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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-02-10
Completed:
2026-02-10
Words:
13,273
Chapters:
2/2
Kudos:
24
Bookmarks:
3
Hits:
458

Gloss de Morango e Algodão Doce

Summary:

Gojo é um ômega encantador, dono de uma beleza excêntrica e um temperamento doce - com um toque de veneno. Sukuna é um alfa temido, impulsivo e territorial, com um passado marcado por rivalidades e decisões impulsivas.

O que começa como uma colisão de mundos vira algo mais: um jogo de olhares, palavras afiadas e desejos contidos. No centro de tudo, dois jovens se aproximam, fazendo com que seus guardiões cruzem caminhos - e fronteiras emocionais.

Entre laços de cabelo, pratos na cozinha e provocações sussurradas ao pé do ouvido, nasce algo inesperado: o amor. Mas amar nunca é simples... especialmente quando se está acostumado a lutar contra tudo - inclusive contra si mesmo.

SUKUGO | SUKUNA X GOJO | GOJO PAI DO MEGUMI | MEGUMI CIUMENTO | GOJO!FEMBOY

Chapter Text

O céu rosado, alunos saindo, risadas ecoando. Mas Sukuna não ri. Ele está parado, encostado no carro preto como a noite dos pecadores, os braços musculosos e tatuados cruzados e o cenho franzido como quem quer matar alguém – ou dar lição.

Ele está ali por um único motivo:
Megumi Fushiguro.

Aquele alfa metido a certinho que anda grudado demais em seu sobrinho, Itadori. Sukuna já o observou em fotos, já o farejou de longe. E agora vai resolver.

— Fushiguro, né? — ele rosna assim que vê o garoto sair pelos portões, mochila pendurada no ombro e Itadori colado ao lado.

Megumi ergue as sobrancelhas. 

Itadori empalidece.

— Tio Sukuna... que surpresa, — diz o ômega, nervoso.

— Não é surpresa, é visita de manutenção. — Sukuna avança dois passos. — Vim ver se meu sobrinho não anda se metendo com macho burro.

Megumi não reage, mas o olhar é afiado como faca nova.

— Que ótimo, então deve estar olhando no espelho, — ele responde seco.

O ar denso. Os alunos afastam discretamente. Sukuna se irrita, dá aquele meio sorriso de escárnio, pronto pra soltar uma daquelas ofensas com veneno...

Mas aí acontece.

Um carro encosta. A porta se abre. O mundo silencia.

O cheiro chega antes da visão:

Doce, mas não enjoativo.

Limpo, mas com algo luxurioso.

Um toque de morango, algo cítrico, e algo… sagrado.

Um omega.

De shorts curtos, moletom rosa folgado e o cabelo bagunçado pelo vento. Sorrindo com os lábios brilhantes como se o universo nunca tivesse doído.

— Pronto, amorzinho. Bora? — ele diz, acenando para Megumi, nem notando o alfa estático ali do lado.

Sukuna sente o estômago virar. O cio não é dele, mas os instintos gritam. Aquele é um cheiro de lar. De perigo. De posse.

— Quem é esse? — o ômega de cabelos brancos pergunta leve, sem parar de sorrir, notando a tensão.

— Meu tio, — responde Itadori, emburrado.

— Meu pesadelo, — completa Megumi, seco.

Ele então estende a mão, ainda sorrindo:

— Satoru Gojo. Ômega. Pai do Megumi. Motorista, terapeuta, conselheiro amoroso... e um perigo quando dorme pouco.

Sukuna aperta a mão, e por um instante… tudo some.

“Esse cheiro... esse sorriso... que merda é isso...”

O alfa perde o foco. O sarcasmo morre. A bronca desaparece da garganta.

Ele apenas solta:

—... Seu cheiro é irritante.

Gojo ri.

— E o seu é bem previsível. Cheira a testosterona mal resolvida com uma pitada de ego inflamado.

Megumi segura a risada.

Itadori engole em seco.

Sukuna quer bater em alguém, mas não sabe se com os punhos ou com a boca.

— Vamos, Gumi. Já deu meu show de quinta-feira.

— Foi mais divertido que eu esperava, — murmura Megumi, entrando no carro.

Gojo entra, liga o som, e acena com a ponta dos dedos. Sukuna observa o carro se afastar… e percebe que ainda sente aquele cheiro preso no nariz.

Ele respira fundo. Rosna. Bate a mão no capô do carro.

— Que merda foi isso...

 

 

A luz da balada era vermelha, pulsante, como se o lugar inteiro estivesse sangrando em neon. O cheiro era uma mistura barata de feromônio, suor e perfume doce demais.

Mas Sukuna já estava anestesiado.

O alfa se jogou no sofá da área VIP como quem já tinha decidido pecar. A camisa aberta deixava parte das tatuagens à mostra, o colar de prata batia no peito ritmado com a música. Um copo de uísque quase esquecido na mão, o olhar perdido entre os corpos dançando.

Ele não sabia o nome do ômega que se aproximou. E nem queria. Era bonito, tinha curvas, tinha cheiro de cio prestes a florescer.

Perfeito, em tese.

O ômega sentou no colo dele com a segurança de quem sabia o que queria. Sukuna segurou firme a cintura fina, puxou pela nuca, e o beijo veio quente, molhado, faminto.

Mas foi no segundo toque de língua que ele percebeu. Era errado. Tudo errado.

O gosto era comum.

O cheiro não dizia nada.

O coração não acelerava como antes.

Nada.

Não era Gojo.

A lembrança do outro ômega irrompeu na cabeça como um soco: Aquela boca com gloss rosa e ironia, o cheiro doce e inconfundível que parecia grudar na alma, o jeito como sorria como se já soubesse de todos os segredos.

Sukuna empurrou o ômega com mais força do que deveria. O garoto caiu de lado, surpreso.

— Ei! Qual é o seu problema?

Sukuna passou a mão no rosto, irritado com tudo e com ele mesmo. Levantou sem responder, ignorando a confusão que causava. Atravessou o salão entre as luzes e os corpos suados até chegar ao banheiro.

Se encarou no espelho. Os olhos estavam vermelhos, não de raiva — de frustração.

— Merda... que merda você tá fazendo, Sukuna?

Fechou os olhos. Inspirou fundo.

Ainda sentia.

Aquele cheiro.

Gojo.

A porra de um perfume que não queria sair da cabeça.

“É só um ômega...”

Mas seu corpo sabia a verdade.

Era O ômega.

 

 

A casa estava silenciosa demais para uma sexta-feira. O tipo de silêncio que só existe quando alguém está distraído demais pra perceber o tempo.

Gojo estava jogado no sofá, uma das pernas dobradas, o moletom dois números maior caindo de um ombro. A televisão ligada num volume baixo, mas ele não estava assistindo. Ele rodava o brinco de argola lentamente. O celular brilhava na palma da mão. E ele sorria. Um sorriso bobo. Pequeno. Meio irritado. Desgraçadamente interessado.

— Tá sorrindo pro grupo das mães do colégio ou é outra tragédia em forma de macho?

Megumi apareceu do corredor, camisa simples, cabelo molhado do banho. O tom seco de quem conhecia muito bem aquele pai.

Gojo bufou, travando o celular.

— Que jeito feio de falar. Ninguém educou esse alfa?

— A única pessoa que tentou educar fui eu. E você me criou. Então... — Megumi deu de ombros, cruzando os braços.

— Ponto pra você, — Gojo sorriu.

Silêncio por um momento. Um daqueles que pesa mais do que deveria.

— Foi por causa do Sukuna, né? — Megumi perguntou, finalmente.

Gojo ergueu uma sobrancelha. Fingiu desinteresse. Péssimo ator.

— Sukuna? Aquele armário com boca e cara de tapado? Que isso, Megumi. Só achei curioso. Ele é... instigante.

— Ele é perigoso.

Gojo virou os olhos, suspirando fundo.

— Você não gosta de ninguém que cheira a ameaça.

— Eu não gosto de ninguém que olha pra você como se pudesse morder a qualquer segundo.

Gojo ficou em silêncio dessa vez. O sorriso sumiu. Ele sabia. Sabia que Megumi sempre foi observador demais. Sabia também que o filho não falava da boca pra fora. Seu passado ainda o assombrava, principalmente a fina cicatriz que tinha no ombro de vários procedimentos que fez para apagar o trauma.

— Ele não vai fazer nada. Eu tô bem. Tô no controle.

Megumi se aproximou, sentando no outro sofá.

— É esse o problema. Você só diz isso quando já tá começando a perder.

Gojo riu. Baixo. Irônico.

— Tô ficando previsível?

— Tô ficando esperto, — Megumi rebateu.

Os dois se olharam por alguns segundos. Havia cuidado ali. Amor. Mas também um certo medo. O tipo de medo que não vinha de Sukuna — vinha do que Gojo podia fazer com o próprio coração.

— Eu não quero alguém como ele perto de você, pai.

Gojo olhou pro teto, respirou fundo.

— E se for ele que me quer perto?

— Então... ele vai ter que merecer.

 

 

O apartamento de Sukuna era escuro, como sempre. As luzes acesas só até a metade, como se qualquer claridade a mais denunciasse demais. A garrafa de uísque estava sobre a bancada da cozinha. Um copo sujo ao lado. A pia tinha pratos de três dias atrás.

O alfa estava jogado no sofá, a cabeça tombada pro encosto, o olhar fixo no teto como se esperasse que alguma resposta caísse de lá. Mas não vinha. Só o mesmo cheiro barato de balada e frustração.

A campainha tocou.

Duas vezes.

Com insistência de quem não vai embora.

— Porta tá aberta, moleque, — ele gritou, sem levantar.

Itadori entrou, mochila no ombro e cara de quem já viu coisa pior.

— Tá bebendo de novo?

— Tô vivo, não tô?

— Isso não é resposta.

— É o que você tem.

Silêncio. O ômega largou a mochila no chão e cruzou os braços. Sukuna só virou o rosto, olhando com um tédio falso. Mas o cheiro de Itadori era carregado. Ele estava preocupado.

— Cê quer saber o que eu acho? — o garoto começou, sem esperar resposta. — Acho que você surtou com o Megumi por medo. E agora tá trancado aqui porque... porque alguma coisa naquele pai dele te bagunçou.

Sukuna arqueou uma sobrancelha.

— O que você sabe de bagunça?

— Sei o que eu vi. E vi você olhando pro Gojo como se ele fosse uma ameaça. Mas não como ameaças normais. Foi como se ele... fosse capaz de tocar alguma parte sua que você queria que tivesse morrido.

Sukuna ficou quieto.

Não porque concordava.

Mas porque... doeu.

Aquela pontada que só vem quando a verdade é dita com a voz de alguém que te ama.

— Você tá com medo de gostar dele.

Sukuna bufou, se levantando num movimento brusco.

— Eu não gosto de ômega nenhum.

— Não dele.

— Nem dele.

— Então por que beijou outro e saiu no meio? — Itadori cutucou. — Por que ainda tá com aquele cheiro na roupa mesmo depois de tomar banho?

Silêncio.

Sukuna encarou o sobrinho. Os olhos dele eram calmos. Firmes.

Mas estavam dizendo:

"Eu te conheço."

— Eu não quero ver você estragando isso, tio. Nem você. Nem ele.

Sukuna sentou de novo. Mais devagar. Menos fera, mais homem.

— Eu não sei se consigo... ser bom pra alguém como ele.

— Então tenta. Ou se afasta de vez. Mas não fica no meio do caminho. Porque isso só vai machucar os dois.

 

 

A feira cultural da faculdade era barulhenta, colorida e absurdamente irritante. Crianças gritando, adolescentes distribuindo panfletos, barracas de comida com cheiro de açúcar e gordura competindo por atenção.

Sukuna odiava esse tipo de ambiente.

Ele só estava ali por um motivo: Itadori o convenceu. “Só vem ver meu projeto, é rápido, juro.” Como se alguma coisa que envolvesse emoção e sobrinho fosse simples.

Caminhava como um lobo enjaulado, as mãos nos bolsos da calça escura, os olhos afiados, ignorando gente demais e paciência de menos.

Até que… Ele sentiu.

O ar mudou. O cheiro veio antes da visão. 

Doce, limpo, quente, provocante.

Algodão doce e algo mais — alguma flor de inverno, talvez.

Gojo.

E então o viu. Do outro lado da multidão. De moletom pastel, óculos escuros empurrados pro alto da cabeça, cabelo bagunçado como se o vento tivesse feito questão de deixá-lo mais bonito.

Ria com outra mãe ao lado de uma barraca de doces. Megumi estava ao lado, segurando um folheto, visivelmente desconfortável.

Gojo virou o rosto como se soubesse exatamente onde ele estava. Como se o cheiro também o tivesse alcançado.

E sorriu.

Aquele sorriso.

Aquele maldito sorriso com gloss brilhante nos lábios e intenção nos olhos.

Sukuna parou de andar. O mundo parou com ele. Por um segundo, a música, a gritaria, tudo foi engolido por um silêncio úmido e incômodo no fundo do peito.

Gojo veio até ele. Andando como se fosse dono do chão. Como se não estivesse prestes a deixar um alfa no cio com uma frase só.

— Ainda cheirando a arrependimento ou já passou?

Sukuna trincou a mandíbula. Mas não respondeu.

— Você parece... mais cansado. Dormiu mal? Ou é insônia por culpa?

— Você fala demais, — Sukuna resmungou, o tom rouco. A garganta queimava.

— Eu falo o necessário. O problema é que você sente demais.

Sukuna deu um passo à frente.

— Você me segue?

Gojo deu risada.

— Querido, o universo é pequeno demais pra esconder um cheiro como o seu. E grande demais pra achar que você não viria me procurar de novo.

Silêncio.

Os olhos dele eram dois oceanos. E Sukuna, mesmo sem querer, já estava se afogando.

— Tô ocupado, Gojo.

— E eu tô entediado. Que coincidência, né?

— Não é uma boa ideia.

— As melhores nunca são.

Eles ficaram ali. Frente a frente. A tensão entre os dois era tão visível que Megumi, à distância, já começava a marchar na direção deles. Mas Gojo levantou a mão, dizendo sem dizer: deixa, eu sei o que estou fazendo.

— Vai ficar só olhando, Sukuna? Ou vai me chamar pra um café que você provavelmente vai tentar transformar em sexo?

Sukuna mordeu a boca por dentro.

— Você me dá raiva.

— Que bom. Pelo menos dou alguma coisa.

E então ele se virou. Andou de volta pra barraca, as mãos nos bolsos, os passos leves.

Sukuna ficou.

Parado.

Sem saber se socava a parede mais próxima ou se corria atrás dele.

Megumi estava vindo como uma tempestade silenciosa. Passos firmes, expressão fechada. Se fosse um lobo, já teria os pelos eriçados. Gojo, claro, fingia que não via. Estava ocupado demais escolhendo um brigadeiro com granulado azul.

— Pai... — a voz de Megumi era um trovão.

Gojo mordeu o doce, virou-se devagar. Os olhos cheios de inocência fabricada.

— Oi, Gumi.

— O que ele queria?

— Quem?

Não me faz repetir, pai.

Gojo deu um risinho. Aquele tipo que dizia “eu sei que você me ama mesmo me odiando”.

Sem responder, ele se aproximou e puxou Megumi pelo ombro, num abraço lateral apertado, enfiando o rosto na bochecha do filho com exagero dramático.

— Meu alfa ciumento favorito! Vem cá! — ele disse, e deu um beijo estalado, melado de gloss bem no rosto do menino.

Megumi rosnou. De verdade. Um som gutural, irritado.

— Pai...! Isso gruda!

Mas ele não limpou. Ficou ali, tenso, emburrado, mas parado.

Gojo apenas riu, acariciando o cabelo dele de leve.

— Você é tão certinho que chega a ser fofo.

— E você é tão insuportável que dá vontade de te proteger o tempo todo.

Gojo parou o gesto por um segundo. Sorriso pequeno dessa vez. Verdadeiro. Encostou a cabeça no ombro do filho.

— Eu sei. Por isso que você é meu lar, Gumi. Mesmo quando o mundo fica barulhento demais.

Megumi não respondeu. Mas apertou o braço em volta do pai.

Sukuna, do outro lado da feira, ainda olhava. Mas agora com algo diferente no olhar.

Talvez inveja.

Talvez desejo.

Talvez só saudade do que nunca teve.

 

 

O quarto era escuro, abafado pelo cheiro artificial de feromônio. As luzes de LED corriam pelas paredes em tons de púrpura e azul. O ômega estava nu sobre a cama, ronronando palavras doces demais, suaves demais.

— Vem, alfa... quero sentir você...

Sukuna encarava o corpo à frente como quem observa um quadro que já viu demais.

Lindo, sim.

Mas... vazio.

Ele engatou o joelho na cama, tocou a cintura do outro, baixou o rosto para o pescoço exposto...

E travou.

O cheiro.

Não era o certo.

Seu corpo estancou.

Seu pênis também.

— Tô te esperando... — o ômega sussurrou, deslizando as mãos pelo peito dele.

Sukuna recuou.

Levantou.

Encarou as próprias mãos como se tivessem traído ele.

— Tem algo errado?

— Não é você, é…

— ...o perfume. — completou, seco.

Saiu dali com o zíper semiaberto, a raiva gritando, o orgulho em coma.

“Que porra tá acontecendo comigo...”

Na manhã seguinte, Sukuna estava no carro, estacionado na esquina de uma padaria. Dentro, Gojo comprava pão francês e trocava piadas com a balconista. O moletom rosa claro combinava com os óculos escuros empurrados no alto da cabeça. O cabelo bagunçado como sempre e a risada fácil.

“Como esse desgraçado consegue ser tão leve?”

“Tá fingindo. Só pode.”

Mas então Gojo saiu, com a sacola no braço, e parou pra conversar com um gato de rua.

Fez carinho. Deu miado de volta.

E Sukuna... sorriu.

Por um segundo.

Por um mísero segundo.

“Eu tô fodido.”

 

 

A feira estava movimentada. Frutas frescas, crianças correndo, vozes cruzadas num caos organizado. Gojo andava entre as barracas com passos leves, uma saia plissada preta, camiseta branca presa dentro do cós e tênis colorido.

Perfeito.

Radiante.

Mas, como sempre, luz atrai sombra.

Três alfas pararam na esquina da barraca de mangas. Sorrisos maliciosos. Olhares podres.

— Olha isso... tá pedindo.

— Aposto que dá no primeiro cheiro…

— Com uma saia dessa, deve viver de joelhos...

Gojo ouviu. Sorriu como quem não escuta. Mas o cheiro dele mudou.

Tristeza. Mágoa. Um tremor fino de decepção.

 

A voz foi grave, firme.

Um grito abafado por respeito instintivo.

Os alfas viraram.

Sukuna estava parado atrás deles, braços cruzados, os músculos do pescoço tensionando.

— Algum problema?

— Não, cara, só comentando...

— Então comenta pra mim. Fala na minha cara o que você falou dele.

O maior deles tentou rir.

Sukuna deu um passo à frente.

— Eu disse: fala. Aproveita que ainda tem dentes.

Os três se entreolharam. O menor recuou primeiro.

O segundo desviou o olhar.

O terceiro soltou um “relaxa, mano...” antes de desaparecer.

Sukuna só rosnou.

Baixo. Gutural.

Eles fugiram.

Gojo ainda estava ali. Braços cruzados. Expressão indecifrável. Mas o cheiro dele... estava quente de novo. Vivo.

— Você me seguiu? — ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.

— Eu te protegi.

— Não pedi.

— Mas não precisava.

Gojo andou até ele. Devagar. Com um sorriso que nascia de canto e subia devagar.

— Cuidado, Sukuna. Você tá começando a parecer alguém que sente.

Sukuna inclinou o rosto. Os olhos escuros, fixos.

— E você, Gojo... tá começando a parecer alguém que me deixa louco.

Gojo mordeu o lábio inferior.

Riu.

Virou de costas.

— Não começa a correr atrás de mim, hein. Já tô dois passos à frente.

O fim da feira já desenhava o céu em tons dourados. As barracas começavam a desmontar, os vendedores contavam moedas, os últimos fregueses se dispersavam como folhas ao vento.

Gojo estava distraído, mexendo nas frutas dentro da sacola, quando sentiu.

Mãos grandes, firmes, na cintura.

Não era qualquer toque. Era firme, possessivo, quente.

E mesmo assim... hesitante.

Gojo não precisou virar para saber. O cheiro veio antes. Tabaco doce. Couro quente. Orgulho e desejo.

— Sukuna...

O nome saiu com gosto de sorriso.

O alfa estava próximo demais. O peito colado às costas dele, a respiração batendo no pescoço exposto. O cheiro doce de Gojo já deixava o ar pesado. Açúcar no cio. Vício de gente grande.

Gojo se virou devagar, os olhos azuis brilhando.

Sukuna engoliu seco.

Os olhos dele foram direto pros lábios. Rosados. Brilhantes. Molhados de gloss. Pareciam chamar. Pareciam rir.

Gojo ergueu uma mão. Tocou o peito de Sukuna. Subiu até o pescoço.

A ponta dos dedos roçou a mandíbula marcada, depois o rosto dele. Com doçura. Com descaramento.

— Você veio me seguir... ou veio se perder?

Sukuna não respondeu.

Não conseguia.

O calor subia pela nuca, a pele arrepiada.

O cheiro doce estava o deixando maluco.

E então, Gojo se aproximou mais.

Mais.

Deixou um beijo.

No canto da boca.

Molhado. Suave.

De propósito.

O brilho ficou ali, grudado na pele do alfa como tatuagem invisível.

— Até mais, Sukuna.

Gojo escapuliu das mãos dele com uma leveza que desafiava a gravidade. Sumiu entre as pessoas. Como fumaça. Como perfume. Como loucura que vicia.

Sukuna levou a mão ao canto da boca.

Sentiu o gloss ali.

E sorriu.

De canto.

Como fera que finalmente entendeu que a presa… gosta de ser caçada.

 

A porta se abriu com um rangido suave. Gojo entrou carregando duas sacolas de pano recheadas com frutas, pão fresco e flores baratas que ele comprou só porque estavam coloridas demais pra resistir.

A casa estava tranquila. Tão tranquila que doeu de leve no peito.

Na sala, Megumi estava no sofá, joystick nas mãos, a atenção dividida entre o jogo e a respiração profunda de Itadori, que dormia largado com a cabeça em seu colo. Um livro aberto sobre o rosto, os óculos tortos, um pé pendendo pra fora do sofá.

Gojo sorriu.

Aquela cena era tudo que ele precisava lembrar: ele estava seguro. Aqueles dois estavam bem.

Se aproximou em silêncio, inclinando-se para beijar a testa de Megumi…

Mas parou.

Megumi franziu o nariz. O olhar desviou da tela.

— Que cheiro é esse?

Gojo piscou, inocente como um gato que acabou de derrubar um vaso.

— Cheiro de feira? Comprei pêssego.

Megumi inclinou a cabeça.

Farejou de leve o ombro do pai.

— Não é fruta. É... couro? E tabaco? E...

Os olhos dele estreitaram.

— É Sukuna.

Gojo fez um bico dramático.

— Nossa, você podia ser um sabujo de elite. Que nariz é esse?

— Que porra ele fez? Ele encostou em você?

— Encostou, mas com respeito. — Gojo piscou, tirando os óculos de sol com calma. — Me protegeu na feira. Uns alfas idiotas tavam falando merda por causa da minha saia.

— E ele apareceu do nada? — Megumi já estava erguendo o tronco, jogando o controle de lado, com o instinto borbulhando.

— Calma, cão de guarda. Não tô marcado. Só deixei ele... com gloss no canto da boca de um beijo que eu dei porque quis.

Megumi rosnou. Baixo. Itadori resmungou dormindo, virou o rosto pro outro lado, murmurando algo como “quero sorvete...”

Gojo soltou uma risada baixa, sentando-se na poltrona com um suspiro leve.

— Você sabe que eu nunca fui de me prender fácil, Gumi. Mas esse aí… Esse aí tá me dando trabalho.

— E você gosta disso.

— Gosto do risco. Gosto de ver até onde ele aguenta.

Megumi bufou. Abaixou os olhos para Itadori, que agora abraçava a perna dele inconscientemente.

— Só... cuidado, pai.

Gojo se inclinou pra frente, descansando o queixo nos braços apoiados nos joelhos.

— Sempre. Mas cê sabe que eu nunca me apaixonei por covardes.

— Sukuna é tudo, menos covarde.

— E eu sou tudo, menos fácil.

O silêncio ficou por alguns segundos. A televisão fazia barulho de tiros e zumbis.

Itadori soltou um ronquinho fofo. Megumi suspirou.

— Se ele quebrar seu coração, eu quebro as pernas dele.

— Que romântico. — Gojo sorriu. — E eu que achei que era eu o dramático dessa família.

 

 

Gojo estava de pernas cruzadas no sofá, usando um short ridiculamente largo e uma camiseta com estampa de um gato dando dedo. O cabelo preso num coque frouxo e o rosto limpo, ainda sem maquiagem.

Mas a expressão… Ah, aquela expressão.

— Você tá suspirando tanto que vai sair voando, Satoru.

Shoko entrou sem bater, como fazia desde os quinze anos. Bateu a porta com o pé, deixou a bolsa cair no chão e sacou um vinho da sacola.

— Vinho branco, amiga. Porque a gente vai precisar gelar a libido.

— Libido é tudo que eu tenho esses dias, — Gojo murmurou, pegando duas taças.

— Ah, então finalmente vai me contar quem é o macho que tá mexendo nessa sua cabecinha mal penteada?

Gojo encheu as taças. Bebeu a dele inteira num gole.

— Sukuna.

Shoko quase engasgou.

— Sukuna? Sukuna Ryomen? Tatuagem, dentes de serial killer, cara de que já matou gente por olhar torto?

— Esse mesmo. — Gojo sorriu com os olhos. — Meu problema.

— Ele encostou em você?

— Já. E eu deixei.

Silêncio. Só o som do vinho sendo reposto na taça.

Shoko se jogou no sofá, os olhos semicerrados.

— E o Megumi?

— Farejou. Quase me matou. Ele tá insuportável. Dorme com o nariz colado no meu travesseiro. Acho que vai marcar meu pescoço só por segurança.

— Isso é instinto de filho alfa. Mas também é... fofo, vai.

— É sufocante.

— E você gosta de sufocar os outros. Chegou tua vez de ser engasgado pelo afeto.

Gojo riu. Mas os olhos baixaram por um instante.

— Eu não sei o que tô fazendo, Shoko. O Sukuna... ele é um problema real. Mas quando ele olha pra mim… Eu esqueço que sou esperto.

Shoko se levantou.

— Então hoje você não vai ser esperto. Vai ser gostosa.

Ela sacou da bolsa uma caixa. Gojo reconheceu antes de abrir.

Shoko… não… Shoko, isso é da época da escola!

— E você ainda cabe dentro dele.

Gojo cobriu o rosto.

— Eu vou parecer uma boneca.

— Exatamente.

Ela tirou o moletom dele com pressa. Vestiu com cuidado, como um artista montando obra-prima.

— Eu quero você brilhando, Satoru. E quero ver aquele desgraçado cair de joelhos quando te vir.

Gojo mordeu o lábio diante do espelho. O couro rosa colado no corpo, a renda moldando os quadris, a cinta ligando à meia rosa-bebe translúcida. A gargantilha com um sininho que tilintava quando ele virava o rosto.

— Eu vou causar, né?

— Você vai destruir. E se não destruir Sukuna… eu me apaixono por você de novo.

Gojo riu. Mas agora... com brilho nos olhos.

O bar era mais lounge que boteco, com luzes âmbar, jazz sensual e cheiro de álcool refinado. O tipo de lugar onde pessoas ricas fingem que são humildes só porque usam taça de vidro.

E então, Gojo entrou.

Todas as conversas diminuíram. Os olhos viraram. E o som ambiente pareceu silenciar só para que o som dos saltos dele ecoasse com mais força.

Couro rosa.

Cinta-liga.

Gargantilha.

Um pecado ambulante com gloss brilhando sob a luz indireta.

Shoko vinha ao lado, terno aberto, camisa desabotoada até o peito. O ar de "ninguém mexe com a minha boneca sem minha permissão".

E Geto…

Geto já estava no bar, de terno escuro e sorriso preguiçoso, com um copo de gin na mão.

Ele se levantou ao vê-los.

— Por todos os deuses... vocês não mudaram nada.

Gojo se aproximou e riu. Um som leve, mas carregado.

— E você continua com essa cara de quem ainda guarda meus pecados favoritos.

Geto segurou a cintura dele como quem relembra o caminho antigo. A mão firme. A respiração quente perto da orelha.

— Eu guardei todos. Só tava esperando você usar a chave de novo.

Shoko se jogou na cadeira.

— Tão flertando ou tão tirando atraso?

— Isso, minha querida, é aquecimento. — Gojo respondeu, piscando.

Geto soltou uma risada grave, colada demais à pele de Gojo, que não se afastou. Porque era assim com eles. Antigo. Quente. Nunca resolvido.

Na porta do bar, Sukuna parou.

Não sabia por que estava ali.

Mentira. Sabia.

Tinha visto uma foto. Um story. Uma marca de gloss em copo alheio.

E o cheiro o acertou como um soco no peito. Doce. Quente. Familiar. Vício.

Gojo.

O olhar dele varreu o lugar com brutalidade.

E parou na cena.

Gojo de couro rosa.

Sendo segurado pela cintura por um alfa que ele nunca viu.

Rindo.

Com aquele sorriso.

— Quem é esse? — ele sussurrou pra si, com veneno.

Shoko viu primeiro. Soprando a fumaça do cigarro que nem estava aceso.

— Olha só... o caos chegou.

Gojo virou o rosto devagar.

E viu.

Sukuna parado.

Com os olhos fixos.

Com ciúmes cravados no olhar.

Geto percebeu a mudança no ar.

Sorriu.

— Ex seu?

— Quase nada meu, — Gojo disse. —  Mas ele quer ser. E isso... é um problema.

Sukuna avançou.

O cheiro dele já intoxicava o ambiente.

Sukuna atravessou o bar como uma tempestade lenta. Cada passo seu trazia o peso de alguém que não aceitava o que via — e o que via era inadmissível:

Gojo.

Nos braços de outro.

Rindo. Com gloss.

Feliz.

O cheiro de Sukuna chegou antes dele. Ferro, couro, tabaco queimado. Alfas ao redor desviaram os olhos, instintivamente.

Shoko soltou um “ihhhh” bem baixinho e se afastou com a taça, porque não era estúpida.

Mas Geto?

Geto se divertia.

A mão ainda firme na cintura de Gojo. O sorriso afiado como uma lâmina que gostava de cortar feridas abertas.

— Ele está te incomodando, Gojo?

A voz de Sukuna saiu baixa, grave.

Rangendo.

Como se tivesse sido empurrada garganta abaixo.

Gojo ergueu os olhos, um sorriso pequeno se formando.

Mas não respondeu ainda.

— Oh… — Geto virou de leve, olhando Sukuna de cima a baixo. — Que modo sutil de marcar território. Quase poético.

— Não perguntei pra você.

— Mas você perguntou pra ele enquanto ele tá nos meus braços, então... acho que a resposta é minha também, — Geto disse, deslizando a mão nas costas de Gojo até a curva da cintura.

Sukuna deu meio passo à frente.

Os olhos vermelhos.

A mandíbula trincada.

O cheiro? Puro ciúmes, misturado com testosterona selvagem.

— Solta ele.

— Sukuna. — A voz de Gojo veio calma. Quente. Ele ergueu uma mão e tocou o peito do alfa, bem no centro.

A pele dele arrepiou.

O toque foi leve.

Mas continha o mundo.

— Eu vim pra me divertir. Não pra brigarem por mim.

Sukuna parou. Literalmente congelou no lugar.

Geto riu. Aquela risada baixa, que não ajuda em nada.

— Relaxa, tatuado. Eu não tô marcando território. Só acariciando uma memória. E o seu problema é que ainda tá tentando virar lembrança.

Gojo deu um tapinha leve no peito de Geto, repreendendo.

— Suguru...

— Ok, ok. Me comporto. Por agora.

Sukuna olhou para Gojo.

Longo. Demorado.

E por um segundo, os olhos dele disseram “ele não te toca como eu tocaria.”

Gojo olhou de volta.

E respondeu, sem falar:

“Mas ele me toca porque eu deixo. E você... ainda precisa merecer.”

A porta dos fundos se fechou com um estrondo metálico. Gojo respirou fundo ao sair, o ar da área de fumantes era pesado, úmido.

Frio.

Sukuna estava ali.

De costas.

Chutando uma lixeira com tanta força que o barulho ecoava como um trovão engaiolado.

— Maduro, você não é. Nem um pouco.

A voz de Gojo soou suave, como um riso que não chegou a nascer. Mas Sukuna virou na hora. Os olhos vermelhos, brilhando de raiva mal resolvida. O cheiro dele... era puro cio disfarçado de fúria.

— Você tá sozinho? — ele perguntou, com a voz baixa e perigosa.

— Tô.

O ar pareceu congelar. E então ele avançou.

Sukuna cruzou a distância em dois passos. Gojo não recuou — ele nunca recuava.

As costas bateram contra a parede.

O corpo do alfa prensando o dele.

O nariz mergulhado no pescoço quente, ofegante.

O cheiro de Gojo estava vivo. Ardente. Doce como fruta no ponto.

Sukuna rosnou baixo. O som gutural vibrando entre os dois corpos.

— Eu te quero, Gojo.

A resposta não veio com palavras. Veio com um beijo.

Molhado.

Forte.

Quente.

O gloss se espalhando pela boca do alfa como veneno doce.

Sukuna segurou a cintura com força, o corpo já reagindo, o instinto explodindo. Gojo gemeu baixo contra os lábios dele.

E então...

Uma mão subiu. Segurou a coxa exposta pela fenda da saia.

Apertou.

O bastante pra dizer o que viria depois.

Mas Gojo quebrou o beijo com um estalo. Os lábios vermelhos, brilhando.

Ele encostou a testa na do alfa, o olhar calmo, como quem domou uma fera.

— Você tá indo bem. É só continuar assim.

Sukuna fechou os olhos, o peito arfando.

— Você tá brincando comigo...

— Não. Eu tô te ensinando a jogar.

Gojo sorriu.

Leve.

Virou o rosto.

E se afastou.

A saia balançando. O sininho da gargantilha tilintando de novo.

Sukuna ficou ali. Com a respiração falha.

O gosto do gloss nos lábios.

E o cheiro de Gojo tatuado no peito.

 

 

O relógio da parede marcava 10:03 da manhã. A casa cheirava a café queimado e derrota.

Sukuna atravessava a cozinha de um lado pro outro, só de calça, o peito nu ainda com a marca discreta do gloss no canto da clavícula. O cabelo desgrenhado, os olhos vermelhos de raiva — não do mundo.

Dele mesmo.

— Como é que eu deixei ele ir embora? Como é que eu não pedi o número? Como é que eu, um alfa adulto, fui DOMADO por um beijo e um elogiozinho safado?!

Ele bateu a palma da mão na bancada.

— EU NÃO TENHO O NÚMERO DELE!

Itadori, sentado no sofá com o notebook no colo, mordeu o lábio pra não rir. Estava cercado de livros, planilhas, e um copo de chá — a paz encarnada diante do caos do tio.

— Tio... respira.

— Eu beijei ele! Ele ME BEIJOU! Eu segurei aquela coxa… E depois ele foi embora com aquele sininho ridículo na garganta, balançando como se tivesse vencido um jogo!

— Ele venceu, né?

— CLARO QUE VENCEU! — Sukuna gritou. — Eu tô aqui… cheirando ele ainda! Eu preciso dele.

Silêncio.

Itadori tomou um gole do chá.

Fechou um dos livros devagar.

— Sabia que o cio dele deve estar próximo?

Sukuna congelou.

— Cio?

— É. O tempo dele tá quase fechando. Ele comentou por alto na última reunião da associação, sobre adaptar as folgas por causa da fisiologia. E sabe como são os ômegas... começam a cheirar diferente antes.

Sukuna esfregou o rosto com as duas mãos. Andou até o sofá e afundou o corpo ali.

— Isso é uma tortura. Eu não posso invadir a casa dele e dizer “me escolhe”. Eu não sou esse cara.

— Não. Você quer ser melhor que esse cara.

Sukuna olhou pro sobrinho. O rosto tranquilo dele, tão diferente do dele mesmo.

— Eu quero merecer ele.

— Então seja útil. Seja cavalheiro. Se ofereça pra ajudar. Ninguém resiste a um alfa que traz sopa, velas aromáticas e toalhas quentinhas durante o cio.

Sukuna bufou.

— Eu não sou... sensível.

— Você sabe cozinhar. E seu cheiro quando não tá surtando é bom pra caramba. Confia.

Sukuna respirou fundo.

O corpo ainda pegando fogo por dentro.

Mas algo dentro dele… clareou.

— Eu vou descobrir onde ele mora.

Itadori levantou as sobrancelhas.

— Você vai perseguir o Gojo?

Cavalheiramente.

 

 

A casa estava em silêncio. A luz baixa, a janela semiaberta deixando o vento entrar devagar. Gojo estava de moletom, cabelo solto, e o rosto corado — não pelo calor. Era o cio. Leve ainda. Um início de incômodo no baixo ventre, a pele sensível demais ao toque do próprio cobertor. O corpo avisando o que estava por vir.

Ele bufou.

— Começou...

Caminhou até a cozinha, abriu a geladeira, fechou. Abriu o armário. Fechou. Nada parecia bom o suficiente.

Foi quando a campainha tocou.

Gojo arqueou uma sobrancelha.

Ninguém aparecia na porta dele sem avisar. E só uma pessoa seria tão absurdamente sem noção de aparecer em pleno cio alheio.

Ele abriu a porta.

Sukuna estava ali.

Calça jeans preta, camiseta preta, e um bico nos lábios como se tivesse sido arrastado por alguém maior.

Na mão?

Um pote de vidro grande, coberto com pano de prato colorido. O cheiro escapava da borda.

Caldo quente. Caseiro. Perfeito.

Gojo cruzou os braços.

— Você me perseguiu.

Sukuna olhou pro lado, depois de volta pra ele.

— Descobri teu endereço por meios legais.

— Intimidação conta como legal?

— O importante é que eu trouxe sopa.

Gojo olhou pro pote.

Depois pra ele.

O cheiro de Sukuna estava... diferente.

Menos agressivo.

Ainda forte, mas contido. Controlado.

Delicioso.

O ômega sentiu o ventre contrair levemente. O cio se estendendo, puxando a pele. O olfato captando tudo com mais nitidez.

— Isso cheira absurdamente bem.

— É de galinha com gengibre e arroz glutinoso. Minha avó fazia. Eu... pensei em você.

Gojo encostou no batente da porta, o rosto mais corado. Mas sorriu. Devagar. Como quem não queria dar o braço a torcer, mas já estava com os dois braços estendidos.

— E vai ficar me olhando ou vai entrar com essa oferenda divina?

Sukuna entrou.

Gojo pegou o pote da mão dele, os dedos se tocando rápido — só o suficiente pra um choque.

— Tá agindo muito bem, Sukuna.

— Tô tentando não te agarrar.

— Então você tá indo muito bem.

Ele caminhou até a cozinha, sentou na bancada, e tirou a tampa. O vapor subiu com aroma de lar.

Sukuna ficou em pé, observando.

Gojo levou a primeira colher à boca.

Gemeu.

— ...Caralho.

— Eu posso colocar isso no currículo?

Gojo olhou pra ele por cima da colher.

— Você pode colocar isso na minha cama… Mas não hoje.

Sukuna sorriu.

Pequeno.

Mas real.

A sopa já estava quase no fim. O pote vazio sobre a mesa. Gojo encostado no sofá, os olhos pesados. O corpo mais quente do que o normal. A pele sensível. O cio sussurrando mais alto, mas ainda não gritando.

Sukuna estava sentado no chão, entre as pernas cruzadas do ômega. O ambiente era quieto, quase sagrado. O único som era a respiração calma — e o tilintar leve da gargantilha, que Gojo ainda usava, por pura provocação.

Os dedos de Sukuna passeavam nos fios de cabelo branco. Deslizavam até a nuca. Massagens suaves. Um carinho que não pedia nada em troca.

Gojo suspirou.

— Você cuida bem.

Sukuna não respondeu. Mas sua mão parou no pescoço sensível. Roçou com a ponta dos dedos, onde a pele parecia feita de seda.

Gojo se inclinou. Se aproximou devagar.

E encostou os lábios nos dele.

O beijo aconteceu como se tivesse nascido ali.

Lento.

Molhado de gloss.

Quente como sopa recém feita.

Sukuna correspondeu.

Profundo. Calmo. Ardente.

Mas… ele parou.

Se afastou com um leve puxão na cintura. Os olhos vermelhos fixos nos de Gojo.

— Eu preciso ir.

— Tem medo de mim?

— Tenho medo de mim… quando tô com você assim. E eu não quero te tocar só porque teu cio tá vindo. Eu quero te tocar porque você escolheu… mesmo quando não precisava.

Gojo mordeu o lábio, o gosto do próprio gloss ainda presente.

— Você tá conseguindo me irritar sendo perfeito.

Sukuna sorriu.

Se levantou.

Encostou os lábios na testa dele.

Um beijo longo. Demorado. Cheio.

— Descansa, boneca. Eu volto quando o teu corpo não estiver gritando por mim. Mas sim… Chamando pelo meu nome.

Ele saiu.

Fechou a porta devagar.

Gojo ficou ali.

Respirando o vazio deixado.

Com a testa quente.

O peito leve.

E o cio… Mais forte do que nunca.

 

 

O sol da manhã batia torto na cozinha, iluminando a cadeira onde Gojo se jogou com um suspiro escandaloso.

Cabelo despenteado.

Pijama torto.

Bochechas vermelhas, o pescoço ainda manchado com um tom de rosa que não vinha de nenhum cosmético.

Ele parecia sobrevivente de guerra. Ou de cio.

Megumi estava sentado à mesa, comendo cereais, olhos semicerrados e o olhar de puro julgamento estampado no rosto.

Gojo passou a mão nos olhos.

— Eu vivi, Gumi. E o pior… eu gozei com dignidade.

— Se for pra você gozar gritando Sukuna a cada dez minutos, prefiro que perca a dignidade inteira.

Gojo engasgou de tanto rir.

Corou mais ainda.

Apoiou a testa na mesa, rindo como uma criança culpada.

— Desculpa. É que… Meu Deus, Megumi… o homem é bom.

Megumi largou a colher. Suspirou. Olhou pro teto como quem implorava por forças ancestrais.

— Ele nem entrou na casa, pai.

Gojo levantou a cabeça, surpreso.

— Como assim?

— Ele montou um acampamento na calçada. Tenda. Garrafa térmica. Banquinho dobrável. Fiquei esperando ele pedir doação com QR code.

Gojo abriu a boca.

Fechou.

Abriu de novo.

— Ele ficou lá a semana toda?

— Levantava às seis, fazia flexão, lia jornal, me oferecia café. Às vezes resmungava seu nome em voz baixa como se tivesse tendo alucinação auditiva.

Gojo cobriu o rosto com as mãos, completamente vermelho.

— Eu vou morrer de vergonha. Mas… também de amor.

Megumi voltou a comer.

— Faz o que quiser, só me avisa se ele for morar com a gente. Porque aí eu me mudo.

Gojo gargalhou.

— Você ama ele, Gumi.

— Eu tolero ele. Mas só porque ele fez sopa.

 

Sukuna estava quase indo embora.

Depois de uma semana de silêncio, de sentinela na calçada, de noites frias no banco de pedra só pra garantir que ninguém mais se aproximaria do cio de Gojo... ele tinha perdido a esperança.

Mas aí, a porta abriu.

E o mundo parou.

Gojo apareceu.

Banho tomado, cabelo penteado e preso com presilhas fofas.

Perfume doce e suave — algo entre lavanda e leite quente.

O macacão azul-céu colado no corpo, com babados nas mangas e botões delicados até a gola.

Ele era uma boneca.

Mas viva.

E fatal.

— Tava pensando se ainda tava aí. Achei que já tinha desistido, Alfa.

A voz era doce, mas os olhos... não.

Sukuna não respondeu de imediato.

Só o olhou.

De cima a baixo.

Lento.

Quase devoto.

— Você me chamou?

— Entende como quiser.

Gojo se virou, deixando a porta aberta. Sukuna entrou.

A casa estava aquecida, silenciosa. O cheiro do ômega era confortável, mas ainda levemente... instável. O cio havia passado, mas a vulnerabilidade ainda estava ali. E o desejo também.

Gojo parou perto da mesa.

Sukuna o seguiu.

Ficaram perto.

Perto demais.

Os olhos se encontraram. Os narizes quase se tocaram.

A mão do alfa subiu devagar. Encostou no quadril de Gojo, com leveza.

— Você tá bem?

— Agora? Tô ótima.

O toque se firmou um pouco mais. Sukuna queria puxá-lo, mas não ousava.

O coração batia rápido. O cheiro de ambos se misturava no ar.

Gojo sorriu.

— Obrigado por ter ficado. Por ter me respeitado.

Sukuna ia responder, mas a fala morreu na garganta.

Porque Gojo quebrou a distância.

Beijou ele.

Sem pressa.

Molhado.

Com gosto de lavanda, calor e vontade antiga.

Sukuna segurou a cintura, finalmente.

Forte. Mas não bruto.

A boca dele se abriu sob a do ômega, e o mundo virou só isso: Dois corpos, duas bocas, e um beijo que não era só beijo. Era… começo.

O beijo na cozinha durou mais do que deveria. Mais do que qualquer um planejou. Começou calmo. Mas ganhou ritmo. E profundidade.

As mãos de Gojo subiram pelo peito de Sukuna. Sentiam a pele quente, viva. As cicatrizes. A força.

A mão de Sukuna passeava pela curva da cintura. Subia até as costas. Apertava de leve. Ele tremia.

Gojo se afastou só o suficiente pra rir contra os lábios do alfa.

— Você tá nervoso?

— Tô com medo de acordar. De você sumir.

Gojo puxou a gola da camisa dele e o beijou de novo. Mais fundo.

Foram pela casa como dois imãs.

Encostando.

Beijando.

Toques na parede.

Mãos na escada.

Beijos no corrimão, nos degraus, onde o mundo parava pra olhar.

Chegaram no quarto sem dizer uma palavra.

Só os olhos falavam.

Gojo parou diante da cama. O macacão azul agora levemente aberto, os botões soltos até o umbigo. A pele clara exposta. O peito subindo e descendo devagar.

— Eu quero. Não por cio. Não por provocação. Eu quero… porque você ficou. Porque você cuidou. Porque eu senti.

Sukuna segurou o rosto dele.

— Eu vou te tocar como se você fosse feito de palavra sagrada.

Gojo riu baixinho, emocionado.

— Então me lê inteiro.

E ele leu.

Com beijos.

Lentos.

Molhados.

No pescoço, clavícula, barriga.

Cada parte de Gojo recebia atenção, como se fosse a primeira vez.

Como se fosse a última também.

A roupa caiu.

O corpo se abriu.

As pernas envolveram Sukuna como abraço.

O cheiro de ambos explodiu no ar, agora não mais contido.

Sukuna entrou devagar. Invadindo o interior molhado sentindo as paredes o apertando. Gojo arfou. Segurou os ombros largos, os olhos cheios d’água — mas de prazer.

— Isso... é tão...

— É nosso. — Sukuna murmurou, com a voz rouca, embargada.

O ritmo foi lento. Ondulante. Um vai e vem de beijos, mãos, toques e suspiros.

E então, Gojo cantarolou.

Baixo.

Entre os dentes.

Como se cantasse um refrão esquecido.

— Sukuna...

— De novo. Me chama.

— Sukuna...

A voz dele era mel. O corpo, templo.

Sukuna gemeu contra o pescoço dele.

— Você me matou. E agora eu não quero mais sair daqui.

Gojo sorriu, beijando a testa dele.

— Então fica. Porque agora... você merece.

O ritmo aumentou, Sukuna movia seu quadril como se sua vida dependesse apenas de dar prazer para aquele omega. Gojo estava com os olhos semicerrados, a boca agora levemente inchada pelos beijos soltando gemidos lindos demais para a sanidade do alfa.

— Porra, eu vou gozar

Gojo revirou os olhos com a sensação do membro pulsando em sua próstata. A mão tocou o ombro do alfa como um apoio quando suas pernas abraçaram o quadril, instigando ele a chegar em seu ápice.

Não demorou para que ambos gemerem uníssono em um orgasmo longo. Gojo soluçou ao sentir o nó se prendendo dentro de si, mesmo com o látex o segurando. 

— Meu Deus…

— Shh — Sukuna beijou os lábios do omega lentamente, acalmando os corpos.

Ele sabia que valeria a pena cada segundo que esperou para ter essa pessoa.

 

 

A luz da manhã entrava pela cozinha, suave e dourada. O rádio tocava algo tranquilo — talvez jazz, talvez só barulho suficiente pra disfarçar o silêncio pós-êxtase.

Gojo estava sentado na bancada, com as pernas balançando no ar. Vestia uma blusa preta enorme, claramente de Sukuna. O cabelo bagunçado, a pele corada. O sorriso? Ridiculamente feliz.

— Você faz ovos melhores que a Shoko.

Sukuna, de costas, só de calça, mexia a frigideira como quem fazia isso há décadas.

— Eu treinei pra impressionar um certo demônio de gloss.

— Tolos caem por menos, — Gojo murmurou, rindo, mordendo um morango.

A campainha tocou. E logo depois, a porta se abriu.

— Pai, esqueci meu... — Megumi entrou primeiro. — Oh. Oh, não.

Itadori veio atrás.

— O que foi, Gumi— Ah. AH.

Silêncio.

Pesado.

Cheiro forte no ar.

Feromônios misturados.

Sexo recente.

Sukuna virou devagar, ainda com a espátula na mão. Gojo acenou, animado.

— Bom dia, crianças!

Megumi fechou os olhos, como se implorasse por cegueira súbita.

— Obrigado por termos chegado agora e não... antes.

— Itadori, cê trouxe a água benta?

— Eu trouxe suco. Serve?

Gojo riu alto. Abriu os braços.

— Vem cá, Gumi. Não fica assim.

— Você tá com a blusa dele.

— Eu sou dele agora. A blusa é o mínimo.

Megumi bufou, mas se aproximou, emburrado, e abraçou o pai. O cheiro dele tentando, inutilmente, cobrir o do outro alfa na casa inteira.

— Ele fez você feliz?

— Ele me fez... tudo.

Sukuna virou de novo pro fogão, com um sorrisinho bobo que ele não deixaria ninguém ver — exceto o ômega na sua blusa e no seu coração.

Itadori puxou o celular.

— Posso tirar uma foto do meu tio domesticado?

— Tenta. Eu jogo essa espátula no teu nariz.

Gojo ria.

Megumi bufava.

Itadori tirava mesmo assim.

E o lar, enfim, se formava.

 

 

A manhã estava calma.

A cozinha cheirava a café fresco, pão na chapa e um pouco de perfume amadeirado vindo do difusor que Gojo insistia em usar. O rádio tocava uma música antiga. A luz do sol entrava pelas frestas da janela.

E no meio disso tudo, Sukuna estava com a cara amassada contra o ombro do ômega.

— Amor...

— Hm?

— Eu quero um bebê.

Gojo parou de mexer a manteiga na frigideira.

— Você quer o quê?

— Um bebê. Um nosso. Com teu nariz e minha sobrancelha. Quero ver você redondo, andando pela casa com a mão nas costas e dizendo "é culpa sua, Sukuna". Por favor.

Gojo virou devagar. As bochechas coradas. O olhar de quem estava processando a audácia.

— Sukuna...

— Um só. Juro. Depois a gente pensa em gêmeos.

Gojo bateu com a espátula na cabeça dele.

— A gente tá junto tem só alguns meses! Eu ainda tô me acostumando com você roncando do meu lado! E você já quer me ver barrigudo e chorando por manga?

Sukuna fez bico. Abraçou o ômega pelas costas, colando o peito nu contra a blusa azul pastel que Gojo usava como pijama.

— Mas você seria tão bonito com meu filhote aqui, — disse, descendo a mão até a barriga lisa e plana.

Gojo rosnou.

— Não começa.

— Só tô tocando. Posso tocar?

— Só se quiser dormir no sofá.

— Vai ser o sofá mais cheiroso da cidade.

Gojo tentou se soltar.

Sukuna apertou mais.

A mão ainda repousada na barriga.

Os lábios roçando o pescoço fino.

— Um bebêzinho… com esse teu olhar malicioso e o meu gênio horrível. A gente ia ser destruído, mas ia amar cada segundo.

Gojo mordeu o lábio pra não sorrir.

— É cedo.

— É inevitável.

— É rosnado se você não soltar minha barriga agora.

Sukuna riu.

Soltou.

Mas só um pouco.

— Tá bom. Por enquanto... só ensaio.

Gojo se virou, olhos ainda quentes da vergonha.

— Você é impossível.

— E você... é meu sonho de família, Satoru.

Gojo parou.

Engoliu seco.

Corou até a raiz do cabelo.

— ...você ainda quer café?

— Só se vier com você do lado.

O dia estava bonito, ensolarado, brisa leve — o tipo de clima que deixava Gojo animado demais pra ficar em casa.

Ele caminhava pelas ruas do centro com uma sacola de pano rosa no braço, óculos escuros em formato de coração, vestido rosa curto de babados brancos e sapato boneca. O cabelo preso num rabo alto, balançando. Uma visão celestial. Fofa. Mortal.

E atrás dele, Sukuna.

De preto da cabeça aos pés. Camisa justa, tatuagens aparecendo até no pescoço, corrente no bolso da calça e a cara fechada como se o mundo inteiro fosse um crime prestes a acontecer.

Principalmente quando alguém olhava pro corpo do ômega à sua frente.

Um grupo de alfas do outro lado da rua passou devagar, os olhos demorados na saia curta, nas coxas expostas, no pescoço limpo.

Sukuna rosnou.

Audível.

O suficiente pra fazer os três acelerarem o passo.

— Se continuar rosnando, vão achar que você é doente, — Gojo disse sem virar o rosto.

— Eles olham como se você fosse coisa. Não são dignos de olhar.

— Eu tô usando rosa, Sukuna. Quero que olhem.

— Quero te marcar.

Gojo tropeçou no próprio passo.

— O quê?

— Quero te marcar. Aqui. — Ele passou a mão na nuca de Gojo. — E talvez no quadril também. Só pra deixar bem claro.

Gojo corou.

Profundamente.

— A gente já tá junto. Já mora junto. Já divide coberta. Já me faz gozar toda manhã com gosto de lar… E agora quer marcar?

— Quero tudo. Você. Os filhotes. Te ver andando com a mão no ventre e minha marca no pescoço.
Quero que o mundo saiba que você é meu. Porque eu sou teu faz tempo, Gojo.

Gojo parou de andar.

Ficou em silêncio.

O mercado estava logo à frente. As pessoas passando.

Mas o peito dele… Inflava.

Ele virou devagar. Olhou o alfa como se o coração estivesse pulando nas pupilas.

— Sukuna...

— Hm?

Gojo se aproximou.

Ficou na ponta dos pés.

Beijou a bochecha do alfa.

— Você tá indo bem.

— Isso é um “sim”?

— Isso é um “não sei… mas talvez um dia.”

Sukuna sorriu.

Quase orgulhoso.

Quase possessivo.

Completamente apaixonado.

— Um dia eu ainda te deixo grávido no caixa do mercado.

— E eu ainda te dou uma rasteira com esse salto. Vem, armário. Preciso comprar tomate.

E eles seguiram. Um em rosa, outro em preto. Um sorrindo. O outro… marcando mentalmente todos os que ousaram olhar.

 

 

O sol da tarde deixava a cidade dourada.

Gojo andava pela calçada com um vestido rosa bebê de alças delicadas, cheio de babados. O tecido balançava com o vento, revelando as coxas pálidas e o brilho das meias. Nos pés, sapatilhas cor-de-rosa. No rosto, gloss. E no olhar?

Felicidade disfarçada de provocação.

Ao lado dele, Sukuna. Calça preta justa, camiseta simples. Braços cruzados e expressão de quem queria rosnar pra qualquer um que ousasse olhar pro comprimento da saia alheia.

— Você tá andando rebolando de propósito, né?

— Eu só ando assim. É culpa do corte da saia. — Gojo sorriu, fingindo inocência.

Sukuna olhou torto pra um alfa que passou e demorou meio segundo demais no olhar.

— Tô quase marcando teu pescoço agora mesmo.

Gojo engasgou no próprio ar. Corou até o pescoço.

— O quê?

— Marcar. Te deixar com meu cheiro. Com meu nome. Comigo. Pra sempre.

Gojo fingiu que não ouviu.

Mas o gloss na boca já tremia.

As mãos apertavam o saquinho de maçãs como se fosse escudo.

— Sukuna…

— Você é meu. Mas eu queria deixar claro pros outros também.

— A gente tá junto há… o quê, cinco meses?

— Tempo suficiente pra saber que quero filhos com você, um lar com cheiro de bolo, e você todo redondinho de mim.

Gojo parou.

Virou o rosto.

— Você precisa parar de falar essas coisas em público.

— Você precisa parar de ficar fofo quando fica envergonhado.

Gojo deu uma leve cotovelada no peito dele.

Sukuna só riu.

Puxou o ômega pela cintura.

Encostou o nariz no topo da cabeça dele.

— Eu vou te marcar um dia. E você vai estar sorrindo quando acontecer.

Gojo fechou os olhos por um instante.

Sentiu o peito inflar.

De susto.

De medo.

De amor.

— Você é um exagerado.

— Eu sou seu.

— ...Infelizmente.

Sukuna segurou mais forte a mão dele.

E o mundo ficou mais leve.

 

 

A noite caiu devagar, silenciosa. A casa estava escura, exceto pela luz quente da luminária ao lado do sofá. A televisão murmurava alguma comédia esquecida. Mas ninguém prestava atenção.

Gojo estava sentado no colo de Sukuna, os pés cruzados sobre o estofado, o corpo enroscado no peito largo do alfa. Vestia uma camisola leve de algodão, azul com rendinha branca. Cabelo preso num coque bagunçado. Olhos baixos.

A cabeça repousava no ombro de Sukuna. As mãos brincavam com os dedos tatuados dele.

— Você ainda pensa em me marcar?

A pergunta veio baixinha.

Sem desafio.

Sem riso.

Só verdade.

Sukuna olhou pra ele. O coração acelerou.

— Penso todos os dias.

— E se der errado?

— O quê?

— E se... a gente acabar? E eu tiver você na pele... e você tiver ido embora?

O silêncio ficou denso por um instante.

O cheiro de Gojo oscilava entre medo e carinho.

Sukuna segurou o rosto dele com as duas mãos.

Levantou com delicadeza.

Olhou nos olhos azuis como se eles contivessem todas as respostas do mundo.

— Eu só vou te marcar… Se você quiser. Se você estiver rindo. Se o seu coração disser "é agora".

Gojo mordeu o lábio.

— E se eu nunca quiser?

Sukuna sorriu.

Aquele sorriso pequeno, sincero, quente.

— Então eu passo o resto da vida querendo, e cuidando de você do mesmo jeito. Porque te ter já é mais do que eu achei que merecia.

Gojo soltou o ar.

Fechou os olhos.

— Você fala essas coisas e eu fico com vontade de dizer que te amo.

Sukuna encostou a testa na dele. O mundo se calou.

— Então diz. Ou me beija. Escolhe um.

Gojo riu, com os olhos brilhando.

E escolheu.

Beijou.

Devagar.

Doce.

Com os dedos nas bochechas de Sukuna e o peito vibrando de amor.

Sukuna correspondeu. Segurou a cintura com cuidado.

Selou a promessa com os lábios.

Ali.

Sem marca.

Sem vínculo.

Mas com tudo que importava.

 

 

O sol entrava tímido pelas cortinas abertas. A manhã nascia dourada, quente, cheia de silêncio bom.

Gojo acordou primeiro.

Mas não se mexeu. Estava ali, enroscado no peito de Sukuna, o rosto escondido entre tatuagens e cheiro de alfa amado. Os dedos faziam círculos preguiçosos na pele quente.

— Tá acordado? — ele murmurou.

— Agora tô. — a voz de Sukuna veio grave, rouca de sono, e cheia de doçura.

Gojo não disse nada.

Só sorriu, escondido.

— Eu tô começando a pensar...

— Hm?

— Que talvez… Um dia… Quem sabe...

Sukuna ergueu o corpo, os olhos arregalados, o sorriso nascendo devagar, brilhando nos cantos da boca.

— Você tá dizendo o que eu acho que tá dizendo?

Gojo corou.

— Talvez. Mas só se você parar de olhar pra mim assim.

— Assim como?

— Como se eu fosse a única coisa que você ama.

Sukuna riu.

Baixo.

Mas depois… ele atacou.

Beijos.

No rosto.

No pescoço.

Na clavícula.

No peito.

Na barriga.

— Eu te amo, caralho. Eu te amo tanto que se eu não te beijar agora, eu morro.

Gojo riu, mas foi ficando quente demais. O riso virou suspiro. O suspiro virou gemido abafado.

As mãos se encontraram.

Os corpos também.

E então, ali mesmo, na cama desarrumada, no calor da manhã... eles se amaram.

Devagar.

Como quem redescobre a pele.

Como quem sela um contrato antigo que só agora pode ser assinado com os corpos.

Sukuna se movia com cuidado.

O rosto colado ao de Gojo.

Os olhos abertos, como se não quisesse perder nada.

Gojo gemia contra os lábios dele. As pernas ao redor da cintura, o corpo pedindo e se dando ao mesmo tempo.

E quando o prazer explodiu — não como desejo, mas como certeza — Gojo mordeu de leve o ombro do alfa e ofegou:

— … eu acho que te amo.

Sukuna parou.

Ficou ali, ofegando também.

Enterrado nele.

O mundo inteiro dentro do quarto.

— Diz de novo.

— Depois do café.

— Satoru…

Gojo olhou pra ele.

Os olhos úmidos.

Mas sorrindo.

— Eu te amo, Sukuna.

E Sukuna…

Ficou mole.

Como se o corpo finalmente tivesse encontrado casa.