Chapter Text
O que é estar em êxtase?
Essa pergunta traz um quê de camadas, pensamentos, respostas tortas e outras certeiras, as vezes um sorriso ladino indicando alguma conotação sexual. Há muitas formas de seu coração se acelerar, você respirar fundo acompanhando uma onda de orgulho, felicidade, amor, olhos marejados que a todo momento tentam ser disfarçados. Mas estão ali. O orgulho está ali, o amor está ali, a parceria. As noites sentadas no sofá de casa depois de um dia cheio no meio da semana ou de muitos mergulhos e castelos de areia na praia lotada; um apartamento grande erguido em 1970 e reformado no coração do Leblon, tão perto do mar que o cheiro de sal passava como brisa e se fazia presente naquele mundo criado a duas. Era tarde da noite, mas com uma taça meio cheia de um vinho argentino nas mãos e usando uma blusa grande, uma calcinha pequena de algodão, pele corada do sol, cabelos bagunçados e pés descalços, ela escutou por semanas sua mulher recitar e ensaiar os versos, ora escritos em uma folha, ora desmarcados em um iPad que era usado para trabalho.
Ouvia com orgulho, não tinha medo de apontar os erros, a entonação, o espaço no palco imaginário. Não se considerava a maior professora de teatro, mas tinha bagagem e sabia o quão especial aquele projeto era para sua esposa. Esposa. As vezes, no meio da leitura, os olhos se perdiam no anel de casamento que era usado junto ao de noivado, os dedos apertando o papel grifado, a blusa larga onde ela podia ver sorrateiramente os seios que tanto amava, os mamilos marcando o tecido fino e fresco, o cabelo cacheado e natural meio preso, o short de seda, que era dela, mas fazia muito tempo que não tinha um guarda roupa próprio, ainda que com estilos diferentes. Ela se distraía ao mesmo tempo em que se firmava, tudo era sobre aquela mulher que estava a sua frente.
A casa necessariamente silenciosa, a voz não era muito alta, a luz estava a meia baixa misturando-se com a lua, um som baixo, quase como um sussurro vindo de uma vitrola que compraram na feira da Glória há dois anos atrás, o vinho às vezes esquentava as bochechas e quando o último verso era dito, sua mulher sentava em seu colo, no espaço deixado entre suas pernas e recebia um cheiro no pescoço antes de perguntar: você gostou? E ela sempre havia amado. Tudo sobre ela era amor.
A Cidade das Artes, uma das maiores casas de teatro do Rio de Janeiro, estava cheia. Pessoas se cumprimentavam, amigos de profissão passavam de um lado para o outro, alguns se deliciavam com uma taça de vinho branco pela metade, próximo à lanchonete. O local cheirava a pipoca e a uma mistura de perfume, e as vozes eram altas. Funcionários vestidos de preto e bem arrumados carregavam pequenos tablets nas mãos para ajudar com os assentos; sorriam, simpáticos, mesmo rodeados por tanta gente.
Gabriela sorria para conhecidos que a viam por ali. Por ser a última apresentação da temporada, a casa estava cheia, e muitas faces conhecidos desviavam do seu rosto para suas duas mãos ocupadas. Ela usava um vestido de seda preto, saltos da mesma cor e uma bolsa média que carregava dois lanches sem açúcar. Usava também o perfume caro e amadeirado de sua esposa; queria que ela visse que era sua, que tinha seu cheiro, como um animal faminto marcando território.
Os anéis e braceletes estavam encaixados. Havia vários deles próximos às unhas pintadas de um tom quase preto e, mais uma vez, sob a luz forte do local, a aliança cravejada que ganhou em algum lugar silencioso — que cheirava a terra, mar e sal do Nordeste — quando finalmente se entendeu dela. E ela, sua.
Não teve flores, não teve mídia, não teve ninguém ajoelhado, apesar de terem "rezado" a noite inteira, embebedando-se uma da outra incansavelmente em uma cama de dossel em frente à brisa fresca da praia. Apenas se olharam naquela manhã de olhos pequenos, bocas inchadas e pescoço vermelho, e a mulher de olhos verdes claros como o dia lá fora disse que tinha algo embaixo do seu travesseiro. Três anos depois de serem um casal fictício, lhe pediu em casamento com voz rouca e sorriso bobo, sabendo que receberia um sim. Afinal, a cada encontro, ambas nunca negavam nada uma à outra. O maior pecado que poderiam ter cometido não seria dividir a vida e lhe causar dúvidas.
Estava feliz, nervosa e animada na mesma proporção. Ver sua mulher no palco sempre seria um deleite. Ela amava ser telespectadora, aplaudir, se emocionar, chorar e depois agraciar, dar os parabéns, olhar nos fundos dos olhos verdes de Alanis e dizer o quão orgulhosa estava dela. Sentir seu cheiro em um abraço e passar os dedos pelas covinhas envergonhadas que se formavam quando ela repetia: "você não vale".
De quem valeria, então?
Havia acompanhado cada passo e, agora, era o momento de finalmente encerrar aquele ciclo. A peça teria mais uma temporada em São Paulo dali a algumas semanas, e estudavam a possibilidade de ir para outros locais do Brasil, mas, por escolha, sua esposa ainda não havia decidido se acompanharia a companhia.
Mais do que orgulho da sua mulher, ela sentia prestígio da atriz que Alanis se mostrava no teatro. A peça, chamada Retalhos 70, uma alusão ao auge do regime militar, transmitia mensagens fortes, de fala dura e necessária. Muitas das vezes, após o espetáculo , que ia de quinta a domingo, sempre com ingressos esgotados e casa lotada, sua mulher conversava, ouvia e acolhia pessoas de todas as idades que a esperavam para lhe dar um abraço, contar suas experiências de vida, concordar ou discordar de algo. Já havia acontecido até mesmo de jovens mencionarem o espetáculo em suas redações argumentativas dentro do tema. Os olhos fixados, a cabeça balançando devagar em concordância ou a fala firme de quem pouco entendeu o que foi dito, tudo encantava Gabriela.
⁃ Eu quero fazer xixi. - disse a menininha dentre a multidão enquanto apertava as perninhas uma contra a outra e segurava a mão da mãe, em seu bracinho uma pulseira de fio de ouro, presente das avós assim que nasceu com a inicial do seu nome e um bracelete de miçangas que havia feito na escola com amigos na última quarta feira - Muito xixi.
⁃ A mamãe disse pra você não beber a água toda da garrafinha no carro, não foi? - disse de maneira branda, ouvindo a risadinha que estava do seu outro lado - Agora precisamos achar um banheiro. As duas vão fazer xixi antes de entrar.
Outro colega de profissão passou por ela com a quarta namorada do ano. Essa era bonita, pelo menos, enquanto ela buscava com os olhos por seus familiares. Seus pais haviam chegado naquela manhã para apreciar a nora, sendo ainda a segunda vez que viam a peça. Sua sogra e cunhados vieram na quinta-feira, sendo uma rede de apoio imensa para as duas menininhas que cheiravam a "Mamãe e Bebê" e amavam picolé de graviola. Sim, de graviola, e queijo coalho da praia com mel. E Alanis sempre jurava que elas podiam tomar metade do seu mate com limão em dois minutos.
Inez e Carolina tinham quase cinco anos. Eram chamadas de "Carol" e "Inez" na escola; a Inez, com um sotaque carioca e um "x" no final. "Nina" e "Lola", ninguém sabia de onde haviam saído esses apelidos, até que, aos dezoito meses, perceberam que elas mesmas se deram esses nomes, pois ainda não sabiam falar direito. "Bubba" e "Bêba" eram as mães, que as faziam gargalhar enquanto os dedos lhes faziam cócegas nas barriguinhas e nos pezinhos gordinhos. Grigio, a madrinha, gostava de chamá-las de "Ruth" e "Raquel".
Falando nela, havia atravessado um shopping inteiro de Botafogo naquela manhã apenas para trocar as sandálias de uma das afilhadas, que haviam ficado pequenas. Aquelas meninas eram amadas de uma maneira que nenhuma poetisa seria capaz de explicar a extensão desse sentimento; eram protegidas, cuidadas, veneradas e bem educadas na mesma proporção.
Nasceram em um começo de noite quente de dezembro, dia vinte e um, no Sul do Brasil, após um trabalho de parto natural demorado, porém esperado, e viveram por um mês com a ajuda dos avós aonde a mamãe havia passado boa parte da própria história. Naqueles dias que se aproximavam da data, estavam radiantes por fazerem cinco anos!
Imagine só: uma mão cheinha de dedos. Elas não sabiam quando, mas teriam uma festa com balões e chapéus coloridos, bolo de brigadeiro feito pela tia Isa, no qual poderiam enfiar o dedo antes do parabéns, e docinhos enrolados na hora pela tia Bella, com a ajuda das mamães. Tudo simples, lúdico, feito para elas e os amiguinhos.
O mais importante ali era fazer cinco anos; estavam tão felizes. Contaram para a dinda e mostraram novamente a mãozinha enquanto colocavam seus vestidos infantis e coloridos da A Fábula e enfeitavam o cabelo. No final, Carolina estava radiante com sua sandália branca, agora sem machucar o pé, e Inez com seu sapato de boneca rosé.
Além do aniversário, estavam também saltitantes para verem sua mamã no palco. Gabriela não havia contado para elas até cinco minutos antes de saírem de casa, primeiro porque eram fofoqueiras demais para manter um segredo desse, e segundo porque não saberia se, de fato, daria certo. Mas deu. Estavam ali com um frio imenso na barriga, orgulhosas, felizes, preocupadas. Tudo ao mesmo tempo.
Os olhinhos cor de folha, iguais aos da mamã, passeavam pelo local com curiosidade. Encolhiam os ombrinhos quando alguém falava com elas; estavam envergonhadas demais menos com o tio Pedro, a quem amavam, assim como todas as cosquinhas que ele fazia. Curiosas na mesma proporção.
Amavam teatro. Meses atrás, assistiram às três horas de O Rei Leão no Teatro Renault quando foram visitar a vovó Valéria em São Paulo. Mas ali não teriam zebras e pássaros saindo atrás das cadeiras, muito menos músicas animadas e telas coloridas.
Em poucos minutos, estavam descendo as grandes escadas forradas de vermelho do teatro. O vovô ajudava Inez, enquanto Gabriela segurava a mão de Carolina até a quinta fileira, que as esperava com almofadas para que assistissem melhor. Gabriela sentiu alguns olhares sobre si. Ela sabia que não era apenas sua presença ali, mas também um certo julgamento.
A peça não tinha sangue, não tinha violência física. Mas era densa. Falava de uma época passada que ainda respingava no presente. Palavrões eram ditos, um deles, em claro e bom som, por sua esposa, e palavras de ódio eram proferidas, além de insinuações difíceis de digerir.
Alanis sempre falava sobre a peça, com ou sem o elenco, que, por sinal, era uma mistura interessante de atores veteranos e iniciantes. A obra havia se espalhado; falava-se sobre ela na internet, em reportagens e em acervos culturais. Ainda que não entendessem muito bem, as meninas estavam envoltas na arte e, o mais importante: veriam sua mamã interpretar um dos papéis mais importantes de sua carreira.Não tomou a decisão sozinha. Havia perguntado a sua mãe, a Daphne, a Dora, sua amiga e que ajudou a trazer as meninas ao mundo, para Bella e até a Grigio enquanto tomavam um café no shopping Jardins, quando viajou para uma campanha de perfume. Todas se mostraram preocupadas até certo ponto, mas entenderam e apoiaram com amor que as meninas tivessem presente.
Ela posicionou duas garrafinhas plásticas de água que seu pai comprou para as meninas, uma entre si e Inez e outra ao lado de Carolina. Uma senhora loira, bem vestida e cheirosa com perfume caro a cumprimentou e parabenizou dizendo que fazia pouco tempo que sabia que a atriz da peça era casada com ela e estava ansiosa para assistir, foi um presente do seu filho.
— Vovó pegou um casaquinho para vocês — escutou a voz de Valéria. — Está um friozinho chato aqui dentro — disse, mostrando os dois cardigãs.
Gabi sorriu e assentiu. Com a correria do dia a dia, havia gravado naquela manhã, inclusive, e tinha esquecido desse detalhe. Era bom ter com quem dividir a culpa materna.
As meninas estavam viradas para trás, conversando com a madrinha, e, como em um passe de mágica, duas pipocas doces médias apareceram nas mãozinhas. Gabi revirou os olhos ao ver a quantidade de açúcar que entraria no sangue daquelas crianças.
Giovanna mandou um beijo para a comadre. Vestia um vestido também preto, mais colado, e estava bem maquiada. Ao seu lado, Jane, sua mãe, também acenou.
Quando se casou, percebeu que todas ali eram uma família. Amavam e torciam por Alanis, por sua felicidade, e aprenderam a amá-la também. Ela não poderia ser mais agradecida por ter pessoas com tanta luz atravessando seu caminho, que a amavam e, acima de tudo, amavam suas filhas.O primeiro sinal tocou dando um susto nas menininhas que sentavam com perninhas de índio, deram gargalhadas infantis e gostosas quando o celular de Gabi vibrou na bolsa. Era notificação do grupo de sua assessoria avisando sobre um ensaio em poucos dias, e então, no meio da loucura que foi seu dia, percebeu que Alanis não havia respondido sua mensagem desde que estava passando o som do microfone no palco. Mandou uma foto, do jeitinho dela mostrando que em poucas horas estaria pronta para atuar, mas não houve resposta. Nada.
⁃ Hey pessoal, me desculpe a demora. - sua cunhada desviou sua atenção sentando-se ao seu lado. A senhora loira havia errado o ticket e gentilmente se moveu para que Isabella pudesse sentar - Amores da minha vida! Estão a coisa mais linda! Titia vai apertar tanto. - disse em um tom baixo enquanto escutava o segundo sinal. Mais pessoas se ajeitavam em suas cadeiras, ora conversando, ora folheando o guia da peça, uma espécie de livrinho.
⁃ A gente também quer a mamã. - disse Inez segurando uma pipoca. Gabriela praguejou por não ter trazido lenço umidecido. Talvez sua sogra a salvasse nessa também.
⁃ Ela vai ficar maluca quando souber que vocês estão aqui - disse com aquele sorriso tão similar a sua esposa.
⁃ Você chegou a conversar com a Alanis? - Gabriela perguntou baixo, esperando o terceiro sinal a qualquer momento. Por ser o último dia, demorariam um pouco mais que o esperado para tocar. Ela poderia apostar que a fila do banheiro ainda estava enorme e a lanchonete cheia de indecisos.
⁃ Acabei de voltar do camarim - ela disse dando um sorriso sem graça - Não estava se sentindo bem e fui ver como estavam as coisas.
Gabriela franziu a sobrancelha, como assim não estava se sentindo bem e não lhe disse nada? Olhou disfarçadamente o celular enquanto Isabella mexia na própria bolsa, ela ouvia ao fundo as vozes das suas filhas e da sua mãe, olhou novamente e nenhuma mensagem de Alanis desde antes das sete. Nada.
⁃ Como assim? - ela começou. Terceiro sinal e as luzes se abaixaram. Durante uma hora e vinte minutos o êxtase se explodiu naquele palco. Ninguém poderia ousar em dizer que sua mulher não nascera para aquilo. O movimento corporal, o trabalho em conjunto com colegas de elenco, os olhares, a luz do palco que chegava até suas filhas como se fossem caminhos trilhados pelos anjos. Caroline e Inez comeram a pipoca, o lanche sem glúten, lactose e gosto que ela tinha na bolsa, colocaram o casaco, foram no colo de Gabriela, dos avós, de Dora que estava sentada a uma fileira atrás. Tiraram os casacos e pediram para ir ao banheiro mais uma vez, mas precisava ser rápido, não poderiam perder a mamã no palco.
Alanis se entregou de corpo e alma àquela personagem. Os cabelos soltos e cacheados, o jeito como se movia no grande palco, a troca de energia com a plateia, era tudo tão intenso que até a última pessoa da fileira sentia a emoção pulsar, forte e certeira.
Seus olhos se encheram de lágrimas; eles sempre se enchiam. Não era a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que via sua mulher. Sempre que podia, Gabriela estava na primeira fileira, admirando uma das melhores coisas que a vida havia colocado em seu caminho ainda tão cedo, embora só na maturidade tivesse entendido que era sua. E apenas sua.
Inez e Carolina continuavam ali, prestando atenção como se compreendessem um mundo cruel demais para cabecinhas tão puras e inocentes. Ainda assim, permaneciam firmes, com a mesma força da mulher que sentia cada palavra naquele teatro. Ela não recitava, não apenas dizia o texto. Ela sentia.
E quando, em um rompante da personagem, gritou a plenos pulmões: "Milicos filhos da puta!", Gabi viu de relance as duas menininhas rindo entre si pelo palavrão. Tão inocentes, tão fortes ao mesmo tempo, tão importantes ali, naquele exato momento.
No final, ela não se emocionava apenas pelo encerramento do ciclo da esposa, mas por tudo o que se permitira viver naquela noite. Dora sorriu para ela minutos antes do fim da peça, como se dissesse que, sim, ela havia feito uma ótima escolha. Após uma hora e meia, quando as luzes se acenderam, as duas batiam palmas e gritavam, dando pequenos pulinhos. Estavam animadas, ansiosas para abraçar a sua mamã. Gabriela viu os olhos verdes, felizes e satisfeitos consigo mesmos, depois de tanta autocobrança, procurarem algo pela plateia. Foram dez minutos de aplausos, mais do que ela já vira em festivais internacionais, quando ia representar algum filme fora do Brasil. Era de arrepiar. Isabella abraçou seu ombro, também emocionada e orgulhosa da irmã. O elenco se reverenciou uma quarta vez antes de deixar o palco. Os olhos que tanto amava varreram a plateia imensa e agitada antes de seguir para os bastidores.
Se a palavra orgulho tivesse algum significado naquele instante, ele se chamaria Gabriela e seu sorriso imenso, que enchia os olhos escuros de lágrimas. Mas poderia se estender para Inez e Carolina, e para todos os familiares de Alanis, assim como para os que a amavam e torciam por ela. Aquela mulher nunca estaria sozinha; sempre haveria amor, lealdade, torcida e vibração por seu trabalho, seja ele qual fosse.
Além de ver a artista à sua frente, viu a mulher que passou dias e noites ensaiando, que perguntava se realmente haviam gostado da cena enquanto escovavam os dentes para dormir, que leu para ela minutos antes na sala, que pesquisou e conversou com pessoas que passaram pela repressão da Ditadura, que acolhia quem vinha para além de uma foto e um autógrafo. Estava tudo bem tirar uma foto, mas era tão bom poder trocar ideias, trocar palavras.
E que, por semanas, não colocava as filhas para dormir porque estava em cima daquele palco e se culpava por isso. Ela merecia ser celebrada e, sem dúvida alguma, seria.
⁃ As flores estão aqui - disse o avô segurando dois buquês pequenos - O pessoal da produção disse que eles vão sair em poucos minutos, nesse espaço só tem família e amigos convidados, mas tem uma galera esperando para poder falar com os atores lá fora. - finalizou.
⁃ Quando a gente vai ver a mamã? - perguntou Inez coçando os olhinhos. O enfeite no cabelo não estava tão certinho como chegara, os olhinhos pesavam um pouco porque, apesar da euforia e uma ansiedade gostosa de estar ali, já passavam das onze da noite, muito além do horário de dormir.
⁃ Logo ela sai e vamos poder dar um abraço imenso nela, viu? Você vai abraçar assim? - disse Bella abrindo os braços e recebendo uma confirmação da sobrinha.
As duas eram gêmeas idênticas, da mesma placenta. As vezes, parecia que apenas Gabi e Alanis conseguiam identificar quem era quem, até a voz era parecida. Mas, para as mães, eram completamente diferentes. Carolina tinha os olhos mais redondos, Inez as bochechas mais protuberantes. Eram a cara de sua mamã, mas o nariz e o brilho nos olhos como se fossem acesos por uma iluminação de teatro, com certeza eram da mamãe. Uma mistura perfeita, graciosa e acertada. O destino havia sido muito, muito bom com elas.
Gabriela aproveitou a pequena distração dos familiares que conversavam entre si e se aproximou de Isabella que digitava no telefone.
⁃ Hey, o que Alanis tinha mais cedo? - perguntou casualmente com um sorriso pequeno nos lábios, apesar da preocupação que não fechava em seu peito - Você disse que ela não estava se sentindo bem.
⁃ Estava apenas nervosa - ela sorriu sem graça - Acabei chegando mais cedo pois fui ver as flores com a minha mãe e passei no camarim pra levar o isqueiro para ela, quem sabe daria uma acalmada.
Gabriela sabia que Alanis ainda fumava tabaco, ainda que muito menos, quase drasticamente menos do que quando se conheceram. Quando as meninas nasceram, ela reduziu ainda mais. Não usava nem a um raio de distância perto delas. Fumava quando estava muito nervosa ou em um show. Já havia lhe pedido um trago e odiado, mas não poderia negar o quão gostosa sua mulher ficava soltando a fumaça de leve pela boca após uma foda gostosa, ela podia sentir algo entre suas pernas apenas por lembrar. Ela tinha a sensação de que um dia aquela mulher a colocaria louca e ela estava pronta para usar a camisa de força.
⁃ Entendi - ela sorriu - Espero que esteja melhor. - finalizou acompanhando a bolsa pequena e aberta da cunhada em um tom de couro vinho e estiloso, o isqueiro vermelho pousado lá dentro. Ela sabia muito bem como funcionava as regras do teatro, apesar dos atores sempre darem um jeito. Ela mesma já fizera sua mulher relaxar muitas vezes dentro daquele camarim, mas era preciso de cuidado, cautela. Muitas pessoas trabalhavam nos bastidores e não queriam passar por nenhum constrangimento. Porém, não se arrependia de todas as vezes que se ajoelhou para lhe ajudar com a tensão pré apresentação.
A porta se abriu e dois atores saíram sendo logo abraçados por pessoas queridas que os esperavam, as menininhas ao lado da mamāe estavam ansiosas com pequenos pulinhos e perguntando a todo momento se sua mamã sairia logo. Os bracinhos gordinhos segurando as flores, os rostinhos de expectativa, o sorriso fofo com dentinhos de leite. Registrou uma ou duas vezes com a câmera do celular já que havia esquecido a sua inseparável em casa no meio da correria e viu Valéria fazendo o mesmo. Sorriu com o pai fazendo o sinal de ''calma'' para ambas e as admirando na mesma proporção que todos ali.
Lani:
Hey, meu amor.
Não te vi na plateia hoje.
Onde você estava?
Provavelmente alguém da produção estava dando alguma orientação ou discurso de final de temporada, mesmo com tantas dúvidas que rondavam aquele dia cheio, Gabriela abriu um sorriso para sua mensagem. Em que mundo ela não a prestigiaria? O texto de despedida para Beatriz estava pronto nas notas do celular, a foto seria uma só, que ela havia tirado durante os agradecimentos ainda na primeira semana se apresentação. Alanis sorria relaxada, como se tivesse cumprido seu papel com maestria e de alguma forma, estava certa. A morena a colocou em preto e branco, um constraste bonito com a luz do palco que ainda brilhava por trás. Sempre sempre estaria ali por ela; e ela sempre aplaudiria sua Gabi de pé como fez muitas e muitas vezes. Eram fechadas uma com a outra de uma maneira impenetrável.
A porta pesada se abriu mais uma vez e sua mulher apareceu vestido sua blusa de botões, ela podia ver a forma dos seus seios ainda que larga, uma ecobag grande que haviam ganhado no dia das mães desse ano e que ela usava com orgulho, o cabelo cacheado meio preso, a maquiagem leve e um sorriso imenso no rosto. O celular ainda estava em suas mãos, como se estivesse esperando uma reposta da mensagem que mandou há pouco. Antes de seus olhos fixarem em Gabriela, se arregalaram um pouco com os dois corpinhos se chocando contra o seu e abraçando forte sua cintura. Ela a olhou novamente como se perguntasse se aquilo era real, o o sorriso não conseguia se conter, ergueu o iPhone de capinha transparente com três fotos tiradas em um photobomb das quatro meses atrás em Buenos Aires, na Argentina e gravou o momento no aparelho e na memória.
⁃ A gente veio te ver, você viu a gente? Mamã, eu te vi no palco! - falava uma Inez animada. - E a gente viu você falando palavrão.
⁃ É mesmo, foi ''foda-se''. - completou a irmã ainda grudada na mãe. Ela beijou a bochecha das duas, cheirou os pescocinho e ergueu sem dificuldade ambas em seu colo. Depois de quatro, quase cinco anos, não era mais um problema carregar duas. Talvez apenas para a coluna de ambas, idade chegando.
⁃ Mas a mamã está muito feliz em ver vocês aqui - ela deu um cheirinho em Carolina tentando equilibrar as duas e mais as flores. - Como você fez isso? - os olhos verdes e felizes olharam para Gabriela que abaixou o celular.
⁃ Isso é um segredo que te conto depois. - finalizou sorrindo. Alanis colocou as duas menininhas no chão e a esposa deu espaço, por mais que quisesse abraca-la, beija-la, colocar o cabelo para o lado para cheirar seu pescoço, para que Valéria e toda família pudesse ter seu próprio momento. A mãe abraçou a filha com os olhos cheios de lágrimas, entregando mais flores com o nome de todos, o mesmo fizeram Isabella e Marcelo apertando a irmã em um abraço forte. Os sogros também estavam emocionados, e parabenizaram Alanis antes de deixar um espaço para Gabriela. Carolina e Inez grudaram na cintura e perna da mãe como duas macaquinhas e ninguém as faria sair.
⁃ Porque não vão dar um Oi para o tio Pedro? Logo ele vai embora. - foi a vez de Isabella falar percebendo a intensidade do olhar que as duas mulheres se encaravam, elas precisavam nem que fossem cinco minutos. Logo elas correram para o outro lado da porta onde colegas de longa data de Alanis conversavam esperado a vez de lhe dar os parabéns.
⁃ Você está bem? - Isabella perguntou em um baixo a irmã, atraindo um olhar disfarçado de Gabriela que colocava o celular na bolsa. Alanis assentiu rapidamente, como se tivesse fazendo algo errado e a abraçou de novo.
Quando Isabella deu espaço, os olhos se fundiram em uma intimidade tão profunda que seria vergonhoso as pessoas em volta observarem, e ainda sabendo que elas o faziam, ambas não ligavam. Gabriela abraçou com força sua mulher, escondeu o rosto no cabelo cheiroso e o afastou, assim como premeditou, para deixar um beijo demorado em seu pescoço. Depois selou os lábios, uma, duas, três vezes.
⁃ Está amamentando? - mulher disse quando a esposa tirou a boca do seu pescoço, recebendo olhos franzidos. - Esses peitos enormes. - Gabriela revirou os olhos com a piada.
⁃ Você pode chupar mais tarde, se quiser. Eles são apenas seus. - ela sussurrou procurando ter certeza que ninguém escutava as palavras sujas que dizia. - Eu sei que você adora.
⁃ Depois de seis meses dividindo, acho justo eles serem apenas meus agora.- devolveu com a voz rouca, sendo sua vez de dar um cheiro no pescoço de Gabriela e sentindo seu perfume. Ela sabia que fazia isso para mostrar que era dela. Apenas dela. - Você não sabe o quanto eu estou feliz - a atriz disse a fitando, logo mudando de assunto. Mas ela sabia. Sabia muito bem. Quando sua mulher estava feliz, triste, chateada, louca de ciúmes, morrendo de tesão. E o que tivesse a seu alcance para fazê-la sorrir, faria.
- Você é um dos maiores espetáculos das nossas vidas. Ela virou a cabeça, vendo a cena mais adiante: Pedro, que fora prestigiar a amiga, colocava Inez de cabeça para baixo. Uma gargalhada infantil soava, e Carolina dava pulinhos, esperando a sua vez. Alanis mantinha pessoas que valiam a pena em sua vida, que agregavam, torciam por ela. Pessoas que lhe estendiam a mão e a prestigiavam; ela fazia o mesmo com seus amigos. - Não teria como não lhe aplaudir hoje, Lani. Eu estou muito orgulhosa de você, nós estamos, meu amor. - Ela deu mais um selinho nos lábios já vermelhos.
⁃ Vamos pra nossa casa, eu quero você. - ela sussurrou com os olhos marejados. O sorriso pequeno nos lábios de quem admira, ama, se sente completa. - Voces são minha vida, Gabriela. - ela colou as testas e mais um beijinho foi deixado nos lábios da esposa.
⁃ Tem muita gente lá fora querendo falar com vocês, e apesar de querer muito, muito mesmo minha mulher - ela se aproximou colando a boca no ouvido de Alanis - E fazê-la relaxar do jeitinho que ela gosta, acho que seria legal você dar um abraço neles.
⁃ Você não existe, Gabriela. Caratella. - brincou com os dos sobrenomes que a esposa havia pegado para si quando assinou os papéis do casamento.
⁃ O que estava sentindo mais cedo? - a palavra pulou da sua boca antes mesmo que raciocinasse. Quaisquer coisas envolvendo Alanis ou as meninas eram sua prioridade, sempre seriam. E saber que, por algum motivo, sua esposa não a respondeu ou preferiu que a irmã a acudisse no camarim lhe deixava nervosa.
⁃ Eu estava nervosa com o último dia - ela respirou fundo, Gabriela a conhecia profundamente para saber que era meia verdade - E a Bella acabou chegando cedo e me deu uma água gelada. Foi apenas isso, não se preocupe. - ela apertou com delicadeza o ombro da mulher que sorriu fraco.
⁃ Conseguiu fumar para relaxar? - ela envolve a cintura de Alanis e olhou novamente em direção as meninas. Carolina estava no colo do avô e esfregava os olhinhos. A farra estava acabando para aquelas duas.
⁃ Você sabe que não deixam fazer isso lá dentro - ela revirou os olhos - Mas estou bem, meu amor. Fique tranquila.
⁃ Entendi. - repetiu o que havia dito a Isabella, não alongaria o assunto ali. Amigos de Lani, pessoas grandes do cinema e televisão, além dos fãs animados a esperavam para um abraço forte. A comemoração com o elenco ficaria para a semana seguinte, já que a peça terminava tarde e aquela altura, todos estavam exaustos. Alanis já havia pedido para Gabriela desmarcar qualquer coisa da sua agenda, a queria lá, consigo. Bebendo, namorando, curtindo. - Vou levar suas filhas para casa, dar um banho quente e colocar elas pra dormirem. Os olhinhos estão começando a fechar.
⁃ Minhas filhas, né? - ela sorriu roubando mais um selinho - Eu te amo. Muito. Jamais se esqueça disso. Obrigada por estar aqui, por trazer nossas meninas. Eu me sinto amada, meu amor. - ela confessou acariciando a bochecha da esposa que a fitava com seus dois refletores.
⁃ Atenda seus amigos e fãs. - ela tirou uma mão beijando a palma com carinho - Em casa você será minha. Apenas minha.
O cheiro difundindo no ambiente era uma mistura gostosa e quente de baunilha e açafrão, a luz estava baixa, meio amarelada, além de uma vela também cheirosa, no canto da pia ornando com o espaço relaxante. A roupa antes vestida por Alanis estava caída em um canto do chão, mas não havia sido retirada às pressas, Gabriela fizera questão de o fazer devagar e depois, passar um removedor na pouca maquiagem que sua esposa usava para o espetáculo. O chuveiro já estava ligado formando um vapor gostoso, quase palpável e relaxante, ninguém havia entrado no box de vidro esfumaçado. Ainda. O som baixo, molhado e delicioso de beijos corriam pelo banheiro, Gabriela ainda totalmente vestida apertava a cintura da esposa, totalmente nua. Beijava seu pescoço, nariz, fazia que aprofundaria o beijo e descia para o queixo bem desenhado, ela sabia que estava causando uma certa impaciência. Mas queria que, o quão sentisse que era amada, cada cantinho do seu corpo, cada cheiro, cada pintinha que ela fazia questão de passar a pontinha da língua, apertar de leve as nádegas desnudas só para escutar um arfar, o cabelo cacheado agora solto e caindo pelo ombro, os gemidos baixos que a mulher emitia quando algum ponto mais sensível era tocado. Tudo isso feito pela mulher dela, e apenas dela. Cheia de amor, carinho e cuidado.
Não precisou se casar para entender que aquela mulher era uma imensidão. De afeto, de desejo, de gozo. Alanis sempre estava pronta pra ela, para dar amor e receber também. Sempre haveria um toque, uma preocupação, os olhos escuros quando a estocava com tanta força que sentia-se perder o ar, sua boca semi aberta acompanhando os gemidos. Era uma missão impossível pensar em sua mulher e não se sentir úmida entre as pernas ou sentir os mamilos eriçarem como se um fio de vento gelado tivesse passado por ali. Aquela mulher acabava com a vida da Gabriela da maneira mais gostosa e avassaladora possível, ela era livre, seu sorriso, seu corpo, sua forma de falar. Se arrependera de poucas coisas nessa vida, sempre pensou e calculou muito antes de fazer algo, mas sua decisão por Alanis veio antes do ''sim''; antes do beijo gostoso que trocaram em um festival de verão enquanto Seu Jorge cantava ''Carolina'' no palco e nem mesmo pensaram que em poucos minutos aquele vídeo teria se espalhado. Com Alanis não dava para ser secreto, nem amostrado. Apenas era. Um amor tão forte que, antes de se envolverem pela terceira e última vez, as vezes a deixava zonza, a fazia chorar sozinha pensando se aquilo não era coisa criada em sua cabeça, uma mistura de sentimentos que não eram seus, uma inveja velada misturada com ciúmes de quem a tinha. Foi pauta de terapia por meses. Ela gostava de aperta-la, acaricia-la, olhar para ela, relaxar e cuidar do seu corpo sem ter ou pedir nada em troca, e ainda assim, recebendo muito mais do que sonhava em ter.
⁃ Isso não é justo. - Alanis murmurou quando Gabriela chupou seu lábio - Você está toda vestida. - reclamou enquanto levava a mão na lateral do vestido de seda preto.
⁃ Shh, eu quero cuidar de você. - ela se separou por um breve momento para pegar a presilha que estava em cima da pia. Eram quase uma da manhã quando Alanis chegou em casa. A esse momento, Gabriela já havia colocado as meninas falantes, porém cansadas, para dormirem com seu ruído branco e ar condicionado confortável prometendo que na manhã seguinte iriam à praia com a mamã, trocou a água filtrada do cachorro e do gatinho que se alinhavam as crianças toda noite, como se aquele espaço também fosse deles, também tirou od seus sapatos sentindo o chão frio sob seus pés, limpado sua maquiagem devagar enquanto checava se havia alguma mensagem profissional para o dia seguinte, e preparado um banho gostoso para sua esposa, ainda que rápido, apenas com a água quente e forte do chuveiro. E por fim, ela deixou o vestido, sabia que Alanis reclamaria se não fosse ela a tirar.
Gabriela usou a presilha para prender o cabelo da esposa, ainda que meio bagunçado, os fios cheirosos deixavam seu rosto ainda mais emoldurado, contendo um olhar cansado. Ela via as olheiras querendo se formar na pele impecável, os olhos escurecendo conforme o tesão crescia dentro dela misturada a impaciência de querer sua esposa para si. Alanis só queria sentir e provar Gabriela, lamber sua pele, beijar o nariz perfeito que suas filhas tinham herdado, morder aquele queixo, chupar aquela boceta quente e sua. Ignorou os desconforto misturado com cansaço que sentia, e abriu a lateral do zíper do vestido que caiu aos pés da morena, deixando-a apenas com uma calcinha pequena de renda, que ela também se curvou para tirar. Agora era Gabriela quem passava os olhos por todo corpo a sua frente, os seios pequenos e firmes, os mamilos duros esperando por sua boca e uma pequena voltinha que se fazia acima dele, provavelmente o período menstrual de Alanis estava chegando. Ela sabia absolutamente tudo sobre sua mulher. Seus seios inchavam, seu ventre ficava maior, ela ficava mais impaciente, ou quando ela franzia de leve a sobrancelha por não entender algo, quando ria tanto que as covinhas ficavam ainda mais fundas e adoráveis, ela amava isso em suas filhas também; de como sempre estava pronta para ela, como seu corpo se inclinava naquela dança invisível de sedução e intimidade que as duas haviam criado. Um pouco abaixo, a barriga lisa, estava inchada, parecida a voltinha acima do seio, quase imperceptível, devido ao ciclo que chegaria em breve e provavelmente o que a incomodou. A intimidade molhada, brilhante e sedenta. Quando percebeu que olhava, Alanis desceu os dedos com um sorriso sacana, ela sabia o quão louca Gabriela ficava quando a via se dando prazer, mas seu pulso foi segurado antes mesmo que ela iniciasse.
⁃ Para dentro do chuveiro, a água já deve está em uma temperatura boa. - pediu, mandona enquanto fazia com coque no próprio cabelo. O vapor relaxante envolveu as duas e Alanis puxou a esposa para um beijo, da maneira que ela gostava. Quente, molhado, explorando cada cantinho daquela boca que tanto amava. A ideia de Gabi era cuidar da mulher, mas não existia um mundo onde apenas uma parte se doava pela outra, ela sempre seria recompensada.
Ela passou o sabonete líquido com cheiro fraco de limão siciliano em uma esponja macia antes de começar pela clavícula da esposa, a espuma cheirosa se espalhava na atriz que a observava o tempo inteiro, que seria até mesmo vergonhoso se não estivesse cem por cento acostumada com aqueles olhos, olhos de felina, de prazer, famintos até mesmo quando se enrolava na esposa ainda na cama pela manhã após acordar e estavam claros como cor de folhagem. Mas ela gostava de implicar.
⁃ Para de me olhar assim - disse Gabriela revirando os olhos enquanto enxaguava sua mulher deixando a espuma escorrer pelo corpo magro.
⁃ Eu olho do jeito que quiser. - devolveu Alanis com a voz aveludada, se aproximando. Ela estava manhosa, sedenta, beijar sua esposa era uma das coisas mais gostosas daquele mundo. Sem roupa então, sentindo o tesão crescer em cada parte do seu corpo, observando todos os sinais, pelos eriçados, cores, formatos. Ela poderia se perder naquele corpo.
⁃ Vira. - Gabi deu um tapa estalado na bunda da esposa e colocou um pouco mais de sabonete para esfregar suas costas em uma massagem disfarçada. Ela sabia o que estava fazendo, era gostoso, relaxante, mas Alanis queria mais.
⁃ Você vai me foder de costas? - perguntou enquanto apoiava a mão no azulejo bem desenhado do banheiro e olhando por cima do ombro. Gabriela parou por um segundo e ergueu uma sobrancelha.
⁃ Eu te fodo da maneira que você quiser, meu amor. - disse como se recitasse um eu te amo qualquer - Hoje você pode escolher. - finalizou deixando claro quem mandava por ali.
⁃ Eu quero agora. Não importa como, Gab. - as sobrancelhas franzidas mostravam o desejo gostoso que crescia no ventre da sua mulher.
Primeiro ela passou os lábios pelos ombros, depois pelo pescoço quente onde alguns fios molhados de cabelo se grudavam, ela sabia que entre as duas não existia nenhum tipo de pudor, já haviam tentado de tudo. Algumas coisas funcionavam, poucas não. Tudo era gostoso e seguro com quem se ama e está na mesma página, na mesma linha deliciosa de prazer. Ela beijava as costas, apertava a carne macia, passava de leve a unha enquanto sentia o jato de água quente bater em sua perna. Talvez as duas acabassem com a água do mundo inteiro naquele instante, mas ela não ligava.
⁃ Abre um pouco mais as pernas para mim, Lani - sussurrou ja ajoelhada passando os lábios pelas nádegas, apertando, vendo a umidade aparente da esposa cada vez mais protuberante. Devagar, ela deslizou primeiro um dedo entre as dobras que tanto conhecia, o caminho que fizera várias vezes, até mesmo quando ter aquele corpo apenas para si era um desejo engolido, guardado e quase digno de vergonha. Não mais, não dessa vez. Ela foderia sua mulher, a faria relaxar naquela noite que foi tão especial, bonita, agradável e lhe mostraria o lento dos seus dedos se esfregando por sua boceta inchada, e depois sua boca. Gabriela deu uma mordida no início da coxa de Alanis, deixando escapar um sorriso pequeno quando a escutou gemer baixinho, como uma felina manhosa.
⁃ Você só me maltrata. - reclamou encostando a cabeça de lado na parede, ao mesmo tempo, um choro quase manhoso deixou seus lábios - Tem noção de como me deixa, Gabriela? De como meu corpo reage a você? De como minha boceta fica quando você usa essa língua deliciosa? Porra, quantas vezes me masturbei nesse quarto sozinha porque minha mulher estava em outro estado e não podia me foder e me fazer relaxar depois de duas sessões no dia. Cigarro nenhum no mundo chega aos pés da sua boca e dos seus dedos, meu amor.
Aquele foi o estopim para a morena, seus seios estavam tão duros, pesados que ela poderia gozar apenas em toca-los, como já fez algumas vezes, ou melhor, com sua mulher os chupando. Sua intimidade não estava diferente, mas tentava manter o mínimo de compostura para agradar a esposa ali aberta, exposta para ela. Ela simplesmente tinha ido a casa do caralho e voltado com aquelas palavras. Pensar naquela mulher se masturbando e gemendo baixinho pensando nela a fazia querer mais e mais. E ela tinha uma vasta ideia de como era, já que a duas trocavam vídeos e fotos de visualização única, além de um vocabulário extremamente sujo quando se ligavam tarde da noite.
E por fim o fez.
Puxou de leve a cintura da esposa a fazendo empinar um pouco mais para ela, sua boca começou de leve, mas havia intensidade. Chupou, lambeu, salivou no sexo da sua mulher enquanto a água quente caía agora um pouco mais em suas costas. Ela apertava as coxas, subia as mãos para a cintura, acertava a bunda com um tapa ou dois misturando o barulho da água, gemidos e estalos, já estava começando a ficar vermelha. Alanis se retorcia, soltava um sorriso safado, dizia coisas sujas, como amava ser comida por trás.
Quando ela menos esperava, sentindo a boceta se apertar, os dedos se espalmarem contra o azulejo, os gemidos cada vez mais alto, Alanis se virou. Não sabia onde havia tirado aquela força, mas agarrou o braço da esposa fitando os olhos que estavam negros e atentos; a boca levemente suja com seu líquido, uma delícia. Ela passou o polegar limpando o canto da boca antes de olhar em suas pupilas, aquela mulher fora desenhada pelos deuses e a atriz que agora carregava um verde musgo em seus olhos se considerava uma sortuda do caralho. Nunca pararia de agradecer, apenas lamentaria por não ter tomado uma decisão antes. Essa sempre seria sua maior sina.
⁃ O que você? - ela começou - Eu te machuquei?
⁃ Vai pra cama agora. - ordenou deixando uma lambida nos lábios da esposa.
⁃ Mas...
⁃ Gabriela, vá para a cama. Agora. - seu ventre doía, seus seios maiores que o normal estavam duros, ela queria ser fodida, chupada, agraciada. Mas também queria devolver aquilo tudo a sua mulher, nem mesmo sabia de onde havia tirado forças. A morena apenas assentiu com um sorriso ladino e deixou o box não sem antes apagar a vela para evitar qualquer acidente. Alanis fechou o chuveiro com o corpo já relaxado, chutou as roupas para o canto do banheiro e pegou a toalha branca e felpuda e se secou rapidamente. A pele estava fresca, cheirosa e pronta.
A luz do quarto estava amarelada, sua esposa deitada no meio da cama king size completamente nua e a esperando. Uma de suas pernas estava dobrada deixando-a ver a boceta dessa vez lisa, molhada, vermelha e com a porra dos dedos esfregando o clítoris já avantajado de tanto prazer. Os seios grandes seguiam a respiração, uma das mãos estavam atrás de sua cabeça, ela havia soltado seu cabelo que ainda tinha resquícios do babyliss feito mais cedo para a peça. Alanis também soltou o seu. Antes de se aproximar, apesar de não tirar os olhos da cena a sua frente, pegou rapidamente o controle do ar condicionado o desligando e checou mais uma vez a porta do quarto que estava trancada, era o cômodo mais fechado dentro daquela casa quando a noite caía.
Ela subiu engatinhando, encarando pela cama, gostavam de joguinhos bobos assim: foderem até o suor escorrer em uma noite de verão, onde apenas a brisa insuficiente que vinha em uma mistura de sal e mar entrava pela janela do quarto, que também foi aberta. Era gostoso, quase animal. Pegou a mão da mulher que se estimulava e lambeu cada dedo, o gosto de Gabriela era indescritível e só de pensar que um dia alguém além dela já havia a tocado o ciúme crescia como um animal feroz e desregulado. Aquela mulher era apenas dela, ela a fazia gozar, ela a amava. O jeito que ela sorria, que contagiava o ambiente, a maneira que ela dançava até suar e suas roupas grudarem em uma roda de samba fazendo-a observar enquanto segurava seu cigarro na mão direita e pensando o quão sortuda era, até ser puxada para o meio da pista e ainda que não tão boa como a esposa, fazia questão de sentir o corpo contra si e dançarem juntas. A mesma coisa quando saíam com o elenco que a mesma trabalhava, Gabriela se divertia, se enturmava, dividia a cerveja, o karaokê e a conta. Ela era amada e querida por todos e não, não poderia ser por menos.
⁃ Chupa. - ela escutou saindo dos seus devaneios - Você não queria meus peitos? Eles estão aqui, só pra você. Anda Lani, chupe. - os olhos acesos a fitavam, tinha desejo, as mãos apertavam os seios como se fossem esmaga-los e como eram gostosos. Ficou ainda mais na gravidez e ela não poderia deixar de observar o quão deliciosa sua esposa havia ficado após gerar duas crianças. Faziam cinco anos, e ela só melhorava.
⁃ Eu quero esfregar minha boceta nos seus peitos. - disse recebendo um arfar de volta - Mas antes... - ela engatinhou um pouco mais até passar a ponta da língua pelo mamilo rosado, pronto para ela. Alanis chupou, beijou, babou. Tudo aquilo era seu. Apenas dela. Gabriela soltava gemidos baixinhos, arranhava a lateral do seu corpo, guiava sua cabeça. Alanis sabia o quão erógeno era aquela área e se aproveitava disso sempre que podia. Gostosa, muito gostosa. Sua boca foi descendo, ela beijou entre os seios, a pele da barriga perfeita, que Gabriela vivia reclamando, o osso da pélvis, a virilha cheirosa, os lábios do seu sexo. Era como se ela não fosse mais aguentar e a qualquer momento explodiria. As gotículas de suor já começavam a aparecer na testa de ambas, cabelos grudados, corpos deslizantes, a cabeça já não funcionava perfeitamente e ela então abocanhou o sexo chamativo. Chupou, lambeu, mordeu devagar os grandes lábios, usou os dedos para separar, beijou. E quando menos esperou, sua mulher tentava se agarrar aos lençóis enquanto gozava.
E ela amava a observar gozar. A bochecha vermelha, o rosto tomado pelo suor, a boca entreaberta, a perna trêmula, o corpo entrando em convulsão, as reboladas em sua boca. Era delicioso, animalesco, as vezes só fazia observar de tão irreal que era aquela mulher tendo um orgasmo. Ela deixou dois beijinhos antes de subir novamente, gotas de suor faziam trilha em seu corpo, Alanis estava salgada novamente, o cabelo mais revolto, os cachos soltos, o sorriso satisfeito vendo que fez a esposa enxergar toda uma galáxia mais uma vez.
Ela deixou um beijo gostoso, passando a língua por sua boca de Gabriela para que sentisse o próprio gosto antes de separar com um selinho e se encaixar nos peitos que a esperavam. Ela se moveu devagar, olhando diretamente nos olhos que a cercavam, o líquido saindo da sua boceta melava um pouco acima do colo de sua esposa, ela segurava sua bunda apertando, enfiando as unhas curtas, e quando sua respiração começou a ofegar, ela desceu colando ambos os sexos molhados.
⁃ Agora vou gozar na sua boceta. - falou baixo como se uma canção já estivesse ali, mas eram apenas os gemidos de Gabriela. E ela se moveu. Uma, duas, três vezes. O som dos sexos se chocando se espalhava pelo quarto, se permitiu a gemer um pouco mais alto, a sensação era deliciosa, se esfregava, mordia os lábios, descia para beijar a boca da morena que tentava levantar o quadril para manter o contato, o encaixe era sempre perfeito, sempre gostoso, quase etéreo. As duas se olhavam, Alanis novamente percorreu o corpo, apertando os seios antes de subir mais um pouco pra o pescoço de Gabi, a cama movimentava, a pele molhada, o cabelo grudado, a tensão que crescia em seu ventre queria mais, mais e mais.
Foder era bom em qualquer circunstância, mas foder sua mulher, esfregar sua boceta na dela, sentir suas mãos tentando agarrar seus seios sensíveis e prontos para ela, não havia nada no mundo que chegasse aos pés. Você pode transar com mil pessoas, mas a certa te conecta de uma maneira tão forte que você blasfema enquanto agradece.
⁃ Gostosa - Gabriela sussurrou apertando o mamilo duro da esposa que cavalgava em si. Alanis jogou a cabeca para atras e se esfregou mais, e mais, e mais. Uma dorzinha crescente veio a seu ventre, ele se contraía, os seios pulando, as bochechas de Gabriela ainda vermelhas, a aliança ali no dedo lembrando que aquela mulher era apenas dela, coisa que nunca havia feito parte de sua vida. Exclusividade. Ela viu estrela, viu calor, viu a brisa do mar quando explodiu em um orgasmo forte, prolongado, tremido. Seu corpo estava em combustão, o peito subia e descia em um ritmo frenético, ela se esfregou ainda mais vendo o rosto da sua mulher tombar para trás, ela também estava chegando lá. O quarto de tornou gemidos, a luz da lua e o clima abafado que abraçava todo aquele ápice.
Depois de alguns segundos jogada em cima de Gabriela, tentando se recuperar com a respiração forte, ela se colocou do lado colando seu corpo ao esposa. Sem lençóis, sem pudor, com a mão direita acariciando timidamente a outra boceta melada. Ficaram ali por minutos, não podiam nem mesmo adivinharem que horas eram.
⁃ Você é uma filha da puta. - disse a morena em tom de divertimento, o carinho estava gostoso, mas começava a acende-la novamente - Era para eu estar cuidando de você.
⁃ Quem ficou menos tempo em casa? - perguntou acariciando as dobras - Acho que te devia isso.
⁃ Você não me deve nada, meu amor - virou o rosto deixando um selinho - Te fodo porque gosto. - soltou uma piadinha típica dela fazendo Alanis revirar os olhos. - Inclusive, você sabe que esse ''carinho'' está me acendendo de novo, não sabe?
⁃ Ela não tem limites - brincou a mais nova. Sempre dizia que a intimidade da Gabriela amava ser fodida, apenas por ela, claro, e que não importava quantos rounds, aceitaria de bom grado. Isso sempre tirava uma gargalhada sincera da morena. - Mas pode ficar tranquila, eu não vou te deixar dormir tão cedo. - disse colocando seu corpo de lado, a meio peso na morena, envolvendo suas pernas, para mais um beijo que as levaria pela madrugada a dentro.
Às oito da manhã de domingo, com o sol entrando pelo quarto após uma ducha por volta das cinco, enquanto o dia amanhecia e o céu ganhava tons alaranjados, elas decidiram colar seus corpos, limpos, sem suor, cheirosos, exaustos, agora com o ar-condicionado ligado, mas ainda saudosos um do outro.
E batida na porta fez Alanis acordar às oito daquele domingo em que queria dormir até o meio dia.
