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Os rios mudam, nós não

Summary:

Heráclito nunca passa muito tempo no mesmo lugar, Parmênides não pretende sair de Eleia

Eles caminham, discutem suas ideias, e “dizem” adeus

Notes:

Essa é minha primeira fic (como você pode ter percebido pela tag)!

Ela nasceu depois de uma aula de filosofia e uma maratona de 12 vídeo aulas sobre Parmênides e Heráclito

Aproveite! :)

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Com 18 anos, Heráclito de Efésia tomou uma decisão

 

Não ficaria mais de um ano no mesmo lugar. Se queria estudar filosofia, devia conhecer mais do que sua cidade natal. Além disso, sua alma precisava da mudança, era isso que a alimentava.

 

Então quando chegou a Eleia, o próximo passo era,naturalmente, achar alguém que compartilhasse sua amizade pelo conhecimento. E assim encontrou Parmênides.

 

No início, a perspectiva de encontrar alguém que, assim como Heráclito, buscava encontrar respostas sobre o ser, era inimaginável. Poderia finalmente discutir suas teorias, como nunca havia feito antes com qualquer um. Mesmo quando percebeu que ambos pensavam de forma contrária, ele ainda manteve a esperança, ansiando pelo exercício mental que as discussões trariam.

 

Mas Parmênides era tão mesquinho, rude e, sobretudo, irritante – contrariando tudo o que Heráclito dizia, mesmo antes de ouvir a proposição completa – que o filósofo de Efésia não podia deixar de pensar no homem. Seus dias giravam em torno de trabalhar em seus argumentos, planejar possíveis réplicas para as implicações que Parmênides faria, e, é claro, pensar nele.

 

E assim tem sido, mesmo quase um ano após a chegada de Heráclito. Mas isso logo mudaria

 

Naquele dia, Heráclito de Efésia explicaria a Parmênides qual era sua arché, e então se despediria. Portanto, ambos se encontraram na praça que utilizavam para esse tipo de discussão

 

“Finalmente. Então, qual o tema de hoje?” Parmênides disse, já começando a andar

 

“Aonde vamos? Pensei que discutiríamos aqui” Heráclito seguia o outro filósofo

 

“Pensei que poderíamos andar pela Ágora, enquanto isso você pode me entreter com suas teorias”

 

O jovem de Efésia hesitou, “acho que é um bom momento para avisar que vou embora”

 

Parmênides se deteve um momento enquanto processa a informação, “suponho que Eleia não tenha mudanças suficientes para você”

 

Heráclito voltou a andar, ainda sem olhar nos olhos do outro, “além disso, eu andei pensando sobre archés”, não queria pensar na separação do colega mais tempo do que o necessário

 

“por que insiste em desperdiçar seu tempo com a cosmologia? Pensei que discutiríamos algo importante”, sua voz era mais seca que o normal

 

“Fogo, é o que acho que originou o mundo”, o efesiano disse, ignorando o comentário, “tremulando, mudando sua forma e as coisas ao seu redor. Isso explicaria porque as coisas estão em constante mudança, não acha?”

 

Ele sabia aonde a última frase os levaria: o mesmo ciclo interminável sobre a imutabilidade (ou não) do ser. Ele olhava o outro com expectativa.

 

“Nós vamos discutir esse tópico de novo?”

 

Enquanto conversavam, passavam pelas barracas e olhavam sem interesse para os produtos. Andavam próximo um ao outro para não se perderem entre os compradores, até que Parmênides guiou-os para a região mais externa e tranquila da Ágora

 

“Sabe que é meu assunto favorito. Eu andei pensando sobre o que você disse, “o ser é, o não ser não é”, mas…”

 

“O que há de novo para ser dito,Heráclito? seu rio mudou outra vez?” O mais velho disse com uma risada

 

Heráclito desviou o olhar, visivelmente magoado com o comentário.

 

“Ah vamos, não seja tão sentimental”

 

“Eu não sou sentimental, Parmênides”, a mágoa se transformara em raiva

 

“Sabe que você é conhecido como O Obscuro, não sabe? Você é o que é, não dá pra mudar isso”

 

Heráclito os levou até uma espécie de beco, onde teriam mais privacidade para discutir.

 

“Por que não admite?” Ele vociferou

 

“O que…”

 

“Admite! Só… admite de uma vez que o calor só existe em função do frio; que o dia só existe em função da noite; e que você só existe em função de mim”

 

Heráclito viu um lampejo de emoção nos olhos do homem à sua frente, e então Parmênides o beijou. Os olhos de Heráclito se arregalaram antes de fechar, suas mãos se dirigiram à base do pescoço dele, desesperadamente procurando algo em que se segurar, enquanto se concentrava na sensação que invadia sua boca. A raiva se dissipava e ele se agarrava a ela, tentando não esquecer da discussão que os levou até ali.

 

Se separaram tão bruscamente quanto haviam se beijado, o tórax de ambos subindo e descendo em busca de ar.

 

“Dessa forma não consigo ficar bravo com você”, Heráclito foi o primeiro a falar

 

“Os sentimentos, assim como os sentidos, não são confiáveis”, ele tentava convencer a si mesmo, mas antes que pudesse terminar a frase, o mais jovem já beijava-o novamente.

 

Dessa vez era paciente, quase casto. Era um pedido de desculpas, uma promessa, uma despedida. Heráclito o beijava para lembrá-lo de tudo aquilo que nunca poderiam ter. Até que se separaram mais uma vez.

 

“Nós seremos diferentes da próxima vez que nos virmos”, os olhos do efesiano estavam marejados, sua voz embargada pela emoção.

 

“Você ainda será você, eu ainda serei eu. Só isso importa”, Parmênides tinha os olhos fixos no rapaz que beijara, uma tentativa de assegurá-lo.

 

Heráclito voltou para a Ágora. O céu era de um azul cerúleo, os pássaros cantavam, havia música ao longe. As lágrimas escorreram enquanto desejava pela primeira vez que Parmênides estivesse certo.

Notes:

Como eu disse antes, essa fic é fruto de uma pesquisa

Dessa forma, a única inconsistência (que eu saiba) é que Parmênides e Heráclito provavelmente nunca se encontraram. Isso porque, apesar de serem contemporâneos um ao outro, eles viviam em cidades-estado diferentes, e não existiam meios de comunicação que pudessem viabilizar um diálogo entre os dois