Chapter Text
O despertador tocou às 6h12, um som agudo que feriu a quietude do quarto ainda mergulhado na penumbra. Mas não foi ele que realmente despertou a Lorena. Foi o toque quente e leve da mão da Juquinha pousada no seu quadril, um gesto simples, íntimo, que parecia conhecê-la antes mesmo de ela acordar.
- Acorda, engenheira... - Murmurou a detetive, a voz ainda arranhada de sono, arrastada por um resto de sonho.
A Lorena sorriu antes de abrir os olhos. Aquele timbre, aquele toque, era ali, na simplicidade da rotina a duas, que o mundo ganhava sentido. Moveu-se devagar, procurando o corpo da Juquinha, e resmungou baixinho, a voz quente e preguiçosa.
- Eu ainda não sou engenheira. - Corrigiu, meio a dormir, num tom adocicado pelo sono, e enroscou-se mais nos braços da namorada, como se o dia pudesse esperar mais um pouco.
Três anos.
Naquele dia fazia exatamente três anos desde que a vida tinha virado do avesso, desde que o pai fora preso e que todas as certezas que a sustentavam se desmoronaram como um edifício antigo. Às vezes parecia distante, como se tivesse acontecido noutra vida; noutras, a memória ainda pesava no peito.
Recordou a pessoa que fora antes: impulsiva, furiosa com o mundo, perdida entre expectativas alheias e um nome que não sabia se queria carregar. Recordou as discussões, o silêncio sufocante daquela casa enorme, a sensação constante de viver na fronteira entre revolta e medo.
E, depois, lembrou-se dela. Da mulher de riso fácil, ética feroz e coração teimoso, da detetive que lhe oferecia chocolates sem motivo, que lhe dava boleia só para ficar mais uns minutos ao seu lado. Da ruiva que, num bar cheio de ruído, a beijou pela primeira vez e disse, com uma coragem desarmante, que queria chamá-la de namorada.
A Juquinha era, sem dúvida nenhuma, o porto-seguro que ela não sabia que procurava.
A Lorena suspirou, rendendo-se ao conforto que a envolvia enquanto se aninhava mais no abraço.
- Tô pensando demais pra quem acabou de acordar. - Murmurou contra a pele quente da detetive, com a voz tingida de riso, fazendo a namorada sorrir sem abrir os olhos, apertando-lhe a cintura com carinho preguiçoso.
- Então volta a dormir, minha quase engenheira... - Provocou, num sussurro manso. - Eu fico aqui. Segurando você.
E a Lorena ficou ali, por alguns instantes silenciosos, a sentir o dia amanhecer devagar dentro dela. Como se, antes de qualquer obrigação, antes de qualquer passado, antes de qualquer dor, existisse sempre aquele abraço, o verdadeiro lugar onde começava o seu mundo.
Levantaram-se devagar, ainda meio enlaçadas, como se o corpo de uma insistisse em seguir o da outra. A manhã tinha um silêncio confortável de quem já construiu uma vida juntas, uma coreografia tão natural que nenhuma precisava pensar nos passos.
A Lorena entrou no duche enquanto a Juquinha atravessava o corredor, descalça, a arrastar o sono até à cozinha. O som da água a correr misturava-se com o barulho leve das chávenas, do pão a torrar, do café a ferver. E, no meio disso tudo, um momento breve: a detetive encostada ao balcão, a sorrir sozinha ao imaginar a namorada ensaboada, molhada, a cantar baixinho como se ninguém ouvisse.
Quando a Lorena voltou da casa de banho, com o cabelo escuro ainda a pingar, a pele quente, e a toalha atirada ao acaso sobre o ombro, a Juquinha olhou para ela como se fosse a primeira vez.
- Café pronto. - Avisou, num sorriso preguiçoso.
- Você é perfeita. - Murmurou a Lorena, inclinando-se para lhe roubar um beijo rápido.
Mas a Juquinha segurou-lhe o queixo e aprofundou-o, lenta e teimosamente, até a engenheira quase perder o fôlego.
- Agora sim. - Disse a detetive, satisfeita. - Bom dia de verdade.
Sentaram-se juntas à mesa pequena da cozinha, onde já tinham vivido confissões, planos, discussões e risos. A Lorena equilibrava uma pilha de cadernos no colo enquanto comia às pressas, os olhos ainda meio desfocados pela manhã. De vez em quando, inclinava-se para beijar o ombro da namorada, que fingia resmungar, mas sorria sempre.
- Vai devagar, Lorena... - Provocou a Juquinha. - Você come como se tivesse que salvar o planeta antes das oito da manhã.
- Alguém tem que salvar. - Respondeu ela, orgulhosa, mordiscando a torrada da detetive só para a provocar.
Quando terminaram, trocaram mais um daqueles beijos moles de manhã, entre migalhas e café. Depois foi a vez da Juquinha tomar banho, e a Lorena, encostada à ombreira da porta, observava-a desaparecer por trás do vapor. Adorava vê-la ali, tão dona do próprio corpo, tão natural no seu espaço, tão parte da sua vida.
Saíram juntas pouco depois. A mala da Lorena sempre a bater-lhe na anca, e a Juquinha a ajeitar o colarinho do casaco antes de destrancar o carro.
A Faculdade da Lorena ficava perto da delegacia, perto o suficiente para que, nos dias em que a detetive fazia horário diurno, não valesse a pena levarem dois carros. Era mais fácil assim: partirem juntas, chegarem juntas, despedirem-se com um último beijo apressado no vidro fumado do estacionamento.
No caminho, as mãos encontraram-se no apoio central, os dedos entrelaçados num gesto tão automático quanto respirar.
- Hoje você volta cedo? - Perguntou a Lorena, encostando a cabeça no banco.
- Se o Paulinho não inventar moda... volto sim. - Respondeu ela, rindo. - E aí eu passo pra te buscar, tá?
- Tá. - A Lorena apertou-lhe a mão de leve.
A Juquinha olhou-a de soslaio, com aquele sorriso pequeno que só ela conhecia.
- O meu dia fica mais bonito desde que acordo ao seu lado, sabia?
A Lorena corou, três anos depois, ainda corava, sentindo de novo aquela certeza suave de que, por mais caótico que o mundo fosse, existia sempre um lugar onde ela sabia voltar. O banco da frente do carro. A mão da Juquinha na dela. O amor a abrir caminho.
Depois de deixar a Lorena à porta da faculdade, com um beijo rápido que nunca era tão rápido assim, a Juquinha esperou até vê-la entrar no prédio. Só então arrancou o carro em direção à delegacia, ainda a sorrir sozinha como quem guarda um segredo bom dentro do peito.
A manhã já tinha ganho vida quando a Juquinha estacionou diante da delegacia. O sol batia nos vidros, arrancando reflexos dourados e iluminando o movimento apressado do início do turno. Espreguiçou-se dentro do carro, respirou fundo e, antes de subir, desviou automaticamente para onde começavam todas as suas manhãs: o café da esquina, onde o Paulinho já a esperava.
Encontrou-o ao balcão, duas chávenas fumegantes alinhadas à frente dele.
- Até que enfim! — Brincou, empurrando-lhe o café. - Achei que tinha ficado presa lá discutindo reciclagem com a sua quase engenheira.
A Juquinha bufou, mas o sorriso veio mesmo assim.
- Ela tinha aula cedo, Paulinho... e você sabe que eu sou contra este bullying antes das oito da manhã.
- Ah, bom. - Ele riu, dando um gole no café. - Pensei que ia me vir com discurso ambientalista logo cedo. Hoje não, vai.
- Idiota. - Murmurou ela, a rir também.
Falaram de tudo um pouco: do jogo de domingo, de uma notícia absurda que tinham visto na televisão, de um colega novo que ninguém sabia se era incompetente ou só distraído. Era sempre assim, conversa fácil, leve, cheia de provocações fraternas que só os dois entendiam.
Entre um comentário e outro, porém, a Juquinha deixava a mente vaguear. Mais de três anos. Mais de três anos desde que vira a Lorena pela primeira vez, queimada por dentro e sem ideia do quanto ainda ia iluminar a vida dela. Mais de três anos desde aquela boleia forçada, desde o primeiro chocolate oferecido, desde o beijo no bar que mudou tudo.
E era tão simples admitir aquilo, pelo menos para si mesma: a Lorena era o amor da sua vida.
- Tá com a cara longe. - Comentou Paulinho, semicerrando os olhos. - Tá pensando no apocalipse, no teu almoço vegano ou na tua menina?
A Juquinha levantou a sobrancelha.
- Primeiro: eu não como almoço vegano; quem é vegana é ela. Segundo: eu tô pensando que você fala demais.
O Paulinho riu alto.
- Então é na menina.
Ela empurrou-lhe o ombro.
- Cala a boca, Paulinho. E paga o café.
- Agora eu pago? - Ele fingiu indignação.
Saíram do café ainda a rir e iniciaram a ronda das ruas próximas. Tudo calmo naquela manhã: lojas a abrir, vendedores de rua a montar bancas, estudantes sonolentos a cruzar passadeiras. O tipo de normalidade que, para a polícia, era sempre um pequeno milagre.
De volta à delegacia, subiram para o gabinete que partilhavam, uma sala pequena, forrada de papéis, canetas, relatórios por preencher e o caos organizado que os dois já consideravam casa.
- O delegado deixou isso aí. - Informou o Paulinho, largando uma pilha de processos pesados em cima da mesa dela. - Relatórios atrasados. Diversão pura.
A Juquinha deixou a cabeça cair para trás num suspiro exagerado.
- Ótimo. O dia só melhora.
Sentou-se, abriu o primeiro processo e começou a escrever. O Paulinho pôs música baixa no telemóvel, um samba antigo que se tornara trilha sonora permanente do gabinete, e os dois mergulharam no trabalho, lado a lado.
Horas depois, já com três relatórios completos, a Juquinha deixou cair uma pasta grossa sobre a mesa.
- Paulinho, eu juro... se esse homem disser "é só mais um relatório", eu peço transferência.
O Paulinho riu, exagerando um suspiro dramático.
- Transferência nada... você não me larga, Juquinha. Eu sou teu karma.
E, apesar da ameaça, ela sabia que era verdade, e que ele também era parte da casa, tal como a Lorena.
O gabinete permanecia imerso num silêncio confortável que se instala quando duas pessoas já se habituaram a trabalhar lado a lado, quebrado apenas pelo folhear de relatórios, pelo barulho suave das teclas do Paulinho ou pelo arrastar de uma caneca vazia sobre a mesa. A Juquinha estava mergulhada na terceira folha do dia quando o telemóvel vibrou, discreto, ao lado do computador, iluminando-se com o nome que, invariavelmente, lhe mudava o ritmo do coração.
Era a Lorena.
Leu a primeira mensagem, e um sorriso lento, quase indomável, abriu-lhe caminho pelos lábios.
Eduarda... eu vou morrer nessa aula.
Esse professor fala como se tivesse 200 anos.
Me salva.
A Juquinha deixou escapar um sopro de riso, abafado contra a mão, porque a simples ideia da Lorena entediada, escondida atrás da mala, semicerrando os olhos para não adormecer, era tão vívida que a detetive quase conseguia vê-la ali, ao canto da sala. Digitou devagar, saboreando o ato de responder:
Se você morrer, eu te ressuscito só pra te dar bronca.
A resposta não tardou, surgindo num ritmo apressado que denunciava a frustração e a impaciência que ela conhecia bem.
Eduarda, ele tá falando de solos argilosos há 25 minutos.
Vinte e cinco.
Se eu fugir pela janela da sala, você me busca?
A Juquinha apoiou os cotovelos na mesa, sentindo o riso crescer-lhe no peito, quente, confortável, como se a voz da Lorena vibrasse através do ecrã.
Eu busco. Mas depois você me explica o que é solo argiloso, porque eu vou fingir que me importo.
Houve uma pequena pausa, curta demais para ser coincidência, longa o suficiente para ser intenção; depois, outra mensagem surgiu, e com ela a sensação de que a sala inteira ficava ligeiramente mais quente.
Eu te explico tudo o que você quiser...
Do jeito que você quiser...
E não é de geologia que eu tô falando.
A Juquinha respirou fundo, não exatamente para se acalmar, mas para acomodar o súbito peso da tensão que sempre se insinuava entre elas quando a Lorena escrevia daquele jeito, carregando nas entrelinhas muito mais do que dizia.
O Paulinho, que conhecia a detetive demasiado bem, ergueu os olhos por cima dos papéis.
- Cara... você tá brilhando. - Disse, franzindo o sobrolho como quem observa um fenómeno meteorológico. - Isso é brilho de safadeza, Juquinha.
Ela fez um esforço para manter a expressão neutra, mas falhou redondamente.
- Vai trabalhar, Paulinho. - Murmurou, abafando o riso enquanto pousava o telemóvel. - E cala a boca antes que eu peça pra te transferirem lá pro arquivo morto.
Ele riu, satisfeito por a provocar, e voltou ao que estava a fazer, embora de vez em quando lançasse olhares de canto que diziam claramente eu sei no que você tá pensando.
Mas a Juquinha não precisava que ele a denunciasse. Bastava o telemóvel vibrar de novo, e vibrou.
Pensa em mim?
Ela passou a língua pelo canto do lábio, quase sorrindo.
O tempo inteiro.E hoje eu vou te buscar, e vou te levar pra jantar, só nós duas.
Desta vez a resposta veio com uma urgência que denunciava tudo o que a Lorena tentava disfarçar.
Eduarda, não me provoca, depois você não consegue me aguentar.
A detetive inclinou-se para trás na cadeira, sentindo a espinha relaxar ao mesmo tempo que um calor firme lhe subia pelo abdómen. Tinha plena consciência de que ainda faltavam horas, longas, burocráticas e impiedosas, até poder encostar os lábios à pele da namorada, sentir o cheiro do shampoo que ela usava, observar-lhe o sorriso enquanto ajeitava a mala ao sair da faculdade. E, mesmo assim, era como se a expectativa já lhe percorresse o corpo, desenhando cada gesto por antecipação.
O Paulinho suspirou teatralmente.
- Não precisa nem me dizer. - Murmurou. - Eu só espero que você consiga terminar esse relatório antes de entrar em combustão.
- Paulinho... - Advertiu ela, mas o sorriso denunciava-a completamente.
E ali ficaram, lado a lado, os dois a trabalhar entre papéis, música suave e conversas ocasionalmente absurdas sobre futebol, vizinhos barulhentos, o estagiário que não sabia distinguir um ficheiro de um agrafador, tudo menos a Lorena, porque mesmo sem falarem dela, a presença dela pulsava silenciosa no fundo de tudo, como um coração extra que batia dentro da Juquinha.
E, enquanto a caneta riscava mais uma linha do relatório, a detetive teve a certeza tranquila, profunda, luminosa, daquilo que já sabia antes mesmo de admitir:
A vida dela tinha encontrado eixo.
E esse eixo tinha nome e um magnetismo tão certo que tornava cada minuto de distância uma antecipação ardente do reencontro.
