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O sol radiante brilhando no céu faz uma gota de suor escorrer pela testa de Morten Sverre. O garoto esteve quieto por todo esse tempo durante a viagem, ouvindo seus companheiros reclamarem do quanto a estrada estava esburacada, do quanto que aquelas carroças velhas balançavam e do quanto eles estavam morrendo de fome. A neve do oeste era implacável; era praticamente impossível de achar comida, galhos secos pro fogo, um lugar confortável para dormir ou qualquer coisa. Mas tudo o que importa é que eles escaparam de lá.
A gangue passou alguns dias no território dos O'Driscolls em Colter, outro grupo de foras da lei com um histórico de rixa tão longo com os Van Der Linde que Morten mal se lembra de quando começou. Tudo que ele se recorda é que o chefe da gangue, Colm O'Driscoll, desprezava Dutch. Logo, isso era um problema pra eles também. Sverre não se sentia culpado em os matar, era um mal necessário. No meio de tudo isso, eles encontraram Sadie Adler e Kieran, uma recém viúva que teve o marido morto por esses vermes e um idiota que fazia parte dos O'Driscolls, ele deu um tiro em um companheiro da sua gangue que apontou uma arma pra cabeça de Arthur Morgan e Dutch foi gentil o suficiente para deixar o homem ficar entre os Van Der Linde porque, segundo ele, "Kieran poderia ter informações importantes sobre o Colm", Arthur ficou desconfiado e Morten não sabia o que pensar.
Era bom sentir o calor do sol e estar ao lado deles, apesar do último roubo em Blackwater ter sido um fracasso. Cheiro de sangue e cadáveres espalhados no chão, homens da lei os perseguindo e gritos de desespero dos reféns. Eles arriscaram tudo a troco de nada, eles sequer ficaram com a droga do dinheiro. Dutch disse que seria suspeito demais se toda a quantia convenientemente aparecesse em suas mãos, então ele fez com que a gangue enterrasse o dinheiro todo, mas prometeu que lembrava onde tinha ficado e que algum dia voltariam para pegar.
A América estava se tornando uma terra de leis, as poucas gangues que sobreviveram estavam sendo caçadas e destruídas, Jenny foi morta a tiros e eles enterraram Davey em Colter, ninguém sabia o paradeiro do Sean. Não era culpa do Dutch, o Governo não hesitava em matar já que os bandidos estavam se tornando mais violentos.
"Ei, Dutch," Hosea exclamou no meio do falatório da gangue, "Eu conheço essas bandas, a gente pode ficar perto de Valentine, no Mirante Horseshoe. Ninguém vai descobrir onde a gente tá, contanto que fiquemos quietos."
"Mirante Horseshoe então." Dutch respondeu com uma energia renovada, mexendo a mão enquanto falava, "Passamos por maus bocados, mas ficaremos bem."
Morten secou a testa com a manga da camisa enquanto se segurava no banco da carroça, "A gente ainda tá no caminho certo?"
"Depende." Hosea replicou, "Ainda estamos indo para o oeste em busca de dinheiro e repouso nas florestas, como planejamos? Não. Mas estamos na direção certa para se esconder da lei? É, acho que sim."
Ao ouvir isso, Dutch soltou um suspiro, Hosea fingiu não ter visto e brincou com um tom mais leve na voz, "Valentine é uma cidade que vende gados, cheia de caubóis e prostitutas. Nosso tipo de lugar."
O Mirante era um planalto em Heartlands. De um lado, era um penhasco íngreme com vista ao rio Dakota, e do outro, uma floresta densa com vários cervos. Um lugar estratégico com uma paisagem nostálgica, as coisas estavam voltando ao normal. Dutch desceu da carroça e foi para o centro do acampamento. "o Hosea não estava errado, Esse lugar... É perfeito." Dutch articulava com um sorriso confiante, "Nós sobrevivemos, senhores! Agora é a hora de ficarmos ricos."
"A gente já teve a chance de ficar rico, Dutch." Hosea devolveu, "Eu e o Arthur tínhamos o plano perfeito em Blackwater, mas o Micah teve que estragar tudo e aqui estamos nós."
"Ora, Hosea, paciência." Ele não perdia o tom determinado em sua voz por nada, Morten acharia isso irritante se não fosse revigorante. "Todos nós erramos. Durante todos esses anos, eu mantive nós unidos, vivos e sem cordas amarradas nos nossos pescoços. É assim que tudo sempre foi e sempre vai ser."
"Eu tô preocupado, tá me entendendo?" Hosea suspirou, "A gente não tem muito dinheiro e eu só quero que todo mundo esteja bem antes de morrer... Mas a gente tá ao leste de Grizzlies e longe pra caramba das florestas do oeste!"
A voz de Dutch se tornou mais rígida, "Eu sei, meu bom homem, eu sei. Mas aqui estamos seguros. A gente ganha um pouco de dinheiro, contorna a região e em alguns meses estaremos comprando um lugar para ficar."
Os outros membros da gangue que estavam terminando de arrumar o acampamento se viraram pro chefe e o mesmo gesticulava enquanto ia em direção ao horizonte, "Deem só uma olhada ao nosso redor, senhores! Esse mundo tem seus confortos."
Dutch se virou para o acampamento novamente, "Sei que as coisas têm sido difíceis, mas estamos seguros... E pobres. Então, eu preciso que todo mundo faça sua parte. Saiam e vejam o que encontram, mas lembrem-se de doar uma parte pra cá e de serem sensatos."
Morten estava apoiando as costas em uma árvore ao lado de Arthur, observando os membros da gangue voltarem a trabalhar com um olhar sossegado até a aparição de Leopold Strauss. Ele estava com os Van Der Linde há muito tempo, um homem sério com forte sotaque alemão que cuidava das finanças da gangue e operações de usura, "Senhores..." o austríaco tossiu, "Irei até a cidade local e ver se, sabe, consigo abrir um pequeno negócio."
"Claro, Herr Strauss." Dutch respondeu com uma aprovação artificial e esperou o velho sair, "Prefiro assaltos a banco do que agiotagem, parece mais digno de alguma forma." Dutch retirou-se até sua tenda rindo da situação, deixando-os.
"Então... Ninguém vai querer ir até a cidade?" Morten limpou a garganta, endireitando as costas, "Desde quando você se tornou um garoto da cidade, hein, Morten?" Arthur provocou.
"Tá falando sério?" O loiro riu, "Eu só tô cansado de ficar perambulando no mato."
"É, isso vai ser bom pra você, garoto. Lá tem um estábulo, você gosta dos cavalos ainda, né?" Hosea aprovou, "O Arthur pode ir com você."
"Não precisa meter o Arthur no meio, eu posso ir até lá-" Karen o interrompeu, "O cavalheirismo realmente tá morto nessa gangue! A maluca da Grimshaw tá quase matando a gente de tanto trabalho e os senhores andam planejando escapar."
Morten soltou uma gargalhada, a Karen era uma mulher bem-humorada e ele admirava o fato dela sempre falar o que pensava. Susan Grimshaw nunca foi flor que se cheire, não tolera falatório e muito menos desorganização, a gangue seria uma bagunça sem ela.
"Sem falar que a gente poderia aprontar um pouco, se você sabe o que eu quero dizer." Karen Jones deu uma piscadela, ela era uma ótima golpista. "Chame o tio também, esse velho fez questão de beber todo o licor que sobrou."
"...Mas a Grimshaw liberou vocês?" Arthur tossiu.
"Se a Grimshaw liberou a gente?" Karen repetiu em um tom indignado, Mary-Beth e Tilly, que estavam ouvindo a conversa de longe, surgiram atrás dela. "Qual é, Arthur? Três jovens bonitas querem te levar pra roubar e é assim que você responde?"
Karen olhou de volta para Morten e encontrou o loiro em pé ao lado da carroça, tentando acordar o tio. "Se não vai ajudar no acampamento, pelo menos compra alguma coisa pra Karen beber."
"Já faz semanas desde que a gente não tem contato com algum tipo de civilização, a gente tá mais pra ermitões do que ladrões." Tilly concordou.
O tio acordou e viu o grupo o encarando, ele cuspiu no chão e murmurou com uma voz meio bêbada, "Ah, sim... Valentine. A personificação da civilidade. As moças irão adorar." Arthur deu um riso irônico e subiu na parte da frente da charrete junto com o tio. Morten, Karen, Tilly e Mary-Beth foram atrás.
"Vocês acham que a gente deveria ter chamado a Molly pra vir com a gente?" Mary-Beth perguntou, um tanto receosa. "Me sinto meio mal por deixar ela de fora."
"Claro que não," Tilly retrucou, "A senhorita O'Shea é refinada demais pra sair com os ralés agora."
"Caramba... Ela tá namorando com o Dutch agora, né?" Morten relembrou.
"É o que parece. Cê já reparou nas roupas dela?" Karen riu, "Ela só tá querendo se aparecer pro Dutch."
"Talvez ele realmente goste dela, sei lá. Não é problema meu." Morten deu de ombros, "Mas ela não parece pertencer a uma gangue."
Algumas pessoas da gangue mereciam estar em um lugar melhor que esse, Mary-Beth seria uma ótima escritora e Tilly é tão gentil, mas onde uma mulher encrenqueira como a Karen se daria bem? Morten pensou sobre si, qual seria o futuro dele se não em uma gangue? A única resposta que veio a cabeça foi um grande vazio. Ele começou a fazer parte dos Van Der Linde a quatro anos atrás.
Seu pai havia nascido na Noruega com mais dois irmãos, herdeiros de um grande negócio de enlatados. Magnus decidiu vir até a América para tentar expandir o comércio, mas tinha decaído muito após a morte de sua esposa e se afundou no álcool. Morten tinha quinze anos e mal aparecia em casa, já via mais garrafas de cerveja e prostitutas dentro de sua casa do que o rosto do seu próprio pai.
Ele não via outra saída a não ser entrar no mundo da bandidagem. Desde cedo ele sabia que sua vida já tinha acabado antes mesmo de começar; de um primogênito de família rica a um ralé qualquer. Ele se considerava um órfão, nunca conheceu a mãe e seu pai já estava mais morto do que vivo de qualquer forma.
As coisas não melhoraram só porque ele sumiu de casa, as ruas não eram piedosas pra ninguém; mas era melhor ser espancado quando era pego roubando por um vendedor qualquer do que pelo pai. Dutch o encontrou em uma viela escura: sujo, magrelo e surrado, mas com uma carteira recém roubada na mão e glória em seus olhos.
Nem Morten sabe ao certo porque Dutch o deixou fazer parte da gangue, talvez tenha sido sorte ou talvez possa ter escutado os rumores sobre sua família. O que importa é que, por causa da gangue, o garoto aprendeu o que era se importar com alguém e o que era se sentir importante, aprendeu a viver, mesmo que isso o aproximasse mais ainda da morte.
Morten arrancaria a garganta dos inimigos com seus próprios dentes se exigido por Dutch, já que ser leal a alguém significava ser desleal a todo o resto. Ele não se importava, era o que ele devia ao homem que o deu um propósito. Morten queria ser uma ferramenta útil - o novo revólver em suas mãos.
