Chapter Text
[DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE
DE INQUISIDOR DO VALE - 03:21 AM]
O telefone toca mais uma vez, o chamado irradiando pelas paredes frias da delegacia praticamente deserta, o vento uiva batendo violentamente contra as janelas gradeadas
— 190, qual o local da emergência?
— ah! é você!! finalmente! Jasper né? Aguiar falou pra eu não usar essa linha, mas eu não tenho celular e-
Reconhecendo a cadência libertina na voz, as palavras se embaralham na mente de Jasper como um zumbido abafado, ecoando distante nos ouvidos e um único pensamento lhe ocorre
"ah,porra, ótimo, mais um maluco pra me perturbar…"
— … Então, seu turno acaba quando mesmo? – A pergunta paira no ar por alguns segundos
O agente consegue sentir uma diferença sutil no tom usualmente despreocupado do outro lado da linha. Juan continua
— Sabe, eu ‘tô numa situação meio complicada… se eu não arranjar logo um lugar pra ficar posso acabar me metendo em problema de novo… a gente aqui não é muito acolhedora…
O vento uiva mandando alguns papeis pelos ares, e Jasper ouve o tremor na respiração de Juan pelo telefone
— Aquele uuuh… sofá, já tá ocupado? não que eu me importe em dividir… – Jasper sente um pouco de malicia na última palavra
— … O delegado viajou e a sala tá trancada… você tá na rua?
— Não, ‘tô num hotel cinco estrelas! Com vista para a delegacia, inclusive! O que você acha, detetive? – Ironiza
— Certo…uuhh e como eu posso t- ‘pera- se tu não tem celular, como você ligou pra cá?
— Ah, heh, peguei um emprestado, não esquenta com isso…
— Juan…? Onde você arranjou isso?!!
— O que ?! Eu vou devolver, eu prometo! ou não... Aguiar nunca nem deu falta… enfim, ninguém mais usa esses de botão, mas eu prefiro, então não tem problema!
— Meu deus… você pegou da sala dele?! Isso é evidência, maluco!
— Não é não! ele disse que era descartável, usar e jogar fora! que diferença faz? – retruca – mas aí, acha que dá pra descolar um canto pra mim…?
— Tá, tá… uhm… espera aí então, eu vejo o que consigo arranjar, só não faz nenhuma besteira, por favor!
— Hmm, ok, mas se demorar muito, já não posso prometer nada! até!
A chamada encerra com Jasper pinçando entre os olhos, definitivamente teria de ter uma conversa séria – e dessa vez conversa mesmo – com o delegado estupidamente irresponsável que chamava de chefe. Lançando um olhar rápido pro relógio, faltavam de fato apenas alguns poucos minutos pro fim de seu expediente.
“Casos de última hora são sempre os piores..." pensa com um suspiro arrastado, cansado dos dias que pareciam nada produtivos naquele lugar. Ele junta o restante dos documentos que a corrente de ar havia espalhado anteriormente, correndo os olhos pelo escritório já vazio, ele era o último, como sempre, salvo os guardas que rondavam as celas e recepção em outros setores.
Uma meia hora depois, cruzando o portão da garagem, ele espreme os olhos na neblina fina, o ar gelado pintava a pele albina num leve tom rosado nas bochechas e ponta do nariz. Jasper prende a mochila no peito, puxando sua moto pra calçada enquanto observa ao longe um rapaz maltrapilho abrigado do sereno, encolhido num ponto de ônibus mal iluminado, com um cigarro preso entre os lábios que se abrem num sorriso largo ao perceber o agente acenando pra ele do outro lado da rua.
— E aí, bonitinho, sentiu saudades? Vim fazer uma visitinha, qual cela ‘cê vai me botar? geralmente eu uso a dois… – Ele atravessa o asfalto frio com os pés descalços, tagarelando e subindo os degraus até a porta de entrada como se já fosse algo habitual
— Huh? ah! não, nenhuma, eu não posso- uh… simplesmente te prender… – diz coçando a nuca, meio sem graça.
— …Ah, entendi… puta merda, tá, ok, beleza, sem problema, não custa nada tentar né, haha…– Dá de ombros, já terrivelmente acostumado com rejeições – Enfim…a gente se vê por aí, então... – se despede com um soquinho no peito do loiro, virando as costas
Jasper agarra o ombro de Juan num reflexo, fazendo um convite que não parecia nada concreto, suas palavras saiam no improviso mas mesmo assim eram carregadas de intenção
— Ah! não, espera! uuhh… eu pensei- v-você- …eu posso, uhm, você pode dormir em casa por hoje…se quiser! Eu, não tenho a chave das celas, mas, uh- se for em casa, não tem problema…?
A oferta pega ambos de surpresa, afinal, eles mal se conheciam – bem, isso não era inteiramente verdade, pois dividiram algo muito mais íntimo, mas agora era diferente – . O apartamento de Jasper era minúsculo, e por muitas vezes pensou que ele mesmo já não cabia mais ali, mas pra morar sozinho a troco de um aluguel barato, era bom o suficiente. De todo modo, o garoto gentil e certinho dentro de si não suportava ver Juan daquele modo sem interferir
— …Eu…? na sua casa…? Heh, isso não é meio perigoso? – O moreno pergunta arqueando a sobrancelha, um sorrisinho leve se formando, esperançoso, talvez
— Hmph, eu sei me cuidar, ok?! E eu não posso deixar você invadir qualquer outro lugar! assim pelo menos evito uma dor de cabeça enorme, eu te tranco no banheiro, se for preciso…! – retruca, meio sério demais
— Touché, Você tem um ótimo argumento! eu não ia querer perturbar ainda mais essa cabecinha linda! – Brinca, afagando os fios platinados
— Ngh, para com isso – vira o rosto acanhado – Eu nem poderia fazer esse tipo de cois- Ah! merda! eu não tenho um capacete pra ti! – interrompe já montado, vendo Juan se aproximar
— Urgh- quem se importa! já é madrugada, e você literalmente trabalha na polícia, e só rasgar a multa e ninguém nunca vai saber!
— … mmh… certo, só dessa vez, ok? - diz receoso
O loiro cede, vendo um sorriso ainda mais largo acender o rosto do moreno, agora entendia um pouco de como ele dobrava fácil Aguiar, apesar da conduta questionável, ele tinha um charme inegável
— aqui, veste isso, tá muito frio pra usar só… isso aí
Jasper remove a própria jaqueta grossa de couro preto, entendendo para ele, que usava um só casaco vermelho meio surrado e calças largas sem nenhuma camiseta por baixo, sentindo sua pele fria e eriçada quando os dedos se encostam por um breve momento. O tamanho largo tinha um caimento quase cômico no corpo magro de Juan, mas ele toma a peça de bom grado, puxando o zíper até a gola alta do pescoço com uma feição confortável e agradecida pelo calor que agora lhe cercava como um abraço quentinho.
Jasper calça as luvas e capacete, soltando um “Segura aí" abafado pela viseira quando o som do motor engole o silêncio da noite. O vento forte já tinha dado lugar a uma garoa densa que molhava as ruas desertas, refletindo nela a luz amarelada dos postes durante o trajeto.Os braços de Juan envolviam seu torso num aperto firme, a mão agarrava a camisa por apoio e ele tinha o rosto aninhado em suas costas num gesto inesperadamente adorável.
Pouco depois, finalmente chegaram em frente a um prédio antigo de arquitetura charmosa, nele não havia portaria, apenas um portão velho e inferrujado que rangeu alto demais ao soltar o trinco que segurava juntas as grades da entrada. Subiram por dois lances de escada com um cuidado excessivo, por conta do horário, como se o ronco da moto estacionando já não tivesse sido incômodo suficiente.
Mal cruzaram a porta de entrada no fim do corredor estreito para adentrar o apartamento humilde e Juan já tinha agarrado Jasper, puxando sua nuca pra baixo e selando os lábios num beijo voraz, enfiando a língua duma vez. O avanço repentino do rapaz manda um arrepio na espinha de Jasper que se afasta, surpreso
— mmnNGH?! o- o que foi isso? você- uuhhh…? – O loiro rompe o beijo, segurando os ombros de Juan, seus olhos arregalados com o choque
Juan lhe encara igualmente confuso
— Huh? ah… é que- você me chamou pra sua casa… então eu achei que- uhhh… tu quisesse fud-
— O QUE?! qu-QUer dizer, não! não é isso não! Eu só- … não podia te deixar ficar na rua! Tá muito frio e- é perigoso também!! – justifica desesperado, sua a voz falhando um pouco, corado até as orelhas
Juan sente as bochechas arderem de vergonha, algo inédito pra quem tinha o costume adquirido de viver descaradamente
— Ah! sim, foi mal! claro, o-obrigado por isso… – responde acanhado, olhando pro chão
um breve silêncio constrangedor se estende por alguns segundos, até um roncar alto do estômago do jovem quebrar a tensão com um risinho sem graça
— haha, desculpe, e-eu acho… uhhh, ’cê tá com fome? eu sempre como qualquer coisa antes de deitar – engole seco sentindo o rosto ficar ainda mais vermelho com a escolha infeliz de palavras – você quer algo? eu não sei fazer muita coisa mas posso tentar se for simples… – vira as costas em direção a cozinha pra disfarçar o constrangimento
— Não precisa! não quero incomodar, só ter um teto já me ajuda pra caramba…
—Naah, não é incômodo, eu já ía fazer mesmo – responde, enchendo um bule de água e acendendo uma chama baixa no fogão velho
Juan corre os olhos pelo apartamento enquanto Jasper mexia pelos armários. Era um espaço pequeno mas confortável, limpo porém bagunçado, de modo que parecia vivo. A mobília era antiga, em madeira escura marcada com alguns arranhões e lascas faltantes pelo tempo, um pequeno sofá tinha um dos pés escorados numa pilha de livros grossos, havia uma mesinha de centro abarrotada de pastas e documentos espalhados, assim como a na mesa de jantar, com apenas três cadeiras – todas diferentes – e uma escrivaninha no canto da sala, todas num estado caótico similar.
Despindo a jaqueta, Juan a pendura em um dos ganchos de parede próximos a porta de entrada com um cuidado excessivo, como se fosse algo valioso, e se encolhe parado no meio do cômodo, um pouco deslocado. Jasper observa de canto de olho
— Hmm… fique à vontade, o sofá e- bom, tudo aqui é meio velho…
— não, não, melhor não, eu fico aqui mesmo, além disso eu ‘tô- um verdadeiro nojo, haha… – nega, com um sorrisinho sem graça, segurando a barra do casaco sujo
— Oh, verdade! você pode- uuh… tomar banho, se quiser! eu te empresto umas roupas, devo ter algo que caiba em ti, O banheiro é logo ali – oferece, apontando para uma porta
—... Certo… obrigado, eu aceito então… – diz, após um breve silêncio ponderado, logo se afastando a passos tímidos em direção ao cômodo
Pouco depois, Jasper dispõe na bancada uma porção de biscoitos sortidos junto a um bule fumegante de chá, um outro caneco de chocolate quente aquecendo no fogo. Inquieto, o loiro arranja as coisas de forma calculada, trocando as posições das xícaras até que pareçam certo, ruminando o meio-termo estranho entre eles, tão íntimos e desconhecidos ao mesmo tempo. O devaneio é interrompido pelo chamado acanhado de Juan
— Uuh… Jasper? Você pode- Uhm… as roupas, por favor…?
— Ah! perdão, eu esqueci, um segundo, já lhe trago! – diz, tropeçando pelo caminho em direção ao quarto
O agente volta trazendo uma pilha de roupas e para de frente a porta com duas batidinhas suaves, Juan abre. O vapor quente do chuveiro embaça seus óculos e, removendo-os pra limpar as lentes, se depara com o corpo nu do moreno, a pele tatuada pintada em vermelho e os cabelos ainda úmidos emoldurando seu rosto. Jasper encara boquiaberto por alguns segundos até se dar conta e desviar o olhar, envergonhado
— Aqui! e-eu vou buscar outra toalha! - entrega as peças para Juan que apenas acena com a cabeça, divertido
— Pffft Obrigado… – ri baixinho, vestindo a camiseta folgada e dobrando a barra de uma calça moletom comprida demais para ele
Juan seca os cabelos apenas esfregando a toalha com força, pro desespero do loiro que observa horrorizado ele deformar os leves cachos com o movimento bruto
— Não, não! espera, faz assim, olha – Ele interrompe, se intrometendo e passando as mãos suavemente pelos fios e amassando, seguindo a ondulação natural deles
A proximidade repentina faz Juan se encolher, surpreso. Seu olhar encontra o de Jasper, os grandes olhos azuis lhe fitando demorado antes de desviar novamente, mudando de assunto
— Uhm, eu fiz chá… tem chocolate quente também, vem, antes que esfrie…
O cheiro adocicado preenchia o ambiente, eles repartiam a ceia num silêncio casual. Era uma situação um tanto diferente, Jasper performava esses pequenos rituais cotidianos sozinho, então ter uma outra presença ali era inesperadamente agradável. Juan, por sua vez, aceitaria tudo vindo dele de bom grado, e parecia especialmente encantado com o chocolate quente que bebia com uma satisfação quase infantil.
Antes de se deitar, Jasper oferece uma escova de dentes nova e um cobertor grosso antes de desaparecer pro próprio quarto, girando o trinco com um “click" definitivo. Juan ri pra si mesmo, grato por não ter sido ele preso no banheiro como prometido. Ele adorava o garoto por isso, o que tinha de bom tinha de ingênuo, e assim tornava mil vezes mais divertido provocá-lo. O moreno se ajeita no sofá, ouvindo a madeira velha ranger perigosa a cada micro movimentação, não era exatamente confortável, mas o calor e o aroma suave do amaciante em suas roupas e no cobertor, somado ao cheiro de "casa” daquele lugar, embalavam seu sono num combo perfeito.
No quarto, Jasper mal conseguia pregar os olhos. Desbravava a insônia habitual de uma mente que não descansava, pairando nela sobre a pilha de documentos, trabalho e casos ainda não solucionados numa espiral sem fim. Por isso aceitava os turnos da madrugada – além de não haver nenhum outro voluntário – Já estava acostumado com as incontáveis noites em claro. Pensava sobre tudo e nada ao mesmo tempo, contava as rachaduras no teto, atento ao uivo do vento lá fora, os estalos da mobília e do prédio antigo, seguia o movimento dos feixes de luz que invadiam pelas frestas da persiana, divagando até cair sobre a porta fechada. Atrás dela dormia Juan, Jasper sabia muito sobre ele, mas não o conhecia de fato.
Certa vez, catalogando os ficheiros enquanto buscava documentos de um outro caso, reconheceu o rosto familiar nos registros. Deveria ter seguido o protocolo, mas sua curiosidade venceu. Correu os olhos pela ficha criminal extensa que não causava exatamente as melhores impressões.
Descobriu que ele havia crescido em um orfanato – e fugido da instituição algumas vezes – cometendo pequenos delitos desde a adolescência, em geral furtos e confusão. Haviam várias entradas também sobre internações e ferimentos graves, incluindo sua amputação, além de laudos médicos que estampavam “problemático" em sua testa. Descobriu seu nome de batismo, mas não o motivo pelo qual ele o abandonara. Conhecia as cicatrizes em seu corpo e rosto, mas nada sobre a origem das feridas. Isso lhe intrigava a ponto de passar noites – como essa – teorizando. Ele era quase sua obsessão, quase, mas no momento em que atendeu aquela ligação, temeu que agora fosse mesmo.
Um estrondo abafado quebra sua linha de raciocínio e ele se ergue num pulo, assustado. Um giro relutante do trinco, se depara com Juan estirado no chão, tão surpreso quanto ele mesmo com a cara ainda amassada de sono, uma pilha de livros esparramados denunciavam a precariedade e despencaram do apoio do sofá.
— Juan! Você tá bem? Se machucou? – Jasper oferece, ajudando ele a se levantar, amparando pelos ombros
— Mnnn não…não… foi mal pelo sofá, eu acho – responde num tom murcho, coçando os olhos, meio sem graça
— Ah, não, sou eu quem peço desculpas! eu também já caí algumas vezes…não se preocupe com isso
O moreno lhe encara com os olhos miúdos, ainda sonolento. Um vislumbre do relógio na parede ainda indicava o meio da madrugada.
— … Juan, você pode usar a cama, eu trouxe uns documentos que preciso revisar… e acho que não vou conseguir dormir tão cedo, ent-
— Nnn Não precisa… eu já me acostumei a dormir no chão – diz com os olhos cerrados, ainda escorado em seus braços
— Nah, é o mínimo, eu não tô com sono… – tenta, as olheiras fundas não lhe deixariam mentir, mas Juan parece cansado demais para notar
— Mnn… se você diz…
Jasper assente, guiando-o pro cômodo, cambaleando junto quando tropeçam em uma mochila jogada perto da mesa de cabeceira. Caem no colchão com um baque surdo, abafado pelo acolchoado, Juan deitado sobre si, ainda inerte. O albino tenta se levantar, mas falha com as pernas enroscadas no cobertor, fazendo o moreno resmungar algo incoerente. Então o loiro se ergue com cuidado e se senta escorado na cabeceira, vendo Juan rolar pro lado, encolhido.
Era difícil pra Jasper assimilar as tantas facetas, o contraste entre a personalidade intensa e indomável de horas antes com a do homem que dormia tão sereno e vulnerável ao seu lado era abismal. O jovem matava o tempo rolando a tela do celular lendo alguns artigos e notícias, cansado demais para realmente absorver o conteúdo, mas insone como era, tinha o mau hábito de se desgastar até apagar exausto eventualmente.
Com um suspiro, ele largou os óculos na mesinha ao lado da cama, deslizando para baixo dos cobertores e deitou-se encarando o teto novamente. Fechou os olhos por um instante, de certa forma a atmosfera daquele quarto parecia diferente, e sentindo um movimento leve no colchão, entendeu o porquê: era a primeira vez que dividia aquele espaço desse modo nos dois anos desde tinha assumido seu posto na delegacia e se mudado pra lá.
Jasper estreitou os olhos no escuro, Juan havia invertido a posição virado novamente, então agora podia sentir a respiração tranquila dele rebater em sua pele com a proximidade.
A cicatriz funda e grosseira no olho esquerdo destoava do rosto que era ainda mais bonito relaxado, Jasper tinha certeza disso, mesmo amassado e parcialmente enfiado no travesseiro. Seu olhar divagou contornando os traços das bochechas e maxilar, o nariz fino, as tatuagens no pescoço que desciam e se escondiam sob as roupas, suas roupas. A realização lhe causou uma sensação estranha, de repente percebeu como elas eram frouxas demais nele e que, apesar de usar o mesmo amaciante de sempre, o cheiro era muito diferente. “Claro, deveria ser mesmo” pensa. Antes, quando se encontraram mais cedo, ele tinha o cheiro – e gosto – de tabaco, mas agora só podia sentir o aroma suave do próprio shampoo exalando junto à pele, era algo tão ordinário mas causava uma tormenta intensa em seus sentidos.
Seu olhar pousou sobre os piercings nos lábios rosados, recordando a sensação deles contra os seus com um arrepio, a noite fria esquecida com o calor que tomava seu corpo. As memórias lhe invadiam de forma injusta, sentia o cansaço finalmente alcançá-lo nublando toda a razão. Fechou os olhos com força tentando evitar, não conseguiu. Lembrou-se dos atalhos que pegava pra desestressar, mas com o fluxo caótico de trabalho nas últimas semanas e a viagem repentina do delegado, sua frustração se empilhava de forma cruel, mal tinha ânimo pra comer, quem dirá pra se aliviar.
Os flashes vinham junto aos pulsos de sensações, desregulando sua respiração e causando um suspiro quando o joelho de Juan roçou sua coxa num movimento breve, inconsciente. Sentiu sua postura enrijecer, travando os músculos do abdômen involuntariamente. De nada ajudava seu sofrimento mudo o fato de que o homem que protagonizou cada uma das cenas eróticas que agora lhe torturavam se aconchegava cada vez mais perto até eventualmente abraçá-lo, largando um braço preguiçoso sob seu torso.
Seus batimentos martelavam contra o peito, e ele tinha certeza que Juan podia senti-los. Travou as coxas num reflexo quando a mão dele desceu naturalmente, se ancorando na cintura, agora invadindo completamente seu espaço. Jasper afogou um guincho na garganta, antes de chamar baixinho
— Juan…Juan… ei, Juan…!! – falou mais alto da última vez, sacudindo o moreno de leve, que resmungou uma, duas vezes, antes de encarar o escuro, piscando lento
— Hmmnn…? Jasper…? que…? – indaga, sonolento
— Uuhh eu- preciso ir ao banheiro…! – pontua, apertado leve no braço jogado sobre si e as pernas enroscadas que o prendiam ali
— hnng? ah… foi mal – responde alheio, deslizando a mão pelo abdômen para se erguer pelos cotovelos, raspando as unhas pelo tecido e causando um arrepio
O movimento repentino arrancou um gemido surpreso de Jasper, tensionando os músculos, sua voz quase nula num suspiro involuntário que quis acreditar que não, mas Juan definitivamente percebera, principalmente pelo modo em que o albino se ergueu num impulso desesperado
— …Jasper? que foi…? – seu olhar percorreu o rosto atônito manchado num rubor profundo, então desceu para encontrar as mãos ocultas sob o cobertor, curvando as costas e abraçando os joelhos – Nnn? Você…você tá duro? – pergunta com uma naturalidade estonteante, ainda meio bêbado de sono
— n-Não! eu só- unf- só precisOH!! – a frase morre num engasgo quando o moreno lhe apalpa, enfiando a mão entre suas pernas para sentí-lo
— mnn… mentiroso… eu sabia, você tá mesmo…– conclui, apertando o membro semi ereto pelo tecido, fazendo Jasper tremer
O loiro se arqueja com os toques, sentindo o corpo ferver e seu pau latejar quando Juan bombeou o comprimento algumas vezes e então parou
— Você não ia ao banheiro…? – pergunta, simples
Jasper parece confuso por meio segundo e então arregala os olhos, corando ainda mais forte, tão absorto no estímulo que se esqueceu da desculpa oferecida
— Heh, então era mentira mesmo…– provoca com um meio sorriso, tombando-o de volta do colchão, puxando fora a camiseta dele e deitando lado a lado.
Os movimentos voltaram com mais intenção, Juan corria a mão massageando o peitoral largo, apertando a carne e vendo-a vazar entre os dedos, circulando a pele sensível dos mamilos rosados e duros em antecipação, roçando as unhas de leve fazendo o loiro suspirar. Arranhava pelos sulcos de abdômen marcado, seguindo a trilha de pelinhos brancos que desciam do umbigo até sumirem na banda elástica das boxers, a qual invadiu sem reservas, girando o pulso e envolvendo o comprimento da base ao topo numa punheta lenta, deslizando o polegar sobre a fenda que acumulava pré-gozo à medida que continuava a masturbá-lo sob as cobertas.
Logo o pequeno quarto foi tomado pelo som molhado e grunhidos manhosos que Jasper tentava prender entre os dentes, sua respiração acelerada falhando em picos toda vez que a mão subia e descia num vai e vem mais firme agora. Juan se aninhava a ele, o rosto colado na lateral de seu torso, plantando beijinhos suaves pelas costelas, roçando a ponta do nariz pelos vincos até se enfiar entre os pelos da axila aspirando fundo, extasiado.
O moreno removeu as próprias roupas com um sibilo desejoso, enroscando as pernas e movendo o quadril de leve, sarrando nele no mesmo ritmo, gemendo com o atrito delicioso enquanto se esfregava na coxa farta de Jasper, seu pau babado escorregando pelo fluido melando a pele clara.
A sinfonia erótica e a sensação quente em seu membro fizeram o agente abandonar a relutância, rolando no colchão e virando-se para encará-lo. Não resistiu à expressão lasciva em seu rosto, os olhos miúdos, as bochechas coradas, os lábios entreabertos de que escapavam gemidos baixinhos, e então o beijou.
Uma mão se enroscou nos longos fios castanhos, puxando-o pra um beijo lento, sem pressa alguma, afagando os cabelos quase em adoração. A outra mão segurava o queixo, contornando e partindo lábios com o polegar, pedindo passagem e, quando obteve, as línguas se encontraram com cuidado primeiro, depois com vontade, provaram ofegantes o sabor um do outro com anseio. Os corpos se esfregavam com intenção, Jasper movia o quadril e Juan vinha de encontro, se empinando e rebolando sobre ele, roçando os membros juntos e encharcados, arrancando suspiros de ambos, perdidos entre mais e mais beijos cansados, carregados e carinhosos.
Foi Juan quem rompeu o selar, já sem fôlego, deixando um fio de saliva que ainda os conectava, sua mão agora apertava o torso do loiro, trazendo-o mais perto e sentindo o pau grosso melar sua barriga com pré-gozo viscoso. O gesto faz Jasper estremecer, investindo algumas vezes no contato antes de puxar uma perna de Juan e enroscá-la em sua cintura, se posicionando entre as coxas do menor num vai e vem perigoso.
O Albino mantinha uma mão firme no quadril de Juan, guiando os movimentos e apertando a bunda com possessividade, fazendo-o se arquear em busca de mais contato enquanto o pau de Jasper deslizava lentamente, fodendo entre suas pernas num tormento frustrante e prazeroso. Os olhos se encontram por um instante, Juan girou o quadril sobre ele num pedido silencioso, cheio de vontade, mas Jasper tomaria o tempo necessário para prepará-lo corretamente, mesmo que isso significasse ter de aturar mais longos minutos em que sua ereção latejava clamando por alívio.
Ofereceu dois dedos na boca do moreno, que os tomou sem hesitação, lambendo e chupando com gosto, gemendo quando rasparam palato e capturaram sua língua, brincando com o piercing nela e lhe causando um arrepio. O gesto encharcou os dígitos fazendo saliva escorrer pelos cantos da boca com um viço erótico. Jasper os removeu, roçando pelos lábios e tomando-os novamente em outro beijo, agora muito mais intenso, molhado e bagunçado, chupando a língua dele como se fosse a coisa mais deliciosa do mundo e, com a doçura do chocolate quente que dividiram mais cedo junto ao frescor da pasta de dente, o sabor tornava-se o ainda mais viciante.
Guiou a mão pra entrada, lubrificando com a saliva e fluido que escorria de seu pau ansioso, inserindo os dedos no interior quente e apertado, massageando pelas paredes, os curvando e metendo num vai e vem calculado. Juan gemia contra sua boca, jogando o quadril em busca de ainda mais contato, choramingando pelo tesão acumulado que ardia em seu ventre, implorando por mais estímulo. Agarrando seu pulso para tentar forçá-lo a afundar-se dentro de si, mas sua pressa fora interrompida por um espasmo violento quando finalmente tocado em seu ponto mais sensível, derramando um pouco de sêmen na pele do outro. A pesar da vontade, Jasper não cedeu, trabalhava em abri-lo pacientemente em movimentos de tesoura até que três dedos escorregassem para dentro com facilidade, dedilhando por mais um tempo antes de removê-los com um ruído molhado.
Algo no carinho e cuidado quase devocional nos gestos daquele homem era desconcertante e mandavam Juan numa espiral. Mesmo que nenhuma palavra sequer fosse dita, seu olhos, seus grandes, gentis e expressivos olhos azuis, carregavam um brilho e afeto inédito, que confundia e assustava Juan, fazendo com que algumas lágrimas involuntárias se formassem e escorressem por suas bochechas. Jasper capturava cada gota salgada com um beijinho suave no rosto. Os corpos se encontraram debaixo dos cobertores, Jasper empurrava e as paredes cediam deliciosamente ao encaixe, penetrando lento e contido, deixando que ele se acalmasse antes de começar a se mover no mesmo ritmo íntimo.
Jogava o quadril num movimento sensual, explorando o prazer em estocadas alternadas entre raso e fundo, guiando-se pelas reações e expressões do parceiro, arrancando mais gemidos chorosos do moreno, que se contorcia rebolando junto a ele, arranhando pelas costas largas quando ele roçava sua próstata dilatada pela excitação de modo provocante, retirando o comprimento centímetro por centímetro no interior pulsante antes de se enterrar novamente com mais intensidade. Juan colava sua pele na dele, já suados e grudentos, superaquecidos pelo edredom e a luxúria que ardia nos corpos febris. Entrelaçados, afundava seu rosto enfiado no peitoral largo, sentindo os batimentos de Jasper contra a bochecha num batuque firme e constante, quase sincronizado as investidas.
Trilhou mais beijinhos do torso ao maxilar, envolvendo o pescoço e deixando ainda mais chupões pelo caminho, chegando rente ao ouvido com uma súplica carente, chamando seu nome num tom manhoso e necessitado, sentindo-o pulsar e endurecer dentro de si com cada palavra entrecortada por um arfar ou gemido incontido. Ainda mais excitado, Jasper girou-os no colchão com um movimento fluido, os cobertores dispensados agora caídos pela beira da cama.
Jasper vacilou com a cena que lhe tomou o fôlego, Juan jogado nos lençóis e totalmente exposto, sua pele brilhosa de suor na luz pálida do luar que invadia pelas frestas da janela, as sombras contornavam as linhas esculpidas de seu corpo. O peito subia e descia ansioso, tragando o ar pesado entre suspiros falhados, a expressão extática de sobrancelhas juntas e lábios lustrosos em seu rosto corado, encontrando o olho marejado com um brilho quase apaixonado, dito quase pelo receio de admitir que já estavam ambos completamente entregues.
Com o mesmo cuidado puxou um dos travesseiros, posicionando-o sob as costas de Juan, erguendo seu quadril e apoiando as pernas trêmulas e arreganhadas sobre os ombros, atordoado com a visão pornográfica dele dobrado ao meio, com seu pau duro pingando pré-gozo sobre o próprio abdômen e a entrada pulsando ansiosamente para recebê-lo. Com a nova posição, Juan podia enxergar perfeitamente o modo em que se conectavam, vendo-o roçar a ponta encharcada na entrada num movimento provocante e então deslizar pra dentro todo o comprimento lentamente, ajustando o ângulo e ritmo milimetricamente a cada estocada pra fodê-lo ainda melhor.
Jasper extraía a maior parte de seu prazer em dar prazer ao parceiro e, com o jeito solto e intenso de Juan, era fácil ler suas vontades pelas reações no modo como ele beijava, arranhava e mordia a cada estímulo diferente, demonstrando com ações o que não conseguiria colocar em palavras em meio aos soluços e gemidos carregados de desejo que secavam sua garganta rouca. O albino se deleitava cada vez que as unhas rasgavam sua pele quando se enterrava fundo dentro dele, sentindo suas contrações aumentarem, ou como a voz gasta falhava chamando seu nome cada vez que girava o quadril, atingindo um ponto gostoso. Adorava como ele tremia e curvava os dedos do pé quando atormentava sua próstata com uma estocada forte e desavisada, avulsa a ritmo estabelecido, criando e quebrando uma falsa constante deliciosa que fazia Juan tombar a cabeça pra trás e se arquejar vendo estrelas.
O moreno se afogava no prazer que tomava seu âmago e comprimia seu peito com batimentos erráticos, desoxigenado toda vez que ele o beijava, abafando nos lábios as súplicas e gemidos que vibravam alto demais pelas paredes finas do apartamento, o som encharcado e obsceno dos corpos se chocando junto ao ranger violento da cama, a sensação da pele quente e grudenta de suor e a visão do modo em que ele alcançava fundo dentro de si, violando pelas paredes de seu ventre e lhe fodia num impulso estonteante fez Juan gozar pela segunda vez com um choro arrastado.
Jasper tombou-os de lado, buscando acomodá-lo numa posição mais confortável pra seu corpo mole e ainda sensibilizado, desossado após um clímax tão intenso, abraçando o torso pelas costas, colando junto a ele, vendo mais porra jorrar cada vez que o penetrava.
Sentia o próprio orgasmo próximo, então agarrou o rosto de Juan puxando-o prum beijo molhado, bagunçado, desesperado, ofegando contra sua boca com o último esforço hercúleo de se retirar do interior delicioso que colapsava perfeitamente ao seu redor a tempo de ejacular na bunda e costas do parceiro com um grunhido prazeroso dividido entre os lábios.
Os tremores tomava-los como correntes elétricas, mesmo com o toque suave de Jasper, contendo em alguns lenços a bagunça de fluídos que o sexo os tornara, eriçando os pelos com as caricias entre espasmos involuntários que lhes atingiam como se fossem um só.
O êxtase perdurava embalando o sono cansado de ambos, o silêncio do quarto era preenchido com um suspiro uníssono quando o loiro finalmente puxou as colchas para cobri-los da brisa gelada, ainda que o enlace dos corpos colados não dessem brecha para nada além do calor ardente e os sentimentos latentes que compartilhavam.
A manhã seguinte chegou monótona, alguns poucos raios do sol ameno se esgueiravam pelo cômodo. Juan despertou primeiro, piscando pesado por um instante, absorvendo o ambiente desconhecido. Quis se espreguiçar, mas seu corpo protestou com o peso somado de Jasper curvado sobre si, encolhido como um cão alheio ao tamanho que tem, um dos braços esticado pelo torso tatuado e a cabeça ancorada no vinco do pescoço do moreno, fazendo com que a respiração tranquila rebatesse em sua pele, causando um leve arrepio.
A quentura do edredom junto a proximidade era um pouco incômoda, quase sufocante. Juan tentou se afastar com um cuidado exagerado, mas a mísera ameaça de distância resultou apenas num abraço ainda mais apertado e um grunhido manhoso do loiro, que ainda dormia agarrado a ele. Viu o rosto amassado pelo sono se aconchegar em seu ombro, gravado em uma expressão serena. O gesto, simples e adorável, fez seu coração errar uma batida, desarmando num segundo toda sua relutância. Fechou o olho cedendo ao encaixe e a própria vontade, e negaria até a morte quando acordassem mas, por ora, se permitiu relaxar naqueles braços carinhosos
“Ah… foda-se…só mais cinco minutinhos….”
