Chapter Text
O toc-toc firme dos saltos de Eduarda ecoa pelos corredores quase vazios do Fórum Criminal, a raiva contida que ela sentia desde a noite anterior, quando os documentos foram entregues, alimentando seus passos. Ela caminha pelos corredores do prédio, o piso antigo e o cheiro de produto de limpeza da equipe da noite como suas únicas companhias. É cedo. Muito mais cedo do que deveria ser, mas ela sabe que não estará sozinha quando chegar ao seu destino.
Quando ela vira no longo corredor que conhece tão bem, está escuro exceto por uma única luz no fundo. Seu ritmo aumenta e seu sangue ferve conforme ela se aproxima, a porta completamente aberta e o som suave de digitação vindo de dentro.
Eduarda joga os papéis sobre a mesa, quase derrubando a caneca de café fumegante que estava ao lado do monitor.
— Que diabos é isso?
Lorena não levanta os olhos. Simplesmente continua digitando, os olhos na tela. O rosto iluminado pela luz suave da luminária.
— Bom dia para você também, Eduarda. Posso ajudar em alguma coisa?
— Tá de brincadeira, Lorena?! Que isso?
Lorena finalmente levanta os olhos, seu cabelo solto e relaxado sobre um ombro. Não estava preso no rabo de cavalo que ela normalmente usa no tribunal. Suas mangas arregaçadas até os cotovelos e seu rosto reservado, misterioso, como de costume.
— É uma proposta de acordo. Imaginei que você estaria familiarizada com elas, considerando que é uma advogada de defesa.
— Isso é uma proposta de acordo? Ah, que piada, Lorena!
— É o que a promotoria e eu consideramos razoável levando em conta as acusações.
Lorena não parece chateada com a interrupção em sua manhã. Na verdade, ela parece entediada.
— Ah, vai se foder, esse acordo é uma merda e você sabe disso.
Eduarda resmunga, seus dedos estão formigando.
— Considerando as acusações, eu diria que é bem justo.
— Justo? Ele é réu primário, Lorena. Você quer que ele aceite seis anos sem liberdade condicional?
— Ele causou um incêndio, Eduarda.
— Ele mal tem dezoito anos!
Os olhos de Lorena brilham com alguma coisa. Ela se levanta de sua cadeira e devolve a pasta para Eduarda, um aviso claro em seu rosto.
— Suponho que você terá que discutir isso com seu cliente. Aceite ou não, ele ainda vai cumprir pena.
Ela dá de ombros e isso mexe com o orgulho de Eduarda.
— Então me explica... — diz Eduarda, calma demais. — Onde exatamente você vê prova suficiente pra isso.
Lorena suspira e seus olhos se levantam para o teto por apenas um breve segundo.
— É cedo, Eduarda. Este não é meu único caso. Vamos discutir isso na audiência marcada para hoje?
Eduarda arranca o processo da mão de Lorena.
— Claro, Lorena. Vamos seguir seu cronograma, como sempre fazemos. Talvez da próxima vez você não seja tão covarde e não envie acordos de merda depois das nove da noite.
Ela suspira com raiva e, novamente, Lorena permanece impassível.
— Eu sabia que você ainda estaria no escritório. Não mereço um crédito por isso? Era ou tarde da noite ou bem antes da audiência. Escolha, Eduarda.
Eduarda resmunga e enfia a pasta em sua bolsa.
— Você é um caso perdido, sabia?
Ela saiu do escritório antes que Lorena pudesse responder, levando o processo com ela.
***
O tribunal é uma loucura durante o julgamento. Eduarda está no controle, argumentando com precisão, cada movimento calculado. Lorena está do outro lado da sala focada, confiante e absolutamente irritante.
— Excelência, as táticas do senhor Barroso são apenas um jogo, nada mais. A Promotora deveria saber, pela experiência, como se ater apenas ao que é relevante.
Eduarda consegue ouvir a mandíbula de Lorena se contrair ao seu lado. Nenhum arrependimento. Nenhum.
— Sim, Excelência. — Lorena morde as palavras, a irritação praticamente emanando dela. Eduarda consegue ver seus punhos cerrados ao seu lado.
— Quanto a você, Doutora Fragoso, tente não desperdiçar o tempo do tribunal. Você também deveria saber, pela experiência, como se ater apenas ao que é relevante.
Ela não estava esperando por isso. Acena e ignora a maneira como Lorena se enrijece ao seu lado.
— Vocês podem retornar aos seus assentos e continuaremos com a audiência.
— Sim, Excelência.
Ambas respondem em uníssono, retornando aos seus lugares. Eduarda mexe suas anotações e ignora o olhar que seu cliente lhe dá. Lorena continua com seu interrogatório da testemunha especializada e Eduarda tenta morder a língua. Ela estuda suas anotações, atenta a tudo que sai da boca de Lorena.
— Sabe... — seu cliente se inclina, sua voz baixa e brincalhona. — Aquilo foi bem atraente.
— Se você sabe o que é bom pra você, fica em silêncio agora.
Ela o encarou, deixando claro que não havia espaço para argumentos. Ele levanta as mãos em derrota e se senta para trás, um sorriso astuto no rosto e seus olhos vagando pelo corpo de Lorena enquanto ela fica em pé falando com a testemunha.
Eduarda o chuta na canela. Ele reclama mas desvia os olhos para a mesa novamente.
E Eduarda não consegue evitar se notar apenas o quão bem as calças de Lorena parecem abraçar seu corpo.
E, sim, tudo bem, claro que Eduarda achou que Lorena era bonita a primeira vez que a viu passando pelos corredores do Fórum Criminal anos atrás. Ela não tem como negar isso. Mas aquela atração foi rapidamente substituída por irritação e ressentimento. Lorena... Lorena. Desde o primeiro dia, uma presença incômoda demais para ignorar. E ainda assim, seus olhos continuam se desviando.
Ela sacode a cabeça, irritada consigo mesma. Não se sente melhor do que o cliente nojento ao seu lado. Em vez de se afundar nisso, se levanta e dispara:
— Objeção, fora do escopo!
A distração tem menos a ver com o caso e mais com o orgulho. Lorena joga as mãos no ar e se vira, com fogo nos olhos. É o bastante para trazê-la de volta ao jogo.
***
O bar está cheio e barulhento, exatamente do jeito que ela gosta. Ela avista Maggye no balcão e abre caminho pelos grupos em happy hour numa sexta-feira, os advogados que ela normalmente vê tão bem arrumados enquanto vagam pelo Fórum Criminal em vários estados de roupa e embriaguez. Caramba, Eduarda precisa de uma cerveja hoje.
— Oi, Maggye.
Ela cumprimenta Maggye com um sorriso fraco e um suspiro, colocando sua bolsa no apoio de pés sob o balcão e deslizando para o banquinho tão delicadamente quanto sua saia permite.
— Você pediu?
— Sim, Duda. Seu hambúrguer ainda sangrando chegará em breve.
Maggye desliza um shot para ela e acena para o barman.
— Imaginei que você precisaria disso depois das suas mensagens.
— Eu já te disse que você é minha pessoa favorita no mundo?
— Uma ou duas vezes — Maggye sorri e levanta seu shot para o de Eduarda em brinde. A queimação arde na parte de trás da garganta de Eduarda, mas se sente bem depois da semana longa.
— Como foi seu dia?
— Péssimo! Por que ninguém me disse que trabalhar em tempo integral e estudar a noite seria tão difícil?
— Sei lá.. — Eduarda ri e e dá um tapinha no ombro de Maggye — Você sabe que poderia trabalhar menos...
— Não, eu não quero deixar o pessoal na mão. Além disso, me faria parecer fraca e eu amo argumentar contra esses machos convencidos.
Eduarda resmunga, — Aham... e você não conseguiria ficar de olho no assistente três vezes por dia...
— Ah, não... você não acabou de jogar meu crush no Leonardo na minha cara!
Maggye a empurra com força no ombro e a move alguns centímetros para a direita. Apenas o suficiente para ela ver quem entra pela porta com um pequeno grupo de pessoas. Seu estômago afunda.
— Ai, que merda. Exatamente o que eu precisava hoje. — Eduarda murmura, mas Maggye ouve mesmo assim.
— O quê? — Ela olha ao redor do bar cheio. — Ah — Maggye ri. — Você quer dizer que não queria dar de cara com a Lorena. Ainda mais depois do que aconteceu.
— Pois é... não mesmo.
Eduarda toma um longo gole de sua cerveja e faz careta na forma como o gás corta sua garganta. É naquele exato momento que os olhos de Lorena encontram os dela. Seu rosto amolece por um segundo, por um piscar de olhos, então ela se distrai com um homem alto ao seu lado falando animadamente enquanto esperam pelo barman.
— Aquele garoto, seu cliente, realmente fez aquele comentário nojento?
— Pior que fez, sem noção!
Maggye suspira.
— Me lembra de novo por que queremos defender o acusado com todas as nossas forças?
— Então, às vezes eu realmente não sei, Maggye.
***
Maggye desaparece com uma desculpa qualquer sobre um trabalho da pós-graduação antes mesmo da comida chegar, sorrindo para seu telefone e jogando sua bolsa sobre o ombro. Eduarda ficaria brava se não visse a forma como Maggye se anima enquanto caminha para fora.
Ela está prestes a pedir outra bebida quando alguém afasta o banquinho vago e fica quieto ao seu lado. Eduarda conheceria aquela presença em qualquer lugar.
— Posso te ajudar em alguma coisa?
— Apenas retribuindo o favor de sua visita encantadora hoje de manhã.
A voz de Lorena é calma, um tom baixo. As mangas da sua camisa estão arregaçadas de novo e Eduarda olha seus braços e como o relógio caro que ela usa reflete na luz.
— Ah, bom. — Eduarda levanta sua cerveja meio vazia e toma outro gole.
Lorena pede uma rodada de shots e não quebra o silêncio. Não até que o barman coloca os shots na frente delas e se afasta. Lorena desliza um copo em direção a Eduarda.
Eduarda olha para cima, sentindo sua testa se franzir em confusão. Isso é novo. Lorena acha que consegue ganhá-la com uma bebida? Ou é sua forma estranha de esfregar vitória na cara dela? Com aquele ar de superioridade de sempre. Como se ela sempre estivesse certa. Que mulher infuriante. Lorena dá de ombros, um pequeno indício de um sorriso em seu rosto. Eduarda se pergunta se ela está realmente sorrindo pra ela ou se era um truque da iluminação.
— Você mandou bem hoje, merece uma bebida.
— Eu mandei bem? Eu pensei que você tivesse irritada comigo?
— Sim, eu tava. Que tal ser madura, Eduarda?!
Seus lábios se inclinam naquele indício de sorriso novamente.
— Mas, então você entrou no jogo.
— Bem... é o meu trabalho, né?
Lorena acena, — Foi um caso difícil.
Eduarda resmunga, — Não foi até você vir com aquele argumento do nada. Como você consegue?
Agora Lorena realmente sorri, seus olhos brilham.
— Bem, se eu contasse meus segredos, eu teria que te matar.
— Palavras fortes vindo de uma Promotora...
— Eu conheço pessoas — Lorena diz friamente, bebendo seu shot antes que Eduarda consiga nem registrar a declaração. Uma risada sai de sua boca. Quase involuntariamente, sem permissão. Seus olhos novamente.
— Uau, quem diria que você tem senso de humor?
— Ah, tem muito sobre mim que você não sabe.
Suas palavras são quase subliminares, algo que Eduarda tenta ignorar. Ela se mexe e retorna à sua cerveja, limpando a garganta.
— Hm... e você tava certa de qualquer forma.
— E você? Tá bem com isso?
Seu tom de voz é baixo o suficiente para Eduarda sentir. Mesmo em um caso tão difícil quanto este, com a evidência contra eles.
— Sim. Ainda me sinto mal, ele é muito novo. Um imbecil, nojento, mas ainda muito novo.
A sobrancelha de Lorena se levanta e ela estuda o rosto de Eduarda por um segundo.
— Ele fez um comentário no tribunal hoje.
— Sobre você?
— Não. Ele estava definitivamente falando de você, então não se sinta muito mal por colocá-lo atrás das grades.
Lorena a observa como um raio laser depois disso.
— Não consigo. Você, realmente tava... atrae...
Eduarda sente o calor subir pela parte de trás de seu pescoço enquanto ela ouve a forma como suas próprias palavras carregam aquele peso familiar. Tenta afastar a visão do corpo de Lorena naquelas calças da sua mente. O corpo que está agora bem ao lado dela. Só pode ser culpa do shot que ela acabou de tomar. O rosto de Lorena se transforma e suas mãos se tocam no topo do balcão. Eduarda se arrepende assim que sai de sua boca.
— Eduarda... — sua voz é cada vez mais baixa, ela se inclina mais perto, seu quadril encosta no joelho de Eduarda.
E, de repente, o ar muda. Tem álcool suficiente no corpo de Eduarda pra ela sentir e pra não se afastar do olhar de Lorena. Os olhos verdes dela deslizam até seus lábios e demoram ali.
— Meu apartamento é aqui perto. — Eduarda diz, quase involuntariamente.
Ela não tem certeza do motivo de dizer aquilo. Talvez seja porque Lorena fica bem demais naquelas calças. Ou talvez seja o sorriso dela, aquele sorriso convencido faz Eduarda perder a paciência. Lorena se levanta e deixa dinheiro no balcão. Ela não diz nada, apenas oferece sua mão a Eduarda.
***
O apartamento de Eduarda não é nada minimalista, tem telas nas grandes janelas que têm uma vista incrível do bairro Higienópolis. Lorena a empurra contra a porta assim que ela se fecha e seus lábios encontram os de Eduarda com urgência. É diferente do bar. Não há hesitação. Não há jogo. Apenas desejo.
— Você é tão irritante. — Lorena murmura contra os lábios de Eduarda, suas mãos subindo para o cabelo ruivo dela, puxando levemente.
— Você também. — Eduarda ofega, seus dedos encontrando a cintura de Lorena, puxando-a mais perto.
Elas se movem através do apartamento, deixando roupas pelo caminho. Lorena a empurra contra a parede, seus lábios encontram a pele do pescoço de Eduarda, deixando marcas ali.
— Porra, Lorena. — Eduarda grita, sua cabeça caindo para trás.
Lorena ri contra sua pele, um som baixo e sexy que faz o estômago de Eduarda se contrair. Ela a pega pela cintura e a leva para o quarto, jogando-a na cama com cuidado antes de se deitar sobre ela. Elas se beijam como se estivessem tentando devorar uma à outra. Como se tudo que fizeram no tribunal, toda aquela tensão e aquela raiva pudessem ser transformadas em algo físico. Em algo que pudessem sentir. As mãos de Lorena exploram o corpo de Eduarda, encontrando cada ponto sensível, cada lugar que faz a ruiva gemer e seus lábios seguem o mesmo caminho, deixando um rastro de beijos e marcas.
— Você é tão linda... a advogada mais linda dessa São Paulo inteira. — Lorena sussurra ofegante contra a pele de Eduarda.
Seus dedos encontram o caminho para dentro dela. Eduarda grita o nome de Lorena, suas mãos agarrando os lençóis e seu corpo arqueando com cada toque. Tudo é urgência e desejo. Lorena a toca como se soubesse exatamente o que fazer, como se tivesse mapeado o corpo de Eduarda em sua mente. Seus dedos se movem com precisão, encontrando aquele ponto que faz Eduarda enlouquecer.
Eduarda dá um grito, seu corpo estremece enquanto Lorena a beija enquanto ela se recupera. Depois, elas se deitam uma ao lado da outra, ofegantes, completamente satisfeitas. Lorena puxa Eduarda para ainda mais perto, seus dedos traçam padrões aleatórios nas costas dela.
— Isso foi... — Eduarda começa, mas não consegue encontrar as palavras.
— Foi mesmo — Lorena concorda e beija o canto da boca de Eduarda.
Elas dormem assim, entrelaçadas, como se tivessem feito isso mil vezes antes.
***
Eduarda acorda e o outro lado da cama está vazio. Suas cortinas ainda estão abertas e a luz do dia se infiltra no quarto escuro. Ela ouve a porta da sala fechar silenciosamente e sabe o que a tirou de seu sono. Em seu estado meio adormecido, ela se vira e puxa o outro travesseiro. Ela sente que ainda há calor corporal nos lençóis e então adormece de novo.
Já são quase onze horas quando ela acorda outra vez, sente uma dor gratificante em seus músculos e seu cabelo está bagunçado em seu rosto. Flashes da noite anterior aparecem rapidamente enquanto ela se vira e alonga. Seus lençóis estão uma bagunça e suas roupas estão espalhadas pela sala e... caramba! Ela realmente transou com Lorena Ferette na noite passada? Ela esfrega as mãos sobre seu rosto e tenta fugir dos seus pensamentos, mas é inútil. Eduarda balança as pernas sobre a cama e tenta se convencer que esse sentimento é de arrependimento, mas quando ela vê seu sutiã pendurado pela metade na mesa e seus sapatos jogados na sala de estar, ela apenas sente uma onda de calor novamente. Quem diria que a certinha da Lorena era uma onça na cama.
Eduarda se permite um sorriso, e depois mais um, antes de ligar a cafeteira e tomar um banho. Ela fica sem graça quando encontra a marca que Lorena deixou no seu quadril e a outra na lateral de seu peito, antes de abrir o registro da água mais fria.
A faísca começou no bar, impulsionada por shots e pelo clima de fim de semana. E agora acabou, já foi.
***
Tirar Lorena e aquela noite da cabeça não foi tão fácil quanto Eduarda imaginou. Quando ela chega ao escritório sozinha na quietude de uma manhã de sábado, há uma pilha de correspondências esperando por ela e três novos processos com um post-it rosa na frente. Ela suspira e acende as luzes, se acomodando para o dia que certamente será longo.
A correspondência já está aberta, à espera dela. Duas moções finalmente chegaram, uma com mais de uma semana de atraso. Há também a transcrição de um depoimento de três meses atrás, que será usada no julgamento das próximas semanas, o mesmo que ela preside em conjunto com Paulinho.
E, para completar, algumas cartas timbradas do gabinete da Promotoria. Ela reconhece a caligrafia precisa no envelope da primeira carta, e um arrepio percorre sua espinha.
Foco, Eduarda!
Ela ignora as cartas do gabinete da Promotoria, desliza os novos casos para o chão, deixa para depois, e pega a transcrição enquanto liga o computador e apoia os pés na mesa para ler. Não leva mais que um segundo. O nome na primeira página salta aos seus olhos, e ela quase cai da cadeira. Paulinho não disse qual Promotor foi designado para o caso quando pediu sua ajuda, mas está lá em letras em negrito para ela ler.
Promotora Lorena Ferette.
E, com certeza, vai ser um dia longo.
***
A porta faz barulho, o elevador se fecha com um gemido metálico. Eduarda não olha. Interrupções são o menor dos problemas. No início, ela ficava vermelha sempre que lia o nome de Lorena, revirando os olhos para si mesma. Mas em cada página do depoimento sua irritação crescia.
Lorena é presunçosa até no papel e Eduarda praticamente consegue vê-la sentada ali. Desfiando argumentos, riscando suas perguntas cuidadosamente uma por uma. O rabo de cavalo perfeito. O blazer azul-marinho impecável. Firme, calculista, sempre certa. Eduarda sabe como ela é no tribunal. Mas isso... isso é completamente diferente. Ela esqueceu o quão insuportável Lorena pode ser quando sente que tem um caso que lhe dá superioridade moral. Quando se sente superior. Não era só o fato de o caso ser mais difícil do que Paulinho a fizera acreditar. Era dar de cara, logo na primeira leitura, com um dos argumentos impecáveis de Lorena, tão bem construído quanto os beijos que ela ainda sentia da noite anterior.
Aquele sentimento caloroso dessa manhã se transformou em irritação. Porque é claro que Lorena Ferette é a advogada da outra parte neste caso, é claro que Lorena Ferette não sai da sua cabeça. E é claro que Lorena Ferette estará lá.
Uau... que merda.
