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São Paulo
Domingo após o carnaval, 22 de fevereiro de 2026. Fim de tarde. Jardins.
O barulho constante do tamborilar das unhas de Lorena no vidro da penteadeira estava deixando Maggye louca enquanto ela procurava uma roupa específica em seu armário. Amanhã Lorena iria iniciar o estágio que seu pai lhe comunicara uns 3 dias antes. A ligação chegou como uma ordem. “Segunda, 8 horas. Não se atrase”. Era uma vaga numa empresa próxima dos negócios da família. Alguma financeira, ou qualquer coisa assim. Iria entrar no setor de compliance. Mais entediante, impossível. Não tinha muita escolha. Afinal, era seu pai que bancava a faculdade, a casa, a alimentação, tudo. Ainda que dividisse as contas com Maggye (por opção, pois seu pai lhe oferecera uma cobertura no nome da família, mas Lorena não queria morar sozinha em São Paulo e a amiga topou dividir seu apartamento no Jardins), era impossível se bancar sozinha. O nervosismo não era empolgação para começar uma experiência nova. Longe disso. Era medo e insegurança. Nunca trabalhara e estava apavorada com a ideia de decepcionar o pai. A sensação era de que não ia dar conta, apesar de toda a dedicação aos estudos que Lorena tinha.
- Lô... Amiga... Tem certeza de que não quer ir comigo? – Perguntou Maggye, preocupada com a inquietude da amiga com quem dividia o apartamento.
- Ai Mag, tu sabe que eu não gosto desse tipo de coisa. – Respondeu Lorena sentada no banquinho da penteadeira moderna projetada no quarto de Maggye, colocando as mãos sobre o colo e expressando sua ansiedade agora balançando a perna esquerda. – Música alta, gente desconhecida, gente bêbada, homens com um papo merda chegando a cada 30 segundos... – Lorena faz uma careta enquanto descreve uma cena típica dos barzinhos que Maggye costuma frequentar com seus amigos em São Paulo, e sempre tentava levá-la desde que passaram a morar juntas quando se mudou para a cidade pra iniciar o curso de Direito, 3 anos atrás. – Acho que prefiro ficar em casa. Mas eu tô bem. Tá tudo certo. Tudo ok. Só tô um pouco ansiosa. Só isso.
- Só um pouco? – Maggye olha pra Lorena arqueando as sobrancelhas enquanto se aproxima da amiga segurando um vestido curto contra o corpo. – Você tá prestes a causar um terremoto nessa casa com sua tremedeira. Sério, você toma um drink, dança um sambinha e esquece um pouco essa coisa do estágio. Olha aqui, o que você acha desse vestido? Muito cunt?
Lorena dá um sorriso de canto de boca ao ver a roupa e lembrar de outras vezes que Maggye já saiu com ela. Normalmente, usava pra chamar atenção de alguém. A amiga tinha uma facilidade na zona do flerte, parecia sempre ficar confortável em conversas com rapazes que causavam pânico em Lorena só de observar por fora. Viciada em conquistar. Às vezes, mas só às vezes, Lorena queria um pouco da desenvoltura de Maggye. Quem sabe assim conseguiria se soltar um pouco mais, relaxar um pouco mais, curtir um pouco mais... Porém parecia que simplesmente não nascera para aquilo. Ou apenas ainda não tinha encontrado o cara certo, apesar de já ter seus 28 anos. Era difícil aceitar sair com algum deles e, quando aceitava, não ia muito longe.
- Extremamente cunt. Tá perfeito. Ele vai amar, seja quem for que tu tá querendo impressionar. Vai funcionar.
Maggye sorri, vitoriosa. Joga o vestido na cama e se senta, de frente pra Lorena. A expressão muda de volta para aquela cara de preocupação que a amiga sempre tinha quando o assunto era “A Solidão de Lorena Ferette”. Não era por mal, mas era... cansativo. Antes mesmo da pergunta chegar, Lorena solta um suspiro, devidamente ignorado.
- Amiga, você sabe que eu me preocupo, de verdade. Faz três anos que você mora aqui e eu nunca te vi trazer ninguém, você nunca passa a noite fora, nunca me apresentou um cara sequer. Você passou o carnaval deitada no sofá, sozinha, lendo. O Lucas me falou que você não respondeu nenhuma das mensagens dele... Não deu certo? Ele é tão do bem, Lô...
- Ah Mag... Nada contra ele, é um fofo. Só não me despertou nada. – Lorena responde, desviando o olhar e dando de ombros, simbolizando a falta de interesse. Lucas era algum amigo de Maggye que foi apresentado a Lorena. Era até bonito, educado. Não era babaca. E também não era interessante. – Eu gosto de ficar sozinha.
Maggye se inclina pra frente, e segura uma das mãos de Lorena, tentando mostrar apoio. Ela sabe que é mentira. Ela sabe que a solidão sempre foi um peso pra Lorena. Ela sabe que a amiga subiu muros e têm dificuldades para se abrir e criar laços, sejam de amizade ou de algo a mais. Ainda assim, Lorena prefere se isolar a se expor, se escondendo em casa e vivendo na realidade fantasiosa dos livros que devora.
- Mas você não sente falta? De companhia? De transar?
A pergunta veio direta demais. Honesta demais. Mas Lorena já estava acostumada. Maggye sempre foi muito aberta ao falar sobre sexo com ela. Nunca tinha muito a contribuir na conversa, mas gostava de rir das aventuras amorosas que a amiga sempre contava.
- De companhia, talvez... Não sei, na verdade. Não sei se dá pra sentir falta de algo que nunca tive. Mas de sexo, honestamente? Sempre achei superestimado. E sempre acabo preferindo me resolver sozinha.
Maggye solta uma gargalhada alta, jogando a cabeça pra trás. – Ai amiga, sempre que a gente conversa sobre isso eu tenho mais CERTEZA de que você joga pro outro time e ainda não tá aproveitando a vida.
- Iiiih, lá vem ela com essa conversa de novo. – Lorena também ri, não ligando muito pro comentário. Não levava muito a sério. Apenas achava que nasceu pra ficar sozinha e já tinha aceitado essa condição. – Olha, quer saber, eu vou contigo. Só essa conversa já me distraiu mesmo. Vou me trocar! – Levantou e andou rápido em direção ao seu quarto, enquanto Maggye soltou gritinhos de vitória, batendo palmas comemorando a decisão da amiga.
***
Moema.
Eduarda estava completamente exaurida após dois turnos de prova. Se inscrevera para a vaga de Delegada de Polícia no concurso da Polícia Civil de São Paulo. Veio se preparando para essa prova nos últimos dois anos em uma rotina exaustiva. Acordava às 4:40h para se exercitar. Às 5:35h, iniciava os estudos. Às 6:50h, engolia um pão francês com ovos fritos e alguma fruta (alternava entre mamão, bananas ou uvas, o que tivesse disponível e mais fácil). Às 7:35h saía para a empresa onde trabalhava, próximo de sua casa. Caminhando, chegava em menos de 20 minutos. Trabalhava das 8 às 17h (apesar de raramente sair nesse horário, pois sempre era pressionada para fazer horas extras), com 1h para o almoço: comia e descansava nos primeiros 40 minutos, usando os outros 20 para revisar algum conteúdo. Ao voltar pra casa, jantava e tentava estudar por pelo menos mais uma hora antes de dormir às 21:40h. Era uma vida de robô, e Eduarda seguia com uma disciplina ferrenha. Aos finais de semana e feriados, aproveitava para aumentar suas horas de estudo e descanso.
Não havia muito espaço para a família ou os amigos. Muito menos para uma vida amorosa. Não saia com alguém há pelo menos uns nove meses, mas acreditava que aquilo iria valer a pena quando conseguisse fazer seu nome. Eduarda Campos, delegada da Polícia Civil. Atuando em prol da justiça. O cargo sendo conquistado pelo próprio esforço, sem influência da família Fragoso. Não que a relação com a família fosse ruim, longe disso. Mas ser filha do desembargador do TRF da 1ª Região e da Ministra-Conselheira do Itamaraty vinha com uma tendência de anular qualquer coisa que Eduarda fazia. Por isso não usava o “Fragoso”. Por isso fugiu de Brasília. Por isso foi estudar em São Paulo. Por isso se mantém em um emprego – no qual ganhava o suficiente para se manter sem ajuda dos pais - enquanto busca entrar na Polícia através do concurso público. Queria ser independente, lutar pela própria história. Custe o que custar.
Ao sair da escola onde fez a prova, Paulinho lhe esperava do outro lado da rua, conversando com um ambulante que lá estava com um carrinho de churros. Paulinho e Eduarda viraram amigos quando ela começou o curso de Direito na USP, e ele já cursava o nono período. Se conheceram em uma dinâmica da atlética e permaneceram unidos desde então. Na época, ele já se dedicava à preparação para concurso, certo de que queria entrar para a Polícia Civil. Conseguiu a aprovação logo quando colou grau, assumindo o cargo de Investigador. Para Eduarda, a motivação veio anos mais tarde, por influência do amigo e pela necessidade de sentir que estaria fazendo algo útil. Apesar de estar na mesma formação acadêmica que seu pai, o desembargador Henrique Fragoso, também queria atuar de maneira diferente, ainda que admirasse tudo o que ele construíra.
- Já adianto que fiz uma péssima prova. – Eduarda dispara com o semblante duro, os olhos pesados ao chegar aonde Paulinho lhe esperava.
Imediatamente Paulinho lhe deu um abraço apertado, dando dois beijinhos no topo de sua cabeça.
- Quer comentar? Ou vamos embora?
- Vamos embora. Comento no caminho. Mas já adianto, quero beber. Preciso de um porre, ou de uma mulher bem cheirosa, ou os dois.
Paulinho comemora, dando soquinhos no ar com a mão esquerda enquanto mantém o braço direito envolvendo os ombros de Eduarda.
- É ISSO! MEU DEUS, É ISSO! VAMO, PORRA!
Os dois viraram a esquina e seguiram rua abaixo. A casa de Paulinho era a cinco quarteirões do local de prova, então eles haviam combinado que Eduarda iria pra lá depois da segunda prova. Enquanto caminhavam, Eduarda comentou brevemente sobre as provas. A primeira, pela manhã, era a prova objetiva. Era onde Eduarda se sentia segura, e julgou ter ido bem. Com certeza acima dos 90%. Talvez 96%. Já a segunda, no período da tarde, era onde jazia a insegurança. A peça jurídica não ficara tão robusta, era o que ela acreditava. Pela concorrência, não havia espaço para deslizes.
- ...e é isso. Não sei, não tô segura de que consigo ir pra prova oral. Também não quero pensar nisso agora, só quero esquecer um pouco da minha vida por hoje. Já basta ter que ir trabalhar em cargo novo amanhã. – Eduarda comenta, após contar suas impressões sobre a prova para Paulinho, que escutava com atenção.
- Oi? Cargo novo? Que história é essa? Saiu da Faria Lima, finalmente? – Paulinho indaga, surpreso, abrindo os braços, sem entender a informação nova.
Eduarda ri e bate com a mão na testa. – Porra, esqueci de comentar com você. Fui promovida – abriu um sorriso forçado com os dois polegares apontando pra cima – e agora vou ser coordenadora de um setor novo. Sigo na mesma empresa, não tô livre da Faria Lima ainda. Mas agora com mais responsabilidade. Menos sossego. Mas com um salário consideravelmente melhor.
- Caralho, parabéns, eu acho? Mas como assim, novo setor? O que você vai fazer agora?
- Então, lembra que uns meses atrás eu tava atolada de coisa, fazendo os textos pra atualizar o Código de Conduta da empresa e criando algumas Políticas internas? – Paulinho acena positivamente com a cabeça, enquanto escuta com curiosidade. – Pois é. Acontece que isso era pra entrar no novo setor de compliance. Você acredita que uma financeira daquele tamanho ainda não tinha esse setor? Vão criar só agora, por pressão externa de investidor. Uma madame que era coordenadora da Carol, no comercial, vai ser a Diretora, e aí me ofereceram o cargo de coordenação, provavelmente porque eu dei minha vida pra essa empresa ter uma política interna minimamente decente. Vão sair bem na fita graças ao meu trabalho, modéstia à parte. Ah, um detalhe importante: tão valorizando taaaanto esse setor que a equipe tá gigante: além da diretora e de mim... não tem ninguém. Aliás, parece que chega um estagiário amanhã, mas fora isso... Zero.
Paulinho ri um pouco do relato de Eduarda, e antes de começar a responder, ela para na esquina da rua da casa do amigo ao notar uma roda de samba sendo montada em um bar. – É aqui que eu vou vir depois de um merecido banho quente. E você vem comigo.
- Olha, eu não recuso um sambinha e uma cerveja, mas esse bar normalmente não combina muito com você... É meio hétero demais.
Eduarda dá de ombros, não se impressionando. – Se tem uma coisa que aprendi, meu caro Paulo, é que em qualquer lugar com samba e cerveja, vai existir pelo menos uma mulher querendo se satisfazer nas mãos de Eduarda Campos Fragoso. Eu sei que eu tô um pouco enferrujada, mas por que hoje seria diferente? – Eduarda dá uma piscadela para Paulinho e segue andando, confiante.
***
18:42h
Quando Lorena e Maggye chegaram no bar, a música já estava alta e as pessoas já estavam aglomeradas ao redor da roda de samba. Imediatamente, Maggye começou a esticar o pescoço, claramente procurando alguém. Lorena não queria ficar no caminho da amiga, então tomou coragem para sobreviver sozinha naquele ambiente hostil. Ia tomar um drink, curtir a música e se forçar a se divertir um pouco. Precisava daquela distração.
- Mag, vou comprar uma caipirinha pra mim. Tu vai querer algo?
- Hm, ainda não... Vou dar uma volta aqui primeiro pra ver se encontro algum conhecido. Qualquer coisa me liga, tá?
Lorena se dirigiu ao balcão, que por sinal era minúsculo, e tinha um único bartender pra pelo menos umas 20 pessoas amontoadas, debruçadas, gritando e gesticulando. Passou alguns minutos atrás de um casal que gritava por uma cerveja, planejando tomar o lugar deles assim que fossem atendidos. E assim conseguiu. Mas não tinha o ímpeto para o desafio maior: gritar alto o suficiente pra ser atendida. Não havia sequência, respeito ou ordem. Ganhava quem gritasse mais alto e o bartender decidisse quem iria levar o pedido naquele instante. Lorena ficou observando e tentava chamar a atenção quando o único funcionário atrás do balcão passava apressado por ela, mas não alto o suficiente pra ser ouvida. Estava prestes a desistir, até notar alguém se enfiando do seu lado, se apoiando em cima do balcão com um braço e puxando o bartender pela camisa com o outro.
- Ou! Você vai atender o pedido dessa princesa aqui ou eu preciso ir aí fazer o seu serviço?
O funcionário fuzilou com os olhos a ruiva audaciosa que lhe puxara, mas funcionou. Ele olhou, então, para Lorena, esperando ouvir o pedido.
- Uma caipirinha, por favor. Bastante limão.
- Duas! – Adicionou a ruiva, dando uma nota de 50 reais ao funcionário mal-humorado que as atendia. – Se for rápido o suficiente eu não vou nem pedir o troco. – Completou, virando-se pra Lorena com uma piscadinha. – Posso perguntar seu nome, gatinha?
Por um instante, Lorena ficou paralisada, observando a cena. Uma mulher. Linda, diga-se de passagem. Absurdamente linda. Incrivelmente linda. Estupidamente linda. Uma mulher linda, na sua frente, parecendo disposta a iniciar um flerte. Ou já tinha iniciado? Não, definitivamente já tinha iniciado. Afinal, pagara-lhe um drink. Era assim que começava, certo? Se for prestar atenção, na verdade ela não fez muito diferente do que cafajestes faziam quando queriam se aproximar de Lorena nesses bares que às vezes ia com Maggye. Mas dessa vez era diferente. Era uma mulher. Estupidamente linda. Sorrindo. Perguntando seu nome e sorrindo. Dessa vez, era realmente diferente: Lorena estava interessada e curiosa pra saber o que aquela mulher, absurdamente linda, queria com ela. Aquela mulher que sorria, na sua frente. Lorena ficou fixada naquele sorriso, e só percebeu que estava travada quando aquele sorriso começou a desaparecer, e a mulher, que era incrivelmente linda, já baixava o olhar, entendendo que ali não haveria uma conquista.
- LORENA. – Gritou. Mais alto do que deveria.
- Prazer, Lorena. Eu sou a Eduarda. – A mulher, impressionantemente linda, se inclinou para Lorena, dando-lhe um beijo na bochecha. O gesto foi suficiente pra fazer o nervosismo tomar conta de seu corpo, sentindo o coração acelerar e um calor subir para o rosto. Com certeza estava com as bochechas coradas. Talvez, com a luz do local, não ficasse perceptível. Rezou. – Você tá sozinha?
Eduarda se aproveitou da música alta como desculpa pra manter o rosto próximo ao de Lorena enquanto conversavam. De fato, era difícil escutar o que a outra falava. Mas também existia ali uma provocação, e um teste de abertura. Fazia parte da dança.
- Eu vim com uma amiga, mas ela tá esperando alguém. – Lorena não recuou nenhum milímetro, ainda que estivesse intimidada por aquela proximidade. Afinal, Eduarda é uma mulher linda.
- E você, Lorena? Tá esperando alguém também?
- Tu. – A resposta foi tão rápida que a própria Lorena se surpreendeu. Como teve essa capacidade?
Eduarda sorri com os lábios. Aquele sorriso de quem sabe que o plano para fazer maldades está dando certo.
- Tá na mão, doutora. – O bartender coloca os dois drinks no balcão, servidos em copos descartáveis, em frente a elas. Eduarda rapidamente pega os dois copos e acena com a cabeça, convidando Lorena a segui-la.
Elas saem do bar, ficando na calçada, onde havia um pouco menos de barulho e pessoas. Eduarda parou ao lado de uma árvore decorada com luzes amarelas e entregou a caipirinha à Lorena, enquanto já bebericava o primeiro gole da sua. Estava fraca. Claramente a ordem do bar era diluir as bebidas. São Paulo e seus drinks superfaturados. Não é à toa que o Paulinho sempre fica na cerveja.
- Me conta. Você não é daqui, né? Tem um sotaque. – Eduarda retoma a conversa com Lorena, mantendo a mesma proximidade de antes. Mas agora era unicamente a provocação, já que as duas conseguiam se ouvir bem.
- Sou do Rio. Minha família é de lá. Mora lá, ainda. Eu vim fazer faculdade. – Lorena tomou um gole generoso da bebida, buscando coragem no álcool. Sentia-se meio patética, apenas respondendo as perguntas de Eduarda. Mas ela guiava a conversa com tanta facilidade...
- Hm, faculdade de que? Já terminou? – A pergunta tinha um objetivo. Perto de fazer 30 anos, Eduarda não queria uma mulher “nova demais”. Lorena não parecia ter menos de 20, mas não devia ter muito mais que isso também. A realidade é que Lorena já estava com 28. Aquela não era sua primeira graduação, mas sim a que sua família lhe obrigara a cursar. A carioca já tinha concluído Design de Moda e feito alguns cursos de curta duração, como Filosofia, História da Arte, Fotografia (onde conheceu Maggye)... Já tinha até morado alguns meses em Chicago. Fazer Direito foi uma obrigação imposta pelo pai. A condição de Lorena foi fazer a faculdade em São Paulo. Uma forma de se sentir um pouco mais dona de sua vida, ainda que tentando fazer tudo o que a família esperava dela.
- Direito. Cheguei no 7º período agora. Inclusive, amanhã começo meu primeiro estágio. – Lorena queria mostrar que não era tão “criança” e que sabia assumir responsabilidades. Não era “só” uma estudante. Mas a frase pareceu infantilizada depois que saiu de sua boca. “Meu primeiro estágio”. O nervosismo voltou. Tomou outro gole, ainda mais generoso que o anterior. E disparou a falar. – É em uma empresa grande. Mas o trabalho vai ser meio chato. Mas é um trabalho, né? Não é bem o que eu imaginava quando aceitei cursar Direito. Assim, aceitei porque meu pai insistiu. Mas aceitei sim, eu também quis isso, sério. Eu queria fazer algo, sabe? Queria ajudar quem precisa. Ser advogada, tipo pro bono, entende? Minha família tem dinheiro, eu não precisaria trabalhar pra sobreviver. Mas é totalmente digno, isso. Quem trabalha pra sobreviver. Eu entendo isso. Mas me deixa irritada esses advogados que defendem qualquer caso, só pelo dinheiro. Eu sei, eu sei, todos devem ter direito à ampla defesa e ao contraditório, mas tem caso que não dá, sabe?
Eduarda não acreditava no que ouvia. A mulher não parava mais de falar. Cada frase contribua mais e mais para o julgamento se formando na cabeça de Eduarda: família rica. Menina mimada. “Motivações” genéricas. Papo genérico. “Quero fazer pro bono”. Uau, que diferente. Imatura. Novinha demais. Maior de idade, sim. Mas novinha demais. Enquanto Lorena continuava a falar, quase não parando nem para respirar, Eduarda se questionava se dava as costas e voltava pro bar. Olhou o relógio. 19:02h. Se desistisse, ia voltar pro bar e procurar outra mulher. Com o risco de voltar pra casa sozinha. Mas, se continuasse, poderia conseguir o que queria e ainda voltar pra casa cedo. Não ficaria de ressaca e já começaria os estudos para a fase oral do concurso – se passasse nas primeiras fases – amanhã mesmo.
Decidida, Eduarda puxou Lorena pelo pescoço com a mão livre, interrompendo, finalmente, o monólogo. Calou a mulher com um selinho, firme, durando alguns segundos, a fim de esperar alguma reação. Aceitação? Repulsa? Continuidade? Mas a reação não existiu. Eduarda havia beijado uma estátua? Recuou, examinando a expressão de Lorena. Parecia choque. Primeira vez que era beijada por uma mulher, Eduarda supôs. Corretamente.
- Desculpa se eu me antecipei demais... – Eduarda afirmou, esperando alguma resposta da mulher que continuava com os olhos arregalados à sua frente.
- Não, tá tudo bem, eu só... Fiquei surpresa, só isso. Mas tá tudo bem. Tá tudo ótimo. Eu... gostei, na verdade. – Lorena tentava controlar o nervosismo. Não era nenhuma iniciante, mas se sentia assim. Já havia flertado, beijado, saído e transado com garotos. Algumas poucas vezes. Mas nenhum lhe deixara nervosa ou insegura. Nenhum lhe deixara interessada, pra dizer a verdade. Mas estar ali, sendo cantada por uma mulher, e após um breve beijo, parecia que Lorena estava de volta aos 14 anos, prestes a beijar de verdade pela primeira vez.
Lorena se agachou brevemente, colocando o copo com o resto de gelo derretido, limões espremidos e quase nada de cachaça no chão, entre as raízes da árvore ao seu lado. Tomada por uma coragem que não sabia ter, envolveu o rosto de Eduarda com as duas mãos e a puxou para um segundo beijo. Dessa vez, um “beijo de verdade”. Com vontade, com língua, com mais proximidade ainda. Eduarda correspondeu imediatamente, usando a mão livre para puxar Lorena pela cintura para mais perto de si. À medida que o beijo se intensificava, Eduarda largou o copo que segurava, levando a outra mão, agora livre, para a nunca de Lorena, pressionando-a com firmeza.
A sensação da mão gelada de segurar o drink em sua nuca provocou arrepios em Lorena, parando o beijo com um selinho para tomar fôlego. Rendida, ergueu a cabeça pra cima buscando ar. O movimento foi um convite para Eduarda, que, sem cerimônia, afundou o rosto no pescoço exposto de Lorena. Cheirando, beijando, lambendo, chupando. Subiu a boca para a orelha, murmurando entre lambidas no lóbulo e na cartilagem externa. – Você é muito cheirosa. Que delícia.
Lorena sentiu as pernas tremerem com a sensação da boca em seu ouvido. A frase cochichada. A língua em seu pescoço. Virou-se um pouco, apoiando as costas na árvore, e puxando Eduarda contra si. Não queria abrir espaço.
Eduarda sorriu com o movimento desesperado, e aproveitou para se encaixar perfeitamente em Lorena. Pressionou-a contra o tronco enquanto puxava o quadril daquela mulher com as duas mãos, sua perna esquerda entre as pernas dela. Queria provocá-la ainda mais, gerar atrito. O beijo continuou, com mais intensidade e mais desejo.
O arrependimento bateu um pouco. Quem disse que ficar encoxada contra o tronco de uma árvore era uma ideia boa? Sentiu algo pinicando em suas costas e não sabia se era casca, folha, inseto... Quantas pessoas tinham mijado naquele canteiro durante o carnaval? Que ideia foi essa? Por que numa árvore e não, sei lá, num sofá? Por que na rua? Queria privacidade, conforto, segurança. Queria sua cama. Agora.
- Vamos pra minha casa? Pode ser? – A pergunta veio rápida, sem pensar. Na verdade, pensou sim. Pensou em tudo que poderia fazer com Eduarda na segurança do seu quarto, no conforto da sua cama. Mas não pensou na possibilidade de ouvir “não”. Não pensou que ela não sabia o que fazer. Não pensou no nervosismo, na insegurança, na timidez. Pela primeira vez, Lorena apenas agiu.
Eduarda sorriu. Assentiu com a cabeça, mas ainda mantendo seu corpo colado contra o de Lorena. Não queria perder aquele contato. Tirou o celular do bolso, abrindo o aplicativo do Uber.
- Eu peço o Uber. Coloca aqui seu endereço. – Eduarda entregou o celular pra Lorena. Enquanto ela digitava, aproveitou pra distribuir beijos em seu pescoço. Ela podia ser nova, imatura, bobinha. Mas a pele era macia, cheirosa. Eduarda foi capturada, e não ofereceu resistência. Quando Lorena devolveu o celular, Eduarda escolheu a opção “Prioridade”. Quanto mais rápido, melhor. O alívio veio quando a notificação de corrida aceita apareceu imediatamente, e a motorista era uma mulher. O carro chegaria em 2 minutos. Mais 17 até o destino. Bairro Jardins. Não era tão longe. Nem dali, nem da sua casa.
- Eu só preciso avisar minha amiga. Pra ela não ficar preocupada. – Lorena se desvencilhou de Eduarda. Não por não querer mais o corpo dela contra o seu, mas por querer fugir do desconforto daquele tronco de árvore. Digitou mensagem pra Maggye. Eduarda aproveitou pra fazer o mesmo, avisando Paulinho que não voltaria com ele.
Lorena: Amiga, só pra te avisar: tô voltando pra casa. Mas tá tudo bem, juro. Pode curtir a noite.
Eduarda: Ei cuzao, consegui. Tô saindo. Valeu
Já no Uber, Eduarda e Lorena nem conversaram. No banco de trás, não conseguiam desgrudar as bocas. Lorena estava sentada com o corpo virado para frente, enquanto Eduarda que se inclinava mais para o lado, buscando ângulos mais favoráveis. Não demorou muito para Eduarda se sentir à vontade e apertar uma das coxas de Lorena, a mão invadindo a área interna da perna e puxando-a para si. Lorena soltou um suspiro de surpresa, percebendo-se com as pernas abertas após o movimento de Eduarda. Parou o beijo por alguns segundos, e baixou o olhar para a sua própria posição no banco de trás de um carro de aplicativo. Olhou pro banco da frente, onde a motorista dirigia o carro ignorando o que acontecia atrás, enquanto escutava algum louvor que tocava na rádio. Olhou de volta pra Eduarda, com a respiração ainda ofegante, e a boca entreaberta. Sorriu, maliciosa, e a puxou para continuar o beijo.
Eduarda entendeu. Era autorização. Não ia conseguir muita coisa no banco de trás, com as duas vestidas. E com uma terceira pessoa no carro, claro. Mas ia provocá-la. Deslizou a mão para o meio das pernas de Lorena. A calça jeans, naquele momento, era uma armadura. Evitava o contato direto. Em breve aquela calça ia estar jogada no chão da casa de Lorena, mas ali, naquele momento, a barreira não importava. Roçou a mão com força em Lorena. O suficiente pra provocar um gemido baixo, contido, sentido por entre os beijos, que não cessavam. Continuou com o movimento, subindo e descendo, esfregando a mão por fora da calça. Apesar do tecido grosso, Lorena já começava a se sentir estimulada, movimentando o quadril pra frente querendo mais contato.
Nem perceberam quando o carro parou. A motorista falou, com a voz alta e fria: - Já chegamos.
Lorena quase pulou no banco de trás, como se tivesse sido acordada de um transe. – Obrigadaboanoitetchau – Despediu-se da motorista, tentando sair do carro o mais rápido possível, abrindo a porta e segurando-a aberta enquanto esperava Eduarda deslizar pra fora do veículo.
- Obrigada, desculpa qualquer coisa, viu? Vou dar uma gorjeta boa. – Eduarda saiu, rindo da situação. Ao fechar a porta, a motorista arrancou, quase cantando pneu. As duas se olharam, rindo mais uma vez.
Passaram pela portaria – Lorena cumprimentou o porteiro educadamente – e entraram no elevador. Apesar de toda a intensidade até chegar ali, ficaram quietas na subida até o andar de Lorena. Eduarda entendera que ela não queria ser vista tão exposta no prédio que morava. Era justo. Ia esperar até entrar na casa.
O prédio, apesar de antigo, era de alto padrão. O cuidado da administração era notório. O elevador era pequeno, com capacidade máxima para seis pessoas, mas majestosamente acabado com madeira envernizada e adornos de metais dourados em torno do espelho. Típico de um prédio de alto padrão da década de 70. Subiram até o nono andar. Havia uma única porta, marcando 901. Alguns vasos com plantas enfeitavam o cubículo entre a porta do elevador e a porta da casa. Acima dos vasos, alguns bastidores redondos com bordados à mão livre. Um símbolo do sexo feminino adornado por flores. Três em sequência: Lar. Doce. Lar. E um maior, com duas mãos segurando uma agulha com linha. Estranhamente, era sensual. Na parede do outro lado, um quadro estreito, alto, que ia quase do chão ao teto, com padrões inexistentes de tinta espalhada pela tela. Nada que fizesse sentido, ou trouxesse beleza, aos olhos de Eduarda, que observou todos os detalhes enquanto Lorena desbloqueava a fechadura eletrônica digitando a senha.
Uma vez que a porta abriu, Eduarda não observou mais nada. Fechou a porta atrás de si e voou no pescoço de Lorena, prendendo-a contra a parede. Lorena arfou, soltando ar pela boca e não contendo mais os gemidos. Os beijos já haviam se intensificado desde o trajeto do bar até o apartamento, mas agora Lorena estava vocalizando. Não continha os gemidos e suspiros. E não de uma forma exagerada ou performática, mas de uma forma honesta e... sexy. Muito sexy.
Lorena segurava o rosto de Eduarda com as duas mãos, mantendo a profundidade e intensidade dos beijos. Eduarda pausou o beijo, buscando fôlego, e chupando a língua de Lorena, ganhou mais um gemido de brinde. Girando rápido o rosto, capturou o polegar direito de Lorena com sua boca, chupando o dedo enquanto a encarava, com um olhar intimidador, mas convidativo.
Eduarda mudou o foco para a roupa de Lorena, desabotoando lentamente a camisa branca com listras rosas que ela vestia, enquanto a encarava. Se deu conta que ela não usava sutiã, e com poucos botões abertos já podia ter acesso aos seus seios. Não resistindo, Eduarda capturou os dois seios, um em cada mão, levando a boca ao mamilo esquerdo. Não houve cerimônia. Chupou o mamilo com força, na intenção de provocar prazer e dor. Chupava a auréola ao mesmo tempo em que massageava a ponta sensível do mamilo, sugado para dentro de sua boca, com sua língua, quente, úmida e macia.
Lorena gemeu alto. Nunca estivera com tanto tesão. Não, Lorena não era virgem. Já tinha vivido a experiência de alguém chupando seu peito. Era uma sensação boa, sabia disso. Mas uma mulher fazendo isso, com aquela intensidade... E, especificamente, aquela mulher. Que, sim, era estupidamente linda. Lorena ia explodir. Já sentia calor por todo o corpo. Sentia seu sexo pulsando, úmido, quente, vivo. Excitado. Sabia que não ia demorar. Nunca tinha conseguido gozar transando com alguém. Só atingira o orgasmo sozinha, com sua mão ou usando algum de seus vibradores. Mas sabia que isso ia mudar. Seria capaz de gozar ali mesmo, naquele instante, se Eduarda colocasse a mão por dentro de sua calcinha. Um único toque e ela sabia que ia gozar ali, naquela sala... Meu Deus, a sala! Ela estava na sala! A Maggye! E se entrasse a Maggye com algum cara que ela encontrara no bar? E elas ali, na sala?
- Pa... Para, para. – Lorena segurou os ombros de Eduarda, que recuou imediatamente, confusa com o pedido. Dava pra ver o receio e a preocupação em seu olhar. – Aqui na sala não, vamos pro quarto. – Puxando-a pelo braço, conduziu Eduarda através da sala e pelo corredor, entrando na segunda porta à direita. Lorena não esperou. Fechou a porta assim que entrou e voltou-se pra Eduarda. Notando o desespero da anfitriã, Eduarda tratou de terminar de tirar sua camisa, ali mesmo, em pé, próxima à porta. Abraçou Lorena pela cintura agora exposta e chupou agora seu seio direito, provocando ainda mais gemidos.
Lorena não esperou. De novo. Estava desesperada. Nunca tinha chegado tão perto. Nunca tinha sentido tanto prazer com alguém. Queria mais. Tinha medo de que parasse, tinha medo de perder aquilo e não conseguir terminar. Desabotoou sua calça, enquanto chutava pra fora de seus pés seu par de Adidas Samba, com listras vermelhas. Eduarda entendeu a movimentação e a ajudou a remover a calça, aquela barreira de jeans que lhe atrapalhou no banco traseiro do Uber.
- Me come logo – Lorena gemeu. Não foi uma ordem, foi uma súplica. E Eduarda não costuma deixar uma gostosa safada esperando. Empurrou Lorena contra a porta. Deslizou a mão esquerda pela coxa de Lorena, puxando-a para cima, deixando o joelho dela junto ao seu quadril. Conseguiu a abertura que queria. – Me come, por favor, me come!
A mão direita de Eduarda invadiu a calcinha de Lorena. Não pela barra de cima, abaixo do umbigo, mas pela lateral, na virilha. O ângulo não era favorável. A mão ficou torta. Mas Eduarda achava que não ia demorar. Quando entrou em contato com o sexo de Lorena, teve certeza de que não ia demorar. Lorena estava babando. Muito. Moveu os dedos médio e anular como conseguiu, buscando o clitóris. Não foi difícil achar. O ângulo realmente não favorecia movimentos precisos, e provavelmente ficaria com o pulso dolorido se demorasse muito por ali. Mas não ia ser o caso. Massageou com os dedos, fazendo movimentos repetitivos e rápidos, o órgão de prazer de Lorena, inchado, pulsante, molhado.
- Isso, iiissooooo, me come, vaaaaaa-aaaaah... Eu vou-AAAAAAAAAAH!!!
O gozo veio intenso. O corpo de Lorena se contraiu, seu abdômen tensionando, fazendo-a se curvar levemente pra frente, buscando equilíbrio ao apoiar suas mãos nos ombros de Eduarda. Após as ondas de prazer máximo, Lorena relaxou o corpo e apoiou sua cabeça na porta, com as mãos ainda nos ombros de Eduarda. Os olhos fechados, a boca semiaberta e a respiração ofegante. O peito descendo e subindo, diminuindo o ritmo. Alguns fios colados à testa suada.
Eduarda ficou satisfeita com aquela visão. Lorena podia ser boba, imatura e nova, como achava, mas era linda. Isso era inegável. Incontestável. Levou os dedos à boca, saboreando o gosto salgado. Quis mais. Tinha fome. Era hora do jantar. A entrada foi servida. Mas ainda faltava o prato principal.
- Segura firme. – Eduarda ordenou. Lorena abriu os olhos, confusa, ainda meio fora da realidade. – Segura firme, se segura em mim. – Eduarda ainda segurava uma perna de Lorena. Com a outra mão, puxou a outra, com firmeza. Lorena foi rápida e ajudou no movimento, segurando-se em Eduarda e firmando suas pernas ao redor da cintura dela. Eduarda deu alguns passos nessa posição, e sentou Lorena na borda da cama, centralizada no quarto. O colchão era alto, e ia favorecer o que Eduarda queria fazer ali. Com a mão esquerda, segurou com firmeza o pescoço de Lorena. Aproximou seu rosto ao dela. – Eu ainda não terminei. Você quer mais?
Lorena riu, alto e com malícia. – Quero!
- Então me pede. Vai.
- Eu quero mais! Me come mais!
Eduarda lambeu a boca de Lorena. E então chupou o lábio inferior de Lorena, que tentou lhe puxar para um beijo. Ela esquivou. Queria provocar, e Lorena percebeu. Entrou no jogo. Abriu as pernas, o máximo que pôde. Deslizou as mãos por suas coxas, tentando chamar a atenção de Eduarda para o local estratégico. Funcionou.
Eduarda se ajoelhou, lambendo as coxas de Lorena. Lambendo. Beijando. Chupando. Mordiscando. Era sua sequência favorita. Com as duas mãos, puxou as laterais da calcinha que Lorena ainda vestia. Terminou de despi-la ao remover essa última peça de roupa. Era paradoxal, já que Eduarda não havia tirado nem seus sapatos. Continuava completamente vestida, enquanto Lorena estava completamente exposta.
Eduarda estava acostumada com a situação. Sentia-se no controle, e essa era sua zona de conforto. Era assim que ela conseguia, também, se satisfazer. Com a mão esquerda, apertou um dos seios de Lorena, provocando um suspiro de dor e prazer. Com a mão direita, desabotoou sua própria calça e enfiou a mão por dentro de sua calcinha, abrindo espaço. Começou a se estimular, enquanto descia a outra mão pelas costas de Lorena até seu quadril. Segurou-o com firmeza. E então se serviu. Enterrou a boca nos lábios de Lorena. Aqueles lábios que ficam entre as pernas. Lambeu esses lábios, provocando, esperando a reação dela. E veio, na forma de um gemido, quase que felino. Chupou um dos lábios. E então penetrou a ponta da língua na cavidade de Lorena.
- Aaaai, me lambe, me lambe toda! – Lorena implorava, com a voz manhosa e o corpo amolecido.
Eduarda era uma mulher obediente. Movimentou a língua, provando todo o sexo de Lorena, saboreando seu sabor intenso, babando toda a sua boca naquela umidade extravasada. À medida que intensificava o beijo erótico, também intensificava o movimento com sua mão, masturbando-se enquanto jantava aquela mulher que conhecera há pouco mais de uma hora.
Lorena gemia alto e rebolava, segurando a cabeça de Eduarda contra seu ventre. Eduarda começava a ficar ofegante, também se enchendo de prazer. Gemia enquanto chupava Lorena, a vibração da garganta trazendo mais estímulo.
A segunda onda de orgasmos de Lorena demorou um pouco mais, porém veio tão intensa e sonora quanto a primeira. Eduarda repousou a cabeça na perna de Lorena, mordendo a parte interna de sua coxa enquanto massageava seu próprio clitóris, com força, rapidez e precisão. Seu gozo veio pouco depois que o dela, mais contido, mais silencioso. Ainda assim, prazeroso e relaxante. Para Lorena, a vista foi inesquecível. Ela sentada na cama, as pernas ainda abertas, e aquela mulher ruiva entre elas, com o rosto se contorcendo de prazer. No clímax, os olhos se fecharam, a testa se franziu, e a boca se abriu, vocalizando gemidos que ficaram quase contidos na garganta.
Ficaram assim por algum tempo, a respiração ofegante voltando lentamente ao ritmo normal. Eduarda já começava a calcular uma maneira de ir embora, enquanto Lorena ainda estava alheia à realidade, deliciando-se com a sensação provocada pela alta dose de ocitocina em seu corpo.
Lentamente, Eduarda ajeitou sua calça e se levantou. Lorena acompanhou o movimento, reparando no brilho úmido que ainda melecava todo o contorno da boca de Eduarda.
- Me dá um beijo -, pediu. Lorena ainda estava manhosa. Ainda estava sentada na cama, os braços para trás apoiando o corpo levemente inclinado. A postura era sedutora, convidativa. Lorena parecia uma daquelas esculturas de mármore expostas na Galeria de Uffizi. O corpo perfeito, pálido. Os seios eram pequenos, arredondados e pontudos. Levemente marcados pelos apertões de Eduarda. O abdômen liso, suavemente marcando os músculos a cada expiração. As pernas ainda abertas, revelando seu centro. Eduarda voltou sua atenção ao rosto. O rosto geométrico, mas suave. O nariz reto, perfeitamente esculpido. Os lábios, ainda vermelhos, naturalmente carnudos. E os olhos. Verdes. Inocentes, mas intimidantes. Era difícil desviar o olhar, mas era constrangedor continuar olhando. A beleza constrangia. Mas era viciante.
Eduarda se inclinou contra Lorena, beijando-lhe com delicadeza. Lorena saboreou aquele momento, sentia seu gosto naquela boca. Chupou os lábios e a língua. Lambeu o queixo. Extraiu todo seu sabor daquele rosto, daquela boca. E gemeu, de satisfação.
Após o beijo, Eduarda se afastou, e só então observou o ambiente. O piso era de madeira, brilhante, escuro, perfeitamente envernizado. O quarto era amplo, espaçoso, com a cama no centro. O espelho da cama em palha indiana contrastava com o tom da parede verde musgo. Ou verde lésbico. As outras três paredes com um tom leve, arenoso, pálido. Acima da cama, quadros pintados à mão e bordados de flores e plantas, de diferentes tamanhos, formando um mosaico bagunçado e perfeitamente alinhado, ao mesmo tempo. Todos os quadros com a mesma assinatura preta, no canto inferior direito. “Lorena F”. Por um momento, Eduarda percebeu que tinha esquecido o nome dela. A janela do quarto ficava do lado oposto à porta, escondida por cortinas pesadas num tom rosa, quase bege. Entre a janela e a cama, uma poltrona que parecia muito confortável, com uma manta jogada e um livro. “A Vegetariana”. Não havia estante ou prateleira com outros livros naquele quarto, e Eduarda julgou que Lorena não era muito da leitura ou dos estudos. Típico de uma rica mimada nos seus 20 e poucos anos. Entre a cama e a porta, havia uma penteadeira rústica, de madeira maciça e escura, e com o espelho oval. Uma leve bagunça jazia sobre a penteadeira. A parede oposta, em frente à cama, era tomada por um guarda-roupa embutido, antigo, num tom amadeirado, também escuro, que contornava uma porta, central. Certamente, a do banheiro.
- Posso usar seu banheiro? – Perguntou, apontando para a porta recém-descoberta.
Lorena assentiu. Acompanhara o olhar curioso de Eduarda enquanto ela examinava seu quarto. Quando a porta do banheiro se fechou atrás de Eduarda, Lorena subiu em pé na cama, dando saltinhos, numa comemoração silenciosa. Deixou-se cair, deitada de bruços, abraçando um dos travesseiros. Não parava de sorrir. Permanecia nua, exposta, mas não se sentia vulnerável. Pela primeira vez, sua nudez não lhe deixava insegura.
Quando Eduarda saiu do banheiro, se deparou com aquela cena. Lorena de costas, nua, um ângulo que ainda não tinha visto. Aproximou-se lentamente. Deslizou as pontas dos dedos da mão esquerda sobre o corpo de Lorena. Começou nas coxas, passando pelas nádegas, e subiu até os ombros. Sentiu a pele arrepiando sob seu toque. Finalizou com um carinho no rosto de Lorena, passando o polegar por sobre a covinha que se formava em sua bochecha enquanto sorria. Lorena sentiu cheiro de sabonete. Eduarda havia lavado o rastro de sexo.
- Eu preciso ir. – Eduarda sussurrou, de maneira doce, tentando amenizar o recado. Mas a mensagem mudou a expressão de Lorena, que parecia ter sido acordada de supetão de um transe. Sentou-se na cama, cruzando as pernas, endireitando a postura. Não sabia exatamente o que esperar depois do que acontecera, mas certamente não contava que ela iria embora tão rápido.
- Ah, tá bom. Tudo bem. Obrigada, por ter vindo, eu acho. Foi um prazer? – Não sabia exatamente o que dizer, como dizer.
- O prazer foi todo meu. – Eduarda respondeu, sorrindo. Caminhou até a porta do quarto. Virou-se pra Lorena, acenando um “tchauzinho”. Foi quando Lorena percebeu: como iria encontrar ela de novo? Não pegou seu número. Não sabia seu Instagram. Não sabia o que ela fazia, de quem era amiga, onde trabalhava. Será que ela trabalhava? Com o que? Ela morava em São Paulo? Ou estava só de passagem? Por que ela precisava ir embora? Será que ela já tinha alguém? Percebeu, então, que sequer lembrava seu nome.
- Como é mesmo seu nome?
Eduarda soltou uma gargalhada, curta. – Eduarda.
- Eduarda de...?
- Só Eduarda.
- Como eu vou te achar assim?
- A gente se esbarra por aí. Lorena F. – Piscou e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.
Apesar da frustração com aquela despedida, Lorena não conseguia deixar de sorrir. Rolou na cama, se envolvendo no seu edredom. Ficou sorrindo, boba, olhando vagamente pro teto.
Quando Eduarda abriu a porta do apartamento, já na saída, se assustou com a presença de alguém que acabara de sair do elevador. Uma outra mulher. Também linda. Cabelos e pele escura.
Maggye ficou estática vendo aquela ruiva abrindo a porta da sua casa. Nunca a tinha visto antes, e Lorena não costumava trazer gente pra casa. Nem amigas. Na verdade, Lorena não tinha muitas amigas em São Paulo. Ou nenhuma, além de Maggye. Automaticamente, pensou que alguma coisa aconteceu com Lorena, e talvez aquela ruiva desconhecida a tenha ajudado a voltar pra casa.
- Ela tá bem? – Foi a única coisa que Maggye conseguiu dizer em meio à confusão mental.
- A Lorena? Tá ótima. – Eduarda respondeu, sorrindo. Desviou rapidamente de Maggye, jogando o braço na porta do elevador pra aproveitar a viagem. – Com licença. Boa noite.
Maggye entrou apressada no apartamento, buscando sua amiga. Não estava na sala, nem na cozinha. Correu pro quarto. Abriu a porta sem bater. Viu a amiga na cama, enrolada no edredom, com cara de boba, os olhos fechados, e um grande sorriso na boca. A camisa desabotoada jogada num canto. A calça do outro lado. Os tênis largados. A calcinha embolada ao pé da cama. Se fosse qualquer outra pessoa, Maggye teria entendido completamente o que acontecera ali. Mas era Lorena. Era difícil entender a mensagem. Não era possível que... Será? Com aquela ruiva? Como? Quando? Como???
- Amiga? Meu Deus, o que rolou?
Lorena não tinha notado a presença de Maggye até ela falar. Olhou pra amiga e não conseguiu conter o riso. Gargalhou, descontroladamente. Maggye não se conteve, rindo também, completamente confusa, mas contagiada.
- Ai amiga... Eu transei! – Lorena respondeu, finalmente, em meio às risadas. – Eu transei e foi muito bom! Eu transei com uma mulher!
- Eu sabia, EU SABIA! EU TE FALEI! SAPATONA! – Maggye correu pra se sentar na ponta da cama. – Me conta, como foi isso? Você conheceu ela lá no bar?
- Sim, conheci ela no bar e logo depois ela tava me chupando, bem aí, onde você tá sentada.
- QUE NOJO LORENA, EU VOU TE MATAR! – Maggye se levantou num pulo. Puxou uma almofada da cama e arremessou na amiga. – Vai tomar um banho, vou te esperar na sala porque quero saber a fofoca inteira e esse quarto tá cheirando a sexo.
Depois do banho e de vestir um pijama, Lorena encontrou Maggye deitada no sofá, rolando pelo feed do Instagram.
- Vai me contando tudo. Com detalhes. – Maggye sentou-se, cruzando as pernas, e dando batidinhas no assento ao seu lado, convidando Lorena.
- Então, lembra lá no bar que eu falei que ia pegar bebida? – Lorena começou, sentando-se de frente pra amiga. Maggye assentiu, lembrando do momento. – Tava impossível, o balcão abarrotado de gente. Eu não tava conseguindo pedir. E aí do nada chegou uma ruiva, linda, se impondo assim sobre o balcão, mandando no bartender...
- Eu vi ela! Linda, ruiva, com presença!
- Viu? Lá no bar? Comigo?
- Não amiga, aqui! Quando eu cheguei, ela tava saindo. Fiquei perdida na hora, achei que tinha acontecido algo com você. Mas não importa, vai, continua!
- Tá, aí ela pagou meu drink e a gente foi conversar lá fora. Mas eu fiquei nervosa, comecei a falar demais e aí do nada ela simplesmente me beijou! E aí a gente não parou mais. A gente se beijou e beijou e beijou mais um pouco e aí eu chamei ela pra vir pra cá-
- VOCÊ CHAMOU ELA? PRA CÁ? Que mulher de atitude, que orgulho!
- CHAMEI! E ela topou, chamou o Uber. Aí a gente se beijou no Uber também, ao som da rádio gospel que a motorista tava escutando. E quando a gente chegou em casa, a gente continuou se beijando. Aqui na sala. Aí eu fiquei com medo, achando que tu ia chegar e aí gente foi se beijar no quarto. E lá ela me comeu. Duas vezes. E eu gozei não sei quantas vezes. Foi isso. E aí ela foi embora.
- Meu deus, eu tô... chocada. E orgulhosa, eu tô tão orgulhosa! – Maggye deu um abraço forte em Lorena. – Mas como assim ela foi embora, já? Que cachorra!
- A cachorra mais linda de toda a São Paulo. Mas foi exatamente isso, ela veio, me comeu, e foi embora. Cafajeste. – Lorena concluiu, rindo com malícia e desejo. – Agora eu te entendo, amiga. Transar é bom! Eu quero transar todo dia!
- Lô, só não vai se apaixonar por ela, hein. Ela saiu correndo, isso é red flag. Não presta. Deve fazer isso toda noite. Predadora.
Lorena suspirou, o sorrindo diminuindo no seu rosto. – Nem que eu quisesse, amiga. Eu não sei nada dela, só o primeiro nome. Eduarda. Não tenho o número, o Insta, não sei o que ela faz da vida, se temos conhecidos em comum... Não sei nem se ela mora aqui! – Lorena jogou a cabeça pra trás, apoiando-se no encosto do sofá. O olhar vago, pensativo.
- Não pira não, Lô. Agora que você descobriu do que gosta, eu tenho um mooooonte de amiga gostosa e solteira pra te apresentar. Você não vai nem lembrar da cor do cabelo dessa Eduarda.
***
Segunda, 23 de fevereiro de 2026.
Jardins. 07:58h.
Lorena acordara de supetão. Via a claridade do dia pelas brechas da cortina. O barulho de carros na rua indicava o avançar da hora. Olhou rapidamente o celular. 7:58h. Tinha exatamente dois minutos para estar dentro do escritório. Esquecera completamente de configurar o despertador. Perdera a hora no primeiro dia de trabalho.
Pulou da cama desesperadamente, tentando se arrumar o mais rápido que podia. O banho não chegou a durar três minutos. Prendeu o cabelo num rabo de cavalo alto, pra disfarçar a bagunça. Sorte que a roupa já estava separada, não precisava tomar decisões. Vestiu-se correndo. Arrumou a bolsa, jogando algumas maquiagens básicas dentro. Iria usá-las no caminho. 08:12h. Saiu de casa sem comer nada, não haveria tempo. Pelo menos morava perto da empresa. 10 minutos de carro. Enquanto esperava o elevador, chamou o Uber. Procurando motorista. Entrando no elevador, o sinal sumiu. Chegando ao térreo, esperou notificação de corrida aceita. Nada. Esperou mais. Pagou taxa para prioridade. Nada. Cancelou a solicitação. Pediu novamente. Esperou. Nada, ninguém aceitava. 08:21h. Abriu o GPS do celular, calculando o trajeto a pé. 28 minutos. Não hesitou nem por um segundo, e se pôs a caminhar com passos apressados.
***
Av. Faria Lima. 07:58h.
Eduarda já estava no andar da Diretoria. O Grupo ACE Financial Consulting ocupava quatro andares intermediários do Pátio Victor Malzoni. Às 8h, teria reunião com sua nova chefe. Cumprimentou Sandra, a recepcionista daquele andar. Eram poucas salas, mas amplas.
- Bom dia, Dra. Campos. A Dra. Dantas já está a sua espera. Vou anunciá-la.
Arminda Dantas. Uma perua que, incrivelmente, era muito boa no que fazia. Até sexta, era Head do comercial. Hoje, era Diretora de compliance. Ou, como a nova placa na sua porta descrevia, Chief Compliance Officer. CCO. Como o Linkedin amava essas siglas que começam com C e terminam com O. Eduarda revirou os olhos. O salário é bom. O trabalho é temporário. Repetiu para si mesma algumas vezes antes de entrar na sala.
- Bom dia, meu bem. Vai sentando aí. – Arminda não tirara os olhos do monitor. Digitava freneticamente. – Espera uns minutinhos, a mocinha que vai trabalhar com você já deve tá chegando. Preciso finalizar umas pendências de sexta, ainda.
Eduarda se sentou em uma das cadeiras que estavam em frente à imponente mesa de Arminda. Era tudo muito sofisticado, digno de uma sala de diretora de instituição financeira sediada na Faria Lima. A mocinha mencionada devia ser a tal da estagiária.
Os minutos foram passando e Eduarda começava a ficar inquieta. Estava perdendo um tempo precioso de produtividade ali, fazendo nada, esperando uma estagiária que nem sequer escolhera. Não fazia o menor sentido. Mas Arminda parecia não se importar, estava concentrada demais em suas demandas atrasadas.
Às 8:18h, Arminda parou, encarando Eduarda.
- Meu bem, eu tenho reunião em dois minutos. Você vai receber a estagiária. Eu sei, é só uma estagiária, mas a indicação é forte. É filha de um cliente importante. Eu deveria recebê-la, mas ela não chegou na hora. Paciência. Você faz isso por mim. Nessa primeira semana, vamos arrumar a casa. Vai mostrando o que a nossa diretoria vai fazer. Primeiro, os documentos internos. Aqueles que você fez. Precisa de uma revisão, pra aprovar em conselho. Só formalidade, já tá tudo encaminhado. Mas precisa ficar bonito. Depois, apresentação pra empresa. E treinamento. Você vai organizar tudo isso. Até quarta. A mocinha te ajuda... Espero que ela não seja tão burrinha.
Sem cerimônia, sem despedidas, Arminda apenas saiu da sala. Não esperou resposta de Eduarda. Vomitou ordens e saiu. Eduarda suspirou e se levantou. Caminhou pelo corredor até a extremidade esquerda, onde estaria sua sala. Era meio escondida, mas ainda assim era no andar da Diretoria. Era grande coisa.
A sala foi aprontada pela equipe de limpeza, decoração e TI durante o final de semana. Até sexta, quatro assessores da Diretoria Jurídica trabalhavam ali – incluindo ela. Três foram transferidos pro andar de baixo. E ela foi promovida. Estava curiosa pra saber como uma sala que abarcava quatro funcionários, com espaço, iria ficar unicamente para ela. Gostava da ideia de ter privacidade na hora de trabalhar, ainda que gostasse de seus antigos colegas de sala. Mas, quando abriu, percebeu que não iria trabalhar sozinha.
A sala, onde antes havia quatro gabinetes, agora contava com duas mesas. Uma um pouco mais imponente, central, e outra mais escondida e modesta, na lateral da sala. Percebera que teria que dividir a sala com a tal estagiária, nepobaby, atrasada em seu primeiro dia. Inferno.
Enquanto ligava seu computador, ouviu três batidas na porta, que logo se abriu. Era Carol, sua colega mais próxima. Também bacharel em Direito, Carol era assessora da Diretoria Comercial. Trabalhava antes com Arminda.
- Como vai minha cenourinha head de compliance? – Carol entrou sorrindo, dando ênfase no nome do novo cargo de Eduarda, ironizando os termos em inglês.
- Sua sacana. – Eduarda respondeu, também sorrindo. Carol entrara na empresa junto com Eduarda. Começaram no mesmo dia, ainda que em setores diferentes. O ambiente na empresa normalmente é bastante competitivo, mas as duas sempre se ajudavam e se apoiavam. Eram o porto seguro uma da outra.
Carol se aproximou, gesticulando com as mãos para Eduarda se levantar e então lhe deu um abraço. – Eu tô muito orgulhosa de você, sério. Eu sei da sua dedicação. Você merece demais. Fico genuinamente feliz.
Eduarda sorriu, começando a ficar emotiva. Abraçou a amiga novamente. – Para com isso, se não eu choro. Mas obrigada. Continuar aqui não é meu objetivo de vida, mas é realmente muito bom essa sensação de que alguém tá vendo seu trabalho e dando valor, sabe?
- Falando nisso, como foi a prova ontem?
Eduarda deu de ombros. – Acho que não vai dar bom. Minha peça ficou fraca.
- E você tá tranquila assim?
- Ah... Na hora fiquei bem frustrada, sim. Mas já me tranquilizou, vou continuar estudando enquanto não sai a nota. Outros editais virão. Sem contar que depois da prova eu consegui dar uma relaxada. Com uma mulher bem bonita e bem cheirosa.
Carol arregalou os olhos e abriu a boca, em completo choque. – QUE??? COMO ASSIM? COM QUEM????
Eduarda riu. Gostava da sensação de causar surpresa. Antes da ideia de fazer concurso, era bastante aventureira. Tinha boas histórias, sempre. Mas atualmente, não havia espaço pra isso em sua rotina. Ficou feliz em finalmente ter uma fofoca sua, não apenas ouvir as dos outros. – Pois é. Depois da prova fui pra um samba com o Paulinho. Conheci uma princesa lá. E aí rolou.
- Mas como assim, conta mais. Quem é ela? Será que eu conheço? Deixa eu stalkear. – Carol se empolgou, tirando o celular do bolso.
- É, então... Não peguei Instagram, número, nada.
- Comeu e fugiu?
- Meio que sim...
- Não foi assim que eu te ensinei, Eduarda. – Carol a repreendeu, deixando a conversa com um tom mais sério.
- Eu sei, eu sei. Mas pensa, não ia ter como acontecer algo além daquilo. Você sabe que eu não tenho tempo, e eu não quero distrações.
- Não precisava casar com ela, poderia ser só um pouco mais respeitosa, né, amiga? Mas enfim. Ao menos o nome dela você sabe?
- Lorena. F.
- F? Tá falando em código agora? Virou streamer de joguinho?
- Tinha uns quadros no quarto dela assinados assim. Lorena F.
Carol riu por um segundo. – Lorena Fragoso. Não é que combina?
- Olha, eu te odeio, sabia? Você é o cão. De qualquer forma ela é novinha, mimada, filha de rico com tudo na mão. Não tinha como dar em nada.
- Aí Eduarda Campos Fragoso, pra cima de mim? Filha de rico com tudo na mão? Deixa de hipocrisia né, você paga suas contas hoje mas ainda mora sem pagar aluguel no apartamento chiquérrimo que ganhou do seu pai.
- Nossa, precisava desse tapa gratuito? Veio aqui só pra me humilhar? Enfim, vamos mudar o assunto.
Carol sempre foi muito sincera com Eduarda. E era bom, lhe trazia de volta pra realidade muitas vezes. Tipo agora.
As duas começaram a conversar sobre trabalho. Eduarda compartilhou um plano de trabalho que ela traçou pro início do novo cargo. Mostrou mais ou menos o que queria fazer nos primeiros meses. Pediu a ajuda de Carol para quando fosse trabalhar no Manual de Colaboradores, pois precisaria da equipe de comercial.
O relógio de Carol apitou quando marcou 9h. Eduarda reclamou, então, sobre o atraso da funcionária nova. – Você acredita que vai vir uma estagiária nova pra cá e ela já tá com 1h de atraso? No primeiro dia?
- Nossa, que horror. É melhor nem chegar. Se for assim, não vai durar aqui, com tanta gente cricri com horário.
- O pior é que dura. Arminda falou que ela é filha de algum clientão. Vai poder fazer o que quiser aqui. E mais, eu que vou ser a supervisora. Teoricamente ela viria pra me ajudar, mas já imagino que vai é me atrapalhar.
- Olha, agora fiquei curiosa. De quem será que ela é filha? Já sei, dá pra checar. - Carol invadiu o espaço de Eduarda, tomando conta da sua cadeira e do seu computador. Sem questionar, Eduarda apenas se aproximou da amiga, observando o que ela fazia. – O pessoal do TI já deve ter cadastrado ela no sistema, com e-mail e tudo. Eu tenho acesso a essa página, e a gente consegue ver os últimos e-mails criados. Basta procurar algum com um sobrenome conhecido.
Carol começou a analisar a lista de e-mails. Sabia que reconheceria um sobrenome importante se visse algum. Afinal, sendo do setor comercial, lidava diariamente com os colaboradores e sabia exatamente quais eram os mais influentes. – AQUI, achei. Só pode ser ela. [email protected]. É amiga, sua estagiária é somente filha do maior colaborador dessa empresa. Quem vai mandar em você é ela, e não o contrário...
Eduarda congelou. Não era possível. Seria muita coincidência. Lorena F. Ela disse que ia começar um estágio hoje. Não, não pode ser. Não no mesmo setor. Na mesma sala. Subordinada. Quebrava todo o Código de Conduta. As regras que ela mesmo escrevera.
- Carol... O Ferette é aquele gigante da indústria farmacêutica, não é? Que é... Carioca?
- Sim, esse mesmo. Mas o que tem ele ser do Rio?
Eduarda engoliu em seco. Ainda com o olhar vidrado na tela, lendo aquele endereço de e-mail. – A Lorena F. De ontem. A filha de pai rico. Ela falou que ia começar um estágio novo hoje. E ela é do Rio.
Não houve tempo pra reação. Dois toques leves na porta e a maçaneta girou. Sandra abriu. Atrás dela, a nova estagiária.
***
08:49h.
Lorena entrou no edifício com a respiração ofegante, o rosto corado e os cabelos levemente desalinhados pelo vento. Correu para o balcão da recepção. Os sapatos Oxford fazendo um eco suave no grande salão de entrada, com piso de mármore.
- Oi, bom dia. – Dirigiu-se a uma das recepcionistas. A que estava mais próxima. Era uma mulher séria, por volta dos 50 anos. Em seu terninho preto, uma plaquinha de identificação: Carmem. – Eu começo hoje a trabalhar na ACE, acho que é no 16º andar. Meu nome é Lorena Fere-
- A senhora já tem cadastro? – A recepcionista interrompeu, fria, inexpressiva. Ignorava a clara urgência na voz e na expressão de Lorena.
- Hm, acho que não. É a primeira vez que venho aqui, mas será que eu posso fazer isso na saída? Eu já tô tão atrasada. Olha, Dona Carmem, eu vim correndo, literalmente, porque o Uber não aceitava-
- A senhora tem a carta de anuência da empresa? – Ela não prestava atenção no que Lorena falava.
- Carta de que? Não, não me deram nada. Eu achei que era só chegar, eu... Não sei.
- Para entrar como funcionária, precisa se cadastrar. Para o cadastro, precisa da carta de anuência da empresa. Sem carta, sem cadastro. Sem cadastro, sem entrada liberada.
- Eu não posso entrar como visitante, então? E aí eu peço a carta e trago pra vocês na saída. Só, por favor, deixa eu subir... Eu tô muito atrasada.
Carmem já se preparava para negar o pedido de Lorena, quando a recepcionista que sentava ao seu lado, vendo a cena, resolveu intervir.
- Vem aqui, querida. Me fala seu nome. As vezes a ACE cadastra os funcionários novos diretamente com a gente, sem precisar de carta.
Aliviada com a ajuda, Lorena se dirigiu à moça que tentava ajudar. – Aí, muito obrigada. Meu nome é Lorena. Ferette. Só isso.
Ao falar “Ferette”, Lorena sentiu os olhares das demais recepcionistas virando para si. Incluindo Carmem. De fato, às vezes dizer esse nome provocava essa reação. Não tinha muita escolha, foi o único sobrenome que seus pais lhe deram. Não herdara sobrenome da mãe. Apenas o Ferette, de seu pai.
- Senhorita Ferette, nos desculpe pelo mal entendido. É claro que já temos seu cadastro. Estávamos esperando ansiosamente a sua chegada. – A recepcionista mais nova falou, com um tom de nervosismo adicionado à sua voz. – Se não se importar, precisamos registrar sua biometria para liberar a catraca. Não será necessário passar aqui nas próximas vezes.
Lorena odiava a sensação de ver quando funcionários reagiam com medo ao seu nome ou à sua presença. Era comum no Rio, mas não esperava ver isso acontecendo ali.
- Ah, tá tudo bem, gente. Obrigada. – Olhou para a webcam apontada para seu rosto, esperando o registro e a autorização de sua entrada. – Obrigada mesmo. Tenham um bom dia. – Fez questão de sorrir e falar com um tom mais leve. Ajudava a tirar a pressão dos outros. Era normalmente sua estratégia nessas situações. Sorrir, ser educada, doce e grata. Virou-se em direção às catracas e, logo atrás, seguiu até os elevadores.
No 16º andar, parou um pouco com o olhar perdido. Viu a recepção, logo após sair do elevador.
- Oi, bom dia! Desculpa, eu me atrasei muito. Mas eu ia me encontrar com a Arminda às 8h.
Sandra sabia a agenda de todos ali. Sabia quando alguém era esperado, a que horas, e para qual sala seria direcionado. Abriu um sorriso cordial. – Seja muito bem-vinda, senhorita Ferette. Estamos muito contentes que você vai se juntar ao nosso time.
“Time”. Por dentro, Lorena se contorceu ao ouvir essa palavra. Aquele vocabulário corporativista lhe soava asqueroso.
- Infelizmente, a Dra. Dantas não poderá lhe receber no momento, pois está em outro compromisso. – Sandra continuou, mantendo a educação e formalidade. - Mas não se preocupe com o horário, São Paulo é uma cidade imprevisível. Nós somos flexíveis por aqui – mentiu. – A Dra. Campos irá lhe receber. Ela será sua supervisora, e vocês trabalharão diretamente com a Dra. Dantas. – Sandra levantou-se, apontando com o braço o caminho do corredor esquerdo para Lorena. – Vou levá-la à sala da Dra. Campos, onde vocês trabalharão juntas. Ela já está à sua espera.
As duas caminharam pelo corredor, em silêncio. Chegando à porta, Sandra bateu duas vezes, suavemente, então girou a maçaneta, revelando o interior de uma sala ampla, ocupada por duas mulheres debruçadas sobre uma mesa centralizada e que fitavam, com ar de surpresa, um monitor.
Foi então que Lorena percebeu. Reconheceu. Primeiro, pelo cabelo ruivo. Depois, a confirmação, quando ela subiu o olhar do monitor para a porta, encarando Lorena. Os olhos arregalaram-se, a boca ficando entreaberta. Era ela. Era Eduarda.
