Chapter Text
Se o amor é o sopro que dá vida ao barro, o que acontece quando a respiração decide que já caminhou o suficiente?
Houve um tempo em que o mundo delas cabia não espaço de um sussurro entre as estantes da biblioteca, onde o cheiro de papel antigo se misturava ao perfume doce da descoberta. Foi um amor desenhado nas margens de cadernos e selado em promessas feitas sob a luz alaranjada de fins de tarde que deixaram eternos.
Elas foram o encontro exato entre o rigor e a rima, a batida perfeita de dois corações que acreditavam piamente ter inventado o próprio destino.
Foi lindo, aquela forma cruel que só as coisas puras oferecem ser. Tinha o cor do céu antes da tempestade e o gosto do primeiro café compartilhado em uma manhã fria. Eles se tornaram o refúgio uma da outra, um território onde as obrigações e a lógica não podiam entrar, onde o único julgamento permitido era o toque e a única filosofia aceitável era a do agora.
Mas às vezes, a beleza carrega uma lâmina escondida.
O mesmo amor que lhes ensinou a voar foi o que as ancorou na dor de ver o relógio correr rápido demais. Foi um sentimento que floresceu no peito como uma primavera vibrante, apenas para ser colhido por um inverno que não pediu licença para entrar. Elas aprenderam, entre lágrimas e silêncios pesados, que amar alguém profundamente é também aceitar o risco de carregar o vazio que essa pessoa deixará.
Elas tiveram o brilho das estrelas, mas também a escuridão que sobra quando elas se apagam. Construíram um castelo de memórias sobre um chão de vidro que, eventualmente, começou a trincar sob o peso da realidade. E, no fim, restou apenas o eco de risadas que não voltam mais e o rastro de uma tinta que secou antes da última página ser escrita.
Afinal, o que o amor vira quando chega ao fim?
