Chapter Text
— Isso foi um erro! — A frase praticamente pulou dos lábios de Oscar, antes tão acostumado a medir palavras, agora com todas as emoções à flor da pele em um pós-cio.
— O... o... quê? O que você fez? — A marca latejava, fisgando ainda mais aguda quando a pergunta escapou, como se lembrasse que estava ali. A percepção caiu como uma bomba para Lando.
Oscar fechou os olhos e desejou que aquilo não fosse real. Sentia toda a angústia de Lando e carregava o peso da culpa. Afinal, a responsabilidade ainda era dele.
Lando se retorcia, sentindo mágoa, raiva e algo ainda mais amargo: a rejeição por parte do parceiro. Oscar estava o rejeitando.
— Você me marcou e agora me rejeita??? — A voz raivosa e embargada de Lando cortou o ar e o peito de Oscar. O colchão pareceu afundar.
— Lan... — O chamou pelo apelido, tentando acalmá-lo naquele momento tão frágil. — Sejamos racionais, isso não deveria ter acontecido. Nada disso. Não é você, é a situação. Somos parceiros de equipe, rivais ao mesmo tempo... é a pior situação possível! — Estava frustrado.
A ira de Lando só aumentava, a mágoa crescendo. Apesar de saber da dureza da verdade e ter plena consciência, nenhum ômega quer se sentir rejeitado e humilhado pelo seu alfa.
— Claro, eu sei da merda toda... mas a sua solução imediata é não filtrar seus sentimentos? Eu sinto tudo, porra! — A voz embargou de novo. — Estou acuado, rejeitado, e a marca dói como um inferno. Como é possível que eu consiga me controlar e você não?? Deveria ser, no mínimo, instintivo. Você deve me odiar mesmo!
O mundo se abriu sob os pés de Oscar, a culpa o queimando vivo.
— Perfeito. Pelo menos agora sinto sua culpa misturada com pena — Lando cuspiu as palavras.
— Lando, eu jamais poderia te odiar. Mas eu odeio a situação como um todo. Como vamos explicar isso na McLaren? Um alfa e um ômega marcados e acasalados competindo entre si? Isso jamais daria certo.
Lando sentia a sinceridade e o peso da verdade. Afinal, ele também estava preocupado com isso.
— Eu sei de tudo isso... mas ainda dói. Desculpe por descontar a frustração em você — A postura acuada e a voz quase um sussurro deixaram Oscar em alerta. Seu alfa gritava dentro dele para proteger e acudir seu ômega, mas Oscar ainda estava resistente.
— Não, você tem razão. Me desculpa mesmo, Lan. Vou me manter na linha em relação aos sentimentos. Você não merece nada disso — suspirou, acariciando a mão de Lando. O toque foi quase elétrico. — Precisamos lidar com nossos sentimentos e com como nos afetamos, para seguirmos em frente e resolver isso.
Lando se sobressaltou, seu ômega sentindo que o alfa estava cuidando dele. Quis se bater com a compreensão de que, a partir de agora, precisava de Oscar — e que já amava se sentir acalentado por ele. O estômago embrulhou.
Só então perceberam o quanto estavam envoltos nos feromônios e nos cheiros um do outro. O chocolate amargo, denso e quente de Oscar. E o cheiro de mel e baunilha de Lando — picante e marcante pelo mel, suave e doce pela baunilha.
Uma combinação única e contrastante que só Lando poderia ter. Oscar quase sorriu com a constatação, mas as lembranças dos fatos que os levaram até aquele momento atropelaram sua mente.
O torpor do cio embaralhava as lembranças, mas agora, com os feromônios diminuindo e o choque inicial passando, as memórias vinham à tona em ordem. Oscar mal percebia um Lando corado e inquieto ao seu lado — afinal, Oscar estava compartilhando cada sentimento e lembrança com ele através da marca.
ABU DHABI, 2024
O céu fervilhava em fogos de artifício — e por dentro, Lando podia jurar que estava se sentindo do mesmo jeito. O campeonato de construtores era deles. A McLaren enfim havia voltado ao auge.
Anos e anos sonhando e trabalhando duro com a equipe, para agora, enfim, poder ver o rosto de cada membro vibrando por ele e por Oscar. Distribuía abraços calorosos e sorrisos contagiantes. E foi aí que aconteceu — o princípio do espiral caótico.
Era o momento de celebrar com chuva de champagne com a equipe. Enquanto se preparavam, Oscar sentiu — sutil, mas intenso demais para ser ignorado. Transpassou os inibidores e supressores: o cheiro de Lando. Baunilha e mel. Inebriante, quente, inconfundível.
Haviam sentido o cheiro um do outro poucas vezes. Afinal, inibidores e supressores eram obrigatórios. Não eram 100% eficazes em 100% das vezes, mas mantinham a paz e o equilíbrio. Mas se Oscar fosse honesto, era sempre um deleite quando conseguia sentir o cheiro de Lando. E, para Lando, não era diferente.
A densidade do chocolate amargo combinava perfeitamente com Oscar — na sua humilde opinião. Era forte, incisivo e sutilmente doce. Como o próprio Oscar.
Mas naquele momento exato, Oscar achou que poderia ser apenas a excitação pela vitória da corrida e pela conquista do título dos construtores. Mesmo assim, algo instintivo acendeu dentro dele — um senso de proteção, possessão e desejo. Ele quis se bater pelo último, mas se convenceu de que era apenas uma resposta biológica.
Mesmo assim, instintivamente, colocou a mão na cintura de Lando, fazendo uma pressão protetora e possessiva. Lando sentiu na hora — o toque quase elétrico, o olhar que trocaram foi inevitável, carregado de palavras não ditas e sentimentos conflitantes. O cheiro de chocolate o envolvendo, como se o blindasse. O olhar se rompeu com os gritos e o champagne voando sobre eles. Mas o aperto no coração persistiu.
Nunca se viram de nenhuma maneira além de parceiros e amigos, e amigos até segunda ordem. Dividiam a equipe, o sonho do campeonato, algumas horas de boas conversas em quartos de hotel e motorhome. Mas a rivalidade iminente sempre pairava no ar. Eram totalmente diferentes.
Mas, daquele momento em diante, algo estava prestes a mudar — a variante que mudaria a equação para sempre.
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