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Cindy parece impaciente para o relógio que marca 07:31 da manhã. Ela e os outros membros da banda já estão há mais de 24h sem dormir. A garota olha em volta, vendo aquela correria logo cedo no aeroporto. Mais para a esquerda, veja o assessor da banda se aproximar.
"Meo, que demora!" reclamar "O que eles falaram?" pergunta sobre a companhia aérea.
"Não enche Cindy! Eles falaram que não tem o que fazer, não dá pra um avião levantar voo no meio dessa tempestade" Caíto diz cansado, apontando para a janela.
"Sério?! Porra!" Eloy exclama na cadeira ali do lado, cruzando os braços e fechando a cara.
"Meo! O show acabou às duas da manhã! Ninguém dormiu porque nosso voo era pra ter sido às 4h! Você tá vendendo isso aqui?" fala apontando para as próprias olheiras. "Eu estou horrível!" Dramatiza.
"Eu sei! Mas eu não tenho culpa de estar caindo o mundo lá fora e o voo ter atrasado!" Caíto rebate.
Alê está sentado na cadeira perto de Eloy, de olhos fechados. Parecia que estava dormindo, mas não, o barulho do aeroporto naquela hora é insuportável para qualquer um. Caio balança a perna ansioso, enquanto Franco se distrai olhando a chuva.
Não dá para voltar para o hotel, não podem esperar em um lugar mais tranquilo e nem conseguem tirar um mísero cochilo nos bancos.
Depois de algumas discussões bobas e um lanchinho, a banda fica mais calma. Olhando pela janela, Caíto percebe a chuva diminuindo. Vira em direção ao telão do aeroporto. 10:40 da manhã. Ainda olhando para o telão, vê o número do voo deles ser listado, decolando 11:10 no portão TPS 01/7.
"Gente!" chama a atenção deles. "Nosso voo vai sair em meia hora, vamos pro portão." Comanda enquanto pega sua mochila e sai em direção ao portão seguindo as placas.
O Psikolera está prestes a encerrar sua turnê pelo Brasil. Acabaram de tocar em São Luís e o último show será em São Paulo. A banda está saindo do Maranhão até a capital paulista, fazendo uma conexão em Brasília. Infelizmente as datas dos shows nem sempre batem com os voos diretos, então, às vezes, a melhor opção acaba sendo as conexões.
O grupo espera um pouco na fila de embarque, até ser recepcionado pelo comissário de bordo. Eles têm que sentar separado, afinal, é mais barato não escolher o lugar.
"Eu tô achando que a gente vai chegar em cima da hora pro show" Cindy fala para Caio enquanto ele coloca a malinha da namorada no bagageiro do avião.
"Relaxa princesa! A gente vai chegar a tempo sim." Diz com voz tranquila. "Vê se descansa, você tá estressada faz tipo o que? Umas seis horas?"
Cindy só bufa e vai em direção ao seu lugar.
Cada um senta em seu lugar definido. Alê consegue um lugar na janela no fundo do avião. Franco senta-se perto do corredor, na parte da frente. Eloy fica no meio de duas pessoas desconhecidas, o que é engraçado, já que os ombros largos de Eloy ocupam mais espaço do que deveriam. Caíto também fica na janela, do lado da asa do avião. Por fim, Caio consegue convencer uma mulher gentil a trocar de lugar com ele, para que fique ao lado da namorada.
Durante toda a viagem, apenas alguns conseguem dormir, outros estão ansiosos demais para isso…
Antes mesmo de decolar, Caio já está no segundo sono, enquanto Cindy sente vergonha do namorado roncando tão alto. A loira não dorme nada, fica só pensando no encerramento da turnê e em tudo que pode dar de errado — mesmo já estando. Eloy também não relaxa, só consegue pensar na namorada, Lena, que estará assistindo o show de hoje. Franco desmaia em seu assento — se não fosse o apoio de braço já teria caído no corredor. Alê se distrai por tempo demais olhando as nuvens e as cidadezinhas lá embaixo.
O resto da viagem acontece normalmente, mas Franco perde seu momento favorito: o lanche. O coitado não consegue acordar nem para isso.
Depois de duas horas e meia de voo, o avião pousa. Os membros da banda e o assessor são os primeiros a levantar, com pressa de sair logo para que não se atrasem para o próximo voo. Alê pega sua mochila do bagageiro e anda até Franco, dando dois tapinhas em seu ombro. Antes que o ruivo acorde direito, Alê já está pegando a mochila dele.
Caíto e Cindy são os únicos que prestam atenção nas instruções dos comissários.
"Vamos, a gente tem que ir pro portão 16." Caíto diz com aquela voz de tédio característica, logo após saírem da aeronave.
"Mas e as malas?" Franco pergunta antes de bocejar.
"Você não ouviu o que a mulher disse?! Eles vão passar as malas pro outro avião." Caíto responde sem paciência.
"Tá bom, tá bom…" O ruivo responde na defensiva.
"Nossa, mas sou só eu que tô morrendo de fome?" Caio fala com a mão na barriga. Eloy e Franco concordam em silêncio.
"A comissária disse que a gente sai em 45 minutos. Vocês têm um tempinho — mas voltem logo!" Cindy fala estressada, mas dando permissão para que eles saiam e comam algo.
Eloy, Caio e Franco seguem à procura de qualquer lugar que tenha uma comida com mais de dez gramas, diferente do lanche do avião.
Enquanto isso, o restante continua procurando o portão 16 pelas placas.
"Espero que eles não se percam." Cindy fala e Alê solta um pequeno riso, duvidando um pouco da baixista.
Na frente do portão de embarque, sentam nos bancos à espera do resto dos integrantes, torcendo para que pelo menos alguém lembre de trazer comida para eles também.
"Sabe aquele influenciador mesquinha? O de cabelo azul, que usa óculos." Caíto diz, descrevendo com gestos.
"Nando. O que tem o idiota?" Cindy cruza os braços com desgosto.
"Ele não para de falar que vai no nosso show de hoje." Caíto fala com voz de tédio.
Cindy franze o cenho.
"Que?" Alê solta alto, totalmente sem querer, ficando com as bochechas coradas.
Caíto e Cindy não conseguem segurar o riso sobre a reação do loiro.
"Mas sério, esse cara só tá indo pra surfar na nossa fama." A loira fala de forma ríspida.
Alê acena concordando.
Há alguns passos de distância, avistam o resto do grupo. Os três estão comendo alguns salgados com uma aparência não tão apetitosa.
"Toma." Eloy coloca um saco de papel no colo de Cindy. A mesma abre apressada e curiosa
"Coxinha!" Fala pegando e admirando o alimento como um tesouro. Olha para Caio, que dá uma piscadela para ela.
Alê olha por cima do ombro de Cindy e vê um pão de queijo no fundo do saco. Pega e começa a comer, ignorando a aparência questionável pela fome. Caíto olha dentro do saco e pega o último, comendo em silêncio.
"É melhor a gente ir entrando." Eloy diz pegando a mochila e indo para a fila do avião.
Os outros seguem ele, alguns comendo e outros terminando de comer.
A viagem segue do mesmo modo da primeira, mas dessa vez são Caio e Franco que começam a ficar tensos, sem conseguir relaxar — a tensão pré-show aparecendo. Dessa vez, são Franco e Caíto que sentam perto.
"Cala a boca, moleque. Você não sabe de nada! Ainda é um bebê. Eu sou muito mais maduro e inteligente que você." Caíto fala alto.
"Caíto, a gente tem a mesma idade!" Franco rebate.
"O meu QI é maior que 130! É claro que eu tô certo! Minecraft Bedrock é mil vezes melhor!" Dá um tapinha no braço de Franco.
"Tá falando merda demais! Todo mundo sabe que o Java é melhor!" Franco fala indignado.
Os dois passam o resto do voo discutindo, para o azar da moça que está na cadeira ao lado.
Quem tem sorte é Alê, que senta de novo na janela. Aproveita a vista o máximo possível, mas depois de alguns minutos o sono cobra a noite não dormida.
Depois de uma hora e quarenta e cinco minutos de voo, eles finalmente chegam em São Paulo. Finalmente em casa… Não exatamente.
São 16:10 quando pousam, o que significa menos de cinco horas para o show. Todos saem em disparada para fora do avião. Caíto já conhece o aeroporto de Guarulhos de cor. Anda direto para a esteira de bagagem, e o resto dos integrantes vem atrás. Nunca existiu tanta ansiedade num lugar só, aquela esteira nunca foi tão lenta.
Caíto já pegou sua mala e está no telefone chamando o motorista da van.
"A gente precisa ir direto pro clube. O teste de palco vai ser corrido, mas não dá pra apresentar sem fazer ele de jeito nenhum." O assessor diz firme guardando o celular, enquanto Eloy pega a última mala da esteira.
Dá pra ouvir alguns resmungos vindos dos membros, inclusive de Alê.
"Porra, Caíto, a gente tá exausto cara!" Caio fala.
"Nem vem, da última vez que vocês não fizeram teste de palco, o Franco caiu do palco durante o solo." Caíto rebate, enquanto Franco fica visivelmente vermelho.
Depois desse argumento ninguém mais ousa reclamar. Todos andam em direção à saída quase como zumbis se arrastando. A van está estacionada na área de embarque e desembarque. Caíto entra na frente e o resto da banda se organiza atrás com as malas.
"Cara, eu tô exausto!" Franco diz, praticamente derretendo no banco da van.
"Pelo menos você dormiu, eu nem consegui pregar os olhos." Eloy responde, quase que de mau humor.
O resto do caminho é tranquilo, tirando o fato de que ninguém consegue nem cochilar por causa da estrada. De acordo com Caíto, o asfalto é uma porcaria.
Quando menos esperam, já estão na frente do clube. Inferno Club. Os Psikolera não tocaram aqui antes. É um clube alternativo relativamente novo, mas muito popular.
Os artistas saem da van carregando apenas algumas caixas com os instrumentos, menos Caio, que usa o microfone do local, e Eloy, já que transportar uma bateria para vários lugares acaba sendo muito complicado.
Caíto já está conversando com um funcionário para que a entrada seja liberada.
"Vamo! Por aqui!" Caíto grita apontando para a porta lateral.
Seguem a instrução de Caíto e logo estão dentro do espaço. Cindy, Franco e Alê logo procuram a escada para o palco. Quando, sobem, Caio e Eloy chegam mais atrás — o namorado de Cindy gruda nela, segurando seu baixo enquanto a loira monta o suporte. Eloy faz a mesma coisa com os outros colegas, seus braços lhe permitem segurar facilmente uma guitarra e um keytar simultaneamente, enquanto os colegas erguem os suportes.
Um dos técnicos de som ajuda com os cabos e, depois de alguns minutos, tudo está pronto para o ensaio final.
A banda ensaia apenas três músicas, mas o cansaço faz com que errem em várias partes. A cada erro Cindy fica mais estressada e faz todo o mundo repetir a música de novo até acertarem. Complexo de perfeição? Talvez…
"Galera! Vocês precisam parar o ensaio. O clube abre em dez minutos." Alguém da equipe de som avisa.
Os Psikolera deixam seus instrumentos no suporte e seguem para a área de funcionários, até o camarim.
"Eloy, meo, me ajuda com as malas lá na van." A baixista fala com a mão no ombro de Eloy. "Caiozinho! Você também!" diz pegando na mão do namorado, sem deixá-lo escapar.
Os três saem do camarim. Apenas Franco e Alê sobram.
"Você tá com cara de quem fumou três becks seguidos." Franco diz olhando para Alê, que está totalmente largado no sofá, olhos muito vermelhos.
"Sono." É a única coisa que ele diz antes de encostar a cabeça no sofá e fechar os olhos.
"Sério Alê, você não está animado pro nosso último show da turnê?! Ele precisa ser épico!" Franco fala alto, claramente muito animado.
Alê continua de olhos fechados e Franco desiste.
Em menos de cinco minutos os dois ouvem o grito de Cindy.
"Cuidado meo! Vai estragar todas as minhas maquiagens!”
Alguns segundos depois a porta do camarim se abre com força até demais. Cindy já arrasta sua mala para o canto, abrindo no chão.
"A gente precisa urgentemente reformar esses looks." Ergue o uniforme da banda, inspirado em uma camisa de força. "Tem um buraco na costura do zíper!" Fala indignada.
"Depois das férias a gente resolve. A única coisa nossa que vou fazer agora é subir naquele palco e tocar com o resto de energia que eu tenho." Eloy diz sentando na pontinha do sofá.
"A gente tem quanto tempo até o show?" Franco pergunta num tom de dúvida.
"Menos de duas horas." Cindy lança um olhar mortal para Franco.
"Foi mal, foi mal. Parei de salvar depois do terceiro show da turnê." Faz uma careta saindo do camarim, provavelmente indo fumar.
"Só se arrumem logo — se a gente atrasar pra esse show o Caíto vai encher o saco o resto da semana." Cindy, praticamente uma ordem.
Ninguém ali está com fim de irritar Cindy e o Caíto, então só decidem obedecer.
Os próximos minutos são marcados por aquela corrida de sempre antes do show.
Havia roupas jogadas por aí, sapatos espalhados, maquiagens abertas no balcão… aquele caos confortável de sempre que os Psikolera conheciam bem.
"Alguém tá vendendo o par do meu tênis?" Caio pergunta enquanto revira tudo.
"Amor, tá ali." Cindy, que estava se maquiando no espelho, fala apontando com o lápis vermelho.
"Cara me ajuda a fechar aqui." Eloy diz para Franco, virando de costas para o ruivo, que ajuda a fechar seu macacão.
"Da próxima vez a gente precisa pensar em roupas sem zíper." Franco comenta com voz cansada.
"E menos quente." Eloy completa, Alê concorda com a cabeça.
"Por que você tá se maquiando tanto?" Caio pergunta para uma namorada.
"Pra tirar foto com os fãs né, meo!" Cindy responde como se fosse óbvio.
A bagunça pelo camarim faz com que os artistas demorem em mais do que desviam na arrumação.
"Ei! Vocês têm mais vinte minutos antes do show começar. Já terminaram isso aí ?" Caíto aponta para a bagunça do camarim com uma cara de desgosto.
"Tá quase!" Franco diz passando o lápis de olho com a pontinha da língua para fora, concentrado.
O resto dos integrantes já está pronto, apenas aguardando o horário do show. Apesar da maquiagem, a baixista está com uma cara ruim, de quem não prega os olhos há mais tempo do que deveria. No entanto, ela não é a única — ninguém ali está com uma cara boa.
"Onde você colocou as máscaras?" Caio pergunta para Caíto.
"Tá num saco de tecido vermelho, numa mesa antes do palco. Vocês têm que lembrar de pegar antes do show." O assessor fala com a voz de tédio característico.
Caíto fica por ali, encostado na parede ao lado da porta, concentrado no celular. Todos os artistas, exceto Franco, estão literalmente largados no sofá, como zumbis, zero consciência e cem de instinto.
"Ai, porra!" Franco exclama e se afasta do espelho. O delineador cai no chão enquanto ele coloca as duas mãos sobre um olho.
Alê é o primeiro a se aproximar, com uma preocupação que não é típica a delu.
"Caralho, mano. O que você arrumou?" Eloy pergunta desencostando do sofá.
Alê consegue tirar as mãos de Franco de cima do olho, puxando um pouco a pálpebra para cima, revelando um olho completamente coberto de preto.
"Mano, como você fez isso?!" Caio fala e se aproxima para ver mais de perto, com cara de estranhamento.
"Alê! Cuidado…" Franco diz com uma voz envergonhada enquanto Alê segura seu rosto.
O loiro caminha guiando o guitarrista até o banheiro e coloca a cabeça do menino debaixo da água. Alguns diriam que parece cena de uma tentativa de assassinato, já que Franco não para de reclamar e grunhir.
"Me ajuda a jogar isso no olho dele." Eloy diz na porta do banheiro, balançando um colírio. Ele nunca admitiria em voz alta que o colírio era dele, não seria muito rock and roll da parte dele.
"O que?! O que vocês estão fazendo?!" Franco fala de um jeito assustado.
Alê seguramente os braços de Franco com uma mão e inclina a cabeça dele com a outra, enquanto Eloy pinga o colírio.
"Vocês estão querendo me matar!" Diz dramaticamente, o que faz com que até Alê solte uma risada sincera.
O tecladista seguro o rosto do ruivo com as duas mãos, analisando se ele está melhor.
"Eu estou bem…" disse com o olho um pouco vermelho ainda.
"Gente! Temos que ir! Tá na hora já!" Cindy fala chegando na porta do banheiro. "Meu Deus… sua maquiagem tá toda borrada!" diz, quase como se fosse um crime.
Pega um lenço demaquilante e começa a limpar toda a maquiagem borrada de Franco.
"Pronto. É o suficiente por agora." Fala com as mãos na cintura. "Vamos, a gente já tá atrasado."
Cindy anda rápido até a coxia. Caminha de um jeito estranho — parece que vai desmaiar a qualquer momento.
O espaço é um breu , mais escuro do que deveria ser. Paredes pretas altas, algumas caixas com equipamentos e muitos e muitos fios.
O técnico de som vai até eles e entrega um retorno para cada um. A escuridão só torna o trabalho de colocar o equipamento mais chato e demorado do que deveria ser.
Dentro do clube, é perceptível a animação do público. Alguns gritam e clamam pelos seus ídolos, ansiosos pelo show.
A loira tateia por cima de uma mesa pequena nos bastidores, até achar o saco que Caíto falou. Enfia a mão no automático — já decorou a textura de sua máscara, sabe de cor e salteado. Naquele momento, o que ela mais deseja é uma cama e um bom sono.
Franco também coloca a mão no saco. Cindy encontra uma máscara com o fecho igual ao que conhece e pega. O ruivo identifica a aspereza idêntica à sua máscara meio queimada.
O garoto sente a animação correr pelas veias — está ansioso pela última apresentação. Segue a baixista para o palco, tropeçando nos fios que se camuflam no escuro e esquecendo completamente do cilindro que carregava nas costas durante o show.
"Corre, vocês estão atrasados!" Caíto empurra os três últimos em direção às máscaras .
Caio e Eloy enfiam a mão no saco e puxam o que parece ser a máscara de cada um, sumindo em meio ao breu do palco.
Alê abre o saco e não encontra mais nada. Tateia ao redor da bolsa, mas não acha sua máscara de jeito nenhum — até olhar embaixo da mesa e ver a máscara de Franco junto ao cilindro.
"Gente, eu acho que alguém pegou minha máscara." Eloy grita atrás da bateria, tentando falar mais alto que o público. "Eu tô com a máscara de alguém!" Fala num tom de desespero, analisando no escuro para ver de quem é aquela máscara.
Ninguém acertou — todos se confundiram. Talvez seja o sono, ou o barulho, ou até mesmo a escuridão infernal do clube de São Paulo.
"Eloy, eu—" Cindy para de falar quando vê as cortinas abrindo.
Alê vê exatamente o momento em que mais nada pode ser feito. Elu apenas pega a máscara junto ao tanque e corre até o seu lugar, colocando o acessório o mais rápido possível. Ninguém hesita em colocar as máscaras trocadas antes que as cortinas terminem de abrir — afinal, o show tem que continuar.
Com as cortinas completamente abertas, o público de São Paulo grita mais alto do que eles lembram de ter ouvido nos outros shows da turnê.
"Boa noite, São Paulo!" Caio grita, mas de uma forma nunca vista — a voz mais cantada e aguda do que o normal. Ele olha para trás por um segundo, o pânico escondido por trás da máscara que não é dele.
Eloy solta um riso histérico da bateria — efeito clássico da máscara de Alê — e começa a contagem da música.
É automático. Todos já sabem o que fazer.

Eloy está em êxtase. A máscara de Alê faz com que ele se sinta incrivelmente maléfico, faminto pela música, como se ninguém estivesse à sua altura. Ele toca sua bateria despreocupado, sabendo do seu valor e da sua importância para a banda.
O baterista procura a namorada pelo espaço e a encontra admirando. Entre as músicas, Eloy faz um gesto de coração para Lena, mas sem parar de rir.
Usar a máscara de Alê durante o show é uma experiência única — ele nunca se sentiu tão leve e relaxado. Por mais que sua risada seja caótica, estava acostumado com a máscara de focinheira que o faz dissociar, dando espaço só para a agressividade.

A máscara de Eloy vai parar no rosto de Cindy. A garota já é raivosa naturalmente, mas hoje arde em fúria. Dá para ver o pescoço dela ficando cada vez mais vermelho. Os dedos fazem os acordes de forma rígida, rítmica. Bate o pé marcando a contagem constantemente. Controladora, metódica. Olha para os fãs e para os colegas de forma ameaçadora. Eu mato quem errar a próxima nota.

Caio está feliz — muito feliz — com a máscara da Cindy. O garoto pula e anda de um lado para o outro enquanto canta, dando mais foco nos agudos do que nos graves, o que para a psikolera pode parecer ruim, mas é apenas diferente. Seu corpo mexe com a música — parece que está ali para curtir o show, não só para se apresentar. Sua performance é o oposto do que costuma ser: mais suave, muito menos agressivo.

A placa de 'pare' foi parar no rosto de Franco. Parece confiante, assim como quando usa sua própria máscara, mas dessa vez faz questão de ficar interagindo com o público o show inteiro. Abaixa-se na ponta do palco de vez em quando para receber algum presente ou tentar conversar com os fãs apesar do barulho — parece até flertar com a plateia.
Às vezes um palavrão ou outra escapa da da sua boca involuntariamente, mas ele não se importa. Sente-se invencível, imponente. Ninguém vai acabar com o show dele.
E por último, a máscara de gás esconde a beleza angelical de Alê. Elu não faz ideia do que tem naquele tanque — mas é forte, muito forte.
O loiro já se sente tonto e tenta ao máximo continuar tocando e se manter em pé. Só Franco para aguentar aquilo mesmo — o ruivo às vezes é radical até demais.
Já tropeçou no mesmo cabo umas duas vezes. Vê tudo embaçado — é tão ruim quanto o efeito causado pela rubra. Na terceira vez que tropeça no cabo, se desequilibra de vez e cai para trás. Caio, que se remexia, dança de costas para o público, faz questão de parar de cantar para rir de Alê.
O tecladista vê tudo girando — nem percebe quando alguém da produção apareceu aparece para ajudar elu.
Apesar da confusão e do tombo, Alê sente uma coragem crescendo dentro de si. Sente-se orgulho da sua música.

Caíto assiste dos bastidores. Não sabe se ama ou se odeia. Mas uma coisa não sai da cabeça do moreno: "como eles conseguiram ser tão burros?!" Apenas Caíto sendo ele mesmo.
Não dá para dizer que todos adoraram a troca — mal sabem os fãs que nada disso estava planejado. Mesmo assim, esse evento único rende a eles uma repercussão gigantesca nas redes sociais. Eles acabam de estourar a bolha.
Os fãs estão assistindo a uma nova versão dos Psikolera.
Às vezes as pessoas que saem da zona de conforto e vão viver o mundo são recompensadas com momentos incríveis, e um pouco desastrosos.
