Chapter Text
Quando você trabalha e está constantemente cansado psicologicamente, as coisas vão acontecendo quase que automaticamente. O piloto automático é ativado sem ver, desgastando sua mente mais do que pode perceber.
E incomoda, tudo incomoda tanto.
Minho sente que a qualquer momento pode colapsar, entrar em profundo cansaço, tanto mental quanto físico.
Trabalhando em um café há mais de 2 anos, ele divide seu dia entre o balcão, as máquinas de café e depois, o caminho de lá até o pet shop que Seungmin trabalha, finalizando todas as etapas quando chegam na casa onde ambos moram.
É tudo completamente monótono, mas ele está acostumado, acomodado.
Então, diariamente, assim que o expediente — sempre terrível — no café se encerra, Minho respira fundo e caminha até o pet shop. Não é muito longe, mas o trajeto permite organizar a mente, mesmo que minimamente, enquanto seu interior tem uma leve crescente na ansiedade por estar prestes a novamente encontrar Kim Seungmin.
Eles moram juntos há mais de um ano e sempre tiveram uma convivência pacífica. A amizade começou há quase três anos atrás, quando Christopher apresentou Seungmin para ele em uma tarde comum após encerrarem as aulas dos respectivos cursos que faziam separadamente.
Mas agora, o conceito de amizade entre eles tinha se perdido.
— Boa tarde, Min. Como foi o trabalho hoje? — Seungmin questionou com aquele típico sorriso que iluminava seus dias enquanto se aproximava.
Seus horários de trabalho batem, então podem sempre voltar juntos pelo curto caminho até a casa onde moram. Era algo simples, comum, mas Minho particularmente gostava, principalmente pelo fato de poder estar na presença do outro por mais tempo, mesmo que fosse apenas alguns minutos de diferença.
— Foi normal, o de sempre. E as histórias de hoje no pet shop? — perguntou simples, mas com ar de expectativa. Seungmin sempre tinha algo para contar.
E enquanto o rosto ainda iluminado se recordava de cada situação, as mãos se entrelaçam automaticamente, transformando o caminho mais agradável ainda, como um calmante para a mente constantemente cansada de Minho.
Não é como se Seungmin tivesse o melhor trabalho do mundo, mas realmente gostava do lugar, estava evoluindo profissionalmente ali, criando planos para o futuro, traçando alguns objetivos, sempre com a mente limpa, desejando crescer cada vez mais.
Quando chegavam em casa, Lee não conseguia evitar parar um pouco no sofá desgastado, encarando a TV desligada, apenas para recuperar um pouquinho de suas energias e poder tomar banho para relaxar o corpo — mas realmente só o corpo, porque a mente, infelizmente nunca parava.
Mas naquele dia, tentou mudar, queria ir direto para o banho e desestressar um pouco. Uma das máquinas de café havia estragado no meio da tarde, e ele foi praticamente obrigado a tentar arrumar, mesmo que não tivesse experiência e muito menos ainda soubesse como a parte interna da máquina funcionava. Obviamente não deu certo, frustrando-o ainda mais, enchendo a cabeça com um estresse desnecessário, mas inevitável.
E mesmo que a casa fosse pequena, precisando de apenas alguns passos até finalmente estar em frente ao banheiro, ele travou, no meio da sala, os olhos presos no sofá, mãos inquietas e pés parados.
Havia se acostumado com a rotina — mesmo que ele particularmente odiasse seguir uma. E as mudanças, infelizmente não eram facilmente aceitas por sua mente cansada e habituada ao que havia se autoprogramado a fazer. Era como se estivesse no pior estágio do piloto automático, frequentando apenas os mesmos lugares, segundo os mesmos trajetos, habituando seu corpo com os mesmos movimentos, tudo até não aguentar mais.
Aliás, era sempre cansativo seguir cada detalhe preparado no piloto automático, porque quando tentava sair, a situação piorava, como naquele momento; pelo menor dos motivos que fosse, era difícil mudar.
Mas o toque de uma mão em seu braço finalmente fez seus sentidos voltarem ao lugar.
Virando-se rapidamente na direção do contato enquanto seus olhos piscam rápido, ele pode admirar o rosto de Seungmin em uma distância curta.
— Oi?
— Tá tudo bem? Ficou só parado aqui. — Seungmin soltou de forma calma, olhando bem para o Lee, que suspirou baixo.
— Só estou cansado, mas queria tomar um banho primeiro antes de me acomodar por algum tempo.
Seungmin assente, dando um passo para mais perto, quase colando os corpos enquanto ainda mantinha a mão presa no braço de Minho.
— Se precisa de uma mudança, vai dando um passo de cada vez. Você consegue, Min.
Aquelas palavras não pareciam ser apenas sobre mudar o hábito de chegar e se sentar no sofá. Seungmin conhecia bem o Lee, sabia de suas dificuldades, da mente constantemente cansada, dos dias ruins, ele conhecia seu pior lado e ainda assim, estava ali, sempre incentivando.
Minho assente, soltando um suspiro longo, ainda admirando Seungmin, que se aproximava cada segundo mais, até finalmente os rostos estarem quase colados.
Como se fosse automático, eles entram em sintonia no mesmo segundo, colando os lábios, iniciando um beijo calmo, com sentimentos transbordando.
Era ali onde Minho sempre queria permanecer, nos braços do Kim, no beijo dele, na sensação boa que todo o contato trocado entre eles causava em seu interior, liberando um relaxamento extra automaticamente, quase colocando sua cabeça no devido lugar — quase.
O conceito de amizade entre ambos estava quebrado, porque há cerca de cinco meses, eles já haviam levado aquilo para outro lugar. Estavam envolvidos demais para se chamarem de apenas amigos, mas ainda descobrindo melhor cada pequeno fragmento de sentimento para chegar em um namoro — mesmo que, no fundo, fosse o que ambos queriam.
Quando os lábios se separaram, Minho soltou outro suspiro alto, agora com a mente mais calma, não deixando Kim desgrudar dele, juntando novamente os corpos, agora, em um abraço calmo, sentindo a necessidade do toque, do contato leve que Seungmin oferecia todos os dias.
— Obrigado. — Minho praticamente sussurrou durante o contato inquebrável, sentindo automaticamente os braços de Seungmin lhe apertarem um pouco mais.
— Você sabe que não precisa agradecer — respondeu em tom igualmente baixo, passando suavemente uma das mãos nas costas de Lee.
Ali era definitivamente seu ponto seguro. Ele realmente ama Seungmin e cada um de seus pequenos detalhes. Ama o sorriso caloroso como sol da manhã, que recebe as pessoas com suas vitaminas naturais, eliminando a escuridão de horas antes. Ama cada pequeno gesto e contato, como se estivesse tomando um chá de camomila, acalmando seu corpo com o decorrer dos minutos. Ama sua voz, que soava como música para seus ouvidos cansados de escutar vozes mescladas de pedidos dos clientes no café. Ama sua tranquilidade, paciência e o bom humor em casa ou no trabalho, como quem traz um pouco de vida no dia a dia das pessoas, aquela paz sempre tão procurada, encontrada sem querer na presença dele.
Queria estar apenas nos braços dele, por tempo indeterminado, sentindo o contato suave até o mundo ao redor desaparecer, como um borrão distante que não precisa de atenção.
Minho tem certeza: sua vida seria muito mais triste, completamente desprezível se não tivesse alguém tão amável quanto Seungmin ao seu lado. Ele ainda não conseguia sair do lugar, estagnado na etapa zero por muito tempo; mas todas as vezes que tentava, era por incentivo dos amigos e principalmente, os de Seungmin, que diariamente aumentava sua dose de calmaria com as palavras doces, compreensão admirável e sorrisos ensolarados.
Sem dizer mais nada, Kim se soltou do abraço, segurou na mão de Minho e começou a caminhar em direção ao corredor.
— Vai lá tomar banho. Não é tão diferente do que você costuma fazer, só vai pular uma pequena etapa. Não é você que diz detestar seguir rotinas?
Minho franziu os lábios quase fazendo careta, arrancando uma leve risada de Seungmin.
— Pois é…
— Então vai. Mas não se esqueça: tudo tem que começar de você. Vá sempre no seu próprio ritmo, tenho certeza que consegue, mesmo sem receber ajuda. Com o tempo, você vai conseguir filtrar os pensamentos ruins da cabeça. Só precisa realmente começar.
As palavras do Kim sempre atingiam em cheio os pensamentos de Minho, fazendo-o pensar e repensar toda sua vida até ali. Perguntando-se onde havia errado para chegar ao ponto de ter medo das mudanças, do desconhecido, de estar constantemente aceitando o mínimo no trabalho, da forma que morava, se apegando a Seungmin, mas mantendo sempre tudo da mesma forma, porque tinha medo de investir em algo a mais com ele.
Queria ter a mente tranquila, os pensamentos no lugar, sem nenhuma ansiedade corroendo a pele, sem insônia. Queria poder voltar do zero, mas não conseguia, não se sentia capaz.
Mesmo que as pessoas não conseguissem entender, tudo pesava demais em sua própria cabeça, o medo é algo devastador, que consome e corrói toda a alma, causando estragos até mesmo irreversíveis se não é tomado o devido cuidado antecipadamente. Medo podia impedir as pessoas de viver, assim como acontecia com Minho.
Antes que se perdesse ainda mais nos próprios pensamentos, Lee assentiu leve e depositou um beijo na testa de Seungmin antes de seguir para o banheiro.
Seungmin suspirou quando a porta fechou, preso por alguns segundos ali antes de finalmente seguir até seu quarto. Kim estava sempre na torcida por Minho, esperando o momento em que ele conseguiria perceber como merecia apenas o melhor, sair daquela vida medíocre e procurar por ajuda, um emprego melhor, entendendo que as mudanças nem sempre vinham para atrapalhar ou causar estranhamento no contato com o novo.
[...]
Para Minho, os momentos em que ficam juntos na pequena mesa da cozinha tendo alguma refeição, eram realmente agradáveis. Eles trocavam conversas e olhares calmos, às vezes Seungmin acrescentava mais algo sobre o trabalho, em outras iam comentando a nova lista de compras do mês que fariam, ou como separariam as próximas tarefas de casa no início da semana. Também tinham momentos que apenas se conheciam ainda mais, compartilhando histórias aleatórias, gostos escondidos, qualquer coisa que pudesse virar um assunto agradável.
Era sempre uma boa distração para seu psicológico instável.
Mas quando a louça era lavada, as luzes apagadas, os dentes escovados e trocavam um “Boa noite” calmo — às vezes com beijos no rosto, às vezes juntando os lábios em um selinho calmo —, Minho voltava ao seu estado mental mais caótico, dando espaço para as crises invadirem.
Ele sempre tentava fazer pouco barulho para Seungmin não escutar do lado oposto, seja o rangido da cama quando se remexia e levantava, ou o som que a garganta ardendo fazia ao soltar as inúmeras lágrimas de cansaço mental.
Estava tão abalado, com a mente tão cheia que às vezes não conseguia segurar, tinha dias que chorava até dormir; outras vezes sentia-se apenas vazio, completamente esgotado, parecendo que não sentia nada, mesmo que carregasse o mundo nas costas sem ter realmente necessidade, como se os erros dos outros fossem apenas culpa sua.
Era difícil existir em um mundo tão complicado e cheio de obstáculos. Parecia que tudo, até mesmo a menor das preocupações fosse lhe derrubar, causando um grande estrago irreversível dentro de si.
Queria ter um futuro, conseguir conquistas maiores, trabalhar com o que gostava, ou ao menos em um ambiente mais satisfatório e humano. Mas parecia tudo tão irreal, pensamentos bobos, não alcançáveis, e isso doía. Doía tanto.
Se perguntava com o amargor na boca como caralhos havia chegado naquele estado deplorável. Sem autoestima, sem ânimo, sem coragem de arriscar, querendo algo melhor, mas não conseguindo fazer aquilo acontecer. Parecia que as coisas realmente melhorariam se ele deixasse de existir ou explodisse de vez, ficando como poeira cósmica.
Tentava pensar nos amigos próximos — mas se afundava naquilo, achando ser péssimo em mantê-los por perto, um amigo falho, desnecessário. Tentava pensar na família — mas ele sempre se considerava um fardo, alguém que sobrava no meio de todos. Tentava pensar em Seungmin — mas que tipo de parceiro ele seria se nem ao menos sentia que era suficiente? Kim merecia alguém melhor.
No começo, quando a mente estava se rompendo, ele ainda conseguia fazer milhares de planos, criar metas promissoras, preparando-se o máximo para conseguir algo maior, melhor. Mas ao decorrer dos anos, as metas foram sendo esmagadas, uma a uma. Tudo o que lhe restava agora eram sonhos quebrados, promessas perdidas enquanto o medo lhe consumia.
Ele realmente precisava de ajuda psicológica, mas primeiro, tinha que aceitar essa ajuda e dar o primeiro passo no caminho certo. Mas quanto mais pensava, mais difícil parecia.
