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Outros Carnavais parte.1
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ACE
Ace nunca foi bom com despedidas, nem com recomeços.
Mas aeroportos sempre lhe deram a estranha sensação de que o mundo estava prestes a pegar fogo de um jeito interessante.
O calor o atingiu antes mesmo de sair do avião.
Não era apenas o clima tropical — era um calor vivo, úmido, barulhento, cheio de vozes misturadas, risadas altas, passos apressados e música escapando de fones de ouvido alheios. O Brasil não pedia licença. O Brasil acontecia e pisar aqui era descobrir que não há melhor lugar no mundo para se viver.
— Eu te disse que aqui não brinca em serviço — Sabo comentou ao lado dele, óculos escuros no rosto, camiseta clara colada no corpo pelo suor e uma latinha de coca-cola nas mão. — Carnaval, meu irmão. Sobrevive quem sabe se render.
Ace puxou o colar pelo instinto, o pingente quente contra o peito, e sorriu de lado.
— Já enfrentei coisa pior.
Mentira parcial. O que ele não dizia — nem a Sabo, nem a si mesmo — era que aquele país vinha carregado de memórias que ele preferia manter enterradas. Um nome específico. Um rosto. Um cheiro que ele nunca conseguiu esquecer direito.
Luffy surgiria só no dia seguinte. A ideia era simples: visitar os parentes, conhecer a cidade, beber demais, rir alto e esquecer do mundo por alguns dias. Um plano sólido e quase responsável.
Quase.
O trânsito os engoliu como um vapor quente. Vidros abertos, buzinas sem ódio, vendedores ambulantes disputando espaço com turistas perdidos. Tudo pulsava. Tudo parecia vivo demais.
— Hoje tem bloco perto da praia — Sabo continuou, animado demais para quem já estava suando em bicas. — Nada planejado. Só gente, música e caos. A cara de vocês dois.
Ace riu, inclinando a cabeça para fora da janela, sentindo o vento quente bater no rosto.
— Carnaval é sempre igual em qualquer lugar — disse, sem convicção. — Pessoas tentando esquecer quem são por algumas horas.
— Ou lembrando — Sabo corrigiu. — Do jeito mais perigoso possível.
Ace não respondeu porque, no fundo, ele sentiu. Aquela pressão estranha no peito. A sensação incômoda de que algo — alguém — estava perigosamente perto.
À noite, a cidade se transformou.
Luzes coloridas penduradas em fios improvisados. Música alta demais para qualquer bom senso. Corpos dançando sem vergonha, sem cuidado, sem amanhã. O cheiro de cerveja, sal, suor e perfume barato se misturava no ar como uma promessa imprudente.
Ace caminhava no meio da multidão com facilidade. Camiseta preta aberta, bermuda leve, o corpo marcado pelo sol e por uma confiança que não precisava ser exibida. Olhares vinham. Sempre vinham. Ele percebia, mas raramente se importava, sabia que era gostoso e isso não o envaidecia.
Até perceber.
Não foi imediato. Uma gargalhada feminina próxima atravessou o barulho e chegou até ele. Ace virou o rosto por reflexo e seu mundo perdeu o eixo.
Ela estava a poucos metros. Cabelo solto, pele iluminada pelas luzes coloridas, vestida com algo simples demais para o estrago que causava em sua mente. Não dançava para chamar atenção e sim porque o corpo pedia. Livre, viva e familiar demais para ele.
O coração de Ace errou o ritmo.
"Não. Não podia ser." Ele pensou. A memória veio como um soco: noites quentes demais, conversas longas, mãos que sabiam exatamente onde tocar e como ultrapassar todos os limite... e o momento em que tudo terminou sem explicação suficientes.
— Ace? — A voz de Sabo soou distante, ele não respondeu porque naquele exato segundo, ela levantou os olhos.
O sorriso dela vacilou por meio segundo — só o suficiente para confirmar o impossível era ela mesmo.
O passado não apenas voltou. Ele estava ali, dançando sob luzes de carnaval, sem a menor intenção de pedir desculpas.
Ace sentiu o peito queimar. O maldito desejo antigo e a raiva mal resolvida, fora a curiosidade perigosa demais para ignorar. Ele não sabia ainda, não fazia ideia de quem ela realmente era, muito menos do laço invisível que a conectava ao homem que ele mais respeitava no mundo.
Só sabia de uma coisa: Alguns carnavais não passam.
Eles marcam e aquele... Prometia incendiar tudo e mudar para sempre sua vida.
JULIETA
Julieta estava um pouco irritada, ela não tinha planos de ficar no Rio de Janeiro, na verdade ela até mesmo se arrependeu de fazer a viagem, mas quando Sabo afirmou que seria impossível encontrar com Ace pois ele tinha dito que viajaria para Londres ela aceitou. Veja bem, não é que Julieta estivesse evitando Ace, ela estava mesmo fingindo que ele nunca existiu. O término não foi legal e tudo o que ela queria era esquecer o castanho sardento de sorriso fácil e corpo perfeito que atormentava sua mente todas as noites com as lembranças de quando namoravam. Agora ela estava ali descrente porque estava no bloco vestida de sereia e não conseguia se divertir pois tinha a sensação de que ele estava perto.
— Quer relaxar Sakazuki? Ninguém está mais aguentando esse seu estresse. — Izo afirmou e ela deixou os ombros relaxarem um pouco. — Fora que Ace não veio, até Marco pensou nisso, mas ele disse que não viria e que iria encontrar o pai, então relaxa de uma vez.
Julieta soltou o ar devagar pelo nariz, como quem tenta convencer o próprio corpo a obedecer a cabeça.
— Eu estou relaxada — mentiu, girando o copo plástico entre os dedos. A cauda de sereia improvisada balançava conforme ela mudava o peso do corpo, desconfortável demais para alguém que claramente não queria estar ali.
O bloco avançava pela rua com aquela energia caótica típica do Rio: gente cantando errado, gente dançando sem ritmo, gente feliz demais para notar o mundo ao redor. Julieta, no entanto, sentia cada segundo como se estivesse sendo observada.
Era irracional. Ridículo, até.
Ela tinha aceitado vir justamente porque Sabo garantira — com aquele ar sério demais para alguém tão dado ao exagero — que Ace não pisaria no Rio, não naquela cidade onde os parentes de Luffy residiam. Que tinha recusado o convite. Que estava fora de cogitação.
E ainda assim...
— Você tá com essa cara desde que chegamos — Izo continuou, bebendo um gole longo da cerveja. — A fantasia tá ótima, inclusive. Mas o olhar... parece que vai lançar um raio em alguém!
— Fantasia de sereia é uma péssima escolha logística — Julieta resmungou. — E eu odeio multidão.
— Você ama multidão quando quer — Izo rebateu, rindo. — Só odeia quando tá fugindo de alguém...
Ela lançou um olhar afiado para ele. Izo vestia um traje de gueixa improvisado, tanto quanto o dela e Marco que tinha sumido depois de uma morena o agarrar, estava vestido de fênix, ao melhor: desvestido pois, um short e uma pintura no cabelo não contavam muito.
— Não estou fugindo. — Afirmou.
— Claro que não.
Julieta ia responder algo atravessado quando sentiu. Não viu primeiro. Sentiu.
O ar mudou. Como se o calor tivesse ficado mais denso e pesado. Um arrepio subiu pela espinha, completamente incompatível com os quase trinta e dois graus daquela noite.
Ela congelou por meio segundo.
— Izo... — começou, baixo demais.
— Se você disser o nome dele agora, eu vou fingir que perdi a audição — ele avisou, ainda de costas.
Tarde demais.
Uma gargalhada masculina soou atrás dela. Familiar demais... Fácil demais. Aquela risada que sempre vinha antes de alguma confusão ou de um comentário idiota que inexplicavelmente funcionava.
Julieta fechou os olhos.
Não existe, não é real é só memória auditiva e o álcool que eu consumi.
— Cara, eu juro que foi sem querer — a voz disse, agora mais perto.
O copo dela foi esbarrado de leve. Um respingo frio tocou seu braço.
Ela abriu os olhos.
Ace estava ali.
De verdade. Inteiro e bronzeado, sorriso torto, sardas espalhadas como se o sol tivesse decidido assinar o rosto dele. Camiseta aberta e ainda assim colada no corpo pelo suor, cabelo bagunçado demais para ser uma mera "coincidência."
Por um segundo, nenhum dos dois disse nada.
O barulho do bloco parecia distante, como se o mundo tivesse dado dois passos para trás só para assistir.
— ...Juli? — ele disse, incerto pela primeira vez na vida.
Ela o encarou com uma calma que não sentia, maquinando o que faria.
— Não.
Ace piscou.
— Não...?
— Você deve estar me confundindo com outra sereia — respondeu, virando o rosto com elegância e dando um gole longo na bebida. — Acontece muito no carnaval.
Izo mordeu o lábio para não rir, principalmente quando Portgas o encarou descrente. Será que ela esqueceu que Izo era tão filho de Edward quanto Ace?
O castanho soltou uma risada curta, incrédula, passando a mão na nuca.
— Você sempre foi péssima fingindo que eu não existo.
Ela girou lentamente para encará-lo outra vez, agora com o sorriso mais falso que conseguiu fabricar.
— Engraçado. Eu fiquei ótima nisso nos últimos meses.
Ele emudeceu de maneira desconfortável ainda que sustentasse o olhar. O sorriso fácil vacilou só um pouco, o suficiente para denunciar que aquilo tinha acertado em cheio.
— Eu... não sabia que você estaria aqui.
— Nem eu sabia que você era péssimo cumprindo promessas — retrucou.
Ace abriu a boca, fechou. Pensou melhor.
— Sabo disse que você vinha.
— Sabo disse que você não vinha.
Izo levantou o copo.
— Comunicação é uma coisa linda, né? — comentou, antes de se afastar discretamente. — Vou ali... existir longe dessa tensão.
Sozinhos. De novo. Ace respirou fundo, sério agora.
— Juli, eu não vim atrás de você.
— Parabéns — ela respondeu, seca. — Funcionou por uns bons cinco minutos.
Ele riu, mas havia nervosismo ali. Um desconforto raro pois, no fundo queria muito se resolver com ela.
— Você tá linda — foi sincero, nunca conseguiria mentir, não para ela.
— Carnaval faz isso com qualquer um.
— Não — ele rebateu. — Faz com você.
Ela desviou o olhar. Odiou o reflexo imediato do corpo, o coração acelerado e a memória queimando, cheia de vontade de reaver o que um dia já foi seu, mas pelo bem da própria saúde mental empurrou aquela vontade para o fundo da mente.
— Ace... — começou, firme. — Isso aqui não é uma boa ideia.
— Eu sei.
— Então por que você tá sorrindo assim?
Ele deu de ombros, aquele gesto antigo que sempre precedia uma decisão impulsiva.
— Porque alguns erros... continuam sendo as melhores coisas que já aconteceram comigo.
Julieta riu, sem humor.
— Você sempre teve talento pra falar besteira de forma bonita.
— E você sempre fingiu que não gostava.
Os olhos dela encontraram os dele de novo. O silêncio entre eles parecia adoçar o que viria a seguir. O bloco avançava, a música subia e o carnaval seguia e, contra toda lógica, Julieta teve certeza de uma coisa:
Ace não tinha aparecido por acaso. E aquele reencontro... Ia dar trabalho.
