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moonlight in the woods

Summary:

essa.one shot curtinha se passa em um espaço da minha imaginação onde Joyce sai todas as noites da casa dos Wheelers para ir dormir com o Hopper; e não se limita aos eventos cronologicos da série, eles, por exemplo, ainda não sabem quantas missões tem pela frente e se há a possibilidade de deixar hawkins, por enquanto.

Notes:

não se esqueçam de ler a nota final <3

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

O sofá dos wheelers era duro feito pedra maciça e toda noite quando Joyce se deitava sobre ele, aceitando-o como sua agora cama improvisada, sentia as molas internas a um rasgo de perfurarem a superfície e lhe cutucarem a costela. Era ameaçador. Mas todas as manhãs quando Karen a procurava para gentilmente perguntar como havia sido sua noite, Byers dizia nem mais sentir falta de sua antiga cama e juntas, à mesa do café, fingiam em silêncio alguma satisfação com aquela situação constrangedora. No entanto, outra coisa era parcialmente verdade: que aquela era a cama que Joyce dormia, porque a mulher só fechava os olhos em sono profundo há 3 km de distância daquela casa, em uma cabana de madeira floresta adentro. 

 

À noite, sentados sob a mesa de jantar, a conversa era ritualística. Todos, jovens e adultos, envolvidos nas missões, repassaram os termos de um acordo antigo e silencioso de não assustar os anfitriões e a pequena Holly sobre o que acontecia bem debaixo de seus narizes. Um a um contavam o que podiam, ou inventavam, quando o que tinham a dizer não parecia suficiente para justificar o sumiço por um dia inteiro. Joyce voltara a trabalhar com vendas, embora não fosse vista com algo a vender ou dinheiro, nunca; Mike e Will contavam sobre as supostas classes avançadas enquanto mal conseguiam suportar as regulares; o que dava a Jonathan e Nancy, 10 minutos cheios para relatarem as responsabilidades que assumiam agora que ajudavam Robin com os noticiários da Squawk. Aos três Wheelers alheios, parecia um dia agradável e pareceria enquanto eles não notassem o peso nos ombros do restante do grupo que só aliviava ao saírem daquela mesa. 

 

Todos iam dormir às 22:00, pontualmente, mas Joyce duvidava que o sono dessa casa tivesse tão pouco livre arbítrio, por isso, esperava que o relógio marcasse as 23:00 e então, se sentia confiante de arrancar com o carro sem que fosse questionada na manhã seguinte. Durante quase um ano, ela percorreu esse mesmo caminho, assistindo acordada enquanto a pequena Hawkins dormia. Na primeira vez que fez isso, pela súbita angústia que a ausência de Jim lhe causara, ele apareceu do lado de fora da cabana vestindo apenas uma cueca boxe e empunhando uma arma em sua direção completamente atordoado pelo sono interrompido, ela cogitou não ser uma mulher que se excitava por armas e coldres, apenas para descobrir que era sobre ele, o que ele a fazia sentir e naquela noite, se permitiu sentir. E desde então, seu corpo grande sempre a esperava, pontualmente, sentado nas escadas da entrada. 

 

Exceto que dessa vez haviam duas silhuetas a esperando sobre os degraus. Pai e filha sentavam lado a lado. Como toda sexta-feira, é claro, enquanto miami vice existisse, recordou. 

 

A medida que saltava do carro e se virava fechando a porta, saltos rápidos vinham em sua direção quebrando as folhas pelo caminho. El a abraçou ainda de costas, tão apertado que seu cheiro de baunilha a envolveu nessa pequena bolha materna que elas nutriam. “Quando você vai vir morar com a gente?”

 

Se virando para retribuir o abraço, ela deixou um rastro de beijos no rosto da filha que agora ultrapassava seu tamanho, sem notar que a bolha havia crescido e um telespectador estava pronto a responder sem que ela tivesse a chance: “Sempre me pergunto a mesma coisa… Quando você vai finalmente morar conosco?” E a tomou com as duas mãos, aproximando seus rostos para beijá-la com ternura, um beijo que sabia ser vigiado e por isso durara tempo suficiente pra que seus corpos sentissem a mais fina das correntes elétricas que eles podiam produzir.

 

“Você acha que ela gosta mais dos Wheelers?” El murmurou ao pai enquanto caminhavam para dentro.

“Eles certamente são mais ricos!” Os dois gargalharam juntos mas só até sentirem a pequena mão gelada que puxava suas orelhas com suavidade. “Eu posso ouví-los” E então os três compartilhavam da mesma risada.

 

A cabana parecia ainda mais confortável por dentro, com suas luzes amareladas contornando a sala e os quartos e parcialmente, a cozinha. Isso lembrava Joyce do que tanto costumava a amedrontar quando entrava por essa porta: a sensação de que poderia apenas ficar, por tempo indeterminado, para sempre. Mas aqui estava ela em sua quase trigésima noite de Miami Vice em família, desejando que essa não fosse mais uma memória particular entre os três, que Will e Jonathan pudessem gostar de estar ali todos os dias, tanto quanto ela. E então a voz da menina a surpreendeu:

 

“Preciso dormir, mas queria te ver antes!” Seu rosto ansioso parecia esconder alguma coisa, El nunca tinha sido boa em mentir, uma das primeiras lições que aprendera tendo uma vida “normal”. Isso fez Joyce franzir em confusão:

“Desde quando você perde um episódio de Miami Vice?” Mas Hopper parecia apenas concordar com aquela ideia repentina “O que não estão me contando?” 

 

“El disse que precisava de um momento só para ela, sozinha em seu quarto e me perguntou o que eu achava sobre isso. Eu disse que por mim tudo bem, mas ela tinha receio de que você não aceitasse.” Mas a confusão em suas feições era transposta por uma incredulidade adorável: “Como assim ‘se eu não aceitasse’? Querida, somos seus pais, não os seus ditadores, essa tradição se iniciou porque você gostava e se encerra quando você não mais gostar.”

 

O não que saiu da boca da adolescente logo em seguida parecia desesperado, quase culpado, seus olhos se fechando mais ao falar, o inclinar da sua cabeça. “É só por hoje…pode ser?” 

 

Joyce se aproximou mais e afagou seus cabelos “Claro, que pode! Se essa for a sua vontade.” E em um abraço tão apertado quanto o de boas vindas, a jovem se despediu dos pais em direção ao quarto.

 

O problema era que, aquilo não passara despercebido pela mulher. As interações repetindo-se em sua mente, El abandonando a maratona com explicações vagas, sua fala ansiosa, postura hesitante, uma parte dessa história parecia escapar. Qualquer coisa que pudesse ter acontecido entre ela e Hopper automaticamente tinha sido descartada como possibilidade, os dois a receberam com o mais cínico dos humores, não poderia ser. 

 

Mas era difícil procurar uma explicação enquanto Miami Vice ainda passava na televisão. Sua mente buscava razões e seu corpo descansava sobre a poltrona velha de Hopper, permitindo-se entreter exatamente como faziam toda sexta feira a noite, e talvez conseguisse recuperar o contexto que perdera do episódio se não fosse trazida de volta por um barulho no quarto do casal “Hopper, você pode vir aqui por favor! Eu tenho certeza que aconteceu alguma coisa com El e preciso que você me ajude a descobrir. Talvez os treinos estejam muito intens…” Seu discurso foi calado pela sensação de uma venda preta que cobria seus olhos. Ela tateou e sentiu as mãos dele amarrando o tecido escuro em sua cabeça. Uma risada gutural subindo pela garganta da mulher “Jim, isso não tem graça, precisamos conversar sobre a El!”

 

“E vamos! Mas antes eu preciso te levar a um lugar mais…apropriado.”

 

“Mais apropriado você diz lá fora naquele matagal?” Ela apontava sem saber exatamente para onde.

 

“E eu também preciso que você se cale e confie em mim!

 

“Meus sapatos estão do lado de fora, mesmo que eu quisesse te seguir isso não aconteceria sem que você antes tirasse a minha venda.” Isso era o que ela pensava, até sentir uma força rígida a arrancar do chão e a pôr em um espaço quente e musculoso. Hopper a carregava em seu colo sem parecer intimidado pelo seu peso.

“Não será um problema agora” A beijou suavemente. “Você confia em mim?”

 

“Sim…”

 

“Então preciso que se cale!” E dessa vez a mulher só sacudiu a cabeça em resposta. 

 

Instintivamente, enquanto se agarrava ao que só podiam ser seus ombros e sentia o choque entre os seus corpos conforme ele caminhava, cogitou perguntar para onde iriam mas tinha dito que confiava nele e era verdade, apenas não confiava em não estar no controle, primeiro do que acontecia com sua filha, segundo de um destino surpresa no meio da noite. Atenta aos sons, percebia que não só haviam saído da casa como caminhavam em direção a floresta pelo rasgar das folhas caídas sempre que eram pisoteadas. Seus passos eram rápidos e cadentes e então tornaram-se desacelerados como se encontrassem o que buscavam, mas um movimento inclinado a pegou de surpresa, como se eles passassem por alguma entrada. Imediatamente se agarrou mais forte ao seu peito e ele prensou-a mais perto, enquanto usava uma de suas mãos para pôr protetivamente sobre a sua cabeça antes de pousá-la sobre algo macio. “Chegamos.” Ele disse antes de desamarrar a venda.

 

Ao encarar o que se tratava aquele lugar misterioso seus olhos não pareciam acreditar. Estavam dentro de uma barraca de acampamento suficientemente grande para 8 pessoas, duas de suas laterais eram foscas, com telas firmes e a frente e os fundos fechavam dando privacidade a quem estivesse dentro. Do lado de dentro e de fora, pequenas luminárias tinham sido posicionadas para gerar conforto, romance, mas a lua era a protagonista. O que Joyce havia sentido macio quando entraram, era um colchão de casal perfeitamente encaixado para que, com seus poucos centímetros de altura, houvesse um distinção entre o que era cama e o que era “chão” - onde estava posicionado uma toalha flanelada com água e pizza do restaurante favorito dos dois. Do lado de fora, a vista era do exato local onde a floresta se abria em um círculo mal circunscrito e o céu estrelado podia fazer uma aparição especial por entre as copas densas. E então, havia o homem ajoelhado ao seu lado que esperava alguma reação, qualquer uma. Como tiraria o fôlego dele de volta? Exatamente como tinha feito com o seu. Engatinhando em direção a ele, tocou as suas pernas, seu peito e, enfim, o pescoço, olhando-o nos olhos. Selando um beijo apaixonado, não porque, ainda viviam um relacionamento de paixão, mas pela capacidade que a paixão tinha em transpor as estruturas sólidas do amor. As suas línguas nunca satisfeitas em tocarem cada vez mais fundo, ao ponto em que os dois gemeram simultaneamente. Sincrônicos como o tempo que os separara, só para então os unir. Ela agarrada ao seu pescoço e ele a puxando pela cintura, selando uma distância fictícia, que o desejo o fazia sentir que existia, porque seus corpos estavam colados naquele colchão, suas pernas entrelaçadas enquanto a mulher se sentava sobre ele. 

 

Mas uma hora, eles sabiam, o silêncio que ela o prometeu, contra a sua natureza, emergiria à superfície com perguntas intermináveis. Esse foi apenas um dos motivos que os separou, além do fôlego necessário. Com os rostos próximos o suficiente para írises marrons e verdes se encararem, ela quebrou o silêncio:

 

“Vocês dois mentiram pra mim!” Sem um tom de ressentimento na sua voz, apenas, amor.

 

“El não tem culpa, eu precisava poupar minha velha energia para quando fosse te carregar até aqui.” Ela afastou mais o rosto, sem acreditar no que ouvia “Você sabia que eu não viria voluntariamente?” Mas ele apenas piscou travesso e continuou o seu discurso:

 

“Esse foi o dia em que mais estivemos próximos, sem preocupações, sem treinos, só pai e filha compartilhando um pequeno segredo e um único motivo em comum: você. São assim todas as noites em que seu carro estaciona na frente de casa, ou todos os dias em que descansamos depois que saímos daquele ferro velho cheio de inimigos em cabeças de abóbora ou quando a família toda está reunida, eu, você, El, Will e Jonathan. E eu não sei o que nos resta dessas missões ou quantas restam, mas achei que poderia te convencer de que era a hora de nos reunirmos em um lar…Só que eu lembrei que convencê-la não era bem o caminho, então eu pensei que poderia te mostrar o meu coração, que é exatamente como essa cabana, meio rígida e difícil de encontrar por entre essa floresta, mas grande o suficiente para caber até 8 pessoas, a sorte é que somos apenas 5 porque senão eu teria que fazer uns ajustes aqui e ali.” Sua risada divertida a essa altura era salgada porque caíam as lágrimas sobre a boca enquanto falava.

“E então, o que me diz?”

 

Mas há muito, ele já havia aprendido que nem sempre ela o diria algo, do contrário, o soluçar em seu peito, a cabeça sacudindo positivamente repetidas vezes e o beijo. O beijo com a certeza de que qualquer que fosse seus destinos, ainda seria esse o desfecho. A certeza que passava de um coração ao outro. Esse era o seu “sim”.

 

“Não acredito que vamos dormir à luz da lua.” Joyce sorriu com o rosto úmido em sua direção ainda sem acreditar no que havia vivenciado em apenas uma noite.

 

“Talvez mais do que dormir estivesse nos meus planos.” Beijou as mãos da mulher sem desviar o contato visual, seus olhos verdes olhando-a de cima a baixo, agora numa coloração tão escura quanto a noite que os zelava. 

 

 

 

 

 

Notes:

essa história pode ou não ter um segundo capítulo em que eles transam na cabana a luz da lua, isso depende exclusivamente do quanto vocês vão gostar da história! então me deixem saber