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A vida não era tão movimentada. Ao menos, na concepção de Harpia, não deveria ser.
A família pássaros — como se chamavam, ou como foram apelidados — criou forte laços com o grupo Psikolera. Onde que por destino, ou azar como o pássaro mais velho gostaria de chamar, Pomba se apaixonou pelo guitarrista e pianista da banda e quando as "famílias" se conheceram, Papagaio não deixou o lado do vocalista e do backvocal da banda, e Coruja não parou de olhar um segundo para a baixista.
E após tantos eventos que faziam o coração de Harpia errar batidas do coração — E não em um bom sentido — e adquirir mais cabelos brancos, chegaram a um momento de paz. Ou ao menos o grisalho parou de reclamar tanto para os familiares em como aquela banda seria má influencia. Agora as reclamações eram apenas internas.
Bom, a paz não era tão universal assim.
A questão deveria ser simples: Os psikolera conseguiram um bom contrato, e para comemorarem de forma intima decidiram ir a um bar mais "caricato" em lados estranhos da grande São Paulo. Teoricamente era um evento simples, mas Cindy levou a namorada de penetra, Franco se revoltou e puxou para a roda Pomba, Andrei viu a cena e achou aceitável trazer papagaio, Lena se intrometeu e como cônjuge de Eloy foi também, e para não deixar um pássaro sozinho escondeu Corvo na viagem.
E claro, quando todos notaram que a família de pássaros iria toda junta, nada mais justo do que levar o patriarca também.
Mas não que isso fosse de sua plena vontade. Corvo apenas chegou afirmando que estava passando mal e que necessitava de ser levade ao hospital, exigindo a presença de Harpia. No carro o teatro acabou e o grisalhou notou as risadas, a péssima atuação de Corvo e o carro com a logo dos psikolera logo ao lado.
E agora, estava na situação que sempre acabava se encontrando aos finais de semana: As duas famílias bebendo em um bar, comemorando e gritando. Dançando como se não houvesse amanhã.
Harpia tentaria ver de um lado positivo, claro. O bar não era de todo mal, não era tão insalubre quanto os outros que foi arrastado, e também a musica era boa, não seu estilo, mas boa.
E no final, não iria mentir, não estava curtindo a musica e muito menos o bar, estava curtindo aquele homem de cabelos ondulado castanho escuro, com um bigode que acompanha a feição mal encarada.
Cristino.
Quando o grisalho entrou no bar com sua família e se deparou com o homem de roupas tradicionais, quase morreu do coração na entrada. — Mas fingiu bem, afinal, se Papagaio ousasse saber o por que ficou tão serio de repente, Harpia nunca mais teria um segundo sequer de paz.
Cristino, o homem que encontrou em um bar tarde da noite, e que lhe conquistou com uma conversa fiada e bebida barata. Depois de só uma noite em um motel na mesma rua do bar, se sentia perdido. Não se despediu, afinal, precisava ir embora logo para que a família não achasse estranho o sumiço, mas aquele homem ainda conseguia assombrava seus mais profundos — e profanos — pensamentos.
Se sentia arrependido de ter "fugido", e até então, perdido todo o contato. De não ter conseguido dar explicações posteriores. Cristino era uma pessoa boa para conversar — e que muito encantava Harpia com a voz grave e a aparência madura, mas o grisalho prefere não expor essa parte.
Mas, como outrora o próprio genro disse: Nada que é seu escapa de você.
Talvez Cristino fosse de Harpia, pois com toda a coincidência do mundo, esbarraram novamente em outro bar. Ou talvez do contrario, afinal, o pássaro sentia que poderia morrer a qualquer momento com a palpitação demasiada do coração, e até poderia rir em como estava bobo tal qual um adolescente por causa de um homem que conheceu em uma noitada.
— Oh, sogrão, 'tá tudo bem? — Saiu de seu transe olhando fixamente para o copo de bebida ao ouvir a voz do rapaz ruivinho que conquistou o coração de seu filho, e que estava claramente bêbado.
— Uh- Ah, oi, Franco! Tá.. Tá tudo bem sim, por que a pergunta? — Se amaldiçoou por ter gaguejado, denunciando o nervosismo.
O ruivo fez uma careta exagerada como quem perguntava "é mesmo?", mas Harpia não iria admitir o motivo de sua admiração a um copo de bebida que pegou no inicio da noite — Antes de começar sua crise existencialista amorosa.
— Olha só.. — O garoto começou, cruzando as mãos e se apoiando na mesa, quase como quem falava de negócios empresariais importantíssimos, ou fazendo um acordo com o presidente da ONU. — Tem uma promoção aqui no bar de… É que.. É uma promoção muito boa! Mas tipo..
— Meu Deus, desembucha, garoto! — Bateu o punho na mesa e se virou zangado para Franco, talvez estivesse um pouco mais irritado por toda a situação do homem que encarou por poucos minutos, e Franco não cooperava.
— Tá! Tá! Olha só, tem uma promoção de que, caso alguém consiga montar naquele touro mecânico por 30 minutos consegue bebida grátis, e a insuportável da Cindy tá escolhendo a dedo quem vai ir lá! E eu não quero ir. — O ruivo tropeçava nas palavras e se atropelava a cada frase e desculpa que dava. — Mas se ninguém for aquela diaba vai me escolher.
— Tá, e me diz o que eu tenho haver com isso. — Disse ríspido, já cansado de toda enrolação.
— É que… Eu vi o senhor olhando 'pro touro…
Harpia teve um estalo, ajeitou a postura num instante quando ouviu a frase. Não estava olhando para touro, nem boi, nem vaca, não olhava para nada no ambiente, fitou apenas os olhos castanhos afiados.
Virou para enfim olhar o que estava ao redor do homem, mas arrepiou a espinha quando viu a razão de sua inercia lhe olhando de volta. Ou melhor, lhe devorando com somente o olhar.
Ah, e claro, o maldito touro mecânico.
— Nem fodendo. — Harpia virou-se novamente, sentindo o calafrio arranhar a alma. Roubou uma das garrafas que Papagaio balançava no ar, ouvindo dar um resmungo. Virou de uma vez, o gosto azedo adentrando a boca. Vodka sabor limão.
— Que isso, sogrinho! Quase não te vejo falando palavrão… Vai me dizer que 'tá com medo do touro?
Franco definitivamente já devia ter tomado algumas doses, pois estava sem a noção de que provocar Harpia era atestado de morte.
— Escuta aqui, oh demônio da tasmânia, eu não sou covarde que nem você de fugir de uma coisa dessas. — Era ainda mais covarde que isso, não fugia de um desafio, fugia de um homem que conquistou seu coração. — Mas minha idade já não deixa eu fazer essas burrices de jovens que nem vocês.
Terminou a vodka, recebendo um olhar preocupado do genro. Claro, não costumava a falar tanto palavrão — Ao menos não na frente de mais novos — e também não bebia como se não houvesse amanhã, e na única vez o que fez, cometeu uma das maiores burradas de sua vida.
Mas cometeria o mesmo erro duas vezes com um sorriso no rosto se fosse a custo de esquecer que sua paixonite lhe olhava do outro canto do bar.
E por mais que tentasse disfarçar aquele nervosismo, apenas uma inconsciente olhada de canto de olho ao mesmo local que o ruivo apontava já foi o suficiente para o menino também olhar para o touro, e consequentemente, o homem mais velho que os encarava.
— Oh, Harpia, por que aquele homem 'tá encarando você? AH! É seu amigo, não é?
O grisalhou congelou, tentando achar alguma maneira de desviar da situação que o ruivo estava prestes a o colocar. Mas a cabeça oca de Franco agiu primeiro.
— Vamo lá! Você fala com seu amigo e garante a bebida 'pra gente! — Franco se levantou empolgado, quase como uma criança prestes a ganhar doce. O mais velho se desesperou ainda mais, levantando em um solavanco e tentando alcançar o braço do garoto.
— Escuta aqui, moleque desgraçado, se você der mais um passo pode dar adeus 'pro-
— 'To indo, Harpia! Melhor garantir logo que ninguém vai montar no touro antes de você! — O ruivo provavelmente já deveria estar louco de bebida, pois pouco escutava o que o sogro falava e ignorava os sinais de sua morte eminente ao provocar o outro.
O mais velho, entre tropeços, tentava alcançar o próprio genro, mas entre os passos rápidos e ágeis de um menino de 19 anos e os passos de um homem com um pé na cova e outro no sabote, era um tanto obvio que Franco alcançaria o touro primeiro.
Viu o rapazinho quase como criança se aproximando do tatame preto onde ficava a atração, e junto dela uma grande placa afirmando sobre uma promoção de 30 minutos no touro para bebidas grátis. — E alguns jogos de cassino no arredor — sentado em uma mesa mais afastada do bar, em um canto vazio do local de apostas, estava o homem que assombrou sua visita ao bar.
O coração de Harpia palpitava forte no peito, prendendo a respiração sem ao menos saber o porquê. O medo de encarar o homem com quem se deitou mais uma vez era irracional, mas o grisalho sentia que poderia morrer só com a presença opressora do rapaz.
— Não imaginei ver 'ocê por essas banda. — Cristino falou entre os dentes, apenas para o pássaro ouvir. Este que escondia os tremores na mão e o rubor nas maças bem marcadas no rosto, se aproximou independente do medo.
— Não foi escolha própria. — Desdenhou, tentando manter a calma para que Franco não suspeitasse de seu nervosismo.
— Oh moço. — O ruivo começou, falando enrolado tentando se apoiar em uma das maquinas, escorregando e por pouco não encontrava sua cara no chão. — Esse.. alazão aqui, esse garanhão! Esse.. Esse homem aqui vai querer dar uma cavalgada no touro, é você que liga ele?
Franco obviamente não estava com medo da morte — Ou do pássaro mais velho proibir Pomba de sequer respirar perto do guitarrista — pois ignorava o olhar rancoroso que o mais velho lhe jogava. Também tentou ignorar o desgosto do rosto de Cristino enquanto ouvia os elogios não convencionais direcionados a Harpia.
O cangaceiro arqueou uma sobrancelha vendo o pequeno falar, olhou de canto de olho para o grisalho — Que mantinha sua expressão de puro desgosto — e logo ajeitou a postura.
— Te incomodando? — Perguntou, ignorando completamente a presença de Franco e tudo que o mesmo havia falado, como se aquele rapazinho não existisse entre os dois, ou fosse apenas um inseto irritante no ouvido de Harpia.
— Como não? É meu— O mais velho completaria a frase, se antes Cristino não tivesse pego a gola da regata de Franco, puxando-o para bem próximo de seu rosto em uma feição nada amigável.
— Escute aqui, oh rapazinho. Volte 'pra tua mesa e deixe de se meter em assunto de gente mais velha, vá. — Soltou a gola, vendo o guitarrista cambalear para trás assustado, talvez pensou em falar algo para o sogro, mas apenas engoliu seco e voltou tremelicando para a mesa.
Agora, finalmente sozinhos. Cristino voltou a se encostar no maquinário, olhando para Harpia como se esperasse algo.
— Não achei que fosse te ver de novo. — Começou, a voz grave e o tom monótono escondiam a ansiedade de algo a mais, ou talvez repetir a dose do que tiveram.
— Me desculpe por ter ido sem falar nada, estava com medo de meus filhos suspeitarem do meu sumiço. — Harpia tentava falar sem gaguejar, sem demonstrar a inquietação. Ambos queriam a mesma coisa, só bastava uma faísca para reacender o fogo de noites passadas.
— 'Tá acuado demais, passarinho. — murmurou entre os dentes, chegando mais perto. Soltou um riso sem humor, sabia o que o pássaro tentava esconder.
— O que… O que faz aqui? — Disfarçou, olhando para todos os cantos, menos para o homem em sua frente. Não sabia sustentar o próprio corpo olhando nos olhos de Cristino.
— Tinha um serviço nessas 'área. Parei aqui 'pra forrar o figado. — Pegou o copo da mesa com uma dose de bebida e entregou a Harpia, que virou sem pestanejar — Essa tua cidade é cheia de 'desembestado, dão tudo que tem sem nem reparar. Não gosto desses joguinhos de vocês.
O pássaro olhou ao redor. O local já estava ficando bem vazio, não havia mais apostadores e os bêbados preferiam ficar perto dos balcões ou das mesas perto da entrada. Somente Harpia e Cristino na mesa — Quase teve um déjà vu.
Ah, e claro, o maldito touro mecânico. Parado, quase como uma ideia prestes a se formar, um sussurro de ações que fariam ambos acordarem com o amargo gosto do arrependimento.
— Não vai querer ir? — Perguntou, apontando com a cabeça para a atração.
— Não tenho a lombar de jovem 'pra isso, Cristino. — Falou em repreendimento. Sabia para onde aquela conversa caminhava.
O rapaz deu um sorriso ladino, uma feição ardilosa que arrepiava até cada fio no corpo de Harpia. Se existia algo que Cristino sabia fazer muito bem era mexer com si em poucas palavras.
— Não tive essa impressão aquela noite. —O sotaque carregado parecia ter um tom ainda mais descarado.
O mais velho se desmontou naquela mesa. Arregalou os olhos azuis quase os tirando de orbita, agora com uma vermelhidão presente no rosto. Engasgou com a própria saliva ainda desacredito da pouca vergonha do rapaz a seu lado.
Este? Não mudou a expressão, o sorriso cafajeste denunciava o quanto se divertia ver um homem tão maduro envergonhado com poucas palavras. Não assumia com palavras, mas Cristino adorava ver Harpia daquele modo, envergonhado, acanhado, e principalmente aceitando cada toque vindo de si.
— Cristino! Pelo amor de Deus, homem! — O mais velho, ainda que muito envergonhado, manteve a compostura após alguns segundos. Chacoalhou de leve a cabeça como se fosse tirar o calor de seu corpo e abaixar o sangue em suas bochechas.
O homem deu uma riso curto, carregando suas intenções por trás daquela conversa sem rumo aparente. Era um jogo de gato e rato que adoraria jogar com aquele passarinho.
— O que? Não minta 'pra mim e diga que não quer repetir. — Se aproximou ainda mais, vendo Harpia se acuar ainda mais, tensionando cada músculo no corpo.
Colocou a mão caleja onde sabia que iria arder. Deixou os dedos entrarem pela blusa social azul escura que usava, caminharam entre os pelos da lombar sentindo cada poro na pele de Harpia abrir, o corpo tensionado e a vergonha dele voltava ardente ao arquear as costas e soltar um suspiro baixo.
Um suspiro que apenas Cristino tem o direito de ouvir. Que apenas ele sabia como provocar.
Os dois sabiam disso, sabiam quanto de domínio aquele rapaz de cabelos ondulados e voz forte tinha sobre o pobre passarinho. E mesmo que nunca fosse ser dito em voz alta, era claro que esse fato era de agrado dos dois.
— Não quero. — Sussurrou a contragosto, se curvando na mesa para evitar de se arquear ainda mais com os toques singelos do cangaceiro. Queria, era claro que queria, mas o orgulho gritava mais alto.
Cristino arqueou uma sobrancelha — Em uma expressão com as linhas do rosto marcando, e que fizeram o coração do outro escorregar em uma batida ou outra — quase confuso, mas entendia os maneirismo de Harpia, entendia tão bem.
— Claro, claro. — Se desvencilhou do toque com o outro, que quase soltou um gemido de frustração, mas manteve o mínimo de dignidade. — Então, o que acha de uma aposta?
— Aposta? — Olhou encucado, tentando enxergar onde aquilo iria. Mesmo que no fim soubesse bem onde iria.
— Já que 'ocê é tão vivido, quero ver cumprir aquele desafio ali. — Apontou com a cabeça para a placa "30 minutos no touro e vença o premio". — Se conseguir, pode continuar mentindo 'pra mim e pra si mesmo que não quer.
Cristino se levantou da cadeira, e olhá-lo por debaixo mais uma vez fez o sangue de Harpia gelar. Ele de fato não queria aquilo, ele precisava.
— .. E se.. E se eu não conseguir? — Falou exitante, quase com medo da resposta que sabia que viria.
— Vai ter que deixar de mentira. Então? Aceita?
No fundo, tudo aquilo não era mais do que enrolação. Ambos necessitavam de mais uma noite, de mais contato, de possuir. O orgulho de pouco resistir não era nada a mais que um pano de fundo para o gosto de uma boa humilhação, e adoravam isso.
— Aceito.
E em tão pouco tempo, estavam de frente para o maquinário. A ansiedade agarrava-se no coração de Harpia de maneira desenfreada, sentia que poderia morrer a qualquer momento, ansiava para o final daquela insuportável enrolação que o mesmo começou.
— Vá enfrente, passarinho. — Cristino debochou, observando o nervosismo alheio.
Engoliu saliva com o clique audível na garganta, dando um impulso e subindo com um único braço. Soltou um arfar gutural entre a garganta desacostumado com o esforço físico, de fato o vigor tinha se perdido em algum ano de sua juventude.
Cristino, por outro lado, apenas alargou o sorriso perverso ouvindo aquele som. A saudade apertou o peito, precisava ouvir mais daquele homem, só um pouco mais. Harpia era um vicio que estava disposto a se entregar.
Em pouco segundos montado, o barulho mecânico começo a rugir do touro e por instinto — e memoria muscular dos tempos em que trabalhou com equinos — agarrou o braço em um dos chifres do touro.
Logo, em poucos segundos, a atração dava impulsos para trás e para frente. Harpia tentava manter o quadril inerte no meio da sela, mas a fricção era inevitável.
Para frente e para trás, em movimentos brutos. O calor que subir pelo corpo do pássaro era inegável. Intenso, era demais. Não era somente pela fricção — apesar de que era uma boa causa — era saber do olhar afiado que Cristino lhe lança.
Ele estava parado, ainda com aquele estupido sorriso ladino. Um sorriso de quem sabia que tinha ganhado, independente se Harpia conseguisse ficar 30 minutos ou não, isso não importava mais. Afinal, com somente os arfares vindos do mais velho, Cristino sabia que quando descesse do touro iria implorar para que fossem para outro local.
Harpia ainda buscava o mínimo de dignidade, talvez apenas por aparências. No fundo de sua mente ainda possuía o pequeno desespero de algum familiar visse a situação, mas estava conseguindo se manter estável no brinquedo, talvez mais alguns minutos e ganharia a aposta. — E enfim pediria o numero de telefone daquele homem, e talvez pudesse vê-lo com mais frequência. Não fugiria dessa vez.
Já haviam se passado 20 minutos, Harpia ainda se mantinha firme na atração com um sorriso quase infantil. A aposta já tinha perdido sentido a muito tempo, seria só mais uma massagem em seu ego, que talvez ainda pudesse fazer "coisas de jovens". O calor no corpo era ardente, o estomago revirava dentro do corpo ao vago pensamento do que aconteceria da porta do bar para fora.
Eventualmente pensaria em alguma desculpa para sua família.
Cristino notava, sempre notava. Reparava no rubor pouco visível nas bochechas, reparava no sorriso de canto lascivo e tão estupido, sorriso que faria questão de arrancar do rosto outro, reparava em como harpia se esfregava — quase imperceptível — propositalmente na sela do brinquedo.
O pássaro era necessitado, não era nada sem migalhas para suprir a imoralidade em seu ser. Era necessitado pelo toque, pela voz, pelo entendimento. E cristino sabia, e adorava usar isso a seu favor.
Faltavam oficialmente 10 minutos até o brinquedo parar. E embora o suor e o cansaço, ainda não havia sido ejetado do brinquedo e sua lombar não doía tanto, poderia continuar por mais 10 minutos e então se gabar. Bom, até poderia em um caso que Cristino não se juntasse a montaria.
O gosto amargo de perder uma aposta, das mais fúteis que fossem, não era algo que a arrogância de Cristino deixasse, muito pelo contrario. Saboreava-se ao ver Harpia fraquejando abaixo de si, humilhado. Adorava o sabor dos gemidos pedintes, das lagrimas desesperadas e de tê-lo na palma da mão.
Em um ato de provocação, subiu ágil na cela de plástico acoplada no touro. Sentiu o pássaro se assustar com o movimento, e com uma mão agarrou os cabelos grisalhos puxando Harpia para trás, colando suas costas em seu peito, com a outra agarrou a carne farta da coxa direita.
— Cristino?! — indagou com o tom em agonia. Poderia até conseguir ficar no brinquedo até o final caso estivesse sozinho, mas aguentar o corpo colado no outro? Isso era tortura, e não aguentaria a excitação entre as pernas por muito tempo com aquela provocação.
— O que? Vai descer? Quer perder a aposta logo agora? — Provocou, sussurrando rente ao ouvido alheio, e deixando uma mordida singela no lóbulo. Que provocação suja, Harpia quase se deu por vencido, deixando um gemido gutural baixo escapar dos lábios, mas se contendo e segurando forte no chifre de plástico. — Vira.
O grisalho tentaria contra-argumentar sobre a ordem de Cristino, afinal, como conseguiria se virar em um touro mecânico? Mas a voz tão grave reverberando em seu tórax mais uma vez, arranhando sua alma e suprindo cada desejo que deixou guardado, aquilo era demais para negar.
Se afastou um pouco mais do outro, se apoiando na cabeça do touro e esperando um impulso para trás, virando o corpo para trás e se jogando ao tronco do outro. Este riu curto, satisfeito com o ato obediente.
Firmou o quadril no touro, rezando para que ainda tivesse força o suficiente nas pernas para aguentar manter o equilíbrio e trouxe as mãos até as coxas fartas de Harpia, apertadas por cintos e uma calça jeans escura. Segurou-as e posicionou acima de suas próprias pernas.
A este momento, o pássaro mais velho havia perdido toda a compostura que tinha mantido posteriormente. Agarrava os ombros cobertos pelo casaco de couro e arfava baixo pelo contato. Não importava quantos minutos ainda ficaria encima daquele brinquedo, ou quem ganharia a aposta, agora tudo que pensava era 'para onde iria com seu homem ao final da noite. — E dessa vez, iria compensar a saudade, iria fazer valer a pena toda a espera.
25 minutos. O mundo rodava, e pouco importava para Cristino e Harpia, tudo que bastava era mais contato, ter mais, possuir mais da carne, provar mais do pecado. O suor escorria e o sorriso no rosto de ambos denunciava o quanto aquilo era bom, era divertido, era perfeito. O quadril de Harpia ardia pela movimentação exacerbada e as pernas de Cristino pediam socorro pelo peso das coxas alheiam esmagando-as, não importava.
E sem prestar atenção no mundo ao redor, deram um solavanco para trás. Talvez a velocidade tivesse aumentado e não perceberam, mas foram para trás em poucos segundos, e para tentar segurar o mais velho, Cristino deitou o tronco no touro e segurou com força a cintura do pássaro, deixando-o montar em si.
a posição era constrangedora, mas pouco ligavam. Harpia segurou na cela e deixou o movimento automático ajudar na cavalgada, esfregando a bunda gorda presa nos tecidos apertados na pélvis do outro. Esmagava o quadril de Cristino com o peso do corpo, mas este não parecia ligar — e seu corpo dizia justamente o contrario, visto que mesmo com todos os tecidos ainda conseguia sentir um volume inabitual friccionando contra sua calça. — o sorriso era de uma ponta a outra do rosto e mostrava com vontade as presas de ouro.
O resto dos 5 minutos pode ser resumido em calor, o calor era ardente no rosto de ambos, era excitante no contato físico que ao mesmo tempo que era demais, não era suficiente. Se esfregavam com força impulsionados pelos movimentos agressivos da maquina, não era o suficiente, precisavam estar juntos, precisavam compensar aquele tempo perdido. O suor escorria e pingava na tintura velha do plástico e o contato visual era intenso, não poderia ser quebrado. Deixavam escapar gemidos e arfares baixos, risadas curtas, tudo abafado pelo som da maquina com pouco lubrificante.
Era deles, e somente deles. Apenas eles poderiam escutar, ter.
No ultimo minuto, Cristino não deixou de dar um tapa estralado na bunda gorda de Harpia, fazendo-o arquear as costas novamente, com um sorriso malicioso no rosto. O brinquedo parou, finalmente sairiam daquele bar, finalmente poderia estar verdadeiramente juntos, apenas eles.
Ambos respiravam ofegantes, o rosto molhado de suor e corpo ardia, e não saberiam dizer se foi o esforço de se manter equilibrado ou de não cometerem atentado ao pudor.
Talvez algum dos dois fosse falar algo, se não fossem interrompidos pelo som insuportável de confeites e palmas. Olharam para trás assustado pelo barulho repentino e notaram alguns trabalhadores do bar e, infelizmente, todos os acompanhantes de Harpia olhando a cena. Talvez a imersão na aposta os fez esquecer que aquilo chamaria atenção de um publico, e esse publico era a família do pássaro mais velho.
Antes que pudessem dizer qualquer coisa — Especialmente alguma desculpa — uma voz alta pode ser escutada do fundo da multidão.
— VIU, SOGRINHO? EU SABIA QUE VOCÊ IA CONSEGUIR A PROMOÇÃO!
