Work Text:
Pomba estava na escrivaninha, tentando terminar de ler um PDF para poder começar um trabalho da faculdade, porém já tinha lido o mesmo parágrafo seis vezes e nada, não conseguia avançar.
“Desisto” apoiou a cabeça contra a madeira do objeto e deu um suspiro repleto de pesar.
Os últimos dias não vinham sendo fáceis, fora de repente, não conseguia perceber nada que poderia ter desencadeado a volta daquela merda, mas ela simplesmente se encontrava ali: a insegurança com seu físico. E ele estava cansado, muito cansado.
Tudo o que sua mente fazia era repetir seus defeitos, o lembrar como era horrendo em sua essência. Como cada estria, cicatriz e manchas eram nada menos que repulsivas, como seu maldito cabelo cacheado nunca estava perfeito o bastante, como as dobras em seu corpo eram definitivamente incômodas, como o formato de seu nariz era estranho e os olhos grandes demais… Tantas coisas e que quando juntas, formavam o ser repugnante que era.
“Que agradável” pensa com sarcasmo, bastante frustrado.
Então, ouve o som da porta se abrindo e ergue a cabeça, olhando na direção. Era Alê.
Pomba sorri ao a ver ali. Desde que chegou da faculdade, a namorada já estava enfiada em um cômodo e não tinha saído dele nem para dar um beijinho no garoto, que indiscutivelmente se encontrava carente e com saudades.
Mais do que nunca precisava de um abraço e cafuné delu, os de Alê com certeza foram os melhores que já recebeu na vida — e como não estava conseguindo focar na leitura mesmo, seria perfeito.
Pomba abre os braços para que Alê o dê um abraço apertado, todavia tudo o que elu faz é ficar parade em sua frente por alguns segundos até que estende algo.
Quando o moreno fita aquilo que lhe foi estendido, para descobrir o que era, ele abaixa os braços e ergue as sobrancelhas, surpreso.
Uma carta.
Sobe o olhar para Alê, conseguindo reparar que o namorado se encontrava estranhamente inquieto, balançando-se um pouco. Era por causa daquilo em suas mãos?
— É uma carta pra mim? — Alê confirma, cerrando os lábios. — Agora entendi porquê todos os meus papéis e envelopes tinham sumido — ri baixinho, pegando o presente.
Alê cora — sendo facilmente perceptível graças a sua palidez —, tímide pelas palavras de Pomba. Elu havia pegado todos mais cedo, uma tentativa de garantir que teria o necessário e não precisaria sair em nenhum momento de onde se localizava e acabar se desconcentrando. Claro, talvez tenha sido meio exagerado pegar mais que um envelope, só que estava nervoso quando decidiu que faria aquela carta, logo não era a pessoa mais racional no momento — contudo, gastara mais da metade dos papéis do moreno, culpa de ter tido que escrever várias e várias vezes até sair algo decente e onde sua letra fosse a mais legível possível. Depois compraria novos pra ele, fazia questão.
Pomba encara a carta com curiosidade. Alê nunca havia feito uma para ele, era o moreno quem apreciava a ideia de colocar os sentimentos no papel e entregar para a namorada, para que assim ela jamais esquecesse o quão amada era. Será que tinha decidido retribuir? A loira não costumava se expressar de uma maneira muito explícita como essa.
Quando vira o envelope para poder abrir, era ali que estava escrito o remetente e destinatário, o que já fez Pomba querer chorar.
De: Alê
Para: Meu pequeno áster.
“Eu não tenho costume de escrever cartas como você, mas acreditei que essa seria a melhor forma para expressar perfeitamente tudo o que desejo.
Faz alguns dias que eu percebi que você parecia meio diferente, passando mais tempo na frente do espelho, olhando-se atentamente e como se estivesse à procura de algo. A maneira como, toda vez que nossos beijos ganhavam um toque de lascívia, você agarrava minhas mãos em desespero e dizia não querer além, que estava cansado naquela noite. Nas roupas com ainda mais camadas que passou a usar de repente, sem se importar com o calor insuportável que aflige nossa cidade.
Não era você apenas admirando seu reflexo, estando cansado da faculdade e do trabalho ou uma simples mudança de visual, não é? A sua insegurança com o corpo voltou.
Eu não sei qual foi o motivo que o desencadeou dessa vez e também não tive muita coragem para perguntar, já que sei que dificilmente você responderia por causa dessa sua mania de ‘não querer me preocupar’. Já repeti as mais diversas vezes que não é um peso, que quero ouvir cada palavra, te acolher em meus braços enquanto ouço essas angústias tão cruéis que perturbam seu âmago. Poder te mostrar que, independente delas, como você continua a ser amado, como você permanece sendo incrível, ainda que sua mente diga que isso é impossível.
Ao constatar essa insegurança que retornou, eu percebi que mesmo que a gente namore há alguns meses, nunca falei em grandes detalhes o que acho de você. Claro que isso se deve ao fato de eu não falar muito, mas existem outros meios, como essa carta que estou escrevendo agora, então fora um erro meu, deveria ter feito isso muito antes.
De toda forma, acreditei que esse seria o momento ideal para poder dividir com você uma parte desses pensamentos.
Ainda no primeiro dia em que nos conhecemos, quando a Lena te levou para ver o ensaio da banda, recordo-me como fiquei desconcertade. Os seus olhos desse tom de âmbar percorrendo o ambiente com tanta curiosidade, com tamanha atenção para não deixar detalhe algum passar. Você nos cumprimentando com seu jeito tímido e acanhado, sem saber o que falar. Você tentando, de maneira adorável, conter o tanto que estava gostando da música e só ficar sentado, porém com seus pés continuando a se mover no ritmo.
No entanto, o que ficou gravado na minha mente fora a forma como os seus cachos não estavam definidos, como todo o seu cabelo estava graciosamente volumoso. Sei que tem um pouco de medo de deixá-lo assim novamente, mas você fica simplesmente deslumbrante com ele desse modo, sua beleza quase parece etérea.
Recordo-me de quando fomos à praia e foi lá, com nós dois observando o pôr do sol, que pela primeira vez eu notei como a vivacidade que você possuía no olhar, era similar a isso. Tão brilhante quanto aquela grande estrela que repousava em nossa frente e calmamente beijava o mar, ainda mais aconchegante que o seu calor e eu, apenas uma lua acostumada com o escuro, não estava sendo capaz de lidar com todo o seu esplendor.
Lembro-me com perfeição da nossa primeira vez, como eu estava tenso, sem acreditar que poderia enfim te conhecer por inteiro, que este desprezível e ínfimo ser poderia te tocar com tanta intimidade.
Aos poucos, à medida que perdíamos mais peças de roupas e nossa derme, aquela que as vestes escondem, ficavam visíveis, eu me fixava nelas, analisando cada pormenor que ali existia. Eu queria obter conhecimento de cada parte sua, poder compreender a sua imensidão, poder gravar a totalidade de seu corpo em minha mente para jamais esquecer da perfeição que eu tinha ao meu lado. Desde as pintinhas em sua costas, nunca visíveis para você, mas eternamente para mim, pequenas estrelas e que juntas formam as mais belas constelações, até a sua pele com a tonalidade das folhas do outono.
Você, em suas cartas, sempre compara a minha aparência com a dos anjos, contudo eu acho que isso poderia ser melhor atribuído a você. Tem dias, quando estou te encarando sem desviar o olhar por um segundo, que tudo o que estou fazendo é tentar descobrir se você é real, se não é meramente uma ilusão criada por minha mente perturbada, pois é árduo crer que uma beleza tão sublime quanto a sua, exista no mesmo plano que o meu. Parece alguém que fora esculpido e abençoado pelos deuses, uma obra de arte viva, um ser cósmico, perceptível através de seu olhar que parece carregar um universo inteiro.
Quando acho que me acostumei com toda a tua graça, eu me encontro de novo perturbada por sua presença, perdida por sua magnificência, completamente bagunçade ao me recordar que você, um garoto tão deslumbrante, é inteiramente meu. Questiono-me assim, algumas vezes, se estou de fato à altura de ter o seu coração em minhas mãos, de possuir o seu corpo e poder me tornar um só com você, de ter ao meu lado para a eternidade este pequeno áster.
Entretanto, caso ainda não seja digno de te ter como meu, permanecerei tentando mudar isso. Continuarei lutando para que fique, para que um dia possa ser o melhor que você poderia possuir, para ser merecedor da sua presença iluminando a minha eterna escuridão.
Sabe, tenho ciência de que não falo em voz alta o suficiente tudo o que eu sinto por você, porém eu te garanto: são as coisas mais belas que já experiencia em toda a minha miserável existência.
Eu te amo, Pomba. Da integralidade da minha alma e com todas as minhas forças.
De Alê, a sua lua”.
Uma lágrima escorre e molha o papel, a tinta da caneta que Alê usará para escrever, espalhando-se e manchando aquela preciosidade que se encontrava nas mãos de Pomba.
O moreno, percebendo que logo outra cai e faz o mesmo que a anterior, coloca a carta em cima da escrivaninha, querendo evitar de a estragar mais. Então, começa a esfregar o rosto, tentando parar com o choro, mas as palavras de Alê continuavam rodeando sua mente e sempre que uma delas se repetia em seu interior, um novo mar se formava e descia por sua face doce.
Alê, reparando que ele depositou a carta na mesa e começou a esfregar o rosto, seguindo de um fungar, percebe o que se passava com o Pomba e sem pensar, coloca-se de joelhos na frente dele, aflito.
Sua carta havia sido tão ruim assim? Sabia que não era muito bom escrevendo esse tipo de coisa igual Pomba, pois falar sobre os próprios sentimentos ainda era bastante complicado para si. No entanto, tinha lido inúmeras vezes antes de vir até o quarto, parecia verdadeiramente que estava aceitável, como havia se enganado tanto?
Alê observava o namorado sem saber onde colocar suas mãos e o que falar. Estava desesperade para o ajudar, porém como o faria se a culpa era sua?
— E-Eu… — seus olhos percorriam o ambiente, à procura de algo que nem elu sabia o que poderia ser. — Pomba, d-desculpa, eu só–
O moreno, ouvindo aquele pedido e vendo os olhos esbugalhados de seu namorado, evidentemente preocupado, apenas ri e o puxa pela gola, colando seus lábios demoradamente. Querendo além de o calar, que entendesse com rapidez que não tinha odiado o presente.
Quando Pomba quebra a conexão entre seus lábios, encostam as testas e ele dirige as palmas para as bochecha dela, acariciando-as com o polegar.
— Eu não estava chorando por ter achado ruim, meu bem, e sim por ela ter sido o melhor presente que já recebi na minha vida — expressa com suavidade, sua voz não passando de um sussurro.
Pomba repara em como Alê relaxa após ouvir isso, os ombros caindo e soltando o ar que parecia ter prendido pelo receio de o ter feito mal. Então, estando tranquile, elu inclinou a cabeça, pressionando mais da bochecha contra uma das palmas do moreno, aproveitando melhor daquela carícia e silenciosamente pedindo por mais.
“Você é realmente como um grande gato” seu sorriso floresce, apreciando aquele anjo aos seus pés e especificamente as orbes da tonalidade mais bela do oceano, enquanto Alê fazia o mesmo com as suas, mas que estas lembravam a grandiosidade do sol.
Naquele instante, nenhum deles percebeu, envolvidos um no outro, mas a conexão intangível que se formava entre seus olhares, era como o que estava agora eternamente gravado no papel: o sol beijando calmamente o mar.
— Foi tão… Essa carta… Caralho, eu não sei descrever — ri, fechando as pálpebras por alguns segundos.
Existiam tantas sensações flutuando no íntimo de Pomba naquele momento, as borboletas em seu estômago eram o mais puro caos e ele apenas, ainda que suas maçãs do rosto estivessem doendo, não era capaz de tirar aquele sorriso idiota estampado em sua face. Ele se sentia apaixonado da maneira mais boba que se pode vivenciar o sentimento.
Alê, fica um pouco espantada ao escutar o xingamento, ainda era raro de seu namorado usar aquele palavreado. Todavia, logo esse espanto é substituído pelo fascínio da meiga risada de seu amado, com seus olhos que se curvaram junto a isso e se tornaram pequenos riscos brilhantes, completamente desconcertado pela carta.
O loiro não consegue entender como alguém igual a Pomba poderia se achar feio em alguns momentos. Ele era magnífico.
— Eu entendo bem disso — comenta com brandura, deixando um sorriso mínimo crescer em seus lábios. — Não precisa falar nada, príncipe. Consigo ver o quanto gostou.
Pomba, não tendo palavras então para descrever o quanto a carta fora especial para si, inicia outro ósculo. Ele é lento, banhado pelo carinho que sentiam um pelo outro, transpassando esse amor que os envolvia pelo deslizar de seus lábios, pelas línguas que se encontravam e dançavam em perfeita harmonia. Tudo isso marcado pelo gosto de chá de frutas vermelhas — o favorito de Alê.
O moreno é quem quebra o vínculo, selando a boca de Alê uma última vez antes de tornar a encostar as testas.
— Você já é a melhor namorada que eu poderia ter, viu? — articula de maneira firme, recordando das palavras na carta. — E não tem nada que precise lutar, porque eu não vou pra lugar algum, eu já sou inteiramente seu. É do seu lado que eu tô em casa, Alê — uma outra lágrima escorre. — Eu te amo, minha lua — fala baixo, como que se fosse um segredo dos dois, colocando uma mecha do longo cabelo atrás da orelha delu.
Pomba, conhecendo ê loire melhor do que a si mesmo, não necessitava que elu articulasse nada naquele instante para ser capaz de compreender o que queria dizer, pois o mar que eram seus olhos, já desbravados pelo moreno há muito tempo, contavam-lhe tudo em meio a quietude no cômodo.
“Eu também te amo, meu pequeno áster”.
