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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-02-28
Words:
1,336
Chapters:
1/1
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1
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1
Hits:
23

Paralelo

Summary:

Em uma madrugada tranquila John Lennon vê sua vida sair de órbita ao tentar encontrar o rapaz que apareceu para ele em um sonho.

Work Text:

A BUSCA

 

John Lennon abriu os olhos num sobressalto.

Quatro da manhã e suas íris cor de âmbar passearam pelo quarto pouco iluminado graças a um minúsculo abajur ao lado de sua cama. Um sonho o havia despertado.

Na verdade, a presença de alguém nele.

Sentou-se na beira da cama e olhou para os lados buscando explicações que o fizessem recordar de onde conhecia o rapaz que protagonizou sua mais recente fantasia no sono. Não fazia ideia se o conhecia do trabalho –um cliente aleatório da farmácia talvez–, ou até mesmo uma das centenas de pessoas com as quais cruzou no último fim de semana na festa de rua da cidade vizinha.

Quem é você? Ele se perguntou, fazendo de tudo para que o cérebro não lhe falhasse.

Mas eram quatro horas da manhã, ele não iria funcionar. E se eu voltasse a dormir? Cogitou. Ao se deitar novamente logo sentiu que aquilo não daria certo. Estava ansioso demais pensando em todos os lugares, em todas as situações, querendo que a resposta aparecesse.

Vamos, pense Lennon! Tornou a refletir. E ao mesmo tempo em que se esforçava buscar a solução, também pensava no quão diferente o jovem era.

Ninguém poderia julgá-lo. O rapaz dos seus sonhos possuía divina beleza, dessas que não havia possibilidade alguma de ser esquecida. Inédita, irreplicável, de fato digna de sonhos. Lennon tinha toda sua descrição bem em frente aos seus olhos: ele possuía cabelos curtos, negros, que mal penteados para frente exibiam curvas abertas em suas pontas; nariz relativamente fino, em ângulo perfeito, revelava uma reta impecável; sua boca pequena era convidativa: de contornos singelos, rosada, sutilmente carnuda; a linha do maxilar era definida e exibia na frente um queixo saliente ornando graciosidade.

O espetáculo estava em seus olhos. Eram grandes, de pálpebras descaídas, de íris estonteantes e multicores, que dançavam entre o completo verde e o mais vivo castanho numa viagem caleidoscópica. Tudo isso adornado por um par de finas sobrancelhas.

Seu corpo era um espetáculo à parte. Ostentava boa forma com nada fora de lugar. O conjunto tão harmônico que chegou a cogitar se ele não era um anjo tentando enviar alguma mensagem. No momento torceu para que não fosse isso, porque já incorria em pecado ao pensar em beijá-lo exaltadamente. Vestia uma calça branca com cinto preto, uma camiseta cinza de mangas curtas e nos pés um tênis simples.

Viu-o assim, por inteiro, em um lugar indefinido: um fundo brilhante.

Quem é você? Repetia incessantemente.

Repetiu inúmeras vezes desde a hora de levantar para trabalhar até a hora de dormir no dia seguinte.

Saiu perguntando a todos que conhecia quem seria o rapaz com as características que havia dado. Ligou para os amigos, escreveu cartas, pesquisou em revistas, jornais e até mesmo os álbuns de família. Nada.

Quanto mais perguntava, menos tinha em mãos.

Dormia rezando para sonhar, acordava querendo dormir. E viver nesse ciclo até que finalmente sonhasse e perguntasse a ele onde poderia encontrá-lo. Em qualquer fim do mundo iria, não haveria obstáculos e muito menos interferência divina que o impedisse.

Decidiu desenhar aquela figura.

Com alguma habilidade ele esboçou seu primeiro desenho. Nada comparado à perfeição dele, mas serviria para possivelmente orientar as pessoas. Imediatamente tratou de tirar cópias, de entregar os vizinhos, conhecidos, e até mesmo a pendurar nos postes do bairro com os dizeres: “Você conhece este homem?” Deixou número de telefone e o endereço de sua casa caso algum milagre acontecesse.

Estava desesperado ao mesmo tempo em que estava viciado.

Não parava de comentar sobre o rapaz: durante o serviço, na cafeteria do trabalho, com os amigos em casa e nas festas, com os parentes e até mesmo com seus filhotinhos de gatos. Não obstante, passou a escrever sobre ele em um caderno, imaginando situações, diálogos, encontros e desencontros; desenhava-o por toda parte, no bloco de notas em cima da mesinha da sala, nas listas telefônicas, nos receituários médicos e nas paredes do quarto.

Pensaram que iria enlouquecer. Ele também pensou isso, mas não se importou, porque também havia a possibilidade de, ao enlouquecer, poder finalmente se encontrar com o mais lindo rapaz com o qual havia sonhado.

 

Semanas se passaram. Meses. Um ano inteiro.

Dia após dia ele tentava sonhar, tentava encontrar e buscar mais alguma forma que o fizesse ter algum contato com o seu anjo. Sim, foi inevitável não considerá-lo um anjo apesar de parecer uma heresia.

John começou a ficar cansado, muito cansado. Exausto, desesperançoso, instável, triste.

As cores da realidade não eram mais as mesmas e nem os dias eram mais quentes e brilhantes. Não queria sair da cama, queria apenas dormir e ser levado pelo seu anjo no mais tenro abraço do mundo. Queria poder encontrá-lo, beijá-lo carinhosamente e então proferir as mais belas palavras que diariamente escrevia –agora no vigésimo caderno da pilha que se amontoava no chão.

Mas necessitava trabalhar. Tinha fome e a fome só cessaria com o esforço de longas horas atrás de um balcão daquela farmácia que ficava na fronteira da cidade.

Relutante ele se levantou, tomou banho, pegou seu uniforme, tomou café e pedalou alguns tantos quilômetros até chegar ao local de trabalho.

Deu bom dia a todos os seus colegas e se dirigiu para trás do balcão, próximo à caixa registradora.

Com o movimento calmo ele tratou de adiantar o serviço de ordenar as caixas de remédio para dor de cabeça que ficavam bem na prateleira de baixo logo à sua frente. Assim, ajoelhou-se e foi organizando cada uma em seu espaço.

Ouviu o sininho da porta soar e revirou os olhos em estresse. Bem que ninguém podia entrar hoje aqui, né? Pensou. Continuou com as caixas.

Um pequeno diálogo também foi ouvido e logo em seguida passos pacientes avisavam que alguém seguia em sua direção. E lá vamos nós de novo... Pensou impaciente mais uma vez enquanto tentava terminar de ajeitar outra linha de caixas.

Uma voz sonora, de timbre macio e sutilmente rouco perguntou docemente:

“Bom dia. Eu gostaria de uma caixa de band-aids, por favor...”

“Um momento e irei atendê-lo, senhor. Espero que não esteja com muita pressa.” John tratou de pegar uma das caixas do curativo adesivo que ali próximo se encontrava e tirou outras tantas de perto.

“Na verdade um pouco. Acabei me machucando no carro e meu dedo está sangrando. Parece que minha primeira vez na cidade não foi lá de muita sorte.”

“Oh, que coisa! De toda forma, bem vindo ao nosso município...” John se ergueu do chão e prontamente mirou para o rosto do cliente à sua frente. “Maravilhoso.”

Ele não podia acreditar. Seus olhos só poderiam o estar enganando depois de tanto tempo numa fissura sem fim. Era ele! Era o rapaz dos seus sonhos! Os de olhos de caleidoscópio, seu anjo.

Ficou paralisado, sem condições até de piscar os olhos. Do outro lado do balcão o rapaz que esperava seu pedido com certa urgência pareceu não se importar com o dedo sangrando e mirou o jovem Lennon da mesma forma. Aparentavam estar em outro universo, tentando absorver aquele impensável encontro.

Uma das funcionárias da farmácia notou aquele estranho encarar e pigarreou tentando chamar a atenção de qualquer um dos dois. E foi Lennon, que saindo trêmulo do transe, falou:

“Você é o anjo do meu sonho.”

“E você do meu.” O rapaz moreno disse quase num sussurro, sorrindo enfeitiçado.

“Q-qual o seu nome? Eu preciso saber do seu nome.”

“Eu me chamo Paul. E você?” Indagou curioso, escorando as mãos na quina do balcão.

“John.”

“Oi, John.” Paul estudou aquela face hipnotizada. “Parece que finalmente nos encontramos.” Arrastou uma das mãos sobre o vidro do mostrador a fim de alcançá-lo de alguma forma.

“Sim, sim. Nos encontramos...” Finalmente o jovem Lennon sorriu em tranquilidade. Sua mão foi ao encontro da de Paul, tateando seus dedos com delicadeza, se certificando que ele era tão real quanto o sentimento que gritava dentro de si desde sua primeira aparição. E lançou como uma previsão:

“E espero que seja para jamais te perder.”