Actions

Work Header

Rating:
Archive Warning:
Category:
Fandoms:
Relationship:
Characters:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-01-13
Updated:
2026-05-25
Words:
23,486
Chapters:
8/?
Comments:
43
Kudos:
681
Bookmarks:
13
Hits:
18,067

Tudo Que Não Foi Dito

Summary:

Juquinha é uma detetive com uma habilidade incomum: ela consegue ouvir os pensamentos das pessoas. Entre investigações complicadas e segredos que ninguém ousa revelar, ela descobrirá que algumas conexões vão muito além do trabalho e que nem todos os pensamentos estão prontos para serem ouvidos.

Notes:

Aviso: esta é uma fic com tema policial que pode conter temas sensíveis, descrição de cenas de crime e linguagem explícita.

Chapter 1: Caso 140801

Chapter Text

CAPÍTULO 1 – Caso 140801

 

 

Número do caso: 140801

Data da abertura: 05/03/20XX

Local: █████████████

Tipo de crime: Homicídio

Identificador: (  ) Homem (X) Mulher

 

 

 

A detetive inspirou com cuidado.

O cheiro forte de urina velha dentro daquele apartamento queimava as narinas de Juquinha naquela manhã particularmente quente. Um consultório cheio de policiais coletando informações, um cadáver sendo examinado no chão e, ainda assim, ninguém teve a ideia de abrir uma janela.

Quando é o próximo feriadão mesmo? Eu preciso pagar a pensão até a próxima sexta. Eu devo contar sobre as visitas noturnas que ela recebia? Março tem 30 ou 31 dias?

— Conseguiu alguma coisa? — a detetive se abaixou ao lado do perito criminal, se arrependendo de imediato com a intensidade do fedor de urina.

— Indícios de asfixia mecânica — o homem apontou para o pescoço. — Rigidez parcial e livor fixado.

 A detetive assentiu com a cabeça sabendo muito bem o significado daquilo, a mulher estava morta há pelo menos seis horas. Uma morte recente significava pistas frescas. O prédio ficava em uma área de classe média-alta da cidade, o que aumentava a chances de um sistema de vigilância interno. O caso tem tudo para ser resolvido rápido, a detetive pensou.

De repente, um rangido seco e um arrastar metálico. Uma brisa com ar fresco vindo das ruas renovou a atmosfera no cômodo, amenizando o cheiro de morte e xixi.

As cabeças viraram em direção da pessoa responsável pelo ato, a nova detetive. A atenção dela estava na rua, olhando para os repórteres dos noticiários esperando como urubus próximos das viaturas da polícia, ansiosos para uma pauta no jornal de meio-dia.

— O quê? — ela perguntou segundos depois, virando. — Nós vamos continuar fingindo que aqui não está fedendo como uma frauda encharcada?

Ela está certa. Glória Deus! Ela é tão linda. Finalmente alguém disse. Eu iria me atrasar para o trabalho se eu falasse com a polícia. Melhor xixi do que merda. Qual o nome dela mesmo... Lorena ou Leonora?

 — Por falar em encharcada... — a nova detetive caminhou até o cadáver, agachando ao lado da outra detetive. — É xixi nas costas da vítima?

O corpo estava de bruços no chão, deixando a blusa branca com uma grande mancha amarela exposta. O tecido estava seco, assim como não havia vestígio de líquido ao redor da mulher morta. As horas após a morte foi o suficiente para evaporar a água na urina.

— Não é incomum uma pessoa urinar durante um estrangulamento. — Juquinha deduziu. — Quanto a posição do corpo, ela foi encontrada desse jeito. É provável que o assassino a virou depois de matá-la.

Ela é boa, mas...

— Sem sinais de luta no cômodo. Nenhum objeto caído no chão, nenhum móvel fora do lugar — Lorena levantou, observando o escritório novamente. — Ela deixou a pessoa entrar.

Juquinha acenou com a cabeça concordando. Fazia sentido! Um membro da família, um amigo. Alguém em quem ela confiava e a pegou de surpresa, a detetive continuou pensando. A vítima tinha 42 anos, uma psicóloga atendendo em um escritório no apartamento próprio. A mulher foi encontrada já morta pela diarista no início da manhã usando a própria chave do apartamento, recebida desde antes da vítima começar a atender na própria residência.

Ela poderia ser a principal suspeita pelo assassinato com o acesso livre ao apartamento e por conhecer a rotina da vítima. Ainda assim, a detetive Juquinha já havia descartado quase completamente a diarista como suspeita de cometer o homicídio. Além de ter confirmado o horário de chegada da diarista com o porteiro, e a ligação feita para o SAMU minutos depois, a hora estimada da morte não batia com a presença da faxineira. Ela estava fora do radar de Juquinha, por enquanto.

Como eu faço para ser transferido de unidade? Não acredito que contrataram aquele fodido como técnico. Se não tiver nenhum policial no corredor, eu vou pegar o elevador! Espero que essa nova detetive seja solteira.

— Vamos checar os vizinhos. Talvez algum deles viu ou ouviu algo ontem à noite. — Juquinha sugeriu, sem esperar por uma resposta.

A detetive se apressou atravessando cômodos em direção a porta de saída do apartamento, a nova parceira dela logo atrás.

Duas portas foram abertas ao mesmo tempo: a do apartamento da vítima e da vizinha de frente. A mulher hesitou por alguns segundo, surpresa com a coincidência ao ver as duas mulheres com distintivos do outro lado do corredor.

Merda!

— Com licença, senhora. — Juquinha deu um passo à frente, sorrindo. — Polícia Civil.

A mulher ajeitou a bolsa nos ombros.

— A senhora mora neste apartamento?

— Moro, sim.

Eu vou pegar o trânsito na rodovia.

— Certo. Nós estamos apurando uma ocorrência no apartamento da frente. A senhora chegou a ver ou ouvir algo incomum na última noite?

— Não.

A outra detetive se aproximou um pouco mais, sem bloquear a passagem.

— A senhora está indo trabalhar? — Lorena perguntou de forma quase casual, como se já conhecesse a mulher e jogassem conversa fora todos os dias.

— Estou, sim. Vou me atrasar se não sair logo.

A nova detetive assentiu, sorrindo sem mostrar os dentes. O gesto fez surgir covinhas discretas nas bochechas, suavizando a máscara de policial séria. Juquinha notou o detalhe sem querer, na fração de segundo em que desviou os olhos da moradora, pega desprevenida pela leveza daquele rosto. Sua nova parceira era um toque de inocência e beleza destoando em meio à cena de um crime.

Juquinha não era cega.

Nem surda.

— A gente também estava descendo — Lorena continuou enquanto gesticulava entre ela e a outra detetive. — Precisamos falar com o porteiro rapidinho. Se não se importar, podemos ir conversando até o elevador.

A mulher hesitou novamente antes de concordar com um aceno curto de cabeça.

— Pode ser.

As duas caminharam no ritmo da moradora, mantendo uma distância simbólica. O silêncio inicial parecia mais nervoso do que resistente, e Juquinha agradeceu internamente a oportunidade criada pela nova parceira. Nem parecia que as duas tinham se conhecido oficialmente há menos de uma hora atrás.

— A senhora mora aqui há bastante tempo? — Juquinha iniciou as perguntas mais uma vez, em um tom mais curioso do que investigador.

— Desde que o prédio foi entregue há uns doze, trezes anos.

— E a moradora do 1307 também morava aqui há bastante tempo — continuou enquanto olhava diretamente para os números do elevador subindo até alcançar o andar em que estavam. — Vocês se conheciam?

A mulher fez um leve aceno com a cabeça.

— Eu não a conhecia muito bem, mas conversávamos de vez em quando durante as reuniões de condomínio, essas coisas. Ela sempre foi muito educada comigo.

As portas se fecharam com um baque surdo, e o elevador começou a descer lentamente. Juquinha observou o reflexo das três no espelho impecavelmente limpo, notando a pequena diferença de altura entre ela e outra policial.

— Nenhum morador se incomodou com ela continuando o atendimento por aqui quando a quarentena foi suspensa, com desconhecidos entrando e saindo do prédio?

— Um morador tem um estúdio de tatuagem e ninguém reclama disso nas reuniões — ela respondeu um pouco mais confiante. — Além disso, quando ela começou a atender em casa alguns moradores viraram clientes dela.

— Ela tinha um namorado, certo? A senhora chegou a conhece-lo?

— Algumas vezes no elevador — um meio sorriso breve. — Eles tinham um relacionamento meio… vai e volta. Terminavam, depois apareciam juntos de novo.

O elevador continuou descendo devagar como se aquela caixa de metal estivesse ciente da conversa, e propositalmente estendesse o tempo das três mulheres ali dentro.

— Mas nem todas as visitas eram dele, certo?

Como ela sabe disso?

A mulher demorou a responder. Olhou para o painel luminoso, como se os números pudessem ajudá-la a organizar a memória ou lhe dissessem se ela deveria contar a verdade ou não.

— Teve… um outro homem — disse, por fim. — Não era frequente, mas aconteceu algumas vezes. Sempre fora do horário de atendimento dela, tarde da noite lá pelas 10.

— A senhora chegou a vê-lo bem? — Juquinha perguntou, com cuidado.

— De relance. — Ela suspirou. — Ele sempre se apressava para entrar no apartamento.

Naquele momento, Lorena deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas, não de forma invasiva, mas curiosa, como quem tenta acompanhar um raciocínio.

— A senhora acha que conseguiria reconhecê-lo — perguntou, com suavidade — se visse ele nas câmeras ou, talvez, conseguisse descrevê-lo para um retrato falado?

A moradora ficou em silêncio. Os olhos perderam o foco por um instante, tentando reconstruir traços: altura, postura, um detalhe qualquer que insistia em escapar. Lorena acompanhou esse esforço quase imperceptível, inclinando levemente o corpo, como se quisesse enxergar o mesmo rosto se formando na memória da mulher.

— Talvez… — a moradora respondeu. — Não posso garantir. Mas acho que sim.

A detetive se afastou com um sorriso discreto, quase tranquilizador.

O elevador parou no térreo com um solavanco suave. As portas se abriram, deixando entrar o barulho distante da rua. As três saíram juntas, mas, assim que cruzaram a portaria, Juquinha e a colega diminuíram o passo. Permaneceram ali, lado a lado, observando em silêncio enquanto a moradora se afastava pela calçada e deixava o prédio.

— Ela sabe demais para alguém que só conversava nas reuniões de condomínio — Juquinha comentou.

— Um apartamento construído há 13 anos atrás já vem com paredes finas o suficiente para ouvir uma possível discussão antes de um término — a outra detetive considerou. — A boa e velha fofoca atrás da porta.

As duas suspiraram alto ao mesmo tempo.

— Detetive Juquinha... nós esquecemos de perguntar o nome dela.

— Isso acontece de vez em quando, não se preocupe — a mulher respondeu descontraída, tentando disfarçar a gafe ou um erro de principiante na polícia.

Fofa.

Lorena cruzou os braços por um instante, ainda olhando para o ponto onde a moradora tinha saído, misturando-se ao movimento da rua. Os repórteres ainda estavam lá e em maior quantidade. Algo dentro dela dizia que eles não estavam interessados somente no caso de assassinato naquele prédio.

— Eu dei uma passada rápida no síndico antes de subir. Perguntei sobre as câmeras.

Juquinha ergueu uma sobrancelha.

— E?

— Nada de imagens — Lorena respondeu, soltando o ar devagar. — Ele disse que o prédio perdeu todas as câmeras naquela chuva de duas semanas atrás.

— Aquela tempestade? — Juquinha perguntou.

— Essa mesma. Uma árvore caiu na rua do lado, arrebentou os fios de energia. Queimou o sistema inteiro — a detetive fez um gesto vago com a mão. — As câmeras da portaria, do elevador, do subsolo foram tudo pro saco, estão aqui só de enfeite. Teve morador que perdeu geladeira, televisão.

Juquinha fez um ruído baixo, frustrada.

— Justo agora, não tem registro nenhum de quem entrou ou saiu.

Lorena deu um meio sorriso cínico.

— Pois é. Se o assassino sabia desse detalhe, ele ou ela escolheu bem o momento.

As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, absorvendo o peso da informação. Por fim, decidiram dar meia volta e chamar o elevador mais uma vez.

— Sem câmera, sobra a memória — Lorena disse. — Se ela topar, a perícia faz um retrato falado.

— É pouco — Juquinha respondeu. — Mas é melhor do que nada. Nós precisamos falar com o porteiro do turno da noite, ver se ele se lembra desse homem chegando tarde da noite.

— E principalmente o horário em que esse tal homem costumava sair.

Juquinha concordou em silêncio. Se aquele homem era mesmo algum tipo de amante da vítima, traçar uma rotina seria o começo. O tempo que ele permanecia no apartamento, os dias, a frequência das visitas. Rotina sempre deixava rastro. Deve existir um nome em algum lugar, pensou. Um registro de entrada esquecido numa prancheta, uma assinatura apressada no livro da portaria.

Os números no painel eletrônico aumentavam devagar, estendendo os minutos do mesmo jeito da viagem anterior. A caixa de metal parecia ainda menor com apenas as duas detetives lá dentro. O silêncio deveria ser um momento de contemplação, de juntar as peças das informações coletadas aos poucos, mas a mente de Juquinha estava preenchida com uma única frase:

Você não vai me perguntar?

A voz estava tão clara que Juquinha quase pensou que Lorena realmente tinha dito aquilo. Parecia quando ela ainda era adolescente, nas semanas em que a habilidade de escutar os pensamentos das pessoas era algo recente. Uma descoberta assustadora. A jornada foi dura, cheia de desculpas e floreios para disfarçar quando a menina escutava um pensamento e o confundia com um diálogo. Parece que você sabia exatamente o que eu estava pensando, foi o que Juquinha escutou por muito tempo.

Mal sabiam eles que era exatamente aquilo.

— Você realmente não vai me perguntar? — Lorena questionou, virando-se para encarar a nova parceira. Ela parecia um pouco impaciente.

Talvez Lorena realmente tivesse dito aquilo em voz alta antes.

— Perguntar o quê?

— O que todo mundo quer perguntar. — Ela desviou o olhar por um segundo, inquieta. — Eu vejo no jeito que as pessoas olham. Fingem que não estão pensando nisso, mas estão.

Juquinha a encarou, avaliando a mulher com calma. Aquela era a primeira vez em que as duas estavam, de fato, sozinhas, cara a cara. A nova detetive não se apresentou na delegacia naquele dia, escolhendo ir direto para o local da ocorrência. O primeiro dia de Lorena depois de ser transferida da capital para São Bernardo do Campo, o primeiro dia das duas como parceiras.

— Eu não sou todo mundo.

— É claro que a Princesa Juquinha não é todo mundo — Lorena rebateu, revirando os olhos. — Sempre certinha, sempre ajudando os outros.

— Princesa Juquinha? — Juquinha arqueou a sobrancelha e sorriu aberto. — Faz tempo que eu não ouço isso.

O sorriso carregava um afeto nostálgico. Por um instante, memórias da escola ameaçaram emergir, mas Juquinha precisava focar no que a outra mulher continuou falando.

— Você sabe do que eu tô falando — insistiu. — Do que aconteceu com a minha família. Do que todo mundo cochicha nos corredores de qualquer delegacia de São Paulo.

Juquinha suspirou.

De certa forma, ela entendia o que Lorena sentia. Nos últimos meses, o nome da nova parceira dela tinha sido citado algumas vezes pela mídia, sempre acompanhado de insinuações. A transferência de delegacia vinha como consequência de algo que Lorena não tinha controle, mas que passou a defini-la aos olhos de quem só conhecia a versão resumida da história.

Juquinha sabia como era entrar em um lugar novo já carregando uma história que não foi escrita por ela mesma. Gente que não a conhecia, mas acreditava saber exatamente quem ela era. Isso moldava olhares, conversas interrompidas, silêncios longos demais. E o silêncio, ela sabia, também julgava. Talvez por isso Lorena quisesse tanto a pergunta. Não para se explicar, mas para tirar o assunto do lugar ambíguo onde contaminava o resto. Porque confiança não nascia do que era evitado, e sim do que era dito às claras, ainda mais entre duas pessoas que precisariam confiar uma na outra quando a situação apertasse.

Lorena não buscava absolvição. Longe disso. Ela buscava saber de onde começar e do que esperar de Juquinha.

— Tá bom. — Virou o rosto para Lorena. — Você estava envolvida?

A resposta veio imediata, dura:

— Não.

Juquinha deu de ombros, simples assim.

— Então é isso. Somos parceiras agora. E eu confio na sua palavra.

Lorena piscou, pega de surpresa.

— Só… isso? — A indignação escapou antes que ela conseguisse conter. — Você não vai perguntar mais nada? Até onde eu sabia? Se eu não desconfiava–

— O sistema disse que você não estava envolvida — Juquinha interrompeu, com calma. — Se eu não confio no sistema, por que eu estaria trabalhando pra ele?

As portas do elevador se abriram no andar da ocorrência. Juquinha saiu primeiro e esticou o braço, impedindo que a porta se fechasse, esperando por uma Lorena ainda sem reação.

Quando ela finalmente saiu, ainda tentando entender aquela resposta simples demais para algo que tinha complicado sua vida inteira, Juquinha completou, já caminhando pelo corredor:

— Nós temos um assassino para pegar.