seus óculos caem perto do pé de Veríssimo, agora com os braços ao redor das costas de Cristino, seus dedos quentes esquentando o tecido da jaqueta fria em suas mãos. Ele o arrasta para dentro, fechando a porta com um chute. As roupas encharcadas de Cristino molhavam as próprias roupas de Veríssimo, esse suspirando de esforço enquanto carregava o outro para o sofá.
Assim que chega, Veríssimo o acomoda ali, o peso do homem ainda em seus braços, tentando ignorar o frio úmido de suas roupas, tentando ignorar a forma como a pele de Cristino estava ficando mais pálida, a visão o deixando tonto. Ele afasta qualquer coisa que pudesse deixar Cristino desconfortável ou que o atrapalhasse. Assim que o deita, o homem solta um suspiro rouco, quase inaudível, mas alto o suficiente para Veríssimo prender a respiração por um mísero segundo.
Por um breve instante, o homem fica ajoelhado ao lado do sofá, ofegante, as mãos ainda segurando o braço de Cristino. O tecido gelado de sua jaqueta grudada em seus dedos revela o tremor involuntário do corpo do outro. O sangue espalhado pelo seu rosto e suas roupas, agora mais evidentes sob a luz baixa da sala, faz o estomago de Veríssimo revirar. Não de nojo, mas de um medo que ele já sentiu muitas vezes antes, e esperava nunca mais sentir.
Ele engole seco.
— Cristino... — Sua voz sai baixa, quase sem permissão, o barulho da chuva lá fora quase engole suas palavras. Ele não sabe pra quê o chamou, se foi para saber se ele estava ali, com ele, ou se ele era real. A única resposta que ele recebe é um suspiro trêmulo.
Veríssimo pisca forte para se recompor. Ele sente algo como urgência, daquele tipo que só alguém que já viu muitas pessoas morrerem e não quer mudar isso, sente. Ele se levanta rápido, o coração batendo forte em seu peito, e marcha em direção ao armário onde guarda seu kit de primeiros socorros. Ele o agarra com força, suas mãos trêmulas segurando a pequena caixa. Assim, ele volta para o sofá, se ajoelhando mais uma vez, agora com mais calma. Cristino está imóvel, a cabeça pendendo para o lado, a água escorrendo de seu cabelo e molhando o tecido do sofá abaixo dele. Veríssimo estende a mão em direção ao rosto de Cristino, mas para. Algo o paralisa no ar, sua pele a centímetros de distância do outro. Veríssimo passou anos, anos tentando tirar esse toque de sua memória, torcendo para finalmente conseguir o deixar para trás, e agora ele está aqui, a poucos centímetros.
— Por que você voltou, justo agora, desse jeito? — sussurra, sem esperar resposta do homem imóvel em sua frente.
Ele coloca a mão no rosto do outro, seus dedos traçando as cicatrizes em seu queixo, movendo sua cabeça mais para o lado. Sua pele está gelada, gelada demais. É o suficiente para fazer Veríssimo acordar e começar a trabalhar. Ele afasta a jaqueta de Cristino, procurando o ferimento, o tecido de sua camisa banhado em sangue. Antes que ele possa fazer qualquer coisa, Cristino agarra seu pulso com força, como uma espécie de instinto, sempre alerta. Veríssimo sabe o que é isso, a sensação de perigo constante, a necessidade de estar sempre cuidando das próprias costas o seguindo por todo canto.
— Tá tudo bem — ele murmura rapidamente, sua voz adquirindo um tom suave, como se estivesse falando com um animal ferido. Veríssimo acha que Cristino não está tão longe de ser um. — Tá tudo bem, Cristino. Sou eu.
O aperto forte em seu pulso relaxa, assim como o homem. Veríssimo volta a procurar o ferimento em seu torso, tirando tudo que Cristino usa como equipamento, como os cintos que atravessavam a frente de seu corpo, paralelos. Ele deixa tudo ao seu lado, no chão, agora vendo com mais facilidade onde poderia estar machucado ou não. Veríssimo começa a desabotoar a camisa azul do outro, tentando ignorar a maneira como Cristino suspirava de dor, sua respiração saindo em passos curtos e apressados.
Quando ele levanta a roupa do outro e revela sua pele, a mente de Veríssimo fica em branco. Há diversos cortes por toda seu abdômen, manchas de hematomas velhos, que começavam a ficar em uma mistura de roxo e verde, e novos, que estavam vermelhos e inchados. Um corte longo, que vai de seu peito até a lateral de sua cintura, mas algo chama ainda mais a atenção de Veríssimo. Diversos cortes profundos, como se fossem garras que atravessaram sua carne. Tem sangue escorrendo do ferimento, e Veríssimo acha que se ele não tratar isso logo, Cristino talvez morra de uma hemorragia. O pensamento é o suficiente para fazer Veríssimo quase cair para trás, as únicas coisas que o impede são seus joelhos plantados firmemente no tapete no chão.
Veríssimo respira fundo, ou pelo menos tenta, e começa a tirar as coisas do kit. Ele tira por completo a camisa do outro, revelando a pele bronzeada por baixo, agora coberta de machucados. Ele pega algumas gazes e começa a limpar o ferimento maior. O pano é tomado pelo sangue, que ainda escorre pela barriga de Cristino, sujando as mãos de Veríssimo e o sofá. Com uma mão, ele pressiona o ferimento, e com a outra, pega mais gaze para poder colocar junto. Cristino reage. Seu corpo se arqueia e seu abdômen tensiona ainda mais. Um gemido baixo escapa de seus lábios, um som de pura dor que invade a cabeça de Veríssimo.
— Porra... — Veríssimo sussurra, gostas de suor começando a se formar em sua testa, apesar do frio e a chuva constante lá fora.
Quando o sangramento reduz a intensidade, Veríssimo pega o necessário para limpar o ferimento. Ele pega mais gazes e limpa ao redor dos cortes. Com o auxílio de uma pinça, ele tenta retirar o máximo que pode de detritos e sujeiras na parte de dentro, mas Cristino retalia, afastando seu pulso com o resto de consciência que sobrou dele. Veríssimo entende o recado, e com os olhos úmidos evita causar ainda mais dor ao seu antigo amante. Suas mãos tremem, agora cobertas de sangue. Sangue de Cristino. Sua visão embaça um pouco, perdendo o foco momentaneamente. O peito de Cristino subia e descia irregularmente, como se cada inspiração fosse emprestada. De perto, Veríssimo sentia o calor irradiando do corpo do outro, o cheiro metálico de sangue que Veríssimo aprendeu a estar acostumado.
Mil coisas passavam por sua mente como uma correnteza. Ele queria saber o que tinha acontecido, o que tinha feito Cristino bater em sua porta e desmaiar em seus braços. O homem era forte, Veríssimo sabia disso, e tinha visto essa força em ação muitas vezes. Alguma coisa forte o suficiente para o derrubar deveria fazer muitas pessoas se aterrorizarem, e tinha funcionado. Veríssimo estava aterrorizado, mas de uma maneira diferente. A vida do homem dependia dele, o homem que um dia ele amou, e não sabe dizer se deixou de amar. Vê-lo novamente foi como um soco no estômago. Tão de repente, e de uma forma nada agradável.
Um som agudo de dor o desperta de seu transe, o trazendo de volta a sua tarefa atual. Veríssimo não podia esperar mais, Cristino não tinha tempo a perder.
O mais velho não tinha nada em seu kit para dar pontos, ele mesmo tendo usado a um tempo atrás. Ele se levanta, implorando a Deus que Cristino aguente alguns instantes a mais.
— Eu já volto — sua voz sai rouca. O homem deitado não expressa nenhuma reação, sua testa franzida e seus olhos fechados com força. — Não morre agora, porra.
Ele corre até um armário onde tem certeza que tem um kit de costuras de roupa. Graças a Mia, que a um tempo atrás tinha cismado de aprender a costurar suas próprias calças, a bolsinha contendo as linhas e a agulha estão posicionadas em uma das prateleiras. Veríssimo agarra o pequeno objeto e retorna correndo para o centro da sala, quase tropeçando no tapete enquanto caía de joelhos novamente. Ele retira a agulha e um rolo de linha vermelha de dentro da bolsa. Suas mãos trêmulas dificultando sua tentativa de encaixar a linha na agulha, mas eventualmente ele consegue. Veríssimo se posiciona, tentando manter seus dedos estáveis enquanto se aproximava do ferimento aberto. — Isso vai doer muito, me desculpa. — Ele avisa, como se pudesse evitar o sofrimento do outro. Neste momento, bem que ele queria.
Cristino não responde, como esperado. Veríssimo começa, então, a se mover. Ele pressiona mais do pano limpo ao redor do machucado, e então a agulha atravessa a pele machucada pela primeira vez, e Cristino se contorce. Um som gutural escapa de sua garganta, e Veríssimo quase solta, quase desiste na hora. Mas sabia que, mesmo que doesse no outro, ele tinha que fazer isso.
— Eu sei, calma... — Veríssimo sussurra, sua voz falhando em uma tentativa de acalmar o outro, mas é como se eles estivesse falando isso para si mesmo também. O suor escorre por sua pele, tudo se misturando ao cheiro metálico de sangue que tomou conta do ambiente.
Ele continua, ponto após ponto, com movimentos lentos e cuidadosos. Uma gentileza que não era o que ele treinava no espelho quando pensava em como iria agir caso visse Cristino novamente. Veríssimo estava traindo todos os seus planos passados, mas que se dane, ele não iria deixar o outro morrer porque estava com o coração partido e a mente em frangalhos. O sangue escorre pelos dedos de Veríssimo, manchando sua mão com um vermelho vivo a ponto de ele precisar pausar e limpar suas mãos em sua própria calça jeans.
Quando finalmente termina a sutura, Veríssimo solta um suspiro que parecia estar segurando desde que Cristino entrou em sua casa. As linhas vermelhas segurando o ferimento contrastava com a pele encharcada de sangue, como uma piada sem graça. Ele começa a limpar o excesso com algumas gazes que sobraram, torcendo para que Cristino acorde em breve. O homem agora respirava mais tranquilamente, seu rosto havia ganhado um pouco mais de cor, embora ainda precisasse comer e beber alguma coisa.
Olhando melhor agora, Veríssimo percebe as diferenças em seu rosto. Cristino havia mudado, embora grande parte das coisas continuassem as mesmas. O bigode impecável o qual ele carregava um orgulho gigante de manter, as cicatrizes no queixo e em seu olho. Porém, agora, haviam alguns novos cortes. Uma nova nos lábios, outra como um risco na sobrancelha. Seu cabelo estava mais longo, também. Cristino sempre manteve fios longos, mas parecia que havia deixado crescer mais. Veríssimo gosta, combina com ele (sério, o que ele estava falando?). Embora ele ache que não tenha mais direito de opinar no que Cristino faz ou deixa de fazer. Esse deixou de ser seu cargo a muito tempo, desde o momento quando o homem foi embora e não voltou mais. Bem, parece que isso não é verdade mais, não é? Porque, veja só ele aqui, deitado quase morto no sofá de sua casa, dando a sorte de ser na noite em que sua filha não está em casa.
Veríssimo solta um riso amargo com o pensamento. Ele decide se levantar e jogar fora as coisas sujas. Seu joelho protesta contra o movimento, mas logo se acostuma com a sensação de ficar de pé novamente. Veríssimo junta as coisas e as carrega para a lixeira. Dando uma última olhada no homem e em seus equipamentos, como sua arma, apoiados na lateral da mesa, ele segue até o banheiro, decidido a tomar um banho, sabendo que Cristino não irá acordar tão cedo.
Assim que termina, decide se sentar na poltrona ao lado do sofá com um livro qualquer em mãos. A todo momento, ele está atento a qualquer movimento que o Cristino faça, buscando água para ele quando achava que estava tempo demais sem nada. Veríssimo tenta, tenta de verdade, se concentrar nas palavras escritas no papel, mas estava se tornando uma tarefa difícil, pois sua atenção estava totalmente no corpo deitado. Ele suspira. Veríssimo queria respostas, mas não sabia se estava pronto para ouvi-las.
—
Quando Cristino acordou, a chuva ainda caía, mas agora mais de leve. O frio havia diminuído e o ambiente encontrava uma temperatura confortável, nem muito quente, nem muito frio. Veríssimo quase cochilava na poltrona, o livro há muito tempo esquecido em seu colo. Ele acorda com Cristino sibilando de dor, tentando silenciosamente se sentar no sofá. Veríssimo se levanta, bem a tempo de segurar o outro homem antes que ele desse de cara com a mesa de centro. Veríssimo segura seu peso e o coloca de volta no sofá.
— Porra, achei que... — Cristino arfa, se sentando novamente, segurando o ferimento agora com pontos e com uma pomada passada. — Achei que ia conseguir levantar.
Enquanto esperava o outro acordar, Veríssimo ficou um tempo cuidando mais dele, dando água e algumas migalhas de comida que foram difíceis de fazer Cristino aceitar. Limpou-o de forma mais eficaz, não só o machucado. Tirou sua camisa e a lavou no tanque da lavanderia, e pegou seu chapéu e seu querido óculos e os colocou na mesa. Fez coisas pequenas que Veríssimo sabia que não faria por qualquer pessoa, mesmo que quisesse se convencer do contrário. Porém, o tempo esperando o fez ficar mais pensativo, e a percepção de que Cristino ficaria bem ajudou a formar novos pensamentos em sua cabeça, deixando a preocupação um pouco de lado e dando um espaço maior para a mágoa e a raiva que Veríssimo acumulou ao longo dos anos.
Veríssimo cruza os braços. Apesar de ter cuidado do outro homem, tudo que ele queria era parecer fechado para ele. Não na defensiva, não. Mas fechado. Cristino olha para cima, e o brilho de tristeza em seus olhos é quase o bastante para fazer Veríssimo sorrir. Mas, será que Veríssimo era tão cruel assim? Será que a mágoa que ele guardava era tão forte? Ele já não sabia dizer mais. Tinha falas ensaiadas para quando Cristino aparecesse novamente, mas agora, tudo que Veríssimo conseguia pensar era no que ele tinha se metido. O que o fez aparecer em sua casa, tarde da noite, buscando ajuda.
— Por que você tá aqui agora? — sua voz parece machucada.
Cristino abre a boca para responder, mas Veríssimo não dá trégua. Não ainda.
— Por que você decidiu voltar só agora? Sangrando, desmaiando nos meus braços...— Ele descruza os braços, dando um passo mais perto do outro. Seus punhos estão cerrados e seus olhos ameaçam se encher de lágrimas. Ele realmente achava que podia manter a postura perto de Cristino, mas isso é algo que foi perdido há muito tempo. Foi deixado para trás desde aquela noite em que decidiu se deitar ao lado dele. — Eu esperei muito tempo, e só agora você aparece.
— Eu num tinha outro lugar para ir.
Ah. É como um soco no estomago de Veríssimo, mas, o que ele esperava? Talvez, isso fosse pior que um pedido de desculpas apressado.
— Sempre tem algum lugar pra ir, Cristino.
— Não, não dessa vez. — Os olhos de Cristino estão voltados para o chão, como se pudesse achar todas as respostas no tapete sujo de sangue. Ele olha para seu chapéu na mesa e passa os dedos de leve pelo tecido grosso.
Veríssimo franze o cenho, se apoiando no braço da poltrona onde estava sentado.
— Você me deixou, Cristino. Você deixou tudo para trás um dia e partiu pra sabe Deus onde.
O que Veríssimo sente não é exatamente raiva. É algo misturado com isso. Misturado com dor, mágoa, tristeza. Tudo borbulhando em seu peito há anos, enquanto esperava que um dia Cristino fosse voltar e explicar para onde tinha ido e o que tinha feito, mas essa esperança morreu já tinha bastante tempo. Morreu no momento que Veríssimo se envolveu com o perímetro. Morreu no momento em que Mia nasceu e abriu um novo horizonte de vida para ele. Então, Veríssimo decidiu seguir em frente, ou, pelo menos, tentar. Ele arrumou uma nova casa, uma família, uma vida. Uma pessoa quem ele morreria para proteger, que o fez descobrir coisas novas na vida mesmo depois de tantos anos de vivência e sofrimento. Mia o fez perceber que ele ainda pode viver momentos que valem a pena, só tinha que ser com a pessoa certa.
Os olhos de Cristino se voltam para cima, cansados e também magoados, mas ele reúne coragem o suficiente para tentar se explicar.
— Eu sei que eu sumi — Veríssimo bufa, fazendo Cristino olhar para ele com olhos machucados. — Eu sei que tenho muito que te explicar, mas... eu não posso exatamente te contar o que me aconteceu.
— O quê?
— Eu sei, mas tu vai ter que confiar em mim. — Cristino diz rapidamente, virando seu corpo com muita dificuldade para a direção de Veríssimo. Ele segura o ferimento, percebendo que Veríssimo o limpou e costurou. Veríssimo realmente o remendou de volta, como costumava fazer anos atrás. Cristino morde o lábio, sentindo culpa por jogar tudo isso nas mãos do outro. — Obrigado por cuidar de mim.
Veríssimo apenas acena com a cabeça. Olhar para Cristino agora é como viajar no tempo, viver as memórias que Veríssimo tanto tentou esquecer. Apesar de ainda magoado, ele compreende que haviam coisas que não poderiam ser compartilhadas. Ele entende isso mais do que tudo, principalmente como líder da Ordem. Veríssimo não culpa Cristino por guardar esse segredo dele, mas o entende, acima de tudo. Ele ainda sente raiva, ainda guarda o sentimento de desconfiança dentro de si, porque foi assim que ele aprendeu a ser, mas quando olha para Cristino, tudo que ele vê é um homem ferido, em todos os sentidos. Alguém perdido. Veríssimo nunca suportou ver essa expressão no rosto do outro homem, nunca gostou de o ver ressentido dessa forma. Ele decide se sentar ao lado dele, apoiando seu peso com os braços cruzados sobre os joelhos.
— Eu fiquei muito tempo pensando no que eu diria pra você se você decidisse aparecer de novo. — Veríssimo diz calmamente, sentindo os olhos do outro em si. O calor irradia do corpo de Cristino, Veríssimo sente mesmo que não estivesse tão perto. É uma sensação boa, contrastando com o frio da chuva. — Mas nenhuma das coisas que eu ensaiei parecem fazer sentido agora.
— Eu sinto muito mesmo por te fazer passar por isso. — A voz de Cristino é baixa, quase um sussurro. Ele fala com culpa, com temor. Cristino tem medo de afastar Veríssimo ainda mais. — Eu me culpo por saber que fui eu quem te fiz passar por tudo isso. Tu não me deve nada, Veríssimo. Nada.
Lá está, o Cristino que ele conhecia. O que, em todas as discussões que eles tinham, tomava a culpa para si. É quase cômico. Cristino sempre pareceu ser imbatível, forte e invulnerável. Mas aqui está ele, tão encolhido que parecia que ele iria se juntar e se compactar em uma bola, isolado do mundo e dos problemas.
Talvez Veríssimo estivesse se deixando levar e o perdoando rápido demais, mas quem se importa? É o coração dele que dói. Foi ele quem ficou machucado por tantos anos e é ele quem toma a decisão de o perdoar o não. E ele escolhe o perdão, sempre escolheu. Não podia ser outra coisa quando se tratava de Cristino, é assim que ele é e é assim que ele sempre será.
— Por muitos anos, eu te culpei pelas coisas que eu sentia. Depois que você foi embora, foi como se algo tivesse saído do meu corpo. — As lágrimas começam a escorrer por suas bochechas, pingando em sua calça. — Mas eu não quero te culpar mais. Não quero viver tentando me convencer de algo que eu nunca vou sentir, porque eu não consigo me fazer sentir aversão por você.
Ele passa a mão no rosto, limpando as lágrimas e tentando se recompor. Seus olhos se voltam para Cristino, que o olha como algo precioso. Seus lábios estão curvados para baixo, em uma linha fina. Veríssimo consegue ver como ele hesita, tentando se aproximar, mas sem ter certeza se tem a permissão para fazer isso outra vez.
— Você me deve, pelo menos, a verdade sobre algo que você pode me dizer... — ele murmura, a voz num timbre que não é raiva, mas também está longe de estar em paz. — Eu não vou te cobrar nada, mas eu preciso saber se o que fez isso — ele aponta com o queixo para o ferimento enfaixado em seu abdômen — vai voltar para te matar. Ou se pode chegar até aqui.
Cristino enrijeceu, um movimento quase imperceptível, mas que Veríssimo nunca deixaria passar.
— Não vai. — Cristino responde rapidamente. — Nada disso vai chegar até aqui. Eu mesmo cuidei disso.
Veríssimo acredita nele. Não por falta de escolha, mas porque acredita que Cristino é capaz de realmente cuidar dessas coisas.
— Eu sei que vir atrás de tu foi covardia. — O homem olha para sua próprias mãos, ainda um pouco sujas de sangue, ainda tremendo. Ele encara a janela, a chuva caindo fraca agora, não mais as pancadas que estavam mais cedo. A luz da lua invadia a sala. — Mas eu num tinha para onde ir. Eu só achei que se eu morresse, pelo menos seria perto de alguém que um dia eu...
Ele engole seco. Cristino não termina a frase, mas não precisa. Veríssimo sabe do que ele está falando, sempre soube. O mais velho tentou enterrar esse sentimento anos atrás, lutando contra seu próprio coração falho. Mas sabia, desde o início, que era uma luta perdida.
— Você não vai morrer. — Veríssimo diz, simples. Quase uma ordem. — Não aqui.
Cristino fecha os olhos e acena com a cabeça. Quando os abre novamente, ele vê Veríssimo mais próximo, seus corpos se aproximando quase automaticamente, como se fossem magnéticos.
— Obrigado. — Ele sussurra. — Por tudo isso.
Veríssimo nunca vai ser capaz de virar as costas para Cristino. Ele percebe isso agora, sentindo algo ceder dentro de si. O outro sempre teve uma habilidade anormal de o desmontar por completo, independente da situação, de todas as formas. Não é justo, nunca foi. Cristino exercia tanto poder sobre ele, e não fazia a menor ideia. Mas só porque Veríssimo permitiu. Ele permitiu que Cristino construísse seu próprio espaço em seu coração, e agora não havia mais volta.
— Não me agradeça, isso não... — ele murmura, sua voz baixa demais. — não resolve muita coisa.
Mas Veríssimo não se afasta, assim como Cristino também não. Veríssimo pensa em fazer isso, no entanto. Ele pensa, mas descarta a ideia assim que ele aparece em sua mente.
Cristino o observa com seus olhos castanhos, escuros pela dor, mas por algo que Veríssimo conhece, porque sente a mesma coisa. Há anos. O silêncio entre eles se alonga, as únicas coisas audíveis são o barulho das gotas de chuva batendo no teto e suas respirações pesadas, compartilhadas no ar frio do ambiente.
Veríssimo desvia o olhar por um mísero segundo, não suportando o olhar que Cristino estava o dando. Porém, o outro homem não o dá trégua.
— Olha pra mim, Veri. — Esse maldito apelido. Cristino sabia o quê dizer, e Veríssimo não reclama. Ele obedece, voltando seus olhos para o marrom profundo que o olhava firmemente.
Cristino deixa sua mão viajar para o rosto de Veríssimo, hesitante. A palma da mão pousa em sua mandíbula, o polegar passeando por seu queixo e por sua bochecha. Veríssimo não recua, mas se deixa levar pelo toque, apoiando seu rosto na mão oferecida. Ele sentiu falta desse toque, vivendo inúmeras noites onde sonhava poder voltar para ele.
Os dois suspiram, e Cristino usa sua mão para puxar o rosto de Veríssimo para o seu, de leve, dando a abertura para Veríssimo fugir no momento que quisesse. Mas Veríssimo não o faz, ele permite que Cristino o aproxime, fechando seus olhos para o mundo lá fora.
— Eu tô aqui. — Cristino sussurra, as palavras reservadas para Veríssimo.
O outro abre a boca para responder, mas é interrompido. Cristino aproxima seus rostos ainda mais, suas respirações misturando no ar. Seus lábios se roçaram, hesitantes a princípio, o toque leve como pluma, quente no ar frio. Então, Veríssimo fecha o espaço entre eles, buscando o calor que Cristino oferecia, não o deixando se afastar, não mais, não desta vez. O coração de Veríssimo palpita, quase errando uma batida em seu peito. A sensação dos lábios secos de Cristino nos seus é uma coisa que Veríssimo pensou que nunca mais poderia sentir. Seu peito se enche de algo quente, inundando-o de sentimentos antes aprisionados.
A mão de Cristino, antes em sua mandíbula, começa a viajar para sua nuca. Seus dedos se enrolam nos fios curtos de seu cabelo, suas unhas fazendo carinho ali, e Cristino aproveitou a posição de sua mão para curvar a cabeça de Veríssimo, que entreabriu os lábios e permitiu a passagem da língua de Cristino na sua. Um arrepio percorreu a espinha de Veríssimo, o homem já entregue às sensações que seu corpo o fazia sentir. Suas mãos deslizam pelos braços do outro e terminam em seus ombros, se apoiando no peso dele.
A boca de Cristino era quente. Veríssimo nunca realmente esqueceu quanto, passando muitas noites imaginando sentir esse toque uma outra vez. Parecia que todo o corpo de Cristino era uma fornalha viva, muitas vezes esquentando Veríssimo nos dias mais frios. Ele próprio leva sua mão para o cabelo de Cristino, seus dedos se emaranhando nos fios castanhos longos, a textura macia, da mesma forma que Veríssimo lembrava que era. Ele tenta se aproximar mais ainda, quase tentando se fundir com o outro homem, mas assim que força seu peso um pouco mais no ombro do outro, o mesmo se afasta, sibilando de dor.
— Porra, desculpa... — Ele solta Cristino rapidamente, quase como se pudesse queimar. — Você tá bem?
— Tá tudo bem, tá tudo bem. — Cristino o tranquiliza, segurando sua mão e o puxando para perto novamente. — Foram só os cortes, relaxe. — A voz dele sai ofegante, assim como a de Veríssimo antes.
Veríssimo se deixa levar, se aproximando mais uma vez. Seus joelhos se encostam, a temperatura dos dois tão elevada que o frio de antes já foi esquecido, substituído pela névoa quente que ambos haviam construindo ao redor de si mesmos, como sempre costumavam fazer.
— Vamos fazer assim... — Veríssimo sente a mão de Cristino pousando em sua cintura. Outra vez, ele sente um arrepio correr por seu corpo. Os dedos de Cristino se fecham e puxam o corpo de Veríssimo para cima do seu próprio, sua outra mão se fechando junto da outra. Cristino acomoda Veríssimo em suas coxas, o esforço fazendo seus hematomas doerem, mas o mesmo ignora completamente a dor, sendo algo que ele não dá importância agora.
— Meu Deus... — Veríssimo cora, ficando mais vermelho do que ele achava que poderia ficar. Ele não sabia se era pela demonstração fácil de força do outro homem, ou se era pela posição em que se encontrava. Agora, olhando para baixo, Veríssimo consegue ver como Cristino está corado. Seu peito nu está salpicado da cor vermelha, subindo um pouco por seu pescoço. Seus lábios, entreabertos, estão inchados e molhados pelo beijo compartilhado antes, e Veríssimo tem certeza de que está do mesmo jeito.
Ele inclina a cabeça, colando seus lábios mais uma vez com os de Cristino. Dessa vez, o movimento é mais lento, como se a pressa tivesse escapado dos corpos deles, dando espaço para um sentimento antigo que cresce no peito de ambos. A expectativa borbulha dentro deles, e a espera pelo que está por vir começa a aborrecer ambos. Cristino aprofunda o beijo, deixando seu polegar acariciar o queixo de Veríssimo, enquanto sua outra mão desenhava círculos aleatórios em suas costas. Veríssimo gemeu baixinho contra os lábios de Cristino. Uma de suas mãos deslizou instintivamente para a fivela do cinto de Cristino, o metal frio esquentando com o calor seus dedos febris. Cristino ofegou, interrompendo o beijo. — Porra... — Veríssimo o interrompe com outro beijo profundo, seus dedos procurando o fecho. E então, se soltou. A respiração de Cristino vinha de formas irregulares, seu peito subindo e descendo sem um padrão, mas desta vez por um motivo completamente diferente. A mão de Veríssimo traçava lentamente o músculo sob a pele quente, seu toque urgente.
Veríssimo decide explorar a extensão da garganta de Cristino, mordendo suavemente a pele úmida. Cristino engasgou com um som que não chegava perto de ser uma palavra, os dedos se enroscando com força nos cabelos de Veríssimo. Seus membros se emaranhavam, em uma mistura de movimento desordenados, puxando zíperes e afastando o jeans de suas calças. Os dedos trêmulos de Cristino viajam para o cinto de Veríssimo, com a única missão de o arrancar do corpo do outro, a protuberância evidente através do tecido. Quando consegue, Cristino força os quadris de Veríssimo para cima, o permitindo deslizar sua calça junto com sua cueca para baixo, finalmente o libertando do aperto que se encontrava. Ele faz o mesmo consigo, ajudando Veríssimo a retirar suas calças.
Cristino empurra as pernas de Veríssimo, segurando sua coxa aberta com uma de suas mãos. A pele clara de Veríssimo é devorada por um vermelho suave, da mesma forma que Cristino sabia que acontecia. Com a outra mão livre, ele começa a acariciar o membro enrijecido do homem, que já estava molhado pelo acumulo de pré-gozo. Veríssimo suspira, ofegante. Era como se uma onda de eletricidade tivesse decidido percorrer todo seu corpo, o fazendo curvar os dedos dos pés. — Ah... eu não tenho lubrificante aqui, Cristino.
— E camisinha? — a pergunta faz Veríssimo se virar, murmurando baixinho um “espera”, tendo que se equilibrar em cima das coxas grossas de Cristino. Ele alcança sua carteira em cima da mesinha de centro, olhando no bolso onde tinha certeza que tinha uma embalagem. Assim que ele acha, Veríssimo tenta abrir o plástico com seus dedos trêmulos, mas não consegue. Cristino, vendo a dificuldade do outro, toma a embalagem em suas próprias mãos e abre ele mesmo. Veríssimo a pega de volta, usando o peito de Cristino como apoio para se acomodar melhor no colo do mesmo. Assim, ele começa a esfregar o membro de Cristino, a fricção um pouco áspera, o fazendo cuspir em sus própria mão para ter um movimento melhor. Cristino geme, escondendo seu rosto no pescoço do mais velho, deixando mordiscadas e beijos de boca aberta na pele. Ele beija a junção do ombro e pescoço de Veríssimo, descansando a testa em seu ombro, sua respiração quente batendo na pele febril de Veríssimo.
Cristino cospe em seus dedos, a visão fazendo os olhos de Veríssimo embaçarem, suas pupilas tomadas pela imensidão do preto, a necessidade queimando no fundo de seu âmago, e deixa seus dedos deslizarem mais para baixo.
A ponta dos dedos calejados de Cristino roçaram novamente onde Veríssimo já estava duro. Veríssimo estremece violentamente. Cristino fechou o punho em sua virilha, o deslizamento inicialmente lento, depois rápido, desesperado, fazendo Veríssimo se inclinar na direção do toque, buscando por mais. Cristino aproxima sua boca no ouvido de Veríssimo, sussurrando palavras que só ele poderia ouvir. — É isso ai... Tá indo muito bem. — Veríssimo acha que pode derreter. Depois de anos esperando por esse toque novamente, ele fica até um pouco triste de saber que não vai conseguir o prolongar da forma que queria. Seu aperto se intensifica. A visão de Veríssimo em seu colo, gemendo e choramingando de uma forma que Cristino sabia que ele fazia, o mesmo som que Cristino apreciava tantos anos atrás, despertava algo quase possessivo dentro dele. Com quem mais Veríssimo se envolveu durante esses anos?
Cristino envolve a camisinha em seu pênis, enquanto deixada seus dedos se guiarem até a entrada de Veríssimo, os dedos roçando levemente. Sua mão estava úmida de pré-gozo e cuspe, o que não exatamente melhorava o deslizamento, mas era melhor que nada, enquanto pressionava o primeiro, devagar, alongando-o com cuidado. Veríssimo expirou, ofegante, se tensionando. Cristino murmura alguma coisa no ouvido dele, mas Veríssimo só conseguia ouvir um zumbido dentro de sua cabeça, a mente nublada. O alongamento ardeu, e então suavizou, se tornando mais quente. A mão livre de Cristino acariciou a coxa de Veríssimo suavemente. Quando Cristino acrescenta o segundo, ele percebe os cílios de Veríssimo tremulando, seus olhos semicerrados molhados.
— Você tá bem? Porra, não tinha nenhum lubrificante... — Cristino sussurrou. Veríssimo assente rapidamente, arqueando o corpo quando Cristino posicionou os dedos da maneira certa. Um gemido abafado escapa de seus lábios entreabertos. Cristino beijou o pescoço de Veríssimo, marcando um sorriso na pele clara. Seus dedos se moviam para dentro e para fora, os quadris de Veríssimo se inclinando para baixo, perseguindo o prazer que lhe era proporcionado. — Isso mesmo — sussurrou, abrindo ainda mais os dedos. Veríssimo gemeu, agarrando os ombros nus de Cristino com tanta força que quase o deixou roxo, suas unhas curtas cravando na carne formando um formato de meia lua. Suas pernas se abriram ainda mais.
Cristino soltou os dedos, limpando-os no couro do sofá. Veríssimo levanta seus quadris, sua mão guiando o membro do outro até sua entrada. Cristino agarra os quadris de Veríssimo, dando a ele o apoio necessário. Então, ele começou a descer devagar, Cristino guiando-o para baixo. Quando a ponta entrou, um suspiro pesado escapou da garganta de ambos. A sensação era de queimação, mas era tão, tão bom. Veríssimo morde o lábio, tentando não fazer muito barulho. No entanto, — Deixa eu te ouvir, Veri. — O pedido é quase imediato. O que Veríssimo não faria por esse homem?
Veríssimo afunda, lentamente, eventualmente chegando até o fim, novamente sentado nas coxas de Cristino. Veríssimo cola sua testa com a de Cristino, seus narizes se encostando enquanto ambos recuperam o folego. Suas respirações quentes batem nos lábios um do outro, próximos o suficiente para se conectarem levemente. A chuva batia mais forte lá fora, a madrugada escura e silenciosa. No entanto, nenhum dos dois se importavam com nada disso. Eles estavam perdidos na bolha que criaram para si mesmos, alheios a qualquer coisa que estivesse acontecendo no mundo de fora.
Cristino puxa a barra da camisa de Veríssimo, a arrancando do corpo do outro. Agora, com o torso de Veríssimo exposto, Cristino afunda seu rosto em seu peito, beijando e lambendo a extensão de pele clara, passando o braço ao redor de sua cintura, enquanto começa a se mover. Com o braço, ele alavanca o corpo de Veríssimo para cima, o fazendo acompanhar o movimento de seus quadris. Ele deixa a extensão de seu pênis arrastar pela borda, a ação quase uma tortura para ambos, e então o afunda mais uma vez. Cristino mantém um ritmo suave, os choramingos de Veríssimo em seu ouvido pareciam um incentivo. Ele ignorava completamente a dor no corte em seu peito, investindo tudo nas estocadas contínuas que realizava.
O barulho de pele com pele era tudo que podia-se ouvir, além dos gemidos de ambos e os soluços de Veríssimo, que havia cruzado os braços sobre os ombros de Cristino. Suas coxas queimavam pelo esforço, os músculos se tensionando enquanto ele subia e descia. A mão de Cristino, que antes acariciava as laterais do corpo de Veríssimo, decide fechar o punho ao redor de Veríssimo, bombeando-o no ritmo de suas estocadas. A onda de prazer que atravessa o homem é surreal, ao ponto de o fazer balbuciar palavras incoerentes no ombro de Cristino. Tudo que ele conseguia pensar era em como havia sentido falta daquilo. Como era tudo tão, tão bom. Cristino o beija, desesperado, sua boca engolindo os gemidos de Veríssimo, o ritmo acelerando cada vez mais, mostrando que ambos estavam muito próximos de seus clímax.
Cristino o aproxima, segurando sua cintura, o pressionando mais perto. Ele afunda uma, duas vezes antes de seu clímax, gemendo o nome de Veríssimo em sua garganta. Veríssimo não fica para trás, gozando logo depois do amante (nunca antigo amante, nunca). Seus dedos se cravam no emaranhado de fios que é o cabelo longo de Cristino, ofegando em seu colo. Seus peitos estão colados, ambos recuperando o folego juntos. — Cristino... — Veríssimo arfa, lentamente se desvencilhando do homem para poder olha-lo nos olhos. Ele deixa sua mão descansando no peito do homem, a pele quente em contato com seus dedos trazendo Veríssimo para a realidade.
— É, eu sei. — Ele diz, baixinho, inclinando a cabeça para o lado. Sua mão viaja para o rosto de Veríssimo, fazendo carinho em seu queixo. Veríssimo sela seus lábios uma última vez antes de se levantar, o membro de Cristino escorregando de sua entrada, o fazendo soltar um gemido baixinho, abafado. Ele ouve uma risadinha sarcástica, assim olhando para Cristino, o vendo retirar a camisinha de seu pênis e a amarrando. Ele pisca para Veríssimo, que revira os olhos e vai em busca de uma toalha. Se ele manca levemente, já é algo que ele tenta ignorar e disfarçar.
—
Depois de Cristino insistir em os limpar, apesar dos esforços de Veríssimo, eles se deitaram, um de frente para o outro, no sofá. Era pequeno, apertado, e Veríssimo quase caía da borda pela posição que havia se colocado para não machucar Cristino com seu peso, mas era bom o suficiente, pois estavam juntos. Os dedos de Cristino faziam carinho no pescoço de Veríssimo, enquanto os do mesmo acariciavam seu cabelo. Veríssimo não conseguia deixar de mexer nos fios, era quase viciante. Sempre foi assim. Muitos hábitos que eles tinham um com o outro não pareciam ter mudado, e Veríssimo não sabia se isso o deixava enfurecido ou relaxado, por saber que Cristino se encontrava na mesma situação que ele.
Veríssimo havia trocado seus curativos, verificando se o ferimento havia piorado ou não. Depois, ele permitiu que Cristino o puxasse para perto pela cintura, se deitando com ele. Seus olhos se encontravam, Veríssimo observando a imensidão do castanho que sempre foram as íris de Cristino. O homem era obcecado por cada parte do corpo de Cristino, parecendo nunca se saciar de quantos detalhes ele continha, cada cicatriz, cada marca deixada na pele bronzeada dele. Veríssimo passou muito tempo pensando se algum momento iria vê-lo uma outra vez. Se poderia ser capaz de tocar aquela pele, sempre reativa a cada toque de Veríssimo. Ele havia imaginado, em muitas noites sem dormir, se Cristino pensava o mesmo dele. Se o homem passava noites e noites sem dormir, imaginando o que eles poderiam ter tido no passado, se sua mente se inundava de memórias antigas que ele sempre tentou enterrar. Veríssimo não sabe dizer, mas espera que sim. Ele não queria que fosse o único a sentir essa coisa que não chega nem perto de amor. É algo muito mais profundo que isso, muito mais forte. Se um dia Veríssimo achasse a palavra que melhor se encaixa naquilo que ele sentia, ele já tinha a certeza que seria se afundando nas maiores obras de arte existentes. Pois nada do que ele sentia era comum, ou popular. Era único, feito para ele e Cristino, somente eles.
— Eu sei que te devo muito, Veri. — A voz de Cristino interrompe sua linha de pensamento. Foi um som baixo, cru. Rouco. Real, além de tudo. Veríssimo consegue ouvir a sinceridade em seu tom. — E eu prometo que vou te compensar. Por tudo. Por todo esse tempo que te deixei, por tudo que te fiz passar.
Veríssimo balança a cabeça, negando as palavras de Cristino. — Você tem muito que me explicar, sim, um dia. Mas agora? — Ele diz, segurando mais perto o rosto de Cristino. Ele alterna o olhar para cada um de seus olhos, a profundeza do marrom o encarando de volta. — Agora, eu só quero você aqui, comigo. Real.
— Eu não vou a lugar algum. — Cristino sussurra, deixando um leve toque de seus lábios nos de Veríssimo. Um movimento suave, mas que incendiou toda uma floresta no peito de Veríssimo. — Nunca mais.
A chuva caía forte na janela, o barulho das gotas batendo forte na janela meio aberta de Veríssimo. O frio não era mais incômodo, o calor que irradiava de Cristino era o suficiente para o proteger da brisa fria da madrugada.
