Chapter Text
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A perversão atribuída aos animais é uma característica exclusiva da espécie humana.
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Muitas pessoas confundem paz com silêncio. O desejo de fugir do caos da cidade e de toda a sua agitação geralmente vem acompanhado pela busca do silêncio da natureza. Porém, é exatamente aí que se enganam.
A natureza não é silenciosa.
Mesmo quando a escuridão engole o dia, a vida continua acontecendo — e da maneira mais barulhenta possível: o coaxar dos sapos, o sibilar das serpentes, o uivo do vento, o rugido dos felinos, grandes e pequenos. Ainda assim, é justamente ali que algumas pessoas encontram sua paz.
Era isso que Eduarda buscava no Pantanal.
Deitada em uma cama de solteiro, de lençóis finos — velhos, mas limpos —, muito distante de onde costumara dormir a vida inteira, ela encarava o teto de telhas de barro, tentando absorver a "quietude" daquele lugar.
Um barulho cortou o céu por um instante, rápido, alto. Parecia um grito, algo sendo rasgado ao meio: uma rasga-mortalha.
Eduarda reconheceu o som, os olhos se estreitando ao ouvi-lo. Para muitos, era sinal de mau presságio, um anúncio de morte — significado dado por quem não compreendia a beleza daquele animal ou a simplicidade de seu canto.
Mas ali, aquela ave não carregava estigmas.
Todas as noites, como um relógio, rasgava o céu com sua presença, marcando território, existindo como parte do natural, não como um presságio.
Ela já estava hospedada havia dois dias naquela casa meio rústica — na melhor das descrições. Não havia luxo, e aquilo fazia parte da experiência.
Na primeira noite, talvez pelo cansaço da viagem, dormiu quase instantaneamente ao colocar a cabeça no travesseiro. Mas, diferente do dia anterior, o cansaço que pesava em seu corpo não era suficiente para calar sua mente.
Seus sentidos pareciam mais aguçados: o roçar do lençol contra a pele parecia áspero, os cheiros frescos de madeira e musgo estavam dez vezes mais fortes, e os barulhos… o maldito coaxar dos sapos soava ensurdecedor.
No entanto, o que mais a perturbava não estava ali — pelo menos não como algo físico ou sensorial. O que assombrava Eduarda era uma memória que a havia perseguido do caos da cidade até o Pantanal.
"Você não pode fugir do passado, Juquinha. Na verdade, você só precisa aceitar que ele sempre vai ser parte de quem você é."
Paulinho dissera aquilo uma vez, muito antes de tudo o que aconteceu oito meses atrás.
Lembrar daquela frase agora parecia muito mais doloroso do que já fora.
O ventilador girava devagar no canto do quarto, espalhando um vento abafado que só aumentava a sensação de incômodo. Eduarda apertou os olhos com força e passou a mão pelo rosto — a imagem do distintivo e da arma sendo colocados sobre a mesa do delegado invadindo sua mente. O estalo metálico ecoava dentro dela. Suspirou, conformando-se de que não conseguiria dormir. Pegou o celular, praticamente inútil sem internet ou sinal, e o desbloqueou apenas para checar as horas.
Quase quatro da manhã, e ela não tinha sequer pregado os olhos.
Sentou-se na cama, os pés pairando sobre os chinelos. Por alguns segundos, encarou o quadro inacabado coberto por um pano sobre a cômoda. Negou com a cabeça e se levantou.
Seus pés se arrastavam pelo chão de cimento batido enquanto caminhava em direção à cozinha. Riu sozinha ao perceber que, pela primeira vez na vida, não precisava descer escadas para sair do quarto. Imaginou a reação de Paulinho diante de uma confissão tão "herdeira" como aquela.
Parou diante dos armários de madeira suspensos, alinhados acima dos outros móveis. Abriu uma das portas, ficando na ponta dos pés para enxergar o interior: vários potes com diferentes ervas sem identificação.
Com algum esforço, começou a abri-los, procurando por uma específica, torcendo para que o próprio olfato fosse suficiente para reconhecê-la. No terceiro pote, o aroma adocicado e suave da camomila preencheu seu nariz. Era inconfundível.
Pegou uma chaleira no balcão e despejou dois copos de água do filtro de barro. Colocou-a no fogão e acendeu o fogo com um fósforo.
Então foi até o sofá — que não ficava nem um pouco longe da cozinha — e se sentou, esperando o chiado familiar começar, encarando fixamente uma aranha que embrulhava algum inseto em sua teia.
Em poucos minutos, o chiado passou a preencher a casa inteira, constante e baixo, antes de ficar alto e irritante. Eduarda se levantou apenas quando o barulho ficou insuportável. Apagou o fogo e caminhou até outro armário, pegando uma xícara de vidro âmbar. Despejou a água quente dentro e depois um punhado de camomila, sem muita precisão. Nunca tinha feito chá que não viesse em sachê; perguntou-se se precisaria coar aquelas ervas depois.
Encarou a vagarosidade com que cada folha seca afundava na xícara, o vapor subindo para o seu rosto; inspirou o cheiro delicioso, que lhe trouxe paz por um instante… Tão rápida quanto foi formada, aquela atmosfera de sossego se quebrou.
Um estalo alto vindo de fora — um galho apodrecido despencando de uma árvore — ecoou nos ouvidos de Eduarda como um tiro.
Os olhos foram os primeiros a reagir, arregalados e assustados, desfocados de qualquer lugar, depois o coração, batendo tão forte que era a única coisa que ela conseguia ouvir, em seguida as mãos, tremendo incontrolavelmente, tão fracas que não poderiam segurar a xícara.
O barulho de seus batimentos abafou o som alto do vidro marrom se estilhaçando no chão, pedaços tão pequenos que alguns ficariam perdidos pela casa por meses.
A expressão de Eduarda era de um tipo de terror primitivo, daqueles que parecem nascer direto da alma.
Sem saber quanto tempo passou naquele estado catatônico, seus olhos perdidos passaram a encontrar foco. Tornou-se consciente da própria respiração, rápida demais.
De repente, sentiu...
A pele do pé esquerdo pulsou; olhou para baixo, notando o brilho e a vermelhidão causados pelo líquido quente derramado sobre ele. A dor, que antes fora anestesiada pelo pavor, começava a dar as caras.
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Suspensão por tempo indeterminado devido a questões psicológicas.
Era uma forma bonita de dizer que Eduarda não conseguia mais tocar em uma arma sem tremer. Foi patética, para dizer o mínimo, a forma como sua voz embargou e seus dedos tremeram ao tentar explicar para o delegado Jairo que conseguiria continuar atuando como policial. Seu corpo traía sua boca, contrariando diretamente cada palavra que saía dela.
Estava sentada do lado de fora da cerca que delimitava uma parte da fazenda de José Leôncio, onde ficavam as moradias e os currais. Encarava o rio à sua frente; os cabelos ruivos voavam para o lado, deixando seu rosto livre. Suspirou, desviando o olhar para o caderno repousado em seu colo, batucando o lápis contra o esboço de uma garça que já havia levantado voo há tempos.
O pantanal sorria para ela. O clima, apesar de quente e úmido, não chegava a incomodar, ofuscado pela beleza exuberante da paisagem. Um azul sereno pintava o céu limpo, e o ar puro preenchia seus pulmões, trazendo alívio. Ainda que, respirar fundo nunca parecesse suficiente.
A paz queria alcançar Eduarda, mas algo dentro dela a impedia de deixar que entrasse. Talvez a voz que gritava dentro de si, dizendo que tudo aquilo era uma idiotice — que, na verdade, o que ela precisava era se afundar no trabalho e virar noites revisando inquéritos. Ou talvez fosse a dor que crescia silenciosamente a cada dia, e que ela insistia em ignorar.
Não desviou o olhar quando a porteira atrás de si abriu, sabia exatamente quem a atravessava.
— Guta. — sorriu, o sol batendo em um lado de seu rosto ao encarar a mulher em pé a sua frente. — Você tá atrasada.
O tom de Eduarda era leve e descontraído.
— Na verdade, — olhou o relógio fino em seu pulso. — cheguei na hora, você que deve ter se adiantado.
Faltava pouco para completar uma semana ali e Guta estava ajudando ela a se adaptar, uma espécie de intermediadora do choque cultural inicial, afinal ela conhecia o Pantanal tão bem quanto São Paulo.
A morena olhou por cima dos braços de Eduarda o início do seu desenho no caderno.
— Quando é que você vai me desenhar? — falou ao puxar uma das mãos de Eduarda para que ela se levantasse. — Eu não sirvo para ser sua musa?
Eduarda bateu na calça para limpar a sujeira rapidamente, um sorriso, chocado pelo flerte tão descarado, surgindo no seu rosto.
— Apesar de muito bonita, você não se enquadra exatamente como beleza natural.
Foi a vez de Guta ficar chocada, abriu a boca soltando uma risada incrédula.
— Eduarda Fragoso! — Repreendeu dando um tapa leve em seu ombro.
— Você exala o caos de São Paulo, gata. — piscou deixando algo no ar.
Era natural, quase automático, conversar com a mulher. Um respiro que dissipava um pouco sua introspecção.
Augusta se sentou ao fundo do barco, que descansava ancorado na beira do rio, puxando a corda que ligava o motor. Um ronco suave se fez presente, fazendo o barco tremer, levemente inclinado para cima. O corpo de Eduarda foi puxado um pouco para trás, o repuxo causado pelo início do movimento.
Nos seis dias que passara no Pantanal, já tinha andado a cavalo, participado de uma roda de viola junto dos peões de Zé Leôncio e acumulado alguns rascunhos avulsos de paisagens e animais. Nada parecia suficiente para justificar sua estadia; em uma última tentativa de se conectar com o lugar e se encontrar novamente, deu uma chance àquele passeio de barco.
Se agarrava à sensação magnética e mística de encanto e cura que tanto escutara sobre aquele lugar. No fundo, ela também sentia — mas não o suficiente para ficar.
Guta tinha uma visão privilegiada e quase cinematográfica de Eduarda. Sentada de lado na ponta do barco, o perfil marcado visível, o sol destacando o tom dos cabelos, fazendo-os parecer brasas ao vento. Tinha uma expressão concentrada no rosto, analítica, observando ao redor à procura de algo que valesse a pena capturar em seus desenhos. Vez ou outra, os dedos habilidosos rabiscavam algo.
Os dias pareciam mais longos no Pantanal, mas Eduarda queria ver o pôr do sol de uma perspectiva mais natural. Insistiu para que Guta parasse o barco em uma ponta do rio.
— Duda, o pôr do sol ainda vai demorar umas duas horas. — seu tom era preocupado enquanto ela amarrava a corda do barco em um toco de madeira.
— Eu sei, podemos ficar aqui por enquanto, a vista é bonita. — virou-se, analisando o local. — Talvez eu encontre inspiração.
O chão tinha uma espécie de grama curta e seca. Na parte mais próxima do rio; atrás, as árvores tinham um certo espaçamento até certo ponto, antes da vegetação se fechar alguns metros adiante.
Um carcará, pousado em uma árvore seca, com seu olhar afiado, as observava atentamente; a cabeça se movia como se estudasse a intenção das duas. Eduarda pegou o lápis ao notar a ave, mas, para seu azar, ela não queria servir de retrato.
— Eduarda. — chamou, mais séria. — A sua ideia de ver o pôr do sol daqui é legal até… mas-
Guta observou a outra levantar as sobrancelhas, pedindo que concluísse o pensamento.
— É perigoso sair daqui depois que escurecer.
— Você tá com medo?
— É inteligente ter medo. — se justificou. — Aqui é cheio de onça, principalmente à noite.
— Guta, fica tranquila que a gente não tá no cardápio das onças. — deu um tapinha leve em seu ombro, como se a consolasse. — É muito raro ataque em humanos.
— Isso em teoria, Duda. — fechou os olhos, com uma leve impaciência. — A natureza não segue regras. Além disso, não é muito inteligente se arriscar logo no território delas.
— Tudo bem. — se rendeu. — Mas a gente já tá aqui, então me deixa pelo menos dar uma explorada. — deu alguns passos, como uma criança travessa. — Ou você tem medo que um tuiuiú ataque a gente?
— Aí, garota, se toca. — revirou os olhos. — Vamos logo, mas vamos voltar antes de escurecer. — avisou, muito séria.
Começaram a caminhar pela planície, cautelosas para não espantar os animais. Um casal de araras-azuis sobrevoava por cima delas. Apesar de tímidos, nem todos os animais se deixavam intimidar com a presença humana.
Uma iguana escalava uma árvore tranquilamente; capivaras bebiam água de forma atenta, alertas a quaisquer sinais de que um jacaré se aproximaria; um anu comia uma rã dentro de uma poça d'água, e o canto alto de uma cigarra servia de trilha para tudo isso. Tudo aquilo existia independente delas.
Isso era o mais bonito.
Eduarda começou a se afastar um pouco, jurando ter visto um bugio pulando nas árvores. Guta se apressou para alcançá-la, os olhos se arregalando ao começar a reconhecer o local onde estavam.
— Ei! — soltou um grito sussurrado, para chamar a atenção dela. — Vamos voltar.
— Ué, mas a gente tá aqui há uns vinte minutos só.
— Sim, mas estamos caminhando direto pra toca da onça. — disse, apreensiva, observando uma tapera a poucos metros delas. — Vamos voltar!
Eduarda franziu as sobrancelhas, confusa com a reação da outra. Quando viu a tapera desgastada ao fundo, sua expressão mudou para compreensão — mas algo brilhava divertidamente em seus olhos.
— Ah, entendi. — estalou os dedos, guardando o caderno na mochila. — Você tá querendo me botar medo, né?
Riu, andando até a casa; apesar de velha, não parecia desocupada — havia rastros de vida humana ali.
— Tem até gente morando por aqui, não tem onça nenhuma.
— Volta aqui, Eduarda. — deu dois passos largos para alcançá-la. — É justamente da dona dessa casa que eu tô falando.
Segurou um dos braços dela pra impedir que chegasse mais perto, embora já estivessem a dois metros da entrada.
Eduarda inclinou a cabeça.
— Você disse que era uma toca de onça.
— É modo de falar. — havia urgência na explicação. — O pessoal daqui comenta que a moça que mora aí vira onça quando se irrita.
A ruiva gargalhou alto, sem acreditar no que ouvia.
— E você acredita nisso? — disse, ainda rindo.
— Claro que não… quer dizer, eu não sei. — disse, mais baixo. — Mas eu sei que ela tem uma espingarda, isso eu vi de perto e não tô afim de ver de novo, então vamos embora!
Como se fosse para confirmar a história de Guta, uma mulher apareceu na porta da tapera, uma espingarda erguida; o som da trava sendo desativada ecoou seco.
Os olhos de Eduarda ficaram hipnotizados com a cena; sua boca se abriu levemente, um fascínio imediato invadindo cada centímetro de seu corpo. A mulher tinha cabelos longos, o rosto arredondado, porém bem marcado; um olhar felino feroz que escondia um pouco de medo por trás. Eram olhos verdes lindos, destacados pelas sobrancelhas escuras e levemente desalinhadas.
— O que que ocês tão fazendo aqui? — se aproximou mais, fazendo ambas recuarem. A arma ainda apontada, alternando entre os rostos delas.
— A gente já tava de saída, Juma. — Guta respondeu, segurando a mão de Eduarda. — A gente se perdeu no caminho.
— Pois tratem de se achar e vão simbora daqui. — Juma não dava trégua; parecia sempre mais irritada com explicações.
— Vamos fazer isso agora mesmo. — puxou Eduarda para que saíssem, mas a mulher não se moveu.
Absorvia a beleza de Juma em cada detalhe. Havia meses seus olhos não acendiam daquele jeito.
— Você tem permissão pra usar essa arma? — foi a primeira coisa racional que cruzou sua cabeça.
A expressão irritada aumentou, misturada com confusão diante da pergunta. Começou a esbravejar ofensas para as duas, o que fez Guta realmente arrastar Eduarda para fora dali.
— Você tá maluca? — disse, meio ofegante, já perto do barco.
— Eu? Ela que é a maluca. — apontou para um ponto avulso na mata. — Ela apontou uma arma pra gente do nada!
— E você ficou desafiando ela! Você não tá em São Paulo, Eduarda. Aqui você não é a investigadora Juquinha, as coisas não funcionam como você quer.
A expressão de Eduarda se fechou completamente com a menção ao cargo policial. Encarou Guta com uma mágoa mal disfarçada.
— É, você tem razão.
— Duda, eu não quis…
— Tá tudo bem, Augusta. — subiu no barco ainda amarrado, apoiando a mão no queixo, esperando para voltar para a fazenda.
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Existe uma prática entre um grupo específico de pessoas que consiste em explorar cavernas, se espremer em buracos estreitos, sentindo a pele ser rasgada pelas pedras; a sensação claustrofóbica de rastejar tendo apenas uma direção como possibilidade e o risco real de morte. Tudo isso para ser a primeira pessoa a acessar um lugar intocado pela humanidade. Se orgulhar em dizer que foi, talvez, a única pessoa a ter acesso à beleza pura do local.
Ego, burrice, adrenalina. Havia muitas opiniões sobre o que, de fato, levava as pessoas a fazerem aquilo.
Amor raramente era citado como motivo. Mas, independente do que fosse, a premissa daquela prática se aproximava um pouco do que levava Eduarda a ir, pela terceira vez, à tapera de Juma. E a caminho da quarta.
Não é algo bonito de se dizer. Não é algo de que se orgulhar. Mas é humano.
Nem sempre o amor nasce de algo bonito; às vezes, ele começa no ego, no ódio, na luxúria, na posse... mas isso não quer dizer, necessariamente, que está fadado ao fracasso — apenas mostra que é um sentimento humano.
Eduarda refletia sobre suas motivações enquanto caminhava sobre algumas folhas secas, o caminho familiar já decorado na sua cabeça.
A moral e a culpa ao insistir em atrapalhar a rotina de uma mulher que vivia daquela forma a vida inteira existiam. Ela sabia que sua invasão incomodava. E pensava nisso mais do que gostaria.
Por outro lado, o desespero de se encontrar novamente afetava a forma como ela julgava aquela situação. O medo cru de perder completamente a essência do que um dia já foi, fazia ela aparecer ali de forma insistente, porque quando viu Juma pela primeira vez, apesar de caótica, sentiu algo que lembrava o que um dia foi paz. Lembrou de quem já foi — e isso lhe deu esperança.
Esperança e desespero...
Será que era isso que levava pessoas a explorarem cavernas?
Pouco importava agora, já estava em frente para a tapera. Com as mãos erguidas, nunca treinava o que iria dizer. As vezes parecia que ia apenas para ser expulsa.
Talvez pelos devaneios, talvez por não acreditar, só notou a bala estilhaçada no chão quando o som alto finalmente alcançou seus ouvidos.
As sensações do passado invadiram sua cabeça primeiro — um gosto de cobre tomou sua boca. O sangue, tanto sangue, tão vivo. Uma dor aguda atravessando seu ombro e um grito desesperado arranhando sua garganta.
A visão que Juma tinha era a da reação corporal: o pavor no olhar, o tremor no corpo, a falta de resposta racional à sua voz. Eduarda estava mais próxima de um animal do que de um ser humano. Agachada no chão, quase imóvel, acuada, indefesa.
Juma reconhecia aquilo. Talvez não exatamente daquela forma, mas a reação se aproximava de um bezerro assustado.
Travou o corpo, analisando a situação com um pouco de desconfiança. A espingarda foi baixando aos poucos, até decidir largá-la no batente da casa. Passou a mão pela própria coxa, conferindo se a peixeira ainda estava ali — só por precaução.
Lentamente, com as mãos estendidas, não deu mais que dois passos. Manteve uma distância segura para não assustar Eduarda. Ficou ali do lado, agachada, o olhar preso no corpo tremendo, como quem observa um bicho ferido sem saber direito onde tocar.
Usou de toda a paciência para não sair de perto, mesmo parecendo demorar horas para que ela se acalmasse.
Quando acabou, o clima ficou meio estranho. O silêncio e a vergonha se pendurando no ar. Havia espaço para várias perguntas, mas nenhuma das duas queria fazê-las.
Eduarda voltou à tapera depois de alguns dias. Dessa vez, menos invasiva — a intenção era se desculpar e agradecer. Juma parecia mais receptiva, confiando tanto na vulnerabilidade que a outra tinha mostrado quanto na faca amarrada na própria perna.
Assim, aos poucos, na insistência e no cuidado torto, a relação das duas foi se criando.
°~♡~°
Os pés de Eduarda estavam pendurados para fora do barco que boiava preso na beira do rio. Juma estava sentada em uma pedra, as pernas abertas, enquanto as mãos habilidosas usavam a faca para descascar uma laranja.
Encantada com a cena, Eduarda sorria ao observar Juma, que continuava encarando a fruta como se a presença da outra não fosse importante.
— Purque que ocê tá mi olhando? — perguntou, sem desviar o olhar da sua tarefa.
Eduarda não se intimidou ao ser pega. Apenas sorriu, se jogando para trás, deitando as costas no barco, os pés ainda balançando na água.
— Só admirando sua beleza.
— Ora... — respondeu, com a irritação de quem tinha ficado mexida e não queria admitir.
— Na verdade, eu queria perguntar se você não quer nadar. — sentou novamente, agora que tinha chamado a atenção dela. — A água tá uma delícia.
— Num quero. — cortou. — Vá ocê sozinha.
— Mas eu tenho medo de um jacaré me pegar. — Eduarda argumentou, brincando.
— I ocê quer que ele pegue eu também?
— Eu vi em algum lugar que jacaré tem medo de onça. — deu de ombros, insistindo.
Juma olhou para Eduarda, as sobrancelhas franzidas com o argumento que, de algum jeito, fazia sentido. Analisou a garota em cada detalhe antes de responder:
— Ocê é muito magrinha, ele num vai querer comer ocê não.
A boca de Eduarda se abriu em choque. Um riso alto saiu, espontâneo, pela forma como Juma disse aquilo.
De cabeça baixa, Juma escondia um pequeno sorriso.
— Tá bom, eu vou sozinha! — disse Eduarda, tirando a blusa sem vergonha nenhuma.
Juma observou meio encabulada, olhando pelo canto dos olhos, com medo de encarar diretamente. Eduarda tirou o resto das roupas e se jogou no ri
Um mergulho meio desengonçado — natação não era muito seu forte — e então emergiu, os cabelos ruivos molhados sendo jogados para trás.
— Vem, Juma. — sorriu, chamando com os braços.
— Já disse qui num quero, ora. — esbravejou, desviando o rosto.
Eduarda não insistiu. Sabia que aquela hesitação fazia parte de Juma; pelo jeito que ela agia, a curiosidade acabaria levando ela até lá.
E não demorou muito.
Em passos desconfiados, Juma se aproximou do rio, tirando suas roupas devagar, encarando Eduarda sem querer admitir a “derrota”.
— Eu num tô vindo purque ocê pediu… — se defendeu, irritada.
— Tudo bem. — Eduarda mostrou as palmas das mãos, em rendição.
A forma como Juma se movia na água era majestosa. Lenta e precisa, como se tivesse nascido ali. Quando mergulhou e emergiu, deixando só os olhos à mostra, se aproximando devagar, Eduarda entendeu por que diziam que ela virava onça — não era só a aparência. Ela caçava como uma.
Em algum momento, ficaram muito próximas. Uma intimidade que crescia em silêncio, até simplesmente estar ali.
Juma observava a beleza de Eduarda; as gotas de água pareciam destacar cada detalhe.
— O qui foi isso? — perguntou, traçando com o dedo uma cicatriz arredondada no ombro esquerdo dela.
Eduarda olhou para o próprio ombro. Uma dor pequena surgiu no peito, enquanto ponderava se devia falar.
— Foi um tiro — respondeu, com um sorriso pequeno.
— Purque fizeram uma coisa dessas? — o tom veio indignado.
— Você quase atirou em mim um dia desses. — brincou, empurrando o assunto um pouco pra debaixo do tapete.
— Mas num atirei, ora. — bufou. — E nem ia atirar.
Parecia ofendida de verdade com a acusação. Saiu do rio brava, pegando suas roupas e voltando a descascar sua laranja.
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— Eu digo e ela não acredita… ela é bonita, é bonita. — cantarolava, o lápis viajando pelo papel enquanto reforçava os traços marcantes dos olhos de Juma.
Às vezes erguia a cabeça só para observá-la ali, a poucos centímetros. O tom era suave, encantado e meio envergonhado.
Juma parecia tímida — a cabeça um pouco baixa, mas o olhar erguido. Sorria de um jeito que Eduarda começava a conhecer melhor: doce, genuíno.
— Ocê tem voz muito bonita, Duarda.
— Você acha? — havia um fio de timidez no tom.
Juma apenas concordou, se aproximando devagar, manhosa, encaixando a cabeça no pescoço dela, se esfregando ali como um gato.
— Canta mais — pediu, baixo, os lábios beijando perigosamente seu ouvido. — Ocê 'repiou.
Levantou o rosto para encará-la. Eduarda a olhava de volta com uma expressão quase surpresa — os olhos escuros, agora carregados de desejo. A intensidade que Juma sustentou naquele olhar fez Eduarda juntar as pernas, o calor descendo, lento, para baixo do ventre.
Antes que pudesse pensar, Juma já estava em seu colo, tomando seus lábios de forma instintiva, urgente.
O caderno e o lápis ficaram esquecidos ao lado. As mãos desceram para a bunda, apertando firme, sentindo a fricção dos movimentos deliberados de Juma contra si.
Ela era intensa, guiada por algo que não passava pelo pensamento. Provocava sem perceber — como no primeiro beijo. Sempre assim: ficavam no quase.
Um quase delicioso.
Perdiam-se no tempo quando se agarravam daquele jeito — natural, inevitável. Suspiros mais altos, gemidos abafados entre bocas, o calor subindo, os corpos se enroscando, dedos se fechando com força nos cabelos, suor escorrendo. Até pararem.
Satisfeitas, sem estarem satisfeitas de verdade.
O corpo ainda pedindo algo além das roupas.
Já era noite quando se deitaram na rede. Mesmo sendo mais alta, Juma sempre se ajustava para caber sobre o peito de Eduarda.
Eduarda aproveitava para sentir Juma com as mãos — a textura dos cabelos, a pele quente dos ombros. Às vezes descia os dedos devagar, da base dos seios até roçar, quase sem querer, os mamilos. Um toque leve, quase inocente.
O corpo de Juma reagia — às vezes inquieto, às vezes aceitando como algo natural, íntimo.
— Sabia que me chamam de raposa lá em casa? — disse, sem motivo especial. Só pela vontade de falar com alguém que se gosta.
— Purque? — Juma se mexeu para olhá-la melhor, curiosa. — Ocê vira raposa quando tá com reiva?
Eduarda riu baixo, já esperando aquela resposta.
— Não. É por causa do meu cabelo. — puxou uma mecha, mostrando.
Juma se apoiou no braço para observar melhor… e então riu. Uma gargalhada leve, espontânea, como se tivesse ouvido uma piada.
— Ora, que besteira. Quem já viu raposa cor de fogo?
Eduarda abriu a boca, quase ofendida, mas segurou o riso, ia explicar, porém hesitou.
— Duarda… ocê parece um veadinho pitico — continuou, como se fosse óbvio. — Seus oio preto, grande… seu nariz bonitinho… esse cabelo de fogo... igual ao pelo deles. — ia marcando cada coisa com o dedo. — Ocê até se assusta qui nem eles.
— Um veado? — tentou não sorrir, mas algo apertou seu peito de um jeito bom. — Onça não come veado?
— Come. — o sorriso de Juma veio travesso. — Mas num carece de se preocupar… qui não vou comer ocê, não.
Riu, se aconchegando outra vez no pescoço quente, sentindo ele vibrar com o riso que Eduarda também soltava.
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Eduarda mal saiu do barco e foi enlaçada pelo abraço urgente e apertado de Juma. O nariz encaixado no pescoço, inalando o cheiro com necessidade.
Um jacaré submergiu ao canto do rio, soltando vibrações pela água.
Os lábios grossos passearam pela pele delicada e arrepiada daquela área, deixando beijos lentos e desleixados. Em seguida, a língua percorreu da base até o queixo, dando uma mordida quase forte demais ali.
— Juma… — a voz saiu baixa e rouca, tremendo um pouco.
Segurou a base do pescoço dela e a afastou do seu, fazendo-a encarar.
— O que deu em você?
— Tô querendo ti amar. — respondeu simples, os lábios atacando os de Eduarda.
Ela recebeu os beijos, se embriagando neles, retribuindo como podia, antes de se concentrar pra quebrar o contato.
— Calma… — abriu os olhos devagar, puxando o pouco de controle que tinha.
— Ocê num quer? — perguntou, deixando um beijo mais contido no canto dos lábios dela.
— O quê? — a dúvida se misturava com a certeza, e uma ansiedade crescia ao presumir a resposta.
— Onte' eu sonhei que ocê me fez sua mulher… — disse contra a pele da bochecha de Eduarda, também meio entorpecida pelo contato. — Foi tão bom… faz di verdade, Duarda.
A última frase saiu quase como um gemido no ouvido dela, uma súplica manhosa.
Era um pedido impossível de negar. Então Eduarda não negou.
Ia devorar com devoção o corpo daquela mulher-onça, com a paixão que ela merecia.
O caminho até a tapera pareceu curto demais. Lá estavam, com toda a urgência e o desejo acumulado durante meses, transbordando.
Dentro da casa, Eduarda encurralou Juma contra a parede, beijando seus lábios devagar. As línguas se encontrando, disputando espaço.
Quando se afastou, um fio de saliva ainda ligava suas bocas. Ele se rompeu quando Eduarda começou a descer com a boca.
Os beijos vieram pelo pescoço, pelo vale entre os seios, pelo ventre… e mais abaixo. Toques rápidos por cima da roupa — provocação.
Quando voltou a beijá-la, já não havia muito controle. As duas se guiavam contra as paredes da tapera, numa espécie de dança sem ritmo.
O ar ficou quente, quase escasso, mas não se afastavam. Os corpos não queriam distância — nem por um segundo. Qualquer espaço entre elas já parecia tortura.
Juma soltou um som sofrido quando a lombar bateu de leve no balcão. Os dedos percorreram a camisa de Eduarda, puxando o tecido pela lateral com força, sem paciência, querendo trazer o corpo ainda mais perto.
— Duarda… quero ser tua… me faz ser tua… — a súplica saiu rouca, se perdendo na respiração.
Eduarda ergueu o rosto, os olhos escuros presos na névoa dos de Juma. Levou a mão até o rosto dela, traçando devagar cada detalhe — as sobrancelhas, a lateral do rosto, o nariz.
Quando chegou na boca cheia, Juma abocanhou a ponta dos dedos, um sorriso intenso surgindo logo depois.
Eduarda desceu o toque com calma pelos braços dela, dos ombros até a palma da mão, demorando ali. Os dedos brincando, um movimento mais lento, quase malicioso, passando pelos espaços entre os dedos de Juma.
Por um momento, Eduarda parecia mais predadora do que presa.
Juma reagia a cada toque, se desfazendo pouco a pouco, o corpo cedendo, o nariz se esfregando no pescoço dela, os olhos fechados.
— Tô ti querendo demais… — sussurrou no ouvido de Eduarda.
— É? De que jeito? — provocou, com um sorriso perigoso.
— Ora, ocê sabe… — apesar da pressa, a voz ainda saía baixa, quase suplicante.
— Não sei. O que você quer que eu faça, Juma?
Juma respirou mais fundo, ainda distribuindo beijos imprecisos pelo rosto e pescoço dela, ofegante.
— Quero que me ponha prenha d’ocê, Duarda…
Eduarda respondeu imediatamente, juntando os lábios nos dela com urgência, um braço enlaçado com força na cintura de Juma. O beijo era forte e faminto, uma fome mais intensa do que das outras vezes.
As mãos exploravam os corpos que já conheciam, mas de uma forma nova, apertando a pele, puxando, arranhando... sentiam que só seriam completas quando se fundissem.
— Juma, você fala umas coisas... — disse em um sopro quente, contra a boca dela, as testas encostadas. — Você nem imagina o que faz comigo...
Um riso nervoso escapou antes de completar:
— O que me dá vontade de fazer com você...
Juma se aproximou, um bufo impaciente saindo, sem deixar quebrar o desejo. O corpo reagindo, puxando Eduarda mais para perto.
— Então faz, Duarda... — roçou os lábios levemente nos dela, instigando. — num fica só pensando não...
Eduarda estalou a língua frustrada, escondeu o rosto por um momento no pescoço de Juma, tentando se recompor. Em vez de tentar explicar, agarrou novamente o corpo da mulher, com força.
Uma emoção adorativa se acumulando em seu peito, que crescia junto do desejo. Em um impulso, colocou Juma em cima do balcão, a posição não era das melhores por conta da altura de Eduarda, dificultaria um pouco alcançar seus lábios, mas sabia que Juma precisaria se apoiar em algo.
Devagar, ela começou a abaixar as alças do vestido, delicada, contrariando um pouco toda aquela situação. Cada centímetro de pele que era revelado brilhava mais nos olhos de Eduarda.
Os seios pequenos, tão lindos, os mamilos arrebitados em um tom rosado escuro, tão perfeitos, pareciam caber perfeitamente na boca de Eduarda. Quando tirou o resto do vestido, parou alguns segundos para admirar.
A nudez que nunca foi alvo de vergonha entre as duas, que marcava a intimidade de tomar banho juntas no rio, agora ganhava um contexto novo e mais visceral, que antes ficava nas entrelinhas.
Os olhos de Eduarda marejaram, emocionada e admirada com aquela situação, tão delicada e tão crua ao mesmo tempo.
— Que que ocê tem? — Juma se curvou, preocupada, segurando o rosto de Eduarda e limpando a lágrima que escorria. — Tá triste? Num quer?
— Não… — negou com um sorriso em meio às lágrimas. — É justamente porque eu te quero… de uma maneira que eu nunca quis ninguém…
Fungou, olhando para cima, tentando enxergar o rosto de Juma.
— Eu quero você toda hora… quando eu tô naquela fazenda, sozinha, de noite, escutando os grilos cantarem… quando eu atravesso o rio… quando eu tô perto… e principalmente quando tô longe…
As mãos subiram, traçando o rosto dela com cuidado.
— De noite, de dia… de um jeito tão lindo… que não se limita ao que a gente tá sentindo agora…
A voz falhou, mas ela continuou mesmo assim:
— Eu tô chorando porque o fundo do meu ser te quer… e meu corpo não tem mais nenhuma maneira de expressar isso…
Respirou fundo, como se ainda não fosse suficiente.
— E mesmo depois de eu dizer tudo isso… eu ainda sinto que não disse nada.
— Isso é purque ocê mi ama. — Juma decifrou, com uma lágrima lutando pra não cair. — Eu sei purque também sinto assim.
Pegou a mão de Eduarda e guiou até o próprio peito. O coração batia forte contra a palma dela.
— Tá assim pur sua causa…
Eduarda beijou ela novamente, desta vez mais suave.
— Eu te amo. — a confissão foi engolida por Juma, se tornando parte dela. — Eu te amo...
Repetiu porque não parecia suficiente, e o beijo voltou ao seu tom urgente, mas com um toque novo no meio.
As mãos de Eduarda voltaram à sua forma exploratória. O beijo não se sustentava tanto por conta das posições, mas em compensação deixava a boca dela praticamente de frente para os peitos de Juma.
Abocanhou inteiro um deles, enquanto a mão apertava firme o outro. A língua serpenteando por cada centímetro da pele, depois subindo e fechando os lábios em torno do mamilo.
Aquilo arrancou uma reação maravilhosa de Juma. Os sons saíam desconexos de sua boca, as mãos foram diretamente para o cabelo de Eduarda, arranhando a base da nuca com as unhas curtas, o que causou um arrepio na espinha da ruiva.
O fio de saliva ficou visível entre os seios quando Eduarda alternou os movimentos, a boca agora no outro.
A mão direita, que estava posicionada na coxa de Juma, começou a se mover, calma, quase como um carinho. Ela se arrastou vagarosamente até perto da virilha, e a mulher fechou as pernas, antecipando o toque. Eduarda não deixou. A outra mão mantinha as pernas dela abertas.
Soltou o seio da boca, fazendo um estalo alto ecoar pela tapera, abafando os sons dos animais lá fora.
Encarou os olhos verdes, que pareciam cinza agora por conta do desejo, e só então começou a mover a mão. As duas gemeram em sincronia no momento em que a mão firme de Eduarda encontrou a pele quente e molhada da intimidade de Juma.
Passou dois dedos por toda a extensão, espalhando a lubrificação, mais por fascínio do que qualquer outra coisa.
Juma arqueou as costas em resposta.
— Porra... — sussurrou, hipnotizada pela umidade daquele lugar.
Juma não foi coerente em sua resposta — eram murmúrios e resmungos, as mãos se espalmando contra as costas de Eduarda, querendo que ela fizesse algo.
Eduarda posicionou os dedos por cima do nervo inchado, fazendo movimentos suaves contra o clitóris, a princípio cuidadosos. Com a boca meio aberta, observava as reações de Juma, que mantinha o lábio entre os dentes, as sobrancelhas juntas e uma expressão meio sofrida, que implorava por mais. Os quadris se moviam contra seus dedos.
Um dos dedos escapou do clitóris e explorou novamente a pele quente dos lábios, roçando ali. Até que a ponta circulou a entrada, escapando para dentro.
Nesse momento, as pupilas de Juma dilataram, algo se conectando na sua cabeça, como se tivesse entendido
— Isso... — pediu, o rosto rubro. — Se encaixa n’eu, Duarda.
Mais mandou do que pediu.
Eduarda parou os movimentos por um momento, o restinho de dúvida em sua cabeça se dissipando com o olhar faminto que recebeu de Juma.
Então, devagar, começou a testar o terreno, a umidade… os dedos posicionados na entrada. Começou a introduzir, um e depois o outro.
Juma arfou com o contato novo, os olhos fechando para sentir, e um mínimo desconforto presente.
— Tá tudo bem? — Eduarda perguntou, cuidadosa, os dedos parados dentro dela. — Se você quiser parar, é só dizer.
Negou, afobada e um pouco impaciente.
— Num quero, ora. — reclamou, e moveu o quadril para frente, gemendo. — Mexe.
O desconforto inicial pareceu pequeno quando Eduarda começou a se mover devagar dentro dela.
Os olhos de Juma se fecharam com força ao sentir as primeiras ondas percorrendo seu corpo. Não demorou para que precisasse de mais — o corpo pedindo, a cabeça tentando acompanhar até conseguir formar as palavras que escaparam sem aviso:
— Mais… — implorou no ouvido de Eduarda, a voz embargada. — Mais forte… pur favor…
Os lábios de Eduarda se abriram, surpresa misturada com fascínio admirandoo rosto rubro da mulher. Aumentou o ritmo, mas ainda contida.
— Assim? — perguntou, beijando devagar a pele da barriga.
— Quero mais… me ama mais. — pediu, arranhando o ombro dela, tentando puxá-la ainda mais contra si.
Dessa vez, Eduarda atendeu.
Os movimentos ficaram mais longos, mais firmes.
Um gemido alto escapou dos lábios de Juma, a cabeça se abaixando para encontrar o rosto concentrado de Eduarda, mordendo de leve o maxilar.
Uma sensação nova começou a tomar conta do seu corpo inteiro — crescendo sem pedir licença, se espalhando, ficando mais urgente.
Quando Eduarda curvou os dedos, encontrando um ponto delicioso, Juma prendeu o ar de uma vez, os dedos se fechando com força na bancada.
Tudo parecia aquilo naquele momento: Eduarda se movendo, amando ela.
O toque, o ritmo, a forma como tudo se acumulava dentro dela, cada vez mais intenso, mais difícil de conter.
A boca se abriu, o ar falhando, o corpo inteiro tensionando antes de orgasmo lhe invadir. Veio tudo de uma vez, uma sensação boa e avassaladora atravessando seu corpo, fazendo as pernas tremerem, a cabeça ficando leve, distante por um instante.
Eduarda diminuiu o ritmo aos poucos, deixando que ela sentisse até a última onda de prazer.
Os movimentos cessaram devagar sentido as paredes ainda fechando contra ela. Os dedos foram retirados com cuidado, enquanto Juma ainda tremia, o corpo mole cedendo até cair contra o ombro dela, exausta.
— Você gostou? — perguntou, convencida, com um sorriso meio tímido.
— Demais... — estava ofegante, com um sorriso exausto e embriagado. — Se eu soubesse que era bão assim, tinha feito antes...
Eduarda riu junto com ela, abraçando sua cintura e fungando entre os seios dela. Puxou Juma da bancada, servindo de apoio para que ela ficasse de pé.
— Mas eu ainda não acabei... — confessou, provocativa.
Outro beijo se iniciou, um pouco menos urgente que os outros. Tinham todo o tempo do mundo, Eduarda sabia. Traçaram um caminho até a cama pequena de Juma, na ponta.
Caíram juntas, Eduarda por cima. Um pequeno rangido saiu da estrutura velha pelo impacto. Eduarda se afastou, novamente para observar o quão mística Juma era — os cabelos esparramados na cama como uma cascata, a pele brilhando pelo suor.
Linda.
Era só isso que o cérebro de Eduarda gritava ao ver.
Começou a distribuir beijos rápidos por todo o corpo daquela mulher, a pressa de chegar onde queria não deixando que se demorasse. Quando beijou seu umbigo, o corpo de Juma já estava completamente aceso novamente, como se o desejo anterior ainda não tivesse sido saciado.
Na verdade, parecia dez vezes mais intenso.
Agora os lábios de Eduarda já passeavam por suas coxas, lambendo a umidade que escorria do primeiro orgasmo, deixando um rastro quente de saliva.
A boca foi subindo devagar.
Juma observava a cena, curiosa, algo crescendo quente em seu peito. Suspirou, antecipando o que viria, quando Eduarda fixou os olhos em seu rosto antes de afundar a cabeça ali.
Um grito selvagem escapou dos lábios de Juma, vindo direto da garganta.
A língua de Eduarda começou a passear naquela área, precisa. Primeiro, duas lambidas seguidas, de baixo para cima. Juma agarrou os cabelos de Eduarda, forçando a boca dela contra si.
As pernas estavam abertas, levemente levantadas, os pés tentando prender Eduarda ali.
A cabeça se movia de um lado para o outro em alguns momentos, os lábios se fechando e sugando o nervo quando a língua parava.
Não demorou para que o corpo de Juma desse sinais de que iria gozar novamente — o tremor nas pernas, o quadril que parecia se mover por conta própria, o desespero ao empurrar ainda mais a cabeça de Eduarda para baixo.
— Duarda... — chamou, alto. — Tô sentindo di novo...
Os movimentos ficaram ainda mais precisos.
O orgasmo crescia, dessa vez mais intenso, mais profundo, mais indescritível. E foi assim que veio — como um grito mudo arrancado de Juma, as costas arqueando ao ponto de sair da cama, as pernas se fechando ao redor de Eduarda, que ainda se movia insistindo em prolongar o prazer.
Quando o corpo de Juma deu sinais que tinha acabado, Eduarda parou. Como tinha feito antes iniciou uma sequência de beijos, desta vez de baixo para cima, até chegar a boca.
Eduarda se aconchegou nos braços de Juma, olhando os olhos ainda nebulosos dela. Um sorriso orgulhoso escapava de seus lábios enquanto ela fazia um cafuné gostoso nos cabelos da outra.
Juma piscou, como se recobrasse os seus sentidos.
— Agora eu sou tua. — disse, sorrindo largo, cheirando o pescoço e roçando a ponta do nariz por trás da orelha dela.
Eduarda apenas concordou, sorrindo e sentindo a intimidade pulsar com aquela afirmação.
De repente, Juma encarou o rosto de Eduarda, muito séria, um pensamento se formando em sua cabeça.
— O que foi? — perguntou, preocupada com a mudança repentina.
Juma se moveu um pouco, atravessando um braço pela lateral da cabeça de Eduarda, encarando ela de cima.
— Eu também quero que ocê seje minha. — disse, quase possessiva.
Eduarda riu, aliviada, a mão indo em direção a uma mecha de cabelo de Juma, colocando-a atrás da orelha.
— Mas eu já sou sua, Juma. Há muito tempo.
Um sorriso surgiu, tímido, no rosto felino.
— Mas eu te quero desse jeito que ocê fez comigo… — disse, tocando o nariz dela. — Ocê deixa?
— Você não precisa…
— Mas eu quero. Vo saber fazer — garantiu. — Aprendi com ocê…
Eduarda assentiu, o coração batendo forte, em ansiedade para ser devorada.
— Então tira a roupa. — mandou, quase rosnado.
Eduarda obedeceu rapidamente, praticamente arrancando as roupas do corpo. A regata e a calça sendo jogadas do outro lado da tapera, antes de voltar pra posição anterior.
Juma agora a encurralava contra a cama, o corpo afundando no colchão.
Beijou os lábios devagar, a língua explorando como se fosse a primeira vez. Quando quebrou o beijo, seu olhar era devoto, faminto — uma ode em adoração a Eduarda.
Começou os beijos da mesma forma que Eduarda tinha feito nela, mas o instinto em morder a pele era incontrolável, marcando o pescoço com um certo desespero.
Os lábios fizeram caminho para a clavícula, deixando estalos molhados. Em seguida, desceu para os seios fartos, abraçados pelo tecido preto e delicado do sutiã.
Juma bufou, impaciente com o tecido que atrapalhava o contato com aquela região.
— Eu pedi pra ocê tirar. — reclamou, emburrada, fazendo Eduarda rir um pouco.
Juma se afastou para que Eduarda levantasse um pouco o corpo e retirasse a peça. Encarou com um sorriso de lado e quanto buscava o fecho nas suas costa
— Ora, que demora… — fungou, e Eduarda riu mais alto. — Deixa que eu tiro.
A risada de Eduarda cessou, dando lugar ao desejo cru, quando Juma levou as mãos até o fecho e o puxou de vez, rompendo o tecido. Se livrou da peça rapidamente, a boca caindo imediatamente contra os montes cheios.
Se demorou tanto em mordiscar e sugar naquele ponto, mais animada a cada som que saía da boca de Eduarda, que, quando se afastou, os bicos estavam avermelhados e sensíveis.
Quando desceu os beijos, apressada, animada para chegar em um ponto específico, fazia questão de olhar para cima e ver cada expressão que Eduarda fazia.
A barriga subia e descia rapidamente, a pele estava arrepiada e a respiração saía em lufadas fortes. Para sua sorte, Juma não queria provocar, tão guiada pelo desejo quanto ela. O instinto sussurrando o que fazer.
Um gemido sofrido escapou de Eduarda quando sentiu uma mordida na sua virilha. A umidade entre suas pernas estava exposta — a calcinha tinha ido junto com a calça.
As pupilas de Juma dilataram ao observar aquela área, tão molhada, a carne que exalava calor mesmo antes de encostar. Fechou os olhos ao sentir o cheiro, algo primitivo ativando no seu cérebro.
Eduarda observava sem pressa, sem ditar nada, admirando o ritmo de Juma.
Ela mergulhou ali sem técnica, apenas uma necessidade de sentir contra sua pele, esfregando o rosto do jeito que sua cabeça mandava, sentindo o nervo molhado contra sua bochecha. Mexendo a cabeça, agora a ponta do seu nariz roçava ali.
— Juma… — Eduarda tremeu com aquele contato tão espontâneo, tão devoto.
De repente, lembrou de como Eduarda tinha provado ela, de como ela parecia se deliciar. Com isso, imitou os movimentos que a mulher fez nela, da maneira que lembrava.
— Isso… — incentivou, ao sentir a língua percorrer em sua extensão. — Caralho, isso… não para.
Juma não ia parar. Estava viciada na textura, no cheiro e no gosto.
Eduarda estava na beira do orgasmo quando Juma penetrou a ponta da língua em sua entrada, os lábios pressionando seu clitóris, e subiu o olhar felino para encontrar o seu — foi o fim.
Seu corpo explodiu, tremendo violentamente contra a cama, os olhos fechados e revirando por trás das pálpebras.
Mas Juma não parava de provar, repetindo os movimentos mesmo quando a última onda de prazer terminou. Eduarda teve que puxar a cabeça dela quando a intimidade ficou sensível demais, guiando-a pelos cabelos até a sua boca.
— Ocê tem gosto bão. — disse, com o rosto ainda brilhando pelo gozo de Eduarda. Passou a língua quase pelo próprio queixo, querendo sentir novamente. — E agora ocê também é minha.
Voltaram a se amar, repetidas vezes, até o sol ir repousar — e continuaram mesmo quando a escuridão já engolia a noite, depois do canto da coruja branca rasgar o céu.
Um rugido de onça ecoou alto do lado de fora da tapera, quando as duas descansavam sobre a cama. Os corpos suados grudados, enquanto Eduarda acariciava os cabelos de Juma.
— É a mãe. — constatou, olhando pra Eduarda com um sorriso animado. — Será qui ela mi escutou gritando e veio me acudir?
O rosto de Eduarda ficou completamente vermelho de vergonha ao ouvir aquilo.
— Meu Deus… ela vai me matar.
— Vai nada. — garantiu, tranquila. — Ela sabe qui eu amo ocê… qui nem daquela vez qui ela viu ocê perto d’eu, na beira do rio.
Eduarda lembrou da forma como Maria Marruá se aproximou das duas, com um olhar perigoso, analisando se ela faria algum mal à sua filha. A língua à mostra, os passos lentos. Nunca tinha sentido tanto medo na vida — mas Juma garantiu, pras duas, que nenhuma ali era ameaça.
O silêncio voltou por um instante, confortável. Mas logo a nostalgia invadiu os sentidos da ruiva.
Eduarda engoliu em seco, os dedos ainda presos nos fios do cabelo dela.
Por muito tempo, lembrar do rosto de Paulinho era como tentar segurar água nas mãos. Esqueceu do rosto muito antes de esquecer do cheiro — muito antes do que imaginava que esqueceria. As mãos tremiam só de pensar em ver uma foto, com medo de que a lembrança doesse mais do que a dúvida.
Agora vinha aos poucos — mais nítido. O jeito que ele sorria, ou quando estava sério e rabugento. A lembrança lhe trazia conforto, mesmo que ainda não estivesse completamente curada.
— Você tem sorte… — começou, a voz mais baixa. — de ter sua mãe assim… mesmo depois de tudo.
Parou por um segundo, escolhendo as palavras.
— Eu queria ter tido essa sorte.
Juma virou o rosto o suficiente pra encará-la, sem sair do lugar.
— Ocê tem. — disse, simples.
Eduarda franziu o cenho, confusa.
Juma deu de ombros, como se fosse óbvio.
— O véio já me disse… — começou, devagar — qui mesmo quando a gente num vê… a gente ainda tá sendo cuidado.
°~♡~°
Os seis meses que passou no Pantanal foram encantadores. Mas urgia também a saudade de casa. O colo dos pais, a turbulência do seu trabalho — que, afinal, foi o que a levou a buscar cura, para início de conversa.
Ficar ali e abdicar da vida que levava e amava não era viável. Era cruel, da mesma forma que seria para Juma se ela tivesse que ir viver como Eduarda vivia.
Então ela teve que ir. Teve que deixar a paisagem, os animais, o rio — e, mais ainda, teve que deixar os olhos verdes que a fizeram enxergar o rosto de Paulinho novamente.
Em sua despedida da tapera, da Juma, cheia de lágrimas e confusão, ela prometeu voltar. Como uma ave migratória que vai e vem, o Pantanal, de certa forma, tinha virado seu lar — parte do que ela era.
E não importava quanto tempo demorasse, dias ou meses. Eduarda sempre voltava.
Juma sempre esperava seu retorno, sem deixar de viver como sempre viveu. Lidava com a saudade nos dias em que a imagem de Eduarda era mais viva. Lidava com o próprio corpo quando, à noite, a saudade se misturava com o desejo, e sua mão se guiava por si mesma, imaginando que fosse a mulher que amava.
Sempre que voltava, tudo parecia igual — mas diferente ao mesmo tempo. Às vezes com um sorriso, às vezes esbravejando, dos lábios de Juma sempre saía a mesma constatação:
— Ocê demorou...
