Work Text:
"Você acredita em Deus?"
"Acho que no momento, não."
"Eu também não acreditaria...
Mas se tem tanta coisa horrível vindo do outro lado, tanta dor e medo, tem que ter alguma coisa boa na mesma moeda."
"E se não tiver... Que essa porra seja a gente."
Mas o que acontece quando essa coisa boa se vai?
Se alguém arranca as pétalas de uma rosa, tudo que sobra são espinhos, e é isso que ele acreditava ter se tornado. Uma raiz extorquida, apodrecendo a cada dia que passe.
Porque a única flor do jardim dele havia perecido.
E aquele que provocava o seu melhor lado, agora só existia em fragmentos que aos poucos pareciam se quebrar dentro dele.
Remi perdeu os dois lados de sua moeda. E agora, ele não era nada. Pelo menos, era assim que se sentia. Todos os dias, o tempo todo. Cada segundo que passava era como sobreviver a um inferno, nem mesmo as missões que lhe eram oferecidas pareciam distrair sua mente da fatídica realidade que assombrava suas manhãs, acordando sozinho na cama com a sensação fantasma de uma presença que nunca esteve lá.
Hoje não foi diferente. Ele não se lembra, mas acha que dormiu chorando de novo, já que acordou com a sensação ardente em seus olhos inchados, a visão levemente embaçada antes de se focar no machado ao qual ele dormiu encarando mais uma vez. Remi estava encolhido, um casaco vermelho jogado sobre seus ombros como um cobertor enquanto ele centraliza o olhar em um ponto específico.
Ele sonhou com Jasper mais uma vez.
Era como no dia onde eles conversaram no andar de cima da casa que construíram, desabafando sentimentos um para o outro sob o olhar das estrelas. Mas diferente do que realmente aconteceu, estavam em seus corpos originais.
E o homem estava tão lindo à luz do luar. Sua voz era suave, sua expressão calma e até esperançosa, e seus olhos... Azuis, vibrantes, tão vivos.
Ele nunca tirava os olhos de Remi.
Não até ele acordar, como toda vez. Parecia uma brincadeira cruel de sua própria cabeça, esperando o momento exato para desperta-lo de um conforto fantasioso, seu único modo de consolo nesses últimos dias tão sombrios.
Ele normalmente sonhava com Maria também, mas desde de um... Certo incidente, as lembranças com Jasper ficaram mais fortes.
Claro, ele só tinha a si mesmo para culpar, buscando mais dor quando já tinha cicatrizes suficientes.
Ainda se lembrava do aperto no peito quando avistou Jasper, ou melhor, seu corpo caminhando pelo corredor, trazido por Agatha como uma solução para acalmar o ocultista que o ameaçava de morte.
Obviamente, mesmo não querendo aceitar, ele sabia que não era mais Jasper ali. E sim, Aguiar. O assassino. O Mutilador Noturno. O monstro que tirou tantas vidas. O homem que, ao usar a pele de seu amado, ainda conseguia fazer seu coração bater como se fosse ser respondido, esperando pelo som de uma palpitação que já não era mais direcionado a ele.
Ver aqueles olhos o ignorando, em favor de outra pessoa, foi o sentimento mais doloroso que poderia suportar.
Essa sensação que o fazia acordar cedo por vários dias seguidos, perturbando seu sono como uma voz que nunca deixava sua mente em paz, sussurrando arrependimentos de ações que poderiam ter sido feitas, mas nunca botadas em práticas. Murmurando ideias que pareciam cada vez mais sedutoras e perigosas, mas que a esse ponto, qualquer risco que fosse correr já não importava mais.
Tudo que ele queria era, só por um momento, cobrir esse vazio em seu peito.
Remi põe as pernas para fora da cama antes mesmo de terminar o pensamento, hesitante por um milésimo de segundo antes de se levantar, deixando o casaco cuidadosamente colocado ao lado do travesseiro e observando a lâmina do machado uma última vez.
Ele espera ser o único com problemas para dormir a essa hora, por que com certeza se arrependeria disso mais tarde.
[ . . . ]
Seus passos, apesar de rápidos e firmes, são silenciosos enquanto passa pelas celas dos corredores. Se ele ganhasse uma moeda a cada vez que caminhasse pela prisão da ordem enquanto pensava que estava seguindo em frente com uma péssima ideia, ele teria duas moedas. O que não era muito, mas era uma boa coincidência.
Remi sabe que, depois do que aconteceu, Aguiar e Labirinto foram deixados de volta em suas respectivas celas, ninguém podia arriscar deixar dois assassinos presos lado a lado, por mais que os dois homens demonstrassem agressividade ao serem separados.
Sua mão se fecha em volta do molho de chaves, o suficiente para anular qualquer tipo de barulho metálico. Tinha que ser discreto. Já não bastava o quão suspeito foi pedir ao guarda acesso para um dos prisioneiros, ele tinha sorte de saber improvisar bem.
Ele para em frente a cela do ocultista marcado, sentindo um déjà-vu quando o vê de costas e murmurando coisas como no outro dia qua havia vindo conversar com ele. Dessa vez Labirinto, ou como ele ainda o chamava, se vira no instante em que o percebe. Ele esperava uma expressão de raiva, devido ao que aconteceu em seu último encontro, mas o homem o encara com um olhar neutro, como se esperasse por suas palavras.
– Eu queria te pedir um favor. – Ele se certifica de estar alguns passos longe das grades de metal, o suficiente para que o ocultista não pudesse agarra-lo como antes. Melhor prevenir do que remediar. – Isso inclui o seu... Parceiro. E antes que tente me enforcar de novo, peço que ao menos me escute primeiro.
Labirinto franze a testa, parecendo pensar por um momento antes de acenar com a cabeça.
– Prossiga.
[ . . . ]
Sinceramente, estava ficando um pouco chato ficar dando caminhadas pelos corredores, passando de cela em cela e sendo encarando pelos prisioneiros, mas pelo menos ele conseguiu fazer a primeira parte.
Agora, vinha a mais difícil.
Era bom que eles em específico ficassem separados do resto dos cativos, assim não havia chance de ninguém escutar ou ver. E a medida que avista aquela figura familiar, ele tenta forçar seu coração a não bater mais rápido dentro do peito.
Jasper— Não, Aguiar estava deitado sobre a cama de sua cela, braço cruzados atrás da cabeça, com uma perna jogada sobre a outra, encarando o teto enquanto seu pé balançava impacientemente. Ele podia imaginar que, para alguém que vivia pela adrenalina e violência, aquilo devia estar sendo uma tortura. Com os sons de seus passos, Aguiar o percebe, seu semblante já irritado sendo substituído por uma carranca ao se sentar sobre o colchão.
– Que cê quer? Não é um pouco cedo pra inspeção, não?
Remi precisa se conter de encolher os ombros para o tom maldoso na voz que antigamente soava tão doce. Ele precisava se lembrar de que não era mais ele ali. Era como se sua mente ainda estivesse se negando, precisando de uma constante reconfirmação, e odiava isso.
– Não é inspeção. – Ele diz, mantendo a voz firme apesar de sentir um tremor querendo escapar. – Eu estou aqui por outro motivo.
Aguiar estreita os olhos, se levantando e dando passos pesados até estar de frente para o homem através das grades.
– Olha, ao menos que você seja um agente traidor que vai me dar uma chance de fugir desse lugar maldito em troca de alguma coisa, eu não tô com a mínima vontade de conversar.
O homem realmente se comportava como um cachorro feroz na defensiva, dentes cerrados, cabeça erguida, quase rosnando em suas palavras. Não sabia dizer se era um efeito do uso contínuo da máscara, ou se ele apenas foi treinado para ser assim.
– Bom, não vou te ajudar a escapar, mas isso ainda pode te interessar. – Aguiar está prestes a virar de costas, quando ele fala rapidamente. – Pelo menos, interessou para o ocultista.
O corpo de Aguiar ( que irônico falar isso ) congela, antes de se inclinar e apertar as barras de metal em suas mãos.
– Do que exatamente estamos falando aqui? O que você ofereceu a ele?
– O mesmo que vou oferecer a você. Informações. – Remi cruza os braços, finalmente desviando o olhar por um segundo para respirar. – Sei que desde que voltaram nesses corpos, ninguém os deu nenhuma resposta. Seu parceiro nem mesmo sabia que você estava vivo antes daquele dia. Então, posso dar informações relevantes, contanto que não conte para ninguém.
O rosto do homem se contorce em uma expressão desconfiada, franzindo as sobrancelhas como se tentasse identificar algum tipo de enganação nas palavras.
– Você vai me oferecer informações? Isso parece algo que um traidor faria. – Ele diz de maneira sarcástica. – Mas se não é isso, então o que você quer em troca?
Era essa a pergunta que ele temia escutar. Como caralhos explicaria isso?
"Eu sei que você é um assassino cruel e sem coração, mas poderia por favor me deixar te abraçar e te dar um beijo já que está no corpo do homem que eu amava e eu perdi a oportunidade de fazer isso?"
Não, tinha que ter um jeito melhor. Um onde ele não terminava com a cara batendo contra as barras de metal, de preferência.
– Você não deve se lembrar de mim, mas eu estava lá quando você acordou. Estava... Esperando encontrar outra pessoa. Esse agente com quem você trocou de corpo. Eu conhecia ele, era alguém importante pra mim. Mas agora ele se foi, e eu... Eu preciso...
Puta merda, Isso era humilhante.
– Eu quero ter a sensação de que estou com ele de novo. É por isso que vim aqui, te pedir isso... Pedir pra que me ajude com isso.
O silêncio que se instaura em seguida quase o obriga a dar meia volta e ir embora, ignorando tudo que acabou de dizer. Se isso não ferisse tanto seu orgulho é claro. Então ele permanece no mesmo lugar, esperando pelo que parece uma eternidade.
Mas quando ele começa a ouvir risadas, o arrependimento é quase imediato.
– Você... – Aguiar estende uma mão sobre o rosto, começando a praticamente gargalhar como se não estivesse acreditando no que acabou de ouvir. – Você me pediu isso mesmo? Porra, não é possível...
A cabeça de Remi se abaixa, os ombros ficam tensos quanto mais aquela risada histérica continuava a ecoar pelas paredes. Normalmente, ele sentiria raiva, ódio, ao ser tratado de uma forma tão humilhante por alguém como Aguiar. Ele o agarraria pelo pescoço, aumentaria seu tom de voz e o colocaria de volta no lugar dele.
Mas agora? Ele não tem forças para isso.
Não quando sua visão começa a embaçar pela sensação de lágrimas ainda não caídas, seus pés dando passos fracos o suficiente para se apoiar contra as grades, perdendo completamente a preocupação pela medida de distância enquanto seu braço se estica por entre elas, alcançando a mão de Aguiar, apertando-a contra a sua em apelo.
– Por favor... – A voz dele sai entre um soluço baixo. – Eu... Eu te imploro, por favor, por favor...
Os joelhos de Remi caem com força sobre o chão, ainda segurando aquela mão que ele sonhou tantas vezes em segurar, beijar, sentir a suavidade de sua pele macia sobre seus lábios. Remi sabia que estava em uma situação patética, mas a essa altura, não se importava mais com seu orgulho. Não era mais uma simples ideia corroendo sua mente, era um pedido. Era uma necessidade.
– Eu te falo tudo que você quiser saber, posso tentar melhorar sua condição, pedir pra eles te colocarem em uma cela mais confortável, perto do seu parceiro... Eu— eu até digo o que aconteceu com a sua cadela, é Princesa, não é? Ela foi resgatada, tá sendo cuidada em um abrigo, eu descubro mais, se for preciso, mas por favor... Eu preciso disso. Eu não sei mais o que fazer.
O estado do homem era digno de pena, escorado nas barras, ofegando tão pesadamente que se assemelharia a um ataque de pânico, seu choro sendo o único som a acobertar o silêncio do lugar.
Silêncio.
A cabeça dele se ergue. Mesmo através dos olhos marejados, ele é capaz de avistar o olhar incrédulo de Aguiar, o rosto em uma expressão chocada, sem mais resquícios de risadas ou zombaria. Ele não sabe dizer qual parte de seu discurso possa ter causado aquela reação, nem mesmo se alguma de suas palavras sequer o afetou, ou foi apenas o quão miserável ele soava que tenha surpreendido o mesmo. Sua mão ainda está firmemente agarrada a dele, como uma última súplica desesperada.
– ... Anda logo com isso.
Remi arregala os olhos, quase desacreditada ao ouvir, mas seu corpo se move mais rápido do que sua mente, imediatamente se levantando enquanto suas mãos trêmulas vasculhavam o bolo de chaves em suas palmas até encontrarem a certa. Ele está prestes a pedir para Aguiar se afastar antes de perceber que o homem já havia feito, de volta em sua cama. Então, respirando fundo, Remi encaixa a chave na fechadura, gira, e abre, com um olhar atento para qualquer movimento indesejado, antes de fechar a porta novamente.
... E aqui está ele agora.
Na frente de um assassino em sua cela, no corpo do falecido amor de sua vida, que no caso concordou em ajuda-lo nesse mecanismo de defesa fodido. Meu deus, o que ele estava fazendo?
– Então... – A voz de Jasper— Aguiar o tira de seus devaneios, parecendo tão perdido quanto ele. – O que você quer que eu faça?
Remi o encara, quase surpreso com a pergunta estranhamente singela. Claro, ele devia estar fazendo isso pelo o que lhe prometeu.
Terminando de enxugar as lágrimas, Remi se move de maneira meio constrangida para se sentar ao lado de Aguiar na beirada da cama, ele próprio sem saber o que dizer ao certo.
– Eu... Eu acho que ele nunca soube o que eu sentia de verdade por ele... Ou talvez soubesse. – Ele quase divaga, engolindo em seco e sentindo a garganta apertar. – Então, só quero sentir que estou com ele de novo... Ok? Você não precisa fazer nada demais. Apenas... – Virando a cabeça para Aguiar, ele hesita por um instante antes de estender a mão. – Hmn... Um abraço, pra começar? Você já deve ter abraçado alguém, né?
– Não é algo que eu costume fazer. Mas claro, eu sei como um abraço funciona. – Ainda estranhando a situação, os braços de Aguiar lentamente se abrem em um convite não tão entusiasmado. – Bem? Ta esperando o que?
Remi o encara, os olhos intercalando de seu rosto a seus braços abertos antes de balançar a cabeça com um suspiro.
– Você pode... Você consegue pelo menos fingir querer isso?
– Ah, desculpa? – Não há nenhum real tom de arrependimento quando ele diz. – Eu não sou a pessoa mais carismática do mundo, garoto. E eu não sei como esse moleque—
– O nome dele é Jasper.
Aguiar solta um grunhido frustado.
– Eu não sei como esse Jasper costumava agir. Por que você não me conta, já que quer tudo tão perfeitamente bem feito?
Os dedos de Remi se apertam contra os lençóis do colchão, mordendo o interior da bochecha, pensativo.
– O contrário de você, eu acho. Gentil, carinhoso—
– Definitivamente o contrário de mim. – Aguiar completa, os braços caindo ao lado do corpo, parecendo cogitar suas escolhas por alguns segundos, antes de ergue-los novamente.
Dessa vez, realmente aparenta ter algum esforço ali. Ele curva os lábios em um sorriso enquanto oferecia o abraço. Não era nenhum pouco convincente, óbvio, mas ainda assim... Ter o olhar e o sorriso de Jasper direcionado a ele pela primeira vez depois de todo esse tempo definitivamente o afetaria de uma forma.
Quase perdendo o fôlego, Remi tenta guardar aquela imagem na memória, convencer seu cérebro só por um momento de que aquele era Jasper, genuinamente o chamando, antes de se inclinar e abraçar o homem de volta. Seu coração pesa com o contato, sentindo os braços fortes envolve-lo, e seu rosto se aninha contra os fios de cabelos platinados para um suspiro profundo.
Ele sonhou tanto com isso, mais do que conseguia contar.
Jasper definitivamente seria bem mais acolhedor, o apertaria mais forte como se tivesse medo que ele sumisse, sussurraria palavras doces em seu ouvido. Ainda assim, ele se força a acreditar que é real, pelo menos nesse instante. Que em algum lugar, uma parte de Jasper também estava o abraçando de volta.
– Queria sentir isso mais uma vez... – Ele deixa escapar sem pensar, fechando as mãos em volta da gola preta do homem e encostando a testa em seu ombro. – Eu me arrependo tanto de não ter feito mais, te abraçado mais, quando você ainda estava comigo.
O aperto do abraço se afrouxa. Ele pode imaginar quão estranho devia estar sendo tudo isso para o outro, e não julgaria. Quem em sã consciência pediria para um assassino conforta-lo? Apenas alguém beirando a insanidade, como ele. Talvez tivesse realmente enlouquecido, sentindo o corpo voltar a estremecer com outra onda de lágrimas em seus olhos ao erguer a cabeça para olha-lo.
– Eu sei que eu não mereço, mas... Você pode dizer que me perdoa?
Ele assiste aqueles olhos azuis se arregalaram, incrédulos com a situação onde se encontravam. Ele tem quase certeza de que ouve o homem sussurrar um palavrão, se abstendo a dizer palavras afiadas como se tivesse desenvolvido um pingo de compaixão por seu estado deplorável.
– Te perdoar pelo o que? – É o que questiona quando os separa do abraço, sua voz adquirindo um tom baixo como se isso fosse o equivalente a gentileza.
Remi não sabe dizer se Aguiar perguntou isso como ele mesmo, ou se era parte da atuação. E de certa forma, ele sente que não se importa para quem estava extravasando seus sentimentos agora.
– Me perdoe por não ter te dado o amor que merecia, por ter deixado você ir... – Com um soluço, Remi escora a cabeça contra o peitoral do loiro. – Você merecia muito mais.
Uma mão hesitante pousa em sua nuca, se arrastando para cima e para baixo de uma maneira inexperiente, quase como se estivesse desacostumado a reconfortar alguém, talvez nunca tenha feito.
– Isso te faria se sentir melhor?
– Sim. – Ele não pensa duas vezes antes de responder.
Porque, por mais que não merecesse esse perdão, ele queria. Precisava. E seu egoísmo falaria mais alto, até mesmo aqui.
– Então, eu te perdôo.
Suas lágrimas caem de novo, e ele não tenta as impedir dessa vez, se afundando de novo no calor daquele abraço.
Um tempo se passa. Ele não percebe quando os dois se esgueiraram para cima da cama, encostados no travesseiro mal estufado contra a parede. Remi se deixou levar pela fantasia, aconchegado nos braços que fingia ser os dele, deixando o ouvido prensado contra seu peito e ouvindo o som de batimentos cardíacos que uma vez já bateram por ele, sussurrando palavras e querendo acreditar que chegariam a ele.
– Eu te amo... Eu te amo tanto, Jasper...
E como se o mundo não fosse cruel o suficiente, ele ouve aquela voz sussurrar de volta.
– Também te amo.
Ele finge que é verdade, que o polegar que esfregou sua bochecha e enxugou suas lágrimas não eram parte de um acordo. No fundo, até se sentia grato por Aguiar ter tido uma vida dupla, já que isso o obrigou a conseguir atuar. Um pensamento sujo, como ele, que se inclina para aquele rosto tão belo e confuso, antes de dar um selinho contra sua bochecha pálida.
Era até meio engraçado.
O único beijo que Jasper o deu foi em sua máscara de metal.
E o único beijo que Remi o deu foi em sua máscara de carne.
E quando o cansaço começa a atingir seu corpo em meio a todo esse acúmulo de sensações, ele deixa o peso cair sobre o outro homem.
Remi sabe que não deveria deixar a guarda baixar, que a última coisa que deveria fazer era dormir na companhia de alguém que com certeza o mataria na primeira chance.
Mas, se ele estava nos braços de Jasper agora, talvez partir assim não fosse tão ruim.
[ . . . ]
Remi se surpreende ao acordar com vida logo depois.
Parecia ter, no máximo, cochilado por alguns minutos. Ainda estava na mesma pose, deitado sobre o corpo em baixo dele, rapidamente se erguendo ao perceber que Aguiar estava acordado e o encarando.
– ... Desculpe.
– Sinceramente? Depois de tudo isso, acho que dormir no meu colo é o de menos. – Ele não conseguia discernir se havia um tom amigável ali, ou se seu cérebro ainda estava muito desligado pelo sono.
Se movendo para sair da cama, Remi checa os bolsos, percebendo que o molho de chaves ainda estava bem guardado onde colocou.
Ele podia ter tentado fugir, mas não o fez.
– Nem pergunte. – A voz de Aguiar murmura de trás dele.
Remi encara o chão, repassando tudo que acabou de fazer até aqui. Ele até que... Se sentia bem, de uma forma distorcida através de um meio nada saudável. Mas bem.
– ...Vou cumprir minha parte, como eu falei. – Ele começa a dar passos em direção a entrada da cela, antes que Aguiar o chame.
– Você disse que a Princesa foi colocada em um abrigo, certo? – Ele acena. – Acha que consegue mais informações sobre como ela está?
Ele lentamente assente, e ouve o resmungo do homem mais uma vez.
– Bom, eu vou precisar te retribuir por isso, né? Pode voltar aqui mais vezes, se desejar. Me contar mais desse Jasper, quem sabe eu não aprendo a imitar ele melhor.
Remi vira a cabeça para o homem, uma expressão quase atordoada cobrindo seu rosto, se perguntando se tinha ouvido certo.
– Eu... Eu não tenho a intenção de atrapalhar o que você tem com seu parceiro.
É irônico, ter um pensamento moralista envolvendo alguém tão sem moral. E para sua surpresa, Aguiar da um riso abafado, como se não acreditasse também.
– Minha lealdade a ele não tem fim, e ele sabe que nunca amarei outra pessoa. Talvez seja por isso mesmo que ele aceitou. – As palavras são quase... Calorosas, antes do homem rapidamente voltar ao seu tom anterior. – E não é como se eu tivesse qualquer outra coisa pra fazer aqui.
O peito de Remi se aperta. Ele estava bem, por agora. Mas e quando aquela dor voltasse? Aquela saudade inimaginável que o lembraria que a pessoa de seu sonhos não estava ao seu lado?
Era uma decisão inconsequente, irresponsável, e que provavelmente estava o ferindo ainda mais por dentro, camuflado por uma súbita felicidade.
Não era são, mas era a única opção que o faria se sentir completo, e ele agarraria qualquer chance para estar com Jasper novamente, independente da forma. Esse era o seu desejo egoísta.
Remi deixa a entrada, terminando de trancar a cela, antes de dizer:
– Eu volto mais tarde.
