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O sol brilhou sobre as montanhas do meu coração

Summary:

A marca de mordida na junção de seu pescoço está desbotada em um rosa pálido, mas ela continua tão imponente como sempre, assombrando sua mente o tempo inteiro. O lembrando o quanto amar é um fardo. O quão pesado pode ser o peso em seus ombros por nutrir tamanha imensidão de sentimentos por alguém como Hannibal Lecter. Mas a marca de acasalamento se torna ridícula, nem mesmo a cicatriz de sorriso sob seu umbigo é tão majestosa e real quanto a prole de um verdadeiro Alfa Lupus.

Chapter 1: Amar é destruir, ser amado é ser destruído

Chapter Text

As linhas sobre o papel são traçadas perfeitamente, a ponta do lápis desliza com exatidão retocando os últimos detalhes em seu desenho. É gracioso a forma como ele move e cria, a engenhosidade de um verdadeiro artista. A única região com alguma cor no desenho é a marca de acasalamento, o formato de seus próprios dentes e a cor vermelha raivosa colorem o lindo pescoço. Cachos bagunçados foram traçados como uma delicada auréola sobre o topo da cabeça e pequenos lábios cheios esboçados em um sorriso radiante.

A tela gravada em seu palácio da memória foi transferida para um de seus papéis de desenho, seu lobo na ânsia de tocar seu companheiro fez com que Hannibal desenhasse algo que ele pudesse tocar. Will é a imagem etérea de felicidade e contentamento, relaxado depois de ter feito sua própria marca no pescoço de Hannibal.

A memória daquele pequeno momento ainda é tão fresca mesmo depois de tantos anos. Eles prometeram um ao outro naquela noite que fariam durar para sempre. Poucos dias depois ele estava fugindo com Bedelia e deixando um Will sangrando no chão de sua cozinha ao lado de uma Abigail morta. O cheiro azedo de seu ômega o seguiu para a Itália e a dor em seu pescoço quase o cegou, o abalando mais que qualquer outro ferimento da luta com Jack. Mas nada o destruiu tanto quanto a traição de seu companheiro.

Naquela noite ele perdeu sua família e teve que lutar por sua liberdade, saindo sob a chuva coberto de sangue e com o coração em pedaços.

As portas da frente são abertas e por ela Alana passa com seu caminhar desajeitado, sua bengala dando o apoio que ela precisa para sustentar seu peso. Hannibal admite que é quase adorável o quanto a mulher tenta parecer imperturbável em sua companhia, mas o cheiro de nervosismo sempre a entrega. Ele sabe que sua presença mesmo atrás das grades a amedronta e a promessa feita sobre mata-la a assombra.

- Olá, Alana. – Ele se levanta delicadamente de sua mesa e caminha com toda a sua polidez para perto da parede de vidro que o impede de sair de sua cela. – Como vai Margot e seu filho? – Seus longos cílios tremem sob a pergunta feita cordialmente, ele percebe isso facilmente. A linguagem corporal da Dra. Bloom muda drasticamente, mas tão rápido volta para a sua impotência sempre usada ao se dirigir a Hannibal.

- Eles vão muito bem, Dr. Lecter. Mas temo que minha vida particular não seja da sua conta. – Ela diz com frieza. – Minha visita é com outro propósito além de perder tempo com conversa fiada e falsas cordialidades, Hannibal.

Seus olhos brilham perigosamente com a educação usada ao soar tão rudemente. Alana a muito tempo deixou de ser aquela doce mulher que olhava fascinada para Hannibal. Suas mãos tiram um amassado inexistente da frente de seu macacão. – Então o que a trouxe até aqui, Alana?

- Um novo serial killer. – A voz de Jack Crawford responde. O homem surge através das portas abertas, seu chapéu empoleirado no topo da cabeça cria sombras que escondem seus olhos. – Nós o chamamos de Fada do Dente.

(***)

 

Seu olfato apurado é atacado pelo cheio de fogo e ferrugem, o ar se torna cinza quando uma das viaturas começa a ficar em chamas. Ele desce calmamente da traseira da van tombada, passando por cima dos corpos sem vidas dos policiais e de dois agentes do FBI. Hannibal nunca achou que depois de tudo, Jack e Alana poderiam ser tão ingênuos sobre suas verdadeiras intenções. Eles acharam mesmo que ele iria ajudá-los depois de tudo? Hannibal teve que rir diante de tanta ignorância.

Seus dedos se movem para afrouxar a fivela atrás de sua cabeça, a máscara desagradável de contenção cai suavemente no chão. Hannibal se afasta cada vez mais do carro tombado, indo em direção da viatura inteira parada a poucos metros, há apenas um policial morto atrás do volante. Ele abre a porta e puxa o corpo para fora, jogando-o aos seus pés. Poucos segundos depois ele está dirigindo para longe e fugindo do radar de Jack Crawford mais uma vez.

Em algum momento ele se livra do carro e busca por outro veículo, ele troca seu macacão por roupas casuais de sua vítima – um homem mais ou menos de sua faixa etária. Hannibal dirige e pega atalhos conhecidos, alguns usados para chegar a sua casa no penhasco, aquela que ele preparou com o intuito de morar com Will e Abigail.

As luzes estão acesas e há um pequeno movimento do lado de dentro. Quando ele está descendo do carro e jogando seu cabelo para longe de sua testa, a porta da frente é aberta e segundos depois a figura esguia de Chiyoh vestida em seu longo sobretudo passa pelo batente da porta. Seu rifle está pendurado em suas costas e os longos fios de cabelo soltos em seu rosto frio, ela coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha e depois afunda as mãos nos bolsos do casaco. Seu olhar e postura diz que a beta já estava o esperando.

- Você demorou. – Sua voz é calmante ao contrário dos sons de trovões que o céu faz, avisando que uma tempestade está chegando. Seus passos são contidos e sua postura relaxada, mas seus olhos revelam a bestialidade escondida sob a carcaça de um homem excêntrico.

(***)

 

Os dias se arrastam e a neve engole tudo ao seu redor – o branco pálido cai sobre as ruas, os telhados das casas, as folhagem das árvores e o ar. Montana é reverente no inverno e Hannibal sente na pele a mudança de estação – há muito tempo desacostumado com o clima congelante, mas ele quase fica encantado com a escolha de seu companheiro. Will sempre gostou dos dias frios, sua casa em Wolf Trap era um pontinho de luz em meio a neve e ele sempre colocava sua cama na sala para dormir com a sua matilha perto dele.

Ele está nessa cidadezinha a pouco mais de um dia e meio, mas parece uma eternidade inteira até que ele possa procurar por Will. Ele detém o impulso de ir diretamente bater a porta do homem mais jovem, mas em vez disso ele se ocupa em garantir que o FBI não sabe de seu paradeiro, e em observar seu menino de longe.

Ele puxa seu sobretudo de pelos para mais perto, fechando o zíper até o pescoço e depois os botões com as abotoaduras caras. Hannibal se inclina minimamente dentro do Impala para olhar melhor as duas pequenas silhuetas do outro lado na rua. Will tem seus lindos cachos escondidos sob a touca e os velhos óculos no topo do narizinho de botão, ele carrega muitas sacolas do lado do corpo e com a outra mão livre conduz uma menininha de chiquinhas. Hannibal pode sentir como seu lobo está inquieto ao ver seu ômega depois de tantos anos – a dor excruciante de garras afiadas arranhando do lado de dentro querendo sair.

Seus olhos caem sobre a criança com longos fios enroladinhos e de um loiro claro, o mesmo tom de cabelo que Mischa e ele tinham herdados de sua mãe, mas Hannibal não é tolo e ele não precisa se demorar muito para saber que aquela menininha é fruto de seu amor com Will. A última vez que eles se viram foi em Wolf Trap, depois de Hannibal ter salvado seu ômega de Mason Verger e ter carregado ele inconsciente em seus braços até a segurança de sua casa.

Na ganância de conferir os ferimentos e o tempo infernal afastados, eles fizeram amor sobre os lençóis de Will e se amaram como costumavam fazer. Foi doce, mas desesperador e febril. Will passou o tempo inteiro agarrado ao corpo de seu alfa, arranhando e beijando o arco do cúpido e as maçãs dos rosto afiadas, beijos cheios de amor. Hannibal por outro lado abraçou Will como se ele fosse uma xícara de chá feita da porcelana mais requintada e delicada, como se o mínimo toque pudesse quebra-la.

Enquanto faziam amor, ele se deixou ter esperança que tudo ficaria bem, que eles poderiam recomeçar e esquecer o quão conturbado tudo aquilo foi – a traição de Will, a morte de Abigail e a ida dele à Florença para mata-lo. Eles poderiam esquecer e com o tempo tudo se curaria, mas seu querido Will não estava pensando a mesma coisa. Ele ainda era uma coisinha magoada e imprevisível, e quando eles estavam deitados ainda quentes e suados pelo momento de paixão, sua voz tão rouca pelas orações de amor ditas, as palavras seguintes quebraram qualquer promessa de esperança.

Will não queria mais saber dele. Não queria ouvir sua voz, saber onde ele estava. Não queria pensar mais nele. Foi por isso que Hannibal escolheu se privar de sua tão amada liberdade e se entregou, porque ele amava mais seu ômega do que qualquer outra coisa e ele não suportava saber que Will não queria saber mais nada dele. Foi por isso que ele aceitou pacificamente ser preso, ele queria que o homem mais jovem soubesse exatamente onde ele estava.

- Papai vai fazer os docinhos? – Com a sua audição de alfa lupus Hannibal consegue ouvir, mesmo de tão longe, a vozinha inocente tagarelar nas costas de seu ômega enquanto ele guarda as sacolas no carro.

Hannibal se deixa apreciar o momento, se deliciando com a forma como a sua menininha se balança sobre as duas pernas curtas e finas, brincando com a boneca entre seus bracinhos. Suas marias chiquinhas arrumadas graciosamente com laços rosas e pequeninos brincos de florzinha em suas orelhas. Hannibal a acha perfeita. E quando ela se vira, grandes olhos azuis encontram os seus, eles tiram o seu ar e o psiquiatra se vê emocionado com tamanha perfeição e requinte.

- Claro, meu amor. E você poderá alimentar os cães também. – Hannibal nem percebe que está sorrindo ao ouvir o gritinho infantil animado.

Nem em um milhão de anos ele pensou em ter filhotes, mas a realidade é tão doce que ele se pega ansiando em reivindicar aquilo que é dele por direito. Seu companheiro e sua filhote. Ele limpa com as costas da mão as lágrimas silenciosas que deixam seus olhos, seguindo com o olhar até que o carro de Will desapareça.