Chapter Text
A manhã em Gusu chegava sempre da mesma forma.
O som leve do sino atravessava o ar antes mesmo que a luz se firmasse por completo entre as montanhas. Era um som limpo, sem pressa, como tudo ali. Os discípulos já estavam acordados quando o primeiro toque ecoava, alinhados, silenciosos, cada um no seu lugar como se fizessem parte da própria paisagem.
Wei Ying não fazia parte disso.
Nunca fez.
Ainda assim, de alguma forma, estava ali.
Ele abriu os olhos devagar, sem se mexer de imediato. Por um instante, ficou apenas olhando para o teto, acompanhando com o olhar o desenho simples das vigas de madeira.
Virou o rosto de lado.
Lan Zhan já estava acordado, como sempre.
Sentado à pequena mesa próxima à janela, postura reta como sempre, mãos firmes ao segurar a xícara de chá, como se até aquilo exigisse precisão. A luz da manhã ainda fraca atravessava o papel das janelas e desenhava um contorno suave ao redor dele.
Wei Ying observou por alguns segundos mais do que deveria.
— Você não cansa de acordar cedo assim? — murmurou, a voz ainda carregada de sono.
Lan Zhan não virou de imediato.
— É o horário.
— Claro que é o horário, senhor certinho. — Disse com um sorriso safado.
Ele se sentou, passando a mão pelos cabelos de qualquer jeito, sem se preocupar em ajeitar direito. Por um momento, apenas ficou ali, sem fazer nada, olhando o espaço ao redor como se ainda estivesse decidindo se valia a pena levantar.
Lan Zhan serviu mais uma xícara de chá.
Não disse nada.
Wei Ying levantou, caminhando até a mesa sem pressa, os passos leves no chão de madeira. Sentou-se de frente para ele, apoiando o queixo na mão antes de pegar a xícara.
— Você já estava acordado há quanto tempo?
— O suficiente.
— Então não foi ajudar o velhote Lan.
Lan Zhan ergueu o olhar.
Foi o suficiente.
Wei Ying soltou um riso baixo, aceitando a resposta mesmo assim. Levou o chá aos lábios, fazendo uma pequena careta quase imperceptível antes de engolir.
— Amargo.
— É o mesmo de sempre.
— Eu sei. — Ele deu de ombros. — Mas reclamar também faz parte da rotina.
Lan Zhan não respondeu.
Mas, por um breve instante, seus dedos se moveram levemente sobre a mesa, como se tivesse considerado dizer algo. Não disse.
O silêncio voltou a ocupar o espaço entre eles, mas não era desconfortável.
Nunca era. Afinal, Lan Zhan era seu lar.
Do lado de fora, os discípulos já estavam em treinamento. O som de passos sincronizados e movimentos controlados chegava até eles de forma suave, quase como parte do próprio ar.
Wei Ying apoiou o braço na mesa, inclinando-se um pouco para espiar pela janela.
— Eles já começaram cedo hoje.
— Sempre começam.
— Você fala isso como se eu fosse esquecer.
— Você esquece.
Wei Ying virou o rosto de volta, estreitando os olhos com um meio sorriso.
— Eu não esqueço. Eu escolho ignorar.
Lan Zhan sustentou o olhar por um segundo.
Depois voltou ao chá.
Wei Ying deixou escapar um riso leve, mas não disse mais nada. Ficou apenas ali, observando o movimento do lado de fora por mais alguns instantes antes de se levantar de vez.
— Vou dar uma volta — anunciou, como se fosse necessário.
Lan Zhan não impediu.
Também não precisava.
Caminhar por Gusu ainda era uma experiência curiosa.
Não porque ele não estivesse acostumado, apesar de já estar, mais do que imaginava que estaria, mas por algum motivo, havia sempre algo que o fazia lembrar que aquele não era exatamente o lugar onde ele havia começado.
Os caminhos eram limpos demais. Organizados demais. Silenciosos demais.
E, ainda assim, não o afastaram.
Os discípulos que cruzavam com ele inclinavam levemente a cabeça em cumprimento. Alguns com naturalidade, outros com um pouco mais de hesitação. Nada aberto. Tentavam ser os mais discretos possível.
Mas estava ali.
Wei Ying retribuía todos, sem exceção, com o mesmo sorriso leve de sempre. Nem todos sustentavam o olhar por muito tempo.
Ele não se incomodava.
— Wei-qianbei!
A voz veio antes da figura.
Lan Jingyi apareceu pelo caminho lateral, parando um pouco mais perto do que o adequado, como um filhotinho desesperado por atenção. Como sempre.
— Já estava acordado? — perguntou, quase desconfiado.
Wei Ying arqueou uma sobrancelha.
— Você acha que eu não faço nada?
— Acho que você é quase um vagabundo, só não é porque as vezes ajuda com cultivação demoníaca e por causa de Hanguang-jun.
— Isso é diferente.
Jingyi cruzou os braços, claramente pouco convencido.
— Sizhui disse que você ia sair hoje cedo.
— Estou começando a achar que vocês que não tem o que fazer.
— Ele só presta atenção, estamos preocupados com você.
— Isso é pior.
Antes que o outro pudesse responder, outra figura se aproximou com passos mais contidos.
— Wei-qianbei.
Lan Sizhui inclinou levemente a cabeça, o gesto educado como sempre.
— Bom dia.
— Bom dia, Sizhui — Wei Ying respondeu, o tom mais suave sem perceber. — Você já está treinando desde cedo?
— Sim. O mestre disse que devemos reforçar a prática antes do próximo período.
— Claro que disse.
Jingyi revirou os olhos.
— Ele sempre diz isso.
Wei Ying soltou um riso curto.
— E vocês sempre obedecem.
— Diferente de você, mas admito que apesar dos seus métodos nada convencionais, eu admiro o senhor — Jingyi respondeu rápido.
— Me bajular não vai levar você a nada.
Sizhui escondeu um pequeno sorriso, mas não comentou.
Wei Ying apoiou o peso em um dos pés, olhando de um para o outro.
— Então, o que vocês vão fazer hoje além de obedecer regras?
— Treinar — respondeu Jingyi.
— Estudar — completou Sizhui.
Wei Ying fez uma expressão pensativa.
— Que vida difícil.
— Você poderia tentar — Jingyi retrucou.
— Já tentei. Não é pra mim.
Eles caminharam juntos por um tempo, sem direção específica. Wei Ying falava mais, como sempre, puxando assuntos que não levavam a lugar nenhum e, ainda assim, mantinham o caminho leve.
Mas, em algum momento, ele parou de falar.
Foi sutil.
Tão sutil que Jingyi não percebeu de imediato.
Sizhui, sim.
Wei Ying estava olhando para frente, mas não parecia realmente vendo o caminho. Seus passos diminuíram levemente, como se tivesse perdido o ritmo por um segundo.
— Wei-qianbei?
Ele piscou.
— Hm?
— Você disse algo?
Wei Ying franziu levemente o cenho.
— Eu?
— Sim.
— Não… eu não disse nada.
Jingyi olhou de um para o outro, confuso.
— Vocês são estranhos.
Wei Ying soltou um riso rápido, como se nada tivesse acontecido.
— Sempre fomos.
Mas não retomou o assunto anterior.
Quando se separaram, o sol já estava mais alto.
Wei Ying voltou pelo mesmo caminho, mais devagar dessa vez.
Ao longe, reconheceu a figura de Lan Zhan antes mesmo de se aproximar o suficiente para ver com clareza. Ele estava onde costumava estar àquela hora, próximo ao pavilhão lateral, em silêncio, como se o tempo ali passasse de forma diferente.
Wei Ying se aproximou sem anunciar.
Parou ao lado dele.
Por um momento, nenhum dos dois falou.
— Você demorou — disse Lan Zhan, por fim.
— Eu sei.
— Aconteceu algo?
Wei Ying pensou por um segundo.
— Não.
A resposta veio fácil demais.
Lan Zhan não respondeu.
Mas também não desviou o olhar, tinha algo de errado em seu esposo.
Wei Ying sustentou por um instante… e então olhou para outro lado.
— Os discípulos estão mais animados hoje — comentou, mudando de assunto.
— Estão.
— Jingyi continua falando demais, ele não puxou a você.
— Continua, por causa de você.
Wei Ying sorriu de leve.
Mas não era exatamente o mesmo sorriso de antes.
A noite caiu como sempre.
Sem alarde.
Sem mudança.
O silêncio voltou a ocupar os corredores, mais profundo agora, interrompido apenas pelo som distante do vento entre as árvores.
Wei Ying demorou mais do que o normal para se deitar.
Ficou sentado por um tempo, apoiando os cotovelos nos joelhos, olhando para o nada sem um ponto específico. Não parecia inquieto. Mas também não estava exatamente em paz.
Lan Zhan não perguntou, mas analisava-o atentamente. Tinha algo incomodando seu esposo e ele não sabia o que era, mas ele iria descobrir.
Apenas permaneceu ali.
Quando Wei Ying finalmente se deitou, fechou os olhos quase de imediato.
Mas o sono não veio como antes.
E, quando veio, não foi vazio.
Havia algo.
Um espaço que não reconhecia, mas que, de alguma forma, parecia… familiar.
Escuro.
Fechado.
Silencioso demais.
E, no fundo, alguém.
Ele não conseguiu ver com clareza.
E então tudo se clareou, sabia que estava ali. A jovem que vinha rondando seus sonhos durante esses dias. Por algum motivo que não conseguiu entender, sentiu que não deveria deixá-la sozinha. Afinal, durante esses dias ele a viu sair do seu ventre e crescer, como uma vista passando diante de seus olhos. Ela é a sua filha.
Wei Ying abriu os olhos de repente.
A respiração um pouco mais rápida do que o normal.
O quarto estava igual.
Silencioso.
Imutável.
Ao lado dele, Lan Zhan ainda estava ali.
Tudo estava no lugar.
Ainda assim, algo não parecia exatamente como antes.
E, dessa vez, ele não conseguiu ignorar completamente. Todos esses dias em que acorda ao sonhar com sua garotinha, ele sente que uma parte dele se foi e isso o tem destruído esses dias. Mas como pode sentir falta de algo que nunca existiu?
