Work Text:
O amanhecer na Eaton Square não era um evento, a névoa simplesmente clareava o suficiente para que as fachadas vitorianas voltassem a existir. Wednesday Addams abriu os olhos. Não precisou de bocejo, só a certeza de que o teto ainda estava lá.
Thing estava parado sobre a mesa de cabeceira de mogno, os dedos elegantemente apoiados na madeira. Entre o polegar e o indicador, ele segurava um copo de cristal com água, com os outros dedos, ele equilibrava habilmente a agenda aberta na página que ditaria as próximas dezesseis horas de sua existência.
Wednesday bebeu a água em silêncio, a sensação do líquido descendo por sua garganta era a única confirmação de que ela ainda possuía um corpo físico antes de se tornar, mais uma vez, um mero fantasma de seu trabalho.
— O cronograma, Thing — murmurou ela.
Thing deslizou a agenda para mais perto. O primeiro item: Ajustes finais no vestido de gala da Condessa. – 10:00 AM. Wednesday fechou os olhos por um breve segundo. A Condessa era uma mulher que ocupava espaço demais, não fisicamente, mas por meio de seus perfumes florais ofensivos e sua necessidade patológica de ser notada. Para Wednesday, vestir a Condessa era tentar dar estrutura a uma nuvem de futilidade. O closet era um santuário de espelhos e madeira escura que refletia a palidez da Addams de todos os ângulos possíveis.
Thing já deixara as peças no divã. Wednesday vestiu sem pressa a combinação de seda, as meias finas e o vestido de lã com a gola alta. Thing posicionou-se atrás dela para fechar os botões. Trinta e dois, ela contou até o fim pelo espelho, observando os dedos da mão se moverem com uma destreza silenciosa. Depois veio a escova de cabelo, Wednesday não precisava contar, Thing sabia quando parar.
— O brilho no lado esquerdo da trança está fosco, Thing — observou ela, sem mover um músculo do rosto. — Use o óleo de cedro. Apenas uma gota. — Ele corrigiu o erro imediatamente.
O café da manhã era o auge de seu rigor. Na sala de jantar, Wednesday sentava-se sozinha na cabeceira da mesa de carvalho. Thing servia o chá Lapsang Souchong com uma precisão cirúrgica. O aroma defumado, lembrando fogueiras de carvalho e couro antigo, era o único perfume que Wednesday tolerava. O som da faca raspando na torrada era o único ruído permitido. Ela espalhava a manteiga, que Thing havia retirado da refrigeração exatamente trinta minutos antes, com movimentos de um escultor. Naquela quietude, Wednesday desenhava mentalmente. Ela via vestidos onde outros viam apenas panos.
— A Condessa quer seda selvagem, Thing — o olhar fixo na fumaça do chá. — Ela não entende que a seda selvagem tem vontade própria. Ela quer domar o tecido, mas o tecido vai devorá-la. É uma mulher sem eixo. Como posso vestir alguém que não tem um centro de gravidade?
Addams sentia que suas agulhas estavam ficando cegas, o ar de Londres estava saturado pelo barulho e pela mediocridade. Ela precisava de distância.
— Cancele a prova da tarde — ordenou ela. — Vamos para a costa.
O Bristol 404 de Wednesday era uma extensão de sua personalidade, preto e perigosamente silencioso. Ela conduzia com luvas de pelica fina, sentindo cada engrenagem do motor. Thing ia no banco do passageiro, segurando os mapas.
Eles deixaram a metrópole para trás, o concreto medíocre deu lugar às colinas escuras e à névoa que subia do Canal da Mancha. Wednesday parou o carro em Jericho, um vilarejo de pedras cinzentas que lutavam contra o vento. Ela entrou em um estabelecimento chamado The Weathervane. O cheiro de bacon, café requentado e umidade era o oposto de sua mansão. Era visceral.
Ela escolheu a mesa no canto mais afastado. Wednesday retirou seu caderno de notas e sua caneta. Ela começou a notar as falhas na arquitetura do lugar quando o som de passos desordenados a atingiu. Thing não andava assim.
— Bom dia! — A voz era alta demais para a hora do dia. — Bem vinda ao Weathervane! Eu sou a Enid, o que vai ser hoje?
Wednesday não levantou os olhos imediatamente. Ela viu primeiro as mãos. Elas estavam ocupadas carregando um menu de plástico engordurado. As unhas eram curtas, e cada uma ostentava uma cor diferente. Wednesday sentiu uma pontada de irritação que rapidamente se transformou em fascínio clínico.
Ela levantou o olhar.
A garçonete, Enid, era uma anomalia, seu cabelo era loiro, mas as pontas tinham sido tingidas de rosa e azul. Seus olhos eram grandes e ela sorria com uma facilidade que a Addams considerava quase patológica.
— Chá — disse Wednesday. — Lapsang Souchong.
Enid inclinou a cabeça, fazendo com que uma das presilhas coloridas em seu cabelo brilhasse.
— Lapsang o quê? Temos Earl Grey, English Breakfast e aquele chá verde que ninguém pede.
Wednesday fechou os olhos por um segundo.
— Earl Grey, então. Sem leite. Sem açúcar. E um ovo cozido.
— Um ovo cozido. Mole ou duro?
— Quatro minutos e meio — Wednesday afirmou, fixando seu olhar nos olhos de Enid. — Nem quatro, nem cinco. Exatos quatro minutos e meio. Se passar disso, a gema perde a alma. E as torradas devem ser de pão integral, fatiadas em lâminas de um centímetro, sem as cascas. Manteiga à parte, em temperatura ambiente. Nunca me traga manteiga gelada. Eu não vim aqui para lutar contra o meu pão.
Enid ficou calada por um momento, observando a mulher de preto. Ela não parecia intimidada. Pelo contrário, havia um brilho de diversão em seus olhos azuis.
— Quatro minutos e meio, manteiga diplomática e pão sem armadura. Entendido, Vossa Majestade — disse Enid, com uma reverência teatral. — Quer mais alguma coisa?
— Apenas o ovo — respondeu Wednesday, voltando sua atenção para o caderno.
O ovo veio exatamente dez minutos depois. Enid o trouxe com uma cautela nova, como se tivesse entendido que qualquer erro ali seria um crime. Wednesday pegou a colher de prata que trouxera em seu próprio estojo. Ela removeu o topo do ovo. Observou a consistência.
— Perfeito — admitiu Wednesday, em um sussurro.
— Eu contei cada segundo no relógio da cozinha — Enid falou, encostando-se na mesa ao lado com uma informalidade que Wednesday acharia ultrajante em qualquer outra pessoa. — Você é muito específica, sabia? A maioria das pessoas aqui só quer a comida o mais rápido possível.
Wednesday deveria dispensá-la com um olhar. Deveria voltar ao seu caderno. Em vez disso, ouviu a própria voz dizer — Sente-se.
Enid piscou. — O quê?
— Sente-se — repetiu Wednesday, sem convite na entonação. Era uma ordem. — Você está encostada na minha mesa como se tivesse tempo livre. Então use comigo. Sente-se.
Enid hesitou por um segundo, o suficiente para Wednesday pensar que ela recusaria. Mas então a garçonete deixou o menu de lado, puxou a cadeira e sentou-se com um movimento brusco que fez os acessórios coloridos do cabelo tilintarem.
— Estou no meu intervalo — disse Enid, apoiando o queixo na mão. — Cinco minutos. Use-os bem.
Wednesday não respondeu imediatamente. Observou o rosto de Enid sob a luz crua da lanchonete. Sem o sorriso profissional, a garota parecia diferente. Mais jovem. Mais cansada. Os olhos azuis tinham uma franqueza que Wednesday não esperava.
— Você odeia este lugar — Wednesday afirmou. Não era uma pergunta. Enid arqueou uma sobrancelha. — Você leu minha mente por acaso?
— A hostilidade dos seus ombros. Você carrega a bandeja como se esperasse que alguém esbarrasse em você. Porque já aconteceu. Muitas vezes.
O silêncio de Enid durou dois segundos a mais que o normal. — Trabalho aqui há uns três anos — disse Enid, finalmente. — As pessoas pedem ovo e reclamam que a gema está mole demais ou dura demais. Nunca está certo. Elas não sabem o que querem. Só sabem que querem reclamar.
— E você sabe o que quer?
Enid encontrou o olhar de Wednesday. Havia algo ali, um lampejo de fúria ou de fome, Wednesday não sabia dizer.
— Eu quero sair deste lugar — Enid respondeu, baixo. — Mas ninguém contrata uma garota que pintou o cabelo de rosa e nunca terminou a faculdade. Então eu continuo aqui contando segundos.
Wednesday a estudou por um longo momento. O pescoço longo. Os ombros largos. A pele pálida que a luz fluorescente não conseguia macular completamente.
— Você precisa de alguém que veja o que eu estou vendo agora.
— E o que você está vendo?
— Uma estrutura de ombros que carrega o mundo com uma assimetria que não é fraqueza. É memória. Você caiu. Alguém te derrubou. E você aprendeu a se equilibrar sozinha antes de voltar a ficar de pé.
Enid abriu a boca e fechou, um rubor tingiu as suas bochechas. — Você está me analisando — murmurou Enid.
— Talvez eu esteja — O canto da boca de Enid se curvou. Não era um sorriso completo. Era um começo de trégua.
— Os cinco minutos acabaram.
— Eu sei.
Enid se levantou. Ajeitou o avental. Antes de se afastar, ela olhou para Wednesday por cima do ombro.
— Você vai terminar esse ovo?
— Já terminei.
— Então por que ainda está aqui?
Wednesday não respondeu, apenas ficou ali olhando para Enid, ela não via as pontas coloridas do cabelo. Ela via o pescoço, o longo, pálido e elegante pescoço que parecia ter sido esculpido para carregar golas de renda renascentista. Ela viu a largura dos ombros, a proporção exata da cintura para os quadris. Enid era um manequim perfeito escondido sob camadas de ruído visual.
— Você tem um corpo que exige respeito, Enid — disse Wednesday, levando seus olhos para o crachá para poder ler o sobrenome da mulher a sua frente. — É um desperdício vê-lo envolto nesse poliéster barato, Sinclair.
Enid parou de rir, o rubor subiu por seu pescoço, mas ela não desviou o olhar. Tinha um desafio ali e ela era uma mulher que gostava de desafios.
Wednesday retirou um cartão de visita de seu estojo, o papel era de uma gramatura pesada, com letras em relevo negro e entregou para a mulher a sua frente.
W. Addams - Eaton Square.
Haute Couture.
Enid virou o cartão, franziu a testa. — Haute couture... isso é tipo, roupa super cara?
Wednesday ergueu uma sobrancelha. — Venha para Londres e descubra.
Enid olhou para a mesa e depois para Wednesday. — Então você faz aquelas roupas para gente esnobe?
Wednesday fechou os olhos por um segundo.
— Venha para Londres. Na próxima terça-feira. Às oito da manhã, não se atrase. Você vai entender quando vir. — Wednesday levantou-se. Ela deixou sobre a mesa o valor exato e uma gorjeta que equivalia a uma semana de trabalho de Enid.
— Por que eu faria isso? — perguntou Enid, segurando o cartão.
Wednesday parou à porta. O contraste entre sua silhueta negra e a luz pálida da lanchonete era absoluto.
— Porque eu tenho um pedaço de seda que tem exatamente a cor da sua insolência. E eu não suporto ver um material tão nobre esperando por um corpo que nunca chega. Você não quer passar a vida contando os segundos de preparo de ovos, Enid. Você quer ser a razão pela qual as pessoas param de respirar ao entrar em uma sala.
— Isso é um encontro ou uma entrevista de emprego? — Enid perguntou com um sorriso presunçoso nos lábios.
Wednesday não respondeu, apenas saiu, o sino da porta tocou novamente, mas desta vez o som não pareceu tão vulgar.
Enid ficou parada, segurando o cartão que cheirava a cedro e tinta. Ela sentiu um calafrio que não vinha do mar. Pela primeira vez na vida, alguém não a tinha visto como a garota barulhenta.
Alguém a tinha visto como uma obra de arte em potencial.
Ao entrar no carro, Wednesday olhou para Thing.
— Ela é um desastre. Mas a estrutura dos ossos dela... é a mais pura que já vi em muito tempo. — Thing sinalizou dizendo que essa era uma maneira muito esquisita de chamar uma mulher de linda. Wednesday o repreendeu com o olhar.
— Prepare o ateliê. Na terça-feira, o silêncio daquela casa vai precisar aprender a conviver com o barulho.
O motor do carro rugiu e eles partiram, deixando Jericho para trás.
A terça-feira em Londres amanheceu envolta em uma neblina que parecia feita de ferro fundido. Na Eaton Square, o silêncio da mansão era tão absoluto que se podia ouvir o pulsar do relógio de pêndulo no hall de entrada como se fosse o bater de um coração metálico.
Wednesday estava no topo da escadaria, com as mãos cruzadas atrás das costas, observando o ponteiro dos segundos. Exatamente às oito horas, o sino da porta ressoou. Não foi um toque tímido de quem pede licença, mas um toque longo, uma nota dissonante que cortou a atmosfera morta do ambiente.
Thing abriu a porta.
Enid Sinclair entrou, ela usava um casaco de lã rosa-choque, cujos botões amarelos pareciam olhos de gato observando a escuridão do hall. Carregava uma mala de papelão e, sob o braço, um saco de papel que exalava um cheiro doce e enjoativo.
— Cheguei! — exclamou Enid, a voz ecoando nas paredes de mármore. — O metrô é uma confusão, não é? E esse bairro... as casas parecem todas deprimentes. Mas a sua é a mais triste de todas, Addams.
Wednesday desceu os degraus, a silhueta negra recortada contra a luz que vinha da claraboia.
— Você está atrasada trinta e dois segundos, Enid Sinclair — declarou Wednesday, parando a dois degraus de distância. — E o cheiro desta embalagem está agredindo o meu nariz.
Enid olhou para cima, o sorriso não vacilando.
— São pãezinhos de canela. Estão quentes. Quer um?
Wednesday observou o saco como se fosse uma amostra biológica contaminada.
— Nesta casa, o açúcar é um convidado indesejado antes do entardecer. Thing, leve a bagagem da Sinclair para o quarto. Aquele onde faz menos frio.
Thing aproximou-se e pegou a mala com uma reverência. Enid soltou um gritinho de surpresa ao ver a agilidade da mão desmembrada, mas logo riu, batendo palmas.
— Ele é incrível! O que mais ele sabe fazer?
— Ele sabe ficar quieto — retrucou Wednesday, passando por ela em direção ao ateliê. — Siga-me. O trabalho não tolera distrações açucaradas.
O ateliê era um salão de teto alto, onde as paredes estavam cobertas de rolos de tecido que pareciam pergaminhos antigos. Havia um cheiro permanente de giz, cedro e seda fria. No centro, sobre um estrado circular, um manequim de madeira sem rosto esperava por sua vez.
— Quero que você faça uma coisa por mim — Wednesday falou, pegando uma fita métrica de marfim. — Tire o casaco e o vestido. Fique apenas com a roupa de baixo.
Enid hesitou por um segundo, o rubor subindo pelas bochechas, mas a frieza clínica de Wednesday não deixava espaço para modéstia. Ela se despiu, revelando uma pele pálida que parecia absorver a luz cinzenta que entrava pelas janelas altas.
Wednesday aproximou-se. Ela não tocava na pele de Enid diretamente, mas a fita métrica deslizava como uma serpente. Thing posicionou-se ao lado, com um bloco de notas e uma caneta, pronto para registrar a arquitetura daquele corpo.
— Pescoço, trinta e dois centímetros. Longo, mas com uma base sólida — ditava Wednesday. — Ombros, quarenta. Há uma ligeira assimetria no ombro direito. Você carrega o mundo desse lado, Enid?
— Carrego a minha mala de serviço, se é isso que pergunta — murmurou Enid, tentando manter a postura sob o olhar escrutinador.
— Não fale. A fala altera a expansão da caixa torácica — Wednesday aproximou-se mais, o seu hálito com cheiro de chá e hortelã roçando no pescoço de Enid. Ela pegou um pedaço de musselina crua e começou a alfinetá-lo diretamente sobre o corpo da garota.
O som metálico dos alfinetes perfurando o tecido era o único ruído. Wednesday movia-se com uma rapidez feroz, os dedos traçando linhas invisíveis no ar antes de concretizá-las no pano.
— Você é um desastre de movimentos, Enid Sinclair — murmurou Wednesday, os olhos fixos na curva do quadril da garota. — Mas os seus ossos... os seus ossos são honestos. Eles contam uma história de resistência que o seu cabelo colorido tenta esconder.
— E que história é essa? — perguntou Enid, a voz agora mais baixa, capturada pelo transe do processo.
Wednesday parou, um alfinete entre os lábios. Ela olhou diretamente para os olhos azuis de Enid.
— A história de alguém que não tolerará mais ser apenas o fundo da imagem. Alguém que quer ser a forma.
Então Enid olhou em seus olhos e não desviou um segundo sequer.
No jantar, Wednesday sentava-se na cabeceira, Thing servindo um caldo de legumes escuro, bifes e torradas finas. O som da faca de Enid raspando na torrada perfurava o silêncio como um prego mal colocado. Wednesday fechou os olhos, a colher de prata parada a meio caminho da boca.
— Enid — disse Wednesday, a voz vibrando com uma calma perigosa. — O ato de mastigar não é uma performance de percussão.
— Eu estou com fome — respondeu Enid, depois de dar um gole ruidoso no suco. — E esta casa é tão silenciosa que eu sinto que tenho de fazer barulho para ter a certeza de que não morri.
— O silêncio não é negociável nesta casa — retrucou Wednesday, abrindo os olhos e fixando-os na loira. — Se você não consegue habitar o silêncio, não pode habitar esta casa.
Enid deixou cair a torrada no prato e inclinou-se para a frente.
— Você tem medo do barulho, Wednesday Addams. Tem medo de que, se houver muito ruído, você não vai conseguir ouvir as vozes na sua cabeça dizendo como cada ponto deve ser dado. Mas adivinha? A vida faz barulho.
Wednesday sentiu uma irritação que não era apenas profissional. As linhas que desenhara desde que Enid chegara eram as mais audazes em anos.
Mais tarde, quando a mansão estava mergulhada na escuridão profunda da madrugada, Wednesday foi ao ateliê. Ela acendeu uma única lâmpada sobre a mesa de corte.
Os moldes de musselina de Enid estavam lá, uma presença fantasmagórica que guardava a forma da garota. Wednesday passou a mão pelo tecido, sentindo o relevo onde o corpo de Enid pressionara a fibra.
Ela pegou uma agulha fina e um fio de seda negra. No interior da bainha, onde ninguém jamais veria, ela começou a bordar algo. Não eram flores ou padrões. Eram palavras minúsculas, quase invisíveis: O ruído é o preço da visão.
Wednesday sabia que, ao deixar Enid entrar, tinha permitido que o seu mundo perfeitamente alinhado começasse a desfiar. Mas, enquanto observava o molde sob a luz amarelada, ela sentiu uma antecipação sombria. A guerra entre o seu silêncio e as cores de Enid Sinclair estava apenas começando. E ela não tinha certeza de quem sairia vitoriosa.
Ao sair, Wednesday ouviu um som vindo de um dos quartos, Enid estava cantarolando baixinho, uma melodia pop irritante que Wednesday deveria odiar. No entanto, ela parou no corredor por um segundo, ouvindo o som da vida se infiltrando nas fendas da sua casa,
— Durma bem, Sinclair — murmurou Wednesday para as sombras.
A Mansão Addams, durante décadas, foi um monumento à estática. Wednesday sempre acreditara que as paredes de pedra da Eaton Square possuíam uma memória seletiva, retendo apenas o que era austero, gótico e ordenado. No entanto, após quatro meses de convivência e pequenas escapadas com Enid Sinclair, a casa parecia estar sofrendo uma espécie de mutação molecular. Não eram apenas as presilhas coloridas esquecidas sobre o mármore ou o cheiro de gloss de morango. Era algo mais profundo. O silêncio, antes absoluto, agora parecia ter textura.
Wednesday sentava-se em seu ateliê, cercada por rolos de cetim duchesse que brilhavam sob a luz fria. Ela estava tentando trabalhar em uma encomenda, um vestido de jantar que deveria ser a definição de sobriedade. Mas, pela primeira vez em sua carreira, a agulha não obedecia.
Ela sentia a presença de Enid no andar de cima. Era uma percepção sensorial que a irritava profundamente. Wednesday conseguia identificar o exato momento em que Enid trocava de posição na cama, o som abafado de seus passos rápidos pelo corredor e, o pior de tudo, o cantarolar constante que atravessava as frestas do assoalho.
Wednesday fechou os olhos e apertou a ponte do nariz. A base de seu crânio latejava.
— Thing — murmurou ela, sem abrir os olhos. — O som no andar de cima… É uma insurgência, ela faz isso para me confrontar
Thing, que estava organizando os carretéis de linha por gradiente de sombra, parou e fez um gesto rápido, batendo os dedos na madeira em uma cadência que dizia. “Ela está apenas existindo, Wednesday. O problema é como você a ouve. E eu não vejo você reclamar do barulho dela em outras situações.”
Wednesday abriu os olhos, as íris negras como poços de piche.
— Eu a ouço com tudo que eu tenho, Thing. É uma poluição auditiva que desalinha minha mente. Até o cetim está reagindo mal ao ruído dela.
Thing sinalizou com os dedos em uma calma quase irônica. “Então por que você a mantém aqui por todo esse tempo? Porque você escapa para o quarto dela todas as noites?”
Wednesday o ignorou e tentou retomar o trabalho, mas não conseguiu. A Addams buscava a perfeição clínica, a distância emocional que transformava pano em arquitetura, mas cada prega que ela fazia parecia carregar o fantasma do sorriso de Enid Sinclair.
O jantar daquela noite foi uma lição de tensão contida. Wednesday mantinha a coluna tão reta que parecia fundida à cadeira de carvalho. Enid, do outro lado da mesa, mastigava uma maçã com uma alegria que Wednesday considerava uma declaração de guerra.
— Você sabia que o silêncio é a língua materna da morte, Enid?
Enid parou com a maçã a meio caminho da boca e sorriu. Era um sorriso que não pedia desculpas, um sorriso que Wednesday começava a achar perigosamente viciante.
— Então eu sou a vida, Wends. Porque eu não suporto essa distância e indiferença. Você vive num aquário e fica surpresa quando alguém bate no vidro.
— Você não bate no vidro, Enid. Você tenta quebrá-lo com um martelo — Wednesday retrucou, deixando a colher descansar no prato. — Minha rotina não é um capricho. É uma necessidade técnica. Para que eu possa criar, o mundo precisa parar de girar. Mas você... você gira o tempo todo.
Enid deixou a maçã de lado e inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa imaculada, um ato de profanação que fez Wednesday tensionar os ombros.
— Você está cansada, Wednesday. Dá para ver nas suas olheiras. Você não está criando, você está se escondendo. Você usa esses vestidos de gola alta para que ninguém veja que você está se desfazendo pelas costuras.
— Eu não me desfaço — Wednesday sibilou. — Eu sou imutável.
— Nada é imutável — Enid disse, e sua voz suavizou de uma forma que Wednesday detestava. Era uma voz que prometia compreensão, algo que Wednesday nunca pedira. — Até a seda mais cara rasga se você puxar do jeito errado. Você me ensinou isso.
Wednesday levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando com um guincho doloroso. Ela não suportava a clareza daquele olhar. Enid Sinclair, com suas roupas baratas e seu barulho incessante, estava enxergando através da armadura.
— O trabalho de amanhã será dobrado — declarou Wednesday. — Esteja no estrado às seis da manhã. Sem café. Sem canções. Apenas sua estrutura óssea.
Ela saiu da sala, mas a sensação do olhar de Enid em suas costas permaneceu como uma queimadura.
Às seis da manhã, o ateliê estava mergulhado em uma névoa azulada. Wednesday já estava lá, as mãos cobertas por luvas de pelica para não transferir o óleo da pele para o veludo de seda que estava moldando. Mas algo estava errado.
Sua visão começou a falhar nas bordas. Pequenos pontos de luz, como estrelas frias, dançavam diante de seus olhos. A enxaqueca, que vinha se aproximando como uma tempestade silenciosa, finalmente desabou. Wednesday tentou segurar a tesoura, mas os dedos não responderam.
Enid entrou no ateliê, ela não estava usando rosa. Estava com um robe de cetim simples, os cabelos da forma desordenada de sempre. Ao ver Wednesday cambalear, a máscara de modelo impertinente de Enid caiu instantaneamente.
— Wends? — Enid correu até ela, segurando-a pelos ombros antes que Wednesday atingisse o chão.
— Não me toque — Wednesday tentou dizer, mas a voz saiu como um suspiro quebrado. — O veludo... Ele precisa de... Precisão...
— Esquece o veludo, Wednesday! Você está mais pálida que o normal — Enid a ignorou totalmente, passando o braço pela cintura da estilista.
Pela primeira vez em sua vida adulta, Wednesday Addams não teve forças para resistir a um toque humano. O calor do corpo de Enid, que ela sempre considerava ofensivo, agora parecia a única coisa que a impedia de flutuar para longe, para dentro da escuridão da dor.
Enid a levou até a poltrona de veludo no canto do ateliê. Wednesday fechou os olhos com força, a luz do dia que entrava pelas janelas altas agora parecia agulhas perfurando seu cérebro.
— É uma enxaqueca — diagnosticou Enid, movendo-se com uma suavidade que Wednesday não sabia que ela possuía. — Thing, apaga a luz.
Wednesday ouviu o clique dos interruptores e o som das cortinas pesadas sendo fechadas. A escuridão trouxe um alívio momentâneo, mas a náusea continuava lá.
— Eu vou chamar um médico — Thing sinalizou freneticamente.
— Não — sussurrou Wednesday, a mão tateando o ar. — Nenhum médico. Ninguém deve me ver assim
— Ninguém vai te ver assim — disse Enid. — Só eu.
As horas seguintes foram um borrão de sensações para Wednesday. Ela estava deitada em sua cama, o quarto mergulhado em um breu absoluto. A quietude que ela tanto buscava finalmente estava lá, mas ela não trazia a ordem, trazia a solidão.
Até que sentiu o peso do colchão mudar.
Enid estava sentada ao seu lado. Wednesday sentiu o cheiro de algo cítrico, algo doce e calmante. Enid colocou uma toalha úmida e fria sobre os olhos de Wednesday. O toque foi tão leve que Wednesday mal pôde senti-lo, mas o alívio foi imediato.
— Beba isso — Enid sussurrou, ajudando Wednesday a levantar a cabeça. — É chá de ervas. Não tem açúcar, eu prometo.
Wednesday bebeu, o líquido estava morno e tinha gosto de terra e mel de urze. Ela esperou o gosto do veneno, a traição que sempre imaginara que viria de qualquer pessoa que chegasse perto demais. Mas não havia nada além de cuidado.
— Por que você faz isso? — Wednesday murmurou, a voz trêmula.
— O quê? Cuidar de você? — Enid respondeu, e Wednesday pôde ouvir o sorriso triste em sua voz na escuridão. — Porque você é a mulher mais brilhante e insuportável que eu já conheci. E porque eu não suporto ver você se matar.
— Eu sou uma Addams — Wednesday disse, embora a afirmação soasse vazia até para ela, seus pais se amavam mais do que ela conseguia descrever. — Nós somos ilhas.
— Ninguém é uma ilha, Wednesday. Nem mesmo você. — Eu poderia me acostumar com você assim. — Enid começou a massagear as têmporas de Wednesday.
Eram movimentos circulares, lentos, ritmados. No começo, o corpo de Wednesday ficou rígido como um cadáver, e então ela respondeu. — Assim como? Indefesa?
— Indefesa, terna, com apenas eu para te ajudar. E depois, eu quero você forte novamente.
Milímetro por milímetro, Wednesday começou a ceder. A tensão que habitava seus ombros começou a se dissolver sob os dedos de Enid Sinclair.
Enid não venceu a guerra do silêncio com ruído. Venceu com ternura. E o que era mais aterrorizante para Wednesday era perceber que ela não queria que Enid parasse.
Quando a dor finalmente cedeu, deixando Wednesday em um estado de exaustão profunda, a luz da lua começava a entrar por uma fresta na cortina. Enid ainda estava lá, segurando a mão de Wednesday.
Addams abriu os olhos e olhou para a garota. Enid parecia cansada, com o rosto suave sob a luz pálida. O brilho excessivo e as cores berrantes não estavam lá, havia apenas a pessoa.
— Eu destruí o veludo de seda — Wednesday disse, sua voz soando estranhamente humana.
— O veludo pode ser reposto, Wends — Enid respondeu, apertando de leve a mão dela.
— Não. Não pode. Eu o cortei com o ângulo errado. Eu estava distraída.
— Distraída com o quê?
Wednesday hesitou. Admitir a verdade era desmoronar o último pilar de sua resistência. Mas a escuridão do quarto e o calor da mão de Enid tornavam a mentira impossível.
— Com o som dos seus passos. Com o modo como você respira quando está concentrada. Com o fato de que meu ateliê agora cheira a você.
Enid ficou em silêncio por um longo tempo. Ela se inclinou e beijou a testa de Wednesday, um toque casto, mas que carregava o peso de mil promessas.
— Você faz essas coisas lindas. Mas guarda tudo aqui. Parece um túmulo cheio de roupa.
Wednesday não respondeu. Só apertou os dedos em volta da xícara vazia e permitiu que, pela primeira vez em sua vida, outra pessoa ditasse o ritmo de sua respiração. Mais tarde, ela pensaria que a persistência gentil de Enid Sinclair tinha menos costura e mais destruição.
Quando Wednesday despertou na manhã seguinte à sua enxaqueca, ela não encontrou a solidão fria de seus lençóis, mas o peso reconfortante da presença de Enid. A garota havia adormecido ao seu lado na cama, ainda segurando um livro de poesias que Wednesday guardava apenas para ocasiões de extrema melancolia.
A Addams permaneceu imóvel, observando o ritmo da respiração de Enid. Pela primeira vez, a irregularidade do sono da loira não lhe pareceu um ruído a ser eliminado, mas um daqueles poucos que valem a pena ser apreciados. Thing entrou no quarto com o passo mudo que lhe era característico, trazendo o café. Ele parou ao ver a cena e fez um gesto lento de vergonha.
— Thing — sussurrou Wednesday, sentando-se com cuidado para não despertar a garota. — Os pedidos? Como vamos resolver isso…
Thing sinalizou rapidamente “Estão prontos para a montagem final. Mas a Duquesa exige a prova para o baile desta noite. Ela quer perfeição, Wednesday. Ela quer o que você sempre entregou.”
Wednesday olhou para suas próprias mãos, elas ainda tremiam levemente, um resquício da exaustão e do desgaste mental. Ela sabia que o baile daquela noite na embaixada seria o teste definitivo. Londres estava comentando sobre sua "reclusão" e sobre a "garçonete de Jericho" que agora habitava a mansão. Para a alta sociedade, Enid era uma distração, um erro no design impecável da família Addams. Wednesday precisava provar que Enid não era um erro, e se a Addams se permitisse ser um pouco mais sincera, talvez Sinclair fosse um dos seus mais belos acertos.
— Acorde-a — ordenou Wednesday suavemente. — Temos um inferno para administrar.
As horas que se seguiram foram uma maratona, o ateliê transformou-se em uma loucura para a entrega dos vestidos. O da Duquesa era feito de veludo azul-noite tão profundo que parecia absorver a luz do ambiente, com bordados de prata que imitavam constelações.
Mas o verdadeiro desafio não era o vestido da cliente. Era o vestido de Enid.
— Fique parada, Enid — Wednesday dizia, mas sua fala não era como a de meses atrás. Era uma voz firme, sim, mas carregada de uma urgência íntima. — Se você se mover agora, o drapeado do quadril vai ser arruinado.
Enid estava sobre o estrado, exausta, mas com os olhos fixos em Wednesday. Ela usava uma peça que Wednesday vinha desenvolvendo em segredo, uma seda em tom rosa-crepúsculo, uma cor que Wednesday costumava desprezar, mas que agora parecia a única tradução possível para a alma da garota. Era um tom de rosa quase romântico, suave e com um toque acinzentado. Esse tecido parecia emanar Enid.
Thing trabalhava na bainha com rapidez enquanto Wednesday, ajoelhada aos pés de Enid, ajustava os últimos alfinetes. O calor do ateliê era opressor, mas nenhuma das duas reclamava. Havia uma comunicação sem palavras entre elas, um olhar para ajustar a postura, um toque no pulso para acalmar as batidas do coração
— Você vai me levar mesmo? — perguntou Enid, a voz pequena em meio ao som das tesouras. — Eles vão me odiar, Wends. Eu não sou uma delas e provavelmente vou rir na hora errada.
Wednesday parou o que estava fazendo e olhou para cima encontrando os olhos azuis de Enid.
— Eles não vão te odiar, Enid. Eles vão te temer. Eles vão ver em você algo que o dinheiro e os títulos não podem comprar, a verdade. E se você rir na hora errada, eu farei questão de rir com você, apenas para deixá-los confusos.
Enid sorriu, e Wednesday sentiu seu coração acelerar. A fachada indiferente de Wednesday Addams estava desmoronando e ela percebeu que não tinha a menor intenção de reconstruí-la.
O carro delas deslizou até a entrada com elegância, Wednesday saiu primeiro, vestindo um terno de gala preto, cortado com uma agressividade que acentuava sua palidez. Ela estendeu a mão para Enid.
Quando Enid saiu do carro, houve uma pausa coletiva na respiração de quem estava na escadaria. O vestido rosa-crepúsculo desafiava a sobriedade britânica. Ele era fluido, vibrante e possuía uma elegância que não vinha da tradição da família Addams, mas da audácia, coisa que era muito valorizada por eles. Enid parecia uma flor de lótus desabrochando em um campo de cinzas.
Ao entrarem no salão principal, o murmúrio começou. Wednesday sentia as facadas nos olhares das pessoas, principalmente de Taylor Galpin, a protegida da elite e uma das maiores críticas de Wednesday, ela se aproximou com um sorriso que era puro veneno destilado.
— Wednesday, querida. Que escolha interessante de cor — disse Taylor, os olhos avaliando Enid como se ela fosse um erro de impressão em um livro caro. — Eu não sabia que a casa Addams estava fazendo figurinos para festas de debutantes do subúrbio.
Enid tencionou o braço no de Wednesday, mas a Addams não recuou. Ela inclinou a cabeça, mantendo a expressão imutável.
— Galpin. Vejo que você continua usando o azul-cobalto. Uma cor segura para quem teme que a própria personalidade desapareça sem um contraste óbvio — Wednesday disse, sua voz cortante ecoando o suficiente para que os círculos ao redor ouvissem. — E quanto à cor, você está enganada. Não é apenas rosa. É o tom do amanhecer que você raramente vê, já que passa suas noites tentando costurar alianças sociais que sempre se desfazem pela manhã.
Enid soltou uma risada abafada. Taylor empalideceu, as narinas dilatando de fúria.
— E essa aqui quem é? — Taylor perguntou, ignorando Wednesday e focando em Enid. — A famosa garçonete?
Enid deu um passo à frente, soltando o braço de Wednesday. Ela não parecia mais a garota atrapalhada do Weathervane. Havia um poder nela que Wednesday havia ajudado a esculpir, mas que a essência era puramente de Enid.
— Enid Sinclair — disse ela, com a clareza de quem não tem nada a esconder. — E eu sou a razão pela qual os vestidos de Wednesday agora têm alma. Você deveria experimentar ter uma algum dia, Taylor. Dizem que ajuda no caimento da roupa.
O resto da noite foi um borrão de música de câmara e sussurros. Wednesday entregou o vestido da Duquesa, que foi aclamado como uma obra-prima, mas o foco de todos não estava na cliente real. Estava no par improvável que circulava pelo salão.
Em um momento, durante uma valsa, Wednesday e Enid se encontraram sozinhas em um dos balcões externos, longe do calor opressor das multidões. O cheiro da chuva misturava-se ao perfume de gardênias do jardim.
— Eu consegui, não foi? — perguntou Enid, respirando o ar gelado. — Eu não derrubei o champanhe e não xinguei a Duquesa.
— Você foi impecável — admitiu Wednesday, aproximando-se. Sob a luz do luar, a seda do vestido de Enid parecia prata líquida. — Mas o mais importante é que você não se tornou uma delas. Você permaneceu você mesma, mesmo sob o peso de tudo.
Wednesday estendeu a mão e tocou as bochechas de Enid, fazendo um suave carinho em seu rosto.
— Eu estava com tanto medo de te perder para esse mundo, Enid. De que, ao te transformar em minha musa, eu apagasse o barulho que me faz sentir viva.
Enid pegou a mão de Wednesday e a levou ao seu próprio peito, onde o coração batia forte.
— Agora meu barulho bate no mesmo ritmo que o seu silêncio.
E pela primeira vez em um ambiente público, Wednesday Addams permitiu que sua máscara caísse totalmente. Ela não se importava com os sussurros ou com as fofocas que viriam amanhã. Ela inclinou-se sob a ponta dos pés, encurtando a distância, e selou seus lábios nos de Enid.
— Vamos embora — sussurrou Wednesday. — Tudo aqui é pequeno demais para nós duas. E eu tenho um novo desenho na mente, algo que só pode ser desenhado no escuro do nosso ateliê.
Ao voltarem para a casa, ela não parecia mais um túmulo. Thing já havia acendido as lareiras. Wednesday foi direto para o ateliê, tirando com rapidez seu paletó e colete, mas desta vez, ela não pegou a tesoura. Ela pegou o caderno de croquis e sentou-se no divã, observando Enid tirar os sapatos desconfortáveis.
— O que você está desenhando? — perguntou Enid, sentando-se ao lado dela.
— A nossa próxima coleção — disse Wednesday. — Mas não será para essas pessoas esnobes, é acessível e com cores menos deprimentes.
Wednesday olhou para Enid que sorria e, enquanto observava a paz no rosto dela, sentiu uma pontada de ansiedade.
— Você está me analisando de novo, Willa — murmurou Enid, encurtando a distância entre elas ao sentar ao seu lado. O cheiro de Enid agora contaminava o ateliê, a Addams suspirou profundamente quando o cheiro atingiu suas narinas, uma reação que Wednesday não conseguia mais neutralizar.
— Estou tentando entender a sua composição — respondeu Wednesday, a voz saindo mais rouca do que o normal. Ela largou o caderno e levou uma de suas mãos até o pescoço de Enid fazendo um pequeno carinho. — Você é um elemento instável, Enid Sinclair. Preciso decorar cada parte de você. — A Addams sussurrou.
Enid segurou a outra mão de Wednesday, levando os dedos da estilista até o zíper oculto nas costas do vestido, o zíper que a própria Wednesday havia instalado e sabia exatamente onde estava.
— Então pare de desenhar — disse Enid em meio a sorrisos, seus olhos azuis agora pesados e escurecidos de desejo — E comece a sentir o material.
Seus dedos, treinados para a perfeição milimétrica, encontraram o fecho do zíper e com um movimento lento e deliberado, ela sentiu os dentes de metal se abrindo, revelando a pele de Enid como quem descobre o segredo mais valioso de uma peça de alta costura.
Wednesday retribuiu ao sorriso e encurtou a espera ao perceber Enid aproximar o rosto do seu. Os lábios de Wednesday encontraram os de Enid em um beijo lento e tranquilo. Os lábios logo se afastaram com um ligeiro estalar, e as bocas se reencontraram tantas outras vezes, sem pressa para aprofundar o contato, de modo que não fora a primeira e nem seria a última vez que aquele som seria ouvido no silêncio da casa.
Foi Wednesday quem primeiro deixou a língua fazer contato com os lábios de Enid, que apertou o abraço ao redor da cintura da Addams. Isso antes de ambas se afastarem e trocarem breves sorrisos, para logo avançarem contra o beijo novamente. Daquela vez, de lábios entreabertos, espaço suficiente para que suas línguas tivessem entrado em contato assim que suas bocas se tocaram de novo.
Wednesday também se aproximou mais do corpo de Enid e deslizou uma das mãos pela nuca da Sinclair, enterrando os dedos entre os fios de seu cabelo ao trazer o rosto de Enid para perto do seu. Era uma forma de incentivo para que a loira continuasse o que fazia, de um jeito que sempre fazia um arrepio se estender pelo couro cabeludo de Enid. E o jeito como a Sinclair deslizava a língua lentamente contra a de Wednesday também não falhava em arrancar suspiros demorados por parte da Addams.
Wednesday foi quem lentamente desfez o beijo, ela manteve o abraço ao redor dos ombros de Enid e suas testas juntas. O rosto próximo o suficiente para que Wednesday pudesse sentir a respiração tranquila de Enid a tocar o seu rosto.
Enid puxou Wednesday para mais perto e a morena se deixou levar e acomodou as pernas sobre o divã, uma a cada lado do corpo de Enid. Os braços da Addams voltaram a envolver os ombros da loira quase na mesma hora em que Enid também voltou com o abraço pela cintura de Wednesday, que de pronto entendeu o gesto receptivo e repousou o próprio corpo sobre o colo de Enid.
Wednesday a beijou com ainda mais avidez, outra vez deslizando seus dedos rumo ao couro cabeludo de Enid, para manter o rosto da Sinclair tão próximo quanto possível. Era a primeira vez de Wednesday perdendo controle assim no ambiente onde elas trabalhavam, ali no divã depois de meses de beijos trocados.
As mãos de Enid lhe causavam arrepios facilmente, a suavidade da palma contra sua pele contrastava com os apertos mais intensos que Sinclair deixava em sua cintura. As mãos de Enid eventualmente se tornaram mais quentes e quando deslizaram um pouco mais para baixo, sobre o ventre, Wednesday contraiu todo o abdômen e exalou pesadamente. Independentemente de sua vontade.
Aquilo fez Wednesday fechar os olhos e apertar o ombro de Enid com mais força novamente. O seu corpo estava cada vez mais quente, mas seu rosto também. Enid puxou a cintura de Wednesday para perto outra vez com mais força, o contato das pernas de Enid fora próximo o suficiente para que Wednesday soltasse um arfar trêmulo contra o beijo e lentamente começou a mover a cintura. Wednesday soltou um gemido estrangulado ao sentir as unhas da Sinclair arranharem sua cintura em meio a um aperto. Aquilo não ajudou Wednesday em nada que não fosse fazer seu centro pulsar outra vez.
— Willa... — a voz rouca de Enid foi o bastante para fazer Wednesday fechar os olhos e respirar fundo, sentindo-se afetada por aquela mudança de tom que desarmava sua precisão. — Não acha melhor ir para o seu quarto?
— O quão boa você é em não fazer bagunça? — perguntou Wednesday, a voz sussurrada e carregada de uma autoridade que começava a ceder. Ela viu um sorriso crescer nos lábios de Enid antes da mulher buscar seus lábios novamente.
Sinclair levou as mãos aos botões da camisa de Wednesday com a mesma agressividade com que avançava em sua boca, a Addams não abriu os olhos para ver se suas peças de roupas haviam caído sobre o divã ou direto para o chão. Não depois de a boca quente e macia de Enid fazer contato com a lateral esquerda de seu pescoço. Os lábios úmidos subiram pela pele de Wednesday até a região da orelha, enquanto a ponta dos dedos de Enid deslizava suavemente pelas costas da estilista, agora livres do peso do tecido.
A combinação fez o corpo de Wednesday ceder por completo. Por um segundo, não houve mais força na mão que ela apoiava sobre o ombro de Enid, Wednesday precisava do que estava por vir, por mais embaraçoso que fosse pensar que seu corpo pedia, ou melhor, implorava por mais toques de Enid Sinclair.
Wednesday permitiu que a boca de Enid descesse por seu pescoço, sugando sua pele lentamente enquanto afastava os fios de cabelo para trás dos ombros. Enid afastou a alça da lingerie de Wednesday para o lado, deixando o caminho livre para beijos molhados e pequenos chupões pelos ombros e clavícula.
— Você é tão gostosa… — o resmungo de Enid contra a pele arrancou um riso soprado de Wednesday, que apenas deixava seu corpo reagir.
— Você está bêbada? — Wednesday lançou a pergunta com seu humor ácido habitual, mesmo quando a respiração quente de Enid traçava o caminho por seu busto e os lábios da loira voltavam com beijos molhados pela parte de seu seio não coberto pela renda.
Ficava mais difícil manter o silêncio quando as mãos de Enid continuavam a subir por suas costas, rumo ao fecho do seu sutiã. A respiração de Wednesday tornou-se agitada outra vez, e os batimentos cardíacos eram fortes o suficiente para que ela os ouvisse dentro dos próprios ouvidos. A peça se afrouxou após um único clique, e Wednesday deixou que ela deslizasse por seus braços ao receber os lábios de Enid junto aos seus.
Enid abraçou a cintura de Wednesday e a trouxe para mais perto, firmando o corpo da Addams entre seus braços. Wednesday entendeu as intenções de Enid e abraçou o corpo da loira para que ela pudesse erguê-la, deitando-a finalmente contra o veludo do divã.
O beijo que trocavam durou enquanto Enid se ajeitava entre as pernas de Wednesday, que usou a oportunidade para passar as mãos sob o tecido fluido do vestido rosa-crepúsculo, fazendo a seda vibrante se erguer à medida que suas mãos subiam pela cintura da Sinclair. Enid entendeu e permitiu que Wednesday puxasse as camadas de roupa para fora de seu corpo, revelando a forma que a Addams tanto desejava decorar, coberta apenas por uma calcinha minúscula.
As mãos de Enid deslizaram pelos braços de Wednesday, entrelaçando os dedos aos dela. Wednesday inspirou profundamente ao sentir os lábios quentes em seu pescoço mais uma vez. A boca de Enid roçou pela pele ao seguir o caminho para baixo, e Wednesday teve que morder o lábio inferior para descontar a tensão que se acumulava em seu centro.
Outro beijo molhado foi deixado sobre os seios de Wednesday. Enid soltou uma das mãos da estilista ao levar uma de suas mãos até a cintura, ao mesmo tempo em que Wednesday sentiu lábios envolverem o bico de um de seus seios com pressão suficiente para fazê-la erguer as costas do divã. Estímulos que faziam Wednesday apertar os dedos de Enid e firmar o toque sobre os ombros da loira.
Enid percebia o quão impaciente Wednesday estava ficando, por como a Addams erguia repetidamente a cintura em busca de contato. Enid cedia, e um arfar mais brusco era ouvido toda vez que a loira pressionava a própria cintura contra o centro de Wednesday.
Enid não queria fazer Wednesday esperar, ela segurou a mão da estilista e a guiou até seus próprios cabelos, pedindo que Wednesday segurasse os fios com força, isso o suficiente para Wednesday sentir seu íntimo pulsar outra vez. A boca de Enid fez contato com seu abdômen, descendo devagar e fazendo a Addams se contorcer.
As investidas não cessaram, Enid abriu o botão e o zíper da calça de Wednesday, acariciando o meio de suas pernas. Aquilo bastou para que uma expiração trêmula deixasse os lábios da Addams. Wednesday soltou o cabelo de Enid para erguer a própria cintura até que a calça passasse por seu quadril, levando junto sua calcinha e as meias.
Wednesday voltou a beijá-la assim que se viram livres de qualquer tecido. O contato pele com pele era melhor do que qualquer alta costura. Wednesday não conteve o suspirar ao sentir o corpo de Enid contra o seu, exalando pesadamente pelo contato feito entre seus centros.
Enid afastou a boca e levou a mão de Wednesday até seus fios de cabelo outra vez.
— Segura com força.
O pedido de Enid veio sussurrado, seus lábios tocando o ventre de Wednesday enquanto desciam por seu corpo. Enid passou os braços sobre as coxas de Wednesday e deixou um beijo estalado no lado interno de sua coxa, perto o suficiente para fazer Wednesday fisgar novamente. Quando os lábios de Enid de fato alcançaram o centro de Wednesday, ela já tinha ambas as mãos presas aos cabelos da loira, o peito subindo e descendo em espasmos.
O que desmontou Wednesday por completo foi sentir o nariz de Enid fazer contato com sua pele sensível antes de os lábios se fecharem contra o ponto inchado. Wednesday contorceu todo o corpo, Enid sabia exatamente o quão molhada ela estava.
— Eu sei... — sussurrou Enid contra a pele de Wednesday. — Levanta para mim, deixa que eu cuido do resto.
O frio na boca do estômago foi o inverso de como o ar deixou os pulmões da Addams quando ela enfim ergueu a cintura. Wednesday engoliu em seco, ouvindo seus próprios batimentos nítidos demais enquanto Enid se reaproximava. Wednesday segurou novamente o cabelo da Sinclair, e a respiração quente de Enid tocou seu íntimo enquanto a língua de Sinclair subia por toda a sua extensão.
Aquilo fez Wednesday se contorcer no divã e abrir os lábios, deixando apenas ar escapar enquanto segurava os fios de Enid com firmeza. Enid continuou, sugando-a com pressão até Wednesday rebolar contra seu rosto. A mente de Wednesday ficou em branco, era Enid Sinclair ali, fazendo-a se sentir daquela forma. Pálpebras pesadas diante do toque aveludado da língua, Wednesday não controlava mais o volume de seus arfares.
Enid surpreendeu-a com o toque de dois dedos circulando sua entrada. Wednesday abriu os olhos, encarou Enid e assentiu. Wednesday comprimiu a boca e agarrou o veludo do divã, suas costas arquearam quando os dedos de Enid deslizaram para dentro dela. O jeito como seu interior contraía esmagando os dedos de Enid era humilhante, mas Wednesday precisava daquilo.
Sentir os dedos de Enid fez Wednesday perder momentaneamente o fôlego, sentindo cada milímetro de suas paredes internas sendo acariciado. O ritmo aumentou até Wednesday perder qualquer inibição, rebolando contra a mão de Enid e segurando a cabeça da loira contra si para que o contato oral não cessasse.
Cada toque da língua de Enid causava espasmos por todo o corpo de Wednesday.
Wednesday contraía os dedos dos pés e mordia o lábio toda vez que seu interior apertava os dedos da Sinclair. A respiração de Wednesday era cada vez mais alta e trêmula, ela perdeu a noção do ritmo. Enid a guiava agora e, pela primeira vez, ela não queria estar no controle.
Tinha algo na intensidade refletida nos olhos de Enid.
Wednesday fechou os olhos e tombou a cabeça para trás quando o pulsar de suas paredes internas tornou-se insuportável contra os dedos de Enid. Um gemido baixo escapou contra sua vontade. Wednesday apertou os olhos com força, buscando autocontrole, enquanto sua mão livre agarrava o veludo do divã com toda a força que restava.
Wednesday estava entrando em seu clímax, um formigamento percorreu seu corpo e o coração bateu forte. Suas pernas enrijeceram e, mesmo percebendo os espasmos, Enid não diminuiu o ritmo forte e rápido.
O corpo de Wednesday estremeceu outra vez e seu aperto em Enid foi o mais intenso de todos quando as contrações tornaram-se demais. Foi quando mais espasmos tomaram todo o corpo de Wednesday e sua mente esvaziou por completo. Ela sentiu-se leve ao inclinar a cabeça, sem noção do quão alto seu suspiro final fora enquanto se desfazia sobre os dedos de Enid.
Wednesday precisou de tempo para voltar a si. A respiração ainda era lenta e profunda quando enfim abriu os olhos. Outra expiração trêmula escapou enquanto notava sua cintura seguindo o movimento lento dos dedos de Enid. A boca de Enid subiu pelo abdômen, deixando beijos e chupões pelo pescoço até morder o lóbulo da orelha de Wednesday, provocando um último arrepio.
Seus lábios se encontraram novamente. O olhar de Wednesday estava baixo e perdido, enquanto o de Enid brilhava com excitação e admiração. Wednesday retribuiu o beijo no ritmo lento em que fora iniciado, sugando cada lábio de Enid antes de permitir que a loira aprofundasse o beijo. Os dedos de Enid deixaram seu interior e a loira usou ambos os braços para apoiar o peso sobre a estilista.
Enquanto o beijo era sustentado, Wednesday abraçou o corpo de Enid, acariciando as costas e o ventre da Sinclair. Wednesday notou como Enid contraiu toda a musculatura conforme seus dedos desceram. Enid prendeu a respiração quando Wednesday tocou o interior de sua peça íntima, e um suspiro longo pesou contra o rosto de Wednesday.
Enid estava quente e molhada, Wednesday percorreu os dedos pelo íntimo da outra, sentiu-se segura ao notar o corpo de Enid tremer em resposta e a loira empurrar a cintura para frente. Wednesday estimulou o clitóris inchado de Enid em movimentos circulares, obrigando-a a se afastar do beijo. Enid manteve a testa apoiada contra a de Wednesday, rebolando contra os dedos da Addams.
Wednesday observava o rosto corado e os lábios partidos de Enid, achando-a ainda mais linda naquele estado de desespero. O ritmo da respiração de Enid aumentava, e ela deixou o corpo cair sobre Wednesday, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Vira...
Enid aquiesceu e deitou-se de costas no divã. Wednesday afastou as mãos do corpo da loira enquanto Enid se livrava da última peça. Wednesday aproximou-se, uma perna fazendo pressão contra o sexo quente de Enid. Wednesday exalou pesadamente ao sentir o calor de Enid contra sua coxa, enquanto a loira roçava contra ela.
A mão de Wednesday colocou-se entre o íntimo de Enid e sua própria perna, dois de seus dedos penetrando o interior da Sinclair com força. Estava ainda mais quente ali, pulsando contra Wednesday. Enid empurrava a mão da estilista num pedido silencioso para que ela fosse mais forte, e assim Wednesday o fez. Enid assentiu, de olhos fechados, segurando firme nos cabelos de Wednesday.
Wednesday manteve a velocidade, o polegar exercendo pressão sobre o ponto sensível. Sentir era ótimo, e observar fazia Wednesday mover a própria cintura para aliviar a tensão em seu centro. Os lábios de Enid permaneciam entreabertos, por onde escapavam gemidos baixos. Wednesday sentiu os dedos de Enid apertarem seus fios de cabelo quando seu interior pulsava.
Addams aproveitou o pescoço exposto para descer a boca por ali, mordendo de leve a lateral do pescoço de Enid, que gemeu alto. Wednesday inalou o cheiro de Enid e começou a descer com beijos molhados, permitindo que sua língua acariciasse a pele sem pressa. O jeito como Enid rebolava em seus dedos só ficava mais intenso e necessitado.
As contrações do interior de Enid tornaram-se constantes quando a loira arqueou as costas, a mão esquerda agarrando desesperadamente as costas de Wednesday. Quando a perna de Enid envolveu sua cintura, Wednesday teve certeza de que ela estava quase lá, então ela começou a ir mais forte, o barulho das suas estocadas era ensurdecedor.
— Wednesday, por favor…
O corpo de Enid começou a vibrar. Wednesday iniciou um beijo profundo para abafar os gemidos altos de Enid quando as súplicas saíram da sua boca e os espasmos a percorreram. Wednesday sentiu seus dedos serem esmagados pelas paredes internas de Enid e o calor da Sinclair escorrer por seus dedos.
Lentamente Wednesday retirou os dedos. Por um segundo, considerou o gesto seguinte, e então o fez, não por cerimônia, mas porque recusar seria uma forma de pudor, e ela não tinha pudor.
Wednesday apoiou as mãos ao lado de Enid, deslizando os lábios pelo corpo da loira outra vez com beijos molhados, mordiscando o seio. Wednesday olhou uma última vez para Enid e, ao ver o sorriso cúmplice dela, também ergueu o canto dos lábios mostrando suas covinhas.
Ela faria Enid feliz aquela noite. Até a exaustão, se necessário.
Wednesday estava sentada no divã, o caderno de croquis repousando em seu colo. Ela não desenhava. Seus olhos negros estavam fixos em Enid, que estava sentada no estrado, envolta em um robe de seda escura, observando as chamas da lareira com uma quietude que Wednesday levara meses para compreender.
Thing estava em um canto, polindo uma caixa de agulhas de prata com uma lentidão contemplativa. Ele sabia que o ar na sala estava carregado. Havia uma eletricidade entre as duas mulheres, o tipo de tensão que o fez se retirar o mais rápido possível.
Wednesday limpou a garganta. O som, embora baixo, pareceu ressoar por todo o ateliê. Enid não se moveu, mas Wednesday notou o leve tensionar de seus ombros.
— Essa casa... — começou Wednesday, sua voz soando mais profunda e carregada — Sempre foi um monumento ao meu próprio isolamento. Eu a construí para ser um cemitério onde nada pudesse me distrair da minha busca pelo perfeito. Eu acreditava que o amor era uma impureza no tecido, algo que causaria rugas na seda e desequilibraria a proporção.
Enid virou o rosto lentamente. A luz do fogo dançava em seus olhos azuis, tornando-os hipnóticos.
— E agora, Wednesday? — perguntou Enid suavemente.
Wednesday levantou-se e caminhou até a janela, observando os flocos de neve que começavam a cair.
— Agora, eu percebo que a perfeição é um túmulo. Eu passei anos vestindo fantasmas, tentando dar estrutura a mulheres que não tinham alma própria. E então meses atrás encontrei você naquela lanchonete, com seu barulho e suas cores ofensivas, destruiu tudo que eu achava que era certo
Wednesday virou-se para Enid. Pela primeira vez, a mulher parecia vulnerável.
— Eu sou uma mulher difícil, Enid. Eu sou obsessiva, sou cruel quando estou exausta e exijo um silêncio que ninguém mais suportaria. Eu sou o fio que aperta demais. Mas a ideia de voltar ao que eu era antes… A ideia de acordar e não ouvir o seu ruído no nosso quarto... É o único pensamento que realmente me apavora.
Wednesday aproximou-se do estrado. Ela não subiu nele, ela permaneceu abaixo, olhando para Enid como se estivesse diante de um altar que ela mesma ajudou a erguer, mas que agora a transcendia.
— Eu não quero que você seja apenas minha musa. Eu não quero que você seja apenas a pessoa que cuida de mim quando minha mente falha. Eu quero que você seja a dona de tudo que eu sou. Eu quero que cada contrato, cada etiqueta e cada bainha invisível desta casa carregue o seu nome tanto quanto o meu.
Houve uma pausa longa. O som da lenha estalando na lareira era a única pontuação. Enid permaneceu em silêncio, o rosto imperturbável, observando Wednesday com uma intensidade que fazia o ar pesar.
Wednesday sentiu um aperto no peito, aquela palpitação que ela passara a vida tentando suprimir. Ela deu um passo à frente, as mãos escondidas nas costas para que Enid não visse o leve tremor em seus dedos.
— No que você pensa tanto? — perguntou Wednesday, a voz quase um sussurro, buscando desesperadamente ler o que estava por trás daquela quietude.
Enid não respondeu imediatamente. Ela continuou olhando para Wednesday, deixando que o silêncio se esticasse até o limite do suportável.
— Você aceita se casar comigo, Enid? — Wednesday perguntou pela primeira vez. Sua voz era firme, mas carregada de urgência.
Enid inclinou a cabeça levemente, mas seus lábios permaneceram selados. Ela parecia estar pesando cada palavra que Wednesday dissera, cada dia de atrito e cada noite de cuidado, cada madrugada de amor.
Wednesday deu mais um passo, agora encostando os joelhos na borda do estrado, mantendo seus olhos para cima, fixo na mulher que tanto amava.
— Enid... você aceita se casar comigo? — perguntou pela segunda vez. Desta vez, havia uma nota de súplica, algo raríssimo e precioso na voz de Wednesday, mas tão comum entre seus pais, agora ela sabia como Gomez se sentia.
— Você está esperando alguma coisa? — Wednesday perguntou, a voz falhando no final.
Enid levantou a mão e tocou o rosto de Wednesday, os dedos quentes contra a pele pálida e fria. Ela traçou a linha do maxilar de Wednesday. Ainda não respondia. Wednesday fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso daquele toque. Ela abriu-os novamente, fixando-os nos de Enid com uma honestidade devastadora.
— Por favor, meu amor, você quer se casar comigo? — perguntou pela terceira vez.
Enid Sinclair finalmente sorriu. Não foi o sorriso vibrante e ruidoso de antes, mas um sorriso calmo, profundo e vitorioso. Ela finalmente deslizou para fora do estrado.
— Eu achei que você nunca ia perguntar do jeito certo — sussurrou Enid, envolvendo o pescoço de Wednesday com os braços. — Eu aceito, Wends. Mas aviso, eu vou continuar colocando cores vibrantes na sua vida.
Wednesday soltou um suspiro de alívio que pareceu drenar toda a tensão acumulada de uma vida inteira. Ela abraçou Enid, enterrando o rosto no pescoço da loira.
— Eu não esperaria nada menos de você — murmurou Wednesday contra a pele dela.
Naquela noite, Wednesday olhou para Enid uma última vez antes das luzes se apagarem.
— O que foi? — perguntou Enid, rindo baixo.
— Nada — respondeu Wednesday, voltando à sua expressão habitual de seriedade, mas com um brilho novo nos olhos. — Eu estava apenas pensando na seda pura do seu vestido de noiva... Terá que ser o mais negro que o mundo já viu.
Enid riu, e o som preencheu cada canto da casa, Sinclair poderia aceitar se casar de preto, como uma boa Addams.
