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"A natureza humana - continuei - é limitada: podemos suportar a alegria, o sofrimento, a dor, mas só até certo ponto; quando ele é ultrapassado, sucumbimos. Portanto, aqui não se trata de saber se um homem é forte ou fraco, mas se é capaz de suportar a medida de seu sofrimento, seja moral ou físico."
Os sofrimentos do jovem Werther - Goethe.
A história do mundo é a história da violência. As sociedades se construíram em meio uma enormidade de guerras e abusos. A era dos samurais no Japão; a Revolução burguesa, na Europa; as ditaduras militares nas Américas, entre inúmeros outros momentos de ruptura banhados a sangue, suor e desigualdades. Criminoso, revolucionário e violento. A esses processos poderia ser atribuído até certa beleza disruptiva. Uns nascem, outros morrem. Uns ganham, vários perdem, e novos mundos se constroem. Viktor estava acostumado com as revoluções históricas. Conhecia bem muitas delas, em suas peculiaridades, reformuladas e recontadas em diferentes livros, documentos, reviradas por inúmeros autores. Evidências reais, mas parciais, de uma realidade construída muito antes de tudo aquilo que compreendia como verdade, porque sua vida estava cimentada em outras formas de violência.
No momento que vivia era constantemente abordado em batidas policiais, voltando para periferia da cidade após um dia exaustivo de trabalho. Na adolescência, seus professores duvidavam que pudesse entrar em uma Universidade de prestígio (um equívoco! Ele entrou em todas as quais aplicou. O que não conseguiu foi se manter por questões financeiras) e na infância, conheceu a primeira das violências, impostas sobre seu corpo frágil e enfermo. Porque mais violento que um corpo doente, era a existência de um tratamento inacessível, caro demais para custear e indisponível pelo plano de saúde - que Viktor pagava com muito custo, usando seu salário de professor e pesquisador. Os últimos dois anos representaram uma crise em seu sistema: pulmões que se afogavam em água e muco; algumas crises convulsivas, noites febris, retorcido na cama, consumido pela dor lancinante que irradiava da coluna às pontas dos pés.
Voltando do laboratório, em uma das avenidas do seu bairro, em Palmeiras, Viktor observava o conjunto de miseráveis, amontoados com cobertas e papelões sobre o corpo, na calçada fria e fétida. Seus ossos se misturavam ao lixo das caçambas, o resto dos alimentos disputados por homens e animais. A aspiração instintiva por sobreviver e matar a fome, se mesclando no reconhecimento entre duas espécies diferentes, que se encaravam na semelhança da inexistência, no cheiro dos próximos rabos, no latir das noites escuras. Humanos animalescos, menosprezados pelas ausências, de posse, de espaço, de documentos, e ignorados pela persistência em se fazer presentes no cheiro marcante, na busca por alimentos, nos espaços que tomavam nas calçadas, por serem espelho da indiferença. A fumaça branca com cheiro doce cobria os rostos confusos, perdidos na sensação prazerosa de intumescência, a mente nada mais que um borrão, longe das próprias faculdades intelectuais. Homens e mulheres, jovens e velhos, todos fodidos miseráveis. Talvez, por isso, se identificasse tanto. Todos eram fugitivos da própria condição física e emocional, curvados às próprias incapacidades, obrigados a encarar as limitações da carne sobre o espírito, das emoções sobre a razão. Eles davam à vida seu sentindo mais sublime, o de não delimitar nada, não exigir em si a coerência dos desejos forjados pelas próprias necessidades, muitas delas fabricadas. Uma ideia que Viktor considerava aprazível, que ponderava com mais frequência.
Havia gastado suas últimas economias processando o Estado para que custeassem seu tratamento médico. Sua advogada, Mel Medarda, era excelente, mas o Estado tinha a máquina pública a seu favor. Depois das despesas com o processo, mesmo com Mel não cobrando honorários, Viktor não tinha o suficiente para prosseguir na luta por sua saúde. Mais um dos renegados do mundo. Um corpo vivo em decomposição acelerada, mas que abrigava uma mente, ainda pungente. Duas partes de si em completa dissonância, enquanto uma morria, a outra resistia, abundando em inúmeras ideias que temia levar consigo para o túmulo antes de ter a liberdade em executá-las. Mas essa é a vida! Ao menos a sua vida, dizia a si mesmo. Alguns nascem, outros vivem, muitos sobrevivem e nem todo o corpo resiste ao peso da existência, a aos inúmeros efeitos colaterais de se compartilhar o mundo com outros seres pequenos, poderosos, degradantes. Nos dias ruins, Viktor era apenas amargamente pessimista. Nos dias bons, pesquisava novos tratamentos disponíveis, pensava em quanto tempo levaria até conseguir poupar seu salário limitado para ao menos sonhar com uma vida mais digna. Se a vida lhe havia reservado morrer as mínguas em casa, que ao menos fosse em uma cama confortável, com lençóis macios. Nos dias normais, buscava viver como se nenhuma dor existisse, ocupando sua mente com amenidades felizes do cotidiano, sua pesquisa, música e a cerveja barata do bar a dois quarteirões da sua casa. As amenidades diárias não matavam as problemáticas, e Viktor empilhava calendários com dias ruins muito mais que dias comuns e, talvez isso, juntamente com o medo profundo que lhe acometia quando sua mente delirava em dor, e ele já não era dono nem do corpo, do espírito ou de suas faculdades mentais, tenha sido suficiente para fazer com que se arrumasse de forma um tanto mais elegante que o comum, e caminhasse em direção a área nobre da cidade para se encontrar com um completo estranho.
Viktor parou frente a um restaurante italiano, com uma fachada bonita e portas de madeira e vidro, adornadas de forma modesta. O reflexo de sua figura mostrava um futuro próximo, onde cruzava corredores em uma cadeira de rodas, um tubo de oxigênio ao lado e o apego a vida pueril.
Ele se aproximou do homem parado a porta, frente ao que parecia um púlpito de madeira, sobre o qual repousava aberto um pequeno caderno. O homem lhe olhou prolongado, antes de se dispor a realmente lhe atender. Viktor se apresentou, explicando que sua reserva estava no nome de Jayce Talis.
Um outro funcionário, mais jovem e mais simpático lhe acompanhou restaurante adentro. Sobre a pele escura reluzia a luz amarelada dos lustres adornando o teto, dando ar de grandeza ao salão com mesas diversas. Mais ao fundo, o homem parou frente a uma mesa redonda, onde estava Violet sentada na cadeira oposta a um homem de expressões fortes, com um olhar tranquilo. A mesa na qual estavam era frente a uma larga janela, frente ao rio Hovyu, que cortava o centro da cidade pelo canal repleto de turistas em pequenas embarcações, iluminadas pela lua cheia no céu e pelos postes encurvados sobre o canal.
— Senhor Talis, o senhor Ortiz está aqui. - O homem de voz gentil e polida se curvou brevemente antes de se retirar, tão discreto quanto havia chegado.
O Senhor Talis se levantou, ficando em um nível semelhante ao de Viktor, a quem estendeu a mão cortês.
— Bem-vindo, Viktor. Por favor, sente-se! — A voz potente e baixa do homem reverberou pelo corpo de Viktor, que assentiu, com um leve meneio de cabeça, então sentou-se próximo a Violet, que deu um sorriso presunçoso. Ela colocou um punhado de cabelos por detrás da orelha, e inclinou a cabeça levemente, encarando o amigo.
— Você realmente veio. — Seu ar tinha pouco de dúvida.
— Como havia dito que faria.
— É como dizem os cristãos, tem aqueles que precisam ver para crer. — Riu do próprio comentário. — Agora, se vocês me dão licença, estarei no bar até que os rapazes terminem sua conversa de gente grande.
Ela se levantou e recolheu o copo de whisky sobre a mesa.
— Você sabe que não precisa levar o copo com você. — O senhor Talis falou, com um sorriso casual demais para a pouca intimidade que Violet alegava ter com o homem.
— Eu gosto de terminar minhas bebidas, Jayce. – Contestou, erguendo seu copo ao ar, em um brinde mudo.
— Ela tem uma baita personalidade. – O homem, que Viktor agora sabia se chamar Jayce, disse sorrindo.
— Não posso discordar! – Viktor respondeu.
Uma garçonete se acercou a mesa, mostrou a Jayce a garrafa de vinho e serviu um pouco da bebida na taça, aguardando pacientemente enquanto o anfitrião provava a bebida e, só então, autorizada que fosse servida. Era um processo muito curioso e ritualístico, como se Jayce fosse um animal capaz de decupar o sabor de cada uva, cada conservante, da molécula de água presente naquela bebida.
— Para ser honesto, não entendo nada de bebidas. – Viktor franziu o cenho, sem entender o porquê da justificativa. —Você não disse nada, mas fez uma cara quando provei o vinho.
— Oh, eu não estava julgando. – Mentira, mas Jayce não precisava saber.
— Você estava! – Jayce riu. — Mas eu também julgaria. É só que surge um certo constrangimento quando protocolos são quebrados.
— Protocolos, tais como provar vinho? – Viktor inquiriu, com uma sobrancelha levantada.
— Exatamente.
— Vivendo e aprendendo. – Deu de ombros. — Mas senhor Talis, Violet me convenceu a encontrá-lo, sem me dizer nada a seu respeito, ou a respeito da sua proposta. O que sei é que o senhor tem meios de me ajudar, o que muito me interessa.
A expressão polida de Jayce deu lugar a uma postura relaxada, os músculos dos braços marcando a camisa de seda que vestia.
— Tudo bem, podemos tratar de negócios antes mesmo de comer. Viktor, – Suas sobrancelhas se juntaram em preocupação – tudo bem te chamar assim?
Viktor acenou com a cabeça.
— Viktor, só peço que me escute até o fim, antes de ter qualquer reação negativa. Então, podemos discutir qualquer dúvida que você venha a ter.
Os mais de dez minutos que seguiram não poderiam ser descritos de outra forma senão uma apresentação quase acadêmica do porquê Viktor deveria ajudar Jayce a conseguir cidadania Uruguai mediante fraude. Jayce era um bom orador, carismático e convincente.
— É uma proposta simples. – Ele começou. — Preciso da cidadania Uruguaia com certa urgência, e essa é a forma mais simples de conseguir.
— Se casando comigo? – Viktor levantou uma sobrancelha, incrédulo.
— Não precisaria ser necessariamente com você. – Viktor fez uma careta. — Desculpe a indelicadeza, mas Violet mencionou suas questões médicas, que exigem inúmeros tratamentos, alguns bem caros. Sendo bem objetivo, Viktor, eu tenho dinheiro. Bastante dinheiro. – Deu ênfase, com um tom de voz sério. – Mais do que poderei utilizar nessa vida. Então, caso você aceite, registraremos nossa união no cartório, comunhão total de bens, mas antes mesmo podemos criar um documento assegurando minha responsabilidade financeira com seu tratamento. Obviamente, precisaremos morar juntos e estabelecer algum tipo de relação amigável, para maior credibilidade, uma vez que, quando eu aplique para cidadania, eles vão checar minha vida pregressa e, provavelmente, a sua. Eu tenho um apartamento na cidade, que comprei a alguns anos, no qual podemos viver. É espaçoso o suficiente para que você fique bem e mal tenha que me ver. Mas se preferir, podemos morar na sua casa, não me oponho. – Viktor estava dividido entre o maravilhamento e o horror. Não conseguiu segurar o riso ao imaginar alguém como Jayce, um homem que provava vinhos caros em restaurantes de luxo, morando em seu aparamento de 42m²
O riso comedido de Viktor era, na mesma medida, sincero. Seus olhos fechados e corpo trêmulo pela imagem pitoresca de um Talis vivendo no subúrbio fez com que Jayce se calasse.
— Desculpe, é só que a ideia de você morando na minha casa é, no mínimo, engraçada.
— Fico feliz que depois de tudo que eu disse você consiga ao menos rir. – Respondeu com um sorriso. – E aí? O que me diz?
— Realmente, soa como uma proposta, quase um contrato laboral. – Suspirou, pensativo. — Veja bem, Jayce – Viktor repousou o queixo sobre as mãos cruzadas, o cotovelo apoiado sobre a mesa com força igual à que a mente usava na tentativa de uma lógica em toda aquela colocação, – a proposta toda é incrivelmente tentadora. Boa ao extremo. Não vou fingir que não preciso do tratamento, na verdade, se eu fosse uma pessoa mais sensata, estaria de joelhos e te agradecendo por basicamente estar tentando salvar minha vida. Mas o que não entendo é o porquê da cidadania. O que você ganha com tudo isso?
Dois dias após o jantar, Viktor se reuniu com Jayce e um advogado em uma das salas de reunião da Talis Inc. Mel Medarda, segura de que o acordo proposto era bom o suficiente para se considerar sorte grande, o representou, com todos os honorários pagos por Jayce. As fotos do casamento civil foram utilizadas na decoração do duplex, em uma parte nobre da cidade, do qual agora era dono legal. Seu antigo cubículo, que chamava de casa, ocuparia apenas 1/3 da sala da sua nova moradia. O apartamento era bem iluminado, com móveis assinados por grandes designers, os quais Viktor desconhecia. As paredes amplas estavam adornadas por obras de arte belíssimas, que conseguia apreciar várias vezes ao dia, como um lembrete do acesso a um mundo de delicadeza e sofisticação que não era originalmente seu. A sensação de alívio foi substituída por uma culpa tremenda. Viktor não era um homem resignado, estava habituado a lutar para viver, para existir, e dentro do seu pessimismo atuante, sentia que seus dias se convertiam em uma espécie de esperança palpável.
Três semanas pareciam insuficientes para se criar paranoias, e Viktor conscientemente se prendia ao bônus do contrato com o homem que estava conhecendo. De volta do atendimento com um especialista que nunca tivera dinheiro suficiente para sequer uma simples avaliação, Viktor sentiu o vazio do apartamento lhe engolir.
Em seus primeiros dias ali, ele estava seguro de que Jayce se escondia em um dos inúmeros quartos da casa, inacessível, como um fantasma. Não demorou para se dar conta de que Jayce trabalhava muito, resolvendo coisas da empresa, em ligações e inúmeras chamadas até tarde; muito tarde da noite. E acordava cedo, às vezes antes de Viktor. Ele nunca comia em casa, mas mantinha a geladeira e armários abastecidos com alimentos de marcas que Viktor nunca havia ouvido falar.
Aquele era um dia especial, merecia beber para comemorar a notícia de que seu caso era promissor. “Um brinde a vida!”, sussurrou para o vazio da sacada, no abismo da madrugada. O barulho da aliança contra a taça correu sua espinha. Era um anel simples, de ouro, na parte interior, em uma letra firme e bonita, lia-se “Jayce Talis”. Um círculo dourado com o ciclo eterno da vida de um casal.
“O que você ganha com isso?” Viktor havia perguntado a Jayce, na noite em que se conheceram.
“O direito de morrer.” O sorriso caloroso de Jayce não fazia jus as palavras frias.
Viktor tinha certeza de que o anel pesava mais pela noite, quando se deitava sob cobertas suaves e permitia sentir o desprezo que nutria diariamente por Jayce. Das áreas pobres e esquecidas da cidade, em um país pouco desenvolvido, Viktor construiu uma carreira, fez amigos e lutou incansavelmente por sua vida, enquanto Jayce sucumbia ao desejo frágil de controle.
— Você disse que é brasileiro, mas seu espanhol é perfeito. – Essa era a primeira conversa significativa que Viktor engajava com Jayce, enquanto caminhavam para a fila do cinema, em um dos encontros quinzenais que tinham, com o objetivo de ampliar o que sabiam um do outro e criar provas da sua relação.
— Meu pai é brasileiro, mas minha mãe é mexicana. Em casa falávamos em espanhol e passávamos as festas de fim de ano no México, com a família da minha mãe.
— Então na sua casa era sempre “madre” e nunca “mãe”? – Jayce franziu o cenho para o português anasalado de Viktor. — Estudei com um grupo de brasileiros na faculdade e aprendi algumas palavras.
Os encontros eram tão fáceis e simples que tornavam o retorno ao apartamento algo indesejado e pesaroso. Jayce era sempre atento quanto a seus gostos e opiniões, memorizava quando Viktor não comia alguma coisa, sabia os lugares que mais gostava de ir e se lembrava de nomes de pessoas nas histórias que ele contava. Mas depois que entravam no apartamento, corpos limpos e mentes cansadas, Jayce dizia um boa noite cálido e sumia em um dos quartos, reaparecendo dias depois, para mais um compromisso “de casal”.
Mas as semanas, que se converteram logo em meses, acumulavam certa familiaridade, e Viktor também aprendia a reconhecer o homem com quem vivia. Jayce não gostava muito de arroz, era fraco para álcool e às vezes comia quesadillas de madrugada. Esse era outro aspecto importante da convivência, Jayce tinha insônia, algo recente, segundo ele, mas que quase matou Viktor de susto um dia, quando acordou no meio da noite, incomodado com a dor na coluna. Ele caminhou até a cozinha, tateando o espaço com a bengala pela escuridão da casa, e se espantou com a figura desgrenhada de Jayce, sentado no balcão da cozinha ao lado de um prato de quesadillas.
— Você aceita? – Ofereceu em meio a risada alta provocada pelo rosto lívido de Viktor, paralisado pelo susto.
Viktor não respondeu. Caminhou em silêncio até o armário, de onde retirou um copo, encheu de água e tomou seus remédios, para, então, se juntar a Jayce, recostando-se no balcão. Sua coluna doía demais para ficar sentado em uma superfície tão dura, como o balcão de pedra.
— Noite ruim? – Jayce perguntou, apontando para o copo.
— Nada de novo sob o sol. – Viktor deu de ombros. — E você, não dorme?
Jayce riu.
— Eu vou ter tempo para dormir em breve.
Viktor franziu o cenho, sem entender.
— O sono dos justos. – Explicou sorrindo. Aquele era um hábito de Jayce, dizer coisas mórbidas com o sorriso mais solar que Viktor conhecia. Mas ele estava seguro de que se tratava de algo recente, adquirido com a resignação de que o corpo é falho e a vida finda. Resignação expressa na opacidade dos olhos, cujo sorriso não conseguia alcançar.
Como resposta, Viktor apenas revirou os olhos.
— Você faz essas piadinhas com sua família?
— Não. – Respondeu, mordendo mais um pedaço da comida. — Eles não aguentariam, especialmente minha mãe. Eles se importam demais, então não ia ter graça nenhuma, eu só ia parecer um cuzão.
— Eu te acho um cuzão.
— Eu sei. – Jayce riu. – Mas você não liga o suficiente para se afetar.
Era a primeira vez que Viktor usava um carro particular para ir à fisioterapia. Mesmo morando no apartamento dos Talis – que legalmente era seu, mas ainda parecia mais de Jayce do que dele, e mais da imobiliária do que dos dois – Viktor se esforçava por não esbanjar. Muito da sua vida seguiu igual após o casamento. Ele acordava cedo todos os dias, se alongava devagar, comia o desjejum composto de pão, ovo e uma charmoso copo de café cheio de pílulas que mantinham seu corpo tão operante quanto possível. Agora, se permitia frutas e iogurte, nas quais adicionava um pouco de mel. Nos dias que lecionava, ia de ônibus para a Universidade, depois de ônibus para as sessões diárias de fisioterapia.
Quando sua sorte era grande, entrava no ônibus e encontrava as cadeiras destinadas a deficientes desocupadas, e podia se sentar tranquilo, enquanto lia algum artigo, ou revisava suas aulas. Entretanto, na maioria dos dias viajava espremido entre as pessoas, balanceando a mochila e a bengala, enquanto segurava em algum apoio. Em poucas ocasiões, alguém lhe oferecia o lugar, quase sempre com um olhar de condescendência tão desprezível que aceitar a oferta feria demais seu orgulho, deixando como opção mais honesta resistir a dor e seguir em pé. E ele perdurava, resistia até os músculos queimarem em choques dolorosos, que faziam suas pernas tremerem e a espinha repuxar, obrigando-o a ceder da maneira mais vexatória possível, incapaz de viver as próprias emoções, de alimentar o próprio ego, mutilado pela dor dilacerante.
Então, repensando sua vida por completo, não pareceu absurdo quando Jayce um dia, meio embriagado, lhe chamou de idiota.
— Me diz a verdade, você sabe qual o limite do seu cartão? – Jayce perguntou, com a cara fechada.
— Nunca olhei.
— Eu sei que você nunca viu. Seu cartão, o limite – soluçou –, é alto pra caralho. Usa o cartão e para de andar de ônibus. É só dinheiro, Viktor. Coisa que agora você tem de sobra.
Viktor não esperava que Jayce filho de papai, nascido em berço de ouro Talis compreendesse o que é crescer na escassez. Ser pobre ao ponto de economizar para o ônibus usando o dinheiro do jantar, de mentir para conseguir trabalhos laborais que seu corpo não suportaria porque ninguém acredita na sua capacidade intelectual, e a fome não se dá ao luxo de eleger entre profissões. Jayce merecia um soco, e Viktor merecia o dinheiro, como um retroativo por tudo que aguentou. Merecia gastar em si. E foi o que decidiu fazer. Sem culpa, sem titubear. Viktor alugou o carro em uma companhia de aluguel de veículos. Nada chamativo, um modelo compacto e confortável, que estava ali para lhe dar mais qualidade de vida. A fisioterapia realmente cansava, mas uma semana dirigindo o fez perceber que seu cansaço maior se devia a disputa física com inúmeras pessoas por um espaço no transporte público.
Como consequência, ele passou a chegar mais cedo em casa. Enchia a banheira com água quente, relaxava o corpo de todo exercício feito e pensava em Jayce. No primeiro jantar que tiveram, no casamento civil, com Violet e Mel como testemunhas. Lembrava de alguns passeios e das expressões recorrentes de preocupação “Está comendo bem?”, “Tem encontrado médicos bons?” e “Faça o que for preciso para viver muito e viver bem”; cada uma delas um lembrete de quem Jayce era e, que talvez, ele se importasse. Não muito. Não num nível exagerado de importância. Mas um pouco mais do que um contrato. Um pouco mais do que apenas um conhecido. E um pouco menos do que Viktor se importava com ele.
Em mais uma semana da ausência programada de Jayce, passava das 23 horas quando um barulho de metal contra o chão preencheu a casa. Viktor despertou com o estampido profundo nos ouvidos, arrepiando os pelos dos braços até formigar o cérebro. Ele se levantou o mais rápido que pôde, ainda descalço, caminhando com a muleta em uma das mãos enquanto com a outra acendia as luzes por onde passava, rumo o quarto de Jayce, de onde se ouvia um choro sentido.
— Jayce? – Chamou uma vez. — Jayce, me responde ou vou entrar! – Repetiu uma segunda vez, mais alto.
O choro ficou baixinho, substituído por fungadas rápidas.
— No banheiro. – Ele respondeu.
Viktor entrou no quarto e caminhou até o banheiro. Jayce estava deitado no chão, encolhido. Os olhos avermelhados se mexiam desorientados, buscando direção enquanto o corpo tremia de cima abaixo. Um de seus braços estava recolhido próximo ao peito, visivelmente inchado. A seu lado, um vaso enorme derrubado no chão. Havia certa beleza em ver um homem grande e forte como Jayce em um estado frágil e vulnerável, humano frente a condição perecível da pele, carne e ossos. Viktor sentiu o ímpeto de esperar até que Jayce realmente pedisse ajuda, que dissesse com todas as letras do que precisava, que só era incapaz, mas a sua própria incapacidade de ser visto como inferior fez com que desistisse de buscar tamanha crudeza em Jayce e se curvasse para ajudar.
— Jayce, você está bem? Sente com dor em alguma parte? – Os olhos de Jayce se mexeram nervosos, longe de Viktor, como se buscassem algo que apenas ele conseguia ver.
— Meu braço dói, mas – sua voz embargou novamente –Viktor, eu não consigo ver nada.
Os planos de Viktor sempre rodearam mais a certeza da morte jovem e eminente do que um futuro promissor e longevo. Os sintomas se acumulavam ao longo dos anos, como uma anunciação própria de sua condição, deixando o mundo de forma singular, desaparecendo em pequenas doses, sucumbindo em partes para que todos a sua volta fossem testigos finais de sua imemorável passagem pela Terra. As mãos firmes, que desenhavam linhas com precisão em seus modelos robóticos agora tremiam levemente, o corpo travava, nos dias frios as pernas se arrastavam e nas semanas em que mal se levantava da cama, via a pele amarelar como um papel velho, pronto para esfacelar ao menor dos toques. Inconformado com o infortúnio da genética, olhava o teto branco do quarto minúsculo, como sua única companhia, se questionando “É agora?”, “Alguém vai se lembrar de mim?”, “Quanto tempo até que me encontrem aqui?”. Então respirava lentamente, os pulmões queimando com o ar frio, a calefação defeituosa mantendo seu corpo minimamente aquecido. Se esforçava para ficar em paz, “Tudo bem, vivi o suficiente!”, na esperança de, não podendo controlar o corpo, ao menos controlar a mente. Porque havia certa ironia em morrer lentamente: você ainda sonha, você ainda deseja, você tem medo.
O gesso branco no braço de Jayce se tornou um lembrete de que naquele apartamento vivia outro homem, ainda vivo, se remendando aqui e ali, sem conhecer a morte e em paz com o próprio fim. Provavelmente por isso não chamou Viktor no meio da noite. Ele tentou, em seu tatear cego, caminhar até o banheiro, onde o celular estava carregando, e discar o contato de emergência do celular, que acionava seu médico. Esforços em vão, ele já não era o mesmo.
Durante duas semanas, Jayce não pôde ver. A princípio, tentou descartar a companhia de Viktor nas consultas, discussão vencida com um simples “O que vão pensar se você estiver em todas as consultas sem seu esposo?”. E como casal, eles iam aos atendimentos. Jayce agarrado em um dos braços de Viktor, andando lentamente, desconfortável no próprio corpo, como se as pernas fossem longas demais e cada passo dado fosse em falso. Os corredores de paredes brancas e bancos acolchoados não provocavam nada em Viktor, além de um certo conforto, quase familiar. Já havia ficado em hospitais dias demais para temê-los. E, em tantos anos, sentindo-se tão só, jogado de sala em sala para exames, agulhas, gaze, álcool e cirurgias quase bem-sucedidas, era, também, reconfortante não estar só. Acompanhar Jayce acalmava o sentimento de abandono que carregava consigo.
Uma equipe de profissionais foi acionada e, chegando ao hospital, seu médico já estava em prontidão.
Jayce odiou aprender a usar a bengala. Tomava tempo, não era tão simples ou intuitivo quanto parecia e ele tinha medo de cair. Sua decisão inicial foi a de não deixar a casa, mesmo acompanhado. Seu celular tocava com frequência, mas ele não atendia. Viktor se ofereceu para mudar as configurações e ativar um leitor de tela, mas Jayce se recusou. Ligou na empresa e pediu afastamento por tempo indefinido. Houve certa comoção, era perceptível pelo número de chamadas telefônicas e mensagens de textos ignoradas. E às vezes, Jayce tinha crises. Ele começava a se encurvar, como um feto em formação, um amontoado de partes do corpo sucumbindo dentro de si mesmo. O ar escasso, ombros tesos e narinas infladas inalando com força, obrigando o pulmão a fazer seu serviço. E nesses momentos, Viktor desmoronava. Ele não era hipócrita, tampouco um bom moço compassivo. A dor de Jayce lhe dava solaz. Não diria isso em voz alta, não faria nada para intensificar seu sofrimento, contudo ver as coisas acontecerem naturalmente em um corpo tão diferente do seu, numa vida tão mais privilegiada, em uma mente igualmente brilhante, só gerava reconhecimento e nenhum desconforto. E mesmo assim, quando encarava os olhos esbugalhados e a saliva se acumulando no canto da boca, enquanto Jayce recolhido apertava o peito com mãos trêmulas e respiração sôfrega, Viktor sentia-se miserável. Sua garganta secava, os olhos lacrimejavam e ele mesmo parecia sucumbir, a lembrança vívida da dor que sentia no estômago devido a força para inalar o ar que não vinha, o desespero de sentir afogar nos próprios pulmões, em terra firme. A sensação mais próxima de tortura que havia experienciado. E em conformidade com o desejo de Jayce em partir, Viktor só desejava que as coisas não terminassem assim.
No hospital, sentado na maca ao lado de Jayce, ele foi interpelado pelo médico pessoal do seu esposo legal. Para a lei, era isso. E o que realmente eram? Colegas de apartamento? Amigos? Apenas um contrato? Duas faces da mesma moeda? O médico lhe disse que daquela vez – porque houve uma outra, anterior, da qual Viktor não ficara sabendo – Jayce estava passando por uma crise aguda de ansiedade. “Sintomas semelhantes”, o homem explicou, “então, caso se repita, traga-o imediatamente”.
Mas Jayce não contava nada para Viktor. Era sempre uma surpresa. Para Jayce vinham sintomas, e a crise. Para Viktor, apenas a crise e um homem de quase 1,90 cm que precisava arrastar até o hospital mais próximo.
— Essa situação toda não vai funcionar se você não houver o mínimo de confiança entre nós! – Viktor explodiu semanas depois, quando Jayce voltou da emergência do hospital, após alguns calmantes na veia.
— Viktor, você não precisa cuidar de mim. Não faz parte do nosso acordo você ser minha babá. – A voz de Jayce se embolava, amontoada pelo resquício de medicação.
— Não ligo se acordamos ou não. Eu sou humano e você… – ele sinalizou para Jayce com as mãos – te ver assim é frustrante!
– Você fala como minha mãe! – Jayce resmungou.
Eventualmente, a visão de Jayce retornou. Aquilo poderia acontecer, o médico havia dito, seu olhar ressabiado escondido no otimismo clínico. Foi algo repentino, após dois meses de bengalas e saídas acompanhadas, ele podia ver novamente.
— Não sei se você vai enxergar totalmente algum dia, Jayce. Vamos esperar mais algumas semanas, se sua visão continuar embaçada vou te prescrever usar óculos.
Jayce retornou a casa com óculos de graus profundos, em uma armação preta e discreta. Ele continuava bonito, mesmo com a barba por fazer e o corpo menos definido pelos meses longe da academia e a dificuldade em comer nos dias de crise.
— Eu odeio o inverno nessa cidade.
— Qual a razão disso? — Viktor questionou, sem tirar os olhos do filme que passava na televisão.
— É incapacitante. Faz tanto frio, que o corpo fica letárgico e não dá vontade de sair do quarto.
— Você tem saído mais do quarto agora, do que saia no verão. – Respondeu sem dar muito mérito ao tema.
A sala ficou em silêncio, algo comum entre eles. Viktor nem sempre era muito cortês ou instigante em suas respostas e Jayce, por costume ou para não discutir, evitava dar réplicas.
— Foi bom me afastar do trabalho. É bom ter dias assim. – Falou após um tempo, a voz mais suave que o comum.
— Entediantes?
— Você está entediado? – Sua pergunta ansiosa lembrou Viktor de ser mais cuidadoso.
— Não, Jayce. – Riu. – Mas acredito que um homem jovem como você já viu dias mais felizes do que estar em um apartamento enorme como esse, assistindo um filme genérico de ação, com seu esposo de mentirinha
— Meu deus! Nunca pensei que você fosse dos que se deixam levar por estereótipos. – A cara de Jayce se contorceu em completo horror, mesclado com um sorriso sarcástico.
— Até parece, Jayce Talis. – Viktor revirou os olhos. — Você é conhecido por ser bonito, inteligente e um dos nomes mais promissores no ramo de tecnologia para energia limpa. Sua cara estava estampada na capa da Forbes Under 30, quando você tinha 23 anos.
Viktor elencava os atributos e conquistas de Jayce, que sorria completamente fascinado.
— Uau! – Jayce bateu três palmas desanimadas. – Pelo visto não fui o único a fazer a lição de casa.
Viktor revirou os olhos.
— Ajuda muito você ter uma página de Wikipédia no seu nome.
— Eu posso fazer uma pra você. – Jayce retrucou, sorrindo de orelha a orelha.
— Não fode! – Viktor respondeu, com um sorriso nos lábios.
— Okay, senhor, eu sou entediante demais para você, playboyzinho rico com página de Wikipédia. – Jayce tentou suavizar sua voz em uma mímica de Viktor, soando mais como um adolescente na puberdade que um homem beirando os quarenta.
— Eu não disse isso. – Viktor interrompeu.
— Mas pensou, eu sei que pensou. – Jayce riu e Viktor apenas se encolheu no sofá, um pouco culpado. – Eu nasci rico, sou um nepobaby de primeira linha, mas me esforcei para chegar aonde estou…
— Com certeza! – Viktor interrompeu, irônico. A essa altura, o filme corria esquecido na televisão.
— É sério! Eu não to falando de me esforçar no estilo “cresci na miséria e fiquei rico”, mas eu dediquei minha vida a ciência. É meio tosco dizer isso, mas eu me casei com minha pesquisa, com meu trabalho. Sempre quis ser inovador, grandioso como meus pais. E não sou cretino em fingir que minha vida de privilégios não tem tudo a ver com minha carreira. Mas acredita em mim, Viktor, quando eu te digo que minha pesquisa, a ciência, são realmente a maior parte da minha vida, quase tudo que eu sempre tive. Eu fui criado por minha mãe em meio a livros, conversas sobre ciências e idas ao laboratório. — O sorriso zombeteiro de Jayce foi se transmutando em uma expressão terna a medida em que falava, tão honesta como a de um menino, levando Viktor a se questionar como seria se ele houvesse conhecido Jayce Talis, uma criança de pele e cabelos escuros, debruçada sobre a mesa da biblioteca, com um lápis em mãos pequenas, esboçando o próprio futuro com dedos rechonchudos e traços incertos.
— Eu acredito em você. – Foi o que Viktor disse. Em sua mente, estava seguro de que via Jayce em sua incompletude, como as pessoas a sua volta nunca haviam permitido.
— Por que a Universidade? – Foi a primeira coisa que Jayce perguntou ao se sentarem na sorveteria.
— É um pouco de idealismo. Sempre quis compartilhar o conhecimento que tenho, talvez ser lembrado de alguma forma. A Universidade me permite pesquisar e ensinar, um pouco dos dois mundos.
— Faz sentido. Eu te pergunto porquê você é brilhante. Suas pesquisas repercutem muito entre engenheiros mecânicos, e a academia não paga muito bem. Seria financeiramente mais rentável estar em uma empresa.
— Você está certo, mas empresas são muito restritivas e ciência é como arte, precisa de criatividade. – Viktor respondeu, assentindo com a cabeça enquanto olhava para o cardápio. — Jayce, todos os lugares que você frequenta são ridiculamente caros. Você não conhece nenhum lugar normal? – O dedo indicador de Viktor apontou o preço de uma bola de sorvete explicitado no cardápio.
— Não, mas não é como se você não tivesse dinheiro para pagar por uma pequena indulgência, Viktor. – O comentário de Jayce fez o estômago de Viktor encolher, porque era verdade, agora ele poderia pagar por aquilo tranquilamente, o que não diminuía a sensação quase obscena de gastar tanto com algo tão supérfulo — E minha mãe sempre disse que boa comida não é gasto.
— Tudo bem. – Deu de ombros. — Você a menciona, às vezes.
Jayce lhe olhou, confuso.
— Me refiro a sua mãe. Você fala dela com certa frequência, mas ela nunca está nos seus exames, ou…me desculpe, isso não é da minha conta.
— Eu não me importo. – Jayce respondeu. — Minha mãe está bem, e viva. Ela continua no Brasil, com meu pai, mas nós não nos falamos mais. É melhor assim.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, esperando o sorvete chegar. A resposta de Jayce respondia muitas perguntas e dizia, igualmente, nada de significativo.
— Você pode me perguntar coisas pessoais.
— Não sou do tipo invasivo. – Viktor encolheu os ombros.
— Mas é claramente alguém curioso. – Jayce suspirou, a aparência um pouco cansada. –Considere uma transação, você pode apenas retribuir minha sinceridade com a sua. – Jayce suspirou antes de prosseguir, como se precisasse de coragem para dizer o que viria a seguir.
— Meus pais têm dificuldades em lidar com minha doença. Minha mãe mais do que meu pai. Eles queriam que eu tentasse mais, fizesse tratamentos experimentais e prolongasse minha vida ao máximo. Eu entendo. Talvez não por completo, porque não tenho filhos, mas de forma geral eu tento muito entender e respeitar o que eles pensam, mas o que eles querem é muito diferente daquilo que decidi pra mim.
— Então eles deixaram de falar com você? – Viktor questionou, seu cenho franzido expressava a irritação que crescia em seu peito.
— Não! – Jayce riu. – Na verdade, sim, mas também não. Nós decidimos, em comum acordo, que era melhor que eu morresse em vida. Então nós tivemos um último jantar, um último abraço e eu me mudei para cá.
Viktor ficou em silêncio, comendo o sorvete concentrado.
— Te parece tão horrível assim? – Jayce questionou. O sorriso em seus lábios parecia de alguém tranquilo e feliz, mas seu olhar era triste.
— Honestamente, sua doença é horrível, e me dá certa raiva que você tenha decidido ficar sozinho nos seus últimos meses? anos? nessa vida, que por sinal, é a única que você tem. – Viktor disse como se recordasse Jayce de um compromisso importante, levando Jayce a rir. – Mas eu te entendo. A verdade é que passei toda minha vida sozinho, indo a médicos e me recuperando de doenças com a ajuda de cuidadores pagos e da minha própria força de vontade. A advogada que me atende, Mel Medarda, é a pessoa mais próxima de uma amiga que já tive, mas fato é que sempre fui eu, lutando contra o Estado, hospitais e meu próprio corpo pelo direito de viver. Eu não sei o que é dizer adeus a alguém que me ama e me criou, então não posso julgar o peso da sua decisão. Ao mesmo tempo, por não ter experienciado o direito de escolher entre estar sozinho ou acompanhado, em ser forte por mim mesmo, ou ser amado até o final, é inevitável te julgar. Não sei quantas vezes passei as noites, chorando de dor e implorando para que o universo se movesse apenas o suficiente para alguém bater na minha porta e magicamente se importar por mim. Para que alguém me viesse e por quem sou, decidisse ficar.
O rosa do sorvete dentro do copo de Viktor estava mais líquido, uma mistura da massa derretida com as lágrimas que vertiam em gotas pesadas e lustrosas. Ele se sentia constrangido e pequeno, oferecendo a Jayce um pedaço muito infantil do seu ser, a solidão que crescia sem mudar de forma, sem envelhecer, frágil e pequena como a mão de um recém-nascido.
Jayce voltou ao trabalho. Foi uma decisão impulsiva, contraindicação médica. Menos dias da semana, menos horas e mais trabalho direcionado a outros funcionários da empresa. Meio a contragosto, uma sucessão estava sendo preparada. O chefe da sessão de pesquisa e desenvolvimento e um dos maiores acionistas da empresa, logo iria se afastar em definitivo. As pessoas não estavam conscientes de que Jayce estava definhando, a notícia contada era de que ele estava doente e se retirando por um tempo para cuidar da sua saúde e vida pessoal. “Quem sabe você não volta casado, Talis?!”, um dos colegas da sessão disse, ao se despedir e Jayce sorriu, antes de deixar a sala uma última vez.
No mesmo período, um surto de gripe atacou a cidade. Na TV passavam reportagens incentivando a população a se vacinar o mais rápido possível, a nova cepa do vírus era mais danosa e resistente a medicação, perigosa a populações vulneráveis como crianças pequenas, idosos e pessoas com comorbidades, como as imunossuprimidas. Viktor e Jayce se vacinaram em casa e passaram a usar máscaras na rua. Todo o cuidado foi insuficiente para proteger Viktor, que caiu doente uma semana depois.
Os médicos disseram que, mesmo fraco, com febre alta e falta de ar, ainda era mais seguro se tratar em casa do que ficar exposto ao ambiente hospitalar. Viktor passou dias tossindo, com febre alta, e o corpo extremamente dolorido. Jayce preparava suas refeições, comidas quentes, devido ao frio, de fácil digestão, ministradas a Viktor em uma colher, em pequenas porções por vez. Era ele, também, quem trocava a roupa de cama suada, por novas, limpas e cheirosas. Jayce penteava seus cabelos após o banho e ministrava toda a medicação.
Em uma noite particularmente fria, Viktor precisou do inalador três vezes. A falta de ar era dolorosa. Ele sentia o corpo arder por dentro, e por fora tudo era muito frio. O ar entrava gélido pelas narinas e parecia ebulir nos pulmões, então ele tossia por minutos a fio, saliva mesclada com as lágrimas. Seus olhos lacrimejavam sem parar, e a mente delirante via um homem alto, com um suéter vermelho, andando de um lado para o outro. A luz amarelada parecia focar em sua pele, tão bonita e brilhante. Viktor queria pedir ajuda, que o homem lhe tirasse dali. Mãos grandes tocavam sua testa. O homem segurava seu corpo, tocava sua boca com os dedos calosos. Viktor pensou que tudo bem morrer assim, com o corpo quente de alguém contra o seu.
Quando a febre cedeu, Viktor acordou cedo, com os primeiros raios de sol da manhã. Ao lado da cama, sentado na poltrona, com o corpo coberto por uma manta e retorcido como de uma árvore do cerrado brasileiro, estava Jayce. De seu rosto coberto com duas máscaras se via apenas os olhos, em uma das mãos estava seu celular e em outro o termômetro. Viktor tossiu, ao tentar se levantar, o abdômen ainda dolorido pela força repetida.
— Viktor! – Jayce se levantou, indo a seu encontro. A manta azul caiu no chão, revelando um corpo longo, com moletom preto e suéter vermelho.
Viktor chorou como uma criança.
O corpo humano é um organismo complexo, com inúmeros efeitos em cadeia. Há beleza do bater das pálpebras, que auxilia no lubrificar dos olhos; em uma explosão de hormônios estimularem células adormecidas no corpo; um cair de dominós resultando em algo maior, em uma imagem perfeita do todo. A sincronia da vida era também uma enorme fragilidade. Batava uma gripe e os pulmões sofriam, a ausência de exercícios enfraquecia os músculos, o sistema defensivo já em exaustação ficava vulnerável demais a outros ataques.
A primavera estava em seu auge quando Viktor pôde deixar a casa novamente. Pequenos passeios em voltar do parque, idas a sorveteria em horários vazios, pouco estresse, apenas amenidades. Jayce lhe acompanhava nos passeios. Seu afastamento total da empresa já havia sido aprovado, e ele tinha tempo de sobra para estar com Viktor. Nos passeios ao parque era mais possível se deslocar com muletas, um esforço necessário para movimentar o corpo, “mas sem extremos”, orientou o médico. Nos passeios mais distantes ele optava pela cadeira de rodas. Não era sempre prático, apesar de motorizada, as ruas e calçadas eram desniveladas, os trancos lhe doíam muito as costas e a vontade de ficar em casa aumentava. Jayce se oferecia para ajudar no que podia, de forma quase impositiva. A princípio Viktor se ofendia, como se estivessem desafiando sua autonomia, sua forma de existir. Mas logo ficou claro que não era sobre ele, mas sobre Jayce e seu desejo em ser útil. Deixar a empresa estava se tornando algo penoso, a casa parecia não lhe caber e ele parecia tampouco confiar na competência dos colegas, ligando inúmeras vezes para oferecer ajuda, ao ponto de ameaçarem bloquear seu número nos telefones da empresa. Em alguns de seus momentos de frustração, Jayce ia até a sala, onde Viktor lia ou assistia filmes, e se sentava no sofá caramelo, pés esticados e suspiros altos a cada minuto, enquanto fitava o teto entediado. Parecia um gato frustrado por não poder sair na rua.
— O teto não vai mudar de cor. – Viktor disse, desistindo do livro.
— Quem sabe, se eu olhar o bastante, caia sobre mim. – Resmungou, sem desviar o olhar.
— Você tem ficado mais ranzinza.
A acusação chamou a atenção de Jayce.
— Isso te incomoda?
— Não. Mas não combina com a postura de alguém que parecia tão decidido a desistir da própria vida.
— Eu, – Jayce mordeu os lábios, pensativo – em algum momento, em meio a tudo isso, eu vou ser menos eu. Segunda-feira acordei e minhas mãos estavam doendo. Ontem foi mais difícil segurar o garfo. Olha isso.
Sobre a mesa de centro repousava livro de Viktor. Ele segurou o calhamaço branco, que despencou de sua mão com força no chão.
— Essa é toda força que eu tenho. – Jayce falou sério. Era a primeira vez que falava de seu processo sem ironias e sorrisos polidos.
— Existem alternativas.
— Existe prolongamento da dor, Viktor. – Suspirou. – Eu não quero me perder. Quero manter o máximo de mim, da minha vida, do que sempre fui e então partir nos meus termos. A ideia de prolongar a vida porque ela é uma dádiva, única e insubstituível é bonita e tudo mais, mas não me veste. Eu pensei além, eu vivi além e isso é suficiente.
— Acho que tudo bem pensar assim quando você tem um legado marcante como o seu.
O comentário de Viktor fez Jayce gargalhar. Algo profundo e honesto.
— Engraçado que o meu maior conforto é saber que em algumas décadas, sendo talvez em um século, sendo pessimista, as pessoas não vão se lembrar de mim. Talvez uma menção aqui, outra ali. Uma foto, um sobrenome. Mas essa memória, vívida, da minha voz, de como meus olhos ficam contra a luz, do meu tique horrível de apertar o pulso direito quando estou nervoso, esses detalhes que vem à mente quando pensamos em alguém que verdadeiramente conhecemos, tudo isso vai desaparecer. Pensar nisso me deixa em paz.
— E enquanto você não vira essa memória abstrata, o que as pessoas fazem? Como vivem aqueles que conhecem o formato do teu sorriso, o som da sua voz, que anseiam sua chegada pelo ritmo do seu andar. O que elas fazem, Jayce? – A garganta de Viktor ardeu furiosamente, as narinas infladas, na tentativa precária de segurar as lágrimas que desciam ferozmente.
Jayce enlaçou Viktor em um abraço silencioso, sobre sua cabeça, um teto sólido lhes cobria.
Faltavam poucos meses para que eles cumprissem um ano de casamento. Morar com Jayce era como dividir casa com um melhor amigo rico. E extremamente gostoso. Não que Viktor quisesse sexualizar Jayce. Ele não via o companheiro necessariamente dessa forma. Mas não é como se ele pudesse evitar se sentir atraído.
Em casa, Jayce ainda se vestia bem, com roupas sempre limpas, em cores que combinavam com sua pele. Sua barba era sempre bem-feita e seu cabelo bem aparado, ele ia ao barbeiro com frequência para se assegurar de manter uma boa aparência. Seus perfumes cheiravam bem, mas Viktor gostava da fragrância mentolada do shampoo e loção pós-barba que emanava pela casa sempre que Jayce saia do banho.
Desde o primeiro encontro, Viktor encontrava uma dificuldade tremenda em rebater ou discordar de Jayce quando que ele sorria. Seus caninos eram pontudos como de um cachorro com pedrigree, mas os dentes como um todo eram largos e brancos, com um diastema que lhe dava um ar quase infantil. A princípio, era algo do qual tentava fugir. Sempre que argumentavam e Jayce fazia uma piada idiota, com um sorriso iluminado, ele focava em listar ao menos cinco coisas que detestava em Jayce.
Ele se lembrava de uma das primeiras discussões idiotas sobre como tornar a vida de casados mais crível. “Viktor, todo casal casado tem fotos da cerimônia em casa”, argumentou, sorrindo da carranca de Viktor. Nesse dia, Viktor listou: tem mau hálito pela manhã, dorme com a louça da pia suja, come no carro, é extremamente pontual e um pouco enxerido.
Em uma discussão mais séria sobre autonomia financeira e o fato de Jayce não poder interferir na sua vida sem consultar, Jayce sorriu em indignação, como se estivesse argumentando com uma criança, “mas você precisa de uma cama ortopédica decente!”. Viktor listou: só tem camisas caras de seda, dirige um carro sedã, não fala com a mãe, é egoísta, não come abóbora.
Na mais recente das discussões que tiveram, sobre os melhores nomes para crianças, Jayce argumentou que nomes precisavam impor presença, ser longos, e marcantes como Santiago, Catarina, ou mais globais, como Maria. Viktor ficou horrorizado.
— Você é cristão, Jayce? Já falou uns cinco nomes bíblicos.
— São nomes fáceis de se dizer em vários idiomas. – Argumentou.
— É a desculpa mais sem personalidade que já ouvi, parece que a mente foi comida por propaganda.
— Você está me chamando de colonizado? – Perguntou incrédulo.
— Suas palavras, não minhas! – Viktor levantou as mãos frente ao corpo, em redenção. Jayce gargalhou. Com dificuldades, Viktor listou: não dorme direito a noite, não gosta de música clássica e come muito rápido. E foi o máximo de defeitos que sua mente conseguiu reunir.
Se o sorriso havia sido a arma inicial, sua postura laboral foi a cartada final. Ainda que afastado, a empresa permanecia a parte de sua família e levava seu sobrenome, de forma que ninguém se surpreendeu quando o convite para a confraternização de fim de ano chegou pelo correio, em um envelope grosso, com caligrafia elegante. A postura de Jayce era muito diferente em ocasiões de trabalho, mas aquela era uma faceta que Viktor não havia presenciado. A contragosto, convencido pela necessidade de demonstrar ao público que estava realmente casado, eles compareceram à festa de fim de ano, da filial Uruguaia.
Como esperado, a presença de ambos gerou grande burburinho. Viktor era a atração da noite, todos queriam conhecer o homem que fez Jayce se afastar do laboratório e ter um pouco de vida social, felicitação que Viktor escutou inúmeras vezes ao longo da noite, lhe provocando riso em alguns momentos, constrangido de ser uma grande marionete na mentira de Jayce, que agora era também, sua mentira.
Os olhares curiosos se misturavam ao de desdém. As pessoas observavam a bengala como se fosse um objeto alienígena, algo que eles, acionistas, funcionários, cientistas de uma grande empresa de tecnologia, nunca haviam visto. A impressão inicial não se esvaiu, mas foi refinada com a chegada de mais outras duas pessoas deficientes na festa. Uma mulher mais idosa, em cadeira de rodas, e um homem alto e jovem, com uma bengala de deficiência visual. Aos poucos, Viktor percebeu que não era sua deficiência que chocava, mas o fato de Jayce ter se casado com um homem deficiente. O perfeito, bonito e atlético Jayce Talis. A mente do desenvolvimento da empresa. O sonho de consumo de inúmeros homens e mulheres, filhos e filhas dos seus principais sócios e parceiros. Viktor era um homem, sem sobrenome para ostentar, professor de carreira, deficiente, com a aparência e trato de alguém que viveu entre os mortais, longe do panteão abastado de pessoas como os Talis.
— Então esse é seu esposo? – Um homem, que não deveria ter mais de cinquenta anos, perguntou a Jayce, como se Viktor não estivesse parado ali, logo a seu lado.
— Sim, Viktor Talis. – Jayce introduziu. Era a primeira vez que ele utilizada o nome de casado, enfatizando o sobrenome.
O homem fez um aceno com a cabeça e estendeu a mão direita, a qual Viktor apertou em cortesia. O aperto de mãos foi prolongado, acompanhado do olhar de desdém do homem, que o olhou por completo, como se analisasse o estado de um móvel antes de adquirir.
— Posso ter a indelicadeza de perguntar como vocês se conheceram?
— Uma amiga em comum. – Jayce respondeu.
— Amiga? É difícil imaginar que vocês tenham algum conhecido em comum.
Viktor franziu o cenho, seu desconforto dizendo que deveria sair dali.
— Nós temos muito em comum. – Respondeu, antes mesmo que Jayce dissesse qualquer coisa.
— Ah, similaridades são importantes, mas o suficiente para justificar um matrimônio?! – Uma mulher jovem se juntou a eles, o sorriso irônico em seus lábios carmesim irritou Viktor profundamente.
— Elas são um começo. Mas o que mantém nosso matrimônio são coisas pessoais e únicas, como a paciência que Viktor tem, a forma como sua voz se mantém baixa e tranquila em qualquer situação, e como ele é inteligente o suficiente para participar de qualquer conversa. – Jayce se aproximou de Viktor, apoiando a mão na sua cintura. – E ainda que não houvesse nada do tipo, nós nos casamos por desejo. Ele quis, eu também, é o suficiente. Se vocês nos dão licença.
Não era do feitio de Jayce se incomodar profundamente com as coisas. Viktor já havia observado que ele disfarçava bem seus desafetos, descontava seu estresse em atividades físicas, ou jogos matemáticos que exigissem esforço e concentração, pensava, ponderava, podia até ser reativo, mas seguia em frente com a mesma velocidade com que se perturbava. O comentário sobre eles serem tão diferentes parecia ainda pesar. Jayce tinha uma carranca impenetrável no rosto, pouco relaxado, pairando ao lado de Viktor como um cão de guarda.
Um garçom passou, segurando uma bandeja de canapés, do qual Jayce se serviu. Suas mãos estavam trêmulas e Viktor reconheceu a concentração do parceiro para segurar o alimento. Era algo comum agora que Jayce tinha pouca força nos músculos das mãos. O tomate seco escorregou do topo da massa pequena, descendo sobre sua gravata azul royal . As pessoas com quem conversavam lhe olharam com certo constrangimento e, ele se retirou discretamente em direção ao banheiro.
Com um sorriso polido, Viktor pediu licença e caminhou até o banheiro, localizado em um corredor vazio, mais distante do salão de evento. Ele entrou e fechou a porta com o próprio corpo, na esperança de que ninguém entrasse ali. Debruçado sobre a pia, Jayce estava com o rosto molhado e o cabelo um pouco desmantelado, os fios antes presos pelo gel estavam soltos na sua testa. Seus olhos se encontraram pelo espelho, e Viktor sentiu alívio ao perceber que ao menos Jayce não estava chorando.
— Você quer ir embora? – Foi a única coisa que Viktor perguntou.
— Sim. Vamos nos despedir discretamente e ir pra casa.
No caminho de volta à casa, Jayce parou em um mercado, comprou algumas cervejas e um maço de cigarros, sobre os quais Viktor não perguntou nada, não parecia o momento certo e tampouco tinha pretensão de intervir nas escolhas de um homem adulto. Chegando ao apartamento, antes mesmo que a porta do elevador se fechasse, Jayce estava sem o paletó e os sapatos. Caminhou com certa pressa até a varanda, acendeu um dos cigarros e abriu uma lata de cerveja. Viktor se juntou a ele, respeitando o silêncio enquanto observavam juntos a cidade iluminada em luzes amarelas.
— Desculpe pela cena patética. – Jayce falou, após o longo silêncio. A fumaça do cigarro saia pelos lábios grossos, com uma neblina.
— Do que você está falando?
Jayce lhe encarou com um ar desinteressado.
— Estou falando sobre as pessoas e a sujeira que fiz com a comida, e a festa, enfim, tudo.
— Não tem porque se desculpar.
O silêncio preencheu o espaço uma vez mais, os motores dos veículos mantinham a cidade viva e Viktor se sentia confortado em saber que outras vidas se desdobravam além das deles. Em meio aquelas pessoas, caminhando depressa pelas ruas, conversando em seus celulares no ônibus, presas no próprio caos cotidiano, havia alguém que partilhava com eles um entendimento mútuo, uma espécie de percepção silenciosa e humana que ampliava a tolerância em viver num mundo contraditório, que entrelaçava as pessoas no fio delicado do existir, da ideia de que estou aqui porque você também está, ainda que não nos conheçamos.
— Não sabia que você fumava.
— Eu evito. O cheiro impregna e é quase impossível se livrar.
Viktor estendeu a mão em direção a boca de Jayce, e retirou o cigarro, segurando entre o indicador e o dedão.
— Você não deveria fumar, seus pulmões são sensíveis.
Viktor gargalhou.
— É uma maneira bonita de dizer que eles não prestam. – Ele se virou, repousando as costas contra o balcão, cotovelos apoiados para sustentar o corpo reclinado. Seu rosto procurou o de Jayce, ainda vidrado no horizonte, preso nos próprios pensamentos. - Provavelmente soará repentino, mas uma das coisas que mais gosto em você é sua capacidade em se mostrar nos momentos vulneráveis, como hoje.
— Qual é?! Você se sente bem em ver meu lado patético? – Jayce sorriu em meio a um muxoxo, tomando o cigarro das mãos de Viktor.
— Talvez. – Viktor sorriu. — Eu gosto de te ver, da forma mais inteira possível. Isso inclui suas fragilidades, porque é bonito ver alguém forte e determinado como você quebrar um pouco a casca. Mas, além disso, um lado egoísta que tenho sente prazer em perceber que eu sou a única pessoa a te ver assim, honesto e frágil, dando respostas atravessadas em magnatas, fingindo reconhecer a diferença entre um vinho caro e medíocre, ou sujando a gravata porque não consegue controlar o corpo como gostaria. Não sei quantas pessoas te conheceram de forma tão desnuda até aqui, Jayce, mas vou fingir que essa é uma versão para mim, que ninguém irá roubar quando você se for.
Mesmo doente, Jayce mantinha o brilho no olhar. Um amarelo esverdeado, uma mistura tão única que só a invenção humana do amor entre duas pessoas seria capaz de produzir. Talvez por isso fosse tão tentador sucumbir ao desejo de se aproximar pela dor, porque era menos natural e íntimo do que o amor que ele provocava, a sensação profunda de nutrir e cuidar que consumia a mente de Viktor. De forma analítica, Jayce lhe encarou como se observasse um de seus projetos científicos, absorto e intrigado. Ele bebeu um gole da cerveja, já quente e esquecida no balcão.
— Seria mais fácil se você quisesse só o meu dinheiro. – Ele sorriu sem graça; Viktor não se ofendeu.
Jayce se afastou do balcão e deu um passo em sua direção, segurou seu pescoço com uma das mãos, com a outra puxou sua cintura, com certa violência, a bituca do cigarro ainda presa entre os dedos. Aquela era uma transação. Jayce possuía dinheiro, Viktor comprava saúde. Jayce contava as horas e Viktor comprava seus dias. Eles dividiam as falhas do tempo, as limitações do desejo e desencontro de propósitos. O beijo que compartilharam foi uma mistura de todas as suas fantasias se colidindo e se desfazendo, dando lugar a realidade. As mãos de Jayce eram firmes, quentes, mesmo trêmulas, como ele havia imaginado. Seus lábios eram macios, com um gosto amargo de cerveja e cigarros que sentia na ponta de língua, até o céu da boca no beijo lento que compartilhavam, mais carinhoso do que pensou ser capaz. Tinha a cadência de uma música calma, molhado e suave, entre movimentos suaves, lábios mordiscados e uma profundidade que trazia os corpos mais perto, as línguas mais envoltas e o desejo mais latente.
Perceber o outro era uma dificuldade que Viktor enfrentou toda vida. Era fácil encarar o próprio desejo de frente, saber e reconhecer sua própria vontade de forma indiscriminada, mesmo que a mente não indulgenciasse o corpo. Aquele seria seu salto de fé.
Dentro de si sentia pressa, como se suas mãos corressem no ritmo sombrio de seu coração, que queria todas as coisas, viver tudo o que a natureza e sua constituição amedrontada e absorvida em faltas havia lhe negado. Sentia-se desesperado por realizar seus desejos, sua mente preenchida por um fluxo desesperador de imagens refletindo cada vontade negligenciada, cada objetivo frustrado, cada meta adiava devido à falta de condições, deitado em sua cama, corpo e mente enfermos, seguro de que sua vida não passava de uma sucessão de maldições. Todos seus desejos e anseios renascendo em Jayce.
— Ei! Ei! – Jayce se afastou, seus dedos trêmulos acariciaram o contorno da mandíbula de Viktor — Tudo bem, não precisa de pressa.
O olhar gentil de Jayce era mais doloroso do que agradável. Viktor esperou que ele terminasse de observá-lo, pupilas dilatas contra a íris incandescente, vagando por cada detalhe, marcando todas as imperfeições com ternura violenta. Tentou não significar o momento, não queria saber o que aquilo representava para Jayce, nem para si mesmo.
Os lábios se tocaram novamente, castos. Viktor sentiu as lágrimas quentes, queimando o rosto gélido pela brisa fria batendo contra a sacada. Jayce beijou suas bochechas, suas têmporas e então seus lábios.
— Você é lindo! – Jayce sussurrou em meio aos beijos. — Você é lindo! Estou feliz que seja você.
As mãos de Jayce seguraram sua cintura, eles caminharam para dentro do apartamento, entre risos e beijos entrecortados, tropeçando em móveis, sentindo as respirações se mesclarem. Logo, Viktor se viu no quarto de Jayce, o cômodo emanava o cheiro da sua pele. Jayce se sentou na cama e puxou Viktor pela cintura, sentando-o em seu colo. Eles se beijaram novamente com mais pressa, menos contidos, porque Viktor sentia o tempo esvair entre os dedos.
— Eu não tenho força nos braços pra ficar por cima de você. – Jayce coçou a têmpora, numa timidez atípica.
— Ok, eu não ligo. Você está sentindo dor em algum lugar?
— Não, tá tudo bem. – Sorriu, reconfortante.
Eles retomaram o beijo, Viktor colocou as mãos dentro da camiseta de Jayce, sentiu o corpo firme sob seus dedos frios. Com ambas as mãos retirou a roupa com pressa, expondo a pele escura sob o abajur, numa visão inebriante. Viktor correu os dedos com cuidado pelo peitoral de Jayce, descendo por seu abdômen, num desejo quase incontrolável em tê-lo para si.
Com ajuda de Jayce, Viktor retirou sua roupa, desinibido pelo toque firme de seu parceiro. A forma como Jayce lhe despira, num olhar detalhista e criterioso, lhe dava confiança. O pensamento de que em poucos meses estaria melhor, cada vez mais saudável devido seus tratamentos, cruzou sua mente estrondoso como a batida de sinos de uma catedral, alto e solene, embebido da beleza sacra de se deitar com seu salvador.
— Não me olha assim! – Jayce pediu em um tom carinhoso, tão terno e injusto, enquanto penetrava Viktor da forma mais erótica e forte possível.
— Eu nunca me senti tão vivo! – Respondeu, se agarrando ao pescoço de Jayce.
Quando Viktor gozou, seu corpo tremeu de forma violenta, ebulindo em lágrimas pesadas, misturadas a sêmen e suor quente. Segurou o rosto de Jayce entre as mãos, olhou seus olhos borrados pelas emoções turbulentas e, por um momento, entendeu todas as coisas. A beleza de viver tomando a vida nas mãos, se realizando na certeza de ter um lugar para onde voltar.
Aquela se tornou uma mazela autoinfligida. Viktor passou a visitá-lo pelas noites, entrava sem aviso, quase sempre encontrando Jayce recostado na cabeceira da cama, lendo atentamente algum livro de ficção. Nesses momentos, tinha a impressão de que Jayce estava lhe aguardando, sorrindo travesso sobre os óculos de descanso.
Em muitos desses encontros, Viktor estava exausto das sessões de fisioterapia e Jayce sem ânimo devido as dores crescentes, então eles conversavam até dormir, Viktor contando detalhes do presente, falando dos médicos, das consultas, de seu trabalho na academia, enquanto Jayce narrava histórias do passado, de um homem jovem e saudável, cheio de planos que não existiam mais. Nos dias verdadeiramente ruins, Jayce apenas lia para Viktor e eles se encontravam no tempo da ficção.
— Ele é um homem egoísta! – Viktor bradou, irritado.
— Ele é um jovem em sofrimento. – Jayce defendeu o personagem de Werther, o renomado romance de Goethe.
— Superar aqueles sentimentos era um problema apenas dele. Se matar da forma que ele fez tornou sua dor em sofrimento de todos. – Viktor argumento, movimento a cabeça em negação a ideia de Jayce se simpatizar com um homem emocionalmente instável como Wether. – Ele abriu seus sentimentos a todas aquelas pessoas, com a desculpa de estar se contendo, de precisar de doses minúsculas da presença de sua amada, sem pensar na dor que estava causando a ele, a seu amigo, a todos os demais. Arrastar as pessoas para o buraco que são os próprios sentimentos desconexos e depois sumir, é muito egoísta.
As palavras se assentaram entre eles, corpulentas e desencaixadas. Ultimamente, as coisas pareciam desconcertantemente pessoais. O relacionamento que construíam era uma roupa que não cabia a nenhum dos dois, sem ajustes, incômoda e às vezes ridícula.
— Acho que ser egoísta é a única forma de verdadeiramente existir.
O passar das semanas ampliava a proximidade. Viktor sentia-se em uma peça de teatro, executando os mais distintos papéis. Por momentos, ocupava o palco, sob holofotes dolorosos, que lhe impediam de ver além, cegado pela própria performance frente a plateia desconhecida, nada mais que borrões a serem entretidos pela vida em si. “Abram seus livros na página cinquenta e sete.”; “A mãe de Elizabeth, a senhora quase centenária, faleceu sozinha em casa, pobrezinha.”; “Você ganhou três quilos no último mês, só precisamos de mais dois para a cirurgia”. Em outros momentos, Viktor estava na coxia. Não era seu lugar favorito, ainda brilhava. Ali não era espectador, tampouco podia intervir na performance dos demais, ainda que pisassem no mesmo palco. Na maior parte do tempo via seus colegas proferindo frases tediosas, entretendo um público que pouco lhe interessava. Em outros momentos, o palco se preenchia por pessoas demais, em cenas que mais pareciam transitórias do que reais, àquelas que, em um filme, jamais chegariam ao corte final. E em ocasiões específicas, o palco era um entardecer e ele via Jayce recitar monólogos sufocantes, íntimos demais para saber se estavam sendo verbalizados, ou se Viktor, por um breve momento, era o narrador onisciente. Os monólogos eram traduzidos em mãos trêmulas, respiração sôfrega e sorrisos solares enquanto picavam a salada para o jantar, discutindo um tema trivial. Entretanto, nada disso superava seu lugar favorito, no conforto do camarim, se preparando para o que vinha fora daquele espaço recluso e seguro. Suas mãos tocavam o rosto de Jayce, áspero pela barba por fazer, agora quase uma barba completa. Seus polegares amaciavam pálpebras trêmulas sobre olhos que se moviam na velocidade dos sonhos. Às vezes Jayce lhe preparava para o dia que viria, o próximo show, um novo espetáculo. Pintava seus lábios de um vermelho vibrante, como acerola, cítrica, suculenta. Alisava seu cabelo com mãos calosas, como quem insiste dizer “a vida foi quase perfeita, eu também me esforcei”. As cortinas tinham cheiro de Jayce, e os lençóis guardavam o suor de Viktor, quando as luzes se apagavam, ecoava pelo escuro a voz suplicante chamando “Jayce! Jayce! Jayce!”.
Eles retornaram ao restaurante em que se conheceram na semana que cumpriu um ano em que moravam juntos. Viktor havia passado por uma cirurgia recente em seu quadril, uma intervenção pequena, que havia se mostrado um sucesso, melhor que todas as outras feitas na sua infância.
A vida com Jayce era repleta de carros de luxos, os melhores hospitais, as melhores roupas e uma casa extremamente confortável. Viktor estava se habituando ao conforto, a não sofrer por coisas simples e não ter de escolher entre a dignidade pessoal e o essencial. Entretanto, nada disso tornava cômoda sua presença em certos lugares. Havia maneirismo na forma de se mover, na pele sem marcas de trabalho e na segurança de poder existir no conforto da própria pele que Viktor era incapaz de compreender por estar em um lugar cedido, não herdado.
— Você gosta muito daqui.
— A comida é boa, apesar da decoração cafona. – Jayce deu de ombros,
— Quando te conheci, achei gostava de coisas chamativas e estravagantes.
— Escolhi esse restaurante para te impressionar. Queria passar a certeza de ter muito dinheiro para, caso me achasse um babaca, você decidisse aceitar o acordo pela certeza de que eu poderia arcar com os custos do nosso acordo.
— Não posso negar que surtiu efeito. Além da sua cara bonita. – Com os cotovelos sobre a mesa, Viktor entrelaçou os dedos e repousou o queixo sobre a mão, sorrindo ternamente para Jayce.
— Não acredito que minha aparência tenha um poder de persuasão tão grande. – Riu, com as bochechas coradas como as de um garoto.
— A verdade é que eu senti muita raiva de você. Raiva das suas escolhas, dentro do seu privilégio de menino rico. A princípio, parecia uma ideia de menino rico, de gente excêntrica.
— É uma opinião bem forte. Ela continua a mesma? – O sorriso de canto de Jayce dizia que ele estava disposto a escutar qualquer resposta.
— Você sabe que não?! – Bebeu um gole do vinho, tentando desentalar o nó na garganta. — Mas meus pensamentos não se tornaram favoráveis. Acho que agora eu só entendo melhor que de forma diferente, você também busca alguma forma de dignidade. – Viktor tomou um gole do vinho e encarou o os olhos de Jayce. — No fundo, você sabe o que eu quero, mas não vou te pedir.
Eles ficaram em silêncio por um momento.
— Não acho que pedir mudaria muita coisa. – Viktor complementou.
— Honestamente, concordo. Sou um homem mais egoísta do que aparento. – Jayce sorriu, mas não alcançou os olhos.
A primavera trouxe temperaturas mais elevadas, dias brilhantes de sol. Apesar de terrivelmente branco para andar sem boné e filtro solar, Viktor amava dias ensolarados. Os ventos frios davam lugar ao cheiro ardente e a energia para realizar atividades diárias fastidiosas, como caminhar pelo parque e se sentar na varanda enquanto analisava o trabalho de algum estudante.
O próprio ato de revisar cálculos e ler explicação massivas e questionáveis sobre teorias vistas e revistas, se tornava mais tolerável na presença de Jayce. Sentado a seu lado, em shorts curtos o suficiente para instigar a imaginação, com a pele brilhando no sol suave da tarde, Jayce compunha a cena da vida perfeita em sua simplicidade. Assim eram os dias perfeitos. Uma casa extremamente confortável, um bairro tranquilo, sol e a total indiferença ao futuro.
— Eu não entendo! – Jayce reclamou, se inclinando sobre Viktor para mostrar seu tablet. — Por que diabos ele começou a explicação com a fórmula correta, mas não terminou e mudou para outra que não tem relação alguma com a pergunta?
Viktor se assomou, deixando de lado seu próprio tablet, para compreender qual trabalho Jayce estava analisando;
— Qual o nome do estudante?
— Mateo.
— Ele tem essa mania. É como se o cérebro quebrasse no meio das equações, ainda não entendi bem o que acontece. Mas em sala ele sempre consegue responder oralmente minhas questões e desenvolve os raciocínios um pouco à frente dos colegas. Acho que é um desses casos de extrema desatenção.
— É difícil de acreditar. – Jayce suspirou e voltou a se concentrar no trabalho.
Seu rosto contemplativo tinha sempre as mesmas linhas marcadas na testa, delineadas pelo canto da boca, caído em incompreensão. Suas análises minuciosas levavam Viktor a imaginar os dias de trabalho, em como Jayce passava noites acordado lendo papéis, revisando o trabalho com a mesma rigidez que destinava a sua vida. Profundamente detalhista com o tempero da comida, o ponto da gema do ovo, o alinhamento de suas camisas e o corte do cabelo. A casa sempre impecável, suas descobertas constantemente inovadoras, devido ao fluxo constante de seu trabalho em busca da perfeição. Jayce Talis, a imagem do homem que tentava agarrar o futuro com as próprias mãos, como se o tempo fosse algo domável e ele pudesse ver dentro de suas fissuras, de forma que nada lhe assustava.
— O que você tanto olha? – Jayce sorriu, sem tirar os olhos do tablet.
— Isso é um desperdício de tempo. – Viktor respondeu, sorrindo. Ele tirou o tablet das mãos de Jayce, que observou o movimento com interesse. Ele se sentou em seu colo e e enlaçou seu pescoço com os braços.
— É assim que você se refere ao seu trabalho? – Questionou, com um sorriso lascivo.
— O trabalho é importante. – Viktor respondeu, beijando a bochecha de Jayce. — Mas isso – beijou o pescoço — é bem mais interessante, cientificamente mais promissor.
— Cientificamente mais promissor, hum? – Jayce beijou Viktor, as mãos firmes pressionando suas pernas, repousadas sobre as coxas grandes. – Sorte a minha ser um homem da ciência.
As semanas que seguiram foram de intensa fisioterapia, agora que conseguia suportar mais esforço com menos dor. Sentia-se mais feliz e saudável, as dores se limitavam a cervical e eram menos persistentes. Sua rotina consistia em aulas pela manhã, fisioterapia pela tarde, e o resto do dia ficava em casa, com Jayce.
Em uma tarde quente, Viktor voltou da Academia apressado, havia esquecido sua troca de roupa para a sessão de fisioterapia e o jeans que vestia impossibilitaria a execução de qualquer exercício. Chegou no apartamento correndo, ao entrar na sala, viu a televisão ligada e um livro aberto sobre a mesa de centro.
— Jayce? – Chamou, enquanto caminhava para seu quarto.
Viktor pegou seu celular e enviou uma mensagem “Estou em casa, você saiu?”. O som do celular soou pela casa muda, acentuando sua curiosidade. Viktor terminou de trocar suas roupas e caminhou em direção ao som do celular. No quarto, sobre a cama, estava uma muda de roupa dobrada, esquecida junto ao celular. Viktor se dirigiu até o banheiro, adentrando a porta semiaberta.
O cheiro de lavanda se mesclava ao cheiro de ferro do sangue acumulado no chão, numa poça vermelha envolta a cabeça de Jayce. O sangue marcava o azulejo azulado, a borda da cuba branca, as bochechas pálidas de Jayce. Gotas pequenas e aglomeradas, ressecadas num lastro de vida desperdiçado.
Parado frente ao túmulo, Viktor encarava a lápide de mármore em contemplação. Fazia sol e o suor escorria pelas suas roupas de forma que, em outros momentos, lhe causaria nojo. As tulipas vermelhas pesavam em sua mão, o cheiro doce misturando ao de terra revolvida embrulhava seu estômago.
Preso em sua mente, ele não percebeu a aproximação da mulher de meia idade, que parou a seu lado. Ela trajava um vestido preto, cuja saia ia até metade das panturrilhas grossas. Seus cabelos mesclavam entre castanho e uma grande quantidade de grisalhos, dando um ar de cansaço a seu rosto. Com cuidado, ela se abaixou e depositou um grande buquê de tulipas vermelhas sobre o túmulo, acariciou a foto da lápide com os dedos finos, como se tocasse o rosto de Jayce, um homem jovem e sorridente, com olhos esverdeados e sorriso infantil.
“Jayce Talis, seu amor perdurará pelas fissuras do tempo-espaço”, ela leu em voz alta e sorriu. Como uma facilidade invejável, se levantou do chão e sacudiu o pó da barra do vestido com as mãos.
— Você quem cuidou dos detalhes da lápide? – Ela perguntou, sem tirar os olhos da foto cravada na lápide de mármore cinzento.
— Sim. Ele organizou a parte legal, mas nenhum outro detalhe afetivo.
— É uma frase muito bonita, assim como a foto. Eu não havia visto. – Ela sorriu para a imagem de Jayce, cabelos longos cobrindo as orelhas, a barba curta e a pele corada.
— Eu tirei essa foto a alguns meses. – Viktor respondeu.
— Você deveria colocar as flores sobre o túmulo, Viktor. Estou segura de que ele ficaria feliz.
Ele depositou seu buquê de tulipas e se resignou ao silêncio, olhando o rosto amado de Jayce em silêncio, sua mente nada mais que um borrão de pensamentos incoerentes. A mulher suspirou, cansada. Tirou um lenço da bolsa, colocou os óculos sobre a cabeça e secou o suor que escorria por seu rosto.
— O que a autópsia apontou? – Ela se voltou para Viktor e ele pôde vê-la inteira, pela primeira vez. Sobrancelhas grossas marcando os olhos grandes e esverdeados. Viktor sentiu o pulmão comprimir sob o peso do ar úmido.
— Seus olhos. – Suspirou, doloroso.
— São idênticos aos dele, eu sei. – Ela sorriu, sem emoção. — É o pouco que compartilhamos, além de sonhos ambiciosos e o amor por ciência. No mais, Jayce sempre foi a cópia do falecido pai.
Eles ficaram em silêncio novamente, absorvendo a presença um do outro, se medindo na familiaridade da dor de perder o amor de uma vida.
— O laudo apontou queda da própria altura. A doença estava atingindo a mobilidade das pernas, ele estava com dificuldades em se manter em pé em alguns momentos, mas não me disse nada. – Viktor notou como os olhos dela se desviaram brevemente para a bengala na qual ele se apoiava, como se se buscasse na existência de Viktor alguma resposta.
— Jayce queria tanto partir nos próprios termos. Que piada cruel é a vida! – Disse sorrindo.
— Seu nome é…
— Ximena.
— Ele nunca me apresentou vocês. A família. Nem por fotos.
— Não se preocupe, querido. Eu chorei a morte de Jayce por muitos, muitos meses. Desde que ele deixou o país e veio para cá. E, se te consola saber, o advogado me comunicou sobre a morte dele assim que você entrou em contato. Jayce deixou o testamento pronto, mas, além de meu filho, ele era acionista da empresa. – Sorriu melancólica. — Sendo honesta, todo esse tempo estive espionando-o, buscando saber seus passos, se estava bem, se ainda estava aqui. Sei que vocês tinham um acordo legal devido toda à questão da eutanásia, mas Jayce parecia genuinamente feliz com você.
— Não o bastante.
Não o bastante. Não o suficiente. Porque o tempo passava e ele ainda tinha todos aqueles sentimentos entalados em seu peito, todo amor e desejo presos em uma onda gigantesca de raiva e mágoa pela pessoa que perdeu e pela vida natimorta da qual estava enlutado
No dia 16 de cada mês, Viktor e Ximena se encontravam no cemitério. Eles levavam o mesmo buque, com tulipas vermelhas e comiam na padaria mais próxima, então se despediam, sabendo que ali estariam no mês seguinte. Não eram encontros planejados, mas tampouco coincidências. Eles eram mais parecidos do que poderiam imaginar. Partilhavam o amor pela ciência, o gosto pelo mar e algumas opiniões políticas. Mas nada lhes unia mais do que a profundidade da ausência que partilhavam.
— O advogado da empresa me ligou. Disse que você não atende as ligações, nem responde as mensagens que ele envia.
— Sinto muito pelo incômodo. – Viktor disse, indiferente.
— Viktor, o dinheiro do apartamento, sua parte na empresa…
— Eu não pedi por nada disso! – Interrompeu rapidamente.
— O que não muda o fato de tudo isso ser seu. Independentemente de como você se sinta, tudo isso é seu, Jayce fez o testamento em vida e vocês eram legalmente casados. Acho que não preciso me delongar nos aspectos burocráticos, você os conhece bem.
Eles se calaram, comendo em silêncio.
— Você tampouco tem ido as fisioterapias. – Ximena pontuou.
— Você sabe uma quantidade assustadora de coisas a meu respeito.
— O dono do hospital é um grande amigo da família. Antes do diagnóstico, Jayce iniciou os exames e fez todas as consultas em um dos hospitais da franquia. no Brasil.
— Não deixa de ser antiético. – Bufou, irritado. — É só…difícil. Eu sinto falta dele. Não é como se o conhecesse a anos, mas ainda assim, sinto muito a falta dele.
— Tudo bem se sentir assim. Jayce foi importante para você e não é o tempo que vai definir a intensidade disso.
O passar dos dias conferia a ela uma expressão mais serena, porém cansada. A bondade que ela demonstrava era tão genuína que ele sentia seu egoísmo expiado no amor genuíno de uma mãe, algo com o qual não estava familiarizado.
— Você não sente raiva? Não sente nem um pouco de revolta ou mágoa ao me ouvir reclamar e falar de dor e sofrimento, enquanto você tem suportado muito mais do que sou capaz de imaginar? Você perdeu seu único filho e nos últimos momentos não esteve lá. Fui eu. Todo o cuidado e amor, as palavras finais, a cor do caixão, eu fiz tudo sem você, porque foi o que ele quis.
Pela primeira vez em meses de encontros, os olhos de Ximena se encheram de água. Ela agarrou um guardanapo e secou a parte interna dos olhos, com a elegância que lhe era costume.
— Eu já lhe havia dito, me despedi de Jayce a muito tempo. Se tem alguém que me entende, esse alguém é você, Viktor. Eu vejo em você tudo o que vi em mim. A dor, a raiva, o abandono. Eu não era o suficiente? Ele não confiava que eu estaria com ele até o fim? Será que fui eu quem passou essa doença para meu bebê? Que mãe vê o filho partir antes dela, Viktor?! Eu deveria apenas seguir meu filho e deixar esse mundo.
Relutar não foi suficiente, Viktor foi incapaz de conter suas lágrimas. Enquanto tentava conter o choro cada vez mais compulsivo, seus ombros tremiam, ossos frios pareciam romper sua pele.
— Já faz meses, mas eu ainda acordo pela noite, escutando a risada alta do meu filho, pensando qual de nós foi mais egoísta. No fim, querido, nada disso importa. Nenhum de nós é capaz de controlas nada. Não sei o que você fará com o que ele te deixou, com sua saúde, com seus dias, mas você caminhou uma estrada muito dura para chegar até aqui, Viktor. Vivo e saudável. Não se esqueça disso!
No mês que seguiu, Viktor vendeu o apartamento e resignou do seu trabalho na academia. Havia muitas coisas que não queria carregar consigo. Doou livros e roupas, vendeu todos os móveis da casa, em seu carro apenas uma mala de roupas, um vaso de flores metálico e diversos porta-retratos com fotos suas e de Jayce.
Sua foto favorita capturava o perfil de Jayce, olhando sobre o ombro, com um sorriso largo sob o céu nublado, mãos nos bolsos da jaqueta jeans, barba por fazer, totalmente estonteante. Detrás do quadro havia um papel pregado, com a caligrafia de Jayce “Fui blindado com um amor forte o suficiente para me permitir viver sem medo e partir sem amarras. Sempre seu, Jayce.”
Dos bancos do carro, o cheiro de Jayce irradiava, das janelas até as marcas de dedo no volante. Detalhes que os dias levariam embora, mesclados as novas impressões da vida que seguiria antes que Viktor pudesse deter, antes que pudesse chorar uma vez mais. Como um rio turbulento, o tempo apagaria o lastro de todas as coisas.
