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Samira estava parada na entrada do hospital, como se o próprio corpo tivesse esquecido o próximo movimento. As palavras de McKay ainda reverberavam em sua mente. Incômodas, persistentes e cruelmente verdadeiras.
Ela não tinha uma vida fora dali.
A constatação não veio como uma surpresa. Ela tinha total consciência de que não possuía uma vida social. Não se lembrava qual havia sido a última vez que saíra com os amigos para se divertir. A última vez que viajara para algum lugar novo. A última vez que estivera em um encontro. A última vez que estivera com alguém de forma... íntima.
Seu corpo reagiu antes mesmo que ela pudesse conter o pensamento. Um calor sutil, quase esquecido, percorreu sua pele ao se dar conta disso. Quanto tempo fazia desde que havia sido tocada?
Tempo demais.
Ela fechou os olhos por um instante, soltando o ar lentamente. Ela sentia falta. Não apenas do sexo, embora fosse algo importante e não fazia sentido negar isso, mas de algo mais profundo. Do toque que não fosse apressado. Do calor de outra pele contra a sua. De ser desejada, sim… mas também de ser escolhida. Sentia falta de ser… amada.
Samira soltou um suspiro baixo, cruzando os braços contra o frio leve da noite. Ela já sabia o que a aguardava depois dali. Sua casa, sua cama e seu travesseiro. Sozinha. Como sempre. Como McKay havia dito.
Estava prestes a ir embora quando Javadi e Mateo passaram pelas portas do hospital.
— Ei, Samira — chamou Javadi, acenando enquanto se aproximava ao lado de Mateo. — Já está indo para casa?
— Sim — a médica respondeu resignada. — E vocês?
Mateo deu um breve sorriso. — Estava falando com a Victoria que o pessoal às vezes se reúne ali no parque para tomar uma cerveja — disse ele, inclinando a cabeça na direção da rua. — Você quer ir?
Jack estava sentado no banco do parque ao lado de Robby e na companhia de Princess e Donnie. De vez em quando eles faziam aquilo. Depois de um dia caótico no trabalho, encontravam-se ali, apenas para abrir uma cerveja e respirar. Só aproveitando a companhia uns dos outros e o silêncio confortável após um plantão turbulento. Jack estava saboreando um gole de sua cerveja quando foi surpreendido pela voz de Samira.
— É aqui que as pessoas legais se reúnem?
Ele a viu se aproximar, acompanhada de Mateo e Javadi. Os três carregavam em seus semblantes o peso evidente de um dia longo demais. Jack não disse nada, apenas a observou interagir com os outros. Os cabelos presos em um coque feito às pressas, o casaco grande demais que ela sempre usava. Aquele casaco. A visão dela naquele casaco sempre o afetava. Sem nenhum controle, sua mente ia por caminhos perigosos. Ele se pegava imaginando como ela ficaria vestindo uma de suas camisas… O mesmo caimento largo, os botões abertos de forma descuidada revelando mais do que deveria e menos do que ele gostaria.
O médico soltou um suspiro baixo, desviando o olhar como se aquilo pudesse ajudar a interromper o curso de seus próprios pensamentos. Tomou mais um gole de sua cerveja, na esperança de que a bebida o ajudasse. Não ajudou. Quando voltou a encará-la, a viu soltar de forma displicente os cabelos. Um gesto simples, inocente.
Mas para ele teve outro efeito.
Os cabelos soltos, bagunçados contra os lençóis. Espalhados pelo travesseiro. Pela sua cama…. Por Deus, homem, precisava se controlar. Fazia tempo. Tempo demais desde que alguém despertava nele esse tipo de reação. Despertava nele esse tipo de pensamento.
Sem pensar muito, pegou sua prótese e começou a limpá-la, concentrado. Qualquer coisa que ocupasse sua mente ao invés de Samira.
Robby foi o primeiro a se levantar, despedindo-se de todos. Jack permaneceu. O espaço ao seu lado ficou vazio por apenas alguns segundos. Samira sentou junto à ele no banco do parque. A proximidade dela o fez lembrar do dia que haviam tido na emergência. Havia sido caótico, um daqueles que exigiam tudo de você. Técnica, rapidez, sangue-frio.
E Samira tivera tudo isso.
Quando ela conseguira fazer o procedimento e salvar o paciente, Jack sentira algo crescer dentro do peito. Um misto de orgulho, admiração… e algo mais.
Por um breve e perigosíssimo momento, ele quis beijá-la ali mesmo, no meio daquela sala de emergência, sem se importar com quem estivesse olhando.
A lembrança fez sua mandíbula tensionar.
— Você foi ótima hoje… — ele disse, a voz saiu mais baixa do que o habitual.
Surpresa, Samira o fitou com um pouco de ceticismo em seu olhar, como se não estivesse acostumada a receber aquele tipo de reconhecimento. Como se, de alguma forma, não acreditasse totalmente nele.
— Eu não teria conseguido sem você — respondeu ela.
Jack soltou um pequeno sorriso.
— Claro que teria. Você é a mais inteligente de nós.
O médico do plantão noturno observou o sorriso que se formou nos lábios de Samira. Ele gostava muito daquele sorriso. Do jeito como surgia aos poucos, e, principalmente, da pequena covinha que aparecia em seu rosto, discreta, mas impossível de se ignorar.
O cooler vazio de Donnie foi o avisdo de que aquela pequena confraternização havia chegado ao fim. Sem pressa, um a um, começaram a seguir seus caminhos. Javadi e Mateo foram os primeiros a se afastar juntos, caminhando lado a lado em direção à estação de trem. Donnie e Princess tomaram a direção oposta, arrastando o cooler vazio pelas ruas de Pittsburgh, enquanto conversavam sobre a esposa grávida do enfermeiro.
E então, restaram apenas Jack e Samira.
— Vai pra casa ou vai voltar para o hospital? — a jovem médica perguntou, ciente de que o plantão de Jack havia apenas começado.
— Casa… — ele respondeu, passando a mão pela nuca, como se estivesse sentindo só agora, o peso do dia. — Volto daqui umas duas horas.
Ela assentiu, absorvendo a informação.
— Você mora perto?
— Manchester — ele respondeu. — Uns vinte minutos andando. E você?
— Mesma direção… só que mais perto.
Houve um pequeno aceno de entendimento entre os dois.
— Vamos. Eu te acompanho. — o médico disse, começando a caminhar ao lado da jovem médica.
Samira hesitou, balançando a cabeça quase de imediato.
— Não precisa. É bem perto mesmo. — fez uma pequena pausa, o olhar recaindo sobre ele por um instante. — Além disso, você precisa descansar… não quero te desviar do seu caminho.
Abbot apenas sorriu, daquele jeito tranquilo e decidido que não pedia permissão. Ajustou melhor a mochila em seu ombro e começou a caminhar ao lado dela, como se aquela escolha já tivesse sido feita muito antes de ser dita em voz alta.
Caminhando ao lado de Jack pelas ruas silenciosas de Pittsburgh, Samira manteve o olhar à frente, até que um casal surgiu vindo na direção contrária. Eles vinham distraídos, de mãos dadas, compartilhando um sorriso leve, como se o resto do mundo não existisse.
Seu olhar deslizou, quase que por instinto, para as mãos do médico ao seu lado. Abbot caminhava com as mãos nos bolsos da calça, visivelmente cansado e absorto em seus próprios pensamentos.
Não havia mão livre para encontrar a sua.
Seu olhar continuou a acompanhar o casal até desaparecerem rua abaixo. Sua mente inevitavelmente retornou para o casal que havia atendido mais cedo na emergência. Joyce e Ondine. Se lembrou do jeito cúmplice como se olharam. Da forma apaixonada como trocaram um beijo.
Foi naquele momento que algo dentro de Samira se abriu. Naquele instante, ela havia percebido que nunca tinha sentido aquilo.
Já havia se apaixonado antes, sim. Algumas vezes. Mas não seriamente. Não daquele jeito. Não aquele tipo de amor.
Por isso as palavras de McKay haviam machucado tanto. Ela realmente havia deixado o trabalho ser a única vida que ela conhecia.
— Você está calada essa noite.
Samira se sobressaltou levemente, surpresa por ter sido puxada para fora dos próprios pensamentos. Virou o rosto na direção de Jack. A proximidade, a atenção, o jeito como ele a observava… tudo parecia mais intenso do que deveria.
— Só pensando… — respondeu, tentando soar casual, mas sem conseguir sustentar o olhar por muito tempo.
Porque naquele momento, ela já não tinha certeza se que conseguiria esconder tudo o que estava começando a sentir.
Jack sempre fora a pessoa com quem ela se sentia mais à vontade no hospital. Talvez fosse porque ele parecia ser o único que se entregava ao trabalho tanto quanto ela. Ou talvez porque, de tanto dobrar seus plantões, Samira acabava passando horas ao lado dele, compartilhando não apenas pacientes na emergência, como também os pequenos intervalos silenciosos do plantão noturno.
Era simples com ele.
E talvez fosse exatamente por isso que, naquela noite… já não parecia tão simples assim.
Não passara despercebido para ela a forma como ele a olhara na sala da emergência naquela tarde. Intenso, quase imprudente. E depois, novamente, no banco do parque. Havia algo diferente ali. Algo que ultrapassava a linha segura que ambos mantinham entre eles.
Quando reconheceu a entrada de seu prédio se aproximando, o alívio veio quase que imediato. Voltaria para a segurança de sua casa vazia. Recuperaria a sanidade, o controle de seus próprios pensamentos.
Sem Jack.
— Bom… eu fico por aqui — ela disse, se virando para ele. — Obrigada mais uma vez por tudo hoje. Pelo apoio com a Walsh. Por… acreditar em mim.
Jack inclinou levemente a cabeça, um sorriso surgindo no canto dos lábios.
— Eu falei sério quando disse que você é a mais inteligente de nós, Samira.
Samira estava tão acostumada com Abbot a chamando de “Dra. Mohan” todos os dias, sempre mantendo aquela linha profissional bem definida, que ouvi-lo chamando-a pelo seu primeiro nome a atingiu em cheio. Imaginou como seria ouvi-lo dizer seu nome em outras circunstâncias. Mais íntima. Com aquela voz rouca, mais baixa, mais próxima. O pensamento veio rápido e intenso. Um calor inesperado começando a se espalhar pelo seu corpo.
Estava cansada de assistir.
Cansada de ser apenas espectadora das histórias dos outros, dos sentimentos que pareciam sempre acontecer ao redor, mas nunca com ela.
Sem pensar muito, sem se importar com as consequências, Samira deu um passo à frente. Aproximou-se de Jack, e ficando na ponta dos pés, encostou seus lábios nos dele.
Um beijo simples. Quase tímido. Apenas um leve roçar de lábios.
Quando a surpresa inicial do que havia acontecido se dissipou. Samira percebeu imediatamente a rigidez do corpo dele, a hesitação. E o arrependimento a atingiu como uma onda violenta.
O que ela estava fazendo?
Milhares de pensamentos colidiram ao mesmo tempo em sua cabeça. Ele não se sentia atraído por ela. Aquilo tudo havia sido um erro. Ela devia parecer uma idiota. Uma residente exausta projetando algo que não existia com seu superior. Droga, McKay!
Ela deu um passo para trás envergonhada, pronta para se desculpar, pronta para desfazer o momento antes que ele se tornasse irreversível.
Foi quando seu olhar encontrou com o dele e o mundo pareceu suspender ao redor dos dois.
Os olhos de Jack haviam mudado. A surpresa inicial havia sido substituída por algo mais intenso. Carregados de algo que ela não precisou nomear para compreender. Desejo. Puro.
Samira não teve muito tempo para pensar, porque, no instante seguinte, sentiu as mãos de Jack em sua cintura, firmes e decididas, puxando-a de volta.
Dessa vez, não houve um resquício sequer de hesitação. As bocas se encontraram novamente, mas agora sem cautela, sem dúvida. O beijo veio mais profundo, mais urgente, quase violento, como se todo o controle que existira até então tivesse finalmente cedido.
Samira respondeu na mesma intensidade, o corpo se inclinando contra o dele. Uma de suas mãos afundando nos cabelos do médico, bagunçando-os mais do que já estavam bagunçados.
Jack a trouxe ainda mais para perto, como se quisesse eliminar qualquer espaço entre eles. O beijo se aprofundando, quente, carregado de tudo o que havia sido contido por tempo demais.
E Samira teve certeza. O trabalho definitivamente não seria sua vida.
