Chapter Text
Neste momento estou dentro do carro do meu pai, pela janela é possível ver matos, matos e mais matos.
Não tem absolutamente NADA neste fim de mundo?
Cruzo meus braços, me recostando no banco, soltando um resmungo, o que faz com que John, o motorista do meu pai, me lance um olhar pelo espelho.
"Você também pediu por isso, senhor Lee"
Faço uma cara de desgosto, ficando ainda mais emburrado.
Anteontem dei uma festa na mansão dos meus pais, eles haviam me dito que iam sair pra jantar e que passariam a noite fora.
Como eu saberia que eles iam brigar no meio do jantar e voltar pra casa?
Eles chegaram no exato momento em que eu estava em cima da mesa com uma garrafa de vinho na mão. Havia pelo menos umas 100 pessoas na sala.
Não consegui ouvir o grito enfurecido do meu pai por causa do som alto da música, mas o rosto dele havia ficado vermelho e uma veia estava quase saltando da testa dele.
Resultado: Ele desligou o som, expulsou toda aquela gente da casa, confiscou todos os meus cartões de crédito e disse que ia me dar uma lição.
No dia seguinte eu pensei que ele havia esquecido, que ia deixar passar, afinal eu já fiz outras merdas piores antes, ele poderia me perdoar de novo... só que ele não perdoou.
No dia posterior a esse, ele entrou no meu quarto às 6 da manhã, horário em que eu ainda tô no meu 5° sono (afinal, preciso do meu sono da beleza) e me mandou arrumar as malas.
Agora eu tô aqui, pensando como vou conseguir sobreviver nesse buraco.
O carro começa a balançar, me tirando dos devaneios.
"Que isso, John?" pergunto, franzindo a testa.
"São os buracos na estrada, não tem asfalto aqui"
"Tá de sacanagem, né?" eu olho pelo vidro da janela, e realmente, não tem mais asfalto, agora as ruas são todas de terra.
Fico horrorizado.
"Será que tem internet aqui?"
John me olha com pena.
"Acredito que não, senhor..."
Fecho meus olhos com força.
Isso é um pesadelo.
Continuo olhando pelo vidro, agora não vejo apenas milharal, há algumas casinhas de madeira e pequenos comércios.
Percebo que algumas pessoas olham pro carro. Estão curiosos, eles devem achar que esse carro é uma nave espacial.
Solto uma risadinha com o pensamento.
"John, você acha que eles são os nativos daqui?"
John engasga levemente, disfarçando uma risada.
"Creio eu que são os moradores sim"
Eles nunca devem ter visto um carro desses antes, aposto que apenas andam de carroça ou trator.
Nos afastamos um pouco do vilarejo, e o carro balança tanto que preciso me agarrar no apoio da porta.
"John aonde estamos indo?" tenho certeza que minha voz sai mais dramática do que quero, mas não consigo evitar.
"Estamos quase chegando, seu pai alugou um sítio para o senhor"
"Um sítio...?" murmuro baixo.
Depois de cerca de 10 minutos, John para perto de algumas cercas, ele desce do carro e abre a porta pra mim.
Eu hesito antes de sair, mas saio. Olhando em volta como se estivesse em outro mundo.
A primeira coisa que noto é uma casa, ela é grande e vermelha, há um pequeno jardim na frente. Também é possível ver uma plantação do lado esquerdo da casa.
"É aqui?" pergunto olhando pra John, que está tirando minhas malas do carro.
"Sim, senhor. Seu pai me informou que o caseiro está te esperando."
"Caseiro?" olho de volta pra casa, estreitando os olhos. "Quanto tempo irei ficar aqui?" eu enrugo o nariz.
Isso é cheiro de bosta de vaca?
"Tempo indeterminado, senhor..." o tom de John sai mais baixo, como se ele estivesse pisando em ovos.
Solto um suspiro cansado, pressionando a ponte de meu nariz.
Me viro pra John, que está parado sem saber o que dizer.
Tento forçar um sorriso. "Está tudo tudo bem, John, vou ficar bem" tento aliviar o clima, mas não tenho tanta certeza.
Ele sabe que estou mentindo, não tem possibilidade alguma de eu ficar bem num lugar onde não tem ar condicionado.
"Trate-se de se cuidar, senhor, seu pai entrará em contato" John dá a volta, entrando de novo no carro.
Fico parado no lugar, observando ele partir. Devo parecer patético, abandonado.
Olho de volta pra casa.
Tá, vamos lá.
Não pode ser tão ruim assim, certo?
Abro o pequeno portãozinho de madeira, puxando minha mala com uma das mãos.
Tento me esquivar dos buracos de lama pelo caminho até a porta. Sei que meus sapatos já eram, vou ter que tacar fogo neles depois.
Quando chego na porta, viro a maçaneta e
está trancada.
Tento de novo, e de novo. Nada.
"Porra, tô trancado do lado de fora?" resmungo, e então começo a bater na porta.
E então escuto um barulho.
Estranho.
Escuto de novo.
Me viro lentamente, e minha respiração trava.
Um porco enorme tá me encarando da outra ponta da cerca. Eu esqueci de fechar o portão e ele acabou entrando.
Tá, é só agir como se eu fosse uma presa e não um predador. Sou formado em Discovery Channel.
Me abaixo, tentando parecer menor.
O porco continua me encarando, sem se mexer, mas seu rabinho balança pra lá e pra cá.
"Merda... não vem aqui" murmuro, mas isso fez com que o porco se aproximasse mais.
Prendo a respiração.
Meus olhos se cruzam com o do porco, ele deve sentir que não sou daqui, porque parece que neste momento ele toma consciência e começa a correr na minha direção. Muito rápido.
Só consigo aceitar que agora eu morri.
Morto por um porco. Que morte patética.
Mas então, ouço o trinco da porta e sou puxado pelo braço.
"O quê diabos cê tá fazendo?"
Pisco algumas vezes, sem acreditar que tô vivo. Olho pra cima e um cara tá na minha frente, ainda segurando meu braço.
Ele me salvou?
Me endireito, puxando meu braço na mesma hora.
"Eu estava prestes a morrer" eu digo, apontando pro porco, que agora deve estar do outro lado da porta.
"Morrer? era só um porco" ele acha graça.
"Só um porco? Aquilo ali é um monstro" falo horrorizado.
Ele balança a cabeça, mas não discute.
"Você deve ser o Heeseung" diz estendendo a mão "Sou o Sunghoon, o caseiro"
Olho pra mão dele, e depois para seu rosto.
Sunghoon tem a pele um pouco pálida para quem mora na roça, como se não precisasse trabalhar várias horas do dia no sol quente. Ele também é mais alto que eu. Seu cabelo é bem preto, e algumas mechas caem na frente dos olhos.
Bonito.
Só então aperto a mão dele. Tenho uma política de apenas cumprimentar homens bonitos.
A mão de Sunghoon é um pouco áspera, e fria também. Se o visse na rua nunca iria dizer que ele mora nesse cafundó.
Depois que soltamos nossas mãos, Sunghoon caminha até o canto a parede, voltando com uma enxada.
"Pra quê isso?" digo e tenho certeza que minha voz sai enojada.
"Pra quê mais seria? Capinar, oras" Ele me entrega a enxada.
"Eu não sei usar isso aqui não" Olho pra ele como se ele tivesse me zoando.
Eu nunca fiz trabalho manual antes, nunca precisei.
"Eu te ensino" Sunghoon dá dois tapinhas no meu ombro quando passa por mim, esperando que eu o siga.
Algo me diz que vai ser um loooooongo dia.
