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Nico estava deitado de lado, voltado para Will, com os joelhos encostando sob as cobertas. A camiseta laranja de Will estava torcida onde ele havia agarrado o tecido mais cedo, quando havia se distraído em uma breve troca de carinhos. Só percebeu que os seus shorts de pijama tinham subido quando a mão de Will, que passeava preguiçosamente pela sua coxa, foi perdendo o ritmo e parou.
As mãos de Will não tocaram a cicatriz, mas os olhos a percorreram inteira.
Ela subia pelo lado interno da coxa, espessa, pálida, irregular e feia. Nico achava que a pele ao redor parecia apertada e meio derretida. E ele a conhecia de cor — sabia exatamente como a pele puxava torto quando ele se movia.
— Como você ficou com isso? — Will perguntou baixinho. — Não tá no seu relatório médico.— Não como se tivesse muuuita coisa.
O estômago de Nico embrulhou e ele não respondeu. A garganta havia se fechado sozinha.
O olhar de Will saiu da cicatriz e pousou no rosto de Nico. Algo mudou ali, sutilmente. A curiosidade quase médica e tranquila desapareceu. Os movimentos pararam; a mão não se afastou, mas parou de traçar aqueles círculos lentos e carinhosos — e Nico sentiu a ausência do gesto como se fosse uma respiração suspensa.
— Ah, — Will disse baixinho.
Nico viu a ficha dele cair. Ah. Will era médico, com certeza já havia visto feridas que não eram acidentes; sabia a diferença entre o que acontece com alguém e o que alguém faz a si mesmo. Por experiência própria, também.
— Não precisa, — Will acrescentou depressa. — Não devia ter perguntado. Desculpa.
As palavras eram gentis, como sempre. E era exatamente esse o problema. Will era sempre gentil, e Nico havia passado tempo demais convencido de que não merecia isso. Nico engoliu em seco. A garganta parecia cada vez mais apertada, e ele sentia-se como se estivesse se preparando para algo que vai machucar.
— Foi depois de Manhattan — As palavras saíram mais sem emoção do que pretendia, quase como se estivesse contando uma história que tinha acontecido com outra pessoa, não com ele. A normalidade daquele tom soou estranha até para os próprios ouvidos.
A testa de Will franziu. Ele fez as contas em silêncio, mas Nico viu mesmo assim. Parecia estar contando para trás.
— Você tinha…
Nico assentiu levemente— Doze anos. É.
Nenhum dos dois disse nada.
A mão de Will se afastou da cicatriz e pousou na cintura de Nico. O calor dela atravessou a pele, e ele odiou o quanto precisava daquilo.
— Não precisa me contar, — Will repetiu.
— Não, está bem,— disse Nico. — Foi no inverno depois da guerra. Tudo meio que... desacelerou.
Os dedos se fecharam no tecido da camiseta de Will. O algodão estava macio porque tinha sido lavado recentemente, com um cheiro suave de lavanda.
— Eu não tinha nada pra fazer. Sem missões, sem espionagem, sem nada. Achei que ia ser bom, que ia dar para descansar.
Não foi. O silêncio depois da guerra era pior que o barulho. Na batalha, pelo menos, você sabe de onde o perigo vem. Pelo menos você está se movendo. Então quando ele ficou parado, tudo começou a alcançá-lo — tudo que havia enterrado sob a fuga, sob a luta e sob a necessidade de ser útil. Só conseguia pensar em Bianca, na sua mãe, e nos sentimentos que tinha por Percy Jackson, que o assombravam como o pior tipo de fantasma.
— Era o aniversário da morte de Bianca, — ele acrescentou, mais quieto. — E dois dias antes do Natal, e todo mundo estava ocupado.
Percy tinha Annabeth, o Acampamento Meio-Sangue tinha seus próprios ritmos, rotina e suas próprias famílias. Nico estava certo de que não tinha lugar em nada ali. Havia chegado à conclusão de que era mais seguro ficar sozinho do que perder mais gente. Só esqueceu que estar sozinho também significa que ninguém vai notar quando você começa a desaparecer, e que isso dói de um jeito que não tem palavra.
— Saí do acampamento — ele continuou. — Sem avisar ninguém, porque eu já sumia fazia meses. — Uma pausa, ele deu os ombros. — Ninguém percebia, de qualquer jeito.
Ninguém lhe devia nada (ele sabia disso). Nico havia se tornado invisível de propósito, e o acampamento, obedientemente, havia olhado além dele. Era isso que queria. Não era?
O polegar de Will alisou devagar pelo lado de Nico. Uma vez só.
— Tinha um mercadinho — Nico disse. — Comprei comida. Uma fatia enorme de bolo de chocolate; eu juro que nunca tinha visto uma sobremesa daquele tamanho. Tipo, tava ali numa vitrine, e eu nem gosto tanto assim de bolo, e nunca teria comido aquilo num... dia normal. Mas comprei. Lembro de contar as moedas porque tava quase sem dinheiro, e fiquei pensando se a moça do caixa ia me deixar levar mesmo se me faltasse um pouco, e ela deixou. — Uma respiração curta. — Comi no beco atrás da loja.
Ainda conseguia sentir o gosto: doce demais, muito cremoso e a cobertura que grudava no céu da boca. Tinha se sentado no concreto frio e visto a própria respiração virar névoa no ar e pensado em como seria fácil simplesmente... parar. Fiz meu papel. Não preciso mais ficar. O bolo pesava no estômago como se não o tivesse feito bem.
— Eu invoquei minha espada.
Will não reagiu de imediato, mas a mão parou nas costas de Nico. O momento congelou e o corpo inteiro de Will ficou quieto, ouvindo com atenção.
Nico ficou olhando para a clavícula de Will em vez dos olhos. O pulso firme sob a pele. Prova de que alguém estava o escutando. Era a primeira vez em sua vida que ele estava compartilhando isso com alguém, e era meio difícil calcular o que deveria dizer e o que soava certo em expor.
— Ficava pensando em onde eu ia parar. Já vi Asfódelos e sei o que acontece com a maioria das pessoas. Elas simplesmente somem. Não literalmente, eu digo mais como… elas se perdem, esquecem de tudo. Você para de existir, mas ainda está lá. — Os dedos se fecharam, sem querer. — Eu não queria isso. — Ele parou por um segundo. — E eu sentia que se continuasse do jeito que estava... era pra lá que eu ia acabar. Porque eu era um covarde e não conseguia encarar quem eu era. Quem eu sou.
Ele piscou com força e as luzes embaçaram. Os Campos de Asfódelos se estendiam para sempre e ele havia caminhado por eles, havia visto isso de perto. Preferia se dissolver por inteiro a vagar eternamente como o fantasma de si mesmo.
— E quando eu era mais novo, — ele continuou, mais devagar agora, — antes de saber como o Submundo funciona de verdade... eu ouvi histórias. As dos mortais, sabe?
Ele hesitou. A mão de Will deslizou e entrelaçou os dedos nos de Nico. A palma estava quente e firme e ele segurou como se fosse a única coisa sólida no mundo.
— Sobre pessoas que... — Ele parou. A mandíbula enrijeceu. Tentou de novo. — Pessoas que fazem isso.
Não conseguia dizer a palavra. Suicídio.
— Falavam que iam pro inferno — ele concluiu em voz baixa. O inferno das histórias era repleto de labaredas eternas e castigo sem saída, e Nico gostaria de evitar isso, se pudesse. — Eu não sabia se valia pra semideuses também. Ou se a gente tinha uma versão própria. — A respiração ficou irregular. — Eu não sabia onde ia parar, só parecia... assustador. Tipo, pular num rio sem saber o que tem lá no fundo.
Ele olhou para Will, que parecia não saber quais palavras escolher, os olhos pesados. — Eu não queria acordar num lugar pior.
Os deuses eram caprichosos e Hades era o seu pai, mas Hades também era um deus, e deuses não abrem exceção para filhos que quebram as regras (ou pelo menos era o que Nico acreditava naquela época). Se era pecado nas histórias dos mortais, podia ser pecado em todo lugar, e Nico estava com medo de descobrir.
— Por isso eu usei a espada. — Falar aquilo custou. Até então ele havia conseguido se manter distante, mas estava ficando mais difícil a cada segundo.
A expressão de Will mudou, ele pareceu entender.
— Ferro estigiano.
Nico assentiu.
— Absorve a alma de tudo que mata. — Disse tecnicamente, como se estivesse lendo de um manual. Era mais seguro assim. A respiração falhou, os olhos arderam, e Nico quis sair da própria pele. A espada fazia parte do Submundo tanto quanto ele. Tinha sido forjada na escuridão, temperada no Rio Estige. Se alguma coisa era capaz de levá-lo por inteiro; corpo, alma e memória, era aquela lâmina.
— Pensei que se eu a usasse contra mim mesmo... não ia mais ter dúvida nenhuma. — Os dedos tremeram levemente na mão de Will. — Eu ia saber que não existia nada depois.
— Eu não queria ficar na incerteza. — ele sussurrou. — Mesmo que saber significasse me dissolver dentro de uma espada. — Uma lágrima escorregou antes que ele pudesse segurar. — Eu sei como soa — murmurou. — Foi burrice.
— Soa como alguém que estava apavorado. — Will respondeu de imediato, a voz carregada. — Isso não é burrice. — A mão apertou. — Faz sentido... não conseguir lidar com tudo isso e querer só... meio que parar tudo. Você tava desesperado, não era burrice.
Nico desviou o olhar por um segundo, depois se forçou a voltar. Ele se sentiu um pouco envergonhado pelo o que Will disse, parecia meio… terapêutico demais. Repentinamente, ele questionou se seu namorado realmente queria escutar aquilo. Então, se sentiu meio mal por imaginar que Will esconderia algo dele numa situação dessa— se ele estivesse desconfortável, Nico confiava que Will iria avisar. Então, continuou:
— Estava, — ele admitiu. — Eu não queria parar num lugar pior porque não estava conseguindo aguentar. — A voz vacilou e ele engoliu em seco. — Achei que estava sendo prático — acrescentou. — Que estava no controle do meu fim.
Tinha planejado tudo. E ainda assim, nunca tinha estado tão longe de ter qualquer controle na vida inteira. Pesquisou onde cortar, e checou de novo depois enquanto tentava entender o que quase tinha feito.
— Doeu. Depois parou de doer. — Ele hesitou. — Lembro de pensar que estava funcionando. E aí eu—
Ele parou. As memórias chegaram de uma vez. O sangue tinha sido vermelho demais. Nico nunca tinha visto aquele tom de vermelho — tão saturado, tão vivo, quase artificial. Lembrava de pensar parece tinta enquanto via a poça se formar no concreto gelado; jorrando na batida de seu coração, ao lado do guardanapo amassado do bolo.
— Tinha uma funcionária da loja — ele continuou, as palavras saindo tortas. — Ela me achou quando foi jogar o lixo fora, eu acho. Começou a gritar, e eu fiquei... irritado. Como se ela tivesse interrompido alguma coisa. — A boca se torceu. — Essa parte me dá asco.
Que tipo de pessoa fica irritada quando alguém tenta salvar a sua vida?
— Juntou uma galera. Não me lembro muito do que veio depois.
O que ele lembrava era do som, primeiro. A voz alta e contínua de alguém e então mais vozes se sobrepondo. Lembrava do frio do concreto se espalhando pelas costas, porque em algum momento havia parado de estar sentado. O céu sobre o beco era daquele branco chapado que anuncia neve mais tarde. Ele se lembrava de pensar exatamente nisso. Neve mais tarde. Como se importasse.
Depois a ambulância. Luzes muito brilhantes se movendo rápido demais. Dentro da ambulância cortaram suas calças (ele não esperava isso) e colocaram um curativo de pressão na sua coxa, que ficaram ajustando. Alguém ficou falando com ele o tempo todo naquele tom que as pessoas usam quando querem te manter presente: firme, um pouco artificial demais, perguntando o nome, se sabia que dia era, se conseguia apertar a mão. Conseguia. Fez isso. Respondeu tudo certo. Nada daquilo parecia estar acontecendo com ele de verdade.
A primeira coisa de que se lembrou com clareza foi o teto. Os painéis fluorescentes e enfeites de natal feios feitos a mão por crianças. A luz forte, e ele ficou olhando pra ela e pensou, de longe: estou dentro de um hospital.
Alguém tocou no braço dele. Ele se contraiu.
— Ei. — Uma voz sem pressa. — Ei, tudo bem. Vou só checar a sua pressão.
Ele virou a cabeça. Uma enfermeira — uns quarenta anos, cabelo escuro preso num coque baixo na nuca, tão preto quanto os seus olhos. Pele pálida com subtom avermelhado, algumas pintas espalhadas pelo rosto anguloso. Ela ainda não olhava pra ele, estava focada no aparelho, delicadamente ajustando com prática, e havia algo no jeito como ela se movia que fez o peito de Nico apertar. A naturalidade de quem já fez aquilo dez mil vezes e vai fazer dez mil vezes mais, porque acha que importa.
Ela ergueu os olhos.
— Oi, meu bem. Pode me dizer o seu nome?
Nico abriu a boca. A garganta estava muito seca.
— Niccolo— ele disse.
Não sabia por que disse aquilo. Ninguém o chamava assim. Fazia anos que ele não dizia aquilo em voz alta, havia guardado num lugar pequeno e bem fechado porque era o nome que a sua mãe lhe dera e a sua mãe estava morta e ele não merecia carregá-lo. Mas a enfermeira havia perguntado no mesmo tom que a sua mãe usava, e saiu por inteiro. Tinha entregado o nome que a sua mãe lhe dera como se fosse nada, num lugar como aquele.
— Niccolo — ela repetiu, com cuidado, e chegou quase no som certo. — Que nome bonito. Eu sou Chiara. Quantos anos você tem, Niccolo?
Os olhos arderam. Ele pressionou os lábios. Não ia chorar. Absolutamente não ia.
— Doze — ele conseguiu dizer.
E então estava chorando. Demais. Ele tinha conseguido evitar no beco, não tinha chorado na ambulância, e tinha se esforçado muito para não chorar no hospital— mas talvez falar em voz alta fez Nico realizar que ele tentou terminar sua própria vida aos 12 anos ( 12 vividos, oitenta e poucos de nascido) e isso tivesse sido a gota d’água. Chiara não disse nada. Não fez o som que as pessoas costumam fazer — aquele oh suave do desconforto que significa que querem que você pare de falar porque elas não sabem o que fazer com você. Ela apenas pousou a mão sobre a dele e esperou.
Checavam a sua pressão a cada quinze minutos nas primeiras duas horas. (Nico havia contado no relógio da parede, mas poderia estar errado, porque suspeitava que havia cochilado em alguns momentos). O aparelho apertava e soltava, o número era dito em voz alta e anotado, e quinze minutos depois tudo recomeçava. A dele estava baixa, disseram. Disseram de um jeito que indicava que ele devia achar isso preocupante, mas Nico ainda estava com dificuldade de sentir qualquer coisa. Colocaram uma agulha no dorso da mão para soro, fixada com adesivo transparente que puxava levemente a pele ao redor. O saco pendurado no suporte era quase sem cor e ele ficava olhando pra ele, só mais tarde adicionaram mais alguma coisa, pra dor, e ele viu o líquido percorrer o acesso antes de sentir qualquer coisa: um frio subindo pelo braço, e depois um afrouxamento lento e geral, como algo se desfazendo por dentro.
A ferida eles irrigaram primeiro, o que ele ouviu mais do que sentiu. Depois o cobriram com papel cirúrgico azul, e a cirurgiã (jovem, mais calada que as enfermeiras, nem havia perguntado o seu nome, não que Nico tivesse se surpreendido com isso.) explicava o que estava fazendo enquanto fazia. A lidocaína, ela disse, ia picar primeiro. Picou. Depois nada, ou quase nada. Ele sentiu o primeiro ponto; uma pressão meio estranha, um puxão que o corpo reconhecia como algo que não deveria estar ali. Ele ficou quieto. Ela parou, perguntou se estava sentindo, ele disse um pouco, ela esperou e continuou. Sentiu mais ou menos a metade. Quarenta pontos no total, ela disse depois. Depois da sutura trocaram sua roupa ( o que restou dela) por um avental hospitalar : algodão fino, azul-claro, com um padrão repetido de dinossaurinhos, e era isso que ele ainda vestia quando o transferiram para o leito. A camiseta havia sobrevivido, ou a maior parte, e a tinham dobrado e colocado num saquinho plástico com cordão que penduraram no gancho ao lado da cama.
Ele não parava de olhar para aquele saquinho. Era uma coisa estranha pra ficar olhando. Sabia disso. Mas a camiseta era dele, existia antes de tudo aquilo, e estava ali no gancho e ele não conseguia parar de notar ela.
Ficou internado uma noite e depois mais uma. Depois uma semana inteira, que pareceu ao mesmo tempo muito longa e como algo que ele não havia vivido. O natal tinha passado voando, e ele lembrava vagamente de receber um jantar diferente com um mousse de sobremesa na data, junto com um cartãozinho de algumas enfermeiras preso numa bengalinha doce vermelha e branca de menta. Ficou feliz (ou menos triste) que não estava pensando muito sobre a data, o que imediatamente o fez pensar nela, o que resultou numa noite mal dormida e chorosa.
A ala tinha um tipo de quietude que não era silêncio de verdade: botões de chamada, o som específico de tênis no linóleo, alguém no corredor que tossia com uma regularidade exasperante às três da manhã. Ele ficava deitado, olhando pro teto, pensando. Tentou lembrar de algum Natal que tinha vivido antes de Westover, mas não conseguiu. Foi meio como tentar convencer a si mesmo que tinha vivido algo sem ter uma memória daquilo, e ele não conseguia formar nem uma mísera imagem.
Não conseguia dormir bem. Toda vez que estava perto de adormecer, o corpo o puxava de volta, um reflexo que não obedecia, como se tivesse decidido que dormir era parecido demais com outra coisa e não ia se arriscar.
Verificavam o ferimento duas vezes por dia, desembrulhando e reembrulhando com cuidado. No terceiro dia o hematoma havia descido em direção ao joelho, roxo-amarelado feio, e uma enfermeira explicou que era normal, era só o sangue se dispersando, sem motivo pra preocupação. Ele assentiu. Já sabia disso, tecnicamente, mas havia algo estranho em ser informado de que o próprio corpo estava se comportando normalmente quando nada mais estava.
As enfermeiras— Nico preferia elas aos médicos, que pareciam olhar para ele como um quebra-cabeça para ser resolvido enquanto as enfermeiras o tratavam como um ser humano— também falavam extensivamente sobre ‘cuidados de queda’ e o que fazer caso ele caísse da cama tentando andar quando não devia, o que Nico não fez. Era muito estranho ter um grupo de pessoas se importando com algo tão tosco como ele cair no chão. Ele pensava na cama que estava ocupando, nos pontos e nos materiais. Em algum lugar provavelmente tinha alguém que precisava daquilo de verdade, e aqui estava Nico di Angelo tomando uma cama e quarenta pontos e mais de uma semana do tempo de outras pessoas porque não conseguia aguentar dezembro sozinho.
Uma assistente social apareceu. Nico não sabia se ela parecia ser gentil ou tentava ser gentil, o que não é bem a mesma coisa. Ela perguntou o que tinha acontecido e ele disse acidente. Ela perguntou de novo, com delicadeza, de outro ângulo e ele disse de novo. Ela anotou algo e voltou uma hora depois. Mesmas perguntas, ordem levemente diferente. Ele deu as mesmas respostas e ela as anotou de novo.
— Ficavam perguntando o que tinha acontecido, se alguém tinha feito aquilo em mim. Eu disse que foi acidente. Não corrigi quando não acreditaram. — Uma respiração curta. — Disseram que eu tive sorte, que normalmente esse tipo de corte te faz sangrar até morrer bem rápido. — Como se qualquer parte daquilo tivesse sido sobre sorte. — O Conselho Tutelar veio. Perguntou sobre meus pais, escola, família... A assistente me explicou que eu ficaria sob a custódia deles se não encontrassem nenhum responsável, que eu seria considerado legalmente abandonado. — Algo passou pelo rosto dele, o que poderia ter sido humor em outro contexto. — Eu não tinha como explicar de onde eu vinha, porque com certeza eles iriam me enviar para a ala psiquiátrica se eu realmente falasse, e eu duvido que encontrassem qualquer arquivo sobre mim.
O que ele ia dizer? Meu pai é Hades, deus dos mortos, e está ocupado administrando o Submundo. Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos, em 1942, fulminada por um raio porque Zeus não sabia controlar o temperamento. Tenho uma irmã, mas ela também está morta porque entrou num culto de garotas imortais. Moro num acampamento de verão pra semideuses iguais a mim em Long Island, só que é inverno e fim de ano e todo mundo está com a sua família de verdade e ninguém lá gosta de mim. Não disse nada disso, já que era bom nisso.
— Não conseguia dormir direito. Ficava pensando que quase tinha dado certo. — A voz falhou. — Uma parte de mim ficou com vergonha de não ter dado. Ficava pensando que todo mundo ia achar que eu fiz pra chamar atenção.
Nas semanas seguintes após sair, toda vez que alguém olhava pra ele, ele imaginava que a pessoa sabia. Via um olhar de algum campista e pensava: se soubesse, era só isso que ia enxergar. Se alguém descobrisse o que ele tinha feito, aquilo definiria quem ele era pro resto do mundo. O dramático, o que era doente mental demais pra lidar com as coisas como todo mundo lidava. Quem ia ouvi-lo depois disso? Quem ia confiar nele? Ninguém confiava já, não de verdade. Ele era o garoto sinistro que deixava as pessoas desconfortáveis por lembrá-las de que todo mundo morre algum dia. Se tivessem uma razão concreta pra manter distância, iam usar. Iam assentir e dizer mas é claro e nunca mais olhar pra ele do mesmo jeito.
Um dia (Nico não sabia qual, havia perdido a contagem de tempo) ele ouviu duas enfermeiras no corredor falando sobre lar de acolhimento de emergência, as vozes baixas, já tratando da logística. Esperou até o corredor ficar quieto.
Havia um depósito de materiais duas portas abaixo que deixavam entreaberto nas trocas de turno. Ele tinha notado no terceiro dia. Notava essas coisas por hábito, conhecer o layout de um lugar era algo que fazia naturalmente. Dentro do depósito, dobrado numa prateleira ao lado de uma pilha de toalhas, havia uma calça de pijama cirúrgico (verde-piscina, um número acima do dele) e, pendurado num gancho perto da porta, um moletom de alguma enfermeira. Rosa intenso. Era um rosa agressivamente alegre que alguém tinha comprado de propósito, pra ter algo que parecesse seu num lugar idêntico em todas as direções. Nico pegou os dois.
Colocou a camiseta por cima do avental hospitalar. Depois a calça, apertando o cordão até onde dava. Depois o moletom por cima de tudo. Estava de meias. Não tinha sapatos (tinham embalado esses também, em algum momento) e ficou de pé no corredor por um instante, de meias e roupas roubadas e um moletom rosa que chegava na metade da coxa, e pensou, meio vagamente, que parecia completamente fora de si. Não disse obrigado e não se despediu de ninguém. Viajou pelas sombras e se remontou no beco atrás do mercadinho, porque precisava. Porque ele iria chamar muita atenção andando por aí num casaco rosa-choque dois tamanhos acima do dele. Ficou de pé por um momento no escuro, as meias encharcando no concreto molhado, a luz fluorescente da parte de trás da loja tingindo a parede de laranja. O beco cheirava a lixo e gordura velha.
A jaqueta ainda estava lá.
Ele a havia dobrado com cuidado e colocado atrás da segunda lixeira, a mais próxima da parede de tijolos. Não sabia por que tinha feito aquilo; não estava pensando com clareza, ou talvez estivesse pensando com clareza demais. Ele se abaixou e a pegou. Estava fria, mas seca. Vestiu e ficou de pé por um segundo no beco — em janeiro, quarenta pontos mais pesado, vestido como alguém que tinha saqueado um depósito de hospital (porque tinha) — e pensou na enfermeira cujo moletom havia roubado, cujo turno havia interrompido, cujo dia havia piorado um pouquinho mais sem nunca saber o nome dela. Deixou o moletom rosa dobrado em cima da lixeira e depois viajou pelas sombras de novo e se remontou numa rodoviária em algum lugar em New Jersey, de meias no asfalto frio, e ninguém o olhou por muito tempo. Sentou. As pessoas circulavam ao redor E Nico as observou sem pensar em nada de específico e esperou a cabeça parar de latejar.
— Ainda penso nisso às vezes — ele disse, em voz baixa. — Na enfermeira que era dona do moletom.
Will ficou quieto por um momento, esperando Nico concluir.
— Fui embora sem falar nada. Sem falar com ninguém. Não disse um obrigada. Não sei porque penso tanto nisso.
O polegar de Will se moveu devagar pela cintura de Nico. Uma vez.
— Porque ainda te incomoda — Will disse, simplesmente.
Nico pensou nisso por alguns instantes.
Não contou nada para Quíron, que ia se sentir na obrigação de vigiá-lo. Nem para Percy, que ia ficar sem jeito por um segundo e depois olhar pra ele com aqueles olhos verdes grandes e tristes. E definitivamente não a Hazel, que tinha o próprio trauma e não precisava do dele empilhado por cima. E, obviamente, talvez acima de tudo, porque ele tinha uma vergonha visceral de tudo aquilo.
A mão de Will apertou a sua com firmeza.
— Eu não conseguia contar pra ninguém — Nico continuou. — Como é que você começa uma conversa dessas? Achei que as pessoas iam me olhar como alguém desequilibrado e perigoso. Quem ia querer me ter do lado numa batalha sabendo que eu... — Ele parou. — Eu também não tinha alguém… próximo o suficiente, ou que se importasse o suficiente comigo para falar sobre isso. Mesmo depois, com Hazel… eu não… sei lá. Eu sentia como se fosse uma barreira que eu não poderia cruzar. E era muito embaraçoso, como se eu estivesse procurando pena das pessoas. Eu também ficava pensando muito em como seria se tivesse dado certo. O que todo mundo ia dizer. Se iam ficar surpresos, ou nem tanto. Se iam falar: que pena que ele morreu, mas ele não era bem estranho? — Will passou os dedos devagar pelos cabelos escuros de Nico, em silêncio. Não disse nada, e Nico entendeu. Ele também não tinha resposta.
Tinha imaginado os olhares cuidadosos, as pessoas tratando ele como se fosse de vidro, ou se desviando como se ele estivesse coberto de lixo. Não suportava pensar nisso.
— Ainda dói? — Will perguntou, baixinho.
Nico olhou pra cicatriz e moveu levemente a perna.
— Não. Não tem muita sensação ali. Dano nos nervos. — Uma risada seca, sem graça. — Parece que mirei bem.
A mandíbula de Will enrijeceu, mas ele não disse nada. A mão ficou no lugar, o polegar traçando pequenos círculos na cintura de Nico, ancorando os dois.
O silêncio se acomodou entre eles.
— Quando eu... fiz aquilo — Nico acrescentou, devagar, — ficava pensando se a espada ia fazer o que eu achava que faria. E no final percebi que eu não queria descobrir.
— Você mudou de ideia.
— Mudei. — A voz de Nico quebrou. Ele limpou a garganta. — Mudei.
Ele encarou Will com os olhos avermelhados.
— Não tenho mais esse medo — ele disse, quieto. — Não sobre onde a minha alma vai parar. Sei onde ela tá.
Aqui. Com Will e com as pessoas que o haviam puxado de volta da beira sem nem saber que ele havia estado lá. Com o acampamento que tinha virado sua casa e com a irmã que havia escolhido ele como família.
Will ficou quieto por um longo momento. Quando falou, a voz estava mais rouca que o normal, como se fosse ele que estava lutando pra se manter firme.
— Fico feliz que você não tenha descoberto. — Ele se aproximou — peito contra peito, joelho contra joelho, a respiração acariciando a bochecha de Nico. — Fico feliz que você tenha ficado. Não só por mim, ou pela Hazel, ou por qualquer um de nós. — O polegar encontrou a lágrima que Nico não tinha sentido cair. — Porque você merece viver. Ser feliz de verdade. Isso não é uma coisa que precisa ser justificada.
Ele pressionou os lábios à mão de Nico. Ficou assim por um momento.
— Fico pensando: qual é o sentido se é tudo tristeza, sabe? — A voz havia ficado mais quieta, menos certa; como se não fosse o médico-chefe do acampamento falando, só o Will, tentando resolver alguma coisa em voz alta. — Não faz muito sentido se tudo for assim. E acho que não tenho uma boa resposta. Só sei como a dor sente e sei como isso aqui sente. — Ele encontrou os olhos de Nico. — As duas coisas não têm nada a ver uma com a outra. E acho que é aí que tá o ponto. Vão existir momentos ruins, mas talvez sejam eles que façam os bons valerem tanto.
A mão foi até o rosto de Nico, o polegar na maçã do rosto.
— Não consigo consertar — Will continuou. Havia algo cru nessa admissão. Will Solace, que consertava coisas, que salvava pessoas desde criança, dizendo abertamente que não conseguia. — Não consigo desfazer o que você passou, e odeio isso. — Pressionou os lábios. — Mas isso não muda nada- não vou a lugar algum. Não tô falando isso como médico, nem como conselheiro. Tô falando porque te amo antes de ser qualquer uma dessas coisas.
A respiração de Nico prendeu. As palavras pousaram em algum lugar que ele havia mantido fechado por muito tempo.
— Não é assim que eu te vejo — Will disse. — Você não é nenhuma das coisas que você tinha medo que as pessoas vissem.
A visão de Nico embaçou. Ele não desviou o olhar.
— Sempre que você se sentir mal, pode me contar — Will disse. — Se quiser. Mas se você um dia se sentir daquele jeito de novo, mesmo que ache que é burrice ou vergonhoso, — A voz quebrou levemente. — Me fala. Prometo que não é nada disso. Te perder doeria além da conta.
Nico soltou o ar devagar, as lágrimas escorrendo livremente.
— Não penso mais assim — ele murmurou. — Não como antes. Não se preocupe comigo, por favor.
Ficar havia lhe dado coisas que ele nunca teria conseguido imaginar quando tinha doze anos e estava sozinho naquele beco. Talvez esse fosse o ponto desde o começo. Talvez ele simplesmente ainda não conseguisse ver.
O polegar de Will tocou delicadamente a cicatriz. Nico deixou.
