Work Text:
MAR
Olhos nos olhos. Estávamos deitados no chão, cabeças escoradas nas mãos e entre nós a comutação de calores. Apenas um lençol branco cobria os nossos sexos muito pobremente... Queríamos isso assim na verdade.
Um palmo fechado de distância. Fazendo provocações com sorriso e olhares sacanas, que vez ou outra se tornavam afáveis como palavras românticas numa madrugada de domingo.
Nossas conversas sempre envolviam olhares. E que olhares...! Inebriados, que despiam a alma mais do que estavam os nossos corpos. Era aniversário dele, e os parabéns vieram marcados na carne como um presente especial de duração ilimitada.
Aquilo era apenas um descanso dentre outros tantos naquele dia.
-Você sabia que... –Um tom doce e baixo saiu daquela boca farta. Mais vermelha que o normal graças a mim. –Existe um filme onde um casal transa até morrer?
-Isso é uma proposta? –Eu prendi um sorriso.
-Jamais. Seria perder muito tempo que ainda tempos de vida atrás de uma gozada mortal.
-Então você não quer literalmente morrer de prazer?
-Já morremos de prazer umas tantas vezes hoje. –Ele mordeu o lábio olhando para a minha boca.
-Não faz isso... –Esfreguei a mão no meu rosto deliciosamente atordoado com a visão.
-Isso o quê? –Lançou-me mais um olhar tentador.
-Me provocando... –Eu certamente ruborizei.
-Eu não posso te provocar?
-Pode, mas... –Movi a cabeça e olhei para o piso brilhante de madeira.
-Mas? –Seus dedos levantaram meu queixo. Parecia ansioso pela resposta.
-Eu fico tentado, você sabe... –Ele prendeu o sorriso em um biquinho por um breve instante.
-E você acha que eu faço isso só pra gastar a minha beleza? Claro que é pra te tentar.
-Uh, galã de novela! –Tentei brincar para não ter que entregar demais, mas naquele dia ele estava decidido a me encurralar.
-Eu gosto de te provocar. –Lançou manso. Volveu-se com certa seriedade ainda que com seu encanto característico. –É uma delícia te provocar.
Eu observei seu semblante envolvido e meu coração pareceu acelerar mais.
-Porque você gosta do que eu te dou. –Respondi com uma melancolia disfarçada.
-Não é só isso.
-Não? –Ergui as sobrancelhas.
-É lindo te desconsertar. –Ele mirou a minha boca mais uma vez.
-Não sei porquê me deixo levar por você... –Sorri meneando a cabeça, que depois deixei que repousasse no braço assim que o estiquei pelo chão.
-Então você não gosta do que eu te dou.
-O que você me dá?
-Você me responda. Você se conhece o bastante, ou não?
Eu esbocei um sorriso pequeno, pensando em mil e uma coisas para dizer naquele momento, mas era muito para uma conversa de fim de noite.
-Talvez eu não queira admitir...
-É perigoso? –Ele deslizou a ponta dos dedos pelo meu rosto.
-Muito. –Peguei sua mão e beijei-lhe a palma.
-Só comigo ou...?
-Só contigo.
-Você deveria ficar. –Seus dedos agora ajeitavam meus fios desalinhados na testa. –Pra sempre.
-Não posso. –Meu sorriso saiu triste, conformado.
-Pode, só não quer. Tem medo. –Ele também deitou a cabeça sobre o próprio braço.
-E o que sentiria se encontrasse alguém como você? –Puxei-lhe a perna para cima do meu quadril e aproximei meu rosto ao dele. Beleza estonteante.
-Segurança e paz. –Ele lançou com segurança serena. –Sou muito mais do que vê e do que sente entre lençóis.
-Sabe... Eu queria me embrenhar nesse mais. –De olhos abertos suspirei rente à boca dele.
-Deve.
Encostei meus lábios aos dele antes de fechar os olhos, e assim que o fizemos nos beijamos. Não eu, não ele. Nós. Tomando um ao outro sinergicamente, enroscando não somente línguas como também corpos. Senti mais de sua entrega ali e estava cada vez mais difícil de resistir a força que ele era.
Eu teimava em querer ir, mas sempre era puxado de volta para os braços dele; para os beijos, para o sexo... Eu tinha medo, era verdade, mas de repente quis deixar tudo pra viver aquilo, mesmo que desse errado em algum momento. A intensidade dele era o que eu precisava.
Ele era único, e mesmo que tudo ruísse eu o teria em mim como a mais bela lembrança.
Nosso beijo foi demorado, extra sensível, atiçador, que baixou todas as guardas que me sobraram –se é que havia sobrado alguma coisa. Eu estava desarmado, e não havia como impedi-lo de entrar mim, de me invadir como uma onda gigante que engole tudo o que vê tem pela frente. Ele era a natureza selvagem e eu estava pronto para me entregar: ser dele, fazer parte dele.
Callistus.
Nós nos separamos aos poucos, deixando o êxtase correr um pouco mais.
Finalmente falei algo baixinho:
-Preciso pôr as coisas em ordem primeiro...
-Deixe tudo e fique aqui. Você não precisa colocar mais nada em ordem... Apenas a minha vida.
-O que quer dizer com isso? –Indaguei atento.
Ele me deu um par de beijinhos lentos e respondeu com aqueles olhos coloridos:
-Eu te amo.
Eu sorri enormemente e nem ao menos podia acreditar no que havia saído da boca dele. Tentei parecer inabalável, mas a animação nas minhas palavras me entregou.
-Finalmente as palavras mágicas.
-Eu só disse porque você disse primeiro. –Comentou afetuoso.
-Acho que meus olhares falaram mais. –Observei-lhe os bagunçados cabelos negros e depois voltei para suas hipnotizantes íris.
-Os meus também falaram. Só o seu medo que não te deixou ver. –Beijou-me a ponta do nariz.
Fiquei tímido com o gesto, mas prontamente tratei de dizer algo:
-Mas para deixar bem claro, eu também te amo. –Minha vaidade fajuta o fez rir baixinho.
-Que maravilhoso garoto você é... –Deu-me novamente um beijo, mas rápido e estalado.
-Óbvio que sou maravilhoso. Qual garoto de programa deixa de cobrar um dia inteiro de sexo?
-Um garoto de programa mais do que apaixonado.
-Eu sou tão previsível. –Rolei os olhos.
Ambos rimos daquela cena, daquele diálogo, sendo pura e simplesmente sinceros.
Nós.
♦♦♦
-Onde estamos?
-Em algum lugar no futuro... No mar de imaginação de alguém.
