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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-03-26
Updated:
2026-03-26
Words:
1,838
Chapters:
1/3
Kudos:
1
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1
Hits:
8

Versaria – Livro I

Summary:

Maroncha é uma cidade portuária, centro de homens imundos desde de sempre, seja essa impureza de alma ou corpo. Piratas, bandidos, mercenários, um ambiente consideravelmente perigoso dentre os diversos cantos de Versaria, os comerciantes sabem das iguarias únicas que se podem encontrar nesse local, é necessário às vezes passar numa cidade como essa, como um mal necessário.

No meio dessa bagunça, as crianças crescem, às vezes são abandonadas por suas próprias mães ou pais, além de por consequências do destino simplesmente não possuem parentesco que os vincule a alguém. Jogados ao mundo, são chamados de Mundinos, aqueles que jogavam ao Mundi.

Neste livro acompanharemos a história de um deles, Arthur.

Chapter 1: O Porto.

Chapter Text

A brisa da manhã denunciava um dia refrescante pela frente, no porto, transeuntes tinham relevâncias variadas, alguns pareciam se esconder até de si mesmo, verdadeiramente invisíveis, proporcionalmente outros queriam exibir até o que não os pertencia de fato. Caixas variadas, assim como o destino de cada uma delas e das pessoas que as esperavam.

As poças de água amarronzadas e alguns ratos que por ali caminhavam eram um indicador biológico da falta de higiene em tal local, mesmo com a presença de nobres ou de comerciantes importantes. O chão ladrilhado de pedras remetia certamente as mesmas pedras dos grandes muros, porém, era possível perceber a diferença das que eram pisoteadas das que enxergam tudo sempre de cima. A alma daquele lugar tinha nome e apelido, o oceano! Ou mar para os mais próximos, sem dúvidas era onde o reino dos homens desaparecia e dava lugar a um ambiente misterioso e cheio de lendas.

Não pouco distante desse litoral agitado, numa região de areal praticamente isolada, um grupo de garotos dormia a beira do mar numa residência — se é que podia ter este título — tratava-se de um antigo trapiche anexado a uma espécie de armazém, agora abandonado, repleto de furos no teto que deixavam feixes de luz serem projetados como despertadores naturais nos olhos dos preguiçosos, e frequentemente aventureiros.

Eram algumas dezenas de moleques, como a gaveta de botões de uma velha costureira, botões grandes, coloridos, pequenos, monocromáticos, metalizados ou até de resina. A origem desses garotos podia ser da história mais maluca até a mais mundana possível, porque no fim das contas, eles não deixavam de ser Mundinos.

Um deles remoia ou planejava algo, de pé diante a Boca dos Tubarões, manipulando sua faca como um artesão maneja suas armas da arte. Os cabelos vermelhos como um rubi empoeirado constratavam fortemente com sua pele amarronzada, o sorriso destacava uma sequência criativa de pensamentos que escapava pelos seus dentes exalando uma felicidade pelo que ainda nem aconteceu, e o seu cachecol vermelho se tornava esvoaçante mesmo que ainda preso ao seu pescoço. Do lado de fora pegadas pesadas eram encontradas, essas que se destacavam perante qualquer outro menino dali, eram de Gigas, o maior do grupo, quase do tamanho de uma porta e sua cor cinza faziam o parecer uma verdadeira rocha. As mãos grandes carregavam uma caixa de madeira repleta de mangas, os garotos podiam ter variações diversas enquanto seus nomes, raças e personalidades, o que tornava todos Mundinos é que a fome que um sentia era a mesma do resto.

— Acabei de catar do pé, Fin. – O menino dos cabelos rubros se virou ao ouvir a voz de Gigas, pegou uma das mangas e como um artista cortou a fruta. Os dois estavam sentado no píer, o menor tinha um dos pés submergido no mar de Maronda enquanto a outra perna permanecia flexionada como apoio na velha madeira. — Valeu, Giguis! Isso tá bom pra cacete, de verdade! – Finzor ria com a cara toda melada de manga porque era delicado apenas com a faca e Gigas ria juntamente com a cara também toda suja da fruta, porque na hora de comer manga todos os moleque tinham uma bela trapalhada proposital, fazia parte, comer não era sagrado no sentido religioso, mas revitalizava a alma. Após a comilança, os dois se limpam no mar e partem ao porto, já que lua começará a descansar.

O sol erguia-se fortemente, surgia aquele calor que queimava como brasa, os outros acordavam em seus respectivos relógios biológicos, a liberdade era a única coisa em abundância que se tinha naquele local. Os meninos se esvaiam aos poucos até que só sobrassem poucos no ambiente. As ruas e bares de Maronda começavam a se encher do que os jornais costumavam chamar de Mundinos, aqueles que habitam um mundo aonde foram simplesmente jogados, sem qualquer suporte, soltos em um mundo imundo, mundinos. Pelo porto, como gatos ou ratos, os Mundinos se esgueiravam, causando o caos pra colocar o estômago em ordem. Um velho malandro sempre os dizia que quem rouba de quem muito tem não tira muita coisa de ninguém, isso não demorou pra se espalhar pra esses garotos. A parte mais urbana na cidade era dividida entre, nobres, ricos, pobres e miseráveis com até quem ficasse no meio termo das várias classes de riqueza.

As casas acumuladas umas sobrepostas as outras destacavam a falta de espaço, esconderijos perfeitos pra quem foge de uma surra da Guarda, e um desafio pra quem morava ali, apesar das péssimas condições das moradias a felicidade não poderia faltar. A música motivava os corações mais frios a continuar, a lutar por um outro dia. Muitos dos Mundinos e da população se impressionavam com as graças de uma figura chamada Jorben, com seu cavaquinho era capaz de animar o povo e ainda curar as feridas que a vida causavam.

O mar azulão vencia todos os dias, os garotos jogavam-se do píer realizando as acrobacias que finalizavam o dia, o medo do mais novos era criado pela mente dos mais velhos, esses comentavam sobre tubarões gigantes e a lenda do Kraken. Quando o sol finalmente descansava a cidade dormia ao lado do porto. A lua emergia do fundo do mar com seu brilho radiante e o nevoeiro se erguia no horizonte, bem distante de tudo. Enquanto alguns adormeciam, outros caiam na noite a procura de suas respectivas atividades noturnas.

A pata felpuda não fazia barulho e caminhava nos telhados das casas, Nolzek, o homem-raposa ou melhor garoto-raposa, se esgueirava através das janelas roubando o que tivesse de valor em seu alcance. Era um trabalho relativamente fácil, mas seu custo poderia ser fatal, por isso usava um esquema de rotação por bairros, onde ia alternando os locais de seus furtos pelos dias da semana. Sua aparência diferente o fazi pensar que isso pudesse gerar alguma confusão em algumas pessoas, a venda que cobria seus olhos era com certeza um fator que encucava as pessoa.

Suas tocas espalhadas pela cidade tinham sempre um caminho em comum, o lar em comum dos Mundinos, que não tinha nome, era sempre lá que muitos iam espairecer e descansar. Com os bolsos cheios de moedas e outros pequenos objetos frutos de furto, Nolzek sai de uma toca que dava bem perto do armazém. — Nolzek? É você? — Em cima de uma árvore, estava Finzor com sua peixeira em alerta após ouvir o som da cauda de Nolzek pelo matagal.
— Óbvio, que cê tá fazendo aí? — Nolzek tira a venda revelando seus olhos, enquanto isso Finzor guarda a faca e pula da árvore aterrissando ao lado de seu companheiro. — Nunca entendi qualé a da venda, cê não é cego, pra que serve então? — Nolzek permaneceu em silêncio, começa a retirar seus espólios e posicioná-los sobre um tronco, aparentemente selecionando o que achava mais caro. — Tá, beleza, foi mal aí se eu fui invasivo, mudando de pau pra cacete, tô com umas ideias aí pra gente. — Menciona Finzor mudando o rumo da conversa, as orelhas de Nolzek se interessavam e ele se pôs a escutar o que o outro tinha a dizer.

A ideia simples de Finzor, se concentrava num corsário com seus quarenta e tantos anos que hospedou-se numa pousada popular não tão dentro da área nobre e nem distante o suficiente dos perigos da rua, lar onde os Mundinos conheciam com a palma da mão. Até o dado momento isso não gerará qualquer entusiasmo na cabeça de Nolzek até que o seu colega citou a espada encrustada de ouro e esmeralda com a qual o agente do rei caminhava pelo mundo afora, as orelhas peludas agitaram-se como se tivesse escutado uma explosão contagiante. A ideia era conseguir colocar algo na bebida do corsário pra que ele dormissse como uma pedra e nesse momento as mãos leves Nolzek agiriam.

– É, é um bom plano, você só deve estar se esquecendo que esse tipo de gente anda muito bem acompanhada. – Acrescentou Nolzek ao plano enquanto ia adicionando todos os itens dentro de um saco esfarrapado. – É, nesse ponto você tem razão… – Com a mão no queixo Finzor se pôs a pensar e estalou os dedos. – Já sei! Mando um dos moleques ver como ele faz os seus dias e aí nós planeja melhor. – A pequena raposa escutou aquilo e concordou com a cabeça, os dois então se separaram, Nolzek era um dos únicos Mundinos que não dormia dentro do trapiche, dormia em tocas, já finzor com seu gingado malandro retornava a casa pelo areal.

Aos que chegavam a noite no ultrapassado trapiche, era comum encontrar o garoto que era visto como mais inteligente do grupo, Traça, nesse horário era sempre rodeado de outros meninos, dos mais novos aos mais antigos. Seu apelido derivava das verdadeiras traças que devoram os livros para se alimentar, todavia esse garoto tinha uma fome por conhecimento muito grande, era o único do grupo que tinha um domínio total da leitura e da escrita, os outros apenas atingiam apenas superficialmente os artifícios da língua. Quando o de cabeça avermelhada chegou, sentou-se na areia como qualquer um dos outros, como se não fosse o capitão de toda aquela molecada, ele prestigiava seu amigo, não era seu momento, era o de Traça.

Traça segurava um livro intitulado “As 4 Estações de Magiha”, esse conjunto de pergaminhos encadernados era definitivamente a coisa mais valiosa que havia naquele pequeno local, provavelmente aquele seria o último que os garotos veriam pelo resto de sua vida. A origem dele era desconhecida até para Traça, só lembra de ter encontrado ele debaixo da cama de seu último lar, é a única coisa que guarda consigo de lembrança. Quanto a história dentro do objeto, tratava-se de uma escola de magia, fascinava quase todos a ideia de magia, porém, era algo difícil de acreditar, parecia representar esperança para alguns, e outros eram afetados pelo amargor da vida que os tornavam indiferentes a tudo.

Ao finalizar a história, o amontoado de moleques foram para os seus cantos como um exame de ratos ao serem encontrados pelo fogo de uma tocha. Finzor ia atrás do seu novo ajudante. Arthur era um dos novatos do bando, um garoto humano de cabelos pretos que percorriam suas costas, juba que seguia eninhada como um ninho e sujo como o próprio chão, vestido em farrapos. O olhar cabisbaixo era característico de muitos, o do jovem Arthur também, isso não significava que ele fosse apenas um passivo vulnerável, pelo menos foi isso que deduziu Finzor que já tinha visto o que o baixinho podia fazer.

As mãos leves de Finzor encostaram no ombro de Arthur que se virou rapidamente. – E aí, tenho um bico pra você, aposto que cê pode ganhar uma boa grana, hein? – Arthur se virou surpreso, pensou que pudesse ser uma boa chance pra obter contatos e quem sabe, amigos. O moleque era novo na região, Finzor e os Mundinos já fizeram muito o acolhendo, por que não retribuir? Aceitou de bom grado e então Finzor explicou-lhe o plano passo a passo enquanto a noite escorria como areia de uma ampulheta.