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23

Summary:

Jisung sempre foi do tipo que acredita na teoria do copo meio vazio, e isso se torna ainda mais forte quando, uma semana antes do seu aniversário de 23 anos, Minho, seu namorado, decide terminar seu relacionamento.

Notes:

Quero agradecer a @tipogirassol pela betagem dessa história. Você é demais, Solzita!
A história é baseada na música 23 de Lawrence, e recomendo muito escutar ela enquanto lê para uma melhor imersão.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Algumas pessoas costumam dizer que ao atingir o fundo do poço, o único caminho que nos resta é a escalada até o topo. E pode até ser que isso seja verdade, só que eu sempre fiz o tipo de quem enxerga o copo meio vazio. 

Já fui chamado de pessimista, chato e até resmungão, mas, para mim, sentir a água batendo contra o peito nunca foi sinônimo de quase liberdade; é sinônimo de impotência, de saber que não se está ali porque quer, mas que não há jeito de escapar sem ajuda — e a situação que me encontrava escancarava ainda mais isso.

O apartamento inteiro estava decorado. A iluminação cênica — cautelosamente escolhida por Hyunjin — manchava as paredes com fachos coloridos por toda a sala, mantendo o calor da celebração enquanto cercava os convidados em um abraço acolhedor, mas que, de alguma forma, só sobrecarregava ainda mais o ambiente. Era sufocante, como se tentasse manter algo dentro de uma caixa bonita e robusta, usando as risadas e conversas incessantes para abafar o desespero de quem estava lá dentro.

Atrás de mim, uma cortina metalizada servia como painel de fundo, chovendo em cascatas que refletiam cada rosto ali presente, mesmo que alguns deles sequer fossem familiares. Ainda assim, nada disso chegava a ser o centro das atenções, porque um arco de balões de formatos e tamanhos variados, em toda sua harmonia prata, branca e cinza, emoldurava luzes de pisca-pisca e os imensos balões com os números 2 e 3 bem no centro.

Tudo parecia bem e em seu devido lugar, mas se eu pudesse fugir daqui, não pensaria duas vezes. E me assusta pensar que esse sentimento me consumiu sem que eu percebesse. Já havia pelo menos vinte minutos que meus amigos me colocaram contra a parede (literalmente) e me obrigaram a tirar fotos com tiaras, balões, faixas e tudo aquilo que compunha o sonho instagramável de aniversário adolescente — coisa que eu já nem sou mais, mas quem se importa, né? 

E a questão é justamente essa, porque se fosse um dia qualquer, eu estaria me sentindo em uma capa da Vogue. É o meu sonho instagramável de aniversário adolescente, e ainda assim, sinto que eu nem deveria estar aqui.

A verdade é que tem dedo meu nessa festa, muito mais do que eu poderia explicar. Não é segredo para ninguém que meu aniversário é minha data favorita no ano, e a minha sorte foi encontrar pessoas que gostam disso tanto quanto eu, então planejar foi mais do que natural: comidas, lembrancinhas, decoração e tudo que eu tinha direito. Eu só não contava que, de uma hora para outra, precisar ser o centro do universo soaria mais como um imenso pesadelo. 

— Jisung? Vai colocar ou não? 

Pisquei uma, duas, três vezes…

Hyunjin e Jeongin estavam em pé diante de mim, e por incrível que pareça, eu os enxergava bem. Ouvia suas vozes e reconhecia a forma como suas sobrancelhas se destacavam de maneiras diferentes: franzidas em Jeongin, mas arqueadas em Hyunjin, mas representando a mesma confusão — só que meu cérebro levou mais tempo do que o normal para associar o que estava acontecendo, porque eu os encarava de volta, mas nada acontecia.

Quatro, cinco, seis vezes… e de repente foram quase dez, de uma vez, como se a ficha tivesse caído e meu corpo voltado ao presente.

— Desculpa, o quê? — Minha voz saiu baixa, e a incerteza no tom era evidente.

— Vai colocar a tiara ou vai esperar ela criar braços e se agarrar sozinha nessa sua cabeça de vento? 

A expressão de Jeongin se fechou em repreensão na mesma hora, dando uma cotovelada de lado na costela de Hyunjin como quem dizia “você enlouqueceu?”, e se ele tentou disfarçar a correção, o som esganiçado vindo do maior foi o que lhe traiu. Vi Hyunjin esfregar a região machucada, mas não poderia me importar menos. Depois de tantos anos convivendo juntos, você aprende a identificar o que é só uma brincadeira.

— Foi mal, achei que tinha visto uma coisa. 

O sorriso tímido que escapou de meus lábios funcionou bem para disfarçar o constrangimento, me dando meio segundo para me forçar a voltar o celular ao bolso traseiro da calça.

Quando Jeongin me ofereceu a tiara mais uma vez, não hesitei em colocá-la sobre a cabeça e abrir o melhor sorriso que conseguia, seguindo as orientações de poses que Hyunjin jurava serem dignas de fotógrafos profissionais — não que meu rostinho bonito não tivesse algo a ver com isso, mas esse é o tipo de coisas que Hyunjin nunca assumiria. Não demorou para que os dois voltassem a tagarelar sobre um assunto que não prenderia minha atenção nem se eu me esforçasse muito, algo sobre quando (ou como, ou onde, não sei) Hyunjin havia comprado aquela câmera analógica nova. E não é como se eu não me importasse com isso, porque sei bem o quanto ele vinha sonhando com uma, mas nada me faria esquecer o calor invasivo do telefone que queimava contra meu corpo, mesmo sobre todas as camadas de roupa.

Foi necessário reunir tudo em mim para não pegar o aparelho outra vez. Cada nova vibração era um teste, cada som de notificação, uma tentação. 

Não deveria ser ele, de qualquer forma. Não depois do que aconteceu.

Não valia a pena esperar. 

Mas conciliar mente e coração parecia mais difícil do que nunca agora — e eu sempre tive a droga do hábito de ver o copo meio vazio. É inevitável.

Mais flashes disparavam. A música tocava alta, vibrando pelas janelas e batucando dentro de cada um como se pudesse conectar todo mundo em uma única sintonia. E eu queria muito sentir isso. Céus, como queria, mas era quase impossível me deixar levar quando meu coração ouvia apenas aquilo que ele queria.

O celular voltou a vibrar, e de pouco em pouco tudo se tornou distante. Era só aquilo que eu ouvia. 

Não deveria ser ele. 

Não tem para quê esperar. 

Não tem… Né?

Dessa vez, o padrão das notificações mudou. Não eram aleatórias, mas ritmadas, constantes, carregando consigo o aviso de que algo estava por vir, algo que eu não tinha certeza se queria mesmo descobrir.

Quer dizer… é claro que eu queria. Eu tinha que saber. E como se todo o esforço até então não valesse de nada, não demorou para o brilho do celular cortar a pouca iluminação e brilhar forte contra meu rosto, falhando nos primeiros instantes em atrair a atenção de Hyunjin e Jeongin. Mas, com o som familiar de chamada em andamento, os dois se viraram para mim de imediato. Seus olhos tão intensos quanto dois chicotes. 

Não havia resposta, nada saiu de minha boca, porque eu não precisei dizer nada. A compreensão veio rápida, e se o receio de ser julgado não foi o bastante para me tirar o fôlego, ver o nome de Minho piscar na tela, logo acima do botão de atender a ligação, fez isso no lugar.

E de repente eu estava lá de novo, sentado na cafeteria onde costumávamos nos encontrar para estudar ou matar tempo livre após algumas aulas. 

Minho estava estonteante como sempre, usando a mesma jaqueta de couro que costumava carregar por aí e que diversas vezes já havia se perdido entre as roupas do meu armário, mas desta vez algo parecia diferente. Os ombros estavam tensos, e sua postura denunciava um desconforto que, independente de quantas vezes tentasse ajustar sua posição no banco, não ia embora. A mesma jaqueta que deveria ser usada para afastar o frio da tarde, que cortava a pele em brisas incisivas, agora dava a impressão de querer afastar muito mais do que só isso.

Ele andava estranho. Há dias. Mas me obriguei a pensar que, mais uma vez, era apenas o velho hábito. O ano letivo havia acabado de começar e eu sabia que sempre que voltava das férias na casa dos pais, ele mantinha uma postura esquisita. Eu os conhecia bem, bem até demais, e os anos em que estivemos juntos foram o bastante para entender o quanto tinham suas garras enfiadas no futuro do filho, futuro esse que deveria pertencer a ele, e que sofria com peso de expectativas irreais.

Só que… era diferente. Alguma coisa não estava certa. 

E então veio o baque.

A voz dele, antes tão calma e sensível, se infiltrou em minha cabeça como veneno. Não houve justificativa, muito menos acolhimento. Minho decidiu romper um namoro de cinco anos uma semana antes do meu aniversário, e no fim, nem mesmo ficou para me ver derrubar litros e litros de lágrimas. O anúncio veio e foi embora tão rápido quanto a coragem que ele tinha de me encarar depois disso.

— É ele?

O olhar preocupado de Jeongin se tornou fogo ardente. Já Hyunjin permanecia estático, com a câmera ainda a meio caminho de seu rosto, preso ao gesto incompleto. Mas ao contrário do que eu esperava, não houve comoção. Os dois me encaravam como se esperassem a minha reação, e isso foi mais do que o incentivo que eu precisava.

— Tanto faz. Não vou atender. 

O celular permaneceu tocando até cair na caixa postal, e por mais que eles soubessem que a confiança repentina fosse pura fachada, o brilho de orgulho em seus olhos não passou despercebido.

Sei que eles pensam que não, mas não tinha como não perceber o olhar de dó que todos tentavam esconder durante os últimos dias, ainda mais nos momentos em que tento não deixar transparecer o quanto isso é sufocante — ou quando me pegam devaneando demais, suspirando vezes demais, esperando por tempo demais

Hyunjin acha que não percebi quando esquivou dos braços de Chan, seu namorado, no momento em que entrei na cozinha mais cedo, e eles só estavam lá, trocando carinho como qualquer casal. Também posso contar com a falta de habilidade do grupo em serem discretos, porque mudar de assunto logo que eu chego e deixar o clima super constrangedor está muito longe de ser qualquer tipo de discrição. Uma bem ruim, no máximo.

Por isso, aquele olhar significava muito mais do que parecia. Não era simples afeição, era uma maneira de demonstrar que eles estavam ali, mas sabiam que poderiam confiar em mim. Sabiam que eu faria a coisa certa, afinal.

Nada mais foi dito, e talvez Hyunjin tenha somado dois mais dois, porque abaixou a câmera e ergueu uma mão em minha direção, com cara de quem estava louco para me levar para bem longe dali. Ou melhor, aprontar para me fazer feliz.

As batidas do meu coração não haviam dado sossego, e a visão que eu não tinha percebido embaçar ainda lutava por seu espaço, mantendo viva a imagem da última vez em que havia visto Minho partir e, ironicamente, o momento em que decidiu voltar. O peso no peito era tão presente quanto a vontade de jogar tudo para o alto, correr para o meu quarto e retornar a ligação, mas no minuto em que meus braços foram puxados para fora da mesa, e o calor do aperto trouxe uma fagulha de esperança de que tudo ficaria bem, não houve necessidade de fugir. 

Sem intenção alguma de contrariar, soltei o fôlego que pedia por socorro e abri um sorriso de rendição para os dois garotos, ignorando a única lágrima que escorreu pela bochecha. 

Talvez fosse hora de enxergar o copo meio cheio, e pela primeira vez, senti que isso não era impossível.







O espaço de tempo entre os números no visor soava mais como uma eternidade, se escalando as paredes até o quinto andar do prédio enquanto o movimento sutil do elevador era o bastante para fazer meu estômago revirar. Paciência é uma virtude que eu não tenho, nunca aprendi a ter, e naquele momento, o tempo nunca pareceu me castigar tanto por não saber esperar. 

Eu respirava devagar, fundo, juntando todas as minhas forças para evitar que acontecesse a maior vergonha da minha vida; e ao meu lado, Minho segurava minha mão, apertando os dedos entre os meus como se isso pudesse me dar maior senso de controle daquilo que eu definitivamente não podia controlar — e ele sabia disso, porque até seu sorriso conseguia berrar em meus ouvidos quando ele ousava me encarar.

— Tá com a chave na mão? — Minha voz saiu baixa, rápida, quase inexistente, ao passo que meus olhos alternavam entre o teto e a escuridão das pálpebras fechadas. Minha boca salivava.

— Desde que saímos do carro — Ele riu, o aperto em minha mão aumentando.

Quando o elevador parou, não perdi tempo em correr até o apartamento. Os números 512 sobre o olho mágico riam de mim como se soubessem perfeitamente que eu não aguentava mais me segurar, e juntando com a cabeça que não se dava o trabalho de me manter em pé com decência, não demorou até as lágrimas se acumularem nos cantos dos olhos e minha visão embaçar.

Eu odiava vomitar.

— Min…

Alguns calafrios subiram por minha espinha e meu estômago insistia em repetir o movimento. Eu já havia aguentado por tempo demais, e meu corpo só confirmava isso, deixando o sopro de voz que me restava tremelicar e tropeçar em súplica.

— Respira, Jisungie… A gente já tá aqui…

A cautela era nítida em seu tom, contrária a momentos atrás. Quanto mais perto de casa chegávamos, mais urgente a situação se tornava — e por consequência, maior era sua preocupação. Uma das minhas mãos se apoiava contra a parede e eu conseguia ouvir o som irritante dos metais se chocando um contra o outro, brigando entre si antes da chave abrir, de uma vez por todas, o caminho para o interior. E quando tive visão dos móveis já tão familiares, mesmo se quisesse esperar por Minho, não conseguiria.

Corri em passos tortos até o banheiro, tropeçando nos meus próprios pés, e foi o que bastou. Já de frente ao vaso sanitário, meus joelhos se chocaram com força contra o chão e meu corpo caiu com um baque surdo, pronto para jogar para fora todo o percurso de tortura feito até ali. Mas, quando o alívio de saber que tudo havia dado — parcialmente — certo se instalou, o universo provou a sua disposição em me tirar de otário.

Meu corpo travou. Nada aconteceu.

Meus olhos fechados se apertaram em agonia, suprimindo um nó na garganta que se tornava cada vez mais forte. O corpo ainda parecia querer expulsar algo, umedecendo minha testa e minhas roupas com suor frio, mas o instinto em impedir que isso acontecesse resistia mais do que eu esperava.

Eu realmente odiava vomitar.

Senti as lágrimas, antes reprimidas, se acumularem no canto dos olhos e descerem fervorosas sobre as bochechas, ao passo em que meus ombros subiam e desciam na mesma intensidade. A aflição e ansiedade partiam pelas laterais do rosto e se reconectavam em meu queixo para dar espaço, pela primeira vez naquela noite, para uma frustração quase palpável. Pior do que vomitar, só mesmo precisar e não conseguir. 

Foi então que o som ritmado de passos se fez presente, aumentando conforme se aproximavam. Em seguida, algo metálico se chocou contra o mármore da pia e a sombra de Minho cobriu o contorno de meu corpo, trazendo consigo um calor que se agarrou ao meu corpo com facilidade.

— Tudo bem por aqui? 

Neguei com a cabeça. 

Meu corpo já havia cedido, e se eu pudesse chutar, diria que ele estava na mesma posição que eu: sentado de lado, uma de suas mãos envolvendo minha cintura enquanto a outra puxava meus fios para trás de minhas orelhas — uma carícia rotineira, nem precisava enxergar para saber o cuidado na forma que me olhava. Os soluços vinham sem parar, e por um momento, cogitei mesmo a possibilidade disso não ser o álcool falando, mas sim de não passar de alguma crise bizarra que só queria me arrancar um pouco de choro.

Mas… não.

Quando as palmas deslizaram por minhas costas, subindo e descendo em uma tentativa de cessar a lamúria, a mistura de cerveja, vodka e seja lá o que Hyunjin jurou ser uma boa ideia me acertou de uma vez. Minho rapidamente puxou meus cabelos para trás, que em seu tamanho não tinham dificuldade alguma em cobrir parte do meu rosto, e só o que eu ouvia entre os expurgos era sua voz doce, murmurando palavras de consolo contra minha nuca.

— Isso, Sunggie… Eu tô aqui com você, não se preocupa. 

Mesmo sobre tantas camadas de tecido, eu ainda conseguia sentir o toque de seus lábios em minhas costas, carimbando a região de meus ombros toda vez que o mal-estar parecia dar uma trégua só para voltar logo em seguida. A tosse se misturava com os rastros do sabor amargo da bile, queimando toda a extensão de minha garganta com o esforço incomum. 

— Você não comeu direito hoje, né? Tinha comentado que o sushi do almoço não te fez tão bem… 

Ao recobrar um sinal de força, aproveitei para erguer o corpo e respirar fundo algumas vezes. Minho fez o mesmo, dando espaço para que eu pudesse me ajeitar e, em seguida, trouxe para perto o que eu descobriria ser minha garrafa d’água. 

— Acha que foi isso?

— Se foi, então você anda comendo sushi escondido antes de toda festa.

Revirei os olhos, e uma risada fraca saiu por automático, tão sutil quanto uma faísca. 

Com a garrafa em mãos, o primeiro gole serviu apenas para lavar a boca, assim como o segundo, e até o terceiro. Já no quarto, Minho me fez beber o máximo de água que conseguiria e permaneceu acariciando minhas costas até que os soluços se dissipassem. Foram longos minutos, a sensação do estômago revirado ainda queimando a garganta e o suor frio impregnado em gotículas contra a testa, que nesse ponto já estava coberta pela franja. Minho não deixou que eu me levantasse sem ter certeza de que não vomitaria mais, quando o mundo já não parecia se mover tanto, e com todo o cuidado do mundo começou a deslizar as peças de roupa por meu corpo, sem pressa alguma, até restar apenas a camada fina de arrepios devido à temperatura amena.

— Consegue entrar no banho? Vou pegar as toalhas e já venho ajudar.

— Se eu disser que não, você vem mais rápido? 

Ele riu, se aproximando para deixar um beijo no topo da minha cabeça.

— Não vou demorar.

Um sorriso pequeno foi o que pude oferecer. 

Meus dedos se agarraram na cortina e usei o apoio da parede como suporte antes de colocar os dois pés para dentro da banheira, pouco me importando com a primeira onda de água fria que caiu do chuveiro ao girar o registro — a tontura não permitiria tentativas de me esquivar, de qualquer forma. O primeiro choque foi instantâneo, arrancando o fôlego de meus pulmões em um solavanco e correndo por meu sistema nervoso como fractais. Foram necessários alguns instantes até me acostumar, e no momento em que o mal-estar pareceu ser lavado ralo abaixo com a temperatura gélida, eu soube que havia funcionado.

Os sons da movimentação ao lado de fora do banheiro vinham abafados, sem ritmo, com portas batendo e o barulho característico da segunda gaveta enferrujada da cômoda, tão alto que atravessava a camada úmida e densa se formando ao meu redor. Segundos depois, o ranger singelo da porta do banheiro anunciou o retorno do maior, seguido das roupas sobre a pia e a toalha sobre o gancho. Então a cortina foi aberta mais uma vez, e logo atrás de mim, o calor de seu corpo se uniu ao meu. 

— Você sabe o que tinha naquela bebida esquisita do Hyunjin? Tomei um gole daquilo e foi como ir ao inferno e voltar.

— Veneno, Min. Veneno, gelo e limão.

Minho riu, e não pude deixar de o acompanhar. 

— Vou proibir ele de encostar em qualquer garrafa na próxima festa.

— A gente tentou isso no Natal, não lembra? Foi o que fez o Chan Hyung brigar com você. 

— Dessa vez eu tranco os dois dentro do armário, eles vão estar tão distraídos que sequer vão pensar em mim.

Mais uma risada.

Minho subia e descia as mãos por meu corpo em um afago gentil, seu peito pressionando contra as minhas costas em um ritmo constante. A trilha de beijos plantados desde meu ombro até atrás de minha orelha me obrigou a pender a cabeça para o lado oposto, em um ritmo arrastado, como se Minho tentasse registrar cada toque em minha pele e garantir que as marcas transmitissem a mensagem que palavra alguma seria capaz de traduzir.

Era terno, gentil. Minho era acolhedor. 

Não havia malícia, nem segundas intenções, e mesmo que esse pequeno ritual já tivesse se tornado um hábito, toda vez parecia ser a primeira.

— Como tá a cabeça? — Seu tom veio calmo, sussurrado.

— Ainda pesada, parece que vou cair a qualquer hora.

— Não vai, eu te seguro.

— Diz isso, mas me deixou cair descendo do carro…

— Não, Sung. Eu não te deixei cair, você que se jogou para fora antes de eu ir te ajudar.

— Mesmo assim! — Minhas sobrancelhas se uniram, espantando a moleza para longe. O tom de manha ainda era presente, mesmo em meio a uma fungada ou outra, havia espaço para provocações. — Como pode dizer que vai me segurar se não consegue prever que eu vou cair?

— Eu vou enfiar o sabonete na sua boca, garoto. 

— Não teria coragem, me ama muito pra isso.

— Quer apostar?

— Faria mesmo isso com o seu gatinho?

O calor em meu pescoço cedeu. Cru e intimidador, o silêncio que veio em seguida garantiu seu lugar, e se não fossem pelos braços ao redor da minha cintura, poderia jurar que Minho nunca tinha estado ali. Meu corpo hesitou, esperando que ele voltasse a se aconchegar, mas nada aconteceu. Nenhum movimento, nenhuma carícia — não até ele me girar, e o sorriso com que me deparei estilhaçou todas as minhas expectativas.

— O que foi que você disse?

Meus olhos se arregalaram por vontade própria, incapazes de se manterem calmos por si só, e isso só pareceu o fazer sorrir ainda mais.

— O-o que eu disse?

— É, o que você disse.

— Perguntei se faria mesmo isso…

— Com quem?

— Comigo?

— Não, Sunggie — Minho balançou a cabeça, subindo as mãos com calma, desde minha cintura, até alcançar meu rosto. — Com quem?

— Seu… gatinho? 

E ele riu. Um riso tão bonito que eu passaria horas escutando se pudesse. 

Minho puxou meu rosto, o abaixando o suficiente para que pudesse deixar um selar demorado em minha testa. Depois veio outro em minha bochecha direita, mais um na esquerda, um na ponta do nariz, e quando me dei conta, ele me carimbava beijos intermináveis.

— É, meu gatinho… — Nossas testas se encostaram, tão sutilmente que só o calor da proximidade era o que testemunhava a união. — Só meu. Todo meu.

Um riso tímido escapou por meus lábios, e em uma tentativa de esconder o rubor já camuflado em meio à reação ao álcool, escondi o rosto na curva de seu pescoço, circulando os braços ao seu redor.

A água ainda caía sobre nós dois, no entanto, o arrepio que corria até minha nuca já não vinha mais pela baixa temperatura. Vinha do futuro, do frio na barriga de imaginar viver o resto da minha vida no calor daquele abraço e da certeza de que não havia lugar no mundo que preferiria estar se não aqui. Vinha de todos os momentos que Minho cuidava de mim como se fosse de vidro e pudesse quebrar no menor toque, mas também, de todas as vezes em que ele segurava minha mão e mostrava que não importa o quão assustador viver pudesse parecer, ainda estaria ali para me levantar quando caísse, cuidar dos meus machucados e, especialmente, me incentivar a tentar mais uma vez.

Minho tinha meu coração, e não havia ninguém que eu pudesse amar mais do que ele.

— Min? — Minha voz cortou o silêncio com um resmungo carente, e por um instante, pude sentir as lágrimas se acumularem em meus olhos novamente.

— Hm?

— Eu te amo. 

Mesmo sem poder ver, sabia que Minho sorria de uma orelha à outra. Seus dedos escorreram por meus fios, me apertando mais contra seu peito como se isso pudesse impedir que eu me afastasse, mesmo sabendo que essa era a última coisa que eu faria. 

— Eu também te amo, Sunggie…

— Você sabe que eu só vou acreditar nisso no dia que me pedir em casamento, né?

— Prefiro que acredite agora, não depois.  

Sem levantar o rosto, ergui minha mão esquerda até seu campo de visão.

— Tá vendo esse anel?

— Que anel, garoto? — A pergunta veio incerta, como se a dúvida entre ter que ver algo e não enxergar nada o fizesse hesitar.

— Exatamente. Eu também não vejo.

A risada que se seguiu transitava entre a incredulidade e a surpresa, e por falta de uma resposta imediata, meus ouvidos captaram alguns sons distintos, vindos de trás de Minho, e logo em seguida, o barulho característico da tampa do xampu se abrindo. 

— Não podemos casar agora, gatinho. Já falamos sobre isso milhares de vezes. — Minho despejou o líquido sobre a palma, e, com cuidado, o esfregou em meu cabelo. 

— E por que não?! Não faz sentido, eu te amo e você me ama, do que mais a gente precisa? — As palavras saíam atropeladas, pesadas pela manha, ainda que na brincadeira. Por mais que entendesse perfeitamente os motivos pela falta de proposta, a certeza de que eu não pensaria duas vezes antes de aceitar um pedido sempre falava mais alto.

— De dinheiro, Sunggie. Não vou te pedir em casamento sem termos nossos diplomas e, pelo menos, um emprego. Faz seis meses que entramos na faculdade!

— Mas…

Suas mãos voltaram até meu rosto, o levantando até que meus olhos estivessem diante dos seus mais uma vez.

— Quando nos formarmos, pode ser? 

— Vai me fazer esperar até ter vinte e três mesmo?

— Se você quer tanto se casar, é porque quer passar o resto da vida comigo, não? — Concordei com a cabeça, mesmo que a contragosto. — Então não vai se importar em esperar mais alguns anos, vamos estar juntos da mesma forma.

— Tudo bem… — Um bico involuntário se formou em meus lábios.

— Eu prometo que quando fizer vinte e três, será o melhor ano das nossas vidas. Terei meu diploma, conseguirei um bom emprego e será só o início da nossa família de cinco, porque eu darei tudo que for necessário para te fazer a pessoa mais feliz do mundo, Sung-ah. 

Meus olhos se estreitaram, assim como as sobrancelhas se uniram, mas não precisou de muito para entender o que ele quis dizer.

— Vai trazer Soonie, Doongie e Dori para morar com a gente? 

— Meus filhos são seus filhos também, esqueceu?

— Não… Eu nunca esqueceria.







Eu estava feliz.

Na verdade, mais feliz do que eu esperava.

A música rolava alto, meus amigos me rodeavam e as nossas risadas afastavam qualquer energia negativa que ousasse tentar passar por entre as janelas. Hyunjin já tinha me oferecido não sei quantos copos do que chamou de “a invenção do século”, e, no fundo, eu nem me importava se, mais tarde, isso me faria mal — como sempre acontecia. Eu só queria estar bem e aproveitar o que restava do meu dia.

— Atenção, atenção! Pessoal, um segundinho aqui, por favor — Uma voz cortou o ambiente, perfurando a bolha de cada — Hyunjin, diminui um pouco a música aí…

Jeongin envolveu um de seus braços ao redor de meu pescoço e sabendo que mesmo sem entender o que acontecia a reprovação estaria estampada em meu rosto, o olhar do Yang evitava a todo custo se encontrar com o meu. Os convidados ao redor interromperam o que faziam conforme o som da música se esvaía, girando em seus calcanhares até reconhecer de onde vinha o burburinho.

 — Como melhor amigo do aniversariante, sinto que é meu dever dizer algumas palavras. 

Pestanejei. 

Diversos pares de olhos caíram sobre mim, inclusive os do Yang, que me encarava com algo entre ternura e aquele olhar leve de quem já tinha bebido o suficiente. O cheiro do álcool colidia contra meu rosto sem nenhum disfarce, mas, ainda assim, ele parecia estar bem longe de estar bêbado.

— Jisung e eu nos conhecemos no jardim de infância, no primeiro dia de aula. Eu empurrei ele de cima da gangorra do parquinho porque ele não queria levantar, e mais tarde, ele cortou um tufo do meu cabelo no recreio e jogou em cima do meu lanche. Desde então, não nos desgrudamos mais. — Algumas risadas se fizeram presentes, já outros, ainda tentavam entender o motivo da interrupção. — Nossas mães fizeram um show na escola aquele dia. Foi um desastre, mas ninguém diria que um galo na cabeça e uma franja torta uniriam nossos caminhos.

— Esse é o nosso último ano de faculdade e, apesar de ter medo do que a vida reservou para cada um, sei que não importa o que aconteça, sempre estaremos juntos. Jisung é uma das melhores pessoas que eu poderia ter conhecido, e nunca terei palavras para descrever o quão grato eu sou por ter você na minha vida, irmão.

Alguns assobios atravessaram a sala, e então, Jeongin ergueu o copo em suas mãos.

— Um brinde, pessoal! E Ji, espero ainda ser seu amigo daqui a 23 anos, e nos próximos depois deles. Prometo que se conseguirmos isso, eu te deixo me jogar de uma gangorra também. Ao Jisung!

— Ao Jisung! — Os convidados gritaram em uníssono, erguendo as mãos para o ar.

 A música voltou a tocar alto, e a comoção de pessoas dançando causou alguns respingos de bebida caírem sobre quem estivesse ao alcance. Jeongin, grudado em mim como um carrapato, não desfez o abraço em momento algum, e ainda diria que me puxava para cada vez mais perto; meu rosto se banhava em um vermelho escarlate, e meu coração, competindo com o baixo da música, batucava dentro do peito como um tambor — e Jeongin sabia, porque acima de tudo, ele me conhecia como ninguém. 

— Você me promete esse empurrão da gangorra já tem anos, não sei se acredito mais em você.

— E eu já quebrei alguma promessa na vida, por acaso? — Jeongin levou uma mão ao peito, a falsa ofensa visível em sua expressão.

Abri a boca para responder, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Hyunjin, que acompanhava tudo em silêncio até então, lançou a provocação com uma riso sarcástico:

— É mais fácil perguntar quando foi que já cumpriu uma. — Jeongin, ainda mais ofendido, sugou o ar pela boca com cara de espanto. 

— Retire o que disse, sua fuinha ridícula!

— Não! — O maior deu a língua, e se Jeongin parecia à beira de um colapso, o apelido só serviu para o empurrar da beirada.

— Hyunjin, seu…

Alguns xingamentos, tapas e ameaças depois, Jeongin e Hyunjin gritavam um com o outro feito duas crianças, o que não era tão incomum assim — muito menos de se preocupar. Enquanto Jeongin estampava no peito com orgulho sobre nossa amizade, Hyunjin preferia deixar claro que tempo não é sinônimo de qualidade, e mesmo que tenhamos nos conhecido só na faculdade, ele se autointitulava meu verdadeiro melhor amigo em todas as oportunidades que tinha e isso fazia com que as brigas fossem mais do que recorrentes. No fim, os dois só eram orgulhosos demais para lidar com o ciúme, e eu fingia não perceber todas as vezes em que eles pareciam apreciar a companhia um do outro, porque manter a imagem de que só se toleram parecia muito mais interessante. 

Um riso meio constrangido, meio divertido, se escondia por trás do copo de plástico preso entre meus dentes, às vezes as brigas eram até engraçadas, e já tinha me acostumado a ficar de fora enquanto eles não decidiam se acalmar e voltar à programação normal. Ao longe, Chan se escorava contra o balcão da cozinha, rodeado dos próprios amigos, seus olhos fixos em nós três com atenção redobrada enquanto o cenho franzido denunciava a dúvida entre intervir ou se manter distante. 

Só que… ele não parecia só preocupado com Hyunjin, como sempre ficava. Changbin e Felix mantinham uma conversa calorosa, gesticulando até demais enquanto suas expressões carregavam o peso da empolgação com o assunto, mas Chan… não. Não parecia estar ali, não prestava atenção em nada do que era dito, e o tempo em que sua atenção foi pregada sobre nós três me fez acreditar que, na verdade, sua mente estava mais distante do que parecia.

De repente, seus olhos se arregalaram, e o que antes era tomado pela nuance do devaneio logo perdeu a cor. Ele ficou pálido, e os ombros subiram para acompanhar uma puxada longa de ar.

O que era aquilo?

Seus olhos vasculharam o grupo, como se tentasse pescar algo, mas evitando que o peixe errado mordesse a isca; e quando seu olhar se encontrou com o meu e as orbes quase saltaram para fora do rosto mais uma vez, só para se desviarem logo em seguida, eu soube o que estava acontecendo. “Chan” e “discrição” não andavam na mesma frase.

Meu corpo, no entanto, pareceu ter entendido a situação antes de mim. Um peso caiu sobre meu peito e lançou o fôlego para fora de meus pulmões em uma facilidade absurda, filtrando o retorno do ar como uma tela presa à garganta.  

Isso não devia estar acontecendo, não agora. 

O som do baixo, chacoalhando os vidros da janela e se infiltrando em meu corpo pouco a pouco, substituiu o vazio e passou a competir volume com as batidas alarmantes de meu coração, que ecoaram dentro da minha cabeça, como se fosse para isso que as costelas estivessem abrindo espaço desde o início. A letra da música veio baixa, traiçoeira, e quando pude entender o olhar de desespero de Chan, já era tarde demais.

Oh, it's been the worst day, the worst day (oh, tem sido o pior dia, o pior dia)

 

Cake on a Thursday (bolo em uma terça-feira)

Who says I can't have (quem disse que eu não posso ter)

Tears on my birthday, baby (lágrimas no meu aniversário, baby?)

 

O mais velho ainda tentava espiar o grupo de canto de olho, tentando a todo custo chamar a atenção dos garotos que, de alguma forma, continuavam brigando a plenos pulmões. 

 

La di di da

Yeah, it's my party, and I'm gonna cry (é a minha festa e eu irei chorar)

If I want to (se eu quiser)

 

Eu conhecia bem aquele movimento, já tinha perdido as contas de quantas vezes as tentativas de proteção aconteceram durante a semana, como se eu pudesse explodir só de pensar no término ou sequer me lembrar de Minho. 

Minho.

A música continuava ao fundo com uma ingenuidade forçada, criando vinhas e raízes sob minha pele e chutando para fora todo o autocontrole que eu (fingia) acreditava ter. Minha visão embaçou, e sem me dar uma segunda chance de pôr a cabeça no lugar, o desespero escapou por entre meus dedos como se tivesse vida própria.

— Ji?

Uma mão tocou meu ombro, suave, beirando a hesitação. Jeongin. Três pares de olhos caíram sobre mim, e o calor em minha cabeça convergia com as puxadas erráticas da respiração, essa que eu sequer tinha percebido voltar. O copo de plástico jazia amassado entre meus dedos.

O aperto por cima de minha jaqueta deu uma pausa à linha incessante de sentimentos, mas não para pôr um fim, porque a preocupação deles caía sobre mim quase em camadas, cada vez mais grossas, e isso pendia entre me tirar da avalanche ou me enterrar ainda mais sob a neve. Hyunjin e Jeongin me encaravam em silêncio, atônitos, e o que antes era uma ansiedade exclusiva de Bang Chan, rapidamente tomou as feições dos outros dois garotos.  

— Tá tudo bem? Que cara é ess-

— JINNIE! — O entusiasmo na voz de Chan ao sobrepor o próprio namorado fez os três saltarem, e o loiro, que antes se mantinha um mero expectador do que estava acontecendo, envolveu o pescoço do Hwang em um abraço desengonçado. — Lembra daquela música lá? Daquele cantor que você gosta?

— Cantor? Que cantor? — Hyunjin franziu o cenho, tentando manter o equilíbrio após a trombada repentina contra si.

— Aquele lá, sabe? Que você e o Felix foram ver no último festival…

— Quem é Felix? — Jeongin irrompeu, o cenho franzido. 

— Da minha aula de Audiovisual. — Hyunjin deu de ombros.

Céus, inacreditável.

— Chan, tá tudo bem, eu só-

As palavras saíram baixas, quase inaudíveis, e talvez por isso não tenham surtido efeito nenhum.

— Aquela música que você passou um mês cantando, amor. Coloca ela. Agora.

Chan olhava Hyunjin com o desespero surrado em seu rosto, apontando com a cabeça baixo, provavelmente para o bolso do maior, onde o celular devia estar. Hyunjin, por outro lado, ainda estava mais perdido do que nunca. Jeongin não estava tão diferente.

O loiro olhou na direção do Yang, buscando por socorro cobertura, e os olhos normalmente afiados se arregalaram na mesma hora. 

 

You said that 23 would be the best year (você disse que, aos 23, eu teria o melhor ano)

That ever happened to me but guess what (que já me aconteceu, mas adivinha?)

I'm 23 and that's a lie (tenho 23 e isso é uma mentira)

 

— De que porra de música vocês estão falando? — Hyunjin gritou, irritado.

Os três se entreolharam, esperando para ver quem daria o primeiro passo. Jeongin e Chan lapidados no desespero, Hyunjin preso entre a raiva e a confusão, e eu, como se nem estivesse ali, lutava para empurrar o choro goela abaixo. 

Minho, Minho, Minho…

— Galera, relaxa…

De repente, uma lâmpada acendeu sobre a cabeça de Jeongin e seus olhos brilharam com o que acreditava ser a (pior) melhor das saídas:

— BOLO! — Ele gritou, sem pensar duas vezes.

Nem mesmo a música foi capaz de espantar o silêncio que se instalou. 

— B-Bolo? — Os lábios de Chan tremeram.

— É, bolo! Já não deu a hora do parabéns? — As palavras saíram atropeladas, escapando do peito do Yang com desespero. — Hyung, me ajuda a trazer?

— M-mas… Innie, a música…

— Ótimo, vou buscar as velas. — Dessa vez, minha voz rompeu minha garganta com uma lufada de ar, e isso finalmente serviu para atrair a atenção para mim.

Pressionei os lábios um contra o outro, respirando fundo mais uma vez antes de olhar nos olhos de cada um e obrigar meus pés a me arrastarem até meu quarto.



O volume da música foi abafado pela pancada da porta contra o batente — meu coração, por outro lado, parecia tão alto que tive medo de quem estivesse do lado de fora conseguisse o ouvir bater também.

Eu precisava me acalmar, não podia deixar tudo transbordar logo agora.

Meu corpo inteiro doía, sustentando uma corrente de nervos que há muito já deixou de ser natural: queimava, pressionava e se espalhava por todas as extremidades como eletricidade. Era sufocante, e não importava o quanto eu tentasse fazê-la ir embora, qualquer tentativa só parecia a alimentar ainda mais. 

Um círculo no carpete se formava diante da repetição de passos. Era o mesmo ritmo acelerado, tão inquietos quanto as lufadas ritmadas de ar que escapavam curtas por minha boca, sendo expulsas do peito por contrações involuntárias em meu abdômen e ombros. Eu sentia as lágrimas se formando, ameaçando a caírem na primeira brecha que eu desse, e eu não poderia deixar, não poderia! Havia ficado bem até ali, mal havia pensado em Minho.

Minho…

Droga!

Eu não tinha muito tempo e sabia que minha saída não tinha sido tão mansa quanto eu planejava, todo mundo ali ia perceber que tinha algo de errado se eu não voltasse logo e obviamente teria que encarar toda aquela dó de novo como se eu fosse algo frágil, algo que pode quebrar pelo simples mencionar de um nome. Mas eu não iria, certo? Não iria. Não daria ao Minho o gosto de chorar por uma montanha de planos e sonhos que ele fez questão de deixar para trás. Ele me deixou para trás. 

Não, eu não daria.

Droga, Minho! 

Talvez se eu contasse até dez…? Droga, não, não, isso é idiota. Só respirar fundo deve ajudar.

Respira, Jisung. Respira…



Porra, isso é mais idiota ainda!

Deixei o corpo cair contra o colchão em um baque surdo, as molas causando um pequeno solavanco antes do repouso total. Eu encarava o teto com olhos marejados, o nariz ameaçando escorrer. Será que Jeongin queria mesmo cantar parabéns ou só fez aquilo para expulsar todo mundo? Já era tão tarde assim?

Puxei o celular do bolso, procurando por qualquer coisa que pudesse me distrair, mas ao acender a tela e a claridade invadir meu campo de visão, minha única vontade foi de atirar o aparelho contra a parede.

 

Min <3

Uma nova mensagem.

 

Só podia ser brincadeira.

Hesitante, digitei os quatro dígitos da senha do celular. Mais uma vez, meu coração ribombava em minha garganta, e pela primeira vez, o medo de saber o que me esperava falou mais alto. Eu tinha esperado tanto por uma mensagem, um sinal de que aquilo era só um sonho ruim e que Minho acordaria de seja lá qual fosse a ideia maluca que estivesse martelando sua cabeça, mas agora que estava diante disso, talvez fosse bom não ter uma resposta…

 

*TING*

 

Min <3

Duas novas mensagens.

 

O som da notificação soou como uma dezena de agulhas, e como se meu corpo tivesse resolvido agir por conta própria, quando dei por mim, o aplicativo já estava aberto.

 

Min <3

Feliz aniversário, Sunggie

Espero que esteja bem

 

Ri soprado. Minho era inacreditável.

O celular continuava em minhas mãos, mas agora, o brilho da tela iluminava apenas o teto. Com certo esforço, ergui o tronco até estar sentado e joguei o aparelho sobre o colchão, minhas mãos tremiam tanto que não conseguiria segurá-lo por muito mais tempo nem se eu quisesse.

Por que ele fez isso? Já não havia causado problemas o bastante? Ele queria me torturar e me lembrar que eu não conseguiria seguir em frente? Ou só estava tentando garantir isso?

Não… Minho não era assim. Ele é a pessoa mais doce e atenciosa que eu já conheci em toda a minha vida. 

Então… por quê?

Encarei o aparelho mais uma vez. O contato ainda brilhava no visor como um atrativo, pulsando no mesmo ritmo que meu coração, e em um lapso de nervoso, o tomei em mãos mais uma vez. 

Meus dedos digitaram rápido, formando sentenças que, no fundo, refletiam mais do que eu conseguiria explicar. Um compilado de tudo que havia vivido naqueles últimos sete dias, um desengasgo de tudo que restara.

 

Você havia me prometido que meus 23 anos seriam os melhores da minha vida, que seria o nosso melhor ano, e me fez criar esperanças. Só que você foi embora, Minho. Agora tenho 23 e, pelo visto, era tudo uma mentira. Então se era isso que queria, que assim seja.

 

Naquele momento, foi como se todo meu corpo tivesse criado consciência de si mesmo, enviando ondas desde meus pés até a ponta de cada fio de cabelo como um alerta, mas do quê eu já não saberia dizer. 

Eu deveria dizer, não? Ele precisava saber o que eu sentia também. 

Jeongin sempre me disse que não era justo poupar a paz daqueles que não pouparam a minha, e foi só ao clicar no botão de enviar que entendi o que ele quis dizer.

O celular voltou ao colchão, porque, ainda assim, eu não tinha certeza se queria encarar a realidade — ou uma possível resposta.

Meus lábios tremiam, e depois daquilo, eu tive certeza que não conseguiria voltar. Não conseguiria encarar meus amigos e fingir que lidaria bem com aquilo tudo, que conseguiria me manter bem pelo restante da noite.

— Sung? — A quebra do silêncio me fez saltar no lugar. Virei na direção da porta como um chicote apenas para encontrar Hyunjin com metade do corpo para dentro do cômodo, com sobrancelhas arqueadas e um sorriso travesso nos lábios. — Se a gente precisar esperar um pouco mais, o parabéns vai ser pelos seus vinte e quatro anos.

Corri o dorso das mãos pelo rosto apenas para garantir que não estava chorando, e com um sorriso — ou a tentativa de um —, apontei com a cabeça para dentro.

— Foi mal, acabei me distraindo. Eu já ia sair.

O rapaz deslizou uma perna de cada vez pela passagem, mantendo a madeira da porta contra si, como se quisesse evitar que o que estava ali fora entrasse — ou que estava do lado de dentro saísse. Ele a fechou atrás de si, e seus olhos se estreitaram tão ligeiramente que me surpreendeu ter enxergado o movimento.

— Achou as velas?

— Velas…? A-Ah, não, não achei. Devo ter deixado na cozinha, sei lá…

— E estava aqui esse tempo todo?

 Engoli em seco.

— É, eu… me distraí…

Muito convincente, Jisung.

Hyunjin suspirou e, ao vê-lo dar os primeiros passos até a cama, abaixei a cabeça em rendição. Ele se sentou ao meu lado, e eu podia sentir o seu olhar sobre mim, mas mesmo assim, ele não disse nada, nadinha. Só ficou ali, talvez esperando que eu tivesse a iniciativa. Até que, através de sua sombra, o vi mover levemente a cabeça, e soube no mesmo instante o que ele procurava.

— Posso ver?

Ele questionou, mas seu tom não indicava controle. Era um cuidado diferente… não sufocava.

Balancei a cabeça em afirmação, mas não sem antes deixar um suspiro denso escapar e desviar a atenção para um canto qualquer do quarto. Alguns segundos passaram, e eu só soube que o rapaz estava pronto para dizer algo quando o segundo suspiro dado veio dele, junto de um circular de braços em minha cintura. Meu primeiro instinto foi esconder o rosto na curva de seu pescoço, e o peso de sua bochecha contra o topo de minha cabeça veio como consequência.

— Foi mal pela música… — Ele disse baixo, quase em um sussurro. A canção que tocava no corredor já não incomodava mais. — Eu não sabia do que ela falava, só coloquei na playlist pelo nome. 

Um riso fraco escapou de meu nariz. Aquilo era a última coisa que eu esperava que ele dissesse, mas Hyunjin fazia do tipo que vivia a vida em seu próprio raciocínio.

— Tá tudo bem, acho que isso nem foi a pior parte…

Foi a vez de Hyunjin de rir.

Continuamos naquela posição por mais um tempo, uma de suas mãos subiu até meus fios enquanto a que restou subia e descia em minha cintura. Não me lembrava da última vez que havíamos feito algo do tipo, Hyunjin nunca escondeu seu cuidado e preocupação, mas enquanto Jeongin não tinha medo de agir feito uma mãe superprotetora, ele observava de longe, intervia quando precisava e sempre dava um jeito de dizer que estava ali se precisasse, apenas não com palavras. Era confortável, o tipo de amizade que não precisa de grandes demonstrações para sabermos o quanto gostamos um do outro, e talvez por isso sempre evitávamos esse tipo de situação. Talvez nenhum dos dois fosse bom o bastante com descrever sentimentos e colocar para fora trazia um tom de realidade difícil demais de encarar.

Só que ali, preso em seus braços e com um coração que clamava por cuidado há um bom tempo, algo soou diferente, e Hyunjin percebeu isso.

— Não tem que se esconder da gente, Sung. Ao menos não de mim.

E isso era o que eu precisava. Desde o começo. Nunca foi o cuidado excessivo ou a precaução, por mais ingrato que isso pudesse soar, porque ver quem eu amo se preocupando comigo sempre causou mais incômodo do que conforto, como se no lugar de me deixar ser cuidado, proteger as pessoas ao meu redor do que sinto fosse mais importante. Mas Hyunjin não se autointitulava meu melhor amigo por nada.

A primeira lágrima desceu, molhando a gola da camisa que o maior usava com discrição, mas foi só a primeira de muitas. Uma onda de soluços se desencadeou e em pouco tempo eu buscava por ar com os dedos agarrados no algodão, como se puxar Hyunjin para mais perto pudesse, de alguma forma, cessar aquela sensação angustiante e despachar os pensamentos que continuavam a atormentar.

O aperto ao meu redor aumentou, esmagando a tristeza por fora até não restar espaço algum para ela dentro de mim.

— E-Eu não queria… — Solucei uma, duas vezes. — Não queria estar assim…

— Não tem problema estar.

— Mas a f-festa… e vocês…

— Eu chutaria todo mundo desse apartamento se fosse necessário, Sung. O dia é seu, e você faz com ele o que bem quiser.

Mais soluços vieram. Meu pulmão sugava todo o ar que, até então, parecia ter tentado rejeitar, e a única coisa que me restava era esperar que só isso fosse o suficiente para melhorar. 

Hyunjin balançava nossos corpos de um lado para o outro enquanto deslizava a bochecha sobre minha testa, e com o tempo, só o que restou foram leves suspiros, tão singelos que pareciam irrelevantes. 

O maior desfez o abraço e ergueu levemente meu rosto para que pudesse me encarar, e apesar de a vergonha ainda ser presente, não evitei o contato, retribuindo o olhar intenso das orbes castanhas sobre meu rosto. Vi o canto de seus lábios se repuxarem levemente enquanto eles se pressionavam um ao outro, e assim que seus polegares deslizaram por minhas bochechas para empurrar a umidade deixada pelas lágrimas, foi como se o peso em meu peito tivesse, finalmente, um descanso.

— Ninguém precisa saber, ok? Fica entre nós.

Hyunjin beijou minha testa, e no segundo seguinte se ergueu do colchão, rodando pelo quarto com olhos de gavião.

— Jeongin disse que te deu maquiagem nova. Me mostra onde estão e prometo fazer com quem ninguém suspeite que você ainda chora nas suas festas de aniversário.

— Eu chorei uma vez! E eu tinha seis anos… — Minhas sobrancelhas se uniram, e Hyunjin me encarou com um riso atrevido.

Os minutos seguintes se resumiram em revirar de olhos, pincéis no meu rosto e ameaças para que eu não piscasse. Quando voltamos para a festa, ninguém parecia ter vontade de tocar no assunto, nem mesmo depois do parabéns.

Hyunjin não largou minha mão em momento algum.







Meus dedos tamborilavam contra a madeira do balcão da cozinha enquanto as palmas das mãos serviam como apoio para meu corpo. Todos já haviam ido embora, e o que restava eram os efeitos sorrateiros do pós-festa — um contraste seco com o silêncio que, pela primeira vez naquela semana, se agarrava em mim de forma leve.

Algumas decorações caídas ao chão e a bagunça de copos davam o toque final ao cenário: a essência do que havia sido, provavelmente, uma das melhores festas que eu já tinha planejado. E, bem no meio disso, lá estava eu, com a atenção presa em algum lugar que nem mesmo importava, revivendo risadas e brincadeiras com o coração sereno.

Um suspiro longo escapou por meus lábios. Limpar tudo aquilo beirando as duas da manhã era totalmente dispensável. Meus pés latejavam, meu corpo pesava e os resquícios impregnados do cheiro de álcool, suor e lágrimas criavam uma camada de ansiedade asquerosa demais para dar espaço à preguiça. 

Foi então que algo chamou minha atenção. Esquecida sobre uma almofada, a Canon preta, com faixas prateadas e uma lente cuidada até demais para um produto usado, repousava sobre o sofá sem preocupações, quase imune ao cenário catastrófico ao redor. Meus olhos pararam sobre o objeto por alguns instantes, vasculhando pela mente se Hyunjin havia avisado em algum momento que a deixaria ali, ou se, como tudo em sua vida, havia a esquecido para trás. No fim, se ela tinha sido tão bem cuidada até então, eu não daria um mês para vê-la dar o primeiro defeito. 

Não seria a primeira vez, muito menos a última, mas isso era algo para se preocupar no futuro, porque a única coisa que me incomodava mais do que isso agora era a urgência de me livrar daquela camada emocional sobre minha pele.

Dando meia-volta em meus calcanhares, o caminho até o banheiro foi curto, e quando as luzes se acenderam, meus ombros caíram em alívio ao ver que a bagunça parecia ter se esquecido daquele cômodo. Deixei que as roupas sujas escorregarem por meu corpo até o cesto atrás da porta, e o celular, em suas porcentagens finais de bateria, foi esquecido sobre o mármore da pia.

O som da água quente ricocheteou contra o azulejo, e a neblina do vapor não demorou para surgir, correndo por meu corpo como se lavasse muito mais do que o que remanescia no exterior. Era quase… revelador, e o contraste com a leve corrente de vento que vinha da porta deixada aberta, causando arrepios por toda a extensão de minha pele, era revigorante.

Por um momento, aquilo foi o bastante, e me permitir aproveitar o calor por minutos a mais do que o necessário era quase como um gesto de autopiedade. A noite rodava em minha mente como um filme, relembrando a euforia e o sentimento de me sentir parte de algo, porque nisso meus amigos nunca falharam. Só que depois de um tempo com a cabeça encostada contra a parede, os simples minutos a mais se tornaram intermináveis, e no lugar de arrepios reconfortantes, vieram calafrios densos.

Minha respiração alcançou um ritmo incoerente, raso, como se buscasse formas de usar a expansão do pulmão para aquecer o interior gelado. A corrente de vento, outrora amigável, castigava meu corpo como um fantasma, como se quisesse ocupar o espaço de algo que deveria estar ali.

Então veio a realização — porque algo, de fato, estava faltando, não importa o quanto eu tentasse me convencer do contrário.

Ergui a cabeça devagar, meu corpo ocupando o menor espaço possível embaixo do chuveiro. A porta continuava aberta, agora até um pouco mais, e por ela, o que passava era, na verdade, nada mais do que uma corrente de expectativas. 

Meus olhos se mantiveram fixos no vão aberto, como se, por piada do universo, eu estivesse errado esse tempo todo e ele fosse passar por ali, como sempre fez. Se me esforçasse o bastante, conseguiria ouvir os sons abafados, vindos do quarto em frente, onde as portas do guarda-roupa batiam e as gavetas se fechavam; conseguiria ouvir a voz de Minho ao entrar no banheiro com toalhas secas e um sorriso que beirava a devoção, deslizando para dentro do box e grudando o corpo junto do meu, como deveria ser.

“E se eu escondesse a câmera do Hyunjin? Uma hora ele vai procurar.”

“Você é maldoso.”

“Não é maldade se servir de lição e ele parar de largar as coisas em qualquer lugar, você e Jeongin tinham é que me agradecer.” 

“Se o Chan souber que você tá mexendo com o bebê dele, vai ser a mesma história do Natal.”

“Então deixa ele tentar, porque eu também faço de tudo pelo meu. Como está a escala de bebida hoje?”

“3, dormir agarradinho é o bastante.”

“Então vai recusar meus beijos? Ou vou poder tirar uma lasquinha do aniversariante?”

“Já tirou sua lasquinha hoje cedo, Min. Na verdade, se eu tivesse que comparar com algo, diria que você fez uma refeição inteira.”

“Nunca vai ser o suficiente, Sunggie.” 

Meu estômago revirou.

Minho não estava mais ali, mas era como se estivesse.

A toalha que havia me dado de presente no dia em que me mudei com Jeongin estava em seu lugar, assim como o shampoo que ele costumava usar quando passava as noites no apartamento. Já não sabia nem dizer se era só uma brincadeira de mau gosto do meu próprio cérebro, mas mesmo com a embalagem intocada, até o cheiro parecia escorrer através da tampa, e isso era desesperador.

De repente, meu coração parecia pesar mais que o dobro do normal, esmagando os órgãos ao redor e abrindo cada vez mais espaço para que suas batidas reverberassem — desde as paredes ocas das minhas costelas até os ouvidos. 

Minho deveria estar ali.

Minho não deveria ter ido embora.

Minho, Minho, Minho…

Meu peito ardia, e junto dele, meus olhos ardiam também. Escorriam feito cascatas, vazando pelas beiradas sem que eu percebesse. Mas eu estava exausto, e sabia que isso continuaria acontecendo pelo tempo que fosse necessário, então me forcei a continuar com o banho, e os próximos minutos seguiram daquela forma: minhas pernas lutando para se manter em pé enquanto eu tentava lavar ralo abaixo toda a dor que apunhalava meu coração. 

Permanecer de olhos fechados pareceu uma solução confiável para isso, ainda que o vento soprasse em meus ouvidos promessas vazias e memórias que ainda perderiam a cor. Só que tudo se tornou ainda mais real no instante em que o registro foi fechado e o silêncio ensurdecedor voltou a surgir. Agora, nada mais abafaria o som dos meus soluços, muito menos levaria para longe aquela nova camada de convencimento.

Tsk. Já devia ser a décima vez daquela semana. Chorar escondido no banho se tornou um hábito em meio àqueles dias ruins.

O que restou foi só a exaustão; o cansaço de uma noite agitada com o refluxo de um sentimento soterrado. Meu corpo ainda pingava quando me dirigi ao quarto, a toalha presa à cintura quase por um fio, absorvendo algumas gotas que insistiam em cair — e aquelas que não eram capturadas, deixavam um rastro melancólico para trás, como se jogassem na minha cara que elas só estavam ali porque ele não estava.

E, porra, isso doía tanto.

Por que tinha que doer assim?

A ausência das pessoas nunca foi algo que me incomodou. Nunca vi a mínima obrigação em tentar manter ao redor pessoas que não queriam estar por perto, e isso nunca foi motivo para inseguranças. Então por que, de repente, sua partida parecia deixar um buraco tão profundo? Como se, ao partir, Minho também tivesse levado um pedaço de mim consigo.

Meu quarto retratava isso perfeitamente: em cada canto, era como se uma nova memória fosse resgatada. Minho na janela, abrindo as cortinas antes mesmo do raiar do sol, já que sempre amou assistir ao amanhecer; na minha escrivaninha, escondido entre pilhas e pilhas de livros, já que estudar nunca parecia o bastante para ele; e sobre a minha cama, porque no fim do dia, ele sempre estaria esperando por mim.

Mesmo nos piores dias, ou nas piores condições, Minho sempre estaria esperando ali, para me abraçar, me beijar e me fazer carinho até ter certeza de que eu havia dormido primeiro; ele estaria ali esperando só para mostrar o quanto me amava. 

E o que sobrou disso era uma camiseta, dobrada em uma pilha de roupas limpas sobre a cadeira — uma que Jeongin devia ter deixado ali enquanto arrumávamos a casa para a festa. O tecido era macio, e o pequeno relevo da impressão com os dizeres “vida longa e próspera” se arrastavam sem dificuldades por meus dedos. Minho sempre foi um grande fã de Star Trek, já eu, nunca entendi todo o lance com o Spock. Agora, as horas intermináveis de maratonas já não pareciam tão ruins.

A camisa deslizou pelo meu corpo com facilidade, arrastando com o colarinho um pouco das lágrimas que manchavam minhas bochechas. Por mais que o cheiro do amaciante fosse forte, ainda haviam traços do perfume de Minho que resistiam em cada fibra, inundando meus sentidos e se agarrando em mim como se estivessem esperando justamente por aquele momento para poderem sumir por completo.

Minho, Minho, Minho…

Era esquisito. Se me perguntassem um mês atrás, nunca diria que poderia haver um espaço de tempo onde eu e Minho não estivéssemos juntos. E apesar disso, sua ausência ainda marcava de forma diferente. Talvez fosse necessário, ou talvez fosse só um momento — e uma decisão — muito, muito ruim para nós dois. Acho que nunca vou saber. Pensar assim fazia a solidão já não parecer mais tão severa. Um último abraço era o que eu precisava, e a camisa poderia ser uma boa substituição.

Algumas gotas ainda caíam de meu cabelo, molhando o carpete sob meus pés e marcando sua passagem pela camisa. Vesti as últimas peças do pijama antes de esfregar a toalha na cabeça sem tanto cuidado, muito menos com a preocupação de, de fato, o secar. Com um último suspiro, os passos até a cama saíram leves. Meu nariz ainda buscava formas de respirar devidamente e fazer o choro cessar era quase impossível; o controle do meu corpo já não era mais meu há um bom tempo, mas no fim, não parecia mais com um pesadelo. 

Não até o som estridente da campainha ecoar pela casa e estourar a bolha de meus devaneios. 

Com o joelho em meio caminho para subir ao colchão, meu corpo resetou. Os dedos ainda se apoiavam sobre o edredom macio, e talvez, apenas talvez, se eu esperasse tempo o suficiente, quem quer que fosse que estivesse na porta pudesse ir embora — e, mais uma vez, meu corpo parecia tomar as próprias decisões, porque prender a respiração e me manter imóvel, como se pudesse passar despercebido, não pareceu fazer tanto sentido depois de me dar conta do que estava fazendo.

A campainha soou mais uma vez, e dessa vez, parecia mais impaciente. Depois outra, e mais outra. 

A câmera. Hyunjin devia estar ali para buscar a maldita câmera

Um bufar escapou dos meus lábios e meu pé voltou ao chão. Os dorsos das mãos serviram para esfregar as bochechas, buscando um jeito de limpar as lágrimas antes de chegar à sala de estar.

— Droga, Hyunjin. Já vou! — Pouco me importava o horário, grande parte dos meus vizinhos estudavam na mesma faculdade que eu, então gritos durante a madrugada não eram tão incomuns assim.

A campainha soava incessante, e antes de abrir a porta, corri até o sofá para pegar a bendita Canon, pisando forte contra o chão.

— Toca essa droga de campainha mais uma vez e eu juro que taco essa câmera pela-

Meu corpo congelou.

Do outro lado, o rapaz me encarava de olhos arregalados, a mão ainda pendurada contra a campainha que já não emitia mais nenhum som. Sua respiração estava descompassada, os ombros subindo e descendo em desarranjo enquanto o peito parecia ter sido vítima de uma maratona. 

Não era Hyunjin. Estava muito longe de ser.

— M-Minho…?

— Oi, Sunggie… A gente pode conversar?






Notes:

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