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Sob o peso da dor

Summary:

Após Pomba ser sequestrado por Cristino, ele é salvo pelo grupo dos Mascarados (e Eloy) e levado até o quarto com camas do bunker para poder ser tratado antes que algo pior aconteça. Aguiar se sente culpado e faz tudo o que pode para ajudar a salvar sua vida, sendo recompensado à altura ao fazê-lo.

Notes:

Oi pessoal! Minha primeira fanfic em português aqui no AO3 então tô meio nervoso kk faz algum tempo que não escrevo assim em português e me acostumei com inglês infelizmente (me salvem fui colonizado

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

 Jogando Caíto, que já estava todo arregaçado por conta de como Henri o arrastou pelo caminho, aos pés do Cristino sem cuidado algum, ele viu o cangaceiro finalmente cortar a corda que segurava o Pomba – Juninho? Paçoca? Aguiar não sabia mais como chamar o outro, mas preferia chamar pelo nome que o mesmo escolheu para si do que qualquer outra coisa – para soltá-lo, o que o faz choramingar com medo quando a peixeira foi levantada. O sangue pingava no chão de todos os seus cortes.

 

POMBA! Pomba, vem cá, vem! – Aguiar gritou em desespero, abrindo seus braços para envolver o outro em um abraço apertado. O alívio que sentiu ao vê-lo conseguir correr apesar de tudo o fez sorrir.

 

 Entretanto, o homem mais novo passou direto por ele e se jogou nos braços de Kemi, chorando e falando algo que não entendeu antes de desmaiar ali mesmo, a mulher surpresa quase não conseguindo o segurar quando seu corpo começou a despencar. Ele… entendeu o porquê dela ter sido para quem ele correu, mas não significava que doía menos abaixar seus braços vazios. Além do ciúme que aflorou em seu peito… mas ele decidiu ignorar aquilo por enquanto.

 

Não importa, pensou e sacudiu a cabeça para tentar se livrar dos sentimentos, O importante é que ele tá vivo.

 

 Finalmente eles conseguiram resgatar o Pomba do fodido do Cristino, Aguiar pensou que ia perdê-lo e quase ficou maluco… O desmaio dele não melhorou o medo em seu coração, mas a Kemi começou a fazer ataduras nele de imediato. O que quer que poderia haver por trás daquele portão foi ignorado pelo resto do grupo, que aproveitou a distração do cangaceiro para decidir fugir do local de volta para o quarto com as camas após uma discussão apressada entre murmúrios.

 

— Não vai dar pra enfrentar o que quer que tenha lá dentro com esses três tão machucados ou fora de si. – Kemi falou, ajustando Pomba até conseguir uma boa posição para pegá-lo em seus braços. — A gente tem que ir pra aquele quarto do bunker agora.

 

 Jae parecia querer reclamar com um bico que claramente irritou todos presentes, mas foi ignorade, Kemi lhe lançando um olhar sério e tocando em sua arma como um aviso silencioso; elu apertou sua mandíbula, mas não tentou fazer nada depois disso.

 

— Henri, a gente vai embora. – Aguiar sussurrou pro homem, que parecia ainda estar em transe encarando Cristino colocando a faca no pescoço do Caíto. Eles não tinham tempo pra isso agora! — Foi mal, cara.

 

 Sem mais uma palavra, ele agarrou Henri e o colocou em seus braços feito uma princesa antes de correr até o Eloy e se agachar na frente dele, mandando ele subir em suas costas o mais rápido possível já que ele sabia que assim que o sacrifício dos Psikolera morresse, alguma merda ia acontecer com o Eloy. Enquanto isso, Kemi segurava Pomba em seus braços – ela era muito mais forte do que aparentava.

 

 Todos começaram a correr rapidamente antes que Cristino pudesse fazer qualquer coisa com eles, mas ele não parecia se importar com eles no momento, completamente focado em passar a faca no pescoço do sacrifício falando algo que Aguiar não conseguiu entender com o sangue pulsando em seus ouvidos ecoando muito alto para captar qualquer coisa que não fosse seus pensamentos acelerados e um grito de dor do Eloy em seu ouvido, mas ele não podia parar agora.

 

 Finalmente eles conseguiram chegar no elevador, que começou a subir tão lentamente que Aguiar tinha vontade de esmurrar os botões inúteis apesar de saber que era um local muito velho e não tinha mais o que fazer além de esperar.

 

 Eloy e Kemi estavam conversando sobre alguma coisa, com Eloy arfando enquanto algo quente pingava em seu pescoço. Olhando para trás, ele viu uma marca no rosto do homem e arregalou os olhos antes de virar para o Pomba com a Kemi e- é, ele também tinha a mesma marca agora, tossindo sangue que escorria por suas bochechas.

 

 Sem conseguir escutar o que está acontecendo enquanto o pânico explode por seu corpo, ele apenas vê Kemi colocar Pomba no chão e começar a passar bandagens nele até que o sangue é felizmente estancado. Aguiar se sente inútil por não conseguir e nem ao menos saber ajudar naquele momento, apenas encarando os dois e rezando para que o homem não morra.

 

 De repente, ele sente Eloy deslizar de suas costas e prestes a cair no chão, fazendo com que ele dê um grito pedindo por ajuda sem nem mesmo perceber e, surpreendentemente, Jae já está atrás dele e apoiando o braço de Eloy em seus ombros para que ele não caia de cara, mas logo se ajoelha e o deita ali mesmo. Claro, Kemi se vira para ele e começa a fazer o mesmo que fez com o Pomba.

 

 Ao menos é isso o que ele acha que está acontecendo, já que ele não consegue tirar seus olhos do jovem sangrando no chão desse elevador sórdido e deteriorando, apavorado que ele possa virar e cair a qualquer momento… Porém, mais uma vez, a Kemi o salva ao o pegar em seus braços de novo.

 

 Eloy diz algo e ele não se move até que Jae o empurra para baixo pelos ombros e o baterista sobe em suas costas de novo.

 

Tá tudo bem, todo mundo tá bem. O Pomba tá bem, ele engole em seco e pressiona seu ombro contra sua orelha, respirando fundo quando os sons voltam a ficar normais ao seu redor.

 

 Aguiar olhou para baixo e piscou algumas vezes confuso; Henri estava aflito murmurando para si mesmo e seu olho cego agitado se movendo loucamente como se ele estivesse vendo algo.

 

— Kemi- – Aguiar chamou, assustado que ele estivesse tendo algum tipo de episódio. Todo mundo tá fudido hoje pelo jeito!

 

— É, eu tô vendo. – A mulher também parecia assustada, o que não ajudava na ansiedade dele. — Você acha que consegue… colocar ele pra dormir?

 

 Franzindo as sobrancelhas, ele não entendeu. Jae encarava Kemi entre um sorriso e um olhar afrontado, o que o deixou mais confuso ainda.

 

— Tipo… Cantar uma canção de ninar pra ele..?

 

— Não, oh seu tapado! – Ela rolou os olhos e Aguiar sentiu seu rosto esquentar com um pouco de vergonha da burrice que falou. Claramente ela estava estressada após ter que salvar duas pessoas que ela ama da beira da morte. — Tô falando de dar um mata-leão nele até ele desmaiar.

 

— Porra, cê tá maluca?! – Ficou incrédulo com o pedido. — Ele pode morrer!

 

— C-Cara, e-eu acho que e-ele que vai acabar matando a g-gente. – Eloy se enfiou na conversa, arquejando em seu ouvido, e recebeu um olhar de reprovação e um rosnado. — É só a v-verdade, cara! O-Olha pra e-ele!

 

 Era verdade, o Henri parecia cada vez mais instável, mas… ele não machucaria nenhum deles, né? Não fazia sentido!

 

— Aguiar, ele tá ficando fora de si há algum tempo e é bem óbvio. – Kemi falou de forma suave, como se estivesse falando com um cachorro raivoso. — Você não vai matar ele, só vai fazer ele dormir, entendeu? Você sabe controlar sua força, você consegue.

 

 Engolindo em seco, ele olhou para seu amigo e então para o Pomba desmaiado nos braços da Kemi e fechou os olhos por um momento, sentindo seu coração explodir em mil pedaços.

 

Ok, tá bem, tá bem, pensou ao abrir os olhos de novo e ver que Henri não tinha melhorado, Eu consigo.

 

 Henri foi colocado no chão e, pelo jeito, estava bem o suficiente para se manter em pé; no entanto a risada que saía de sua garganta parecia ficar cada vez mais distorcida o que fez com que Aguiar não tivesse tempo de avisar Henri sobre o que ele estava prestes a fazer e só… o enforcou como Kemi havia dito.

 

 Claro que, mesmo um tanto catatonico, Henri ainda arranhou os braços de Aguiar para tentar se livrar do aperto, fazendo alguns barulhos enquanto tentava respirar até que seus olhos reviraram e, finalmente, ficou mole. Aguiar o segurou com cuidado e checou seu pulso, a ansiedade e o medo de perder o outro o agarrando pelo pescoço, mas ele estava vivo. Henri estava vivo.

 

 Suspirando em alívio, pegou o homem desmaiado de volta em seus braços e olhou para Kemi, que parecia falar algo para ele.

 

— …sse? – Ela sorriu, apesar de estar inquieta. – Tá tudo bem, a gente vai poder descansar logo e cuidar deles.

 

 Ele só conseguiu acenar, olhando para o chão – olhar para o Henri ou qualquer um era demais para ele no momento.

 

 Algum tempo depois, ele nem faz ideia do quanto, o elevador finalmente parou com um tremor preocupante e a porta se abriu com um rangido; todos saíram dele rapidamente, mas em silêncio. A Jae deu um tapinha em seu ombro e levantou um polegar para ele, sorrindo orgulhoso. Ele não sabia o que sentir sobre aquilo, para ser sincero.

 

— Finalmente vocês voltaram. – Disse Labirinto da porta do quarto do bunker, olhando para todos com a testa franzida. — Entrem logo, a gente precisa curar o Pomba o mais rápido possível.

 

 Todo mundo já sabia daquilo, mas ninguém falou nada além de Jae bufando ao seu lado, o qual ele ignorou e correu para dentro. Ele se agachava para deixar Eloy descer de suas costas quando escutou a porta de metal se fechando e sendo trancada, Labirinto fazendo algum tipo de ritual em frente à ela.

 

— Ok, ok… Eu vou pegar os remédios. – Kemi olhou ao redor após deitar Pomba na cama mais próxima e parou os olhos em Aguiar. — Coloca o Henri em uma das camas e tira o resto da roupa do Pomba, a gente precisa ver todos os lugares pra ter certeza de quantos cortes ele tem. Rápido!

 

 Já nervoso, ele colocou Henri na cama do meio do beliche e correu até o homem mais novo para remover seu casaco; no entanto ele… ele só congelou assim que se ajoelhou ao lado da cama, sua respiração ficando mais errática ao que sua mão trêmula e hesitante se aproximava do corpo ensanguentado de Pomba. Ele cheirava à morte.

 

 Aquele medo de perder mais alguém importante para ele fazia seu coração bater tão rápido que ele tinha quase certeza que podia ser um ataque cardíaco. Pelo menos doía como um, uma dor que se espalhava por todo o seu peito e seu corpo, martelando até mesmo sua cabeça até que sua visão ficasse turva e suas pernas ficassem fracas… Se ele estivesse em pé, com certeza teria caído a esse ponto.

 

 E se ele piorar tudo? E se ele- acabar machucando o Pomba mais do que ele já está?! Se ele matar o Pomba por causa da sua imbecilidade- Não, não, não, não! Ele não pode cometer erros, não aqui e não agora. Isso não é sobre sua própria vida, é sobre a vida de alguém que ele realmente se importa, alguém que ele tem que proteger; que ele prometeu proteger. Ele tem que fazer isso, é o Pomba! O Pomba precisa dele! Não tem como ajudar alguém enquanto ele está sendo fraco e patético sobre os próprios medos assim.

 

 Aguiar deu um tapa em seu próprio rosto, atraindo a atenção dos outros ao redor, mas ele apenas ignorou os ruídos confusos e se estapeou novamente, soltando rosnados, até sua visão voltar ao normal.

 

 Conseguindo, enfim, tocar no outro sem tremer feito um chihuahua, ele notou que os cortes estavam sangrando bastante e o tecido do casaco havia grudado um pouco nas feridas, mas lentamente foi capaz de remover sem causar um grande estrago ou entrar em pânico de novo. Suas costas e braços estavam livres de cortes – além de algumas cicatrizes em seus pulsos, mas elas pareciam bem antigas e autoinfligidas –, eles pareciam estar apenas em seu tórax e rosto. Era um alívio, mas segurar o casaco em suas mãos fez Aguiar ter que fechar os olhos com força

 

 Por um momento, ele hesitou em tocar nas calças dele, olhando para os outros. O Pomba merecia privacidade nesse momento, ele não queria o deixar pelado na frente de tantas pessoas dessa forma, mas era uma emergência.

 

 No fim Aguiar decidiu que só iria verificar por si mesmo, levantando com cuidado a bainha das calças e suspirando em alívio quando viu que as pernas estavam livres de cortes – ele só ouviu Jae dar uma risadinha, mas ele já estava acostumado a ignorar elu agora mesmo que seu rosto tenha ficado vermelho – apesar de um corte abaixo de seu umbigo, na região púbica, descer um pouco demais ter chamado sua atenção… Havia até mesmo rasgado um pouco de sua cueca, mas não parecia ter ido mais longe do que isso.

 

 Uma raiva intensa se espalhou por seu corpo ao ver aquilo, o fazendo ter que agarrar a cabeceira – que por sorte era de metal, ou ele tinha certeza que iria quebrar com o tamanho da força – para se segurar enquanto olhava para o corpo dilacerado dele. O ódio que sentia por Cristino queimava cada vez mais forte, os gemidos de dor saindo pelos lábios ensanguentados do Pomba o fazendo tremer.

 

 Aguiar tinha certeza que não precisaria da máscara para romper o cangaceiro ao meio com suas próprias mãos, ele-

 

— Se acalma, Aguiar. – Kemi tinha voltado, suas mãos cheias de todo tipo de coisa. — Preciso de você aqui pra me ajudar enquanto o Laby termina de fazer a merda mágica dele, entendeu? Eu vou te guiar no que você precisa fazer.

 

— Kemi, eu não sei se-

 

— Eu falei que você ia conseguir com o Henri e eu tô falando agora que você vai conseguir ajudar o Pomba. – Ela interrompeu. — Confia em mim.

 

 Engolindo em seco, ele acenou com a cabeça vigorosamente.

 

— Eu- Eu confio. Claro que confio, Kemi.

 

 Acenando de volta, ela começou a lhe entregar algumas coisas que ele não fazia ideia dos nomes, mas aceitou. Por enquanto ele só precisaria limpar o sangue enquanto Kemi costurava alguns dos cortes, os grunhidos de dor do Pomba ficando cada vez mais altos e quebrando seu coração cada vez mais. Se ele acordasse no meio disso tudo então-

 

 Uma mão pousou em sua cabeça e Aguiar deu um pequeno pulo de espanto, olhando para cima e vendo Labirinto sorrindo para ele.

 

— Eu vou cuidar disso agora. – Labirinto parecia seguro de si sobre isso, afagando sua cabeça como alguém faria com um cachorro. — Saia e descanse, Aguiar.

 

 Olhando novamente para Pomba, ele hesitou. Ele não queria o deixar sozinho de novo, principalmente num momento como esse.

 

Aguiar. – Labirinto apertou a mão em seu cabelo, claramente ficando frustrado com sua falta de obediência.

 

— Ok, certo. – Ele soltou a mão do Pomba que nem havia notado que segurava e se levantou de pernas bambas. Labirinto o encarava com certa suspeita, o deixando autoconsciente. — Só… cuida dele, tá bem?

 

— Eu sei. – E então ele tomou seu lugar no chão.

 

 Finalmente se afastando, após encarar o rosto do mais jovem uma última vez, caminhou até as beliches e sentou no chão em frente à elas para poder apoiar suas costas na cabeceira de metal já que todas as camas estavam ocupadas.

 

 Com suas mãos lambuzadas de sangue, teve que fechar os olhos firmemente ao entrelaça-las, ainda que conseguisse sentir o quão pegajosas estavam, murmurando orações desesperadas para que Deus poupasse a vida dele. O cheiro metálico do sangue inundava seus sentidos, mas ele ignorou o medo.

 

Deus, ó Deus de amor e misericórdia, diante de Ti me coloco em humildade, buscando Tua cura e restauração. Reconheço a grandeza do Teu poder e acredito firmemente em Tuas maravilhas que ultrapassam toda compreensão humana. – Começou, sua mente transbordando com imagens do Pomba à beira da morte, seus olhos queimando com as lágrimas silenciosas que caíam por seu rosto. — Neste momento, clamo para que Tua mão de cura toque cada parte do corpo dele, penetrando em cada célula e restaurando sua saúde. Derrama Tua misericórdia sobre ele…

 

 Aguiar deve ter caído no sono em algum momento durante sua prece, pois acordou com Kemi balançando seu ombro e o encarando com um olhar cansado e um sorriso amigável. Imediatamente ele virou a cabeça bruscamente para a cama onde Pomba estava, seu coração desenfreado.

 

— Ele tá bem, não se preocupa. – Ela foi rápida em explicar, apertando o ombro que ainda segurava antes de soltá-lo. — Só tô te acordando agora porque eu e o Laby precisamos muito dormir. Você dormiu por umas duas horas e isso já é mais que qualquer um aqui, então fica de vigia por um tempo e depois acorda alguém pra ficar no teu lugar. Ah, lava as mãos antes, tem uma pia toda fudida ali do lado da prateleira, mas ela funciona.

 

 Tudo o que conseguiu foi um grunhido de aceitação, levantando e indo até o local que Kemi havia explicado. A pia jorrou água no chão pelo cano lascado quando ele a abriu, mas funcionava então ele só esfregou sua pele até todo o sangue desaparecer. Também tinha um espelho rachado acima dela, porém ele não ousou ver seu reflexo naquele momento.

 

 Caminhando de volta para sentar ao lado do corpo adormecido, Pomba tinha todo o seu tórax coberto por bandagens, seu rosto parecia muito menos perturbado pela dor; realmente era um alívio vê-lo parcialmente normal de novo – a marca em seu rosto permaneceu como uma cicatriz e Aguiar despercebidamente a acariciou.

 

 Conseguia ouvir os outros andando pelo pequeno local e olhou para trás; Kemi havia deitado com Eloy, tocando seu rosto adormecido da mesma forma que Aguiar havia feito com Pomba, enquanto Labirinto deitava na cama ao lado da que Pomba estava ao invés de ao lado de Jae que já dormia. Apesar disso, ele puxou a cama um pouco mais para longe deles, talvez querendo dar privacidade..? Ele não tinha certeza.

 

 Aquilo o fez morder seu lábio inferior e soltar o rosto do outro antes de se sentar no chão ali mesmo e pegar sua mão em vez disso, acariciando seus dedos. Aguiar, então, pressionou sua testa na mão que segurava ao sentir as lágrimas voltarem, discretamente se deixando chorar enquanto agradecia a Deus por ter sido ouvido em seu clamor.

 

 Por alguns minutos, isso foi tudo o que fez. Ele sabia que estava ali para vigiar a porta, para ter certeza de que ninguém viria atacá-los, mas tudo o que conseguia fazer era chorar em alívio e felicidade o mais baixo possível para não perturbar os outros.

 

 Quando, enfim, conseguiu erguer sua cabeça enquanto fungava para se livrar do catarro acumulado, seus olhos vermelhos se arregalaram ao se encontrarem com os, agora abertos, de Pomba. O mais novo o encarava claramente chocado e ele não fazia ideia de quanto tempo ele estava o observando assim, vendo Aguiar chorar feito um idiota por ele.

 

 Deu uma olhada para trás e suspirou, ao menos todos os outros tinham adormecido. Olhando para Pomba de novo, ele sorriu envergonhado e quis se explodir ao sentir seu rosto queimando. Apesar de que, a felicidade de ver Pomba acordado o fez quase pular no homem antes de se segurar para não machucá-lo.

 

— Aguiar…? – Sua voz estava rouca e seus lábios secos.

 

— V-Você acordou. – Sem saber o que fazer consigo mesmo, soltou a mão do outro e pegou a garrafa de água que Kemi havia deixado em um barril ao lado da cama. — Aqui, bebe um pouco.

 

 Também confuso, Pomba apenas aceitou quando Aguiar levantou sua cabeça cuidadosamente e colocou a garrafa de água em sua boca para que bebesse, porém seus grandes olhos nunca deixaram o rosto de Aguiar por um segundo sequer, mesmo quando fez uma careta de dor pelo movimento.

 

— O que aconteceu? – Perguntou num sussurro, pigarreando, após Aguiar o deitar novamente na cama. — Onde tá o- o Cristino? A Kemi?!

 

— Ei, ei, todo mundo tá bem. – Sussurrou de volta, colocando uma mecha de cabelo dele atrás de sua orelha. — A Kemi tá dormindo igual a todo o resto aqui. O Cristino ficou lá, não sei o que ele tá fazendo, mas ele não vai mais te machucar. Eu prometo.

 

 Pomba suspirou e fechou os olhos, o que fez Aguiar pensar que ele iria voltar a dormir, mas a mão do menos segurou a sua e apertou. Em um momento de coragem, ele aproveitou o momento e entrelaçou seus dedos.

 

— E por que você tá acordado? – Ele abriu seus olhos de novo, seu olhar mais doce dessa vez e um sorriso pequeno se abrindo em seus lábios rachados.

 

— Preciso cuidar de você. – Franziu as sobrancelhas, apertando sua mão de volta e desviando o olhar. — Eu não consegui antes, eu falhei com você, Pomba… Eu tinha prometido que ia cuidar de você, que ia te proteger. E agora você tá assim por minha causa, porque eu não cumpri o que eu te prometi. Eu sinto muito, muito mesmo.

 

 O silêncio seguiu por alguns segundos, fazendo com que Aguiar acreditasse que realmente tudo havia sido culpa dele, principalmente quando o Pomba soltou sua mão- Isso é, até aquela mesma mão tocar seu rosto de forma tão gentil que ele pôde sentir um choque percorrer por todo seu sistema nervoso.

 

— Olha pra mim, Aguiar. – Sua voz tão doce quanto seu toque.

 

 E como ele poderia negar qualquer coisa ao Pomba?

 

 Engoliu em seco e virou seu rosto lentamente, ainda com medo de encontrar raiva naqueles olhos tão belos. Entretanto, tudo o que viu foi… afeto.

 

— Eu não estou decepcionado com você e muito menos com raiva. – Sentiu o dedão do homem a afagar sua bochecha. — Você veio me salvar, Aguiar. Todos vocês vieram. Eu não… Para ser sincero, eu não achei que isso aconteceria. Achei que iria morrer ali. Não sabia o quanto vocês se importavam comigo. Ao menos não ao ponto de trocarem o sacrifício dos seus aliados por mim.

 

 Aquilo o deixou chocado e imediatamente Aguiar se aproximou um pouco mais do Pomba, querendo confortá-lo e não sabendo exatamente como.

 

— Não diz isso! Você é parte da equipe, a gente te adora! – Ele fez uma careta ao ouvir o volume alto da própria voz, voltando a sussurrar logo depois. — Você é importante pra mim- pra gente! Eu não sei o que eu faria se você morresse, Pomba, eu já tava ficando louco só de pensar na possibilidade de te perder.

 

 As bochechas macias dele ficaram mais escuras, mas Aguiar não tinha certeza do motivo. Talvez ele estivesse feliz por ser importante para eles!

 

— É sério..?

 

— Sim! – Aguiar deu um sorriso brilhante, feliz em deixar o outro feliz e sem notar as implicações de suas palavras. — Eu juro que eu tava quase pulando no Cristino de tanto ódio por ele ter te tirado de mim, eu só não fiz isso porque tive medo que ele fosse te matar. Mas tenha certeza, eu vou acabar com a raça daquele filho da puta assim que eu ver ele de novo!

 

 E entre todas as reações possíveis, ele não imaginava que uma risadinha iria ser o que ganhou do Pomba depois de ameaçar outra pessoa de morte.

 

— Obrigado, Aguiar. – Seus olhos pareciam brilhar agora… O coração de Aguiar batia a mil por segundo. — Saber que você faria isso por mim me deixa feliz.

 

— Eu faria qualquer coisa por você. – Ele deixou escapar, corando ainda mais forte. 

 

 Porém antes que pudesse criar uma desculpa para o que disse, Pomba perguntou:

 

— …Qualquer coisa?

 

 E como um tolo, ele respondeu:

 

Qualquer coisa.

 

 Foi assim que a mão que acariciava seu rosto caiu para a gola de sua camisa e o puxou para baixo, fazendo com que suas bocas colidissem um tanto dolorosamente – não que ele se importasse com isso no momento quando o Pomba estava beijando ele.

 

 Aguiar soltou um pequeno som de surpresa antes de fechar seus olhos tremulamente e ajustar sua posição, deixando ambos os braços em cada lado da cabeça do Pomba, para conseguir beijá-lo corretamente.

 

 Seus lábios estavam molhados pela água que bebeu, rachados e com gosto de sangue, mas nunca um beijo havia sido tão doce quanto esse; sua língua era tão macia quanto um pêssego, tão inebriante quanto a Rubra que viram no The Monica Club.

 

Pomba Pomba Pomba Pomba, sua mente entoava como uma oração.

 

 A mão dele subiu novamente, dessa vez segurando seu pescoço e o puxando para si com uma força que ele pensava o outro não ser capaz de ter, principalmente num momento como esse.

 

 Ah, e os barulhos que ele fazia… Seus gemidos não eram iguais aos que havia escutado horas atrás quando ele estava com dor, eles eram meigos e pediam por mais, arfando seu nome sempre que mudavam a posição de seus rostos – e Aguiar arfava de volta o nome do outro, seus próprios gemidos sendo manhosos em meio aos rosnados.

 

 Segundos, minutos ou horas depois, eles finalmente se afastaram, rindo como adolescentes bobos ao se beijarem pela primeira vez.

 

— Eu- – Aguiar não sabia nem o que dizer depois de tudo isso, então só começou a beijar o rosto de Pomba enquanto pensava em algo. — Eu nem pensei por um segundo que você se sentisse assim…

 

— Tenho que dizer o mesmo sobre você. – Ele riu e suas bochechas ficaram mais quentes sob seus lábios. Adorável. — Mas se quiser saber, eu te achei bonito desde que eu te vi e depois de te conhecer eu percebi o quão gentil e incrível você é… Você cuidou de mim com tanto carinho desde o começo, não tinha chance alguma de eu conseguir sair desse lugar sem ao menos uma quedinha por você.

 

 Aguiar se afastou e olhou para Pomba um tanto surpreso. Ele sempre fez isso para todo mundo, mas nunca pensou que alguém fosse apreciar tanto a ponto de… gostar dele assim.

 

— Bem, eu… – Limpou a garganta, um pouco envergonhado e ao mesmo tempo eufórico com tantos elogios, tentando não sorrir porém sem sucesso. — Eu gosto muito do quão forte você é, sabe? Depois de tudo o que aconteceu você continua querendo viver e eu acho isso incrível. Você também é tão inteligente! Você ajudou a gente pra caralho em muita coisa, eu sempre penso “esse mano faz umas resenhas foda.”

 

 Ok, ele se arrependeu um pouco de falar a última frase, mas o importante é que aquilo fez o Pomba rir de novo!

 

— E você também continua sendo tão gentil depois de tudo. – Ele continuou, sem perceber a adoração em seus olhos enquanto falava. — Eu te admiro muito, Pomba. Aquilo que você falou sobre escolher o próprio nome bem no início… Eu me vi ali.

 

 Aguiar lembra das cicatrizes logo abaixo do peitoral do outro. Ele reconhece aquelas cicatrizes muito bem, ele as viu ao olhar para si mesmo sem camisa e tem memórias vagas sobre a cirurgia, sobre como se sentiu quando acordou e finalmente se viu de verdade.

 

 Poderia ser algo só do corpo que ele habita atualmente, no entanto o sentimento de pertencimento foi tão profundo com aquelas memórias que ele sabe que não é só isso. Ser trans faz parte dele de forma íntima, é quem ele é.

 

 E quem o Pomba é também.

 

— Você também..? – Os olhos dele ficaram ainda maiores.

 

— Sim. – Aguiar riu. — Foi mal, eu devia ter te falado antes. Acho que acabei me distraindo com tudo.

 

— Não precisa se desculpar por isso. – Pomba lhe deu um selinho, como se quisesse o confortar. — Eu só fico feliz de ver mais alguém como eu. Principalmente desse alguém ser você.

 

 Ele piscou algumas vezes e fez um barulho esquisito com a garganta.

 

— N-Não que eu fosse perder o interesse se você fosse cis! – Gaguejou. — Eu nem imaginava que você também era trans e- Ah, eu acho que tô piorando a situação…

 

— Você é tão fofo. – Aguiar murmurou, não aguentando e puxando ele para mais um beijo.

 

 Esse foi bem mais tranquilo e lento, ambos levando seu tempo para sentir um ao outro.

 

 Merda, porquê que ele foi fazer isso logo hoje quando ele não pode nem puxar o Pomba pro colo dele?! Isso é tão injusto! Ele tem certeza que ele caberia perfeitamente entre as suas pernas.

 

— Deita comigo. – Pomba murmurou entre seus lábios, abrindo os olhos ao mesmo tempo que Aguiar e o encarando com um olhar que homem nenhum na situação que ele estava deveria ter!

 

 Realmente era um crime eles estarem ao redor de tantas pessoas e ainda sem poder ir para outro lugar com o quão ferido o outro estava. Pomba provavelmente não iria aguentar muita coisa de qualquer forma, mas o corpo de Aguiar estava pegando fogo com o desejo de mapear sua pele escura com a língua.

 

 Quando ele tentou olhar para seus companheiros, Pomba o fez manter-se o encarando.

 

— Pomba… Eu preciso ficar de guarda. – E mesmo assim, toda a sua atenção estava no outro e não na porta que supostamente deveria vigiar. — Além disso, você tá todo machucado. Se eu deitar pode ficar apertado.

 

— Eu não sei porquê, mas te beijar fez eu me sentir muito bem. – Ao ver a sobrancelha levantada e o sorriso arteiro de Aguiar, o mais jovem gaguejou um pouco antes de conseguir formar a frase que queria. — Quis dizer fisicamente! Calma, não desse jeito- Quando você me beijou, eu senti meu corpo melhorando!

 

 Aguiar teve que enfiar o rosto no pescoço do outro para abafar sua risada, levando um tapa irritado em suas costas por isso. Claro que ele sabia o que ele queria dizer, ele sentiu o mesmo quando transou com a Escarlata alguns dias atrás. Ele não sabia exatamente o que aquilo era, mas claramente os curava um pouco.

 

 Só não esperava que apenas um beijo fosse funcionar também.

 

— Não se preocupa, eu entendi. – Falou quando parou de rir, beijando seu pescoço algumas vezes; ele tem que parar antes que faça mais do que Pomba consiga aguentar. — Eu senti a mesma coisa antes quando… aconteceu algo assim comigo.

 

— Você não precisa tentar esconder que ficou com outra pessoa ou algo do tipo, Aguiar. – Pomba sussurrou em seu ouvido, fazendo-o se arrepiar com o toque suave de sua respiração. — Eu não me importo. O que importa é que você tá aqui comigo agora.

 

 Tais palavras fizeram seu coração acelerar como um idiota, como pode esse cara saber exatamente o que dizer para deixá-lo com borboletas no estômago feito um adolescente?!

 

 Decidiu, então, que foda-se! Ele vai sim se deitar com o Pomba! Ele pode ficar de vigia enquanto está deitado na cama, não tem problema. Qualquer coisa é só pular e enfiar o machado na cara de qualquer filho da puta que tentar entrar ali.

 

 Percebendo que Aguiar fez sua escolha, Pomba sorriu de forma ofuscante e se moveu um pouco para o lado com cuidado; de fato ele parecia melhor, seu rosto com mais cor e seus olhos com mais vida, sua respiração mais suave.

 

 Isso também determinou a escolha do mais velho que deitou-se ao lado dele e colocou seu braço debaixo da cabeça do mesmo para servir como travesseiro enquanto sua outra mão estava sobre o seu quadril, tendo cuidado para não tocar nas feridas.

 

— Pronto, tá feliz? – Aguiar falou um tanto bruto, tentando mascarar sua timidez. Porém logo suavizou sua expressão ao ver Pomba acenando com a cabeça muito feliz.

 

 Eles ficaram em silêncio apenas se encarando antes de Pomba desviar o olhar para baixo; ele pegou a mão que estava em seu quadril, a movendo um pouco para que ficasse apoiada em sua região púbica… No mesmo local que Aguiar havia visto o corte mais cedo. Uma onda de nervosismo se espalhou por seu corpo, olhando para Pomba esperando o que ele tinha a dizer.

 

 Ao invés de dizer algo, o mais jovem olhou de volta para ele com o rosto mais vermelho que havia visto até agora.

 

Oh.

 

Oh.

 

 Pomba queria-

 

— Não me entenda errado, porque eu com certeza quero colocar meus dedos em você. – Aguiar lambeu seus lábios, sua mão contraindo de leve aonde estava. — Mas você não tá bem o suficiente pra isso agora.

 

 Quando Pomba franziu as sobrancelhas e tentou argumentar, Aguiar o calou com um beijo.

 

— E tá todo mundo dormindo aqui. – Lhe lembrou. — Você realmente quer que eu bata punheta pra você enquanto a Kemi tá dormindo logo ali?

 

 Foi o suficiente para sua expressão virar uma de medo e vergonha pura.

 

— Ok, eu não tinha pensado nisso. – Grunhiu, pressionando sua testa no peito de Aguiar. — Me desculpa, eu só fiquei… animado.

 

— Com tesão, você quer dizer. – Ele ganhou mais um tapa, dessa vez no seu braço. Aguiar só riu. — Então você pode colocar minha mão quase na sua buceta, mas eu não posso falar que você tá com tesão?

 

— Não. Eu já perdi ele de qualquer forma. – Bufou, entrelaçando seus dedos na mão que havia movido para provar seu ponto.

 

 Aguiar não respondeu, só seguiu sorrindo e olhando para o outro. Sinceramente, a cicatriz da marca combinava com ele… Era muito errado pensar assim? Que o Pomba ficou ainda mais bonito e gostoso com uma marca que quase matou ele.

 

 Se aproximando, ele deu um beijo no local e depois lambeu um pouco – resultando num suspiro de choque do Pomba, mas ele não o moveu para longe, na verdade inclinou o rosto para mais perto. Levando isso como algo positivo, Aguiar traçou a cicatriz com sua língua.

 

— …Diz que a gente não pode fazer nada agora e depois faz isso. – Queixou depois que Aguiar terminou e se afastou apenas o suficiente para seus narizes se tocarem, lambendo os lábios.

 

 A respiração do mais novo estremeceu em antecipação, seus olhos se fechando lentamente ao que seus lábios eram capturados mais uma vez pelo mais velho.

 

 Aguiar não estava fazendo um bom trabalho como vigia. E ele não consegue encontrar um motivo para ligar para isso quando um homem tão bonito está gemendo seu nome e o beijando até seus pulmões implorarem por ar.

Notes:

Espero que vocês tenham gostado!!! Por favor deixem kudos e comentários pois ajuda demais a continuar escrevendo <3 Nação pombiar os maiorais ദ്ദി◝ ⩊ ◜)

P.S.: Meu twitter é @transhexuan caso queiram seguir, tenho uma fanartinha de pombiar no fixado porém não posto muito meus desenhos!