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Fandom:
Relationships:
Characters:
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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-02-28
Words:
1,951
Chapters:
1/1
Kudos:
2
Hits:
58

Prerrogativa Zero

Summary:

Quando John Lennon -um guarda-costas especial- resolve tirar satisfações com o seu chefe Paul McCartney, as relações de poder se confundem.

Work Text:

EM TEMPOS DE CRISE

 

No meio de uma chamada Paul McCartney, dono da prestigiada imobiliária Hammer, ouviu três batidas na porta de sua sala, no topo do edifício Ludwing, no coração da grande Londres. Uma cabeleira loira surgiu tímida de lá, era sua secretária. Ele sinalizou para que ela entrasse.

-Um momento, senhora Rigby. –Tirou o telefone da orelha e tapou o microfone com a palma da mão. –Diga, Mary Ann.

-Desculpe-me incomodá-lo, senhor, mas o senhor Lennon quer vê-lo. Diz que é urgente.

-Nada com o senhor Lennon agora é urgente, Mary Ann. Peça-o para esperar, estou terminando uma chamada importante.

-Sim, como desejar, senhor. –Balançou a cabeça e bateu em retirada.

-Bem, como eu estava dizendo, senhora Rigby, isso será o melhor que posso lhe oferecer pelo edifício e estou certíssimo de que ninguém nesta cidade lhe dirá o contrário; veja...

Uns bons minutos se passaram naquela conversa estafante sobre a venda de um grande edifício comercial nas proximidades de Penny Lane –em Liverpool–, um local muitíssimo bem situado para os intentos da respectiva senhora, e que estava havendo impasses quanto a combinação de valores. Negócios...

Nem ao menos levava em consideração o seu segurança que estava à espera do seu chamado no lado de fora da sala, preocupado e apreensivo pela resposta que ele prometera há três dias, e que teimava em se esquivar –dando desculpas esfarrapadas. Estava sem paciência alguma depois de tanto tempo.

John Lennon seu nome. Chofer e guarda-costas de McCartney há pelo menos cinco anos; era alto, tinha cabelo comprido –ruivo dos fios cor de cobre– e íris âmbar; a pele branca destacava sempre o rosado de suas bochechas e de seus lábios finos. Estava bem vestido –como sempre, como ele desejava sempre encontrá-lo– elegante, com seu alinhado terno e sapatos pretos bem lustrados, mas exibindo uma feição de poucos amigos.

Respirou fundo, retirou os óculos escuros que repousavam sobre seu nariz aquilino e o guardou no bolso de dentro do terno. Levantou-se da poltrona de onde estava com espantosa rapidez, e a passos largos invadiu sem cerimônias a portentosa sala do dono de tudo aquilo. A secretária que tomava conta de inúmeras pastas foi pega de surpresa e saiu aos tombos atrás dele logo em seguida, segurando canetas e também os documentos que organizava.

-Parece que nem a dignidade de uma ligação eu mereço! –Bradou ao empurrar uma das portas, indo parar bem no meio da sala.

McCartney chegou a pular da cadeira onde estava, mas ainda assim conseguiu dizer algo para a senhora do outro lado da linha antes de pôr o telefone no gancho:

-Senhora Rigby, eu preciso resolver um pequeno problema, mas em alguns minutos eu retorno a ligação, tudo bem? Até mais...

A pobre secretária tomou a frente com seu semblante preocupadíssimo:

-Perdão, senhor, mas ele praticamente correu e...

-Mas o que diabos está fazendo esburacando a sala dessa maneira? –Dirigiu-se ao segurança, ignorando a fala da moça.

-Não sou homem de esperas ou deixa-pra-depois, McCartney. –Pôs as mãos nos quadris.

-Senhor McCartney. –Tratou de retificá-lo com certa aspereza. Olhou-o seriamente e depois para a sua secretária.

-Há!... –Lennon balançou a cabeça ao sorrir incrédulo. –Nas vezes que te chamo de vagabunda enquanto te como na parede você não me corrige. Interessante isso agora.

A moça que escutava a tudo havia deixado o próprio queixo cair por um instante. Prontamente mirou o seu chefe que ficara embasbacado com tal revelação feita ali.

-Mary Ann, por favor... –Uma pausa e ele engoliu seco. –Pode se retirar? –Suas narinas dilataram ao passo que o rosto corava em raiva e vergonha.

-S-Sim, senhor. –Deu meia volta e saiu da sala em dois passos, fechando a porta atrás de si.

-Quer me explicar que MERDA É ESSA? –Saiu de trás da mesa e ficou próximo do par de cadeiras do outro lado.

-Você que me deve explicações, seu filho da puta!

-Que explicações, Lennon?!

-Eu te fiz uma pergunta há três dias e não tive resposta! E desde então você vive fugindo, se esquivando...

-Escuta aqui: eu não tenho todo tempo do mundo, ok? –Apontou o indicador para ele. –É bom que entenda isso!

-Não tem todo o tempo do mundo? –A curtas passadas disparou de encontro a McCartney. E antes de se aproximar mais, o empurrou contra à mesa, agarrando-o pela lapela. –Não tem todo o tempo do mundo?! Mas pra jogar golfe com aquelas mariconas você tem muito tempo, né? –Era visível que carregava não somente raiva como também tristeza em seu olhar.

-Negócios, John. –Engoliu seco ao reparar que estava quase se sentando sobre a mesa. –Agora, se puder fazer o favor de me soltar... –Mirou para o terno acinzentado que usava. –Isso é um Armani...

-Dane-se você e seu Armani! –Bradou em dor. Da ira ao desalento; Lennon parecia ter percebido que havia perdido a última pessoa com a qual ele achava que se importava com seus sentimentos. –Acabou aqui, ouviu? –Sacudiu o moreno. –Acabou respeito, acabou consideração ou qualquer coisa que você achou que fosse isso entre a gente.

Devido ao tom usado e a mágoa igualmente sentida em sua voz, McCartney percebeu que não era um momento para desafios. Aquela conversa não era birra, muito menos uma discussãozinha boba; ele não estava se sentindo bem, e nunca se quer chegou a vê-lo tão ressentido. Até sua própria entonação mudara frente ao fato.

-Teve? –Indagou fraco. Os olhos castanho-esverdeados de McCartney observaram aquele semblante com comoção.

-Sim, teve. Não vai mais rolar; isso foi demais. –Seus olhos âmbar marejaram. –Não sou seu cachorrinho. –Finalmente largou-lhe a lapela, mas ainda muito próximo a ele.

-Não, você não é... –Certamente o temor de perdê-lo o havia deixado em inexplicável preocupação. Quis tocar-lhe a face ressentida, mas ficou receoso de acabar complicando ainda mais as coisas.

-Eu só vou olhar pra você mais uma vez. –Disse Lennon segurando-lhe o rosto harmônico, composto de tão bem desenhada boca vermelha, nariz fino e levemente arrebitado, maxilar que mais parecia ter sido esculpido pelo próprio Michelangelo, e pálpebras caídas que contornavam seus lindos olhos em volumosos cílios que sempre acabavam por deixá-lo muito vulnerável em qualquer distância que fosse. –Uma última vez.

-Isso não acabou... –Tentou alcançar-lhe a boca, mas ele havia se esquivado. –Não, não... –Tentou novamente. –Você não vai embora. –Agarrou-lhe os punhos das mangas do terno. Não vai... –Seus olhos estavam prestes a marejar, a dor também era vista. –Por favor... –Sua voz falhou ao suplicar. Seu corpo fraquejou junto com o dele e pôde assim tocar a ponta de seus narizes; um gesto singelo que só acontecia no final de seus espetáculos.

-Por quê? –Lennon estranhou a súplica ao pensar que ele era indiferente a tudo o que sentia.

-Eu preciso de você. –Respondeu com inédita sinceridade, mas o segurança havia entendido errado.

-Há muitos seguranças por aí pra você contratar... –Suas mãos esguias deslizaram sobre o peito de McCartney.

-Eu não falo disso. –Fitou-lhe fixamente.

 -Se precisasse tanto assim de mim teria me dado a resposta há três dias.

-Isso não é fácil. –Fez uma pausa inquieta. –Minha família, você sabe... –Suspirou ao fechar os olhos por um instante; era um tema que causava cansaço.

-Então você precisa deles, não de mim.

 -Como eu vou viver sem você? –Segurou-lhe pelo terno fechado, mantendo-o entre suas pernas.

-Como sempre viveu antes de mim.

-Quem eu era? Um jovem prepotente, um merda que por onde passava deixava o rastro de confusão...

-Não que tenha mudado muita coisa, mas... –Interrompeu fazendo uma graça.

-Cala a boca. –Tentou não rir, mas suspirou tristonho. –Eu não iria conseguir viver sem você. E eu não quero acreditar que você conseguiria viver sem mim.

-Eu tentaria. Não seria fácil. –Afagou-lhe uma das bochechas.

-E em pouco tempo você se esqueceria de mim, de tudo... –Abaixou a cabeça.

-Nunca que eu me esqueceria de você. –Seu indicador prontamente trouxe aquele olhar multicor de volta para os seus ao elevar-lhe o queixo.

-Então viveria sempre com as memórias?

-Mais até do que eu gostaria de admitir. –Ao aproximar seu rosto do dele, deixou que os lábios se tocassem tímidos, como da primeira vez que o havia beijado na Baía de Liverpool depois de uma festa de aniversário.

Seu interior estava definitivamente abalado. Ao pensar em ir, também queria ficar, porém, o respectivo gesto aclararia um pouco mais o rumo das coisas.

Aquele beijo era o recomeço, e era muito simbólico para ser qualquer coisa diferente disso. Assim, partindo do carinho e do frio da barriga que também permearam a primeira vez na baía, se envolveram e se entregaram mais aos próprios encantos e desejos.

Era belíssimo sentir suspiros quentes entre lábios atracados e murmúrios excitantes que acabavam inevitavelmente a outros lugares. McCartney completamente entregue à própria vontade afastou de trás de si os objetos que estavam na mesa e sentou-se sobre ela em um pulso, voltando imediatamente a beijar o seu segurança, mas dessa vez com um ardor fenomenal.

Lennon mais do que seduzido, abraçou-lhe a cintura e depois lhe agarrou a nuca por baixo da cabeleira negra; viu-se perdido com tamanha entrega. Ele era assim, um dominador de sentidos. Era impossível lutar contra o que ele era principalmente quando estava envolto entre os seus braços, e a única batalha ali era de quem buscaria fôlego primeiro.

Mas antes disso McCartney lançara uma ordem:

-Você não vai sair por aquela porta enquanto não disser que vai ficar comigo.

-Ah é? –Mordiscou-lhe o lábio suculento. –E quem tá mandando? –Olharam-se inebriados e tentados.

-O seu chefe... –Trincou os dentes ao agarrar-lhe os fios ruivos, trazendo-o para outro beijo.

Lennon quase subiu em cima da mesa junto com ele, mas quis pôr um fim na indecisão que ainda não havia sido resolvida depois de três longos dias.

-Meu chefe não respondeu à minha pergunta. –Sua boca escorregou pelo largo pescoço de McCartney. –Então eu não tenho que dizer nada.

-Talvez eu não tenha escutado direito... –Revirou os olhos ao sentir sua pele ser devorada ainda mais do que a própria boca. Suas palavras saíram quase num gemido.

-Então eu vou perguntar de novo. –Tornou a fitá-lo muito próximo.

-Pergunta... –O semblante embevecido acompanhou uma arfada exasperada seguida de um molhar de lábios.

Lennon sorriu convencido e lançou:

-Quer casar comigo?

McCartney olhou para aquele conhecido rosto por alguns segundos mais, concentrado, em silêncio, e depois tateou a mesa em busca do aparelho telefônico que havia afastado de perto de si devido ao recente frisson. E uma vez de posse dele, teclou um número.

O segurança não podia acreditar que ele estava novamente fugindo da resposta.

-Mary Ann... –Ajustou o autofalante na orelha, olhando para o conjunto de números. –Preciso da sua ajuda...

-Sim, senhor. No que posso ajudá-lo?

-Preciso que me agende um horário com a senhorita Melinda.

-A cerimonialista de casamentos?

-Sim... –Teclou um outro botão, deixando o viva-voz ligado.

-Quem irá se casar, senhor? -E neste momento McCartney olhou realizado para Lennon.

-Eu, Mary Ann. –A moça sorriu do outro lado. Ao mesmo tempo também recebeu à sua frente um encantador sorriso, dando-lhe por fim a resposta em grande estilo.

-Mais alguma coisa, senhor?

-Sim. Desmarque todas as minhas reuniões de hoje. Não quero interrupções pelas próximas duas horas.

-O que eu digo ao senhor Hilton e a senhora Frances, senhor?

-Diga que eu vou me casar, mas que... –Beijou o queixo de Lennon, depois tocando-lhe os lábios com a ponta dos dedos. –A lua de mel será mais cedo.

A jovem conteve um risinho e depois ouviu o telefone ser posto no gancho novamente, encerrando a comunicação.

Com ar renovado ela tratou de adiantar tudo ao pensar simplesmente que o amor sempre prevalece em tempos de crise.