Chapter Text
Eduarda estava fervendo.
Não era um exagero dizer que, das cinco coisas que rondavam seus pensamentos, nas últimos dias, três eram sobre o beijo que Lorena e ela havia trocado, no interior do seu carro, e duas eram sobre como elas poderiam fazer isso de novo.
Foi por isso que ela levou quase duas horas para ler um relatório que, normalmente, não levaria mais do que trinta minutos. A cada parágrafo que seus olhos tentavam se concentrar, sua mente encontrava um jeito de resgatar alguma memória daquela noite. O cheiro de frutas cítricas espalhado por toda a SUV, o gosto adocicado da boca de Lorena na ponta da sua língua, a sensação da pressão dos lábios dela sobre os seus. Era como se seu cérebro e seu coração decidissem trabalhar juntos para sabotar sua produtividade.
Algo dentro dela havia mudado – ainda que sutilmente, mas de maneira irreversível. Eduarda sentia isso. Nas batidas descompassadas do seu coração, enquanto observava Lorena olhar uma última vez para trás, antes de sumir pela portaria do prédio. No arrepio perigoso que revirava seu estômago a cada nova mensagem que chegava. Na ânsia de vê-la de novo, e de novo.
A mudança estava nos detalhes.
Ela olhou para a última mensagem enviada por Lorena, um pouco antes de pegar no sono, na noite anterior, pela terceira vez em um intervalo de dez minutos. Um singelo “acho que você danificou a minha cabeça, porque não consigo parar de pensar no nosso beijo” que quase a tirou o fôlego. Então, impulsionada por uma urgência iminente de senti-la mais uma vez, estendeu o braço, apontando a câmera do celular para o próprio rosto, e decidiu revelar o que não saía da sua mente desde que abriu os olhos naquela manhã:
– Então, Lorena Ferette, eu preciso te ver de novo. E, para que você não pense que eu sou uma psicopata carente – ela fez questão de frisar –, eu pensei em te explicar os meus motivos citando um poema do Bráulio Bessa, que eu adoro. – Com a tranquilidade de alguém que sabia exatamente o que estava fazendo, ela deixou as palavras decoradas correrem soltas para fora do seu peito: – Ele é mais ou menos assim: há quem viva essa vida poupando tudo que tem, se preocupando em deixar carro, casa ou outro bem. Mas eu te digo uma verdade: bom mesmo é deixar saudade no coração de alguém… você deixou saudade no meu coração, Lorena. – Ela revelou, sorrindo. – Fazer o quê?
Quando enviou a mensagem de vídeo, seu coração parecia prestes a ganhar vida própria.
Será que era assim que Paulinho se sentia em todas as vezes que encontrava Gerluce?, ela pensou, contendo a própria risada sobre a ironia do destino. Depois de semanas zombando do amigo, quem poderia imaginar que ela estaria gastando suas horas de trabalho pensando em uma garota, especialmente depois do último fiasco que quase rendeu-lhe um coração partido?
Agora, no entanto, lá estava ela, esperando por uma resposta que parecia se estender por uma eternidade – ainda que só tenha durado apenas dois minutos.
Ela tentou voltar para o inquérito à sua frente, leu e releu três parágrafos seguidos, mas a mente sempre dava um jeito de voltar para o que estava guardado no celular.
Será que havia sido demais?, ela se perguntou, depois de algum tempo. Antes que a dúvida fizesse morada em seu peito, no entanto, a notificação de uma nova mensagem fez seu corpo reagir.
Eu não acredito que você acabou de recitar um poema… você é real?
E isso é um convite? Porque a resposta sempre será sim pra você.
– Lorena
Eduarda levou o celular ao peito, mordendo os lábios para conter o sorriso frouxo que ameaçava escapar.
Tão real quanto o nosso beijo.
E acho que é mais uma exigência, ou uma necessidade… tô relendo o mesmo inquérito pela terceira vez, porque a lembrança do seu gosto não me deixa trabalhar. Precisamos resolver esse problema. Tá livre hoje à noite?
– Eduarda
– O que é que você tá aprontando aí, Juquinha? – A voz grave e inconvenientemente alta de Jairo ressoou atrás dela, fazendo o celular quase escapar das suas mãos com o seu movimento errático.
Sem conseguir esconder a insatisfação, Eduarda bufou, arrumando a postura na cadeira giratória.
– Tá querendo me matar de susto, doutor?
– Não se você já estiver com aquela papelada pronta. – Ele cutucou a pilha de pastas sobre a mesa, examinando o rosto dela com olhos perscrutadores. – Que carinha é essa? O inquérito era tão interessante assim pra te fazer ficar com esse olhar de adolescente apaixonada?
Num gesto rápido, ela se pôs de pé, cruzando os braços.
– Adolescente apaixonada? – Fingiu indignação. – Não sei do que o senhor está falando.
– Não se faça de desentendida, porque eu sei que esse seu sorrisinho só pode ter um motivo, e eu tenho certeza que ele não tem nada a ver com esse nosso mundo cão da delegacia – Jairo pontuou. – É mulher, não é? – Quando ela não respondeu de imediato, ele arqueou as sobrancelhas com um sorriso de quem já sabia a resposta. – A tal filha do Ferette... vocês saíram do zero a zero?
Eduarda revirou os olhos.
– O doutor não devia estar investigando empresários que desviam verbas das merendas de criancinhas? Ou prendendo assassinos foragidos da justiça?
– Há tempo para todas as coisas, minha querida Juquinha – ele argumentou, dramaticamente, erguendo o dedo indicador. – Portanto, desembucha: fez ou não fez o gol?
– Ai, credo, doutor. Que jeito mais machista de se referir a um beijo – ela reclamou, torcendo os lábios em uma careta. O ambiente masculino era algo no qual ela nunca se acostumaria.
– Você tem razão. – Jairo levantou as mãos, em rendição. – Mas então… quer dizer que realmente teve um beijo?
Um sorriso espontâneo deslizou pelos lábios dela com a menção aos acontecimentos que não saiam da sua cabeça.
– É, rolou um beijinho. Mas isso é tudo que eu estarei dizendo nessa delegacia – Ela avisou, pronta para encerrar o assunto. Os detalhes da sua vida amorosa definitivamente não entrariam em pauta entre todos aqueles homens.
– Beijinho? – Jairo indagou, parecendo desapontado. – Mas isso é…
Antes que ele pudesse completar sua frase, no entanto, a voz de Paulinho o interrompeu, ressoando pelo ambiente num tom curioso e sugestivo:
– Beijinho? Quem beijou quem?
– Mas que povo curioso – o delegado reclamou, como se não fosse ele quem estivesse no lugar de Paulinho, há dois minutos. – Ninguém beijou ninguém. Só estávamos comentando um filme que vimos ontem, na TV, onde houve um beijo. Cada um na sua casa, claro.
– Obviamente – Eduarda sentiu necessidade de frisar, estremecendo com a imagem de Jairo e ela juntos.
A mentira não pareceu tão convincente para Paulinho, no entanto, porque, com as sobrancelhas franzidas, ele começou a rir.
– Sabem o que é isso? – Apontou para o ar. – Cheiro de mentira. Eu conheço vocês.
– Tá certo, senhor detetive. Mas, vem cá, falando em beijinho, você já beijou a sua princesa hoje? – Eduarda indagou, sugestiva, tentando desviar a atenção para ele.
Paulinho balançou a cabeça negativamente, se acomodando na poltrona ao lado.
– Infelizmente, não. Eu coloquei o despertador, mas não acordei – admitiu, frustrado.
– Bom, você vai ter muito tempo pra isso – Jairo comentou, complacente. – Depois que terminar o expediente. Agora, eu quero aqueles relatórios prontos na minha mesa até o fim da tarde.
Soltando um muxoxo, Eduarda voltou a se jogar na poltrona giratória.
– Eu pensei que havia tempo para todas as coisas.
– E há. Agora, por exemplo, é hora de deixar as questões do coração de lado e voltar ao trabalho. – Então ele apontou para ela, ameaçadoramente. – Isso vale principalmente pra você, Juquinha.
Quando Jairo saiu da sala, ela respirou profundamente, sabendo que essa seria uma tarefa quase impossível.
Como se concentrar em um monte de palavras soltas, quando a memória do rosto de Lorena colado ao seu ainda vibrava fresca em sua mente?
– O que ele quis dizer com isso? – Paulinho perguntou, desconfiado.
– Eu e a Lorena nos beijamos – ela resolveu admitir, torcendo para que ele não começasse com uma rodada de brincadeiras e piadas. – E foi… incrível. E agora eu não consigo parar de pensar nisso, e… nela. E tem todos esses inquéritos que precisam ser lidos hoje, e eu não tenho…
– Uau – ele disse, interrompendo seu monólogo. – Isso tá meio intenso… você tá apaixonada, Juquinha?
O rosto dela congelou.
Seria possível que ela estivesse?
– Não enche, Paulinho – ela bufou, se esquivando de suas implicâncias. – Você é a última pessoa que deveria falar sobre intensidade. Se esqueceu de como você ficou quando conheceu a Gerluce?
– Tá, esquece. Não está mais aqui quem falou – Ele revirou os olhos, não querendo ser o alvo das provocações. – Mas, me conta mais sobre essa tal Lorena. O que ela faz?
Eduarda sentiu o coração disparar e o estômago aquecer. Ela nem sabia como começar a descrevê-la. Era como se, de repente, todas as palavras do mundo não fossem suficientes para expressar o quão fascinante Lorena era. A começar pela sua beleza. Não era um absurdo pensar que Botticelli teria atravessado séculos, se isso significasse que poderia capturar o rosto dela em tela. Ela mesma gostaria de eternizar cada traço dela na própria memória.
– Ela é fantástica – Eduarda comentou, tentando conter um sorriso. – Tem um senso de justiça que não é tão comum entre quem já nasceu com grana, especialmente quem nasceu com a grana que a família dela tem. Acho que você vai gostar dela.
Paulinho arqueou a sobrancelha, ligeiramente interessado.
– Ah, é? E eu conheço a família dela?
– E quem é que não conhece? – ela murmurou, entrelaçando os dedos sobre a mesa. – Ela é da família Ferette.
Eduarda percebeu o corpo de Paulinho enrijecer imediatamente.
– Peraí… ela é parente do Santiago Ferette? Dos remédios?
– Filha dele – Eduarda revelou, confusa com a reação repentina. Quando Paulinho torceu os lábios em uma careta, sua postura endureceu. – O que é que foi, hein?
– Eu não quero te dar uma banho de água fria, mas você sabe quem é o cara – ele murmurou, com cautela. – É um homem rico, de família tradicional, e já fez farelo da carreira de muitos policiais pela cidade. – Então a encarou com seriedade, sem a expressão brincalhona que costumava usar para provocá-la. – Você precisa tomar cuidado com o que você tá se metendo, porque ele provavelmente vai ser um problema pra vocês.
Irritada com o rumo que aquela conversa esquisita estava tomando, Eduarda apertou os olhos.
– Pode ficar tranquilo, porque aqui não tem nenhuma principiante no assunto “pais problemáticos”. Já lidei com coisas bem piores do que isso – fez questão de destacar, preferindo ignorar o alerta incômodo que começava a pulsar no fundo da mente dela. Antes que a tensão provocada pelo aviso de Paulinho pudesse se instalar, estragando sua manhã quase perfeita, uma nova notificação despertou sua atenção.
Eduarda correu os dedos sobre a tela do celular com o coração na garganta, só para se derreter com as palavras de Lorena no segundo seguinte.
Eu adoraria te ajudar a resolver esse grande problema, embora eu prefira te causar mais alguns…
Quais são os planos para solucionar essa nossa questão?
– Lorena.
O ar quase escapou de seus pulmões. Sentindo-se eletrizada por uma energia quente e completamente nova, ela se apressou em responder.
Se eu te contar agora, vai perder toda a graça. Mas você pode descobrir durante a sobremesa, depois que eu cozinhar pra você.
Te pego às 19h.
– Eduarda.
– O Ferette pelo menos sabe que você tá pegando a filha dele? – Eduarda estava tão envolvida com os próprios sentimentos que não percebeu Paulinho a encarando durante todo esse tempo. A pergunta chegou como um choque de realidade.
– Primeiro, que não tem ninguém pegando ninguém. Estamos nos conhecendo melhor – ela retrucou. – Segundo, que, se ele sabe, vai ter que aprender a lidar com isso. A Lorena parece ser uma mulher muito bem resolvida pra cair nas ladainhas de um pai que não sabe reconhecer as individualidades dos filhos. – Então, guardando o celular no bolso da calça, ela começou a organizar os papéis espalhados pela mesa. – Agora, vamos voltar para o trabalho, porque eu tenho um compromisso importante, mais tarde, e ficaria arrasada em ter que adiá-lo para passar a noite tendo que olhar para essa sua cara.
Paulinho estreitou os olhos, visivelmente ofendido.
– O que tem de errado com o meu rosto? A Gerluce adora ele.
– Não tem nada de errado com o seu rosto, detetive – ela explicou, contendo a vontade de azucrinar-lo um pouco mais. – Mas, entre passar a noite olhando para o seu rosto e o rosto da mulher a quem eu quero beijar, a resposta é meio óbvia, né?
– Tudo bem, você tem um bom ponto – ele cedeu. – Só toma cuidado, Juquinha. Esse cara não brinca em serviço.
Embora nunca fosse admitir em voz alta, ela ficou feliz com a preocupação do amigo.
– Pode deixar, Paulinho Reitz. Vou fazer o possível para não arranjar problema com o… cara.
Eduarda só esperava que ele não arranjasse problema com ela, em primeiro lugar.
•••
Quando o expediente finalmente terminou, a exaustão de um dia carregado de burocracias deu lugar a uma ansiedade quase irrefreável que só se intensificou com a notificação da mensagem de Lorena piscando no visor do celular dela.
Eduarda precisou de dois segundos para entender que se tratava de uma imagem anexada à uma legenda. Então, com um clique, ampliou a foto, só para ficar completamente sem fôlego.
Deitada entre travesseiros, Lorena pousava o olhar meio erguido sob os cílios para a câmera de maneira sedutora. A pele exposta do pescoço, levemente inclinado, antecipava o que vinha a seguir: um decote discreto, calculadamente despretensioso como um descuido intencional, revelado pelos dois botões abertos da sua camisa rosa.
Pensando em você, era o que estava escrito logo abaixo.
Atordoada, Eduarda esfregou o rosto, agradecendo à todos os santos do universo por estar sozinha naquele momento. Bendita seja a santa Gerluce, por tirar Paulinho da delegacia à tempo, pensou.
Controle. Era tudo que ela precisaria para aquela noite.
Foi respirando fundo que ela encontrou palavras para verbalizar o que seu corpo estava sentindo.
Se eu pudesse dizer tudo que eu acabei de pensar, provavelmente seria censurada em, pelo menos, 150 países.
A propósito, bela camisa…
– Eduarda.
A resposta veio em menos de um minuto, fazendo seu coração reagir por reflexo.
E quem disse que você não pode?
– Lorena
– Chegou o laudo da perícia que vocês estavam esperando – Jairo comunicou, surpreendendo-a com o documento, enquanto atravessava a sala para se debruçar sobre sua mesa.
– Amanhã eu entrego ao Paulinho. – Ela empurrou os papéis como se não fossem algo urgente, disfarçando a tensão crescente que se alastrava feito chamas pelo próprio corpo. – Agora ele está com a Gerluce.
– E você? – O delegado arqueou a sobrancelha, inclinando-se ligeiramente para frente. – Não vai namorar hoje não?
Com um suspiro leve, ela apoiou os cotovelos sobre a mesa, não querendo revelar os planos para aquela noite – nem o que a fez hiperventilar, dois minutos atrás.
– Eu já te disse que eu e a Lorena não somos namoradas. Ainda.
– E por que não? Você tá super afim, todo mundo vê isso – ele indagou, apertando os olhos, como se as coisas entre elas pudessem ser resolvidas de maneira simples. – Vai lá, menina. Aproveita.
Eduarda soltou uma risada baixa, pendurando a bolsa sobre os ombros. Como ela poderia explicar que isso não dependia somente dela?
É claro que ela não era ingênua para não perceber que Lorena e ela estavam na mesma página – ela viu isso na intensidade do seu olhar, nos pequenos vestígios de prazer que cintilavam em seu rosto, quando seus lábios se separaram, na foto que ela acabou de enviá-la. Mas havia algo desconhecido, ainda difícil de identificar, que a fazia avançar com cautela. Algo que a deixava em alerta.
– Ela também tá super afim, dá pra ver na cara dela. Só que tem alguma coisa ali no meio que eu ainda não entendi – confidenciou, levemente incomodada.
– É a família – Jairo afirmou, convicto. – Ser de família tradicional já é uma questão. Sendo filha do todo poderoso, Santiago Ferette – do tipo que canta de galo, sabe? –, um homem que não aprovaria a filha dele… – Então ele congelou, se dando conta das próprias palavras. – Ah, meu Deus do céu, me perdoe..
O rosto de Eduarda endureceu, como o de alguém que acabou de receber um banho de água fria. Com a garganta apertada, ela fez algum esforço para não transparecer a própria vulnerabilidade, já acostumada a ouvir sobre os riscos que um relacionamento entre mulheres poderia implicar. Ainda assim, por mais recorrentes que fossem esses comentários, ouvir alguém listar as limitações que uma relação que dizia respeito apenas a ela a atingia sempre com o mesmo incômodo da primeira vez.
– Namorando uma menina? – Ela completou seu raciocínio.
Jairo evitou encará-la, visivelmente constrangido. Então, em um ímpeto súbito, bateu a mão no tampo da mesa.
– Sabe de uma coisa? Esquece o que eu disse. Vai curtir a sua sexta-feira, garota.
Mas, ainda que ela tentasse, o estrago já estava feito. A insegurança havia se infiltrado em seu coração, querendo ou não.
Eduarda não queria sofrer por antecedência, ou condenar uma relação que estava prestes a nascer, por uma possibilidade indefinida. Mas, também, não fecharia os olhos para tudo que estava em jogo – não para ela, mas para Lorena. Até onde a garota estaria disposta a ir para sustentar esse sentimento que elas não conseguiam mais ignorar? Somente o tempo responderia. Eduarda sabia dos riscos que poderia ter que lidar, enfrentando alguém como Ferette. Mas o que quer que ele fizesse não a abalaria, se, no fim, ela soubesse que Lorena estaria esperando por ela. Porque ela queria isso – o sentimento, a relação, os afetos –, verdadeiramente.
Ela só torcia para que Lorena também quisesse tanto quanto ela.
•••
Lorena estava prestes a subir pelas paredes.
Seis dias haviam se passado desde que Eduarda decidiu tomar a iniciativa de beijá-la, e tudo em que sua atenção conseguia se concentrar era na lembrança da pressão dos lábios dela nos seus.
Lorena não havia beijado muitas pessoas ao longo dos seus vinte e tantos anos – apenas alguns caras da escola, e outros em quem esbarrou pelos clubes e boates que costumava frequentar. Mas o pequeno número foi o suficiente para ajudá-la a distinguir o que era um beijo difícil de ser esquecido, de todo o resto.
Beijar Eduarda foi exatamente como ela pensou que seria, quando percebeu que a queria: suave e torturantemente lento, como o desejo que rastejava pela pele dela e aquecia seu estômago. Não bruto – embora ela não reclamasse se um dia fosse. Não áspero, como a maioria dos caras faziam. Foi adocicado, mas ainda sexy; leve, mas carregado de algo que tirava-lhe o fôlego sempre que se pegava revivendo cada detalhe.
E era nessas memórias íntimas que ela sentia a urgência de senti-la mais uma vez, como se sua mente, seu corpo e seu coração implorassem por mais um toque.
Foi dominada por essa necessidade que ela se deixou levar por uma ideia ousada: a foto. O gesto deliberado provocou um misto de excitação e nervosismo que há muito tempo não sentia. O que ela estava pensando, afinal?, refletiu, rindo do próprio atrevimento.
A provocação pareceu surtir o efeito desejado, para sua felicidade, porque a resposta veio imediata: Se eu pudesse dizer tudo que eu acabei de pensar, provavelmente seria censurada em, pelo menos, 150 países.
O sorriso que escapou dela foi involuntário. Mais do que a resposta, o que a inquietava era a curiosidade crescente que serpenteava sua mente – a vontade quase física de saber cada pensamento que agora girava em torno da mente de Eduarda.
Lorena esfregou o rosto com as palmas das mãos, tentando dissipar todas aquelas ideias inapropriadas que vinham a invadindo com uma recorrência inadequada. Ao abrir os olhos, se deparou com Leonardo, do outro lado da poltrona, encarando-a com escrutínio.
– Que cara é essa? – Ele indagou, desconfiado. – Não vai me dizer que você estava… – Então engasgou, com um misto de pavor e incredulidade. – Você estava tendo pensamentos, você sabe…
Lorena apertou os olhos, confusa com toda aquela cena.
– Não, eu não sei, se você não me contar.
Ele tentou gesticular, procurando palavras para o que quer que estivesse tentando explicar, sem sucesso.
– Pensando besteira com a tal garota – enfim, verbalizou, arrancando um misto de choque e constrangimento da irmã.
– Meu Deus, será que dá pra você falar mais baixo, Leonardo? – Ela ralhou, num sussurro. – Ou você quer contar pra casa inteira?
– Quer saber, não responde. Eu prefiro não saber.
Com um revirar de olhos, Lorena bufou.
– Não que seja da sua conta, mas eu não estava tendo pensamentos eróticos com a Eduarda – ela revelou, divertindo-se com a maneira como ele estremeceu, afundando entre as almofadas. – Satisfeito? Agora pode parar de me encher.
– Então esse é o nome dela? Eduarda?
Não havia julgamento na sua voz, apenas curiosidade – interesse esse, em sua vida, que Lorena não via há muito tempo, mas que começava a surgir desde que decidiram confidenciar seus segredos um para o outro, como faziam quando crianças.
Lorena ficou feliz por tê-lo por perto novamente, especialmente depois de abrir seu coração, durante a conversa que tiveram, dias atrás. Saber que eles estariam do mesmo lado, quando as coisas fossem reveladas ao pai, a deixava mais segura de que, no fim, tudo terminaria bem.
Ou, pelo menos, ela torcia para que sim.
– É. Eduarda – ela repetiu, sorrindo ao experimentar o som do nome nos próprios lábios mais uma vez.
– Caramba, pelo visto, é algo sério mesmo – ele observou, cruzando os braços. – Nunca te vi apaixonada desse jeito.
– Apaixonada? – Ela enrijeceu. – Quem disse que eu tô apaixonada, Leonardo?
– E precisa que alguém diga? – A pergunta saiu carregada de uma ironia suave, como se a resposta fosse óbvia. – Lorena, você tem estado há dias andando pela casa com essa cara de quem viu o passarinho verde, sorrindo até para o vento. – Ele desviou da almofada que ela jogou em sua direção como forma de apaziguar o constrangimento de estar sendo exposta, rindo quando ela não conseguiu acertá-lo. – Essa menina deve ser realmente incrível. Quando você vai me apresentá-la?
Apresentá-la?
Será que Eduarda gostaria de conhecer parte da sua família? Ou ainda era cedo demais? Lorena não queria assustá-la apressando o que começava a se desenvolver entre elas, mas não podia negar o quanto ficaria feliz em recebê-la para o almoço em família, convidá-la para os brunchs oferecidos por Zenilda – e ainda tinha sua mãe! –, que ainda nem sabia de sua existência, mas que, certamente, não se oporia à felicidade da filha.
– Vamos dar tempo ao tempo, Leo. Ainda não temos nada sério – Lorena comentou, cutucando o esmalte descascado. – Nós só ficamos apenas uma vez, não quero colocar a carroça na frente dos bois.
– E o que você tá esperando pra convidá-la para sair de novo? Tome as rédeas da situação. Mulheres gostam de ser surpreendidas. Então surpreenda ela.
Quando ele terminou de falar, Lorena não conseguiu disfarçar a surpresa.
– Uau. Não acredito que estou recebendo conselhos amorosos do meu irmãozinho – disse, se pondo de pé, depois de apertar carinhosamente suas bochechas. – Ela vem me buscar para jantarmos em… – Checando o relógio, percebeu que, conforme o combinado, Eduarda estaria lá fora para buscá-la em sete minutos. –, menos de dez minutos. Mas valeu pelo toque, você até que é bom nisso.
Antes que ela pudesse se virar, a voz entonada de Ferette ressoou pelo apartamento:
– Quem vai levar você para jantar?
Inclinando o pescoço para encará-lo paralizado no hall, Lorena suspirou, determinada a fugir daquela inspeção fora de hora.
– Boa noite, papai. Eu estou muito bem, obrigada por perguntar. Agora, se me der licença, estou saindo para um compromisso particular. – Ela avançou em direção a porta, mas não deu mais do que três passos. Com uma rigidez quase alarmante, Ferette se interpôs em seu caminho, fazendo-a recuar. – Uau. É sério?
– Responde a minha pergunta. E sem historinhas. – Ele se manteve irredutível. – Quem é a moça que vai te levar para jantar? Porque, se eu ouvi bem, trata-se de uma mulher. Ou eu me enganei?
Lorena engoliu em seco a vulnerabilidade que ameaçou transbordar do seu interior, de repente sentindo-se exposta como nunca antes.
Até onde será que ele tinha ouvido?, pensou.
Leonardo, que, até então, assistia a cena à distância, não querendo trazer a atenção para si e levantar qualquer suspeita sobre as questões do próprio coração, se inquietou com a situação, surpreendendo a todos por finalmente abrir a boca:
– É só a Maggye, pai. Deixa isso pra lá.
Ferette não pareceu se convencer das explicações do filho, no entanto, porque não cedeu um centímetro.
– Não se mete nisso, Leo. A conversa aqui é entre a sua irmã e eu. – Então voltou a encará-la. – Você vai me fazer ficar plantado nesta sala a noite inteira esperando por uma resposta?
– Por que todo esse interesse na minha vida, agora? Você nunca se importou em saber como eu estou. Por que só agora decidiu se interessar com quem eu saio, pra onde vou ou o que estou fazendo? – Afinal, oferecer qualquer tipo de atenção à ela que não fossem tentativas mal-sucedidas de controlá-la, era no mínimo curioso, uma vez que isso nunca foi uma prioridade para ele. – É meio tarde pra bancar o pai careta, não acha?
Como se estivesse prestes a apagar um incêndio, Zenilda apareceu no topo da escada sustentando uma expressão de curiosidade e preocupação.
– Mas o que está acontecendo aqui? Vocês estão realmente dispostos a transformar essa casa em uma zona de guerra?
– Eu estou em paz. – Sem tirar os olhos de Lorena, Ferette respondeu a esposa. – Apenas tentando ter uma conversa de pai e filha. Basta ela responder à minha pergunta simples e eu a deixo ir para onde quer que ela vá.
– Minha filha. – Zenilda se aproximou com cautela, tocando seu braço. – Só mata logo a curiosidade do seu pai e acaba de vez com isso. Por favor.
Lorena suspirou, frustrada com a maneira como a mãe se dobrava à tirania do marido, cedendo aos caprichos de um homem tão retrógrado e arrogante.
– É uma amiga nova – cedeu, por fim, sem dar detalhes. – Não me esperem para o jantar.
Sem esperar por uma resposta, ela lançou um beijo para a mãe e caminhou até a porta sem olhar para trás – ainda que soubesse que seu pai permanecia estático, no mesmo lugar.
Decidida a não dar espaço para as inseguranças que começavam a querer controlar sua mente, Lorena empurrou para o fundo do peito o incômodo familiar que sempre surgia durante as desavenças familiares – a sensação de deslocamento constante que tentava dominá-la, sempre que ela se sentia vulnerável –, enquanto o conselho de Leo girava em sua mente.
Surpreenda-a.
Foi movida por esse pensamento que ela decidiu: talvez Leo tivesse razão, afinal, era hora de tomar as rédeas da situação.
•••
O desejo estava consumindo Eduarda.
Foi necessário um esforço quase sobrenatural para não desafivelar o cinto de segurança e pular sobre Lorena, quando ela invadiu seu carro, murmurando um pedido de desculpas pelo atraso que Eduarda nem se deu conta.
A viagem até o duplex modesto onde ela residia foi permeada por conversas amenas e olhares cúmplices. Lorena contou sobre a nova paixão que vinha tirando o irmão dos eixos, e sobre como a mãe deles parecia preocupada com seu estado cataléptico, sem nunca mencionar o pai. Embora a mente dela tenha a levado para a conversa com Paulinho e Jairo uma ou duas vezes, ela decidiu que não mencionaria Ferette naquela noite, afinal, estragar o clima entre elas era a última coisa que Eduarda desejaria.
Mas foi chegar ao apartamento que a atmosfera leve e desinibida se transformou em uma tensão quase palpável.
Lorena, que a cumprimentou com um singelo beijo no canto dos lábios e uma euforia contida ao encontrá-la do lado de fora do edifício, a observava, vez ou outra, com um olhar que Eduarda só podia classificar como desejoso, o que fez seu corpo reagir quase como se tivesse vontade própria. Ela precisou de duas taças do drink sem álcool que a garota tomava e algum juízo forçado para controlar a temperatura dos próprios pensamentos.
– Então, além de policial eficiente e romântica assumida, você também é habilidosa na cozinha? – Debruçada sobre a ilha da cozinha, Lorena insinuou, um pouco antes de levar a taça aos lábios.
Enquanto mexia o molho dentro da panela, Eduarda custou a acreditar que ela estava realmente ali. Quer dizer, não era como se Lorena visitando seu apartamento fosse algo pertencente a uma realidade distante, mas ela não sabia se conseguiria conter a animação por ter aceitado seu convite sem grandes obstáculos.
– Só quando eu quero impressionar alguém. – ela piscou, observando-a se aproximar.
Dando a volta na ilha, Lorena se encostou contra o balcão.
– Ah, isso você consegue fazer sem esforço – ela provocou, apertando a haste da taça com as pontas dos dedos. – O que eu posso fazer para contribuir pra esse jantar? Já adianto que minhas habilidades culinárias não estão à altura das suas, mas eu me arrisco cortando uma cebola.
O som da risada de Eduarda preencheu o cômodo.
– Meu pai sempre diz que não há nada mais inspirador do que a companhia de uma bela mulher. Então você pode continuar bebendo esse drink incrível, enquanto serve beleza. Isso já vai me ajudar bastante. – Lorena a encarou com uma doçura no olhar que quase a fez suspirar. Estremecida com os efeitos daquela proximidade, Eduarda pegou um pouco do conteúdo da panela com uma segunda colher, suspendendo-a no ar. – Mas, já que você insiste, você também pode experimentar esse molho e me dizer o que achou. É vegano, só para constar.
– Uau. Você realmente pensa em tudo – Lorena murmurou. – Deixa eu ver como está isso aqui.
Inclinando a colher até sua boca, Eduarda assistiu a cena fascinada. A maneira como ela fechou os olhos, logo após seus lábios envolverem o material de inox, o lampejo de prazer que escorreu pelo seu rosto, enquanto ela absorvia a textura e o gosto do tempero, o brilho que tingiu suas íris, quando ela os abriu – tudo isso atingiu o coração dela como um golpe fatal, aquecendo seu peito com algo que ela nunca havia experimentado, mas que estava disposta a correr o risco de encarar.
– Por que você tá me olhando assim?
Sem conseguir disfarçar, Eduarda piscou lentamente, molhando os lábios com a ponta da língua.
– Assim como?
– Como se quisesse me beijar de novo – Lorena sussurrou, pousando os olhos em sua boca.
– Talvez eu queira – ela confessou, agarrando uma mecha solta do cabelo castanho só para colocá-la atrás da orelha dela. Em vez de se afastarem, seus dedos permaneceram sobre a pele morna, traçando um caminho pela bochecha, contornando o nariz, até chegar aos lábios, onde ela pressionou só para experimentar a textura. – Muito mais do que eu deveria admitir.
Dando um passo à frente, Lorena invadiu seu espaço pessoal, deixando para Eduarda uma aviso que não precisava ser dito para ser entendido: um único movimento e não haveria mais retorno.
– E o que você tá esperando? – Ela indagou, sua voz rouca e seu peito subindo e descendo em uma rapidez visível denunciando o estrago que o desejo iminente estava fazendo. Secretamente, Eduarda ficou satisfeita em saber que não era a única prestes a perder o controle. – Eu preciso sentir você de novo.
Eduarda ficou tão entorpecida com aquelas palavras que, antes que sua mente pudesse raciocinar seu próximo ato, seu corpo já estava decidindo por ela.
Sua boca cobriu a de Lorena com a precisão de alguém que acabara de encontrar água no deserto. Eduarda estava com sede, e beijar Lorena era a única maneira de saciá-la.
Diferentemente da primeira vez em que se beijaram – um terno encostar de lábios que a deixou com um frio na barriga difícil de ignorar e um calor no peito diferente de tudo que um dia experimentou –, dessa vez, não havia espaço para calmaria. Era novo, barulhento e bagunçado. Selvagem e sexy, suavemente molhado e urgente, como a síntese de tudo o que elas estavam sentindo.
Eduarda tentou manter o controle, embrenhando os dedos nos fios pesados da nuca de Lorena, mas cedeu no instante em que mãos ágeis e firmes apertaram sua cintura, de repente completamente desorientada com todo o poder que a garota passou a exercer sobre seu corpo.
Mas foi quando suas línguas finalmente se encontraram que algo estremeceu dentro dela. O som de um gemido reverberou pela garganta de Lorena, preenchendo seus ouvidos como música celestial e misturando-se às respirações ofegantes que se espalharam pela cozinha quando seus seios se chocaram.
Foi naquele encaixe que Eduarda percebeu que estava perdida.
De repente, ela estava sendo empurrada contra a bancada da cozinha com uma avidez que a fez arfar. Com as duas mãos sobre as laterais do seu pescoço, Lorena descolou suas bocas, arrastando os lábios em uma trilha de beijos torturantemente lentos desde o lóbulo da orelha dela, passando pelos queixo, até o pescoço, onde plantou um único e singelo toque.
O gesto fez um arrepio correr por todo o comprimento da coluna de Eduarda, fazendo o desejo pulsar sob sua pele e se concentrar entre suas pernas.
Quando ela abriu os olhos, seus narizes se tocavam.
– Eu nunca me senti assim antes – Lorena revelou, num sussurro, tentando controlar a própria respiração. – E isso me assusta, porque, pela primeira vez, a vida parece fazer sentido. – Ela riu, constrangida com a confissão, arrancando um sorriso de Eduarda. – Mas também me acalma de um jeito completamente insano, porque é a coisa mais bonita que eu já experienciei. Isso faz algum sentido?
– As coisas boas da vida não precisam ter lógica. Você só precisa senti-las. – Então Eduarda levou a palma da mão ao peito dela, aplicando uma leve pressão sobre o tecido de algodão, onde as batidas frenéticas do seu coração denunciavam tudo aquilo que não estava sendo dito. – Aqui.
Lorena se afastou ligeiramente para encará-la, ainda sob seu toque delicado, um brilho diferente tomando suas íris escurecidas.
– Eu quero você. – A confissão fez a respiração de Eduarda engatar. – Quero todas as suas versões. A investigadora Juquinha e a Eduarda, pessoa física. E qualquer outra que você ainda não tenha me dito. – Elas compartilharam uma risada. – Diga que você me quer também.
– Eu quero você – Eduarda ofegou. – Eu quis você desde o primeiro momento em que eu te vi.
Lorena, parecendo extasiada com a informação, fechou os olhos, deixando as covinhas escaparem através de um sorriso. Então pressionou sua testa contra a dela.
– Fala de novo.
– Eu quero você – repetiu. – Meu deus, eu quero tanto vo…
Antes que ela conseguisse terminar de formular a frase, Lorena estava a beijando de novo com um carinho que fez os joelhos dela quase cederem. Ela apertou seus dois ombros, em busca de apoio, e encontrou na suavidade com a qual Lorena segurava seu rosto um novo jeito de ser cuidada.
De repente, todas as inseguranças que tentavam dominar seu coração pareciam muito pouco nocivas aos seus olhos, naquele momento. Porque Lorena a queria. E isso era tudo que Eduarda precisava para seguir em frente.
Quando Lorena finalmente descolou seus lábios, um sorriso atrevido deslizou sobre eles.
– Será que é meio cedo pra gente pular pra sobremesa?
Eduarda fingiu choque, apertando os olhos em sua direção, embora não pudesse negar o quanto a ideia era tentadora.
– Mas que engraçadinha… – murmurou, deixando-se ser envolvida por seus braços. – Muita paciência, namorada. Minha comida é inegociável.
Quando ela se afastou, um pouco depois de pressionar um último beijo em seus lábios, Lorena a encarou, maravilhada.
– Você tem razão, namorada – disse, por fim. – Vamos ter todo o tempo do mundo.
