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Jasper sentia dor por trás daquela máscara.
Ele chorava, gritos entalados na garganta enquanto via com os próprios olhos o que o corpo fazia sem a permissão dele. Não era mais Aguiar, não era mais Jasper. Só existia o Mutilador Noturno no controle agora.
Ele e sua sede insaciável por sangue, matando um por um, até seus próprios aliados. Ele chorava, as lágrimas pingavam de seu rosto e algumas escorriam pelo pescoço. Era cruel, doloroso.
Até que o ressoar do tiro alcançou seus ouvidos, e então sua visão deixou de ficar vermelha, mas agora turva.
Tudo ficou em câmera lenta, mas para as pessoas ao seu redor não deve ter passado de segundos. A máscara em seu rosto se despedaçou quando a bala perfurou seu crânio, e o alívio foi imediato. Jasper sabe quem fez isso, e se sentiu agradecido.
A sensação da morte é estranha, ainda mais quando quem a traz para você é uma pessoa que você considera. Jasper olhou para cima, vendo Lena carregar uma expressão de dor no rosto, mas também via que ela tentava reprimi-la, tentava ser forte.
Ele também tentou ser forte. Tentou até o fim.
Ele sentiu uma pitada de mágoa dentro do peito. Uma parte dele se sentiu traído, uma parte dele queria que alguém se colocasse em risco por ele, que tentasse tirar a máscara de seu rosto e mantê-lo vivo. Uma parte dele queria que alguém se preocupasse tanto assim com ele para salvá-lo das garras cruéis do Mutilador Noturno.
Mas a outra parte entendia. Lena é uma mulher esperta e decidida, talvez a mais esperta do grupo. Se ela achou que era a melhor decisão a ser tomada, Jasper confia nessa decisão como um filho confia sua vida à mãe.
Ele se sentiu como um cisne por um minuto. Mas então seus pensamentos se voltaram a outra pessoa.
Pomba. Como será que ele estaria no bunker? Jasper sabe que Lena irá cuidar bem dele, com todo o carinho que uma mãe poderia oferecer a alguém, mas Jasper não pode deixar de ainda sentir medo pelo futuro incerto do jovem adulto.
Seu coração pulsa uma última vez ao lembrar de Pomba, do sorriso tímido que infelizmente era difícil de ver, considerando as circunstâncias atuais, mas que sempre que aparecia para Jasper fazia com que o mundo parecesse ter mais cores. Trazia mais detalhes, não apenas o vermelho.
Em seus últimos segundos de vida, Jasper só desejou que Pomba ficasse bem.
E então ele acordou.
Estar no seu corpo de novo era como renascer. Jasper respirou fundo, puxou todo o ar que conseguia para os seus pulmões. Sentiu-se esquisito, era estranho estar de volta à vida depois de ter conhecido a morte.
Um gosto amargo surgiu em sua boca. Jasper já morreu. E agora está de volta em seu corpo, voltando dos mortos.
Sua visão por alguns minutos ficou turva, ele escutava as vozes com dificuldade, como se estivesse acordando de um sono muito pesado. Vozes que ele reconhecia como as de seus amigos e das cabeças maiores da ordem. Arthur, Agatha e Dante.
“Como se sente, Jasper?” Dante perguntou com sua voz melódica, quase como um sussurro. Ele sempre parece sereno como o badalar do sino de uma igreja.
Sino. Igreja… Jasper sente um calafrio.
“Você ‘tá inteiro?? Consegue falar??” Agatha pergunta, o completo oposto de Dante. Sua voz é fina e áspera, ansiosa. Ela chega mais perto dele, e então ele percebe que está sentado em uma cadeira.
“Eu… eu ‘tô bem eu acho…” Jasper finalmente responde, sentindo a mão de Arthur em seu ombro esquerdo. “Eu só ‘tô sentindo as coisas meio… embaçadas.”
“Isso é normal, aquele corpo que você ‘tava morreu, né?” Agatha perguntou agora com a voz um pouco mais baixa e calma. “Deve ser esquisito meio que voltar à vida. Seus amigos ‘tão aqui também.”
Jasper olha ao redor e seus olhos cravam em Lena. Ela está ao lado de Tuco, que tem sua mão no ombro dela, como se tentasse consolá-la, mas ela ainda tem o olhar de culpa. Ela encara Jasper como se pedisse desculpas, seus olhos brilham como se ela quisesse chorar. Jasper apenas sorri para ela, ele sabe que foi a melhor escolha que poderia ser tomada naquela hora.
Ele olha mais um pouco, mas não vê Maria.
“Cadê a Maria…?” Ele vê Remi dar uma fungada, e então percebe que seu rosto está vermelho, como se ele tivesse chorado recentemente. O rosto dos cabeças da Ordem também ficou com um semblante compadecido.
Jasper entendeu antes que falassem.
“Aquele zumbi que vocês mataram, que ‘tava no caixão…” Agatha disse, ainda com a voz mais calma, como se tentasse consolar Jasper. “Era o corpo da Maria. E como o corpo que ela ‘tava também morreu… eu sinto muito.”
Ela disse olhando para Remi, que parecia estar prestes a chorar mais uma vez. Jasper não conseguiu sentir nada.
Mas algo piscou em sua mente. Ou melhor, alguém. Seus olhos arregalaram e ele se levantou abruptamente, olhando para Lena.
“E o Pomba??? Ele ‘tá bem??” Lena, por outro lado, sorriu. Um sorriso acalentador, tocando nas mãos de Jasper, que sentiu o coração se encher de desespero e ansiedade, mas então tudo isso se dissipou.
“Ele ‘tá na enfermaria…” O ar saiu rapidamente dos pulmões de Jasper, aliviado. Ele ia correr até lá para vê-lo, mas Lena segurou sua mão. “Você foi a primeira coisa que ele perguntou quando a gente chegou lá.”
O coração de Jasper tropeçou, e ele sentiu suas bochechas serem pintadas de vermelho. Ele se dirigiu rapidamente até a enfermaria, procurando por Pomba.
Ele estava em uma das macas, sentado. Tinha um papel e pena em mãos, um vidrinho de tinta ao seu lado para molhar a pena de vez em quando. Ele escrevia uma carta. Jasper podia ver que estava nervoso, as mãos do jovem adulto tremiam, e um biquinho se formava em seus lábios.
Ele achou adorável.
Eloy estava deitado numa maca um pouco afastada da de Pomba, mas ele estava dormindo, com ferimentos mais sérios que os de Pomba. Ele deve ter passado por maus bocados na luta contra os vampiros.
Mas Jasper não conseguia ligar para isso, não agora.
“Oi, Pomba…” Pomba se assustou, dando um leve pulinho em cima da maca onde se encontrava. Jasper viu seus olhos se arregalarem e seu rosto ficar mais corado. O homem albino chegou mais perto, sentando-se parcialmente na maca.
Pomba olhava no fundo de seus olhos, eles tinham uma coloração azulada, diferente do corpo anterior, mas Pomba reconhecia. Não era a cor dos olhos que importava, Pomba conseguia ver a alma de quem estava falando com ele.
Pomba conseguiria reconhecer a gentileza que aquele olhar carregava à quilometros de distância. Então ele sorriu. Jasper não conseguiu o admirar por muito tempo, pois logo seu corpo foi agarrado pelo de Pomba, que o apertava contra si como se tivesse medo que ele sumisse novamente.
“Você ‘tá bem…” Ele sussurrou próximo ao ouvido de Jasper, e ele sentiu os pelos de seus braços e pescoço arrepiarem. O aperto de Pomba ficou mais forte, e Jasper finalmente retribuiu o abraço.
“Mas você ‘tá bem??” Jasper afastou um pouco o rapaz de si, analisando seu corpo, procurando por sinais de infecção ou qualquer coisa perigosa o bastante. A cicatriz no rosto do jovem ainda era grande, mas agora não parecia mais estar aberta, mas sim completamente cicatrizada.
Os olhos marejados fizeram seu coração titubear mais uma vez.
“Eu ‘tô… cuidaram de mim aqui na Ordem. Limparam meus ferimentos e fizeram um tipo de ritual neles pra’ cicatrizar… ‘tão quase todos melhores, mas o Eloy ainda ‘tá um pouco pior que eu.” Ele olhou para a maca mais afastada onde Eloy ainda dormia. “Mas a Lena disse que ele vai ficar bem, só precisa descansar mais.”
Ele voltou o olhar a Jasper, e eles se encararam por um momento que pareceu milhares de anos e ao mesmo tempo, poucos segundos.
“Quando eles voltaram pro bunker eu só sabia chorar.” Ele confessou, com o rosto vermelho. “Eu queria acreditar que era só uma brincadeira de mau gosto e você ia aparecer, mas nada.”
Seus olhos castanhos se encheram de água, lembrando da sensação que foi perder Jasper. O homem albino tocou sua mão, e Pomba olhou para ele de volta.
“Eu nunca ia te deixar sozinho.”
Jasper não teve muito tempo antes de terminar de falar, pois assim que terminou de pronunciar a última palavra, Pomba colou seus lábios nos dele em um selinho desesperado. O coração de Jasper novamente pareceu tropeçar, o nervosismo e a vergonha tomando de conta da sua mente.
Não pensou muito antes de agarrar a cintura de Pomba para si, abraçando ele como se pedisse desculpas por tê-lo deixado. Ele também pediu passagem com a língua, querendo aprofundar o beijo com o rapaz.
E Pomba não hesitou, na verdade chegou ainda mais perto —se é que isso era possível— do corpo maior, abraçando seu pescoço e tentando prendê-lo agarrando as pernas em sua cintura, subindo no colo de Jasper.
O albino riu entre o beijo, sentindo na pele a saudade e a preocupação de Pomba. Ele se sentiu derretido com o cuidado de alguém com ele.
“Isso é uma enfermaria, Pombinha… você devia descansar.”
“Você ‘tá bem mesmo?? Não sente dor nenhuma??” Ele ignorou a fala de Jasper, posicionando uma de suas mãos no rosto agora vermelho e quente do homem maior.
“Não, nenhuma dorzinha.” Voltou seus olhos para os lábios do rapaz.
“E o que vai ser agora?” A pergunta trouxe uma reflexão para Jasper. Nem ele sabia direito.
“Você quer dizer…?”
“Tudo. Você vai continuar na Ordem? Tem onde ficar?” Ele parou, como se analisasse se deveria mesmo falar o que tinha em mente. “Vai ficar comigo?”
Jasper sorriu, achando a pergunta óbvia.
“Eu não sei se vou continuar na Ordem… talvez eu precise de um tempo afastado para voltar, e sim, eu tenho um apartamento onde eu moro.” Ele encarou os olhos castanhos de Pomba, eles tinham quase uma cor de mel. “E sim. Eu quero ficar com você.”
Pomba sorriu, tímido, porém feliz. Se aproximou novamente para um beijo mais lento e carinhoso. As mãos de Jasper subiam por dentro da camisa mais leve que o mais novo vestia, apenas para sentir o calor humano que parece anestesiar tudo de ruim que pode vir a incomodá-lo. Lentamente, Jasper deitava Pomba novamente na maca, começando a distribuir beijos carinhosos pelo seu rosto, até que eles escutam uma voz rouca e sonolenta.
“Aé, qual foi, rapaziada… acordar e ver logo vocês dois se pegando…” Eloy disse, bem humorado, rindo dos novos amigos. Pomba escondeu o rosto de vergonha, e Jasper também riu enquanto sentia as bochechas queimarem ainda mais. “Cadê a minha namorada?”
“Eu vou chamar ela pra’ você, Eloy. Acho que ela vai ficar feliz de te ver acordado.” Jasper começou a se levantar, seu corpo imediatamente sentindo falta do calor do corpo de Pomba.
“Jasper.” Pomba chamou, baixinho. Ele se surpreendeu pelo jeito que Pomba se acostumou rápido à mudança de nome. “Posso ir com você? Pra’ casa.”
Jasper deu um sorriso de orelha a orelha.
“Claro.”
A noite brilhava com as estrelas pontilhando o céu escuro. Não eram tantas como era possível ver no céu do hexatombe, onde não existia poluição visual para atrapalhar o brilho majestoso dos corpos celestes do espaço. Mas, com certeza, aquele lugar não trazia falta.
Jasper e Pomba descansavam na cama macia e espaçosa do apartamento do agente. Os dois se encontram sem roupas por baixo do cobertor quentinho e confortável, com suor escorrendo pela pele e rostos queimando pela vergonha, mas com sorrisos apaixonados nos lábios.
Suas pernas estavam entrelaçadas, os corações perfeitamente sincronizados um com o outro. Era como um troféu, o verdadeiro prêmio por terem sobrevivido a tanta merda dentro daquele inferno.
“Você acha esse corpo mais bonito?” Jasper perguntou, com o rosto escondido no pescoço de Pomba, se deliciando com o cheiro de sua pele. Ele ouviu a risada melódica do mais novo, e sentiu o coração derreter em paixão.
“Sim… esse é mais bonito.” Ele depositou um beijo nos cabelos brancos de Jasper, fazendo um cafuné em sua nuca. “Porque é seu de verdade.”
Jasper abraçou Pomba mais forte. Três palavras entaladas na garganta.
Eu. Te…
“Jasper.” O agente piscou.
“Sim?”
“Eu te amo.”
Silêncio.
O coração de Jasper disparou, seus lábios se esticaram em um sorriso bobo. Ele não conseguia dizer nada, só conseguia sentir os fogos de artifício estourando dentro de si. Inconscientemente apertando o corpo de Pomba ainda mais contra si, ele apostava que o homem conseguia sentir seu coração pulsando com animação dentro da caixa torácica.
“Desculpa… eu… eu falei cedo demais?” Pomba gaguejou, encolhendo-se no abraço. Jasper despertou do transe de felicidade.
“O que? Não, não!” Ele se levantou, procurando o rosto de Pomba para admirar seus olhos cor de mel.
“Você demorou um pouco pra’ me responder, eu achei que tinha falado algo errado…”
“Me desculpa, eu só fiquei meio que em transe…” Ele colou suas testas, admirando cada mínimo detalhe do rosto de Pomba. Ele sorriu, bobo, completamente apaixonado pelo homem abaixo dele. “Eu também te amo, Pombinha…”
Seus olhos carregavam amor em sua forma mais pura. Amor por alguém que desde o primeiro segundo em que se conheceram sentiu que tinha o dever de proteger. Desde o primeiro segundo, e até o final do inferno em que estiveram, Jasper quis proteger Pomba e fez tudo que pôde para isso.
Ele não se arrepende de nada, ele faria tudo de novo. Mesmo que isso o levasse a enfrentar uma vampira, ou ganhar um tiro no meio do crânio mais uma vez, Jasper faria tudo de novo se fosse por Pomba.
“Eu perdi minha família naquele lugar.” Pomba sussurrou, seu hálito tocando os lábios de Jasper. “Perdi tudo que tinha lá. Mas, pelo menos, agora eu tenho você. Você sempre cuidou de mim, Jasper, até quando não sabia se eu seria uma ameaça ou não…”
O agente sorriu mais, deitando-se de frente para o moreno, com as testas ainda encostadas uma na outra.
“Eu posso ter perdido muita coisa, mas eu tive sorte de não ter perdido tudo. Vocês nunca vão substituir a minha família antiga, mas sempre vão dividir um espaço no meu peito com eles… Eu queria muito que você tivesse conhecido eles.” Pomba corou. “Bom, e eles eram a minha família, né… seria tipo conhecer meus pais.”
Jasper riu, sentindo lágrimas ameaçarem escorrer de seus olhos.
“Eu te amo. Eu não tinha nada até agora, mas agora eu sinto que tenho tudo que eu preciso.”
Eles se encararam. Sorrindo um para o outro, sentindo os corações baterem como se sua conexão já fosse de vidas passadas. Como se suas almas fossem destinadas.
“Mas você já transou comigo e ainda não me pediu em namoro… entendi...” Pomba brincou, se separando do corpo de Jasper, fazendo drama. O albino riu, e puxou o moreno de volta para perto de si.
“Prometo que vou fazer o melhor pedido que você possa imaginar!” Pomba sorriu, e se aninhou no peito de Jasper.
Eles dormiram com a promessa de um recomeço, uma vida melhor do que a anterior.
