Chapter Text
Arte por @sweeeet_ah
Dizem que uma sala com duas portas é capaz de te oferecer uma escolha, mas isso normalmente é uma mentira que dizemos para nós mesmos para sentirmos que estamos no controle da situação. Em realidade, cada sala é uma caixa, e cada conversa é apenas uma maneira de decorar as paredes antes que o tempo acabe — e Fit, por sua vez, não gostava nem um pouco de não se sentir no controle de sua própria vida.
Mas quando se tratava de seu chefe, era difícil ter outra opção.
— Então — começou ele, sua voz cortando o silêncio inquietante —, você vai me dizer do que se trata esse chamado súbito, ou vamos apenas ficar sentados aqui encarando um ao outro o dia todo?
A risada entretida de Madagio ecoou pela sala, e o homem de cabelos brancos e olhos de cores diferentes simplesmente balançou a cabeça enquanto levava a própria caneca aos lábios para dar um gole em seu café. — Oras Fit, se eu não o conhecesse bem, diria que você está com pressa. Você tem algum outro trabalho no momento do qual eu não esteja ciente?
Fit bufou com aquilo — Não, e é exatamente por isso que quero saber por que você me chamou, já que passou uma semana inteira me ignorando.
— Uma semana é um preço pequeno a se pagar pela precisão, Fit — disse ele, a voz saindo fria e calculada. — O que chegou às minhas mãos não é uma situação como qualquer outra. Eu precisava de cada segundo desse tempo para dissecar as informações e garantir que não era nenhum tipo de mentira.
Ele se inclinou devagar, apoiando as mãos sobre a mesa de carvalho escuro. — Estamos diante de uma oportunidade incrível. E, em casos assim, a pressa é inimiga da perfeição. Eu não te ignorei, estava apenas garantindo que, quando falássemos, eu teria certezas, não suposições.
— Hm — Fit cruzou os braços na frente do peito—, mas se você me chamou, suponho que seja porque já analisou tudo e está pronto para me dizer do que se trata, certo?
— Basicamente — Madagio assentiu, arrumando a papelada em sua mesa e voltando a encarar o homem à sua frente. — No entanto, devo adiantar que não creio que você vá gostar muito do que estou prestes a dizer, então antes de qualquer coisa, peço que pelo menos escute até o final.
A mandíbula de Fit se tensionou no mesmo segundo, e ele estreitou os olhos. Não estava gostando daquele papo cheio de rodeios, principalmente quando Madagio não era um homem de protelar quando tinha algo importante a dizer, o que significava que o que quer que ele estivesse prestes a dizer definitivamente irritaria Fit mais do que o interessaria.
Entretanto, não era como se pudesse simplesmente levantar e sair dali. Madagio gostava de alimentar essa ilusão que Fit possuía algum livre arbítrio para fazer escolhas referente a trabalhos, mas ele já sabia muito bem o que aconteceria se recusasse, então sua opinião não tinha nenhum real peso no final das contas.
Assim sendo, ele apenas assentiu, fazendo com que Madagio sorrisse em satisfação e apontasse para uma das pilhas específicas de papel.
— Ontem a noite, recebi uma proposta muito interessante vinda do Sul. Eles não explicaram exatamente o que precisam, já que parece ser sigiloso o suficiente apenas para ser discutido entre quatro paredes, mas é a oportunidade perfeita para conseguirmos mais informações deste reino.
— Do Sul? — Fit arqueou uma sobrancelha. — Eu achei que eram um povo extremamente bem desenvolvido e autossuficiente? Por que precisariam da ajuda de fora?
— Exato! Não é intrigante? — O sorriso de Madagio beirava a insanidade. — De todos os cantos do arquipélago, eu nunca recebi nenhuma solicitação oriunda do Sul, tampouco uma que venha diretamente do palácio real!
— Do palácio real? — A expressão neutra de Fit se dissolveu imediatamente, sendo substituída por uma de irritação. — Então é um pedido vindo diretamente da monarquia?
— Sim.
O barulho que escapou por entre os lábios de Fit não poderia ser descrito como nada menos do que um rosnado. — Madagio…
Seu chefe apenas levantou a mão, interrompendo as próximas palavras do irritado mercenário.
— Como eu disse, já imaginava que você não ficaria muito feliz com a ideia, mas é uma oportunidade impossível de se deixar passar. Como você mesmo disse, o reino do Sul não é um que tratamos com frequência. Eles são desconfiados e extremamente capazes de se virarem sozinhos, o que os faz praticamente impossíveis de se avaliar e conseguir informações — Madagio descansou contra a sua própria cadeira, sua expressão perdendo a euforia e se retomando o brilho calculista de sempre. — O que o faz único reino que eu ainda não consegui mapear e entender do que são capazes, e você sabe que eu odeio não saber das coisas.
Fit revirou os olhos. — Sim, estou bem ciente, mas por que isso tem que envolver a mim? Você sabe muito bem que eu odeio lidar com monarquias de qualquer tipo, porque não servem para nada além de sugar a vida de um povo que vive na lama enquanto eles ficam bem contentes de viver em opulência sentados em seus tronos de ouro, então você poderia muito bem chamar qualquer outro para fazer esse seu trabalho sujo de espionagem que não fosse um cara que adoraria ver todos os monarcas deste arquipélago em chamas.
Ouvir aquilo arrancou uma risada de Madagio.
— Ah, meu caro Fit — o homem balançou a cabeça —, sim, eu poderia chamar outra pessoa que não fosse um anarquista de pavio curto, mas me foi solicitado você em específico, já que o que quer que estejam enfrentando é certamente algo que nem mesmo seu poderio militar ou recursos puderam resolver, então graças a sua admirável habilidade de resolver tudo que é atirado em sua direção… tem que ser você. Não aceitarão mais ninguém para o serviço.
— … É impressão minha ou eu estou sendo punido pela minha competência?
— Não veja como punição, veja como uma oportunidade — calmamente sugeriu madagio. — Afinal de contas, é o único reino do arquipélago que você nunca teve a oportunidade de conhecer. Quem sabe a monarquia de lá te surpreenda de uma forma positiva, hm?
— Impossível — ralhou Fit, descruzando os braços e se levantando de sua cadeira. — Rei nenhum presta, e isso nunca vai mudar, mas não é como se eu pudesse dizer não para você.
O sorriso no rosto de Madagio se tornou predatório.
— Não se você não quiser que eu te lembre o motivo pelo qual você sequer está vivo hoje, velho amigo.
— Não somos amigos — corrigiu Fit impacientemente —, e eu aparentemente tenho um trabalho a fazer, então se me der licença, eu vou me preparar para a viagem.
Sem dizer mais nada, o mercenário apenas deu as costas ao seu chefe e foi na direção da porta, mas assim que ele tocou na maçaneta, a voz de Madagio mais uma vez soou atrás de si, fazendo com que ele parasse no lugar.
— Você apenas está vivo graças a minha misericórdia, Fit — ele disse com um tom de voz calmo, mas que escondia um veneno que apenas Fit conseguia sentir. — Lembre-se sempre disso, principalmente quando começar a pensar que sua rebeldia merece mais atenção do que sua lealdade a mim.
Fit rangeu os dentes em frustração. Sua vontade era de virar e mandar aquele homem odiável comer aquelas palavras e se engasgar com seu próprio veneno, mas uma pontada vinda do seu lado esquerdo o lembrou da veracidade daquelas palavras, e ele decidiu por fim se manter em silêncio enquanto abria a porta e a fechava violentamente atrás de si, como uma resposta sem palavras do que ele pensava sobre a importância de sua lealdade para com o homem que o “libertou”.
Grande libertação essa que o mantinha em correntes invisíveis, e o forçava a trilhar caminhos que não o satisfaziam.
Assim sendo, esse era o motivo pelo qual ele agora encarava as grandiosas muralhas que circundavam todo reino do Sul, ou como era melhor conhecido pelo restante do arquipélago: Celestia, a Estrela Solitária.
Fit puxou as rédeas de seu cavalo, fazendo o alasão relinchar brevemente antes de parar na estrada que dava até a entrada de Celestia, onde um gigantesco portão se encontrava com as portas de metal fortemente fechadas, repleto de guardas e vigias por todos os lados. O mercenário, apesar de seu cansaço de três dias e três noites de viagem longa até chegar em seu destino, tirou um momento breve para analisar bem os seus arredores antes de se aproximar, já que ele genuinamente não sabia absolutamente nada daquele reino e se sentia extremamente desconfortável com a ideia de pisar em um lugar onde ele não sabia o que esperar.
No entanto, a arquitetura das grandiosas muralhas de pouco mais de dez metros de altura não foi o que mais chamou sua atenção, mas sim a postura dos soldados que a circundavam.
As faces que não estavam cobertas por elmos brilhantes, demonstravam uma ansiedade curiosa. Todos se moviam de forma robótica, ou quase alarmada, como se estivessem esperando um ataque inimigo de acontecer a qualquer segundo. Fit levantou o rosto para encarar os guardas no topo da muralha, e muito para sua surpresa, eles pareciam tão tensos e preocupados quanto os que estavam na parte de baixo, muitos com as mãos descansando sob o cabo de suas espadas ou andando com arcos nas mãos ao invés de descansando em suas costas.
Nas torres, os vigias estavam extremamente atentos, se certificando de manter cada canto longínquo do reino monitorado através de binóculos que pareciam fundidos a seus rostos. Praticamente todos estavam parados ao lado das gigantescas armas de fogo, que eram intimidadoras o suficiente para lembrar invasores do quão avançada era a tecnologia daquele povo e que eles não hesitariam em usar tudo que tinham para se proteger caso necessário.
E o mais curioso, era que eles definitivamente achavam que precisariam se proteger a qualquer momento, o que fez Fit se perguntar se tinha algo a ver com o motivo pelo qual ele foi convocado.
Satisfeito por hora com o que tinha captado de seus arredores, Fit fez com que seu cavalo voltasse a se mover, andando lentamente até o grandioso portão de metal que, quanto mais perto ele chegava, maior parecia ficar. Como esperava, um dos guardas imediatamente o parou assim que ele se aproximou o suficiente, segurando uma afiada lança com uma mão enquanto levantava a outra com a palma virada na direção de Fit.
— Alto lá — disse o homem, sua voz abafada devido ao elmo. — Diga seu nome e quais suas intenções dentro do nosso grandioso reino de Celestia.
Fit fez sua montaria pausar novamente, fitando o guarda com uma expressão impassível semi coberta pelo capuz verde.
— Estou aqui por solicitação da família real.
O guarda pausou por um momento, parecendo considerar sua resposta, e então voltou a estender a mão, agora com a palma para cima.
— Me mostre por favor o selo real da sua convocação.
Fit estalou a língua no céu da boca. Esse documento provavelmente estava entre os vários outros na pilha de papéis que Madagio tinha em sua mesa, mas ele ficou tão transtornado com a ordem que acabou esquecendo de verificar se tinha algo que ele deveria levar consigo para provar a veracidade de suas palavras. Shit.
— Infelizmente, não possuo o documento que você está pedindo.
— Então vou ter que pedir para que você saia do nosso reino, porque não estamos aceitando forasteiros no momento.
Se dependesse de Fit, ele daria meia volta e iria embora como solicitado sem nem hesitar, mas ele não só estava exausto da viagem, como tinha certeza que Madagio o puniria se ele voltasse para a base de mãos abanando porque seu momento de irritação o fez cometer um erro tão juvenil quanto aquele, então ele não tinha escolha a não ser tentar argumentar com o guarda e dar um jeito de convencê-lo.
Mas antes que ele pudesse abrir a boca para fazer exatamente isso, outra voz soou, interrompendo a conversa com um tom de autoridade que Fit não estava esperando ouvir até pelo menos chegar no castelo.
— Um momento — outro guarda se aproximou, esse vestindo uma armadura levemente diferente das dos demais guardas com alguns detalhes sobressaltados e um elmo ornamentado com duas marcas vermelhas abaixo da região dos olhos. — Creio que eu talvez saiba do que se trata.
— Capitão? — O guarda perguntou, claramente confuso em ver seu superior ali naquele momento. — O que faz aqui esse horário?
O capitão, no entanto, ignorou o guarda. — Diga-me, seria você Fit, o Lobo Solitário?
— Hm — Fit arqueou uma sobrancelha, odiava aquele título. — Sim, sou eu. Fui enviado para cá para completar um trabalho solicitado pela realeza desse lugar.
— Ótimo, estávamos à sua espera. Por favor, me siga, vou te levar até os estábulos para deixar sua montaria e te guiar até o castelo.
O capitão então se virou para o guarda, e Fit não conseguia ver sua expressão, mas as palavras que se seguiram o surpreenderam, principalmente porque estavam em espanhol
— Deja de hacer el tonto y haz bien tu trabajo, debemos averiguar cuál es el motivo de la visita antes de despedir a alguien. — disse ríspidamente o capitão, fazendo o guarda se encolher. — Casi causas más un gran problema a este reino, idiota.
O guarda abaixou a cabeça. — Desculpe, senhor. Não vai mais se repetir.
— Honestamente — o capitão balançou a cabeça negativamente, para então levantar a cabeça na direção de Fit. — Muito bem, vamos?
Fit assentiu, desmontando de seu cavalo e passando a puxá-lo pelas rédeas enquanto seguia o aparente capitão da guarda real. O homem, enquanto andava, gesticulou com a mão direita, e no momento seguinte os gigantescos portões de metal estavam se abrindo em frente a Fit, para revelar uma visão que fez com que seus olhos se arregalassem.
O que se revelou diante seus olhos não foi a costumeira visão de vielas lamacentas e o odor de estagnação que costumava definir as capitais do continente. Em vez disso, o que se estendia à sua frente era uma metrópole que parecia desafiar a própria lógica do tempo, uma visão de progresso que ele sabia que existia em sua era, mas nunca havia presenciado antes.
As ruas não eram meras trilhas de terra batida ou pedregulhos irregulares; eram amplas avenidas de pedra polida, assentadas com uma precisão matemática que tornava o andar de de carruagens completamente suave e ele imaginava que até mesmo prazeroso. No lugar dos casebres precários de palha e madeira apodrecida, erguiam-se estruturas sólidas, moldadas em um material cinzento e imponente que ele custou a identificar como concreto — uma maravilha moderna que normalmente era reservada para a construção de magnânimos castelos e fortificações militares. As fachadas exibiam ângulos retos e superfícies limpas, transmitindo uma sensação de ordem e perenidade que ele sempre associava apenas a realeza que tanto desprezava, e que surpreendente, pertencia ao povo naquele reino.
A vida pulsava naquelas ruas com uma energia vibrante e contagiante. Fit observou, maravilhado, grupos de crianças que corriam livremente pelas calçadas largas, rindo enquanto perseguiam umas às outras em jogos frenéticos, sem o olhar opaco da fome ou o medo que ele tanto vira em outras paragens. O comércio não era uma disputa desesperada por moedas mofadas; mercadores orgulhosos exibiam tecidos de cores vivas e especiarias cujos aromas quentes flutuavam no ar, negociando com uma cortesia que só a verdadeira fartura poderia proporcionar.
Perto dali, em praças onde fontes de água cristalina jorravam ininterruptamente, mulheres conversavam em grupos animados. Elas lavavam roupas em tanques comunitários bem planejados, trocando confidências e risadas enquanto mantinham os olhos zelosos sobre os pequenos, uma cena de rotina doméstica que transbordava dignidade e calmaria — um retrato de uma prosperidade que não se escondia atrás de fossos e muralhas internas.
Ao que parecia, a riqueza daquele lugar não estava acumulada de forma egoísta nos cofres da coroa, e sim diluída em cada bloco de concreto, em cada rua varrida e no semblante tranquilo de seus habitantes.
E era, sem dúvidas, uma vista de tirar o fôlego.
— Belíssimo, não? — A voz do capitão soou, despertando Fit de seu momento de contemplação. — Trabalhamos duro para mantê-los assim.
Fit se virou para o homem armadurado. — É certamente… impressionante. Não estou acostumado a ver lugares tão bem desenvolvidos como esse. É assim no reino inteiro?
— Eu estaria mentindo se dissesse que sim — o homem suspirou por trás de seu elmo enquanto entrava nos estábulos junto a Fit —, mas é um dos projetos de vossa alteza. Ele queria que todos tivessem chances iguais em tudo, e estávamos trabalhando para conseguir isso para as famílias mais pobres, mas…
O capitão pausou, e Fit o encarou por alguns segundos enquanto prendia seu cavalo no seu lugar temporário no estábulo, onde o animal imediatamente se pôs a beber água. O silêncio perdurou entre os dois homens por um momento, até o capitão suspirar e levar as mãos ao seu elmo, o removendo e revelando um par de inteligentes e tristes olhos castanho-avermelhados.
— Bueno — ele tornou a falar em espanhol, agora em um tom mais baixo, oferecendo a Fit um sorriso melancólico —, é difícil seguirmos com os planos de vossa alteza quando ele já não está entre nós.
Isso fez as sobrancelhas do mercenário se juntarem. — O rei está morto?
— Por favor, fale baixo — pediu o guarda, olhando em volta em alarme. — Não podemos deixar nosso povo sequer sonhar com essa possibilidade.
— Oh — Fit piscou algumas vezes, surpreso. — Desculpe-me, serei mais cauteloso.
— Tudo bem — o homem suspirou, esfregando o rosto e removendo a proteção de cota de malha de sua cabeça, revelando desgrenhados fios de cabelo castanhos que ele tentou pentear com os dedos. — Esse assunto devia estar sendo discutido dentro do castelo, mas não pude deixar de notar sua surpresa de como as coisas são por aqui.
— É, bom, não é todo dia que eu vejo um reino que o rei não só cuida do seu povo como é amado por ele — Fit franziu a testa por trás de seu capuz. — Na verdade, eu acho que nunca vi isso antes em toda minha vida.
Isso arrancou uma risada baixa do guarda real.
— Você não é o primeiro a dizer isso. Devo dizer que a prosperidade do nosso povo é uma das coisas que mais temos orgulho, mas as coisas estão difíceis ultimamente — ele comentou, e seu sorriso se dissipou. — Você não está aqui à toa, Lobo Solitário. O que você acabou de presenciar, toda felicidade e futuro do nosso povo, está nas suas mãos.
— Huh? — Fit arqueou uma sobrancelha — O que quer dizer com isso?
— Creio que é melhor te levar até o palácio de uma vez, porque novamente, os estábulos não são o local ideal para discutirmos isso. As paredes aqui tem ouvidos.
— Certo — Fit concordou, passando a seguir o capitão quando ele começou a ir na direção da saída do estábulo. — Creio ainda não saber seu nome, no entanto.
— Ah, mas é claro, descuido meu. — o guarda ofereceu outro sorriso a Fit — Meu nome é Roier Von Brown Pinheiro, sou o capitão da guarda real.
Fit assentiu. — É um prazer, Roier.
— Igualmente — Roier assentiu de volta, voltando o olhar para frente enquanto liderava o caminho.
Os minutos de caminhada que se seguiram, foram silenciosos. Capitão Roier, apesar de amigável, estava extremamente sério e com uma melancolia que Fit imaginava envolver o que quer que tenha acontecido ao rei, já que ele mencionou o homem com uma quantidade intrigante de respeito e afeto que deixavam claro que o capitão da guarda real estava abalado com a situação atual da monarquia daquele lugar.
O mesmo não podia ser dito do povo, no entanto.
Fit seguiu Roier em silêncio, procurando analisar seus arredores enquanto caminhavam até o gigantesco castelo branco e azul situado no coração de Celestia. O restante da cidade era tão impressionante quanto na entrada, com a arquitetura das casas seguindo o mesmo padrão interessante e bem cuidado. Mais e mais pessoas foram surgindo, muitas sorridentes e frequentemente cumprimentando Roier tanto em português quanto espanhol, fazendo o rapaz perder sua expressão séria momentâneamente para cumprimentar as pessoas de volta com o mesmo vigor, o que deixava claro que ele também era um homem amado e respeitado na cidade, tanto que olhavam na direção de Fit com nada além de curiosidade — certas de que se ele estava com o respeitado capitão da guarda real, então ele não poderia ser alguém ruim.
Ah, se eles soubessem.
— Carlito, meu amigo! Seu peixe parece bem fresco hoje — Fit ouviu alguém dizer na distância.
— Si si, foram pescados hoje de manhã mesmo! — O pescador da banca respondeu com um gigante sorriso. — ¿Quieres uno, Marcos?
— Definitivamente. Eu fiquei sabendo que vossa majestade é um freguês assíduo seu, ele já veio buscar uma dessas maravilhas hoje?
— Ah, no. Su Alteza lleva ya varias semanas sin bajar a la ciudad. Me gustaría mucho enseñarle las novedades que tenemos, pero…
— Ah, que pena. Agora que você mencionou, realmente faz um tempo que não o vejo. Me pergunto se está tudo bem com sua saúde.
— Verdad.
Fit sentiu a curiosidade apertar ainda mais. Enquanto andavam, conversas como aquela aconteciam com frequência. O povo falava de um rei que andava entre eles, visitando lojas de flores e elogiando a mercadoria de vendedores como qualquer outra pessoa comum, e como já fazia certo tempo que ele não os visitava, até mesmo chegando ao ponto de perguntar a Roier se o rei estava bem e quanto viria visitá-los novamente.
Roier apenas sorria de forma educada e garantia que estava tudo bem, e que o rei apenas estava muito ocupado com projetos para o futuro e por isso não tinha conseguido descer para visitar a cidade nas últimas semanas.
E Fit não precisava ser nenhum especialista para saber que não passava de uma história fabricada para evitar o caos e o desespero dos celestios.
Toda situação apenas intensificou o quão intrigado ele estava com tudo aquilo, já que novamente, ele nunca tinha presenciado tal coisa em toda sua vida. Pobreza e negligência era o evento mais comum envolvendo povos de todo reino que ele já pisou, e não era de se surpreender que as pessoas falavam de sua monarquia com desgosto e um rancor tão profundo que era até mesmo tangível. Essas experiências apenas serviram para intensificar a insatisfação de Fit com monarcas e querer distância de todos eles, mas o que ele estava presenciando em Celestia estava causando um conflito interno que ele nunca esperou sentir, e que ele definitivamente estava tendo dificuldade de digerir.
Mas sua guerra interna teria que esperar, já que eles finalmente chegaram no grandioso castelo real de Celestia, cuja entrada foi concedida de imediato quando os guardas reais avistaram seu capitão se aproximando.
Fit continuou sua caminhada em silêncio, assistindo com atenção toda interação que Roier tinha com os demais guardas e como ele os coordenava com uma postura exemplar enquanto o guiava pelos gigantescos e ornamentados corredores do castelo.
Definitivamente, aquele era um homem que merecia sua posição como líder daqueles que garantiam a proteção do reino, o que fez Fit conjurar notas mentais sobre cada detalhe que estava absorvendo, conforme solicitado por Madagio.
E tudo que Fit via, deixava claro que não era a toa que aquele era o reino mais rico e próspero de todo continente.
Deveras interessante.
— Muito bem, Lobo Solitário — a voz de Roier soou, puxando Fit de volta para a realidade. — Chegamos.
Fit levantou a cabeça para encarar a gigantesca e ornamentada porta dourada à sua frente, e não conseguiu conter a careta de desgosto perante tamanha ostentação. Sim, era um reino próspero com pessoas muito melhores de vida do que o normal, mas ainda assim todo esse luxo era completamente desnecessário ao seu ver.
— Certo, e quem exatamente vai me passar a minha missão?
— Esse seria Cell, o conselheiro real e rei regente.
Fit estreitou os olhos para Roier.
— O conselheiro real é o rei regente? — Uma risada sem humor escapou por entre seus lábios. — Por que parece que eu já ouvi isso antes?
— Oye — Roier arqueou uma sobreancelha —, ¿que insinuas, pendejo?
Fit deu de ombros. — Nada demais. Só é muito suspeito que o conselheiro esteja no poder quando o rei está incapacitado. Já vi reinos caírem por causa de conflitos internos e da ganância daqueles que a coroa diz “confiáveis”, então esse tal conselheiro seria o primeiro que eu desconfiaria de estar por trás disso.
— Okay, vamos deixar uma coisa bem clara, mercenário — a expressão de Roier se tornou tempestuosa, e Fit imediatamente percebeu que talvez ele havia dito algo que não devia. — Cell não é nenhum vilãozinho barato tentando usurpar o trono do rei. Meu marido é um homem exemplar e muito leal a vossa majestade, e ele apenas está nessa posição por necessidade, já que o príncipe ainda não tem idade e ninguém mais no conselho real se sente capaz o suficiente de governar o reino no momento, então meça suas palavras antes de acusar ele de coisas absurdas como essa.
Fit piscou diversas vezes, pego de surpresa.
— Me desculpe, eu não quis ofend-... Espera, marido?
— Si. ¿Que tiene? — Roier estreitou os olhos, desconfiado.
— Uh, nada — Fit esfregou o pescoço —, só me pegou de surpresa, é que infelizmente não é algo comum de onde venho.
— Hm — Roier ajeitou a armadura, se voltando para a porta e se pondo a abrí-la. — Tudo bem, só procure ter cuidado com as palavras. Estamos todos com os nervos à flor da pele, e Cell é o pior de todos nós, então procure não chateá-lo… ou eu te chuto para fora da cidade eu mesmo.
A proteção ferrenha de Roier para com seu cônjugue acabou por fazer Fit sorrir, impressionado com tamanha devoção. Ele acabou por assentir em concordância, o que pareceu satisfazer Roier, que empurrou as grandiosas portas e passou por elas assim que se abriram. — Cell, mi amor, trago él pendejo que llamaste para que nos ayude.
— Oh, gracias, guapito — alguém respondeu prontamente. — Eu já estava prestes a arrancar os cabelos aqui.
Ao cruzar o portal, Fit foi arrebatado por uma visão de imponência e beleza que parecia transcender tudo que conhecia. A sala do trono de Celestia não era apenas um aposento real, mas um vasto templo de arquitetura gótica celestial. Um tapete de um azul cobalto profundo e aveludado, espesso e macio, estendia-se majestosamente pelo centro da sala, pontilhado por milhares de pétalas desenhadas em um azul ainda mais vibrante, quase elétrico, que pareciam flutuar como orvalho sobre o tecido.
Nas laterais do corredor principal, pedestais de mármore branco clássico erguiam arranjos exuberantes de lírios alvos e folhagens verde vivas, conectados por grinaldas de tecido translúcido que ondulavam suavemente com a brisa. À direita e à esquerda, colossais pilares de pedra com esculturas complexas e arcos góticos altos definiam a estrutura, enquanto galerias ornamentadas com balustradas prateadas ofereciam vistas para o nível inferior, pontilhadas por mais canteiros de flores brancas.
Ao fundo, a imponente escadaria central, recoberta pelo mesmo tapete azul cobalto, ascendia em curvas graciosas até o trono real, que em si era uma obra-prima de engenharia e arte: uma estrutura prateada complexa, fundida a um órgão colossal cujos tubos se erguiam como lanças de luz, enquanto Imponentes banners pesados azuis, adornados com o prateado brasão estelar de Celestia, cascateavam da parte superior, tremulando gentilmente com a brisa correndo pelo recinto. O teto abobadado exibia uma ruptura dramática, com uma enorme fenda na cúpula de pedra revelava o céu aberto, e, por através dela, era possível avistar as torres sofisticadas e bem-desenvolvidas da cidade de concreto de Celestia, erguendo-se como um testemunho da civilização que prosperava sob a proteção da coroa. A luz do dia inundava o ambiente através dessa brecha e dos arcos laterais, misturando o antigo e o moderno em uma harmonia impressionante, que acabou por arrancar um assovio impressionado do mercenário.
— Wow, vocês realmente não escondem que têm riqueza pra dar e vender — ele comentou, voltando o olhar para frente. — Vossa Majestade “Cell”, imagino?
O homem em questão, adornado em caras vestes de seda e veludo de diferentes tonalidades de verde, fez uma careta.
— Por favor, me chama disso não. Já não basta meu marido me enchendo sobre isso o dia todo — Roier soltou um “Há!” de onde estava na sala, fazendo Cell revirar os olhos azuis. — Mas sim, meu nome é Cell. Fui eu quem mandou a carta solicitando sua presença. Fit, certo?
— Sim — Fit cruzou os braços —, fui informado que vocês tem um trabalho para mim, mas que não elaboraram do que se trata, então preciso saber de uma vez para saber se perdi ou não meu tempo vindo aqui.
Roier e Cell se entreolharam por um momento, e depois de uma conversa silenciosa, da qual Roier levantou uma sobrancelha e apontou com a cabeça na direção de Fit, Cell suspirou pesadamente e voltou os olhos para o mercenário.
— Bom, é uma longa história, e imagino que você esteja cansado da sua viagem até aqui. Por favor, me siga até a sala de reuniões. — solicitou Cell, voltando a cabeça na direção do marido. — Guapito, pode ver com o chef real se ele prepara alguma coisa pro nosso visitante comer?
— Si — Roier sorriu, olhando na direção de Fit —, alguma preferência, Lobo Solitário?
Fit grunhiu e esfregou o rosto. — Para de me chamar disso, pelo amor dos céus.
— Oras, é o seu título! — Roier sorriu brincalhão, sendo fuzilado pelo mercenário logo em seguida e levantando as mãos em rendição. — Okay, okay. Estou saindo.
O capitão deu meia volta para se retirar, mas antes que passasse pela grandiosa porta dourada por onde entraram, Fit o ouviu resmungar — Estos dos gruñones se llevarán bien, eso es seguro.
— Eu ouvi isso! — Ladrou Cell, e a única resposta de Roier foi uma gargalhada antes dele fechar a porta atrás de si. Cell, por sua vez, apenas revirou os olhos e sorriu. — Me desculpe por ele, Fit. Ele não faz por mal, só não gosta de me ver de mal humor, e ultimamente isso é todo dia.
— Hm, não há problema — Fit usou a mão para gesticular despreocupadamente na direção do rei regente —, mas pelo que estou vendo, você não está muito contente por estar nessa posição.
— É, definitivamente não — Cell suspirou pesadamente, andando na direção de uma entrada adjacente ao trono real e abrindo a porta. Fit não tardou a seguí-lo. — A verdade é que estamos na merda, e já tentamos tudo ao nosso alcance pra tentar trazer ele de volta, mas está praticamente impossível de obtermos êxito.
— Trazer “ele”? — Repetiu Fit enquanto se sentava em uma das inúmeras cadeiras aveludadas circulando a grandiosa mesa de planejamento, um belíssimo móvel de mogno que possuía um mapa do reino no meio e diversos objetos que indicavam aquilo ser um espaço de estratégia. — Imagino que queira dizer o tal rei de vocês que o povo tanto perguntava seu marido sobre?
— É, ele mesmo — assentiu Cell enquanto se sentava em uma cadeira que o deixava de frente a Fit. — O motivo pelo qual você está aqui, mercenário, é porque o atual rei de Celestia, Pacian Valois, foi raptado por volta de um mês atrás… e nós precisamos da sua ajuda para resgatá-lo antes que o povo descubra o que aconteceu e entre em pânico.
Fit encarou Cell por um momento, e depois de um momento de silêncio entre os dois, arqueou uma sobrancelha. — Você sabe que meu trabalho envolve matar pessoas, e não salvá-las, certo?
— Sei.
— E por que exatamente você confiaria seu rei a mim?
O suspiro que saiu da boca de Cell não poderia ser descrito como nada além de exausto.
— Correndo o risco de soar como ofensa, e me perdoe por isso, mas não temos outra escolha — Cell esfregou o rosto. — Já tentamos de tudo, mas todos os homens que enviamos até a localização que temos dele, não voltam. Já tentamos até mesmo usar apenas espiões apenas pra entender o que está acontecendo por lá ou quais são as condições que ele está sendo mantido, mas de alguma forma sempre são pegos e executados.
Cell então levantou o olhar novamente, e tudo que Fit conseguiu ver em seu rosto cansado era aflição.
— E por esse motivo meu marido, Roier, quer ir até lá pra tentar resgatar o Pac ele mesmo, mas depois de todos os homens que enviamos e não voltaram…
— Você não quer arriscar em mandá-lo e acabar o perdendo também. — Fit presumiu antes que Cell pudesse continuar, fazendo o homem estalar a língua no céu da boca em frustração.
— Eu e ele já discutimos diversas vezes sobre isso. Não me leve a mal, eu definitivamente não o subestimo, porque eu mais do que ninguém sei como ele é extremamente capaz e o melhor combatente de todo nosso reino, mas — Cell suspirou pesadamente —, eu não sei com o que estamos lidando. Eu não quero arriscar a vida dele dessa forma, não só pelos meus motivos pessoais, mas também porque o reino precisa dele por aqui pra manter a paz e a segurança… fora que Pac se sentiria horrível se perdêssemos o Roier porque ele está tentando resgatá-lo.
— Ah, e tudo bem arriscar a minha vida no lugar da do seu marido, então? — Fit questionou com uma expressão nada impressionada.
— Se dependesse de mim, colega, ninguém mais teria que se arriscar pelos nossos problemas — o sorriso que Cell lhe ofereceu agora era triste. — Mas já estamos ficando desesperados, e se o que dizem sobre você for verdade, então você é nossa única chance de ter nosso rei de volta antes que Celestia desmorone por completo.
— Hm — Fit descansou contra o encosto da cadeira aveludada, apoiando seu braço mecânico na mesa e encarando Cell com apatia. — O que exatamente você ouviu, que te fez cogitar um assassino como melhor chance de salvar o seu reino da ruína?
Cell o encarou, parecendo ponderar suas palavras por um momento, até ele se inclinar sobre a mesa e juntar algumas das várias miniaturas que eram usadas para estratégias. Fit assistiu Cell rearranjar todas as miniaturas no centro da mesa, situando dez rodeando apenas uma, e então levantou o olhar na direção de Fit mais uma vez.
— Você não é um homem comum, Lobo Solitário — ele apontou, fazendo Fit estreitar os olhos. — Vulcania, um dos lugares mais perigosos e inóspitos de Aeterna, e onde você esteve rodeado por dez homens fortemente armados e sedentos por sangue. Me diga, Fit, o que aconteceu nesse dia?
Foi a vez de Fit estalar a língua no céu da boca. — Imbecis cometeram um erro estúpido, e tiveram que pagar por isso.
— Oh? E o quão caro tiveram que pagar?
— Eu havia sido contratado para dar cabo do líder de uma facção irrelevante no Norte, arruaceiros que estavam atacando vilarejos e matando por diversão. Os nobres da região me pagaram pelo serviço, então eu arranquei a cabeça da serpente e fui embora depois de coletar meu pagamento, mas as outras cabeças dela quiseram se vingar… e acabaram as perdendo também — Fit removeu o capuz, revelando as cicatrizes marcando seu rosto e um olhar tão gélido quanto suas palavras. — Então eu diria que foi um preço justo.
Cell riu, incrédulo. — Você sequer tem ideia do quão absurdo isso soa?
— Eh — Fit deu de ombros, sorrindo genuinamente pela primeira vez desde que pisou em Celestia. — Eu diria que é uma típica terça-feira pra mim.
— Claro, claro. Bom… — Cell descansou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos na frente do rosto. — Esses homens “irrelevantes”, meu caro, não eram tão irrelevantes assim. Eles eram apelidados de “Sombras do Terror”, homens sem escrúpulo algum que matavam por esporte e se orgulhavam disso, principalmente porque eram praticamente invencíveis com suas armas amaldiçoadas pelo Arcanista que os liderava, ou a “serpente” que você degolou. Um homem tão poderoso e aterrorizante que nenhum reino fora Celestia conseguiu espantar.
Cell então apontou na direção de Fit, e um sorriso astuto curvou seus lábios.
— E você, meu caro Fit, deu cabo do grupo inteiro sozinho. Pessoas munidas de poder sobrenatural que ninguém além do meu marido conseguiu enfrentar e sair vivo pra contar história.
Fit voltou a estreitar os olhos, mas tirando isso e o fato de que cruzou os braços em frente ao peitoral, ele não disse nada. Não se vangloriou, tampouco confirmou as palavras de Cell com arrogância que se esperaria de qualquer homem que alcançou um feito como aquele. O alourado o analisou por um momento, e quando nenhuma outra reação veio a tona, sorriu satisfeito.
— Aí está sua resposta. Você é um homem que desafia a lógica do impossível assim como Roier, e a situação de Pac no momento, bem… — Cell perdeu seu sorriso, e sua expressão voltou a ter a mesma sombra de cansaço e preocupação que demonstrara desde o primeiro momento que Fit o viu. — Parece bem impossível de ser resolvida.
— Hm, entendo — Fit descruzou os braços, se inclinando para frente —, então o que você está me dizendo é que apenas um monstro é capaz de resgatar seu querido rei dos monstros o mantendo refém.
— Basicamente…
— Soa complicado — murmurou Fit —, vocês sequer sabem quem são esses dito cujos que o sequestraram?
— Esse é um dos problemas. Temos uma vaga ideia de quem possam ser, mas não fazemos ideia do que realmente querem e qual o plano deles com Pac — rosnou Cell, frustrado. — Eu sei onde ele está porque eu também domino arcana e tenho sua energia vital mapeada, justamente por precaução se isso viesse a acontecer, mas quem o capturou ainda é uma incógnita. Ele nunca pedem nada de nós como chantagem, apesar de ter ciência da nossa riqueza, e a última vez que tentamos enviar alguém para negociar com eles… bem…
Fit assistiu a expressão já transtornada de Cell se intensificar ainda mais.
— O que recebemos como resposta foi a cabeça do mensageiro junto de uma carta demandando nossa paciência porque “o momento certo ainda estava por vir”, seja lá o que diabos isso quer dizer.
O mercenário fez uma careta em simpatia. — É, vocês meio que estão na merda.
— Não me diga? — Cell lhe lançou um olhar nada impressionado, se levantando da cadeira e se pondo a andar de um lado para o outro com as mãos descansando contra as costas. — A única coisa que consegui juntar usando minha arcana e o que eu capturei da área onde Pac está, é que é uma área extremamente fortificada e rodeada de energia opressora. Homens comuns não vão voltar se pisarem por lá, mas você, alguém que derrubou um grupo inteiro que brincava com artes das trevas… — Cell parou de andar, para fitar o mercenário com uma expressão esperançosa. — Talvez você tenha chance.
— Estou lisonjeado — disse Fit, apesar de sua expressão não estar em sintonia com suas palavras —, mas como eu disse, meu trabalho normalmente é matar pessoas, não salvá-las, então o preço por essa exceção vai ser caro.
Cell parou na frente de sua cadeira, descansando as mãos contra o encosto e encarando Fit com uma expressão igualmente calculista.
— Como eu disse antes, preço não é um problema. Se esses arrombados tivessem nomeado algum preço pela cabeça de Pac, já teríamos pago, mas eles se recusam a nos dar qualquer retorno que não seja pedaços decepados de nossos homens — rosnou Cell entre dentes —, então prefiro pagar ao Sr. Impossível quando ele nos trouxer nosso Pac de volta.
Fit encarou Cell por um momento, e se permitiu analisar a postura do homem a sua frente.
Sua expressão era contida, mas Fit conseguia muito bem ver a tempestade que parecia acontecer dentro de seus olhos, que apesar de claramente cansados, continham uma fúria que estava à beira de vazar pelas rachaduras em seu autocontrole. O pensamento que ele talvez estivesse por trás disso tudo finalmente foi descartado dentro da cabeça de Fit, porque até os melhores mentirosos não eram capazes de fingir tamanha frustração e genuína preocupação com outra pessoa, então estava claro que Cell realmente se importava com a vida de seu rei, e estava completamente fora de seu elemento tendo que se tornar o rei temporário de Celestia.
E mais do que qualquer coisa, Fit sabia identificar uma alma torturada pelo passado, e isso acabou por amenizar a sua irritação perante o que estava sendo solicitado a ele.
— Tudo bem, eu aceito resgatar o seu rei — Fit eventualmente concordou, fazendo a expressão tempestuosa de Cell se atenuar e ser substituída por uma de alívio. — Mas… tenho certas condições.
— Pode falar. Como eu disse, preço não é um problema.
— Podemos conversar sobre o valor quando eu voltar para Celestia junto de Valois — Fit calmamente disse, se levantando da cadeira e olhando Cell nos olhos. — No entanto, eu vou precisar de recursos, e de pelo menos um dia de descanso antes de partir, principalmente dependendo da distância que vou ter que percorrer até chegar ao local que ele está.
Cell assentiu de imediato.
— Sem problemas, mas sobre a viagem… você não tem que se preocupar muito sobre. Eu vou te teleportar para perto da localização.
Isso fez Fit arquear uma sobrancelha intrigada mais uma vez.
— O seu domínio de arcana é desenvolvido ao ponto de você conseguir fazer feitiços de teleporte? — Fit voltou a cruzar os braços e a encarar Cell com suspeita brilhando em seus olhos. — Que eu saiba, se levam anos para dominar uma técnica dessa. Centenas, inclusive.
— Eh, não é nada demais — Cell desviou o olhar, encabulado —, só digamos que tive um mentor competente.
Aquilo não convenceu Fit nem um pouco, mas ele não era pago para questionar seus empregadores, então ele procurou guardar essa informação no fundo de sua consciência junto com as demais que seriam pertinentes de se relatar a Madagio no futuro, e optou por focar no que importava.
— Muito bem, você vai me teleportar, isso significa que consegue nos puxar de volta depois?
Cell voltou sua atenção para Fit, e muito para o desgosto do mercenário, balançou a cabeça negativamente.
— Eu gostaria, inclusive facilitaria nossa vida, mas como você mesmo disse, teleporte ou qualquer outro tipo de magia antiga é extremamente complexo e difícil de se conjurar, então eu vou estar um pouco inútil depois que eu teleportar você para o local, e não vou conseguir puxá-los de volta.
Fit grunhiu, esfregando o rosto. — Então não é melhor eu viajar até o local e você se poupar para nos puxar de volta?
— Ele está nas Terras Mortas, mais precisamente na Fenda dos Mil Suspiros — Cell explicou, fazendo com que Fit removesse a mão do rosto e arregalasse os olhos. — Você vai levar semanas até chegar lá a cavalo, e eu não sei se Pac tem todo esse tempo.
Fit continuou a encarar Cell, incrédulo, e depois de alguns segundos, finalmente lembrou como usar sua própria voz.
— Wow, wow, wow, Terras Mortas? Ninguém em sã consciência entra naquele lugar, é suicídio! — Fit fez uma careta, e Cell apenas sorriu pesaroso. — Eu nem defini um preço ainda, mas saiba que ele acabou de subir
Cell, no entanto, não pareceu afetado pelo comentário, continuando a sorrir.
— As Terras Mortas realmente são perigosas e tecnicamente inacessíveis, o que provavelmente foi exatamente o que os sequestradores de Pac pensaram. Em um lugar perigoso como aquele, só alguém sem amor à vida seguiria ele até lá... não que você não tenha! — Cell imediatamente consertou quando Fit o fuzilou. — Mas depois das coisas que ouvi que você sobreviveu, eu realmente acho que você é o único capaz de pisar naquele lugar e sair vivo dele… de preferência com o Pac.
Fit soltou um suspiro de irritação. Se ele achava que estava sendo punido pela sua competência antes, agora ele tinha certeza. God fucking dammit.
— Fine. Fine! — Sua língua nativa escapou por um momento, como sempre acontecia em momentos de alto stress. — Eu vou no quinto dos infernos salvar o seu rei conforme você me pediu, só realmente preciso que me dê um dia para me preparar e pelo menos descansar um pouco da viagem. Mas já avise seu marido que eu vou precisar de algumas coisas para levar comigo — Fit encarou a sua mão mecânica —, porque tirando meu braço, a maioria das minhas armas estão velhas e enferrujadas, e pisar nas Terras Mortas nessas condições vai ser morte certa.
— Claro. Vou conversar com Roier e pedir para ele separar algumas das nossas melhores armas para que você leve na missão, mas por hora, pode escolher um dos quartos do castelo para repousar.
Fit assentiu em agradecimento. — Obrigado.
— E vou solicitar também que levem sua refeição até o quarto para que você não tenha que ficar se cansando enquanto anda por esse castelo gigantesco. Eu genuinamente nem sei qual a necessidade de um prédio desse tamanho. — Resmungou Cell enquanto ele se virava para sair.
— Espera — Fit chamou, fazendo Cell pausar e se virar para fitá-lo —, você já confia tanto assim em um estranho? Eu poderia simplesmente roubar alguma coisa e dar o fora daqui depois de ouvir que vocês planejam me mandar pro inferno.
— Sim, você poderia — Cell concordou, se virando completamente para Fit —, mas me diga, Lobo Solitário, você está aqui por escolha… ou por obrigação?
A pergunta astuta fez os olhos de Fit se arregalarem por um breve segundo, mas ele logo voltou a encarar Cell com uma expressão desconfiada. — O que você quer dizer com isso?
— Apenas que um homem do seu nível não tem por que aceitar um trabalho que claramente não está confortável em fazer, então para mim está mais que claro que você não está aqui por livre e espontânea vontade — calmamente explicou Cell, lendo
Fit como um livro aberto e deixando o mercenário desconfortável. — Então não, Fit, eu não acho que você vai roubar nosso castelo e dar no pé. Afinal de contas…
Cell puxou uma das mangas verdes que cobriam seu antebraço, e então mostrou para Fit algo em seu pulso que apenas uma coisa seria capaz de marcar eternamente daquela maneira.
Amarras.
O mercenário arregalou os olhos novamente, olhando do pulso marcado do rei regente para sua expressão, que permanecia neutra apesar do peso do que ele tinha acabado de revelar sobre seu passado para o homem à sua frente.
— … Como você chegou na posição que ocupa hoje em dia, conselheiro? — Fit perguntou com a voz rouca, o som arranhando o silêncio da sala. Seus olhos não saíam do pulso de Cell, onde a marca das amarras contava uma história que ele ainda não conhecia, mas de certo entenderia.
O sorriso que Cell lhe ofereceu em resposta foi lento e banhado em uma melancolia profunda, o tipo de expressão que só pertence a quem já viu o fundo do abismo, e que Fit conhecia muito, muito bem.
— Roier me salvou de mim mesmo — foi sua resposta simples, embora o peso de cada palavra parecesse dobrar a gravidade no recinto. — Ele me encontrou quando eu acreditava, com toda a certeza do mundo, que era um caso perdido.
Cell desviou o olhar, um brilho distante atravessando seus olhos antes de ele voltar a dar as costas para o mercenário. Seus passos ecoaram ritmados em direção à saída, mas ele parou no limiar da porta, sua silhueta recortada contra a penumbra do corredor.
— Tente não se entregar às sombras antes da hora, Fit — disse ele, a voz agora mais suave, quase um conselho de um sobrevivente para outro. — Por mais que o mundo tente nos convencer do contrário, todo mundo merece uma segunda chance. Até mesmo monstros como nós.
Tendo dito isso, Cell saiu da sala. O estalo suave da porta se fechando deixou Fit sozinho, mergulhado em seus próprios pensamentos e tentando ignorar os fantasmas de seu passado, que pareciam caçoar dele no fundo de sua consciência.
— Damn — ele murmurou, se deixando tombar em uma das cadeiras novamente e se pondo a esfregar o rosto com a mão mecânica. — What on earth have I gotten myself into?
Infelizmente, o universo não o respondeu. O silêncio da sala era um velho conhecido, que o assombrava já faziam muitos anos. Fit estava sozinho, exatamente como esteve em cada momento de sua trajetória, e depois de um momento de contemplação… acabou por rir desgostoso, balançando a cabeça e mentalmente discordando das palavras de Cell.
Afinal de contas, nem todo monstro merecia salvação — e ele era prova viva disso.
