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"Pode ser meu girassol, e eu o seu?" - Sunflower

Summary:

Sunny e Mari deixam sua antiga cidade para trás após acontecimentos, buscando um novo começo em Faraway Town. Enquanto Mari encara a mudança com leveza e tenta tranquilizar o irmão, Sunny se mostra cada vez mais retraído diante do desconhecido.

No primeiro dia na nova escola, tudo parece estranho e desconfortável — até que um garoto se aproxima e o convida para fazer parte de seu grupo de amigos.

Chapter 1: Prólogo

Chapter Text

O carro estava impregnado por um perfume antigo, daqueles que parecem ter sido borrifados meses atrás e nunca mais desapareceram por completo — uma mistura levemente adocicada com um fundo meio abafado, quase nostálgico. O ar-condicionado soprava de forma constante, produzindo um ruído baixo e contínuo, como um zumbido que se misturava ao som dos pneus deslizando pelo asfalto. Do lado de fora, a paisagem passava em tons repetitivos: trechos de vegetação seca, placas solitárias à beira da estrada e um céu aberto que parecia se estender sem fim.

A rodovia era longa, reta e monótona, daquele tipo que faz o tempo parecer mais lento do que realmente é. O movimento era escasso — poucos carros surgiam ao longe e desapareciam rapidamente, engolidos pela distância. A luz do sol entrava pelas janelas, filtrada pelo vidro levemente sujo, criando reflexos suaves que dançavam no interior do carro conforme ele avançava.

No banco de trás, Sunny estava deitado de lado, o corpo um pouco torto para se ajustar ao espaço limitado. Algumas malas pressionavam suas costas e ombros, empilhadas de forma desorganizada atrás do banco do passageiro, ocupando quase todo o espaço disponível. O tecido do banco estava levemente quente, carregando o calor acumulado da viagem.

Ele segurava seu Game Boy com as duas mãos, os olhos fixos na tela pequena e iluminada. Os botões faziam pequenos cliques ritmados a cada movimento de seus dedos, quase como um contraponto ao som constante do carro. A tela refletia brevemente em seus olhos, destacando sua concentração silenciosa. Provavelmente jogava Zelda, repetindo movimentos já conhecidos, avançando lentamente, como se aquele pequeno mundo digital fosse mais interessante do que a estrada interminável lá fora.

De vez em quando, o carro passava por pequenas irregularidades no asfalto, fazendo o corpo de Sunny se mover levemente contra as malas. Ainda assim, ele mal reagia — completamente absorvido pelo jogo, como se aquele espaço apertado fosse suficiente para isolá-lo do resto do mundo.

uuuugh~ "Estamos perto mãe?" - Um som arrastado escapou de Mari, mais como um suspiro do que uma reclamação — carregado de cansaço acumulado pela longa viagem. Sentada no banco da frente, ela se mexeu com cuidado, alongando os braços e esticando levemente o corpo, mas sem exagerar, como se tivesse consciência constante do espaço limitado dentro do carro. Seus movimentos eram contidos, quase calculados, evitando esbarrar na mulher ao seu lado ou interferir na direção.

Seus cabelos escuros e longos caíam sobre os ombros e parte do peito, levemente desalinhados pelo tempo apoiados contra o banco. A luz que entrava pela janela destacava alguns fios soltos, criando um brilho suave que contrastava com o interior mais abafado do carro.

A mulher ao lado — mantinha os olhos fixos na estrada, as mãos firmes no volante. Sua postura era estável, mas havia um cansaço sutil em seus movimentos, perceptível na forma como seus ombros estavam levemente tensos. — "Sim.. está alguns minutos.." — Quando respondeu, sua voz saiu um pouco arrastada, como se estivesse tentando soar mais animada do que realmente se sentia. Ainda assim, houve um pequeno esforço em elevar o tom no final da frase, uma tentativa clara de transmitir algum entusiasmo, mesmo que discreto.

Mari então virou o rosto lentamente, inclinando o corpo o suficiente para olhar para o banco de trás. Seu olhar encontrou Sunny quase de imediato. Por um breve instante, sua expressão suavizou — "hm.. Oi irmãozinho.." — Seus olhos se demoraram nele, observando em silêncio, como se apenas confirmar que ele estava acordado já fosse o suficiente.

“Ah! Ali está—” - A voz da mãe surgiu com um leve aumento de energia, quase como um suspiro de alívio disfarçado. Uma de suas mãos saiu rapidamente do volante para apontar pela diagonal esquerda, indicando a placa que se aproximava. O carro ainda estava em movimento, mas já começava a desacelerar de forma suave.

A placa apareceu aos poucos no campo de visão, surgindo primeiro como um borrão branco distante, até que as letras ficaram legíveis: Farewell Town. Logo abaixo, a indicação de distância — 800 metros — parecia pequena diante do tempo que haviam passado na estrada.

Mari acompanhou o gesto, desviando o olhar de Sunny por um instante. Seus olhos seguiram a direção apontada, e, ao mesmo tempo, a voz mecânica do GPS confirmou o destino com precisão irritantemente calma. Aquilo foi o suficiente para que um pequeno suspiro escapasse dela. - "Finalmente." - O alívio não era exagerado, mas estava presente — perceptível no modo como seus ombros relaxaram levemente contra o banco. Ela deixou o corpo afundar um pouco mais no assento, como se estivesse se permitindo descansar antes mesmo da viagem terminar de fato.

No banco de trás, Sunny permanecia em seu próprio mundo. A pequena tela do Game Boy piscava com luzes constantes, refletindo em seus olhos atentos. Os sons eletrônicos — pequenos bips e efeitos repetitivos — preenchiam o espaço ao redor dele, quase como uma bolha isolada do resto do carro. A estrada, a placa, a conversa… tudo parecia distante. Seus dedos continuavam pressionando os botões com precisão automática, como se aquele fosse o único ritmo que importava.
Ainda assim, havia um cansaço silencioso em sua postura. Seu corpo continuava meio comprimido entre as malas, os músculos tensos de ficar tanto tempo na mesma posição. Mais do que qualquer outra coisa, existia um desejo simples e constante: deitar em uma cama de verdade e deixar o tempo passar sem pensar em mais nada.

Mari voltou a falar, mas agora com um tom mais leve, quase brincalhão, ainda olhando pela janela enquanto a paisagem começava a mudar. - "Se alegre irmãozinho, eu soube que você não vai precisar dormir mais com a irmã aqui, há 2 quartos separados"

Casas começaram a surgir ao longo da rua — primeiro espaçadas, depois um pouco mais próximas. Algumas tinham jardins bem cuidados, com flores coloridas que contrastavam com o tom neutro do asfalto. Outras eram mais simples, com cercas baixas e pequenos detalhes que indicavam rotina: brinquedos esquecidos no gramado, uma bicicleta encostada, um parquinho pequeno visível entre duas casas.

A vizinhança parecia calma. Silenciosa demais, até — como um domingo que nunca terminava.

*Enquanto o carro diminuía ainda mais a velocidade, o som do motor se tornava mais suave, quase arrastado. As rodas passaram lentamente por pequenas imperfeições da rua residencial, até que finalmente o veículo parou.

Era uma casa simples, mas organizada. Na frente, uma placa discreta chamava atenção: “Aluga-se”, levemente inclinada, como se estivesse ali há algum tempo. Ao lado, uma caixa de correio de metal, um pouco desgastada, balançava de leve com o vento quase imperceptível.

O carro ficou em silêncio por um momento, o som do motor cessando completamente — deixando apenas o ar-condicionado desligando aos poucos, como um último suspiro da viagem que finalmente chegava ao fim.

A mãe levou a mão até o cinto de segurança e o soltou com um clique seco, que pareceu ecoar mais alto do que o normal depois de tanto tempo de viagem. Por um instante, ela permaneceu parada, como se estivesse apenas absorvendo o fato de que finalmente haviam chegado. Em seguida, empurrou a porta do motorista, que se abriu com um leve rangido, deixando entrar o ar de fora — mais fresco, mais leve, diferente do ambiente fechado do carro.

Assim que colocou os pés no chão, ela respirou fundo, enchendo os pulmões como se estivesse se livrando de horas de ar reciclado. Seus ombros relaxaram visivelmente. Enquanto caminhava em direção à porta da casa, esticou os braços acima da cabeça em um alongamento lento, o corpo reclamando em pequenos ajustes depois de tanto tempo sentado. Cada passo era tranquilo, sem pressa, como alguém que finalmente podia desacelerar.

Ao chegar à entrada, ela se inclinou levemente, levantando um dos cantos do tapete da porta. Seus movimentos eram automáticos, como se já esperasse encontrar algo ali. Debaixo dele, seus dedos encontraram uma pequena chave. Ela a pegou sem hesitar, girando-a entre os dedos por um segundo antes de levá-la até a fechadura.

Enquanto isso, do outro lado, Mari abriu a porta do carro com mais energia. O ar externo entrou rapidamente, bagunçando levemente seus cabelos escuros enquanto ela saía. Seus pés tocaram o chão com um pequeno salto leve, como se estivesse ansiosa para finalmente se mover depois de tanto tempo confinada.

Ela começou a andar em direção à casa, mas parou no meio do caminho, como se lembrasse de algo importante. Virou-se por cima do ombro e olhou para dentro do carro, buscando Sunny no banco de trás.

Ele ainda estava lá, praticamente na mesma posição, com o Game Boy nas mãos, completamente imerso.

Mari soltou um pequeno suspiro, misto de leve impaciência e carinho, e voltou alguns passos. Sem esperar muito, abriu a porta traseira do lado do passageiro, o som da trava destravando e da porta se abrindo quebrando o silêncio calmo da rua.

“Vai, Sunny… sai um pouquinho desse videogame…” — Sua voz não era dura, era mais um convite insistente do que uma ordem. Enquanto falava, ela já se inclinava para dentro do carro, puxando uma caixa e ajustando outros itens com movimentos rápidos e práticos. O leve esforço era visível na forma como ela organizava tudo com certa familiaridade. — "Só.. até a gente arrumar tudo.. pela irmãzona aqui" — Ela soltava um sorriso, o mesmo sorriso desde sempre, alegre e desprovido de qualquer emoção que não seja felicidade

"Você tem que parar de falar isso.." — A voz de Sunny finalmente quebrou o silêncio que ele havia mantido durante praticamente toda a viagem. Era baixa, um pouco rouca pelo tempo sem falar, mas tranquila — não havia irritação, nem resistência real. Muito pelo contrário. Havia algo suave ali, quase automático, como se aquela fosse uma resposta já repetida outras vezes entre os dois. — "Está bem.. estou indo"

Com um leve suspiro, Sunny desligou o jogo e apoiou o portátil ao lado. Seu corpo demorou um instante para reagir, como se estivesse reaprendendo a se mover fora daquela posição apertada. Ele se sentou, empurrando uma das caixas que bloqueava sua saída com cuidado, abrindo espaço suficiente para passar. O papelão raspou levemente contra o banco, emitindo um som seco.

Com um pouco de esforço, ele conseguiu se levantar e sair pela porta que Mari havia deixado aberta. O ar de fora o atingiu de imediato — mais fresco, mais leve — e por um breve momento ele apenas ficou ali, ajustando a respiração, como se precisasse se acostumar com o novo ambiente.

Sem dizer mais nada, ele pegou uma das caixas que restavam nos bancos e se posicionou ao lado de Mari, acompanhando-a em direção à casa. Enquanto caminhavam, Mari deixou o olhar vagar pelo quintal, curiosa, absorvendo cada detalhe daquele novo lugar. Foi então que algo chamou sua atenção mais ao fundo. Entre as árvores, parcialmente escondida pelas folhas, havia uma casa na árvore.

Ela parou por um instante, os olhos se iluminando com um entusiasmo imediato, e virou o rosto na direção de Sunny. — "Olha, tem uma casa na árvore, Sun! A mamãe não disse que tinha uma" — O tom dela carregava uma leve surpresa, misturada com uma animação quase infantil, como se aquele pequeno detalhe já tornasse tudo um pouco mais interessante.

Sunny seguiu o olhar dela por um breve momento, mas não disse nada — apenas absorvendo a imagem em silêncio.

*Sem se demorarem muito, os dois seguiram até a porta da frente e entraram na casa. O som leve dos passos ecoou pelo interior ainda vazio, e as caixas foram colocadas ao lado de um sofá, com cuidado, mas sem muita cerimônia.

O interior da casa tinha um ar parado, como se estivesse esperando por alguém há algum tempo.

Havia um cheiro leve no ambiente — não exatamente desagradável, mas claramente antigo. Algo que lembrava flores artificiais misturado com poeira sutil. No centro da sala, sobre uma pequena escrivaninha, um vaso com flores artificiais repousava dentro de um pouco de água já esquecida, os caules levemente opacos pelo tempo.

Logo à frente, um sofá branco ocupava boa parte do espaço, o tecido ainda claro, mas com pequenas marcas de sujeira acumuladas, denunciando o tempo em que a casa ficou vazia. Diante dele, uma mesa baixa simples, com alguns sinais de uso, e mais à frente, uma televisão posicionada de forma central, desligada, refletindo parte da sala em sua tela escura.

Abaixo de tudo, um tapete cobria o chão, levemente desalinhado, como se tivesse sido movido e nunca ajustado novamente.

À direita, uma lareira permanecia apagada, fria, com traços sutis de uso antigo. Próximo a ela, um relógio estava pendurado na parede, seu tique-taque quase imperceptível, mas constante o suficiente para preencher os momentos de silêncio.

A casa parecia maior por dentro do que aparentava do lado de fora, com várias portas distribuídas ao redor da sala principal.

A parte inferior esquerda da sala se abria diretamente para a sala de jantar, sem portas — apenas uma passagem ampla que deixava o ambiente parcialmente visível. Da mesma forma, a parte superior esquerda conectava-se à cozinha, também sem qualquer porta, criando uma sensação de continuidade entre os espaços. Mais ao centro, a escada se erguia de forma simples, indicando o caminho para o andar de cima, enquanto uma porta de vidro permitia uma visão direta do quintal — e, ao longe, da casa na árvore que Mari havia notado.

"Hm… interessante… o dono dessa casa deixou esse bilhete. Tem alguns restaurantes anotados, um número… e disse que a casa da árvore foi feita para os filhos dele." — a mãe dizia enquanto saía da cozinha e se aproximava dos dois filhos — "Bem… essa casa parece tão escura. Mari, você pode me ajudar com isso?" — ela caminhava até uma janela coberta por uma cortina pesada e a abria, deixando a luz entrar aos poucos.

"Tudo bem! Sun, pode pegar o restante das caixas? Só pega o que você aguentar, viu…" — Mari respondeu, indo até a porta de vidro e deslizando-a aberta, permitindo que o ar fresco invadisse a sala, suavizando o cheiro de lugar fechado.

"Hmm~"Sunny resmungou baixo, ainda meio desanimado, mas seguiu em direção à entrada da casa. Ele atravessou a passagem e foi até o carro para buscar mais caixas. No caminho, algo chamou sua atenção: duas figuras perto da calçada.

Uma delas usava uma regata alaranjada e estava encostada no carro, mexendo em um pequeno videogame portátil. A outra, mais alta, vestia uma camisa azul e se aproximava com passos firmes.

"Kel, larga isso! Não se deve mexer nas coisas dos outros, ainda mais sem pedir." — disse o mais velho, com um tom sério.

"Mas é um Gameboy, Hero! Você quer um desses desde que colocaram na Hobbeez!" — Kel respondeu, virando-se por um instante. Porém, não percebeu que Hero já estava logo atrás dele.

Num movimento rápido, Hero pegou o videogame da mão de Kel e o ergueu acima da cabeça, numa altura impossível para o menor alcançar.

"EI! DEVOLVE!" — Kel exclamou, pulando repetidamente, tentando pegar o aparelho de volta, sem sucesso.

Sunny observou a cena em silêncio por um momento. Seu olhar se fixou no objeto nas mãos deles… o videogame era dele, sem dizer nada, ele começou a caminhar na direção dos dois.

Hero notou a presença de Sunny se aproximando e, por um instante, esqueceu completamente do irmão, sentindo até um leve alívio ao perceber o dono do objeto. Ele deu alguns passos à frente, encontrando Sunny no meio da pequena passarela que cortava o gramado, e ergueu o videogame portátil na direção dele. — "M-me desculpa pelo meu irmão… ele é meio… intrometido."

Sunny pegou o videogame com cuidado, dando uma rápida olhada para confirmar que ainda estava funcionando. — "Não tem problema…" — ele respondeu, um pouco hesitante, desviando o olhar por um segundo antes de continuar — "Uh… meu nome é Sunny. Prazer em conhecer vocês." — guardou o aparelho no bolso da bermuda, ajeitando-o com certo cuidado.

Hero sorriu de forma educada, relaxando um pouco os ombros. — "Eu sou o Hero… e aquele ali é o Kel." — ele apontou com o polegar para trás.

"EU NÃO SOU INTROMETIDO!" — Kel retrucou na mesma hora, cruzando os braços, claramente incomodado — mas logo descruzou, se aproximando com curiosidade. — "Você acabou de se mudar pra cá, né? Eu nunca te vi antes."

Sunny assentiu de leve. — "Sim… a gente chegou hoje."

Kel abriu um sorriso animado, como se aquilo fosse a melhor notícia possível. — "Então isso quer dizer que você mora aqui agora!" — ele deu um passo à frente, já cheio de energia — "Tem uma casa na árvore ali atrás, você viu? A gente sempre brinca por aqui!"

Hero suspirou, mas com um leve sorriso no rosto, acostumado com o entusiasmo do irmão. — "Kel, vai com calma… ele acabou de chegar."

Sunny olhou por um instante na direção do quintal, lembrando do comentário de Mari sobre a casa na árvore, e depois voltou o olhar para os dois. — "Bem.. eu não entrei nela ainda, eu estava indo para o carro pegar algumas caixas" — Não era um convite para ajuda mas, Hero interpretou como um

Por um breve instante, Hero hesitou, como se estivesse avaliando a situação — então assentiu com um pequeno sorriso educado, já dando um passo à frente. — "Ah… certo. A gente pode ajudar com isso." — disse, com um tom tranquilo, quase natural demais, como se ajudar fosse algo automático para ele.

"Boa!" — Kel respondeu imediatamente, cheio de energia, passando por Sunny sem nem esperar uma confirmação. — "Assim a gente termina mais rápido e depois dá pra ver a casa da árvore!"

Sunny piscou, surpreso com a rapidez com que os dois simplesmente se incluíram na tarefa. Ele abriu a boca por um segundo, como se fosse dizer algo — talvez recusar — mas acabou não falando nada. Só virou o corpo lentamente e começou a caminhar de volta até o carro, agora acompanhado.

O ar do lado de fora estava mais fresco, e o som leve das folhas se mexendo ao vento preenchia o silêncio entre eles por alguns segundos. Ao chegarem perto do carro, Hero foi o primeiro a agir, aproximando-se do porta-malas.

Ele o abriu com cuidado, observando o conteúdo lá dentro antes de escolher uma caixa menor, testando o peso com as mãos. — "Essas aqui parecem mais leves… é melhor começar por elas, pra não acabar derrubando nada."

"Leves?" — Kel repetiu, já ignorando completamente a sugestão do irmão. Ele se inclinou e tentou pegar uma caixa visivelmente maior. — "Eu consigo levar essa—"

No momento em que levantou, seu rosto se contorceu levemente. — "Ugh— tá meio pesada… mas eu consigo!"

Hero apenas virou o rosto, lançando um olhar firme. — "Kel."

O tom foi suficiente.

"Tá, tá…" — Kel resmungou, soltando a caixa de volta com um pequeno baque e trocando por uma menor. — "Você sempre estraga a diversão."

Sunny ficou alguns segundos apenas observando os dois, ainda com aquele silêncio característico. Seus olhos acompanhavam os movimentos — o jeito calmo de Hero, a energia exagerada de Kel… tudo aquilo era novo, inesperado.

Sem dizer nada, ele se aproximou do carro também e pegou uma caixa para si, ajustando o peso nos braços. Por um instante, ele olhou para o próprio reflexo no vidro do carro… e depois desviou o olhar.

Os três começaram a caminhar de volta para a casa, agora lado a lado. O som dos passos sobre o gramado e o leve balançar das caixas criavam um ritmo estranho, mas confortável.

"Então…" — Kel começou, andando um pouco mais à frente, virando o rosto na direção de Sunny enquanto andava de costas por alguns segundos — "Você gosta de videogame?"

Hero suspirou baixo, já prevendo. — "Kel, deixa ele respirar um pouco…"

"Ah, qual é!" — Kel respondeu, mas desacelerou um pouco.

Sunny demorou um instante para responder, segurando melhor a caixa antes de falar, em um tom baixo: — "…gosto."

Kel abriu um sorriso largo na mesma hora. — "Sabia! A gente pode jogar depois!"

Hero deixou escapar um leve sorriso, mais discreto, enquanto continuavam andando em direção à casa — a porta de vidro ainda aberta, deixando a luz entrar e tornando o ambiente lá dentro menos pesado do que antes.

_Adentrando na casa, os três são recebidos por um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som leve de teclas sendo pressionadas. No sofá da sala, a mãe de Sunny estava sentada, concentrada no celular, provavelmente trocando mensagens com o antigo dono da casa. O ambiente ainda carregava aquele cheiro suave de lugar recém-ocupado.

Foi então que Mari surgiu pela passagem da sala de jantar, enxugando as mãos em um pano, talvez vinda de ajudar na organização. Ao bater os olhos nas duas figuras desconhecidas, seu rosto se iluminou instantaneamente. Seus olhos foram direto para Sunny, carregados de curiosidade e um brilho animado.

— "Uau, Sun! Quem são esses dois?" — perguntou, com uma felicidade genuína na voz. Já fazia um bom tempo desde que Sunny trazia alguém novo para casa.

Sunny, pego um pouco de surpresa pela empolgação da irmã, ajeitou a postura discretamente, como se tentasse parecer mais seguro do que realmente estava.

— "Eles são... nossos vizinhos," — respondeu, olhando rapidamente para Hero, como se pedisse ajuda silenciosa para continuar.

Hero, percebendo a deixa, se adiantou. Ele abaixou a caixa que carregava com cuidado ao lado das outras já empilhadas e deu um pequeno passo à frente, mantendo uma postura educada.

— "Ahem... somos seus vizinhos. Eu sou o Hero, e aquele ali é o Kel." — disse, apontando levemente com a cabeça para o irmão, que parecia mais interessado em observar o ambiente do que em formalidades. — "Prazer em conhecer você."

Kel levantou uma das mãos em um cumprimento meio desajeitado, mas com um sorriso fácil no rosto.

— "Oi!"

Mari deu alguns passos à frente, claramente animada com a novidade, analisando os dois com curiosidade — não de forma invasiva, mas como quem já começava a criar uma boa impressão.

— "Eu sou a Mari!" — respondeu com entusiasmo, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — "É sério que vocês moram aqui perto? Isso é incrível!"

Ela então voltou o olhar para Sunny, com um sorriso levemente provocativo.

— "E você nem me contou nada, Sun..."

Sunny desviou o olhar por um instante, coçando levemente a nuca.

— "Aconteceu agora..."

Enquanto isso, a mãe de Sunny finalmente ergueu o olhar do celular, percebendo a movimentação maior na sala. Seus olhos passaram pelos novos rostos, avaliando a situação com calma antes de um sorriso gentil surgir.

— "Ah, então vocês devem ser os vizinhos," — disse ela, guardando o celular ao lado. — "Sejam bem-vindos. Desculpem a bagunça, ainda estamos nos organizando."

Kel deu um passo à frente, já bem mais à vontade do que antes.

— "Relaxa, a casa é bem legal! Aquela casa da árvore lá fora então—"

Hero rapidamente cutucou o irmão de leve, interrompendo antes que ele se empolgasse demais.

— "Kel..."

— "—o que? Eu só tô sendo sincero!"

Mari soltou uma risadinha, claramente se divertindo com a dinâmica entre os dois.

— "Vocês parecem divertidos..."

Ela então bateu levemente as mãos, como se tivesse tido uma ideia.

— "Já que vocês estão aqui... que tal ajudarem a gente com as caixas? Prometo que depois a gente pode explorar a casa da árvore juntos."

Kel imediatamente se animou.

— "Fechou!"

Hero suspirou, mas um pequeno sorriso apareceu no canto de seus lábios.

— "Parece justo."


Sunny e Kel estavam em um dos quartos do andar de cima. Assim que entraram, o cheiro de mofo era evidente, pesado no ar — mas, depois que Sunny abriu a janela, uma brisa leve começou a circular, suavizando o ambiente aos poucos.

O quarto ainda parecia preso no tempo. No canto direito, algumas caixas desmontadas estavam encostadas na parede. Após alguns minutos organizando as coisas, Sunny se ocupava em alinhar seus livros com cuidado na estante à esquerda, próxima a uma mesa antiga onde descansava um computador velho, provavelmente deixado pelo antigo dono. Mais ao centro, uma cama levemente empoeirada aguardava uso, e, no canto, um guarda-roupa alto completava o espaço.

Kel girava distraidamente na cadeira da mesa, observando tudo com curiosidade, como se qualquer detalhe fosse interessante.

— "Já arrumaram aí?" — a voz de Mari surgiu na porta aberta. Ela apareceu encostada no batente, com Hero ao lado, sorrindo de forma calorosa ao ver o progresso dos dois.

— "Acabamos agorinha," — respondeu Sunny, dando um passo para trás e analisando o resultado com um olhar mais tranquilo.

Por um segundo, tudo pareceu em ordem... até Kel parar de girar.

— "PARA A CASA DA ÁRVORE!" — exclamou ele de repente, pulando da cadeira com energia demais para o próprio equilíbrio. Em segundos, já estava atravessando o quarto, passando no meio de Mari e Hero sem frear, e disparando escada abaixo.

— "KEL! NÃO DESCE CORRENDO!" — Hero gritou, já se virando e indo atrás dele, os passos rápidos ecoando pela casa. — "Ugh... me desculpa por ele... é difícil criar ele fora da coleira..."

Mari deixou escapar uma risada baixa, levando a mão à boca, claramente se divertindo com a situação.

— "Ele é... cheio de energia," — comentou, ainda sorrindo.

Sunny apenas observou por um instante, então caminhou até a porta, olhando para a escada com uma expressão neutra — mas havia um leve traço de curiosidade ali.

— "A gente devia ir antes que ele se machuque," — disse, ajustando levemente a manga da camisa.

— "Definitivamente," — Mari concordou, já começando a descer também.

Após passarem pela sala de estar, indo para a porta de vidro, Kel havia praticamente se lançado para o quintal, correndo direto em direção à casa da árvore ao fundo.

Hero o alcançou pouco antes da escada de madeira.

— "Kel, espera!" — disse, segurando o ombro do irmão por um momento. — "Você nem sabe se é seguro subir assim!"

— "Ah, Hero, relaxa!" — Kel respondeu, tentando se soltar, mas sem muita resistência. — "Olha isso! Parece aquelas de filme!"

Mari e Sunny se aproximaram logo depois, parando a alguns passos de distância. A casa da árvore era simples, mas charmosa — madeira envelhecida, algumas tábuas um pouco gastas, e uma pequena varanda que rangia levemente com o vento.

Mari cruzou os braços, analisando com um olhar mais atento.

— "Hm... ela é meio antiga..." — comentou.

Sunny levantou o olhar, observando os detalhes com calma. A escada, os pregos, a madeira... tudo parecia... suportável.

— "Mas ainda dá pra subir," — disse ele, de forma simples.

Kel abriu um sorriso largo.

— "VIU?!"

Hero suspirou, passando a mão pelo rosto por um segundo.

— "Tá... mas devagar. E um de cada vez."

Kel não perdeu tempo dessa vez — mas, lembrando vagamente do aviso de Hero, colocou o pé no primeiro degrau com um cuidado quase exagerado... que durou exatamente dois segundos. Logo depois, já subia com pressa contida, segurando nas laterais da escada de madeira.

A estrutura reagia a cada movimento. Os degraus rangiam baixo, um som seco e antigo, como se reclamassem da presença depois de tanto tempo sem uso. Pequenas partículas de poeira se soltavam a cada pisada, flutuando no ar dourado pela luz do fim de tarde que atravessava as folhas da árvore.

Sunny veio logo atrás, diferente. Seus movimentos eram medidos, testando cada degrau antes de apoiar totalmente o peso. Seus olhos desciam rapidamente para os encaixes da madeira, analisando instintivamente se aquilo aguentaria. Uma das mãos permanecia firme na lateral da escada, a outra pronta para se equilibrar caso algo cedesse.

Mari subia em seguida, com um misto de curiosidade e leve apreensão. Diferente de Sunny, ela não analisava tanto — apenas confiava, mas ainda assim subia devagar, sentindo o leve balançar da estrutura conforme o peso de todos se distribuía.

Hero ficou por último, como uma espécie de “segurança improvisado”. Seus olhos percorriam cada detalhe — os parafusos enferrujados, as tábuas mais gastas, a distância até o chão. Uma mão sempre próxima da escada, preparado para segurar qualquer um caso escorregasse.

— "Com calma..." — ele murmurou, mais para si mesmo do que para os outros.

No topo, Kel foi o primeiro a chegar. Ele apoiou os dois pés na pequena plataforma, que respondeu com um rangido mais longo e profundo. Por um instante, ele congelou… então abriu um sorriso, como se aquilo só tornasse tudo mais emocionante.

À sua frente, havia uma pequena portinha de madeira, levemente empenada pelo tempo. A superfície tinha marcas — riscos, talvez de brincadeiras antigas, e um desenho quase apagado feito por alguém anos atrás.

Kel estendeu a mão, segurando na pequena alça metálica já enferrujada. Ele hesitou por um segundo, como se estivesse prestes a abrir algo importante... e então empurrou.

A porta abriu com um som arrastado — um “creeeek” longo e oco — levantando um pouco mais de poeira.

Kel inclinou o corpo para frente, colocando apenas a cabeça para dentro primeiro, os olhos se ajustando à luz mais baixa do interior.

— "Uau..." — saiu quase num sussurro, mas carregado de pura admiração.

A luz do sol entrava pelas frestas das paredes e pela janela lateral, criando feixes dourados que atravessavam o interior. Partículas de poeira dançavam no ar, suspensas como se o tempo ali dentro tivesse desacelerado. No centro, uma mesa surpreendentemente grande ocupava boa parte do espaço, cercada por pequenos balcões improvisados próximos à entrada. Do outro lado, uma janela maior deixava a luz entrar de forma mais direta, projetando sombras suaves das folhas que balançavam lá fora.

— "É ENORME!!" — Kel gritou, a voz ecoando levemente nas paredes de madeira.

Sunny apareceu logo atrás, empurrando a porta um pouco mais para entrar. Seus olhos percorreram o ambiente em silêncio, absorvendo cada detalhe — a mesa, as marcas nas paredes, a luz... havia algo confortável ali, mesmo com o abandono.

— "...é maior do que parece por fora," — comentou, em um tom baixo.

Mari entrou em seguida, parando por um instante perto da entrada. Um sorriso lento surgiu em seu rosto enquanto ela girava levemente o corpo, observando tudo ao redor.

— "Isso aqui é perfeito..." — disse, quase como se estivesse imaginando mil possibilidades ao mesmo tempo.

Hero foi o último a entrar, abaixando levemente a cabeça para não bater no batente. Diferente dos outros, seu olhar foi direto para a estrutura — teto, cantos, base da mesa, encaixes da madeira.

Ele pressionou levemente uma das tábuas com o pé.

— "Hm... parece firme o suficiente," — murmurou, mais tranquilo.

Kel já estava no centro, passando a mão pela mesa, levantando um pouco da poeira que se espalhou no ar com o movimento.

— "A gente podia fazer isso aqui virar tipo... uma base!" — disse, empolgado, olhando para todos. — "Tipo um QG secreto!"

Mari deu uma pequena risada, apoiando uma das mãos no balcão perto da entrada.

— "Secreto com você gritando desse jeito?" — provocou, levantando uma sobrancelha.

— "Detalhes!" — Kel respondeu rapidamente.

Sunny se aproximou da janela maior, observando o quintal lá embaixo. A altura não era absurda, mas suficiente para dar uma sensação diferente — como se aquele espaço estivesse separado do resto do mundo.

Ele apoiou levemente a mão na madeira ao lado da janela.

— "...dá pra ver tudo daqui," — comentou.

Hero cruzou os braços por um instante, agora mais relaxado.

— "Ok... admito. Isso aqui é bem legal."

Kel abriu um sorriso vitorioso.

— "EU FALEI!"


Depois de passarem um bom tempo na casa da árvore — que agora já não parecia tão abandonada graças ao esforço de Mari — o grupo finalmente se dispersou. A madeira ainda rangia levemente sob os pés, mas o ambiente tinha ganhado vida: o pó havia sido varrido, a pequena mesa central estava limpa e o baralho antigo, encontrado por acaso, virou o centro da diversão. Entre risadas e pequenas provocações, Kel e Hero se despediram, descendo apressados para voltar à casa ao lado, prometendo aparecer no dia seguinte.

A noite começou a cair lentamente, tingindo o céu de tons alaranjados e rosados. Dentro da casa, o ambiente era completamente diferente — acolhedor, quente e com o cheiro suave de comida sendo preparada. Na cozinha, Mari se movia com naturalidade ao lado da mãe, quebrando ovos com cuidado, misturando os ingredientes e controlando o fogo com atenção. O som leve da frigideira contrastava com o silêncio confortável da casa. Seu omelete, como sempre, saía impecável: dourado na medida certa, macio por dentro e com um aroma convidativo.

Enquanto isso, Sunny estava sentado à mesa de jantar, completamente absorto em seu pequeno mundo. O brilho esverdeado do Game Boy iluminava sutilmente seu rosto, enquanto seus dedos pressionavam os botões com precisão quase automática. Ele estava inclinado, apoiando o peito na mesa, como se quisesse se aproximar ainda mais da tela, isolado do resto.

Mari observou aquela cena por um breve momento antes de se aproximar com cuidado, equilibrando o prato e o copo. Ela colocou o prato suavemente ao lado dele, seguido por um copo de suco de laranja fresco, ainda com pequenas gotículas escorrendo pelo vidro.

— "Obrigado" — Sunny disse de forma simples, sem levantar muito o olhar. Ainda assim, havia um certo conforto na sua voz.

Ele pausou o jogo, deslizando o videogame para o lado com cuidado, como se aquilo fosse algo precioso demais para largar de qualquer jeito. Em seguida, puxou o prato para mais perto, observando por um instante o omelete perfeitamente feito.

— "Foi você que fez, né?" — ele perguntou, em um tom baixo, mas com uma leve curiosidade.

Mari sorriu, puxando a cadeira ao lado dele e se sentando.

— "Claro. Quem mais faria um omelete tão bonito assim?" — respondeu, com um leve tom brincalhão.

Sunny soltou um pequeno “hm” em resposta, quase imperceptível, antes de dar a primeira garfada. O sabor parecia simples, mas reconfortante — quente, macio, familiar.

Por alguns instantes, o único som era o tilintar leve dos talheres e o ruído distante da cozinha. Mari apoiou o queixo na mão, observando Sunny comer.

— "Você gostou da casa da árvore?" — ela perguntou, quebrando o silêncio.

Sunny demorou um pouco para responder, mastigando com calma antes de falar.

— "É… legal." — pausa — "Parece… um lugar bom pra ficar."

Mari sorriu de forma mais suave dessa vez, olhando na direção da janela, onde a luz do entardecer já começava a desaparecer.

— "Bem... amanhã..." — Mari começou devagar, girando levemente o copo de suco entre os dedos, como se organizasse as palavras antes de soltá-las. — "Amanhã nós vamos para a escola. A mamãe conseguiu falar com a secretaria hoje mais cedo… ela vai levar a gente pra fazer a matrícula lá."

Ela tentou manter o tom leve, quase casual, mas havia um cuidado evidente na forma como falava — como se cada palavra fosse escolhida para não assustar Sunny.

— "Você sabe que eu vou estar lá, né…" — ela continuou, inclinando um pouco a cabeça para tentar encontrar o olhar dele. — "Eu só tô um ano na frente de você. Não é como se você fosse ficar sozinho."

Sunny não respondeu imediatamente. Ele parou com o garfo no meio do caminho, olhando para o prato por alguns segundos, como se tivesse esquecido o que estava fazendo. Seus ombros ficaram levemente tensos.

— "Você conseguiu fazer dois amigos hoje…" — Mari acrescentou, agora com um pequeno sorriso encorajador. — "O Kel e o Hero. Vai que eles estudam na mesma escola que a gente?"

O silêncio voltou por um instante, mais pesado dessa vez. Sunny abaixou o olhar, mexendo distraidamente no arroz com o garfo, sem realmente comer.

— "…Talvez." — ele murmurou, quase inaudível.

Mari percebeu a hesitação. Ela conhecia aquele tipo de resposta — curta, vaga, cheia de pensamentos que ele não dizia. Com cuidado, ela estendeu a mão sobre a mesa e tocou de leve o braço dele.

— "Ei…" — sua voz ficou mais suave agora. — "Não precisa ter medo, tá?"

Sunny apertou levemente os lábios, ainda sem olhar diretamente para ela.

— "Não é isso…" — ele disse baixo, mas a forma como desviava o olhar dizia o contrário.

Mari soltou um pequeno suspiro, não de frustração, mas de compreensão. Ela já esperava por isso.

— "Mesmo que seja…" — ela respondeu, com calma. — "Tá tudo bem ficar com medo. É um lugar novo, pessoas novas… mas você não vai estar sozinho nisso."

Por um breve momento, Sunny ficou em silêncio, encarando o prato. Depois, pegou mais um pedaço do omelete e comeu, mais devagar dessa vez.

— "…Você vai me mostrar onde é tudo?" — ele perguntou, quase como uma criança pedindo confirmação.

Mari abriu um sorriso verdadeiro agora, mais leve, mais caloroso.

— "Claro que vou."

— "Sala, pátio, cantina… tudo." — ela apoiou o cotovelo na mesa, animando um pouco o tom. — "E se o Kel e o Hero estiverem lá, melhor ainda."

Sunny assentiu de leve, segurando o copo de suco e tomando um gole pequeno.

— "…Tá bom."

Depois disso, a conversa foi se dissolvendo naturalmente. Sunny voltou a comer em silêncio, agora com movimentos mais tranquilos, enquanto Mari permanecia ao lado, apenas fazendo companhia. O som suave dos talheres e o ambiente calmo da casa tornavam aquele momento simples… mas confortável.

Quando terminou, Sunny afastou o prato devagar, empurrando-o alguns centímetros pela mesa. Ele pegou o Game Boy por um instante, mas hesitou… e acabou deixando ele ali mesmo, como se estivesse cansado demais para voltar ao jogo.

Mari percebeu.

— "Terminou?" — ela perguntou, já pegando o prato com cuidado.

Sunny apenas assentiu de leve.

Ela se levantou, levando o prato até a cozinha, mas antes de desaparecer completamente, virou o rosto na direção dele novamente.

— "Ei…"

Sunny ergueu o olhar, esperando.

— "Vai escovar os dentes antes de dormir, tá?" — disse, num tom firme, mas ainda carinhoso. — "Nada de ir direto pra cama."

Ele ficou em silêncio por um segundo, depois respondeu baixo:

— "…Tá."

Mari sorriu de leve com a resposta simples.

— "Eu vou lá no seu quarto arrumar a sua cama." — ela continuou, já caminhando de volta para o corredor. — "Tá meio empoeirada ainda… vou tirar o pó e colocar seus travesseiros direitinho."

Sunny observou ela por um instante, acompanhando com o olhar enquanto ela se afastava.

— "…Obrigado." — ele disse, um pouco mais audível dessa vez.

Mari parou por um breve segundo no meio do corredor, olhando por cima do ombro com um sorriso suave.

— "Boa noite, Sunny."

Ele hesitou… como sempre fazia com esse tipo de coisa. Mas dessa vez, não demorou tanto.

— "…Boa noite."