Work Text:
O cheiro de mofo e sangue ainda queimava o fundo da garganta. O lugar estava em ruínas — pedras rachadas, construções de madeira puída, o eco distante de passos da equipe se dispersando. Pomba e Eloy tinham sido levados para o carro, ainda inconscientes, mas vivos. Vivos por pouco.
Ao lado do elevador, Labirinto permanecia imóvel, mãos sujas de sangue seco que não sabia mais dizer se era seu ou de outra pessoa. O corpo inteiro vibrava com uma raiva fria, concentrada, do tipo que apodrece por dentro — corroendo o estômago, subindo pela laringe, obstruindo a faringe e descendo até os pulmões pressionando o ar e substituindo o oxigênio do sangue, se espalhando por todo o corpo com ardência.
Jae se aproximou com cuidado, o sorriso torto ainda preso no rosto, como se tentasse colar normalidade em algo que já tinha passado do ponto.
— Ei… — elu começou, abrindo os braços. — Deu tudo certo no final.
Labirinto deu um passo para trás.
O gesto foi pequeno, mas o impacto, devastador.
— Você é desprezível, Jae.
A palavra caiu seca, sem aumento de voz, sem qualquer teatralidade. Era uma sinceridade visceral, uma amargura que o coreano sentiu como um soco no estômago.
Jae piscou, o sorriso se desfazendo devagar, como se estivesse escorrendo.
— Labi… — elu murmurou, confuso, ferido de verdade agora. — Que porra é essa?
— Chega, Jae. — Labirinto ergueu o olhar, finalmente. Os olhos claros estavam duros, calculando. — Essa foi a última vez que eu tive que escolher entre a missão e você. E vai ser a última vez que alguém quase morreu porque você quis provar alguma coisa.
Jae deu uma risada curta, nervosa.
— Você tá exagerando, Labirinto. Sempre exagera quando fica com medo.
O outro reagiu rápido como um estalo. Labirinto segurou o rosto de Jae com força, os dedos pressionando as bochechas, obrigando elu a encará-lo.
— Não confunde medo com limite. — A voz saiu baixa, controlada demais. — Eu me joguei em cima do Eloy pra te salvar. Você tem noção do que isso significa?
Os olhos de Jae brilharam — não de culpa, mas de irritação.
— Eu não pedi pra você fazer isso. Eu podia me virar muito bem sozinha.
Era mentira. Elu sabia que morreria se não fosse por ele. Mas não admitiria tão facil. Não seria submisso assim.
— Esse é o problema. — Labirinto soltou o rosto delu como quem larga algo sujo. — Você não pede nada, nunca. Você só toma e nem agradece depois.
Jae tentou esboçar um sorriso de escárnio, mas o tom de voz do outro era de pura rejeição, e isso o atingiu em cheio. O coreano tentou rebater mas, antes mesmo de puxar o ar, o tatuado continuou com a voz agora embargada.
— PORRA, JAE! Eu me importo, eu choro, eu mato com você e por você… — o maior respira fundo, engolindo a vontade de explodir — E mesmo assim minhas palavras não tem valor algum.
— Você não manda em mim, Labirinto. Quer a merda de uma cadelinha obediente? Vai atrás do Aguiar, então!
— Ah, mas é só falar em poder que você vira um devoto?! Um fulano qualquer que não é bosta nenhuma tem sua atenção e eu não!
O silêncio pesou entre os dois.
— Vocês falam como se poder fosse uma doença. — Jae cruzou os braços, com a ironia voltando a ser seu escudo. — Eu só me recuso a viver essa vida medíocre da Ordem. Regras, contenção, medo do que somos capazes de ser. Kian entende isso.
O nome foi suficiente.
Labirinto respirou fundo, lento, como quem organiza um laboratório para evitar uma explosão.
— Esse Kian não entende nada. — Ele deu um meio sorriso sem humor. — Ele só sabe usar gente como você. E você deixa. Porque no fundo, ser um cachorrinho é mais fácil do que assumir responsabilidade.
— Não me chama de cachorrinho. — Jae rosnou, os olhos faiscando. — Você não manda em mim!
— Eu sei. — Labirinto assentiu. — Se eu mandasse, pelo menos você me ouviria. E é exatamente por isso que isso acaba aqui.
A frase pairou no ar, pesada demais para ser ignorada.
— Você não tá falando sério… — Jae tentou rir, mas a voz falhou.
— Eu sou muitas coisas. — Labirinto se aproximou uma última vez, imponente, impossível de ignorar. — Egocêntrico. Vingativo. Rancoroso. Mas não sou suicida. Nem otário.
Jae engoliu em seco.
— Então é isso? Você vai me abandonar porque eu quero mais?
— Não. — Labirinto respondeu, já se virando para sair. — Eu vou embora porque você quer tudo. Mesmo que isso custe todo mundo ao seu redor.
Ele parou na porta, sem olhar para trás.
— Quando o poder que você tanto ama te cobrar, não vem atrás de mim.
E saiu, levando a única lamparina.
Jae ficou sozinho no túnel escuro, o eco das palavras frias martelando mais forte do que qualquer explosão de raiva que o outro poderia ter tido.
Pela primeira vez, a ambição não parecia suficiente para preencher o vazio
O silêncio não durou.
Nunca dura quando os dois estão no mesmo espaço.
Labirinto ainda não tinha ido longe quando ouviu passos rápidos atrás de si, descompassados demais para alguém que fingia controle. Não se virou. Já sabia.
— Você não pode simplesmente virar as costas pra mim. — A voz de Jae vinha tensa, afiada. — Não depois de tudo.
— Posso. — Labirinto respondeu, seco, sem parar de andar. — Acabei de fazer isso.
Jae o puxou pelo braço.
Foi o suficiente.
Labirinto se virou com violência, empurrando elu contra a parede quebrada do corredor. O impacto fez o pó cair do teto, partículas dançando no ar entre eles. Estavam próximos demais. Sempre estiveram.
— Não encosta em mim desse jeito — Labirinto rosnou. — Você perdeu esse direito.
Jae riu. Uma risada curta, instável, quase histérica.
— Ah, claro. Agora você resolve ser moralista? — elu provocou, o peito subindo e descendo rápido. — Você gosta disso tanto quanto eu. Do risco. Do poder. Da merda toda.
— Não confunde gostar com tolerar. — Labirinto respondeu, mas a voz falhou num ponto mínimo, imperceptível demais pra qualquer um que não fosse Jae.
E Jae percebeu. Sempre percebe.
— Você tá com raiva porque eu não preciso de você pra isso. — elu sussurrou, inclinando o rosto só o bastante pra invadir o espaço pessoal do outro. — Isso te mata.
Os olhos de Jae brilharam, como se tivesse encaixado a última peça de um quebra-cabeça. O rosto avermelhado e o olhar escuro de Labirinto praticamente gritavam o que se passava na mente do ocultista. E o coreano podia lê-la como mais ninguém.
— Você tem medo que alguém mais forte me tire de você? — ele riu com desdém — Tá com ciúmes do Kian, Labizinho?
Labirinto cerrou o maxilar.
— Cala a boca.
— Ou o quê? — Jae desafiou, os lábios perigosamente próximos agora. — Vai me deixar? Vai fingir que não sente?
Beijá-la não foi uma decisão racional, foi um ataque quase animalesco.
Labirinto o puxou pela gola da roupa e colou a boca na dele com força demais, dentes batendo, sabor de raiva amarga misturada com uma doce urgência. Não havia ritmo, não havia cuidado. Era bruto, meio violento — como se estivesse tentando calar Jae por dentro.
Jae respondeu na mesma moeda. Adorava quando suas provocações libertavam a versão instável e sádica daquele ocultista tão frio.
Mordeu o lábio dele, forte, arrancando um som baixo, satisfeito demais. As mãos delu agarraram o casaco de Labirinto, puxando, exigindo. O beijo virou disputa, quem empurrava mais, quem tomava mais espaço.
— Eu te odeio — Labirinto murmurou contra a boca delu, a respiração irregular.
— Amor e ódio andam lado a lado, não é? — Jae sorriu de canto, provocador, mesmo sem se afastar. — Mas, se odiasse, não me beijava assim.
Labirinto o empurrou de novo contra a parede, o corpo grande criando uma sombra sufocante — mas que atraia o moreno como um ímã atrai um metal. Uma das mãos apertou sua cintura com força, puxando-o para mais perto e dificultando a respiração.
— Eu te odeio porque você me faz fraco. — Ele disse arfando, com ódio de si mesmo evidente. — É um vício, um erro. E eu odeio erros.
O vício matou seus amigos. O egoísmo do Veríssimo matou seus amigos. Erros mataram seus amigos. Jae era tudo isso junto e mesmo assim Labirinto não conseguia evitar de cair na tentação.
— Então para. — Ela desafiou, os olhos brilhando com luxúria. — Para agora.
Labirinto não parou.
Beijou elu de novo, mais fundo, mais descontrolado, como se quisesse marcar território antes de ir embora. As mãos tremiam — não de desejo, mas de frustração. De saber que aquilo não resolvia nada.
Quando se afastou, foi abrupto. Soltando o mais novo com tanta brutalidade que o som das costas de Jae batendo contra a parede ecoou pelo lugar.
— Nunca mais usa isso contra mim. — Labirinto disse, a voz baixa, perigosa. — Porque da próxima vez, eu não volto.
Jae ficou ali, encostade na parede, os lábios inchados, o sorriso vitorioso mas com um fundo sério.
— Você mal foi e já tá voltando… — elu respondeu. — Só não quer admitir.
Labirinto não respondeu.
Virou as costas de novo.
E dessa vez, não houve passos atrás dele. Jae sabia que era só questão de tempo. No primeiro elogio, na primeira provocação, Labirinto voltaria pros seus braços como um alcoolatra em uma recaída.
Assim como seus amigos, Labirinto era viciado em uma droga vermelha.
Assim como seus amigos, ele iria morrer por causa do vício.
