Chapter Text

– A gente precisa fazer algo sobre isso, cara. Tu ouviu o que ele tava falando?
– Eu não posso fazer nada, porra. Você acha que uma pessoa iria conseguir voltar sã daquele ritual? Faz parte do processo de luto, trauma, transtorno pós-traumático, sei lá. Tá fora da minha alçada. Eu sou pago só pra organizar informações.
Os agentes conversam no corredor, um deles apoiado, com a perna escorada na parede, e o outro com um copo descartável de café em suas mãos.
Com um tom de voz mais baixo, o agente sussurra:
– Ele acha que o Jasper ainda tá vivo.
Ele passa a mão pelo cabelo, um tique de nervosismo, e continua:
– Eu consigo ouvir ele conversando com o Jasper da minha sala.
– A gente pode reportar isso, mas a Ordem já deve saber. Eles têm escuta em todos os lugares. Eles não tão nem aí. Jogaram esses caras no inferno e agora tão vendo eles sucumbirem. A única coisa que importa é que a missão foi cumprida.
– Mas… você não acha isso preocupante? E se ele decidir fazer algo que coloca a nossa vida em risco?
– Tipo o quê? Conjurar um ritual? Eu sei que o Remi é ocultista, mas, se ele tentar qualquer coisa, a Ordem vai parar ele. Ele não está acima do Sr. Veríssimo.
O agente arremessa com força o copo descartável de café dentro da lixeira de alumínio.
– Então eu vou ser obrigado a continuar trabalhando, ouvindo o Remi conversar a porra do dia todo com o Jasper, que tá morto, e a única coisa que resta é um corpo sem alma apodrecendo dentro de um caixão no galpão da Ordem, que só ocupa espaço porque a Equipe se recusa a enterrar?
O outro agente, claramente frustrado pelo rumo da conversa, que aparenta não encontrar um fim, suspira:
– Coloca um fone, sei lá, cara. Eu não vou me intrometer nessa merda. Essa missão toda tava fedendo desde que eles planejaram ela. Era óbvio que iam ter casualidades, e a gente, aqui desse lado, ia ter que arcar com as consequências. Talvez os sortudos sejam aqueles que morreram no Hexatombe e não vão ter que viver com a culpa do que eles fizeram. Olha só o que aconteceu com o Remi, um dos agentes mais promissores da Ordem, todo fodido, falando com o fantasma de um cara que ele mal conhecia.
O estrondo de uma porta se abrindo com força faz com que ambos os agentes se calem.
O som de botas ecoando pelo corredor é o suficiente para alertá-los de quem se aproxima.
Com um acenar respeitoso, ambos baixam a cabeça quando o agente passa.
De forma uníssona, ambos cumprimentam:
– Remi.
O agente segue seu caminho, continuando como se o som dos agentes fosse irrelevante para seus ouvidos. Seus passos são certeiros, como um predador que encontrou a localização de sua presa. Remi anda como se não visse e não conseguisse ouvir nada a seu redor, quase como se estivesse possuído por algo.
No entanto, ao invés de seguir em direção ao elevador, Remi vira para a esquerda, indo em direção ao banheiro.
Os dias no Hexatombe fizeram com que a sua percepção de sons ficasse mais aguçada, algo que aprendeu com o Pomba. Assim, não é necessário ele checar para ter certeza de que está sozinho naquele local.
A porta se move lentamente, quando o clique indica que ela se fechou. Remi se escora nela, usando seu peso para impedir que outros entrem. Olhando ao seu redor, finalmente encontra o que procurava — uma fonte de água.
Com a respiração ofegante, ele abre a torneira, deixando o som da água preencher seus sentidos.
É uma questão de tempo agora.
– Não demora, porra. Tô sem tempo hoje.
Ele diz para o nada.
E aguarda.
O som de passos do lado de fora não o incomoda. Ninguém se atreveria a pisar no mesmo recinto que ele dentro desse lugar. Eles sabem que ele é melhor. Cicatrizes de guerra foi a desculpa que a Ordem encontrou.
Não se aproximem muito. Evitem movimentos bruscos ao redor deles. Sempre anunciem sua presença antes de entrarem em algum recinto com eles e, de forma alguma, mencionem o nome nos arquivos, perto deles.
Remi ri para o nada. A ironia do destino, uma piada pintada com letras garrafais, em que a tinta usada foi sangue. Mas a lembrança dos músculos da sua mandíbula se movimentando o congela. Sem sorrisos. Sem labirintos. Esse é o caminho dele, aqui e agora.
– Tá escondendo o sorriso por quê?
Uma voz o tira de seus devaneios.
– Jasper! – ele responde com um suspiro de alívio.
– Tu fica tão bonitinho sorrindo. Uma pena que eu nunca te vi sorrir com esse corpo lá.
– Sem gracinhas! – Remi responde, com dentes cerrados, tentando conter a ira escondida atrás daquela face. – Onde você tava?
– Eu?
– Por acaso eu tenho outro fantasma me seguindo por tudo quanto é lugar que eu vou? É claro que é você.
– Pô, como eu vou saber? Você mesmo disse, não tô o tempo todo contigo. Vai que você consegue ver o espírito do Miasma quando eu não tô aqui.
– Jasper, eu não tô brincando.
– Não precisa ficar tão sério assim. Eu só tava por aí, descansando um pouco, tentando me conectar com algo. Aliás, você já limpou o meu machado? Se ele enferrujar porque você insiste em deixar ele embaixo da sua cama, quem vai ficar puto sou eu.
Remi pressiona seus dedos contra as têmporas, uma dor de cabeça dando suas boas-vindas. Ele respira fundo, cerrando o punho e fincando as unhas na palma da mão.
– Jasper, por favor – ele tenta se controlar. – Me fala onde você tava.
– Você quer que eu seja honesto?
– Sim.
– Não sei.
– Como assim “não sabe”?
– Não sei. Eu não me lembro de tudo e, quando eu não tô com você, às vezes eu deixo de existir.
– A água te ajuda a canalizar pra voltar?
Jasper sorri de lado, mas a sua expressão não é de felicidade.
– Eu não sei se ajudar seria a palavra correta. Certamente é um gatilho que me puxa do Vazio, mas…
– O quê? Você quer que eu pare?
Remi move as mãos para fechar a torneira, mas Jasper o impede, colocando a sua mão pálida e gélida sob a dele.
– Não precisa. Não dói.
– Você disse gatilho.
– Eu tô morto. Não sinto porra nenhuma, então até os sentimentos ruins são bons. Me ajuda a sentir algo que não seja o eterno nada em um vazio infinito.
Uma ferida se abre no peito de Remi.
Mas ele fecha a torneira, irritado com a forma como Jasper tenta se justificar.
– Para de falar isso! Eu não vou insistir em algo que te machuca.
– O quê? Que eu tô morto? – Jasper joga a cabeça para trás. Ele se senta na pia, balançando as pernas, enquanto o espelho mostra apenas o reflexo de Remi. – Isso não me incomoda, Remi. Eu já aceitei. Você precisa aceitar também.
– Cala a boca.
– Ué, tu pede pra eu não sumir e depois pra eu calar a boca? Eu não sou Maria.
Outra ferida.
Ele engole nada, a garganta seca, como se areia estivesse passando por seu sistema respiratório ao invés de oxigênio.
– Me desculpa – ele diz, com certa relutância, se segurando. Todo dia um teste de paciência, mas um que ele busca resistir.
– Tá de boa. Na real, eu não ligo. Só gosto de te ver se contorcendo.
– Tá pronto pra responder minha pergunta agora? – Remi insiste.
– Eu já te respondi. Quando você não me chama, eu não tô em lugar nenhum. Eu tô no Vazio. Eu sou parte de você, e eu só existo pra você.
– Você não tava em casa quando eu acordei.
– Você não me chamou.
– Você sempre tá lá.
– Quando você precisa de mim.
– Eu sempre preciso de você, Jasper. Eu já deixei isso claro.
– Eventualmente, não vai, mas eu tô em paz com isso. Quando você deixar de precisar, eu ainda vou estar aí – Jasper aponta para a cabeça de Remi e, em seguida, desliza até o seu coração, mas, antes de alcançar o lugar almejado, recua. – E, quando isso acontecer, talvez você não consiga me ver, mas eu ainda vou estar.
Remi dá um soco na pia ao lado de onde Jasper está sentado. O mármore vibra com a força, e um hematoma começa a surgir na lateral de sua mão. Jasper balança a cabeça.
– Eu não vou deixar de te ver e, muito menos, de precisar de você. Para de falar essas merdas.
Jasper desliza da pia, seus pés entrando em contato com o piso, mas nenhum som é emitido. Outro lembrete de que essa visão, essa pessoa materializada da essência absorvida por Remi, é apenas um fantasma.
O homem de cabelo platinado anda até que seus coturnos pretos entrem em contato com os vermelhos de Remi. Quando Jasper olha para baixo, seus óculos deslizam pela ponte do nariz. Automaticamente, ele usa o dedo do meio para ajustá-los.
Existe algo encantador na forma como o fantasma se mexe, como se deslizasse pelo chão. Apesar de estar claramente andando, todos os seus toques e movimentos são como um sopro de vento: efêmeros e silenciosos.
– Se acalma – ele sussurra, apoiando a testa na de Remi. – Por que você tá assim hoje? Tem algo te incomodando, e não sou eu.
Remi suspira fundo, a respiração trêmula, e repousa as mãos na face de Jasper, segurando-o. O toque, apesar de sutil, tem um objetivo: não deixar o homem à sua frente escapar ou sumir.
Ele não sabe como ou o porquê, mas, apesar de a materialização de Jasper não ser concreta para o mundo ao seu redor, ele ainda consegue senti-lo. É quase como se ele ainda estivesse ali.
– Muitas coisas tão acontecendo de novo, e as pessoas começaram a perceber.
– Perceber o quê? – Jasper continua, colocando a franja de Remi atrás da orelha para conseguir olhar nos seus olhos.
Remi já notou como, muitas vezes, quando eles estão conversando próximos um do outro, Jasper tende a se perder, prestando mais atenção na mecha ruiva em seu cabelo do que olhando em seus olhos.
– Que eu consigo te ver.
– E você liga pra isso?
– Eu começo a ligar a partir do momento que você some.
– Remi… você sabe que eu sei tanto quanto você. Eu não tenho ideia do que o Sino fez comigo. Eu só sei que eu sinto quando você precisa de mim.
– E o Vazio? O que é isso?
– Um vazio. Nada. Uma imensidão silenciosa e escura.
– Você tem visitado ele com mais frequência do que antes?
– Eu não acho que visitar é a palavra certa. Eu habito lá, mas, ao mesmo tempo, eu não existo lá. Eu já te disse: eu só existo pra você.
– Se você existisse só pra mim, você nunca iria sumir.
– Me assusta que você esteja tão focado nisso.
– Me assusta que as pessoas tenham falado sobre você, quando elas nem deveriam mencionar o seu nome, quando elas não são dignas o suficiente pra ficar sussurrando o seu nome pelos corredores desse lugar.
As palavras de Remi transbordam com raiva, uma intensidade de emoções que normalmente seria barrada por ele mesmo, mas não quando o tópico é o fantasma à sua frente.
– Ei…
– Se isso chegar em ouvidos errados, nós sabemos o que vai acontecer. Eles não vão parar até descobrirem como parar isso – Remi aponta entre eles. – A Ordem não aceita nada que ela não consegue entender.
– Ainda bem que eles não precisam me aceitar, só você – Jasper se move, roçando o nariz contra o de Remi. – Nada vai acontecer.
Remi coloca os braços ao redor do pescoço de Jasper, puxando-o para si.
– Promete que não vai sumir.
Jasper apoia a cabeça no ombro de Remi.
– Eu já te disse: se eu sumir, é só você me chamar.
– Você vai me acompanhar de volta?
– Eu só vou aparecer quando você chegar na sua sala. Eu não quero assustar ninguém ou dar mais razões pra eles falarem de mim.
– Certo.
Remi acaricia a nuca de Jasper.
E, como em um piscar de olhos, no momento em que Remi deixa os braços caírem, Jasper desaparece.
O caminho de volta para a sua sala é torturante, mas Remi segue em frente.
O coração bate em um ritmo acelerado. A falta da presença de Jasper é desconcertante para Remi. Depois de passar tanto tempo em seu apartamento com o homem ao seu redor, cada minuto em que ele está fora do seu campo de visão é torturante.
Ao girar a maçaneta da sua sala, Remi nem se importa em checar, movendo-se em direção à sombra no canto da sala.
– Jas… – Remi começa, mas é interrompido quando nota que a pessoa que o espera dentro da sala não é Jasper, mas um rosto conhecido.
– A gente precisa conversar urgentemente.
– Lena?
