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Eles são um só agora.
Amalgamados – ou talvez algo mais próximo de uma simbiose, um vínculo complicado demais para ser nomeado com precisão. Juan ainda se reconhece como Juan; seus pensamentos, suas memórias, seus medos continuam ali, intactos. Porém, ao mesmo tempo, há algo a mais ocupando o espaço entre eles.
Ele se sente maior. Exorbitante. Como se existisse em mais de um plano ao mesmo tempo.
Ainda assim… há esse sentimento. É o que Juan pensa primeiro. Um reflexo antigo, automático. Ele quase ri da palavra que tenta usar para descrevê-lo. Solidão. Engraçada. Ridícula. Pequena demais para dar conta do que acontece dentro dele agora.
Um zumbido constante vibra em sua cabeça – uma presença que não dói, mas insiste. Porque aquilo não é ausência. Não é ruído, tampouco vazio. É consciência. É movimento. É outra coisa respirando junto com ele (é ele), ocupando o mesmo espaço, pensando em paralelo, discordando.
Você não está sozinho, a sensação parece dizer.
E Juan sabe disso. Sabe que não se sente sozinho – não de verdade. Ainda assim, o sentimento persiste, teimoso, como um hábito que o corpo se recusa a abandonar. Um eco distante de quando havia apenas um.
Onde antes existia singularidade, agora há pluralidade. Há troca. Há atrito. Há coexistência.
Eles são um só agora.
Então por que Juan permanece imóvel diante das portas daquela maldita igreja? O lugar onde mataram seu igual. Onde o arrancaram do mundo com a bala de um rifle e fogo.
As portas não se abrem – elas cedem. A madeira queimada se dissolve em sangue espesso, escorrendo como se tivesse veias, como se o próprio edifício sangrasse ao reconhecê-lo. Ele atravessa a soleira sem hesitar, entrando no espaço que quase foi reduzido a cinzas. As marcas do incêndio ainda respiram: paredes enegrecidas, móveis deformados pelo calor, o cheiro persistente de fuligem misturado a algo mais antigo. Algo sagrado. Algo violado.
O ar vibra com memória.
Ele sente antes de ver. Uma pressão no peito – não dor, exatamente, mas reconhecimento. Um chamado mudo que o puxa pelo interior do espaço, guiando seus passos até o ponto exato onde tudo terminou.
Começou.
O corpo está ali, carbonizado, retorcido em uma forma que o fogo tentou apagar, tentando negar sua existência. A carne reduzida a carvão, as roupas fundidas ao corpo, os membros rígidos em uma posição final de desespero. Ainda assim, o fogo falhou – sempre falha.
Mesmo destruído, Juan sabe. Reconhece o contorno, a essência que ainda se agarra aos restos – ele realmente parecia ser uma pessoa teimosa. Há algo ali que responde à sua presença, um resíduo, um eco, um fragmento que pulsa fraco, mas familiar.
O ódio se acende nele, mais violento do que as chamas que consumiram aquele corpo. Não é apenas rancor pelos que fizeram isso — no plural, porque a culpa não recai sobre Lena, jamais sobre ela, mas sobre os vermes pretensiosos que chamavam-se vampiros. É algo maior.
Tudo é excessivo agora.
Eles são um só.
Juan estende uma das mãos e a mantém suspensa sobre os restos carbonizados; por um instante, o mundo parece conter o fôlego, aguardando sua decisão.
O luto ruge dentro dele, violento, absoluto, grande demais para ser contido em uma só mente. Mas eles são mais. E Juan já chorou demais – lágrimas nunca seriam suficientes para dar forma à sua dor. Nunca bastariam.
Por isso o mar é vermelho agora. Um volume equivalente a tudo o que ele poderia derramar – seja chorando, ou matando.
Juan se ajoelha. Não por respeito àquele lugar, mas por proximidade e necessidade. Suas quatro mãos pairam no ar, hesitantes, receosas de tocar e fazer o corpo simplesmente se desfazer em cinzas.
Ele não precisa tocá-lo – antes que isso aconteça, o morto reage. Espasmos violentos percorrem o que restou dele, o corpo se retorcendo contra o chão enegrecido. A carne tenta se refazer, obstinada, desesperada, como se lembrasse do que deveria ser, mas está carbonizada, não há base para sustentar o retorno. Tudo o que se forma se rompe em seguida, desfazendo-se em fragmentos escuros.
Eles sabem o que aquilo é.
Um ser anulado. Uma falha viva. Uma amálgama de memórias e carne, presa entre o que foi e o que jamais será. Não há vida ali. Nem consciência. Nem alma. Apenas restos tentando obedecer a um chamado que não compreendem.
Ele se afasta quando a criatura finalmente se ergue – apenas para vê-la cair novamente, o corpo colapsando sob o próprio peso enquanto um grito horripilante rasga o ar da igreja.
Um som cru, absoluto, feito apenas de dor.
Ela sangra.
O líquido se espalha pelo chão e, em vez de esvair-se, envolve o corpo como um útero improvisado. Embala-o. Sustenta-o. A carne finalmente encontra onde se ancorar: músculos se estendem, nervos se ligam, pele se fecha sobre si mesma, membros surgem, definidos e completos.
Onde antes havia ruína, agora há forma.
Um homem toma o lugar da coisa. Mortalmente pálido – não apenas pelo que acabou de acontecer, mas por natureza; Juan se lembra de que ele disse ser albino. O cabelo é branco, quase translúcido, como se a luz atravessasse os fios. No centro exato da testa, o estigma da violência: o buraco da bala, uma abertura pequena, cirúrgica em sua precisão, mas profunda como um abismo. A ferida não sangra, ela apenas exala o vazio – é um ponto final de carne rasgada que se recusa a fechar, um lembrete obsceno. As pálpebras permanecem fechadas, os cílios projetando sombras suaves sobre um rosto que não reage. Mas há algo que fere mais do que o tiro: o rastro seco de lágrimas antigas, trilhas salinas, pálidas e desbotadas, que marcam a pele como cicatrizes de uma dor que não teve tempo de terminar. Não há o movimento rítmico do tórax, o ar não entra, o sangue não circula. Os lábios, tingidos por um roxo profundo e asfixiado, são apenas o início da decomposição; o frio emana da carne como um hálito mortífero, e uma rigidez cruel começa a esculpir os traços, endurecendo a expressão na forma definitiva do óbito, denunciando o que ele é agora: um cadáver.
Ele é… era um homem em forma. Juan registra isso sem real interesse. O que prende seu olhar são as tatuagens que se estendem dos ombros aos braços, a tinta preta contrastando de maneira quase agressiva contra o palor da pele.
E ele era belo. Uma beleza devastadora, daquelas que dói contemplar, agora estática e preservada na tragédia.
Ao encará-lo, Juan é golpeado por uma dualidade visceral. Náusea sobe por sua garganta, um aperto sufocante que parece estrangular cada tentativa de respiração, enquanto um incêndio descontrolado consome as paredes de seu coração. É o horror puro, o choque diante do sacrilégio. No entanto, por trás desse pavor, uma satisfação sombria e silenciosa começa a borbulhar. É uma sensação terrivel, um calor que nasce no âmago e se espalha com uma ternura doentia, ocupando cada espaço vazio de sua alma sem pedir licença.
Ele se sente como alguém que acaba de desembrulhar um presente, algo de um valor inestimável e raridade absoluta.
Gostou?
Ele gosta.
Gosta muito.
Juan se abaixa novamente, apoiando-se sobre os cascos, e toma o homem nos braços com cuidado. Não o observa mais. Não precisa. Ele se vira e caminha para fora da igreja, atravessando o limiar enquanto o edifício se desfaz em sangue atrás dele – paredes, altar, símbolos escorrendo e desaparecendo.
Ele não olha para trás.
O mundo derrete, e eles se encontram sentados em seu trono novamente.
Juan acomoda o cadáver sobre o próprio colo, um gesto de cuidado profano. O contato direto da pele nua, o encontro entre o calor febril de quem vive e o gelo estagnado de quem partiu, deveria causar repulsa, mas para Juan, a temperatura é um detalhe irrelevante. O que realmente o preocupa são os ângulos de seu corpo, que parecem uma ameaça, uma arma em potencial que poderia, por acidente, rasgar ou macular a pele de seu sacrifício. Então, seus movimentos são lentos, delicados, quase solenes. Ajusta o peso do corpo, protege a cabeça, envolve-o com o próprio torso, como quem guarda algo sagrado.
Ele observa a paisagem vermelha à sua frente. O mundo inteiro parece aberto, exposto, vertendo. Juan sente a Aniquilação surgindo – não como um evento súbito, mas como uma certeza que se impregna no ar. O medo imensurável pulsa no coração de todos os seres, um terror coletivo que precede a queda. A tormenta se forma lentamente, carregada de promessas, e o céu responde: tudo brilha em carmesim. A Lua, majestosa e rubra, luzindo do alto, cobre seu olhar com um augúrio nefasto – prenúncio de um banho de sangue e dor. É ali, suspensa no céu, que se declara o início de algo irrevogável.
Juan sente o peso desse agouro, mas não ergue o rosto por muito tempo. Há outra presença exigindo sua atenção.
Ainda que sua Lua também seja sublime e lúgubre, fatídica em seu estado, ela não anuncia. Não sentencia. Não observa de longe. Ela repousa ali, próxima.
Morta.
Apenas o corpo. Uma manipulação da realidade reduzida à matéria, moldada para seu próprio prazer – porque a inclemente (maldita) Morte já a levou, e o que restou foi só o invólucro. A ausência é definitiva; o vazio inegável.
Ainda assim, Juan se pergunta se todas as coisas realmente precisam de um fim.
Eles não acreditam nisso.
Para eles, todas as coisas precisam de um novo começo.
“O amor não existe”, diz Juan, enquanto acaricia de leve o rosto do homem, atento a cada movimento para que as garras não o machuquem.
Não existe amor? A pergunta retorna com ironia, ecoando de um lugar incerto – talvez dele, talvez não.
“Se é assim”, Juan continua, a voz firme demais para o que sente, “então também não existe tristeza. Era o que eu pensava”, ele fala, algo nele insistindo que precisa se explicar. Que precisa convencer alguém.
Há uma pausa. Um instante suspenso, espesso. Juan inclina a cabeça, o olho fixo no rosto imóvel, como se realmente aguardasse uma resposta que pudesse vir a qualquer momento.
“Jasper”, ele pronuncia enfim o nome. Há algo de íntimo nisso, quase hierático. “Não tivemos a oportunidade de uma conversa longa”, ele diz, mais devagar. “Mas eu sinto que você gostaria do tema.” Um pensamento limpo demais atravessa sua mente, nítido como uma lâmina. “Afinal… por que só eu estou falando?”
Pequenas gotas vermelhas pingam, marcando o tempo. E o silêncio responde – não com palavras, mas com a ausência absoluta delas.
A raiva, confortável em sua familiaridade é inevitável: “Fala alguma coisa!”, Juan grita, e dessa vez as garras afundam nas bochechas do homem, marcando a carne como se pudesse arrancar dali uma reação à força.
O arrependimento é imediato.
Ele recua, o gesto brusco demais para o cuidado que vinha tendo. As mãos tremem enquanto o estrago se fecha sob seu toque. A pele se recompõe. A perfeição retorna – lisa e intacta, quase como se nada tivesse acontecido.
“Não me deixe aqui sozinho, por favor”, Juan suplica.
Não estamos sozinhos.
“Jasper… Jasper, por favor, não me deixa.” Em um espasmo de agonia e possessão, ele puxa o corpo flácido para mais perto, seus quatro braços movendo-se com urgência, enroscando-se ao redor de Jasper como serpentes. Ele isola o cadáver do resto do mundo e, principalmente, das garras de sua própria monstruosidade. “Por favor, você p-prometeu…”, Juan insiste, a voz falhando. “Seja onde for… esteja em algum lugar. Fala alguma coisa.” Ele engole em seco, aproxima o rosto até quase tocar o dele. “Jasper. Fala alguma coisa…”
Esteja comigo.
É uma prece dirigida a um altar de carne morta, um pedido impossível de ser atendido, feito por uma criatura que teme o próprio isolamento mais do que a própria condenação.
