Chapter Text
A primeira vez em que Frank pensou na enormidade dos problemas que estava tendo, ele sabia que estava colocando toda sua vida em jogo A residência médica pela qual lutou tão avidamente, o casamento, pelo qual tentou realmente ser o melhor que podia, e os filhos, que amava incondicionalmente acima de qualquer coisa.
Ele amava tudo aquilo. Claro, os plantões eram infernais, o casamento suportou muito apesar de tudo, e ele entrava em pânico só de pensar em não ter mais as crianças por perto.
Então ele realmente não sabia porque parecia tão simples pegar os malditos comprimidos. Ele sentia dor, ele queria parar, ele queria pedir ajuda mas honestamente quem acreditaria nele a essa altura?
Ele quis contar para Abby. Mas ela já tinha problemas o bastante com ele.
No internato, ele não era fácil. Ele nunca foi fácil, na verdade. E tinha uma tendência a querer coisas demais. Abby disse uma vez que essas “tendências ao exagero” eram compensações e que ela não gostava daquilo.
E é claro que eram compensações. O relacionamento deles quase acabou algumas vezes, principalmente porque ele queria muito. Não poderia ser um marido presente e um médico de emergência, ele precisava abrir mão de alguma coisa.
Então Abby estava grávida, e ele precisaria ser um marido, um pai melhor e o médico que queria ser.
E falhou nos três. Depois de tudo que Abby fez por ele nos primeiros e mais crueis anos que tinha passado na medicina, entendendo, acolhendo e escolhendo ficar com ele apesar de estar quase sempre ausente e, quando estava presente, nunca estava inteiro. Depois de tudo isso, ele não podia esperar que ela superasse que desperdiçou os melhores anos da vida dela com um viciado. Não era justo.
Então ele decidiu que ficaria bem, pararia com os remédios aos poucos, e tudo voltaria a ser como sempre foi: meio ausente, mas pelo menos a manteria com uma boa vida.
Ele prometeu isso.
Não que ela precisasse dele para ter uma boa vida — ela tinha um fundo familiar que estava longe de ser bilionário, mas a manteria tranquilamente por quanto tempo fosse sem que precisasse trabalhar. Mas eles não usavam esse dinheiro, e ele comprava bolsas ridiculamente caras porque ela sempre as teve. e não a tinha tirado dos braços dos pais para fazê-la infeliz.
E porque é a única coisa outra coisa que poderia deixá-la ainda mais feliz, seria dar-lhe férias de tudo que o envolvesse e as crianças em uma cidade afastada.
Ele tentava não ir por esse lado. Isso o fazia pensar que ela estaria mais feliz com o primeiro plano, aquele que a mãe dela ofereceu, e ela não sabia que ele sabia.
Ela tinha se oferecido para criar o filho deles, com babás e tudo, e ela poderia se separar e viver a vida que merecia como uma jovem que tinha o mundo todo pela frente.
— Como você consegue? — ele perguntara uma vez, vendo as notas altas no portal do aluno dela. Ela nunca parecia prestes a surtar, nunca brava ou ansiosa demais com estudos, e sempre com notas excepcionais. Ele quase se jogava de todas as janelas da faculdade e era mediano em algumas.
— Frank, querido… — ela respondeu, abraçando-o por trás e se enroscando nele como um gato. — Você faz porque precisa. Eu faço porque gosto. Embora você saiba que meu sonho ainda é ser uma socialite burra que não pensa em nada.
Eles riram, e ela deu um beijo estalado em sua bochecha.
— Falando sério. Eu gosto mesmo de estudar, e nossos cursos são muito diferentes. Mas se eu quisesse, poderia simplesmente… dar um tempo. Sair por aí gastando um dinheiro que não é meu. Não vou fazer isso, mas ter essa opção deixa as coisas mais leves. Não se cobre tanto.
Ela se afastou desejando boa noite e bagunçando o cabelo de Frank, que precisava estudar mais porque precisava refazer uma das suas provas, que ficou perigosamente perto da média.
Foi o dia em que percebeu que via a namorada acordada por cerca de seis horas na semana, e que, se quisesse continuar com isso, realmente teria que estudar muito mais. Compensação, ou algo assim.
No dia em que Robby o mandou para casa, ela pareceu (com razão) muito surpresa ao ver o marido tão cedo. Ela perguntou o que estava errado, e ele quis contar. Pedir desculpas copiosamente. Assumir que não era metade do homem que deveria ser. Mas ele não disse nada.
— Não… não me sinto muito bem. Estava tudo sob controle e aí… você estava saindo? — Abby não andava desarrumada, nunca. Mas parecia demais para estar em casa.
Ela pareceu surpresa com a pergunta.
— Minha mãe pediu para ficar com as crianças depois da escola, estava indo comer com eles. Quer ir junto?
Foi quando viu tudo começar pela televisão. Era na área do hospital. Eles ficariam cheios.
Então ele voltou para o trabalho do qual tinha sido expulso, e, se pensasse um pouco mais naquele dia, talvez pudesse lembrar que entre todas as joias que a esposa usava, não estava o brilho pesado da aliança de casamento.
Aquele dia foi um inferno. Ele sabia que todos estavam lá porque queriam, e por mais que não fosse admitir, entendia porque Dana queria ir embora.
No final do turno, depois de dezenas de olhares decepcionados de Robby e centenas de encaradas desconfiadas de Santos — ambos, ele sabia, eram justos. Não deixava nada menos pior.
Então ele escorou em uma das paredes, muito perto de deixar o peso do dia cair sobre os ombros, ele a viu.
Mel andava de um lado para o outro, ajudando, arrumando e até sorrindo para pacientes, com um tipo de serenidade que não se via em mais ninguém naquele lugar. Santos, Whitaker, Javadi e até Abbot tinham aquela calma treinada, algo que se aprende em diversas situações dentro de hospitais e situações extremas, um tipo de dissociação que os faz parecer muito diferentes em outros lugares. Mohan estava… em outro lugar. Langdon estava quase preocupado, a outra filha problemática do Dr. Robby estava a dois passos errados de surtar, dadas as risadas nervosas e a incapacidade de ficar um minuto parada. E entre todo o caos ou a paz calculada, tinha Mel, que parecia… normal. Quer dizer, ele a viu andando daquele jeito que não estava disposto a nomear como nada além de engraçadinho, e apertando as mãos um pouco demais, mas era só isso.
Javadi até perguntou como ela estava tão bem, e ela gritou algo sobre precisar dormir pouco e ter um bom metabolismo. Ele sorriu sozinho ao ouvir isso.
Muitos trabalhos permitem que as pessoas não tenham contato com seus colegas. No trabalho deles isso era impossível. Precisavam trabalhar juntos, precisavam confiar uns nos outros e precisavam se respeitar. Ele ainda sorria para o espaço que Mel deixou quando percebeu Robby o encarando com indiscutível desgosto, então ele voltou ao trabalho, antes que fosse, outra vez, expulso.
Mas ela ainda estava lá. Depois que a viu com aquele cara do tênis de mesa, depois que a flagrou usando aquele cachorrinho para desligar um pouco a exaustão do plantão, ele sabia que levaria o que aprendesse com a Dra. King para o resto dos seus dias.
