Work Text:
Era para ser só uma saída simples, nada estressante: ir até o hortifruti, comprar alguns legumes que faltavam, e retornar para casa. Nada de complexo, é algo que Pomba já havia feito várias vezes, e todas com êxito. Ia lá tantas vezes que todos os funcionários já o conheciam, além de algumas senhorinhas que também eram clientes regulares. Toda sexta-feira, às quatro da tarde, Pomba estaria lá.
Mas, é realmente incrível como o efeito borboleta pode, de fato, causar um tsunami.
Pomba acabou se atrasando para ir ao hortifruti: primeiro, não achava sua carteira; segundo, Princesa, uma das rottweillers de Aguiar, estava se jogando nele o tempo todo; e terceiro, precisou voltar para pegar um guarda-chuva, pois o tempo fechou do nada. Nessa soma de fatores, Pomba acabou atrasando um pouco mais de meia hora. Quando chegou, deu boa tarde aos funcionários, e uma das moças do caixa até brincou, dizendo que pensou que ele não viria. Pomba riu e disse que teve imprevistos.
Pomba estava ocupado demais escolhendo um pepino japonês para notar a presença ao seu lado. Ele analisava os legumes e murmurava para si mesmo coisas genéricas, como “muito machucado” ou “muito mole”, até que ouviu uma voz.
“Não acredito… é tu mesmo, Josy?” Pomba sentiu seu corpo gelar. Suas mãos agarraram o pepino com tanta força que as pontas dos dedos ficaram brancas. Ele não se mexeu, não conseguia (ou não queria). Aquele nome era uma facada em seu peito. Aquele nome não é dele. A dona daquele nome morreu, e em seu lugar, nasceu Pomba. Ninguém mais conhece aquele nome, ninguém mais sabe quem foi Josy, todos só conhecem Pomba. Além disso, havia aquela voz… Pomba reconhece aquela voz muito bem: é a voz do inferno. A voz que, no passado, foi responsável por proferir ofensas e xingamentos para ele. A voz que fez Pomba ter medo de ir à escola, a voz que o fazia chorar, a voz que tirava seu sono, a voz que ecoava pela sua mente, reverberando como se estivesse numa caverna.
Sentiu uma mão em seu ombro, e uma súbita vontade de sair correndo surgiu dentro de si. Pomba prometeu a Aguiar que seria mais corajoso, que não fugiria dos problemas, mas… há feridas que ainda doem, e doem muito. “Sou eu, Felipe. Lembra de mim?”
A pergunta correta, neste caso, seria “como esquecer?” Como esquecer da pessoa que fez um inferno na vida de Pomba? Como esquecer da pessoa que o humilhava quase diariamente? Como esquecer da pessoa que assombrou sua existência como um espírito obsessor? Como esquecer da pessoa que destruiu sua autoestima? Como esquecer da pessoa que quase destruiu sua vida?
Pomba ficou em pânico, não sabia o que fazer. Olhar para o lado e respondê-lo seria aceitar aquela realidade, aceitar que ele não é uma alucinação da sua cabeça. Se fingir de desentendido estava fora de cogitação; com certeza aquele filho da puta homem havia percebido que causou uma reação em Pomba. O jovem respirou fundo e, sem olhá-lo nos olhos, conseguiu responder. “Não conheço nenhuma Josy, moço.”
“Ah, deixa disso, é você mesma. Escola Elite do Ensino, lembra? A gente estudou junto. Caramba, quanto tempo,” ele retirou a mão de seu ombro, e Pomba finalmente conseguiu respirar aliviado pela primeira vez em minutos. “E aí? Como que anda a vida?”
“Bem.” Pomba guardou o pepino no saquinho plástico e começou a dar um nó, louco para sair dali. A resposta, monossilábica e em tom ríspido, não combinava nem um pouco com seu jeito habitual de falar, o que chamou atenção de um funcionário próximo, Miguel, que estava reestocando as cebolas.
“A minha também, obrigado por perguntar,” o tom irônico na voz de Felipe fez o sangue de Pomba ferver. Ele terminou de dar o nó e estava prestes a seguir pelo corredor, quando o homem novamente falou. “Tu continua com isso de achar que é homem?”
O mundo parou de girar. Suas pernas pararam de se mexer. Seus pulmões pararam de funcionar. Seus ouvidos pararam de escutar o mundo exterior. Tudo o que ouvia era seu próprio coração, as batidas ecoando de modo ensurdecedor em suas orelhas. Sua boca ressecou. As pontas de seus dedos começaram a formigar. Sua nuca começou a ficar gelada. Tudo parou. Era uma sensação que Pomba conhecia muito bem, mas que, felizmente, estava quase se tornando uma estranha novamente: pânico. Pomba estava prestes a ter um ataque de pânico.
Felizmente, Miguel foi mais rápido. “Ô irmão, aqui a gente não tolera esse tipo de coisa não, tá? Se retira, por gentileza,” ele largou as cebolas e caminhou até estar entre Felipe e Pomba, que continuava congelado no mesmo lugar. A voz do rapaz estava completamente abafada para si.
“O que? Ela cisma que é um cara, e o errado sou eu?” Felipe retrucou, e agora mais dois funcionários – Pedro e Júlia – se aproximaram da situação, Júlia puxando Pomba para longe e Pedro se juntando a Miguel para expulsar Felipe de lá. Pelo menos, é o que Pomba acredita que aconteceu, ele não sabe ao certo. Tudo o que ouvia eram vozes abafadas, seu coração acelerado e um zumbido agudo. Sua visão estava repleta de pontos coloridos; não sabe quanto tempo demorou até sua visão normalizar, mas quando aconteceu, ele se viu sentado num canto, com Júlia segurando um copo d'água quase vazio na mão. Ele nem se lembra de ter bebido água.
“Você ‘tá bem, Pomba? Ele já foi embora,” a voz dela era um pouco mais alta e menos abafada. Pomba assentiu, mexendo as pontas dos dedos e respirando fundo, tendo a alegria de finalmente sentir o ar preenchendo por completo seus pulmões. Pomba viu um homem mais velho aparecer em seu campo de visão, com a blusa verde do hortifruti. Aquele era Leonardo, o gerente.
“Meu hortifruti é tão pequeno, e nem é de rede. Não acredito que uma confusão dessas aconteceu aqui,” ele suspirou e voltou sua atenção para Pomba. “Você ‘tá bem, menino?” Pomba assentiu. O gerente ficou em silêncio por um tempo, suspirando logo depois. “Quer saber? Leva tudo isso de graça hoje, é o mínimo que eu posso fazer por você.”
Pomba negou com a cabeça, sua voz saindo falha ao tentar falar. “Não precisa… eu… tô com o cartão aqui…”
“Olha, Pomba…” Leonardo suspirou, “eu já tenho quase cinquenta anos, não entendo muito dessas coisas, mas todo mundo aqui te conhece como ‘Pomba’, então pra gente, você é ‘Pomba’, tá?” Ele deu dois tapinhas no ombro de Pomba, que sorriu fraco com a ação. Ele se levantou e tentou agradecer o gerente, que logo dispensou suas palavras, alegando que era, de fato, o mínimo que ele podia fazer. Os funcionários também apoiaram Pomba, falando para ele não se importar com isso, para ele esquecer o cara e não dar bola para o que ele diz. Luana, uma das moças do caixa, até brincou, dizendo que ele era bonito demais para ficar triste. Pomba sentiu as bochechas esquentarem e agradeceu timidamente, finalmente voltando para casa.
O curto trajeto de volta foi tenso, preenchido por uma ansiedade que insistia em fazer morada em sua mente e barriga, lhe causando um pouco de mal estar. Pomba, por incrível que pareça, tem mais disposição do que aparenta: se fosse um estranho, ele não iria se incomodar nem um pouco. Ele sabe que nem todas as pessoas o aceitariam do jeito que ele é, e ele – na medida do possível – fez as pazes com tal fato. Ainda dói, mas é uma dor suportável. Entretanto, vindo daquele homem… aquele homem foi o primeiro a lhe tratar tão mal. Foi o primeiro que fez Pomba sentir o preconceito na pele (até hoje, ele se lembra dos gritos revoltados de Harpia, clamando que iria ‘’estourar a cara daquele guri’’ por ter mexido com Pomba), e foi quem lhe ensinou o ódio. Pomba nunca havia sentido o verdadeiro ódio antes, mas ao olhar para ele, tudo o que via era vermelho.
Pomba já teve pensamentos intrusivos onde ele, ou Aguiar, batem tanto nele que acabam matando-o. Pomba não tem mais certeza se de fato são apenas intrusivos.
Quando chegou na frente de sua casa, notou a moto de Aguiar estacionada na garagem. O mais velho conseguiu sair mais cedo; pelo menos Pomba teria uma alegria ao chegar em casa.
Colocou a chave na maçaneta e girou, sendo recepcionado por Princesa, que latiu e correu até ele, pulando animada em cima do rapaz. Pomba riu e, de modo desajeitado, conseguiu trancar a porta com uma mão, enquanto carregava sacolas nos dois braços e fazia carinho na cachorra com a mão livre.
“Oi, minha linda. Voltei. Seu papai já chegou?” Como se fosse combinado, assim que terminou a pergunta, Aguiar aparece na sala, sorrindo doce para Pomba.
“Oi, querido. Você não vai acreditar: em frente à delegacia, tinha uma banca vendendo vários livros, aí comprei um que você talvez…” sua fala morreu ao notar o rosto de Pomba: claramente abatido, com a pontinha do nariz um pouco vermelha, assim como seus olhos. “Querido, você está bem? O que aconteceu?”
“Nada, nada, eu só… mexi com cebolas lá, e estavam bem ardidas, então já sabe,” ele riu, porém não havia nenhum humor por detrás do ato. Princesa, após a fala de Aguiar, pareceu notar que Pomba estava diferente, e se colocou de volta no chão, esfregando a cabeça nas pernas do rapaz.
“Cebola só arde se for aberta.” Aguiar deu alguns passos na direção de Pomba, e pegou as sacolas de sua mão, colocando-as no chão. Suas mãos foram até os braços morenos, fazendo uma carícia calma neles. “Fala comigo, o que aconteceu?”
“Nada, eu só… acabei esbarrando com um cara que estudei, e ele foi transfóbico comigo, ou melhor, continuou sendo,” Pomba acabou fungando, se punindo por dentro por querer chorar.
“Continuou?” A voz de Aguiar era fria. Assustadoramente fria.
“É, é o Felipe. Ele… ele fazia bullying comigo na época da escola e, pelo jeito, não mudou nada como pessoa,” ele fungou novamente, evitando os olhos de Aguiar. Pomba não gostava de falar tais coisas em voz alta; sentia-se pequeno, frágil.
Ele estranhou o silêncio de seu namorado e, quando subiu o olhar, se deparou com Aguiar olhando de modo sombrio para um ponto fixo acima de sua cabeça, sem piscar. Pomba reconhece aquele olhar muito bem: é o olhar do Mutilador Noturno, planejando mais uma vítima. Pomba estalou os dedos, atraindo a atenção do delegado para si. “Ei, eu conheço esses olhos. Nada disso. Ele não merece seu tempo, ele não é ninguém, ok? Já acabou, o pessoal do hortifruti me defendeu e expulsou ele, então não precisa fazer nada, tá? Deixa ele pra lá.”
Aguiar respirou fundo, e Pomba sentiu o aperto em seu braço ficar um pouco mais forte, como se Aguiar estivesse lutando contra os próprios instintos (e, muito provavelmente, ele estava). “Então, deixe eu ao menos ajudar como delegado. O que ele fez é crime, e comigo na polícia mexendo uns pauzinhos, eu consigo levar ele preso. Abre um Boletim de Ocorrência, querido.” Pomba negou com a cabeça, e ouviu o choramingo de Princesa, provavelmente notando a mudança de humor de seus donos. O mais novo começou a fazer carinho atrás de uma das orelhas da cachorra, e subiu o olhar até o rosto de Aguiar, que o olhava numa mistura de raiva, ódio, tristeza e amor.
“Não quero me estressar. A vida vai dar a ele o que ele merece.” Pomba deu um selinho em Aguiar e se desvencilhou de seu aperto, indo até o banheiro para tomar um banho.
Aguiar continuou ali parado, com as sacolas de compras em seus pés. Princesa começou a cheirar os legumes, curiosa. O delegado mordeu o lábio e sorriu de modo macabro.
Ah, com certeza a vida irá dar para aquele cara o que ele merece.
🪓🕊
Na noite do sábado seguinte, Aguiar levou Pomba para jantar num restaurante caro. Não havia nenhum motivo aparente, nenhum aniversário ou comemoração. O delegado apenas queria mimar seu amado. Sua única exigência foi que Pomba se vestisse formalmente, para ele ficar ainda mais bonito do que já é. A roupa dourada reluzia como ouro em contraste com sua pele escura, e os poucos acessórios – um brinco de pena em uma orelha, um bracelete dourado no bíceps esquerdo e a aliança de namoro em seu dedo anelar direito – realçaram ainda mais sua beleza. O rapaz estava um verdadeiro colírio para os olhos.
Após permitir que Pomba desfrutasse do bom e do melhor, Aguiar o levou de volta para a casa deles. Pomba não questionou, mas sentiu seu namorado diferente durante a noite: parecia ansioso, algo incomum para o delegado. Já havia um tempo desde que eles saíram para um encontro caro, então talvez fosse isso, mesmo com sua intuição afirmando que havia mais algo sob toda a ansiedade de Aguiar naquela noite.
Ele entrou na garagem e desligou a moto, tirando seu capacete. “A noite ainda não acabou, querido. Eu tenho mais uma surpresinha para você.” Pomba, que estava tirando seu próprio capacete, arqueou uma sobrancelha, numa pergunta silenciosa. Aguiar sorriu, e apenas estendeu a mão para o mais novo, que a aceitou de bom grado.
Aguiar começou a puxar Pomba pela casa, até chegar no quintal, onde suas duas cachorras estavam de guarda no quartinho que havia ali. Pomba estranhou; elas só ficavam assim quando o Mutilador tinha uma vítima ali dentro.
“Ah, esqueci de algo, eu já volto,” Aguiar deu um selinho em Pomba e entrou na casa, deixando o rapaz sozinho com as cachorras. Nem adiantava querer brincar com elas: quando estavam de guarda, apenas um comando específico de Aguiar era capaz de quebrar o ‘transe’.
O delegado retornou, carregando a máscara numa mão. Pomba arregalou os olhos, e Aguiar apenas sorriu para ele. Ele deu o comando às cachorras, mandando elas ficarem de guarda, dessa vez, na porta de entrada da casa. Ele respirou fundo e piscou para Pomba, colocando sua máscara. Deu uma pequena cambaleada para trás, mas logo se estabilizou.
“Aguiar?” Pomba o chamou tímido, e logo aqueles olhos vermelhos estavam o encarando. O rapaz engoliu em seco, sentindo seu corpo gelar de medo. Aguiar nunca havia posto a máscara perto dele.
O Mutilador levou uma das mãos até o rosto de Pomba, o acariciando. “Quer sua surpresa?” Pomba concordou com a cabeça, mesmo estando com um pouco de medo. O Mutilador pegou em sua mão e o levou até a porta do quartinho, destrancando e abrindo. Pomba ficou boquiaberto com o que viu.
Ele sabia como o quartinho era: revestido do chão ao teto para isolamento acústico, alguns ganchos pendurados para quando o Mutilador estivesse com vontade de realmente torturar suas vítimas, o machado pendurado no alto da parede, como se fosse um troféu, e a luz vermelha acesa.
O que ele não esperava, contudo, era encontrar duas cadeiras ali. Uma estava vazia, porém a outra estava ocupada. Nela, havia um homem amarrado e amordaçado. Um homem que Pomba conhece muito bem.
Felipe.
Ele arregalou os olhos e se virou na direção do Mutilador, que já lhe encarava de volta, e Pomba tinha certeza que Aguiar estava sorrindo de modo arrogante por trás da máscara. Ele fez um carinho na cabeça de Pomba. “Surpresa, passarinho.”
O olhar que Filipe dirigiu à eles era uma mistura de terror com surpresa. Definitivamente, de todas as pessoas que poderiam aparecer naquela porta, a última que ele esperava era Pomba. Ele começou a se debater na cadeira e a gritar, mas a mordaça abafava sua voz. O Mutilador fechou a porta, deixando apenas aquela luz vermelha ser a fonte de iluminação. “Eu preparei esse assento só pra você, passarinho. Não vai se sentar?”
Pomba sentiu a garganta ressecar. Nunca havia entrado no quartinho quando o Mutilador tinha uma vítima lá dentro, então não sabia o que fazer. Olhou novamente para o assassino, que colocou uma mão delicada em seu ombro, lentamente o empurrando para a cadeira vaga. Pomba se permitiu ser levado, ainda tentando processar as informações. O Mutilador empurrou seus ombros para baixo, e Pomba se viu de frente para aquele homem, que agora começava a chorar.
“Felipe Santos Cunha,” o Mutilador começou a falar, caminhando lentamente, igual um predador, na direção de sua vítima, “vinte e dois anos, estudante de Administração, ex-aluno do colégio Elite do Ensino,” o Mutilador agarra o homem pelo cabelo, puxando com força, até que ele esteja encarando a máscara, “e o homem responsável por fazer a vida de Pomba um inferno.” A última parte da frase foi dita quase rosnando. O Mutilador largou seu cabelo, apenas para desferir um forte soco contra a mandíbula daquele homem, fazendo-o urrar de dor.
“E agora, acha que pode voltar,” outro soco, dessa vez em seu nariz, que com certeza foi quebrado com apenas um golpe, “e tentar crescer pra cima dele de novo, igual um COVARDE?” A última palavra foi dita aos berros, com um soco na boca do estômago. O homem se curvou de dor, mordia a mordaça com muita força, fazendo sua mandíbula doer ainda mais.
Pomba assistia à cena calado. Só agora havia caído a ficha do que aconteceu: Aguiar se deu o trabalho de ir atrás daquele homem só porque ele feriu os sentimentos de Pomba. Aguiar provavelmente planejou isso por dias, esperando o momento certo para sequestrá-lo e trazê-lo para cá, igual um cachorro trazendo presentes para o dono. Aguiar fez isso tudo por ele. Mesmo com Pomba pedindo para esquecer, para deixar para lá, Aguiar perseguiu o homem para entregá-lo de bandeja para Pomba nesse estado completamente patético: amarrado, amordaçado, chorando e sendo nada mais que um saco de pancadas para o Mutilador Noturno. Pomba estremeceu, um sentimento familiar começou a querer fazer morada em si, esquentando lentamente seu baixo ventre. Isso era… não, não poderia ser. Pomba deve estar delirando.
Aguiar encaixou um chute certeiro na boca do estômago do homem, e ele gritou ainda mais alto. Em vão, óbvio. Ninguém iria salvá-lo. O Mutilador abaixou a mordaça da boca dele, agarrando seu cabelo com força, obrigando-o a olhar para Pomba. “Não tem nada a dizer a ele?” O Mutilador quase rosnou a palavra ‘ele’. Felipe engoliu em seco, tentando falar, porém tendo uma crise de tosse ao invés disso. Um pouco de sangue e baba escorria de sua boca, e o Mutilador puxou seu cabelo com ainda mais força, o couro cabeludo do homem com certeza deveria estar ardendo à essa altura.
“Des… des… desculpa…”
O Mutilador riu arrogante, colocando a mordaça de volta no homem. “Ele pediu desculpas, passarinho. Acha que é o suficiente?”
Pomba entendeu exatamente o que estava acontecendo: Aguiar – não, o Mutilador – estava o convidando para adentrar seu mundo. Estava colocando o destino daquele homem em suas mãos: o que Pomba falasse, o Mutilador faria. Pomba nunca havia sujado suas mãos de sangue a vida inteira, mesmo namorando Aguiar; ele só não se metia em nenhuma de suas ‘caçadas’. Mas, agora, não havia mais como fugir: ali, naquele quartinho isolado do mundo, ninguém saberia o que ele iria falar. Ninguém saberia o que ele poderia decidir. Ali, ele poderia cometer a maior atrocidade possível; não haveria nenhuma consequência. Aquela luz vermelha deixava o Mutilador ainda mais macabro, os olhos vermelhos ainda mais proeminentes, lhe encarando descaradamente. Além disso, a iluminação deixava o todo ar mais… tentador. Olhando para si mesmo, Pomba viu como seus acessórios brilhavam, e como sua roupa causava um contraste ainda maior com sua pele. Abriu um pouco mais as pernas e mordeu o lábio lentamente, retomando o olhar para o Mutilador, que arfou ao ter uma visão tão pecaminosa diante de si. Pela primeira vez na vida, Pomba entendeu o real significado da palavra tentação. Será que Eva se sentiu assim no Jardim do Éden?
Pouco importa, tudo o que Pomba sabia é que ele, assim como ela, iria morder a maçã, e morder com gosto, ao ponto do suco frutífero escorrer livremente por seus lábios.
“Não… eu quero mais,” o Mutilador se surpreendeu com a fala de Pomba, mas logo retomou sua postura. “Quero que ele sinta a mesma dor que eu senti.” Uma de suas mãos apertou sua coxa em antecipação, e o assassino riu com gosto. Pomba tentou, mas não conseguiu segurar um pequeno sorriso ao ver o olhar de medo naquele homem amarrado.
Se a justiça dos homens é falha, então que a do Mutilador seja certeira.
O Mutilador largou os cabelos com força, fazendo a cabeça do homem cair para frente rapidamente, causando uma dor aguda em sua nuca. Pomba acompanhava seu namorado com os olhos, até ele chegar na parede oposta, e retirar dela seu tão adorado machado. Pomba sentiu os pelos da nuca arrepiarem em antecipação: nunca havia visto o Mutilador Noturno em ação, e agora iria assistir na primeira fileira, num show exclusivo.
Ao pegar o machado, Aguiar o apertou com força, sua visão turva de tanto prazer. Sim, prazer, e para caralho: a sede de sangue que aquele máscara lhe dava ia direto para o meio de suas pernas. Muitas vezes, precisou se segurar para não gozar enquanto fazia mais uma vítima, mas agora, seu autocuidado desapareceu. Matar esse cara vai ser uma delícia, pois ele vai fazer isso por Pomba, na frente dele, à mando dele. Aguiar mordeu o lábio para não gemer; nem havia começado a machucá-lo de verdade ainda e já sentia seu pênis completamente duro dentro da calça.
Ele retornou até onde aquele homem patético estava, numa tentativa em vão de chorar pela sua vida. Mal sabia que, ao machucar Pomba, ele tinha acabado de emitir seu atestado de óbito.
Com o machado em mãos, o Mutilador desferiu o primeiro golpe: um corte certeiro, com uma precisão perfeita, cortando desde o ombro esquerdo até perto do cotovelo. Não era um corte fatal, longe disso. O Mutilador não queria que ele fosse uma vítima rápida; seria fácil demais para ele. Ele irá vingar todos os anos que Pomba sofreu na mão desse homem, deixando-o agonizar lentamente até sua morte. O sangue começou a escorrer do ferimento e a sujar o braço dele, pingando um pouco no chão e manchando a calça da vítima, que urrava de dor. Ou melhor, tentava. O Mutilador era melhor do que admitia em fazer mordaças.
Pomba acompanhava o trajeto do sangue com os olhos, lambendo os lábios ao vê-lo escorrer. Não era nem perto do que ele queria, não era nem perto do que aquele puto merecia. Mas, ainda assim, aquela simples visão fez um calor começar a surgir dentro de seu corpo. O golpe do Mutilador foi com uma precisão milimetricamente calculada, fazendo Pomba se questionar quantas vezes ele já fez isso antes. Quando um corte gêmeo foi aberto no outro braço, o choro patético daquele homem fez a intimidade de Pomba se contrair subitamente. Vê-lo sofrer estava sendo ainda melhor do que ele imaginava.
Lentamente, o Mutilador andou até si, segurando machado sujo de sangue na frente do rosto de Pomba. “‘Tá gostando?” Pomba assentiu, olhando para aquela máscara não mais tão macabra. O Mutilador, sendo o putífero que é, colocou o machado bem no meio de suas pernas, exatamente onde fica seu pênis quando está enrijecido. “Limpa, mas sem engolir. O sangue desse arrombado não merece essa boca.”
Pomba gemeu sem nenhuma vergonha, apertando uma coxa contra a outra. Engoliu em seco e colocou a língua para fora, lambendo com cuidado um pedaço da lâmina do machado. Ao sentir sua boca cheia de sangue, ele parou com a ação, apenas para o Mutilador pegar sua mandíbula com uma mão, o impedindo de fechar a boca. Ele pressionou o polegar na língua de Pomba, e o rapaz deixou o sangue escorrer para fora de sua boca e pingar no chão, junto com sua saliva. Ele trouxe Pomba novamente para perto da lâmina, e agora o rapaz não se preocupou em disfarçar o gemido manhoso que saiu de sua boca, olhando para o assassino com a boca aberta e a língua para fora bem no meio de suas pernas. O gosto metálico em sua língua deveria ser nojento, mas naquele momento, era completamente afrodisíaco.
“Puta do caralho,” o Mutilador rosnou e agarrou sua mandíbula com força de novo, a língua do rapaz ainda para fora. “É pra limpar o machado, não lamber como se fosse meu pau,” terminou a frase dando um tapa no rosto de Pomba, que gemeu em deleite com a ardência em sua bochecha.
Sorriu sacana para o Mutilador, e retrucou seu comentário. “Então não segura ele como se fosse seu pau.” Outro tapa. Pomba lambeu o lábio superior de uma ponta a outra, olhando diretamente naqueles olhos assustadores.
“Anda logo, ou o showzinho acaba,” o mais velho agarrou Pomba pelo cabelo, e o rapaz voltou a lamber a lâmina, agora seguindo mais à risca a instrução do assassino.
Quando julgou que a lâmina estava limpa o suficiente, o Mutilador se afastou, e soltou um riso cruel ao perceber a pequena poça de sangue e saliva que surgiu entre eles. Retornou sua atenção para a vítima, que ainda estava chorando e gemendo de dor, o sangue escorrendo lentamente pelos seus dois braços. Rapidamente, o assassino desferiu outro corte: na horizontal, pegando de uma ponta a outra de suas costelas, rasgando a blusa e começando a manchá-la de vermelho. O homem gritou em vão, o som abafado pela firme mordaça em sua boca. Largando o machado no chão, o Mutilador novamente socou o rosto do homem, desta vez com tanta força que com certeza quebrou a mandíbula.
Outro chute foi dado em sua barriga, seguido de uma joelhada na costela esquerda. O golpe fez o homem balançar como um boneco na cadeira, fazendo com que um objeto caísse de dentro de sua roupa. Olhando com mais atenção por aquela luz escura, Pomba conseguiu enxergar o que havia caído: uma caixa de cigarros e um isqueiro. Uma ideia cruel se acendeu em sua mente assim que colocou os olhos nos objetos. “Hm… Mutilador?”
Ele havia acabado de chutar novamente a boca do estômago do homem que, honestamente, era impressionante não ter vomitado ainda. Virou sua cabeça para Pomba, um simples “hm” sendo sua resposta. “Eu… posso… fazer algo… com ele?”
O Mutilador ri sozinho, se curvando e estendendo a mão na direção da vítima, como se estivesse num teatro. “O palco é seu, passarinho.”
Pomba, com as pernas trêmulas de prazer, se levantou e caminhou lentamente até aquele homem. O prazer que sentia em vê-lo assim era completamente sádico; quanto tempo ele sonhou com isso, em ter essa visão, em ver esse canalha sofrer tudo o que ele fez Pomba sofrer.
O Mutilador se afastou, encostando na parede e cruzando os braços, não querendo perder o show. Pomba se abaixou e pegou a caixa em mãos junto com o isqueiro. Ao abri-la, sorriu para si mesmo ao ver que estava praticamente cheia, talvez faltando apenas um ou dois. Retirou um dos cigarros, porém não o levou à boca; ao invés disso, pegou o isqueiro e o acendeu segurando normalmente. Quando a ponta já estava queimando, ele aproximou o cigarro do pescoço do homem, o apagando em sua pele. A vítima urra ao sentir a queimadura num local sensível, e os olhos de Pomba brilham ao perceber o sofrimento dele. Pomba acendeu o cigarro novamente, e o apagou de novo na pele dele. E de novo. E de novo. E de novo, até ele acabar. Depois, pegou outro cigarro na caixa e repetiu o processo, até que ele também acabasse. Seus olhos estavam tão vidrados nas pequenas queimaduras circulares naquele pescoço que ele não percebeu o assassino na outra parede.
“Caralho…” Aguiar sussurrou para si mesmo ao ver Pomba torturar aquele homem. Sem nenhum escrúpulo, levou uma mão até o volume de sua calça e o apertou, um gemido de alívio saindo de sua boca. Ele reconhecia aquele olhar no mais novo: era o mesmo que ele tinha quando fazia suas vítimas. Pomba com certeza estava ficando com tesão para caralho, a dor e o sofrimento daquele homem estavam se deturpando e se convertendo em desejo para o casal ali presente, e eles não tinham nenhuma vergonha disso. Ali, naquele quartinho escuro, a razão deixava de existir, dando espaço apenas ao mais puro desejo carnal.
“Era assim que eu me sentia…” a voz de Pomba quebra a sinfonia de sons de sofrimento daquela vítima, “quando você me chamava por aquele nome. Queimando por dentro.” Pomba, novamente, apaga a ponta do cigarro na pele do homem, que não tinha mais lágrimas para chorar. Agora, seus sons pareciam choramingos caninos. “É bom, né? Gostou de ser queimado?” Ele acendeu o cigarro de novo, desta vez queimando-o na bochecha do homem, que lhe olhava com o mesmo medo que Pomba olhava para ele na escola. “Isso não chega nem perto do que eu sentia. Do que você fazia eu sentir, todo santo dia.” Pomba não se segurou e, ao terminar a frase, desferiu um tapa no rosto do homem, carregando todo o seu ódio e rancor.
“‘Tá animado, passarinho,” a voz do Mutilador quebra Pomba de seu transe, e ele olha para o namorado, encostado na parede, apertando e acariciando seu pau por cima da calça sem nenhuma vergonha enquanto encara aquela cena deliciosa diante de si. Pomba começa a ficar ofegante ao perceber a ação explícita do assassino, sentindo sua própria intimidade se contrair de desejo ao vê-lo naquele estado. “‘Cê deixa eu te comer na frente desse merda? Ele precisa ver que você tá bem melhor que ele.”
“Mas ele merece?” Pomba retruca para o Mutilador, engolindo a saliva que insistia em acumular em sua boca. “Ele merece ver que você me come gostoso?”
O Mutilador ri e se desgruda da parede, caminhando até Pomba e o segurando pela mandíbula. “Com quem tu aprendeu a ser boca suja assim, hein?”
“Com quem mais poderia ser?” Pomba aperta o volume na calça do Mutilador, que geme surpreso com a ação do mais novo. Por debaixo da máscara, Aguiar sorri sacana: toda vez que ele colocava a máscara, seu desejo por Pomba era impossivelmente ampliado; suas fantasias passavam a ser cenários deturpados e, para alguns, doentios. Com frequência, ele imaginava exatamente o cenário onde se encontram agora: torturando alguém na frente de Pomba. Torturando alguém para Pomba. Em sua última caçada, uma das vítimas tinha a idade de Pomba, e ele não se aguentou, se masturbou ali mesmo ao imaginar Pomba junto de si ali, segurando a vítima enquanto ele enfiava o machado em seu peito, só para depois eles transarem ao lado da própria carnificina.
“Mesmo que esse filho da puta mereça essa tortura, ele deveria ao menos ter uma última visão boa, não?” Seu polegar se arrasta por seu rosto até chegar em seus lábios, acariciando o inferior.
“Ou uma visão que o faça morrer de inveja,” Pomba brinca, mordendo de leve a ponta do dedo do Mutilador, que apenas solta uma pequena risada ao observar o quanto seu passarinho estava se soltando ali. Era quase como se aquele quartinho fosse o lugar onde tudo o que eles vêm reprimindo pudesse vir à tona sem julgamentos, ou consequências.
O Mutilador puxou Pomba um pouco mais longe da vítima, e finalmente desferiu o golpe final: enfiou o machado na perna do homem, que quase desmaiou de dor, e o deixou ali cravado. O sangue começava a escorrer de modo ininterrupto, manchando por completo a parte superior daquela calça jeans. A garganta do homem já estava completamente arranhada de tanto gritar, seus olhos ardendo de tanto que chorou. Tudo em vão, pois ali estava seu fim.
“Poxa, Mutilador, a coxa não tem nenhum órgão vital,” Pomba falou de modo manhoso, fazendo biquinho e cruzando os braços. O assassino apenas virou em sua direção e, em silêncio, o pegou no colo e o deitou gentilmente no chão.
“Hemorragia. Esse puto tá liberando sangue pra caralho, ele vai morrer devagar e com bastante dor, passarinho.” O Mutilador começa a passar as mãos lentamente pelo corpo de Pomba, sentindo cada centímetro daquela pele quente e macia sob suas palmas calejadas. Num gesto ironicamente delicado demais, ele pega uma das mãos de Pomba e a leva até a região da máscara que cobre sua boca. Pomba consegue ouvir um barulho de beijo vindo de trás dela.
Ele solta sua mão e começa a tirar a calça de Pomba, revelando suas lindas pernas morenas e firmes, graças ao seu hábito de corrida. Enquanto remove a peça de roupa, suas unhas arranham fraco a pele do mais novo, que se arrepia por inteiro com a sensação. Ele puxa a calça devagar, com a mesma delicadeza de quem desembrulha um presente. Quando a removeu por completo, o Mutilador solta uma risada sádica ao notar a pequena mancha escura na cueca de Pomba, e começa a acariciar sua intimidade por cima da cueca, lhe rendendo gemidos altos e manhosos de Pomba.
Pomba mexia o quadril em resposta ao toque quente do Mutilador em si, mesmo por cima da roupa íntima. Ter um estímulo ali após tanto tempo sem se tocar, apenas assistindo o show particular do Mutilador, o deixou mais sensível que o normal ao toque. O Mutilador não tardou em puxar a cueca do rapaz para baixo, e Pomba escondeu o rosto atrás das duas mãos de vergonha. Ele já deu para Aguiar inúmeras vezes, mas nunca para o Mutilador Noturno.
O dito Mutilador rosnou ao ver como a buceta de Pomba estava completamente encharcada, os barulhos molhados que soavam ao passar seu dedo por ela eram completamente indecentes. O clitóris do rapaz estava completamente inchado e vermelho, e ele conseguia ver como sua entrada se contraía em antecipação. Ele apertou o clitóris com força, lhe rendendo um alto gemido de Pomba e um espasmo de suas pernas, que se fecharam com força ao redor dele. Ele começou a torturar Pomba, desferindo tapas em toda a extensão da buceta do mais novo, que gemia de dor e prazer, se contorcendo no chão e prendendo o Mutilador entre suas pernas. Aquela ardência deveria ser terrível, mas, naquele momento, Pomba estava tão submerso no prazer que cederia a qualquer desejo do Mutilador, mesmo que fosse lhe machucar.
Ele sabe que o Mutilador nunca o machucaria de verdade.
Ele parou de lhe tocar para abrir, de modo quase desajeitado devido às mãos tremendo em antecipação, sua própria calça, sentido sua própria intimidade pulsar desesperada por algum estímulo. Libertá-la do aperto de sua calça e cueca foi um alívio imenso, e o Mutilador estava tão desesperado que nem se preocupou em remover as próprias vestes, as arrastando apenas até a metade de suas coxas. Ele levou os dedos, sujos com o desejo de Pomba, até o rosto, e levantou a máscara o mínimo possível, apenas para mostrar sua boca. O Mutilador chupou seus próprios dedos com vontade, se deliciando sem pudor com cada gota daquele líquido afrodisíaco de seu amado. Lambeu os lábios e desceu seu tronco, até sua boca estar no pescoço de Pomba, e ele o mordeu com vontade, mas não o suficiente para fazê-lo sangrar. Ele não tem coragem de machucar seu lindo passarinho.
Pomba gemeu alto ao sentir aqueles dentes marcarem sua pele, se agarrando no cabelo do Mutilador e o puxando com força, lhe rendendo um rosnado do assassino. Ele lambeu por cima das marcas de dente, como forma de tentar amenizar o impacto da dor. “Tua buceta é uma delícia,” a voz rouca estava rente ao seu ouvido, e Pomba se arrepiou por inteiro com aquele som grave. “Você inteiro é uma delícia. Vai ser gostoso demais transar contigo aqui.” O Mutilador, ainda com apenas a boca à mostra, puxa o rosto de Pomba para um beijo afobado e desesperado. O mais novo é pego de surpresa, e nem consegue acompanhar o ritmo ao certo, deixando seus dentes se chocarem um pouco com os lábios do Mutilador, que pouco se importa com a ação, sua sede por Pomba mascarando seu juízo.
Ele parte o beijo e coloca a máscara de volta no lugar, tapando todo seu rosto novamente. Sua mão direita vai até seu pênis e ele geme com o simples contato, estando sensível demais. Ele o conduz até a entrada de Pomba, que se contrai ao sentir aquela pressão quente em si. Ele coloca as mãos no peito do Mutilador, tentando lhe parar. “Espera… eu não…”
O Mutilador ri e, com a mão livre, agarra os dois pulsos de Pomba e ergue seus braços, até eles estarem no chão, acima de sua cabeça. “Você tá molhado pra caralho. E não finge que não gosta quando dói,” Pomba não sabe se foi algo verídico, ou se foi seu tesão deturpando a realidade à sua volta, mas podia jurar que a voz do Mutilador estava um pouco distorcida, como se mais alguém estivesse falando junto com ele. A invasão em seu interior foi lenta; de fato, estar bem molhado aliviou a sensação, mas a pressão e o desconforto continuaram se fazendo presentes, e ele precisou respirar fundo e fechar os olhos com força, mordendo o lábio para não gritar.
O Mutilador notou o desconforto de Pomba e parou com a penetração. Ele sabe que o mais novo ama quando dói, mas a dor precisa ser gostosa. Ele apertou a coxa de Pomba com uma das mãos, a outra soltou seus pulsos para tocar seu tronco por debaixo da blusa, suspendendo a peça de roupa conforme sua mão ia explorando aquela pele quentinha. Apertou seu peito com pouca força, arrancando um suspiro surpresa de Pomba, que abre os olhos e encara aqueles dois pontos vermelhos na máscara. Aqueles olhos, antes vermelhos como sangue, agora brilhavam vermelhos como a paixão, como a luxúria. Pomba o puxou para mais perto e, com a respiração ofegante, lambeu a máscara na área da bochecha direita, e o Mutilador mordeu os lábios pela ação, exalando de forma animalesca por debaixo da máscara. Pomba deitou a cabeça no chão novamente, olhando naqueles dois pontos vermelhos. “Pode continuar.”
O Mutilador retomou com a penetração, e precisou se segurar para não colocar tudo de uma vez: o interior úmido, quentinho e apertado de Pomba era delirante, ele se contraía numa tentativa tanto de expulsá-lo quanto de puxá-lo, enlouquecendo o Mutilador com os estímulos ininterruptos em seu pau. Quando finalmente todo seu comprimento estava dentro de Pomba, ele arfou pesado, o ar quente reverberando dentro da máscara e esquentando ainda mais seu rosto. Pomba não estava muito diferente: a respiração ofegante havia retornado, e ele jogou a cabeça para trás, revirando os olhos pela sensação de finalmente estar preenchido por aquele homem.
Suas mãos agarraram o chão revestido abaixo de si, e Pomba sentiu algo molhado em seus dedos da mão direita. Quando abriu os olhos, viu que, sem querer, havia colocado a mão naquela pequena poça de sangue e saliva que havia produzido mais cedo, os líquidos molhando seus dedos. Pomba se sentiu hipnotizado pela visão: a junção daqueles líquidos transparente e carmesim na sua pele morena era encantador, e Pomba – por um segundo – se perguntou qual gosto eles teriam junto à sua pele. Deu ouvidos ao pensamento impulsivo e, lentamente, começou a mover a mão na direção de sua boca, apenas para ter seu pulso agarrado pelo Mutilador.
“Eu já te disse, o sangue desse merda não merece essa boca.” Ele rosna e, com a ponta de sua camisa, limpa os dedos de Pomba, manchando sua própria roupa. Ao julgá-los limpos o suficiente, ele novamente segura os pulsos de Pomba acima de sua cabeça. “‘Tá com sede, passarinho?” O Mutilador, com a mão livre, levanta sua máscara, novamente deixando apenas a boca à mostra, e agarra a mandíbula de Pomba, o impedindo de fechar a boca. Ele pressiona a língua do mais novo com o polegar para deixá-la à mostra, e Pomba encara a máscara, sem piscar. O Mutilador abre a boca e coloca a própria língua para fora, permitindo que um grosso filete de saliva acumulada escorresse por ela e caísse dentro da boca de Pomba, que gemeu manhoso com a ação. O assassino tapou a boca do mais novo com sua mão.
“Engole.” Foi tudo que o assassino disse, e ele sorriu sacana ao ver o pescoço de Pomba se contraindo. Removeu sua mão e nem precisou dar ordens: seu passarinho, por conta própria, abriu a boca, exibindo que realmente havia engolido sua saliva. O Mutilador acariciou o lábio inferior de Pomba com o polegar, e o mais novo deu um beijo na ponta do dedo. O assassino começou a se mover dentro de Pomba, lentamente retirando quase toda sua extensão, só para meter de volta de uma vez só. O ar de Pomba fica preso em sua garganta, e o Mutilador estabelece um ritmo lento, porém intenso: se movia com uma precisão calculada, mexendo apenas o quadril, e acertando o ponto de prazer dentro de Pomba, que gemia descaradamente.
O Mutilador, ao perceber que seu machado estava no chão, próximo deles dois, levou seu dedo até a lâmina e o arrastou ali, cortando a própria pele. O sangue logo começa a escorrer, e ele leva o dedo até a frente da boca de Pomba. “Quer sangue, é? Então vai ser só o meu.”
Agora, mais do que nunca, Pomba definitivamente se sentia Eva. Naquele Jardim do Éden distorcido, o Mutilador se apresentava não como uma serpente, mas como uma onça-pintada. Uma predadora. A rainha da cadeia alimentar brasileira. Seu sangue era vermelho igual à maçã; na verdade, todo o ambiente era vermelho. Só agora Pomba percebeu aquilo que estava debaixo do seu nariz desde o início: aquela luz transformou o Jardim inteiro na maçã. O simples ato de adentrá-lo foi a primeira mordida à tentação, e cada ato ali dentro era outra mordida. Não era possível evitar, seu sabor era viciante demais, hipnotizante demais, delicioso demais. Era a melhor coisa que Pomba havia provado em toda sua vida. A maçã agora encontra-se quase sem nada, restando apenas uma última mordida; a mordida definitiva para Pomba engoli-la por completo, e ela se tornar parte de seu corpo. Olhando naqueles olhos vermelhos, Pomba abriu a boca e a fechou em volta do dedo do Mutilador, chupando o dedo com vontade, bebendo aquele sangue e sentindo o gosto metálico preencher e tomar conta de seus sentidos. Pela última vez, Pomba morde a maçã.
Os movimentos do Mutilador tornaram-se erráticos, suas coxas tremiam de desejo ao ver Pomba chupando seu sangue como se fosse uma iguaria rara. “Porra…” ele vira o rosto na direção do teto, respirando fundo e tentando recuperar o mínimo de sanidade após a visão completamente pecaminosa. A sucção molhada em seu dedo não cessava por um segundo, e ele se sentia mais perto do orgasmo a cada segundo. “Tu vai me enlouquecer, passarinho. Caralho…” ele falava entre os dentes, o abdômen se contraindo violentamente com suas respirações profundas e entrecortadas. Com a mão livre, ele a leva até o pescoço de Pomba, não apertando, apenas depositando o peso ali. Ele abaixou seu tronco até a máscara roçar no rosto de Pomba, e sussurrou rente ao ouvido do mais novo, sua voz rouca de desejo. “Gostoso do caralho,” e retira a mão do pescoço de Pomba, levantando minimamente a máscara para morder o ombro do mais novo.
Pomba sentiu seu corpo rígido por alguns segundos, parecia até que ele havia parado de respirar. O gemido que tentou sair de sua boca foi impedido pela falta de ar, e tombou sua cabeça para trás, pontinhos coloridos preenchendo seu campo de visão. Suas coxas tremiam violentamente, apertando o corpo do Mutilador de modo involuntário. Foi o orgasmo mais intenso de sua vida, tão intenso que Pomba nem sentiu quando o Mutilador espelhou suas ações, gozando dentro de Pomba. A respiração ofegante de ambos, por um bom tempo, era o único som presente naquele ambiente. O Mutilador, após recuperar o mínimo de autonomia, olhou para o lado, deixando um som de decepção escapar. “Poxa… nossa vítima morreu antes do grande final, que pena.” Pomba, com a visão um pouco turva, direcionou seu olhar para a mesma direção, onde o corpo de Felipe estava sem vida, amarrado na cadeira, com o machado cravado em sua coxa.
O Mutilador retirou sua máscara, e Aguiar respirou fundo, como se estivesse submerso. Seu corpo desabou, e ele deitou sua cabeça no peito de Pomba, ouvindo seu coração acelerado e sentindo os batimentos contra seu rosto. Ele beijou bem em cima de onde o órgão se localiza. “Querido? Você está bem?”
A visão de Pomba já estava normalizada, porém o mais novo ainda estava um pouco ofegante. Ele concordou com a cabeça, as mãos indo até o cabelo de Aguiar, fazendo um cafuné ali. O delegado subiu seu corpo até estar no campo de visão de Pomba, e lhe deu um sorriso doce, que foi correspondido pelo mais novo. Ele dá um breve selinho no rapaz, e esfrega a pontinha de seu nariz na bochecha de Pomba. “E aí? O que quer fazer com ele?” O delegado quebrou o silêncio, se referindo ao cadáver. “Posso dar pras cachorras comerem.”
Pomba negou com a cabeça. “Não… elas… não merecem isso…” sua fala ainda era ofegante e entrecortada, e suas mãos tremiam de modo sutil. “Eu quero… que você jogue ele no fundo do mar, pra ser esquecido por todo mundo, até pela natureza.” O ódio e o rancor ainda estavam presentes na voz de Pomba, que só iria se sentir em paz quando aquele homem estivesse a quilômetros no fundo do mar, onde a luz do sol não bate, e onde a humanidade jamais explorou.
Aguiar sorriu, e depositou outro selinho em Pomba. “Seu desejo é uma ordem, querido. Que fique claro: eu faço qualquer coisa por você.”
