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Samira não se lembrava de quando havia se tornado uma vampira, mas recordava, com dolorosa clareza, há quanto tempo estava à mercê da solidão.
Suas tentativas de se encaixar haviam sido falhas. Com o tempo, aprendera que não era sua monstruosidade que a afastará dos mortais, mas algo mais profundo… sua própria essência.
Foi rejeitada, expulsa, humilhada. Acostumou-se com a ausência e tornou-se aos poucos um espectro à margem da sociedade.
Aqueles que a notavam eram consumidos, devorados, esvaziados de tudo que um dia os tornava humanos. E, ainda assim, não podiam amá-la.
Suas presas não tinham valor, eram frágeis e insignificantes. Imploravam, choravam, se ajoelhavam diante dela, oferecendo devoção. Samira os desprezava, pois em cada súplica, reconhecia a si mesma naquelas criaturas desesperadas.
Ansiava por um companheiro. Uma risada que ecoasse ao seu redor, um olhar que percorresse seu corpo, um amor que a afogasse por completo.
Era assombrada por ele.
Ele daria sentido a sua imoral existência, devoraria sua culpa e a guiaria pela escuridão que a preenchia. Era seu semelhante, eram feitos da mesma obscuridade.
Após tantos séculos, encontrou-se em uma pequena cidade chamada Forks. Suas paisagens bucólicas e atmosfera chuvosa a haviam conquistado. Gostava de acreditar que, ali, finalmente teria encontrado um lar.
Já havia passado por inúmeras profissões. Estar sozinha tornava tudo mais simples, estudar nunca foi um problema, especialmente com séculos de experiência acumulados.
Na era da tecnologia, sua condição se tornará ainda mais conveniente. Nem sempre era necessário estar presente. Era fácil desaparecer. Mais fácil ainda se reinventar.
Samira Mohan. 30 anos. Editora, jornalista, tímida e solteira.
Corria na floresta. Dirigia um Dodge Charger 1969. Morava em uma casa velha de madeira.
Raramente colocava seu diploma de medicina em prática. Ainda assim, quando precisavam de mais um médico no turno da noite, ela aceitava. Era uma forma de se manter próxima, integrada à população, para evitar rumores.
Foi no hospital que ela o conheceu.
— Senhor... Abbot? - Samira ergueu os olhos da prancheta para o homem sentado na maca, de braços cruzados e sem camisa. O cheiro de sangue fresco preenchia o ambiente.
Já o havia visto anteriormente, mas sua presença nunca parecera tão assombrosa.
Era inexplicável.
Fascinante.
Samira queria parti-lo em pedaços.
