Chapter Text
"Como cão, não sou exigente: meu colega de quarto é um homem tranquilo, sempre me dá água gelada filtrada, me disponibiliza aquela porcaria de ração da melhor qualidade, que eu faço de petisco da tarde. Eu aperto o botão com a pata e uma quantidade humilde, porém o suficiente, de ração cai na minha tigela. É ótimo, não é um inconveniente e ela sempre está crocante e fresca."
"Agora, minha real alimentação é de dar inveja a todos os cães do bairro: ele me alimenta com cenouras, pata de coelho, brócolis, orelha de boi e pescoço de galinha; fígado ou coração quando quer variar, ovos crus e uma porção de suplementos que ele faz questão de deixar separados em potes pequenos. Esse é meu almoço; no café da manhã, ele, que é ocupado e trabalha, sempre deixa uma vasilha de iogurte de coco ou banana me esperando perto do meu comedouro automatizado. Já comentei que foi ele quem fez? Ele é um exemplar bem inteligente para a raça."
"E para o jantar? Depende quase exclusivamente do que ele vá comer. Se for lamen, ele pede uma versão sem cebola para mim; se for yakisoba, ele pede uma opção do cardápio infantil ou algo assim. Normalmente, comemos juntos ou eu janto a mesma coisa do meu almoço."
"Quando ele volta do trabalho, ele escova meus pelos pretos e vê se não tem nenhum carrapato em mim. Depois andamos na área residencial, às vezes até corremos 5, 10, 25 km em uma única tarde. É ótimo; em troca, faço companhia a ele e deito em cima do peito do rapaz quando o jovem está tendo suas crises de pânico."
"Ah, que inconveniente o meu. Prazer, eu sou Saito Ryuu, sou um Borzoi. E o meu colega de quarto? O nome dele é Saito Shuichi. É um homem solitário."
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Fukuoka, 2005, 16:20
"Eu morava com meu companheiro em um apartamento confortável perto de Nishijin, Sawara-ku. Estávamos no outono, logo o frio cortante do inverno chegaria... Tínhamos aquecedor, sobrevivemos a outros invernos, como sobrevivemos a verões com ventilador e tosas mais curtas para não entrarmos em combustão... Mas era isso, sobrevivemos. Dizem que a primavera é uma época romântica, eu discordo. O outono deveria ser considerado a verdadeira época do romantismo, um romantismo que, dentro daquele apartamento, está totalmente morto. Todas as épocas do ano eram tristes para os solteiros, mas o outono era especialmente triste."
O Borzoi pensou, se esticou e foi até a janela para observar a rua. Não que ele precisasse de um travesseiro, mas Shuichi Saito sempre deixava uma almofada ali para ele se sentar confortavelmente enquanto via a vida passar.
Shuichi Saito não se incomodou em tentar ver o que o cachorro observava; ele estava mais ocupado fazendo a planta de um estacionamento funcional do novo prédio comercial perto do shopping.
O Borzoi olhou para seu companheiro e suspirou em frustração.
"Trabalha, trabalha, trabalha... não que ele precise de fêmeas para limpar a bagunça dele. Não, não, ele era metódico demais. Nem parecia que alguém estava vivo dentro daquele apartamento, era tudo tão clinicamente limpo e tão clinicamente neutro que dava arrepios a quem entrasse. Os pais dele diziam coisas que eu, como cachorro, não me importava em entender: 'bom trabalho', 'você é bem organizado'. Sim, claro, organização é bom, mas faltava um pouco de cor no ambiente. Como cão, sou daltônico, não sou bom com cores, então a palavra certa seria... Vida? Talvez uma voz extra que não fosse a da televisão? Ele era tão calado que eu já me assustei quando ele me chamou para passear..."
O cachorro olhou para Shuichi, olhou para o relógio e revirou os olhos. Andou pela bagunça organizada que estava na sala. Normalmente, Shuichi se trancava no escritório dele e ficava até a hora de eles passearem, mas a lâmpada quebrou e ele esqueceu de comprar uma nova, então ele está aproveitando a luz natural da sala de estar e a lâmpada funcional.
"Querem saber de uma coisa? Essa noção de que a vida de quem mora sozinho é glamourosa e tranquila, sem pais para atrapalharem ou sem garotas para tomarem seu tempo, não passa de conversa, uma ilusão que uma pessoa solitária conta para a outra sem pensar duas vezes; é uma epidemia de mentiras doces. E Shuichi Saito? Bem, se dependesse dele, nós dois morreríamos sozinhos, e só achariam nossos corpos quando tudo começasse a feder ou o aluguel atrasasse." O cachorro se espreguiçou e bocejou em pura frustração, enquanto continuava seu monólogo mental e melodramático em que tudo se resumia a um cachorro que se sentia sozinho, pois o companheiro bípede estava se sentindo mais sozinho ainda.
Shuichi, como humano, companheiro bípede e viciado em trabalho, não estava prestando atenção e nem conseguiria entender a preocupação do companheiro canino. E se entendesse, ele falaria: "Não se preocupe, Ryuu, eu estou bem."
É claro que ele não estava. Ele era um amálgama de solidão e melancolia; ele estava tão sozinho que até o cachorro estava ficando depressivo.
O cachorro suspirou de novo e voltou a olhar pela janela.
"É evidente que meu companheiro humano precisa de uma companhia. Gostaria eu que fosse fêmea; machos humanos costumam emburrecer perto das fêmeas humanas quando se apaixonam. Talvez desligar um pouco a cabeça daquela máquina de carne faça bem a ele. Mas se for outro humano macho, tudo bem. Como cachorro, não me importo tanto com o sexo das pessoas em volta do meu companheiro bípede tanto quanto me importo com esse clima de melancolia que não desgruda dos meus pelos pretos. Se todos os cães vão para o céu, eu tenho que fazer por onde merecer."
O cachorro olhou para Shuichi e virou a cabeça um pouco.
"Bem, ele é extremamente inteligente para um humano. Em uma reunião de trabalho em casa, já vi como os outros machos ficam calados o ouvindo latir coisas inteligentes só para aplaudir depois. É estranho esse comportamento, mas se fazem isso, é porque algo bom, com certeza, deve sair da boca dele. Além disso, foi ele quem fez o meu comedouro automático; só por isso, ganha +50 pontos. E, para um exemplar saudável da raça, definitivamente não é um dos mais feios, mais +50 pontos. Agora divida por 3, e o resultado é o carisma dele e a vontade de socializar... Se for contar só pelos atributos de aparência e inteligência, não deve ser tão difícil achar uma companheira para ele. Se falhar, vamos ter que trabalhar o carisma dele perto de outros homens."
O cachorro se levantou e andou até uma estante, ficou em suas duas patas traseiras e ficou observando atentamente uma foto dele com uma jovem de cabelos curtos e ruivos, rosto redondo e sorriso meigo. Ele segurava a cintura dela e ambos estavam vestindo yukatas. Isso foi em Kurozu-cho; Ryuu era muito filhote para lembrar das coisas dessa época.
— Ei, garotão, não mexa aí — Shuichi falou, sua voz estava rouca por causa do desuso.
Só aquilo fez o cachorro se assustar e recuar.
"Ele é uma assombração, mas pelo menos eu sei para que lado eu devo procurar: rosto redondo, mais baixa do que ele, olhos grandes, cabelos claros, eu acho."
O cachorro voltou para a janela, deu uma última olhada para o parceiro e, depois, para o relógio.
16:50. Os passeios da tarde começariam logo naquele bairro.
Não demorou nem 5 minutos.
O cão abanou o rabo quando viu a primeira dupla.
Andando de maneira calma e pacífica, uma jovem de vestido longos, óculos redondos e castanhos caminhava com o seu gato na coleira.
O cachorro não deixou de virar a cabeça, quase descrente do que observava.
"Que raça esquisita... Esquisita é pouco, é uma desgraça. Ah, ali!"
O cachorro observou uma senhora mais madura e corpulenta passeando com o seu pug.
"Não... Muito baixinha, e a cadela dela já é velhinha, não deve nem conseguir correr alguns metros sem cansar... Na verdade fiquei até surpreso por ela conseguir andar sem desmontar"
Ele encostou a cabeça no batente da janela. A rua, por alguns minutos, ficou apenas com a movimentação dos carros, até que na calçada apareceu uma mulher. Parecia ser só um pouco mais velha que o Shuichi. Usava um sobretudo cor de vinho e uma boina, magra e alta, cabemos curtos em um penteado chanel.
"Ah! Essa sim! Tipo aristocrática!" O cachorro observou mais um pouco e suspirou, percebendo que shuichi jamais olharia para ela "Ah... não, não... Aristocrática demais... E o cachorro dela é um macho... Que desperdício."
Uma senhora passou com sua chihuahua
"Aquela é muito velha."
Um garotinho passou andando em um triciclo com o cachorro na garupa
"Aquilo são dois filhotes em cima de um veículo de alta periculosidade."
O cão já estava quase desistindo quando viu, praticamente, um paraíso peludo dos animais domésticos de quatro patas. O coração do Borzoi parou por um momento.
"Meu Deus, mas é a criatura mais bonita de quatro patas que já vi... E é uma fêmea... Quase consigo sentir o cheiro dela daqui de cima."
Naquele momento, o Borzoi ficou quase perdidamente apaixonado por uma Shiba-Inu que estava balançando o rabo enquanto fazia várias paradas para cheirar o chão. Tranquila, parecia ter todo o tempo do mundo, e talvez tivesse. Ela parecia tão feliz, tão animada, tão livre e leve.
Aquela Shiba-Inu era baixinha, mas era... Linda... O pelo dela brilhava com o sol da tarde.
Ele então seguiu o fluxo da coleira com os olhos e foi ali que o coração do Borzoi parou novamente. A mulher da foto, passeando pacificamente com sua companheira de quatro patas.
"Impossível! Não! Não! Não posso perder essa oportunidade! Eu quase não podia acreditar no que meus olhos cansados estavam vendo, eu não teria a mesma oportunidade nem em mil anos, não, não. Eu precisava agir, precisava ser rápido."
Ryuu olhou para o relógio: 17:00. Faltavam 22 minutos para o passeio deles, assim não daria tempo...
Ele tinha que agir...
