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you don't have to be sorry

Summary:

Lorena Ferette reaprendendo o conceito de família durante a vida.

Notes:

oi, gente!

primeiramente, gostaria de dizer que eu comecei a escrever essa fic quando campos do jordão era apenas um sonho ainda, então tem algumas pequenas coisas que não se alinham ao canon, mas dei meu máximo para me manter fiel a história.

essa é uma história focada um pouquinho mais na lorena, pq eu acho a questão do relacionamento dela com a familia / o ferette muito interessante na novela, mas tem muito sobre o relacionamento de loquinha e o que eu vejo pro futuro delas. espero que gostem :)

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Lorena Ferette se lembrava muito bem de quando começou a questionar o conceito de família dentro da própria casa. Algo que, infelizmente, começou cedo demais.

 

“Você precisa aprender qual é o seu lugar, Lorena. Eu não vou permitir que você cresça sem direção… Poderia ser mais como o seu irmão.”

 

Ela ainda se recordava das palavras ditas à ela pelo pai naquele tom controlado, beirando a intimidação. Foi uma das primeiras vezes em que percebeu o peso da desaprovação no olhar de Santiago Ferette. E também uma das primeiras vezes em que se perguntou se havia algo errado com o jeito que ela era.

 

Tinham acabado de chegar em casa após um jantar junto aos Rossi, uma família de grande influência que Santiago planejava usar para alavancar seu status como filantropo e benfeitor da sociedade paulistana. Mas, como um bom conversador calculista, ele apresentara o evento como nada mais que um encontro casual entre duas famílias. Ela o ouvia exclamando ao telefone: "Meu Leonardo vai adorar fazer amizade com seus meninos, e eu tenho certeza de que a Zenilda e a Val se darão muito bem!". No entanto, mesmo com a pouca idade, Lorena era uma ótima observadora, e conhecia muito bem os trejeitos do pai.

 

Conforme o dia do jantar se aproximava, ela sentia a energia de Santiago mudando. Por melhor que ele tentasse esconder, aqueles momentos eram o mais perto que já vira o pai de um estado inquieto, a fachada do homem intocável apresentando pequenas fissuras.

 

Ela percebia isso principalmente na forma como ele tratava a esposa, onde qualquer mínima ação fora do papel de esposa-troféu era corrigida com uma firmeza sutil; um comentário “inofensivo”, um olhar mais demorado. Mas, ao demonstrar qualquer preocupação em relação à mãe, Zenilda rapidamente a tranquilizava, assegurando que aquilo era apenas estresse relacionado ao trabalho.

 

Lorena francamente não tinha muito interesse nos relacionamentos do pai, especialmente se tratando de negócios, onde Santiago não era exatamente acolhedor para que ela aprendesse algo sobre. Mas, algum tempo antes do jantar, o irmão havia confessado a ela que estava nervoso após Santiago lhe dar a missão de se aproximar dos filhos dos Rossi, para mostrar que entendia a importância de estreitar laços comerciais desde cedo. Sabendo da necessidade do irmão de se provar como o Filho de Ouro, assim que ele lhe contou sobre o pedido, ela se dispôs a ajudá-lo a se enturmar.

 

Por isso, enquanto os pais estavam tendo “conversa de adulto”, Lorena estava junto de Leonardo e os irmãos Lorenzo e Victor Rossi enquanto brincavam na sala da mansão de alto padrão no Jardim Europa.

 

Tudo estava correndo bem até que, por um descuido momentâneo de Leonardo, um dos vasos decorativos caiu no chão e se estilhaçou, fazendo um som estrondoso ecoar, seguido de um silêncio absoluto, que logo chamou atenção dos pais pelo contraste com as falas e risadas constantes das crianças.

 

Ao ver o pai vindo em suas direções, Lorena percebeu o irmão lhe lançar um olhar completamente aterrorizado. Os dois sabiam o que estaria por vir caso Santiago soubesse o que havia acontecido. Lorena também sabia que – para sua consternação – na visão do pai, ela ocupava o papel de “sobra” da família. Mas com Leonardo, a história era diferente; o irmão se desdobrava para conquistar a aprovação de Ferette como o herdeiro digno do império, pois era cobrado incansavelmente para agir como tal. Diante disso, ela não pensou duas vezes antes de se colocar em frente a Santiago e assumir a culpa pelo erro.

 

E agora, depois que chegaram em casa, estava pagando o preço por isso.

 

— Ferette, não é pra tanto. Tudo se resolveu no final. O Antônio nem ficou chateado, você viu. — disse Zenilda, tentando apaziguar a situação.

 

Santiago soltou um suspiro curto, ajustando o relógio no pulso antes de responder, como se estivesse reorganizando os próprios pensamentos.

 

— É claro que ele não faria uma cena, Zenilda. Pessoas como ele sabem se portar. — disse, de forma calma. — É justamente por isso que situações como essa não deveriam acontecer.

 

Seu olhar então se voltou para a filha, firme. Lorena, por sua vez, baixou o olhar, sentindo o calor subir pelo rosto, uma mistura confusa de vergonha, tristeza e uma pontada incômoda de raiva por toda essa situação.

 

Ela não se arrependia do que havia feito. Proteger Leonardo tinha sido quase instintivo, algo que veio antes mesmo de qualquer pensamento racional. Ainda assim, havia algo profundamente desconcertante em estar, pela primeira vez de forma tão direta, sob o peso daquele olhar de tanta decepção do pai.

 

— Em primeiro lugar, você não deveria nem ter saído da mesa. Existe um momento para cada coisa. — fez uma pequena pausa, como quem escolhe cuidadosamente as próximas palavras. — Você já é uma mocinha, não tem que estar se comportando igual um moleque, se bandeando por aí.

 

— Ah, Santiago. Isso não tem nada a-

 

— Zenilda. — ele a interrompeu, com um tom que não deixava espaço para continuação. — Por favor, não se meta nisso. — voltou-se novamente para a filha e continuou, — O que mais me preocupa, Lorena, é você não entender o que se espera de você. Eu não construí tudo o que tenho para ver minha própria filha agir como se tivesse sido criada por um qualquer. Você já está crescendo, já está na hora de melhorar esse seu jeito, né?

 

Abalada pela forma como foi interrompida, Zenilda se calou, permitindo que ele continuasse o sermão direcionado à filha, que ouvia com a cabeça baixa, absorvendo cada palavra.

 

Depois de adulta, Lorena passou a compreender melhor a dimensão do impacto que o controle do pai tinha sobre a mãe. Mas, naquele momento, a pequena Lorena só conseguia sentir o medo e a insegurança se espalhando pelo peito, pulsando junto com o coração acelerado, enquanto estava diante das duas pessoas que mais deveriam protegê-la e amá-la incondicionalmente.

 

Esse sentimento esteve presente ao longo de toda a infância de Lorena, que foi marcada por uma certa solidão e pelo peso persistente no fundo do peito de que havia algo errado em ser quem era.

 

A presença e a amizade do irmão até ajudavam, mas ele não sabia exatamente como era estar no lugar dela. Com ele, era sempre diferente. Já a mãe, por mais que lhe desse todo o carinho que podia, também estava presa naquela teia de manipulação e não tinha forças para enfrentar o marido, mesmo nos momentos em que a filha mais precisava.

 

Mas as coisas não foram assim para sempre. 

 

Apesar da dinâmica familiar permanecer a mesma, o mundo de Lorena saiu do eixo quando entrou na adolescência.

 

Um tempo que, para a maioria, é marcado por amizades dramáticas ou crises existenciais, para Lorena foi sinônimo de liberdade. Ou, pelo menos, de uma parte dela.

 

À medida que seus conhecimentos sobre o mundo se expandiam para além da visão restrita que tinha entre as quatro paredes da residência Ferette, e que ela passava a conhecer as lutas do mundo afora, a revolta e o senso de justiça que tinha floresceram cada vez mais. E então, vagarosamente, ela começou a se libertar do peso da necessidade de cumprir o que o pai impunha para sua vida.

 

Claro, não foi tão fácil quando parece no papel.

 

Teve que trabalhar duro para recolher os pedaços da pequena Lorena que haviam sido perdidos e trazê-los de volta para si. Era como se, a cada vez que enfrentasse o pai ao invés de ir atrás da aprovação dele, uma peça de si mesma fosse recuperada.

 

E mesmo com a grande armadura que montou ao redor de si, no fundo, tudo aquilo ainda doía muito. Nos momentos em que ouvira as palavras mais duras do pai, sempre lembrava da pequena menina que desejava tanto ser amada incondicionalmente por ele. Além disso, se viu perdendo um dos grandes aliados que tinha naquela casa, o irmão, que não conseguiu se soltar das garras de Santiago Ferette até que fosse tarde demais. Então, sabia que precisava ser forte para enfrentar tudo aquilo sozinha.

 

Até que Eduarda entrou na sua vida.

 

No início do relacionamento, apesar da felicidade e do período de “lua de mel” que viviam dentro da própria bolha, sabiam que realidade era que estavam no meio de um verdadeiro fogo cruzado. Entre o desmascaramento dos esquemas do pai até o desfecho trágico da história, que culminou na morte de Santiago Ferette nas mãos do próprio filho, Eduarda foi sua âncora.

 

A vida e o conceito de família ganharam um novo significado naquela fase. Entre os laços de sangue, apenas a mãe ainda permanecia ao seu lado, mas Lorena sentia que havia ganhado mais do que perdido. Junto da namorada, uma verdadeira caravana de pessoas chegou para se juntar ao núcleo que haviam construído.

 

Ela nem se deu conta do quanto essas pessoas faziam a diferença na sua vida, até não conseguir mais imaginar seu dia-a-dia sem elas.

 

O primeiro foi Paulinho.

 

Já era tarde, e Eduarda havia avisado para que não a esperasse acordada em casa, pois demoraria para voltar devido a uma operação de última hora, algo relacionado à investigação da Casa de Farinha. Em dias como aquele, apesar dos avisos da policial, o corpo de Lorena não conseguia relaxar e dormir tranquilamente; sentia o coração ficar pequeno de tão apertado e a mente inquieta ao pensar nos infinitos cenários em que algo de errado poderia acontecer com Eduarda.

 

Sentiu um alívio imediato quando sentiu o celular vibrar na mesa de cabeceira com uma ligação e viu o contato “Meu Amor” piscando na tela. Mas, ao atender, a voz do outro lado fez a angústia retornar, e dessa vez muito mais forte, pois sabia que não se tratava apenas de uma tragédia imaginária.

 

— Lorena, é o Paulinho... Então, a gente estava em uma operação, e foi tudo muito rápido. Era pra ser algo simples, mas o cara surgiu do nada e-

 

— Pelo amor de Deus, Paulinho. Fala logo. — ela interrompe, impaciente e desesperada para saber a gravidade da situação que lhe aguardava.

 

— A Juquinha levou um tiro, a gente tá aqui no Hospital Pinheiros. Vem logo pra cá e eu te explico tudo melhor quando você chegar. — Paulinho pediu, com a voz tensa.

 

Lorena ouviu as últimas palavras com o corpo já em movimento. Pegou a bolsa quase no automático enquanto chamava um carro de aplicativo no celular, sabia que não teria a menor condição de dirigir naquele estado.

 

Apesar de não ser uma pessoa muito religiosa, o único pensamento coerente que atravessava sua mente naquele momento era um pedido silencioso para todas as entidades possíveis para que permitissem que Eduarda ficasse bem.

 

Foi nesse estado catatônico que ela chegou no hospital e encontrou com Paulinho, e agora os dois esperavam angustiados por mais notícias sobre a policial, que estava em cirurgia.

 

Foi quando Paulinho pareceu ter um estalo e começou a apalpar os bolsos da calça e da jaqueta até finalmente encontrar o que estava procurando. Retirou uma pequena embalagem plástica com um objeto dentro e a entregou para Lorena.

 

— A enfermeira me entregou quando estavam preparando a cirurgia. Ela não podia usar na operação como faz no dia-a-dia, mas como ela é uma apaixonada cabeça dura, deixava sempre no bolso para não ter que ficar muito longe.

 

Lorena nunca foi de chorar na presença de outras pessoas. Mesmo nos momentos mais difíceis, fazia de tudo para se conter, deixando os sentimentos escaparem apenas na própria companhia, ou na companhia de um grupo seleto de pessoas em quem ela confiava o suficiente para a segurá-la enquanto desabava, lista na qual Eduarda certamente estava no topo.

 

Mas, naquele momento, as lágrimas pareciam inevitáveis diante da magnitude de tudo que aquele objeto representava, símbolo de amor entre as duas mulheres. Ao encarar a aliança, só conseguia pensar nos planos que ainda tinham pela frente, e em como não teria forças para seguir com nenhum deles sem Eduarda ao seu lado.

 

Ela inclina o corpo para frente, apoiando o rosto nas mãos, e finalmente deixa escapar o soluço preso na garganta. Ao presenciar a cena, Paulinho fica um misto de sem jeito, – afinal, conhece Lorena por histórias mais que tudo – mas também um tanto emocionado, pois entende perfeitamente o desespero visceral de imaginar perder alguém que ama tanto

 

— Ela tem que ficar bem, Paulinho. —  murmura com a voz embargada.

 

— Escuta, Lorena, a Juquinha... ela é teimosa, e chata pra caramba. Ela não ia deixar alguém fazer isso com ela sem voltar pra ter certeza que o cara ia ir pra cadeia. Ela vai passar por isso.

 

As palavras não eram suficientes para aliviar a inquietação e o peso imenso que se instalara no peito de Lorena, mas ainda assim conseguiram arrancar dela a sombra de um sorriso em meio ao choro.

 

Ainda não havia uma intimidade real entre eles. Mas, naquele momento, ao compartilharem o medo de perder a mesma pessoa, que ambos aprenderam a amar de formas tão diferentes, mas igualmente intensas, Lorena ficou feliz que tinha em Paulinho alguém com quem podia contar.

 

Suspirou e colocou todas as suas forças restantes na única coisa que poderia fazer naquele momento: esperar pelo melhor. Que, felizmente, foi o que aconteceu.

 

Depois que Eduarda saiu do hospital, Lorena pensava que o pior havia passado. Mas, logo descobriu que estava completamente enganada quando percebeu que estava presa como enfermeira particular da pior paciente de todos os tempos.

 

— Meu amor, como você é teimosa! Eu já te falei mil vezes que é pra você me chamar quando for pegar alguma coisa. — ela diz guiando uma Eduarda grunhindo de dor de volta para o sofá da sala.

 

— Linda, eu já tenho que ficar nessa casa o dia inteiro mofando, pelo menos me deixa fazer algumas coisas sozinha. Você vai voltar a trabalhar agora, então eu tenho que conseguir me virar enquanto você não tá aqui.

 

— E você acha que eu sou boba de te deixar sozinha aqui em casa? Do jeito que é, capaz de romper algum ponto. Já já sua mãe chega ai pra ficar com você. — Lorena arqueia uma sobrancelha e se senta na beirada do sofá.

 

— Não acredito que você e minha mãe mal se conheceram e já estão formando complô contra mim! — disse Eduarda fazendo um bico.

 

— Ah, meu Deus! Como é dramática essa minha noiva.

 

Apesar das palavras, Lorena se deixa ser puxada por Eduarda, que encaixa seus corpos no sofá, enquanto a faz a maior cara de coitada e coloca as mãos no peito em um ar Shakesperiano.

 

— Se nunca teve alguém que morreu de saudades, eu serei a primeira.

 

Diante da encenação, Lorena enche o rosto de Eduarda de selinhos, passando pelas bochechas, pelo nariz e finalizando nos lábios, tomando muito cuidado para não a machucar.

 

Mesmo sabendo que a ruiva estava brincando, Lorena ainda se sentia mal por deixá-la sozinha tão pouco tempo depois de um acontecimento como aquele. Mas a própria Eduarda havia garantido que ela deveria seguir com o trabalho de garçonete, pois tinha começado há pouco tempo e já tinha ficado afastada para ficar com a ruiva nos primeiros dias de volta em casa.

 

— Eu queria ficar também, meu amor. Mas vai passar rapidinho. Quando eu tiver saindo eu chamo um Uber e te aviso pra compartilhar a corrida, tá? — se desvencilha de Eduarda e se levanta para finalmente começar a jornada até o trabalho.

 

— Claro que não! A senhorita também deve estar achando que eu sou boba de te deixar voltar do trabalho de madrugada sozinha, né? 

 

— Mas amor, você não tem condição nenhuma de dirigir nesse estado.

 

— Isso eu sei, por isso eu arranjei a segunda melhor coisa. Você ainda estará acompanhada de um policial armado e perfeitamente capaz de te proteger, só não vai ser tão lindo quanto eu.

 

Lorena franze o cenho e não entende de imediato o que Eduarda quis dizer, até que, em um estalo, a pessoa mencionada vem à mente.

 

— Eduarda, eu não acredito que você pediu pro coitado do Paulinho ir me buscar no trabalho. Ele deve estar atolado de coisa lá na delegacia!

 

— Ele tá um chato, isso sim. Agora que ele e a Gerluce estão brigados com essa história de roubo de estátua, ele tá com saudade de fazer bico de Uber. Pode ficar tranquila que ele já tava me devendo um favor, agora foi a hora perfeita de cobrar.

 

— Você não existe, Eduarda Fragoso.

 

— Te amo.

 

— Te amo muito.

 

 E, conforme o prometido por Eduarda, Paulinho já estava lá quando o turno de Lorena terminou. No começo, os dois ficaram presos em um silêncio constrangedor após os cumprimentos iniciais. Logo perceberam que, além do dia no hospital, nunca tinham tido um momento a sós, sem a presença de Eduarda mediando a conversa entre eles.

 

Paulinho já estava prestes a fazer um comentário aleatório sobre o tempo quando, quase como se a ruiva tivesse sentido que era assunto nos pensamentos dos dois, o painel do carro se iluminou com uma sequência de notificações.

 

Juquinha: paulo, vc toma cuidado com a minha mulher no carro POR FAVOR

Juquinha: se não eu mesma te mato

Juquinha: e se você deixar 1/3 da delegacia dos apaixonados sem mulher, o delegado nunca vai te perdoar

Juquinha: lembra que quando foi com a gerluce ela disse que eu dirijo melhor que você!!!

Juquinha: …e obrigada :)

 

Os dois soltaram uma risada ao mesmo tempo com as mensagens, que foram mais do que suficiente para quebrar o gelo.

 

— Essa patricinha folgada… — Paulinho resmunga com uma risada incrédula, balançando a cabeça.

 

— Ela é demais mesmo. — Lorena responde, com uma risada nasal. — Mas vem cá, que história é essa de Delegacia dos Apaixonados?

 

— Pode ficar tranquila, Lorena. A investigadora só tem olhos pra você naquela delegacia. — ele solta, com um meio sorriso. — Essa história começou, na verdade, com o delegado Jairo…

 

E seguiram o caminho até a casa de Lorena e Eduarda entre risadas e histórias do dia a dia na delegacia. Lorena já estava acostumada com as presepadas que Eduarda gostava de contar ao fim do dia, mas havia algo diferente em ouvir sobre a Investigadora Juquinha sob o olhar de outra pessoa, especialmente alguém tão próximo a ela quanto Paulinho.

 

Era nítido o carinho na voz de dele ao falar de Eduarda, o que aqueceu o peito de Lorena. Por um momento, aquela dinâmica até a fez lembrar da relação que tinha com o irmão quando era mais nova, antes de a vida adulta colocar tanta tensão entre eles.

 

Nas semanas seguintes, as caronas seguiram com aquela mesma energia leve e tranquila. Os dois conversavam sobre os mais diversos assuntos, mas sempre acabavam retornando para o padrão de reclamações brincalhonas sobre Eduarda, e, aos poucos, foram construindo intimidade suficiente para que Paulinho se abrisse sobre o relacionamento com Gerluce.

 

Lorena já conhecia um pouco da história por meio de Eduarda, mas ainda assim ouviu com paciência enquanto ele falava, de forma sincera, sobre os sentimentos conflitantes que carregava, e tentou aconselhá-lo para que pudesse enxergar a situação por outra perspectiva.

 

Paulinho nunca admitiria isso para Eduarda ou correria o risco de ser chamado de “coração mole” pelo resto da vida, mas apesar de ter sentido a ausência dela durante o tempo de recuperação, ele até que estava gostando do serviço de caronas noturnas, que o proporcionava um momento leve em meio a tensão que vivia em todos os momentos do dia, tanto na vida pessoal quanto na profissional.

 

Mas, para Lorena, foi um grande alívio quando o “serviço de Uber” chegou ao final, pois significava que Eduarda, finalmente, estava bem o suficiente para voltar à ativa.

 

E algumas semanas após a recuperação total da ruiva, depois de tanto tempo vivendo a vida em meio a turbulências, quase-mortes e mortes de verdade, finalmente veio a paz que Eduarda e Lorena tanto ansiavam. E, com ela, os planos para o futuro.

 

Depois que haviam arranjado um cantinho aconchegante juntas, Lorena finalmente pôde descobrir o que era ter uma casa que também fosse um lar. Meses depois, quando ela finalmente conseguiu finalizar a graduação em letras e com três pedidos de casamento somados, enfim oficializaram a relação em uma cerimônia simples – para o terror da senhora Fragoso – mas emocionante.

 

Contaram com discursos lindos dos padrinhos, onde Maggye deixou os olhos de todos os convidados marejados falando sobre o amor incondicional que sentia pelas duas amigas e a felicidade em ver as duas juntas.

 

Já Paulinho, além de fazer o salão ecoar em gargalhadas com suas anedotas sobre como a Detetive Juquinha era “borocoxô” antes de Lorena entrar em sua vida, ainda muniu Eduarda com conteúdo para zombaria até o fim da vida dos dois quando precisou ser arrastado por Gerluce (com quem finalmente tinha feito as pazes) no fim da festa, depois de bater o recorde de drinks em uma única noite.

 

Lorena só não esperava que a oficialização da relação seria um acordo não-oficial de “leve um e ganhe três” com os Fragoso.

 

Depois do nervosismo inicial da fase de conhecer os sogros, Lorena passou a considerar Violeta e Henrique Fragoso como figuras parentais em sua vida, que contrastavam, e muito, com aquelas às quais estava acostumada. Ela sentia que a relação entre eles se solidificara de vez quando fizeram a primeira viagem em família.

 

O fim de ano se aproximava, e seriam as primeiras comemorações festivas que Lorena passaria sem a própria família reunida, após a morte de Ferette e a prisão de Leonardo.

 

O Natal e o Ano Novo nunca foram exatamente momentos calorosos na casa dos Ferette. As datas eram marcadas por jantares que exalavam uma formalidade excessiva para algo que deveria ser uma reunião familiar. Além disso, o ceticismo de Santiago nunca permitiu que a magia do Natal chegasse até os filhos; ele sempre acreditou que os primogênitos deveriam saber que presentes só vêm com esforço e trabalho duro, e que nenhuma figura mágica os traria até eles.

 

Ainda assim, mesmo sem tradições exatamente clássicas, Lorena sentia um aperto no peito ao pensar que não teria sua sobremesa vegana preferida, feita pelas mãos de Zezé a pedido de Zenilda, nem teria Leonardo para discutir com ela sobre quem havia ganhado o melhor presente, insistindo que não dividiriam um com o outro.

 

Mas, antes que pudesse se entregar de vez à melancolia, os sogros lhe estenderam um convite: passar o fim de ano com o restante da família de Violeta, reunidos na casa de praia dos Fragoso.

 

Generosamente, também convidaram Zenilda, que preferiu passar o feriado com o novo namorado, Rogério. Lorena, por sua vez, sentia que o que mais precisava naquele momento era justamente um fim de ano cercado pela animação da família Fragoso e pelo apoio da esposa, algo que poderia ajudá-la a distrair a mente em meio a um período tão difícil.

 

Apesar de Eduarda já ter avisado sobre o que a aguardava, com a junção de tios, primos e avós em um só lugar, Lorena não estava preparada para o verdadeiro caos que encontrou ao chegar, com a casa tomada por energia vibrando por todos os lados.

 

Eduarda já havia explicado que, embora ambos os lados da família fossem financeiramente confortáveis, a fortuna maior vinha principalmente dos parentes por parte de mãe. No entanto, eles eram um grupo nada tradicional, formado, em sua maioria, por artistas, como a própria Violeta, que havia construído seu nome na indústria da moda.

 

Talvez por isso, Eduarda sempre tenha tido um carinho especial por esse lado da família.

 

Assim que todos se acomodaram na casa, ninguém quis perder tempo, logo reuniram a família inteira para uma ida à praia.

 

— Amor, você se importa se eu for lá com meus priminhos na água, pra ficar de olho neles? — perguntou Eduarda, enquanto as duas estavam deitadas, dividindo uma canga na areia.

 

— Ficar de olho, é, Eduarda? Sendo que você vai voltar mais suja de areia do que eles. — Lorena provocou, já imaginando que a esposa tinha outras intenções ao se voluntariar. — Claro que não tem problema, pode ir.

 

— Tem certeza? Eu entendo se você não quiser ficar aqui sozinha com a minha família. — Eduarda a olhou com uma expressão séria, mas cheia de carinho.

 

— Claro que eu não me importo, Duda.

 

Com a confirmação da esposa, Eduarda se levantou de imediato e seguiu em direção às crianças, não sem antes roubar um selinho rápido nos lábios de Lorena.

 

— Ei, calma aí, amor! Você não vai nem retocar o protetor? — Lorena ainda tentou, mas sem sucesso. A ruiva já estava no meio do caminho, completamente entretida com os filhos de seus primos que a seguiam animados até a água.

 

— Ih, Lorena, essa aí não tem jeito, não. Todo ano é a mesma coisa. Fica com esse papo de “preciso de vitamina D”, não passa protetor e depois aparece choramingando, toda queimada. — comentou Pedro, um dos primos de Eduarda, em tom divertido.

 

— A Dudinha é pior que as crianças. — completou Samuel, que Lorena tinha quase certeza que era o primo mais velho. — E você, Lorena? Tá animada pra passar o Natal aqui com a gente? Esse ano promete! Vamos repetir o amigo da onça. Quero só ver no que vai dar.

 

— Amigo da onça? — ela perguntou, franzindo o cenho.

 

— Isso! Aquela brincadeira de dar presente ruim e roubar o dos outros, sabe? A gente ficou com vontade de dar uma apimentada no amigo oculto tradicional ano passado e virou um caos, mas resolveram repetir mesmo assim.

 

— Agora fiquei curiosa pra saber a história.

 

— Um tio nosso deu um disco do Roberto Carlos só pra zoar, mas o que ninguém esperava era que as tias fossem brigar por ele. — Samuel ri. — Aí pronto, virou guerra. Tia mandando marido roubar o CD, primo entrando na disputa só pela zoeira. No fim, a Duda conseguiu a última troca e ficou com o disco. E ainda deu ele de presente pra nossa avó na encolha, acredita?

 

— Não deixa ela te enganar com aquela pose de policial, não, Lo. — Pedro entrou de novo na conversa. — A Duda é a maior mimada da família. Prima mais nova, queridinha da vovó e dos pais.

 

Os três continuaram ali, conversando e trocando histórias por um bom tempo, até que chegou a hora do almoço. Chamaram as crianças e Eduarda de volta, que deram seu melhor para se secarem e se apressaram para se reunirem à mesa.

 

O almoço foi aconchegante e nada formal, bem diferente do que Lorena estava acostumada. Todos se serviam enquanto diversas conversas paralelas se cruzavam, alguns colocando o papo em dia e outros comentando sobre a comida. E no meio daquela zona toda, todos pareciam igualmente felizes por estarem juntos, sensação que logo contagiou Lorena.

 

— Pessoal, o almoço foi ótimo e a companhia mais ainda, mas eu e a Lorena vamos subir. Eu preciso urgentemente tomar um banho e me deitar um pouco, a viagem até aqui foi longa. — explicou Eduarda, já afastando a cadeira e se levantando. 

 

— Vai lá, filha. Daqui a pouco a gente também tá saindo. — Violeta respondeu com um sorriso.

 

Ao chegarem no quarto, Lorena não fez questão de quebrar o silêncio entre elas, apenas aproveitando a onda de calmaria que passava pelas duas naquele momento.

 

Sem dizer nada, apenas entrelaçou os dedos nos de Eduarda e a conduziu até a suíte. Lá dentro, se despiram com naturalidade e logo entraram no chuveiro.

 

Durante o banho, Lorena fez questão de retribuir, de sua maneira, todo o cuidado que vinha recebendo de Eduarda. Começou pelo shampoo, massageando o couro cabeludo da esposa com movimentos lentos, quase preguiçosos. Depois de enxaguar, espalhou o condicionador por toda extensão dos fios ruivos com delicadeza, foi quando Eduarda quebrou o silêncio.

 

— Como você tá, amor? Eu sei que toda essa loucura pode não ser exatamente o clima que você precisa agora. Então, se quiser que a gente volte antes pra ficar com a sua mãe, tá tudo bem.

 

Lorena a interrompeu com um beijo rápido.

 

— Meu amor, você não tem noção do quanto estar aqui tá me fazendo bem. Eu amo você, e amo ver essa versão mais leve da Eduarda com a família. Não tem nenhum outro lugar no mundo onde eu preferiria estar agora além de aqui, com você.

 

— Eu te amo muito. E não esquece, você é família também, tá? Você é a minha família, então é família deles também. — Eduarda disse com uma sinceridade tão firme que fez Lorena derreter.

 

— Ai, Duda, acho que vou passar o resto da minha vida agradecendo por ter você comigo. Você é incrível. Maravilhosa. Perfeita. — completou em tom mais leve, quase brincalhão, pontuando cada elogio com pequenos beijos espalhados pelo rosto da esposa.

 

— Hmm... Ah, é? E o que mais? — respondeu Eduarda, com a voz manhosa e um sorrisinho de canto safado que Lorena já conhecia muito bem, mas ela não poderia perder a chance de caçoar da esposa. 

 

— Fiquei sabendo também que a senhora tem uma certa fama por aqui... — disse, se aproximando um pouco mais. — Mimada da família, não é? A caçula princesinha dos avós, que sempre teve tudo na palma da mão.

 

A expressão de Eduarda mudou na hora, com uma feição emburrada tomando conta do rosto.

 

— Quem foi que te disse isso? Aposto que foi o Samuel, né? Aquele safado vai ver só.

 

— Calma, amor. Não precisa ir atrás de ninguém, a gente estava só se enturmando. Além do mais... mentindo ele não tava, né?

 

— Então é assim, Lorena Ferrete? Bom, a mimada aqui queria muito que você fizesse uma coisinha por ela... — disse e puxou Lorena para mais perto pela cintura.

 

— Me fala.

 

— Queria que minha esposa linda parasse de tirar uma com a minha cara e voltasse a me encher de beijos, e depois me deixasse fazer ela gozar aqui nesse chuveiro.

 

Lorena fecha os olhos e respira fundo com as palavras ditas perto do seu ouvido, mas logo volta para a realidade de onde e com quem estavam.

 

— Amor, sua família toda tá aqui. Acho que não é a melhor ideia a gente fazer isso com a casa cheia.

 

Apesar do protesto, Eduarda começa a espalhar beijos molhados pela mandíbula e pescoço da morena, que fez com que ela precisasse colocar toda a sua concentração para que as palavras saíssem de forma coerente.

 

— Tá todo mundo no andar debaixo ainda, que é longe daqui. Além do mais, o som do chuveiro abafa boa parte do barulho. Você só precisa se segurar e gemer baixinho, pra só eu te escutar.

 

Apesar do esforço admirável de Eduarda, Lorena já não precisava de mais convencimento.

 

Fechou os olhos por um instante, tentando manter o controle, mas a proximidade da ruiva já fazia seu corpo reagir, sentindo a umidade tomando conta do vale entre as pernas.

 

— Amor… — começou, num fio de voz, mas não teve a capacidade de continuar.

 

Eduarda sorriu de canto, percebendo exatamente o efeito que causava. Havia algo quase satisfeito em sua expressão ao observar Lorena se perder aos poucos. Mesmo tendo passado por aquilo inúmeras vezes, nunca se cansava de observar o prazer de sua mulher.

 

— Vira pra mim.

 

Lorena obedeceu, girando o corpo devagar e sendo obrigada e desviar o olhar da ruiva, que já estava carregado de intenção.

 

Eduarda pegou o sabonete, espalhando a espuma nas mãos antes de deslizar pelas costas da morena. Desceu com calma e passou a mão pelas costas alvas, sem pressa, como se estivesse saboreando cada segundo. O toque era leve, mas firme o suficiente para deixar claras suas intenções.

 

Lorena prendeu a respiração quando as mãos começaram a percorrer mais baixo em seu corpo. Porém, Eduarda não se demorava em lugar nenhum. Sempre que parecia que ia ficar, seguia um rumo totalmente inesperado.

 

O toque mais suave vinha justamente nos pontos mais perigosos, conduzindo Lorena ao limite com uma delicadeza quase cruel. Até os lugares mais improváveis se tornavam sensíveis sob seus toques, o vão entre os dedos, a parte interna do cotovelo, a pele ao redor dos seios, nada escapava.

 

Vez ou outra, o toque de Eduarda arrancava uma reação involuntária na forma um sorriso contido ou uma pequena lufada de ar, algo que não passou despercebido.

 

— Que foi? — Eduarda sussurrou perto do ouvido dela.

 

— Cosquinha, amor. — ela admitiu, ainda tentando segurar o riso.

 

A resposta fez Eduarda sorrir contra seu pescoço, entre um beijo e outro. Mas, se algo, só a deixou ainda mais determinada. Ela alternava a intensidade dos toques, construindo uma provocação lenta e deliciosa que deixava Lorena à beira do precipício – e certamente matando qualquer resquício de risada de sua expressão.

 

— Duda... — Lorena soltou, entre um suspiro e outro. — Isso é maldade.

 

— Eu? Fazendo maldade com você? — Eduarda inclinou a cabeça, fingindo inocência. — Imagina.

 

Eduarda afastou um pouco mais as pernas de Lorena com suas próprias, buscando melhor acesso, e passou a se mover com constância contra ela.

 

Elas conheciam o corpo uma da outra como ninguém, então Eduarda sabia exatamente o que estava fazendo com cada movimento contra a esposa.

 

Lorena confiava em Eduarda em todos os sentidos. Desde o toque até os momentos mais vulneráveis, havia aprendido a se entregar por completo, e sabia que a entrega era recíproca.

 

Além do estímulo direto, ver Eduarda daquele jeito, com a expressão focada e sussurrando frases sujas com a boca colada em seu pescoço, já era suficiente para levá-la à beira do abismo. Somado às emoções ainda à flor da pele ao longo do dia, a sensação só se intensificava. Ela sabia que não demoraria, e tinha quase certeza de que Eduarda também sabia.

 

Lorena se inclinou para trás e se apoiou nela, tentando se ancorar em alguma coisa enquanto tudo dentro de si começava a se desfazer. Com um gemido baixo, o clímax a atingiu de forma vertiginosa. O corpo inteiro respondeu sem controle, tremendo sob o impacto da sensação.

 

Por alguns segundos, tudo pareceu se dissolver no som da água caindo e na própria respiração descompassada.

 

Lorena manteve a cabeça apoiada no ombro da ruiva, os olhos fechados, deixando o calor da água e a proximidade dela fazerem o resto. O corpo ainda leve, sensível, como se qualquer movimento fosse a desmontar completamente bem ali.

 

— Tá bem, amor? — Eduarda murmurou, a voz baixa.

 

Lorena estava totalmente focada em recuperar o fôlego, então apenas assentiu.

 

— Você fica aí me provocando, mas me dá cinco minutos pra voltar pra vida, que tem volta, viu?

 

Eduarda apenas sorriu em resposta.

 

Lorena, por sua vez, não demorou muito a retribuir, conduzindo Eduarda com a mesma calma, entre risadas baixas e beijos demorados. Aos poucos, o ritmo desacelerou de vez, até que decidiram, finalmente, encerrar o banho, já conscientes do tempo que tinham passado ali, desperdiçando uma quantidade nada modesta de água.

 

Depois de banhadas, Eduarda descansava de bruços, com o braço esticado sob a cintura de Lorena, que, apesar das incansáveis tentativas, não conseguia cochilar. Mesmo tendo conseguido relaxar nos momentos junto a esposa, agora, apenas com a companhia do som da respiração ritmada de Eduarda, estava com o peito borbulhando em sentimentos e a mente inquieta, já estava certa de que não conseguiria pregar o olho aquela tarde.

 

Então, se contentou em ficar ali por um tempo, apenas observando Eduarda dormir e, de vez em quando, traçando com leveza, com a ponta dos dedos, o contorno da sobrancelha, dos lábios e da ponte do nariz dela, só apreciando sua presença. Não demorou muito para perceber uma vermelhidão evidente começando a se espalhar pelas bochechas da esposa. E não tinha dúvidas de que a ruiva ainda ia choramingar por cuidados com a pele irritada de sol.

 

Mas, chegou um momento que nem aquilo era suficiente, e sua inquietação falou mais alto.

 

Decidiu se levantar, tomando cuidado para fazer o mínimo de movimento possível para não acordar Eduarda, e foi ver se havia alguém já desperto, talvez precisando de ajuda com alguma tarefa que a ajudasse a ocupar a cabeça.

 

Ao caminhar pela casa, no entanto, se deparou por total silêncio nos corredores. Continuou andando, até que decidiu se assentar em uma das cadeiras da varanda, deixando o olhar se perder no mar e na visão quase etérea do sol se pondo. Se segurou ao fio de esperança que a imagem das ondas quebrando e o som suave da natureza ao seu redor servissem como calmante natural.

 

Para sua surpresa, o silêncio não durou tanto quanto imaginava.

 

— Oi, minha querida, não sabia que você estava acordada já. — disse Violeta, surgindo atrás dela com passos leves e se acomodando ao seu lado no pequeno sofá de dois lugares.

 

— Oi, sogra. É, eu não tava conseguindo dormir, aí dei uma andada pela casa, mas não achei ninguém.

 

— O pessoal saiu quase agora pra comprar algumas coisinhas. O resto acho que ainda está dormindo. — fez uma pequena pausa antes de acrescentar, — E a Duda, cadê?

 

— Tá dormindo também, aí eu não quis atrapalhar. — respondeu, com um sorriso cansado.

 

Violeta demorou alguns segundos, analisando a expressão de Lorena, como se escolhesse cuidadosamente as próximas palavras.

 

— E tá tudo bem com você, meu amor?

 

— Tá tudo certo. Por que a pergunta?

 

A mais velha levou a mão até o rosto dela, iniciando um carinho suave. Lorena fechou os olhos por um momento, apreciando o gesto de afeto.

 

— É que eu te senti um pouco quietinha desde que chegamos, pensativa. Tô errada?

 

— Não está. — ela não conseguiria mentir para Violeta naquele momento, que a olhava de forma tão sincera e acolhedora.

 

— Então, fiquei preocupada com isso. Se não quiser falar, não tem problema, mas saiba que estou aqui, tudo bem?

 

Violeta então a puxou para um abraço, envolvendo-a completamente em um aperto quente e carinhoso, enquanto fazia um carinho ritmado em suas costas. Com aquele acolhimento maternal, Lorena sentiu todas as emoções que vinha tentando suprimir emergirem de uma vez, os olhos ardendo com lágrimas teimosas que ela dava seu máximo para que não caíssem.

 

— Fala comigo, minha filha. — disse Violeta, separando o abraço apenas o suficiente para conseguir encarar o rosto de Lorena.

 

— É que essa época de fim de ano tá mexendo um pouco comigo. Venho pensando muito na minha família, sabe?

 

— Tá com saudades da sua mãe? Eu falei pra Duda que não teria problema nenhum vocês passarem o Natal com ela, a gente entenderia totalmente.

 

— Não é isso. Quer dizer, não é isso.

 

— Por acaso, é algo relacionado ao seu pai? — Violeta perguntou com cuidado.

 

— É. — Lorena murmurou, passando a mão pelo rosto. — Eu... eu tenho pensado muito nele ultimamente. Mais do que eu gostaria.

 

— Isso é a coisa mais normal do mundo. Seu pai te causou muito mal, é natural que você se sinta assim.

 

— Mas é justamente isso que me incomoda. Ele me fez tão mal, mas eu fico presa pensando nos momentos bons. Por mais que ele tenha sido o homem mais sem caráter do mundo, o Santiago Ferette tinha seus momentos. — deu uma pequena risada sem humor. — Às vezes eu me pego lembrando das viagens em família, das vezes que ele me levava pra sair, só nós dois. — respirou fundo, tentando se recompor. — E eu me sinto uma idiota, por que como é que eu posso sentir falta disso? Como é que eu posso sentir falta de alguém que... — ela não terminou a frase, mas não precisava.

 

Agora parecia que a represa tinha se rompido de vez, e Lorena deixava tudo sair sem filtro, inclusive as lágrimas que começaram a cair desenfreadas, sem que ela nem percebesse.

 

— Eu não queria despejar tudo isso na Duda agora, sabe? Porque eu sei o quanto ela tava animada pra passar o fim de ano com vocês, e eu não queria estragar isso pra ela. Eu também tô muito feliz de estar aqui, de verdade. E é uma coisa tão idiota.

 

— Não é nada idiota. — Violeta interrompeu com suavidade. — É totalmente compreensível, meu amor. Você não é um robô, e sentimentos não são preto no branco. É muito difícil se desvencilhar completamente desse tipo de memória. O que você viveu com a sua família consistiu em momentos bons, e isso é um fato que ninguém pode apagar. Mas essas lembranças não anulam o abuso que você sofreu. As duas coisas podem coexistir, e lidar com esse conflito não é nada fácil.

 

— Parece que tem alguma coisa errada comigo. Como se... como se uma parte de mim ainda quisesse a aprovação dele. Ainda quisesse ser escolhida por ele. — soltou uma respiração trêmula. — E eu odeio isso.

 

— Não tem nada de errado com você. — disse com firmeza, mas com uma doçura inabalável. — O que você tá sentindo é humano. Você não sente falta do que ele fez com você. Você sente falta do que ele poderia ter sido. Do que você merecia ter tido.

 

Violeta fez uma pausa breve, apertando-a um pouco mais no abraço.

 

— Eu sinto muito que você tenha passado por tudo isso. Mas você não precisa carregar isso sozinha. Sempre vai ter um colo aqui comigo, tá? E, eu não quero te pressionar, mas acho que talvez te fizesse bem dividir isso com a Dudinha.

 

Lorena assentiu levemente, ainda encostada nela.

 

— Acho que você tá certa. E me desculpa por chorar assim em cima de você. — ela se separou o abraço e soltou uma pequena risada, enquanto limpava as próprias lágrimas.

 

— Por nada, meu amor. E não tem problema algum. Chorar faz bem pra gente.

 

Esses momentos difíceis definitivamente não desapareceram, mas foram se tornando cada vez mais fáceis de lidar com o passar do tempo. Toda vez que ela compartilhava a própria dor, sentia como se um pouco daquele peso se dissipasse dentro do peito. Começou com Eduarda, depois com os sogros, e então com uma terapeuta, que decidiu procurar após longas conversas com a esposa sobre a profundidade dos seus traumas familiares.

 

E, com o passar dos meses, aos poucos, a ideia de família foi ficando cada vez mais leve.

 

Ou, pelo menos, era o que ela acreditava.

 

Eduarda foi quem trouxe o assunto à tona primeiro, enquanto as duas estavam deitadas na cama, viradas uma para a outra, trocando carícias e conversando em sussurros, aproveitando a companhia uma da outra.

 

 — Linda, você já pensou em... aumentar a nossa família? — diz a ruiva, enquanto faz carinho nas costas da esposa. — Eu sei que às vezes a gente fala brincando que seria legal ter versões miniaturas nossas e nossos pais falam em ser avós, mas você já considerou isso, de verdade?

 

Diante do olhar tão sincero da esposa, Lorena não teve escolha senão abrir o coração.

 

 — Amor, eu não tava brincando quando te disse que queria tudo com você. Quero o pacote completo. Casa, filhos, cachorro, gato, almoço de família no domingo... — inicia com um sorriso, mas logo adota uma expressão mais séria. — Mas, eu estaria mentindo se dissesse que a ideia não me assusta um pouco. Você sabe como era a minha família. Viu em primeira mão as maldades do meu pai. Eu tenho medo disso, de acabar repassando um pouco daquela criação para as crianças, mesmo sem querer.

 

— Vou te dizer duas coisas. A primeira é que você seria uma mãe incrível, não tenho dúvidas disso. Não existe um pingo da maldade que tinha no seu pai dentro do seu coração. Qualquer criança seria muito sortuda de te chamar de mãe. E a segunda é que a gente não precisa decidir nada agora. Até porque, pra nós, esse processo vai ser mais demorado, independente do caminho que a gente decida seguir. Eu só comentei para abrir espaço para a gente conversar sobre isso. Mas podemos ir devagar. Em passinhos de bebê. — completa, com um sorriso brincalhão.

 

E em passinhos de bebê elas foram

 

Elas decidiram começar com algo um pouco menos intimidador do que um bebê. Afinal, a única coisa, além delas mesmas, que já haviam conseguido manter viva eram plantas. Então, adotaram um gato, para provar a si mesmas de que eram verdadeiramente capazes de manter outro ser vivo, bom... Vivo.

 

Eduarda já tinha um pouco de experiência com gatos, pois tivera um enquanto morava com os pais, então tinha uma boa noção de como cuidar de um sem precisar de uma visita ao veterinário logo na primeira semana. Lorena, por outro lado, não tinha tanta experiência assim, já que sua família não era exatamente do tipo amantes de pets.

 

Ainda assim, ela se sentia estranhamente sortuda, porque parecia que ela e o gato eram um encontro de almas. Gostava de pensar que era porque ele a lembrava de Eduarda, com seus olhinhos brilhantes, a pelagem alaranjada e as perninhas curtas.

 

Desde que chegou, ele parecia bastante satisfeito em seguir Lorena pela casa para praticamente qualquer lugar. Ela ia à cozinha pegar água de madrugada? Ele estava lá. Ia ao banheiro? Lá estava ele de novo. Só não marcava presença nos momentos mais íntimos do casal porque Eduarda fazia questão de fechar a porta do quarto e trancar ele para o lado de fora — a única vez na vida em que ignorou os protestos da esposa.

 

— Amor, desculpa, mas eu não vou transar com você com ele encarando a gente desse jeito.

 

Com o tempo, ele superou um pouco essa dependência extrema, embora Lorena permanecesse sendo a favorita. As duas teorizavam que aquela necessidade exagerada de proximidade podia estar ligada a algum trauma que ele tivesse vivido antes ou durante os dias de abrigo.

 

Reconhecidamente, ele também derreteu o coração de Eduarda, mesmo não sendo a favorita. Como prêmio de consolação, Lorena concedeu a ela a honra de escolher o nome do gato. E assim, o Detetive Tony Baretta –  ou apenas Tony – virou oficialmente parte da família.

 

Depois de manterem Tony vivo com sucesso por um ano inteiro, com apenas uma visita emergencial ao veterinário (por um problema não-letal, Lorena sempre gostava de pontuar), decidiram voltar ao ponto original da conversa sobre o bebê. Um de verdade dessa vez.

 

Após algumas longas e minuciosas conversas, além de infinitas consultas médicas, decidiram seguir em frente com a ideia. A inseminação intrauterina fora o método escolhido, já que Lorena era jovem e saudável, que, estatisticamente, lhe dava boas chances. Do ponto de vista logístico, o trabalho de Eduarda não era um dos mais receptivos a uma gravidez, então Lorena ser a gestante foi uma das decisões mais fáceis no meio desse processo.

 

O que não foi tão fácil assim foi escolher um doador.

 

— Amor, socorro. Isso é tipo um Tinder hétero só que pior, porque a gente ainda tem que analisar o histórico médico do sujeito. — exclamou Eduarda, sentada no tapete da sala, olhando para o notebook apoiado na mesinha de centro, aberto em um dos sites do banco de doadores de esperma.

 

— E é por isso que eu trouxe isso aqui — disse Lorena, voltando da cozinha com duas taças em uma mão e uma garrafa de vinho na outra. — Eu sei que escolher o material genético do nosso futuro filho não é exatamente uma decisão que se deva tomar sob o efeito de álcool, mas acho que uma tacinha vai ajudar a gente agora.

 

Ela finalmente se senta ao lado da esposa e passa um braço ao redor do pescoço dela, fazendo um carinho leve na orelha enquanto continuam a busca pelo candidato perfeito.

 

Elas já estavam nessa busca havia algumas semanas, navegando por diferentes sites de bancos de esperma, nacionais e internacionais, analisando as possíveis opções. Ainda assim, mantinham a esperança de que encontrariam a pessoa certa – mesmo que não soubessem exatamente o que isso significava. Pelo menos até aquela noite.

 

Depois de duas taças e meia de vinho, Eduarda já rolava a tela quase no automático, começando a perder as esperanças de que encontrariam “o escolhido” naquele dia, e que a decisão teria que ser adiada mais uma vez. Foi então que ouviu a esposa murmurar:

 

— Espera. Volta. Um pouco mais. Clica nesse aqui. O que você acha dele?

 

Eduarda analisou rapidamente o perfil.

 

— Aparentemente, o histórico de saúde dele é bom. E ele gosta de arte e de leitura… tipo você.

 

— Tem alguma coisa nele que me passa uma sensação boa. Acho que os olhos dele têm uma gentileza... sei lá. Meio que me lembram você. — ela diz, mergulhando o olhar no castanho que acabara de mencionar.

 

— Então, você acha que a gente encontrou o nosso cara?

 

— Acho que a gente devia tomar a decisão definitiva com um pouquinho menos de vinho no corpo — responde com um sorrisinho — mas com certeza temos um forte candidato.

 

E tinham mesmo.

 

Quando já estavam com a cabeça mais sóbria, revisaram o perfil com atenção e bateram o martelo. O rapaz dos olhos gentis seria o que ajudaria a trazer o bebê delas ao mundo. Com a escolha, vieram ainda mais consultas médicas e, finalmente, o dia da inseminação.

 

Depois que finalizaram o procedimento, perceberam que não havia muito o que fazer além de esperar e torcer pelo melhor resultado.

 

Logo depois que chegaram em casa, se jogaram no sofá e ficaram apenas se olhando, o silêncio da expectativa pairando entre elas. Até que Eduarda se arrastou devagar, até estar na altura da barriga de Lorena.

 

— Duda, o que você tá fazendo? Não tem nada aí ainda.

 

Eduarda apenas a ignorou.

 

— Oi, futuro bebê. Eu prometo que eu e a sua futura mamãe somos pessoas muito legais, e que a gente quer muito que você dê certo. Então, se puder dar o seu máximo aí dentro, a gente promete cuidar muito bem de você quando você nascer.

 

Lorena riu da bobeira da esposa, e logo a puxou para um beijo.

 

— Eu te amo tanto, tanto, tanto, Eduarda Fragoso. — ela disse entre selinhos.

 

— Eu te amo mais.

 

Infelizmente, nem tudo saía como o planejado.

 

— Meu amor, tá tudo bem. A gente sabia que poderia ser assim, desde o começo. Você ouviu o que a médica falou, é normal nem sempre funcionar nas primeiras vezes. — Eduarda disse enquanto estava abraçada com Lorena, depois da segunda sessão falha do IIU.

 

Mas Lorena sabia que não era tão simples assim. Ela via a esperança nos olhos da esposa se despedaçar toda vez que o teste dava negativo. Às vezes, ela mesma caia numa espiral de pensamentos negativos, e achava que talvez aquilo era um sinal do universo que ela não levaria jeito para coisa. As duas queriam aquilo mais do que tudo, e doía demais sentir que estavam perdendo um pedacinho do sonho a cada tentativa frustrada.

 

Então, na terceira tentativa para engravidar, Lorena decidiu fazer o teste sozinha.

 

Tinha sido uma noite inquieta, em que o sono vinha em pedaços e a mente não realmente descansava, cheia de pensamentos sobre a gravidez, ou melhor dizendo, sobre a ausência dela.

 

Então, ainda cedo, quase de madrugada, enquanto Eduarda ainda dormia, ela saiu da cama e foi na ponta do pé até o banheiro social do apartamento e fez um dos testes que guardavam em casa.

 

Se não tivesse dado certo, preferia saber primeiro, sozinha. Assim poderia preparar o terreno, e contar para Eduarda com mais cuidado, de um jeito mais suave, para que ela não sofresse tanto.

 

Mas, para sua surpresa, depois da espera agonizante entre o xixi e o resultado do teste, lá estavam as tão esperadas duas linhas.

 

Era como se o corpo de Lorena tivesse entrado em estado de choque. Por alguns segundos, ela não conseguiu fazer nada além de ficar encarando o teste, enquanto as lágrimas começavam a se acumular nos olhos sem que percebesse. Quando finalmente voltou a si, o único pensamento que ocupava sua mente era Eduarda. Ela precisava falar com a Eduarda.

 

— Duda! Duda, vem cá agora!

 

Ao ouvir o tom de urgência da esposa, Eduarda ficou de pé em tempo recorde. Já estava sentindo a consciência voltando aos poucos desde que sentira a ausência da esposa ao seu lado, porém o chamado a fez despertar de vez, correndo imediatamente em direção ao banheiro.

 

— Lorena, pelo amor de Deus. Tá tudo bem? Porque você tá no... — o resto da frase morreu em sua garganta quando viu a cena.

 

Lorena estava com as bochechas marcadas por trilhas molhadas de lágrimas e segurava, com as mãos levemente trêmulas, o teste que exibia um resultado claro.

 

— Eu não acredito! Deu certo? — ela praticamente gritou, os olhos já enchendo de lágrimas.

 

Lorena só conseguiu assentir com a cabeça. Com a confirmação da esposa, Eduarda se lança para abraçá-la, enroscando seus braços ao redor da cintura de Lorena, apertando-a com tanta força que chegou a erguê-la levemente do chão.

 

Depois desse dia, a vida delas virou um caótico redemoinho de consultas médicas, um acervo de roupas e itens em miniatura e, pelo menos nos primeiros três meses de gravidez, uma onda constante de vômitos e fadiga.

 

Nenhum dos amigos ou familiares diria isso em voz alta, mas todos sentiam que Eduarda merecia ser canonizada depois do nascimento daquela criança. Porque uma Lorena Ferette grávida não era exatamente fácil de lidar, para dizer o mínimo.

 

A situação mais absurda, que Eduarda faria questão de recontar em todos os encontros de família depois que a gravidez acabasse, começou em uma noite completamente comum.

 

Ela tinha acabado de chegar do plantão e andava pela casa, meio que no modo automático, guardando roupas e dando comida para os gatos, enquanto Lorena estava sentada à mesa de jantar, com o notebook aberto, revisando o último texto que tinha escrito antes de enviá-lo para sua editora.

 

Com a cabeça ainda presa nos problemas da delegacia e distraída com as tarefas domésticas, uma simples frase de Lorena passou completamente batida. Algo que, mais tarde, Eduarda consideraria um dos seus maiores erros.

 

— Tô com uma vontade absurda de comer aquela tapioca com queijo vegano no café da manhã, amor.

 

Na hora, Eduarda só assentiu, sem pensar muito. E, claro, esqueceu completamente no dia seguinte.

 

Quando Lorena acordou e se deparou com o café da manhã de sempre – torrada, mamão e uvas verdes – sua expressão fechou na mesma hora, o que Eduarda percebeu.

 

— Tá tudo bem, minha linda?

 

— Uhum.

 

A conversa acabou morrendo ali. Eduarda até notou que tinha alguma coisa estranha, mas preferiu não insistir, pois achou que era só um dos habituais maus humores matinais causados pelo enjoo, que normalmente desapareciam até a hora do almoço.

 

Mas, ao longo do dia, quando as várias mensagens que mandou ficaram sem resposta, a preocupação começou a crescer de verdade.

 

Eduarda [09:01]:

oi, meu amor! como está vc e nossa framboesinha?

 

Ainda não haviam descoberto o sexo do bebê, então Eduarda adotou o hábito de chamá-lo pelas frutas equivalentes ao tamanho da semana de gestação, conforme o aplicativo que acompanhava religiosamente.

 

Eduarda [10:28]:

amor, tudo certo por aí?

 

Eduarda [11:12]:

lo, aconteceu alguma coisa?

me avisa se tá tudo bem pelo menos

 

Eduarda [11:36]:

ligação de voz perdida

 

Eduarda [11:37]:

ligação de voz perdida

 

Eduarda [11:39]:

lorena, me atende, to ficando preocupada

 

Depois de quatro horas sem qualquer sinal de vida, o coração de Eduarda já batia descompassado, com todas as piores possibilidades passando pela cabeça.

 

— Paulinho, tô meio preocupada de algo ter acontecido com a Lorena. Ela não me responde desde cedo. Vou dar uma passada em casa na hora do almoço, então pode ser que eu dê uma atrasada, beleza? — ela disparou, e mal esperou a confirmação do parceiro antes de sair disparada em direção ao seu carro.

 

Quando chegou em casa, encontrou Lorena sentada no sofá, com a expressão de total serenidade. A primeira sensação que passou por ela foi o alívio, mas, logo em seguida, foi tomada por uma irritação palpitando no peito.

 

— Lorena, você não olhou seu celular? Eu te mandei mil mensagens, te liguei várias vezes. Tava morrendo de preocupação!

 

— Vi sim. — ela respondeu com tranquilidade, sem nem desviar o olhar para Eduarda.

 

— E por que não me respondeu?

 

— Porque eu tô brava com você. — disse, com um tom quase manhoso.

 

Eduarda ficou completamente sem reação por um segundo.

 

— Mas o que aconteceu?

 

— Eu falei ontem que queria comer tapioca no café da manhã, e você nem ligou pra mim.

 

Os olhos de Lorena encheram de lágrimas quase instantaneamente. E, ao ver aquilo, o desespero de Eduarda voltou, só que agora por um motivo completamente diferente.

 

— Ô, meu amor. — ela se ajoelhou na frente do sofá, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Me desculpa. Eu tô com tanta coisa na cabeça esses dias, mas o que mais importa pra mim é você e o nosso bebê. Eu faço quantas tapiocas você quiser, tá? Prometo que vou prestar mais atenção. — falou em voz doce, mas logo adotou um tom um pouco mais firme. — Mas você não pode sumir assim, Lorena! Eu passei a manhã inteira desesperada, achando que tinha acontecido alguma coisa com vocês.

 

Com isso, o choro de Lorena só aumentou, os soluços ficando mais fortes, exatamente o oposto do que Eduarda pretendia.

 

— Desculpa, Duda. — Lorena disse, entre lágrimas. — Eu não queria te preocupar. Você é tão perfeita, e eu te amo tanto.

 

Eduarda soltou uma risadinha baixa, encostando a testa na dela.

 

— Eu te amo também, minha chorona.

 

Em defesa de Lorena, ela não foi assim o tempo todo. Eram momentos bem pontuais, em que o auge da dor, do incômodo e da bagunça hormonal começava a pesar um pouco demais, o que acabava vindo em forma de explosões de emoção. E, na maioria das vezes, Eduarda era o alvo mais próximo.

 

Além da esposa, que estava tão presente nessa gravidez quanto alguém pode estar sem ser a pessoa grávida, Lorena também vinha recebendo apoio constante da família e dos amigos durante todo o processo.

 

Uma das noites mais emocionantes foi quando elas organizaram um jantar simples em casa, com a intenção de fazer uma revelação de gênero mais intimista.

 

Lorena achava todo o conceito um tanto cafona, mas Eduarda estava tão animada com a possibilidade de viver cada pequeno clichê da gravidez que ela não teve coragem de negar o pedido, ainda mais vindo acompanhado de um biquinho e daqueles olhos brilhando. Sua única exigência foi que fosse algo pequeno, apenas entre as pessoas mais importantes, o que Eduarda concordou prontamente.

 

E foi assim que se encontravam os Fragoso, Zenilda, Maggye e Paulinho divididos na sala de estar da casa de Lorena e Eduarda, todos segurando cupcakes com um recheio que revelaria a grande surpresa da noite. Verde para menina, laranja para menino, já que Lorena não iria ceder à heteronormatividade do azul ou rosa.

 

— Apostas finais, gente? — Eduarda perguntou.

 

— Eu acho que é um menininho. — disse Maggye, com Zenilda concordando ao lado.

 

— Eu vou ficar feliz com o que vier, só quero conhecer meu netinho ou netinha logo. — murmurou Henrique, com a voz embargada, já emocionado desde o começo da noite.

 

Enquanto todos discutiam seus palpites finais, Lorena entrelaçou os dedos com os de Eduarda e a olhou com um sorriso nervoso.

 

— Hora da verdade, será que meu primeiro instinto de mãe tava certo? — perguntou em voz baixa, acariciando a mão da ruiva.

 

Desde o início da gravidez, Lorena tinha uma sensação de que o bebê que esperava era uma menina. Não era exatamente um desejo, ela sabia que amaria tanto uma menina quanto um menino, mas não podia negar que, quando conversava com a barriga nos momentos em que estava sozinha, sempre se imaginava falando com sua menina.

 

— Vamos ver, meu amor. — Eduarda interrompeu o falatório com uma palma. — Bora começar, galera!

 

Lorena começou a contagem regressiva.

 

— 3... 2... 1...

 

Quando todos deram a primeira mordida, Lorena levou um instante para processar o que estava vendo. Mas, quando finalmente entendeu, estava ali: um recheio verde suave, olhando de volta para ela.

 

Ela foi tomada pela emoção, com os olhos se enchendo de lágrimas. Riu, completamente extasiada com a notícia, e ainda mais quando virou para o lado para comemorar com Eduarda e encontrou um verdadeiro desastre. Ela tinha o rosto vermelho, coberto de lágrimas, e a boca toda suja de recheio de cupcake.

 

Lorena imaginava que não devia estar muito melhor, mas não poderia ligar menos naquele momento. Avançou e deu um selinho caloroso e salgado de lágrimas na esposa.

 

— Amor, nossa menininha! — sussurrou em meio as lágrimas, com a boca colada com a de Eduarda.

 

— Eu nem acredito. — Eduarda respondeu, também em voz baixa. — Eu te amo tanto, Lorena! Amo vocês duas.

 

Elas foram trazidas de volta da bolha em que estavam pela voz de Paulinho, ao lado.

 

— Calma aí, verde é o que mesmo?

 

O resto da noite foi passado em meio a risadas e um clima leve, tranquilo e deliciosamente acolhedor. Quando todos finalmente se acalmaram da euforia da revelação, Lorena trocou um olhar cúmplice com Eduarda. Era hora de mais uma surpresa.

 

— Gente... — Eduarda começou, se levantando. — A gente chamou vocês aqui principalmente pra descobrir o sexo da nossa bebezinha, sim, mas eu e a Lorena temos mais uma coisa pra contar.

 

— Na verdade, é mais um pedido, né, amor? — Lorena disse, olhando primeiro para Eduarda e depois para os convidados. — Maggye e Paulinho, vocês que são tão queridos para nós e acompanharam nossa jornada desde o começo, até o casamento, até aqui... Queríamos saber se vocês querem estar ao nosso lado nesse nosso passo como padrinhos da nossa menina.

 

Maggye pareceu não pensar duas vezes, levantou em um pulo e praticamente se jogou nas duas, puxando-as para um abraço coletivo, soltando vários “sim!” empolgados. Já Paulinho ficou parado por um instante, quase travado, mas a emoção estampada no rosto dizia tudo.

 

— Poxa, gente. Sei nem o que dizer.

 

— Diz sim, né, Paulinho! — provocou Violeta, arrancando uma risada de todos presentes.

 

— Sim, claro que eu aceito!

 

E mesmo antes da nova integrante da família nascer, Paulinho e Maggye já provavam a cada dia que tinham sido a escolha certa para o posto de padrinhos.

 

Paulinho, sempre que podia, ajudava Eduarda com os preparativos e as compras para a chegada da bebê, garantindo que tudo estivesse nos conformes. Montaram móveis, instalaram o assento no carro da ruiva e ele ainda apareceu com uma roupinha personalizada que dizia “Detetive em Treinamento”.

 

Maggye, por sua vez, era um grande apoio emocional, principalmente para Lorena, e esteve ao lado dela em todos os momentos em que a morena precisou de acolhimento. Além disso, fez questão de ajudar a montar o mini guarda-roupa mais fashion da região, com a ajuda de Violeta, claro, e também de Lorena, que não deixou faltar macacõezinhos listrados.

 

Conforme os meses foram passando e o grande dia estava cada vez mais perto, a ansiedade foi tomando conta de Lorena e Eduarda em todos os sentidos. Elas mal podiam esperar para finalmente ver o rostinho da filha, sentir seu cheirinho e poder abraçá-la. Mas, ao mesmo tempo, essa expectativa também trazia um certo aperto desconfortável no peito, com as inseguranças e preocupações rondando a cabeça de ambas constantemente.

 

No entanto, toda essa preocupação se dissipou no amor mais puro e na mais absoluta euforia quando, com 38 semanas e 3 dias, Cecília Esteves Fragoso chegou ao mundo.

 

Ela definitivamente fez uma estreia memorável, com muita emoção e choros de arrepiar a espinha, o que, cá entre nós, deveria ter servido como um alerta para Eduarda e Lorena sobre o caos que estava prestes a entrar em suas vidas na forma de uma garotinha.

 

Mas, na noite do parto no hospital, Eduarda estava ocupada demais chorando sem controle, completamente tomada pela emoção, enquanto Lorena ainda tentava processar, atônita, o pensamento de que “Meu Deus… eu não acredito que esse ser humano acabou de sair de mim.” para ter espaço mental para pensar em qualquer outra coisa coerente.

 

Ao longo dos anos, a maternidade se mostrou o maior desafio da vida de Lorena até então, de muitas formas diferentes. Desafiou sua mente, definitivamente desafiou seu sono, mas, acima de tudo, trouxe a verdadeira prova de fogo, que foi sustentar seu coração pesado com fortes ondas de emoções, do presente e do passado.

 

Cecília veio com os cabelos acobreados de Eduarda; no entanto, seus traços eram todos de Lorena, um sorriso com covinhas profundas e os olhos verdes mais doces, que pareciam um espelho toda vez que ela os encarava. Sua personalidade cativava todos ao seu redor, mas, especialmente, suas mães, que ela tinha na palma da mão.

 

A pequena era uma verdadeira força da natureza, sem o menor receio de expressar suas próprias opiniões, que, a propósito, não eram nada sutis. Quem diria que uma criança tão pequena poderia ser tão julgadora? Era o que Lorena e Eduarda se perguntavam todos os dias. E tudo o que lhes restava era oferecer todo o apoio possível para que ela pudesse florescer da melhor forma.

 

Vê-la crescer dessa forma e ajudar a moldar sua mente era um privilégio, mas, ao mesmo tempo, despertava um turbilhão de sentimentos dentro de Lorena. Era impossível viver tudo aquilo sem pensar em tudo o que havia enfrentado em sua própria infância, e até mesmo na vida adulta, com sua família. Coisas que só agora, depois de tantos anos e de muitas sessões de terapia, ela conseguia finalmente reconhecer como abuso e abandono.

 

Ao olhar para aqueles olhinhos tão parecidos com os seus, a revolta se tornava ainda mais intensa, porque ela não conseguia sequer conceber como alguém poderia ser pai e, ainda assim, escolher fazer com o próprio filho o que um dia fizeram com ela.

 

Mas, o mais importante, ela havia aprendido, era aproveitar essa oportunidade para fazer as coisas da maneira certa, e ela acreditava que estava conseguindo.

 

Seu trabalho como escritora permitia que fosse uma mãe presente, já que grande parte das suas atividades podia ser feita de casa. Com o tempo, também decidiu assumir algumas oportunidades como professora, algo que sua formação em Letras permitia, e que passou a lhe trazer muita realização. Ensinar e poder ajudar outras pessoas a crescerem em uma área pela qual sempre foi tão entusiasmada sobre se tornou uma nova paixão.

 

Eduarda, por outro lado, agora era delegada. Seu trabalho às vezes exigia um pouco mais do seu tempo, mas ela era incrível em equilibrar tudo, sempre fazendo questão de estar presente para a esposa e os filhos.

 

E sim, filhos, no plural.

 

Alguns anos depois de Cecília, decidiram que estavam prontas para ter mais um. Logo sentiram falta das bochechas gordinhas de bebê para apertar e acharam que seria proveitoso para a filha ter companhia enquanto crescia. Além disso, a maternidade havia se mostrado uma experiência profundamente gratificante para as duas, apesar dos desafios.

 

E assim chegou o pequeno Augusto, completando a família Fragoso.

 

Depois de já terem passado por isso uma vez, acharam que estavam preparadas para tudo na segunda, mas Guto rapidamente provou que o ditado “cada filho é diferente” não poderia ser mais verdadeiro.

 

Cecília e Guto eram como água e óleo, onde ela era barulhenta, ele era quieto; onde ela falava tudo, ele se guardava. Enquanto Cecília sentia o mundo de forma intensa e fazia questão de expressar cada emoção, Augusto observava em silêncio, processando tudo no seu próprio tempo.

 

Ainda assim, havia um equilíbrio bonito entre os dois. Mesmo tão diferentes, era como se eles se entendessem de um jeito que ninguém mais conseguia. Eles se completavam, e completavam suas mães também.

 

Era um dia de semana como outro qualquer. Lorena estava tranquila na sala, fazendo companhia para Tony, agora um gato velho e manhoso, enquanto esperava Eduarda voltar do trabalho, quando ouviu passinhos apressados se aproximando.

 

— Mamãe, eu e o Guto precisamos te contar uma coisinha. — Cecília disse, um pouco séria.

 

Lorena ergueu o olhar, atenta nas expressões dos dois filhos, com a mente já trabalhando nas possibilidades do que poderia ser a tal “coisinha”.

 

— Pode contar. Você sabe que pode falar tudo pra mamãe.

 

— A gente ficou com vontade de tomar suco e foi na cozinha pegar, mas o Guto acabou esbarrando no jarro e ele caiu.

 

— Vocês se machucaram? Tá tudo bem? — Lorena disse, seu olhar já escaneando o corpo dos pequenos a busca de algum machucado.

 

— Tá sim, mamãe. — Augusto respondeu rápido. — Mas fez uma sujeirona lá na cozinha.

 

Lorena soltou um suspiro leve com a resposta, mais aliviada do que preocupada com a situação.

 

— Bom, vocês sabem o que tem que fazer, né?

 

— Se sujou, tem que limpar. — Cecília respondeu.

 

— Isso mesmo. — ela confirmou, sorrindo com a conclusão rápida da filha.

 

— Você pode dar uma ajudinha pra gente? — pediu o filho.

 

Lorena assentiu, já se levantando e caminhando com eles em direção a cozinha.

 

— Claro que ajudo. Vamos lá.

 

Augusto definitivamente não estava exagerando quando disse que havia feito uma “sujeirona” na cozinha.

 

Com cuidado, Lorena recolheu todos os cacos de vidro e os colocou em uma caixinha de papelão devidamente marcada. Depois, contou com a ajuda dos dois pequenos para passar o pano e secar o chão ainda melado. Em seguida, mandou os dois para o banheiro, para que também se limpassem, antes de voltarem para esperar Eduarda chegar para jantarem juntos.

 

Se encontraram novamente na sala, agora todos limpos, e os dois logo se juntaram contra ela, implorando para assistir a um filme enquanto esperavam pela outra mãe, pedido que Lorena acabou cedendo, mas só por um pouquinho de tempo.

 

Augusto, como sempre, insistiu para que assistissem Os Incríveis 3 pela milésima vez. Eles já tinham visto aquele filme tantas vezes que Lorena era praticamente capaz de recitá-lo de memória, mas, ainda assim, sempre que tinham a chance de escolher, era nele que acabavam.

 

Foi assim que Eduarda os encontrou ao chegar em casa, os três encolhidos no sofá, cobertos por uma manta, com as crianças praticamente tentando se fundir a Lorena. Assim que entrou, Augusto foi o primeiro a notar sua presença e praticamente saltou do sofá para correr até ela.

 

Augusto e Eduarda tinham uma ligação especial. A ruiva sempre teve um jeito sensível de compreender a forma como o filho enxergava o mundo e, com cuidado, conseguia tirá-lo da própria bolha aos poucos, sempre respeitando seu tempo e sua personalidade. Ele era o “carinha” dela. E, por outro lado, Augusto a admirava profundamente, especialmente por ela ser policial, o que, aos olhos dele, a tornava a pessoa mais incrível do mundo.

 

— Oi, pessoal. O que vocês tavam fazendo? — disse Eduarda, enquanto cumprimentava Augusto com um abraço.

 

— Assistindo “Os Incríveis 3”! — ele respondeu.

 

— De novo? — ela questionou, lançando um olhar que era uma mistura de incrédulo e empático na direção de Lorena.

 

A única coisa que ela pôde fazer foi assentir, meio rendida, e finalmente chamá-los para o jantar.

 

O tempo que Lorena e as crianças levaram para arrumar a mesa foi suficiente para que Eduarda tomasse um banho rápido e trocasse de roupa antes de voltar para a cozinha. Como sempre, o jantar foi cheio de conversa animada, cada um compartilhando um pouco do seu dia.

 

Eduarda costumava dar uma leve exagerada nas histórias da delegacia, deixando tudo mais divertido e encantador para as crianças. Lorena falava sobre os momentos mais marcantes das aulas, enquanto os pequenos – que, sem dúvida, eram os que mais falavam – contavam sobre a escola, suas atividades favoritas e os amiguinhos que fizeram.

 

Depois do jantar, veio a preparação para dormir, que ficava por conta de Eduarda. Enquanto isso, Lorena organizava tudo para o momento só das duas. Pegou uma garrafa de vinho e duas taças, diminuiu a luz da sala e criou um ambiente tranquilo, esperando a esposa voltar do quarto das crianças, que levou alguns minutos.

 

— Finalmente! — a ruiva disse, sentando-se do lado de Lorena no sofá, que prontamente estendeu a taça de vinho para ela.

 

Ela deu apenas um gole, antes de colocar a taça de volta na mesa de centro e se virar completamente para Lorena, puxando-a para um beijo.

 

Não teve pressa. Deixou as mãos deslizarem pelo corpo dela com calma, explorando cada toque, cada reação, como se ainda estivesse descobrindo tudo pela primeira vez. O beijo foi lento e cuidadoso, estava saboreando cada segundo.

 

Quando se tornaram mães, um dos maiores medos das duas era que o relacionamento mudasse, que perdessem a intimidade que sempre tiveram. E, de fato, mudou. Não tinha como não mudar, com novas vidas ocupando cada espaço do cotidiano.

 

Mas, de alguma forma, os desafios da maternidade só fortaleceram o que tinham. Todos os dias, elas escolhiam uma à outra de novo, e se esforçavam para continuar presentes, para cuidar não só das crianças, mas também do amor que construíram.

 

Quando finalmente se afastaram do beijo, ainda mantiveram os rostos próximos, falando quase contra os lábios uma da outra.

 

— Hmm… oi. — Lorena disse, olhando fundo nos olhos de Eduarda.

 

— Oi. — Eduarda respondeu, com um sorriso suave.

 

— Hoje eles demoraram um pouco, né?

 

— A Cecília foi rapidinho, mas o Guto tava mais agitado. Ficou empolgado com uma tarefa da escola pra amanhã, não parava de falar sobre.

 

— E o que era? Ele não me contou nada.

 

—É uma atividade sobre “Quem é seu herói”, mas ele me fez jurar segredo de estado.

 

Lorena arqueou levemente a sobrancelha, já com um sorriso se formando.

 

— Ah, deixa eu adivinhar. Ele vai falar da mãe policial super maneira?

 

Ela disse, mas claramente em tom de brincadeira. Lorena achava a ligação entre Eduarda e Augusto uma das coisas mais bonitas que já tinha visto, amava os dois de um jeito que chegava a doer no peito. E ela mesma também tinha um vínculo especial com Cecília, então não existia cenário em que ficaria incomodada por Eduarda ser a maior heroína do filho.

 

— Olha, Lorena Fragoso, não posso quebrar uma promessa pro nosso menino. Mas só te digo que eu não tive nada a ver com o assunto que ele escolheu, sou cem por cento inocente. — Eduarda levantou as mãos em rendição, com uma expressão de falsa inocência no rosto.

 

— Uhum, sei. — Lorena murmurou, já se inclinando para um beijo.

 

Depois disso, o assunto morreu ali mesmo, pelo menos por enquanto. Havia coisas mais urgentes ocupando a atenção das duas naquele momento.

 

No dia seguinte, uma quinta-feira, Eduarda conseguiu sair mais cedo da delegacia, como de costume, e foi buscar as crianças na escola. Lorena estava em casa, sentada à mesa, corrigindo alguns trabalhos dos alunos, quando ouviu a porta se abrir e, junto com ela, a casa se encher de barulho, risadas e vida.

 

Cecília foi a primeira a chegar até ela, largando a mochila pelo caminho e já começando a falar sem parar sobre o dia. Guto veio logo depois, e em poucos segundos as duas vozinhas já se misturavam, disputando espaço na atenção da mãe.

 

— Mamãe, mamãe, mamãe.

 

— Oi, meu amor. Espera só um pouquinho a sua irmã terminar, tá? Não consigo ouvir os dois ao mesmo tempo. Depois eu escuto você o tempo que você quiser, combinado? — disse, fazendo um carinho suave no rostinho dele, sem deixar de prestar atenção em Cecília.

 

Quando a mais velha finalmente terminou seu pequeno monólogo e saiu correndo para o quarto para deixar sua mochila no lugar correto, Lorena voltou toda a atenção para o caçula.

 

— Oi, Augusto! — disse, em tom brincalhão, carregado de carinho.

 

Ele fez um bico na mesma hora. Igualzinho ao da Eduarda, Lorena notou.

 

— Não gosto que você me chame assim, mamãe. — disse, com a voz pequena. — Fico triste.

 

Lorena sentiu o coração derreter em segundos.

 

— Oh, meu amor... — respondeu, já sorrindo. — Mas é seu nome. Ele é tão lindo.

 

Ele balançou a cabeça negativamente, ainda emburrado.

 

— Mas pra você é Guto. Se não parece que eu tô levando bronca.

 

Lorena não resistiu. Pegou o filho no colo com facilidade e começou a encher o rosto dele de beijinhos demorados.

 

— Desculpa, meu príncipe, não falo mais, tá? Você é meu amor, meu menino, meu Guto. Assim tá bom?

 

Ele soltou uma gargalhada gostosa, assentindo, e se ajeitou no colo dela com familiaridade. Os dois ficaram se olhando de pertinho, sorrisos gêmeos com covinhas se encontrando, enquanto Lorena começava um carinho lento nos cachinhos dele.

 

— E o que você queria? — ela perguntou, ainda alisando o cabelo dele.

 

Foi então que, de canto de olho, ela percebeu Eduarda encostada na parede da sala, observando a cena em silêncio, com um olhar cheio de expectativa. o que só a deixou ainda mais curiosa.

 

— Minha professora passou uma atividade hoje, e eu queria te mostrar o que eu fiz.

 

Só então Lorena percebeu o papelzinho nas mãos dele, que ele logo estendeu, orgulhoso.

 

Ao abrir, Lorena deu de cara com a letrinha de forma tortinha do filho, que ainda colocava traços demais nos “E’s”. Mas, conforme começou a ler, os olhos se encheram de lágrimas.

 

No topo, havia um desenho simples, uma mulher de cabelo escuro em forma de boneco de palito, com dois pontinhos verdes como olhos e uma blusa listrada. E depois, um pequeno texto.

 

“Minha heroína é minha mamãe Lorena

 

Eu amo quando ela brinca de Lego comigo e quando a gente fica juntinho abraçados e como ela me ama mesmo que ela brigue comigo

 

Ela é a melhor mamãe”

 

Ela soltou uma respiração leve e um pouco trêmula ao ler as palavras, e Eduarda, que se aproximou sem que ela nem percebesse, fez questão de enxugar a pequena lágrima que escapou.

 

Seu coração parecia vacilar com a intensidade da emoção, mas, ao mesmo tempo, nunca tinha estado tão cheio.

 

Agora, quando pensava em família, era exatamente essa sensação que vinha à mente, o calor de mãos pequenas se agarrando a ela, o roçar suave do rabo do gato em suas pernas, e os lábios quentes da esposa tocando sua pele.

 

E uma sensação de paz absoluta preenchendo seu peito.

Notes:

off: acho ferette muito mais cunt que esteves mas quis me manter fiel aos desejos da menina lorena da novela