Chapter Text
Uma fanfic medveguillen
Alanis estava sentada em uma das cadeiras do camarim que dividia com Mel e Sophie Charlotte, aguardando ser a próxima a entrar na cadeira de maquiagem. O ambiente ao redor pulsava no ritmo acelerado de sempre: vozes cruzadas, risadas soltas, o som seco dos pincéis sendo organizados sobre a bancada, o cheiro forte de laquê e maquiagem aquecendo sob as luzes amareladas do espelho. Ainda assim, tudo parecia distante, como se estivesse acontecendo atrás de um vidro grosso demais para ser atravessado.
Com o celular nas mãos, ela alternava entre redes sociais e uma matéria qualquer de moda, dessas que falam sobre tendências inalcançáveis e vidas perfeitamente editadas. Tentava se distrair, mas não conseguia sustentar o foco em nada por mais de alguns segundos. Era como se a mente se recusasse a colaborar, insistindo em retornar sempre ao mesmo lugar. Ao mesmo nome. À mesma sensação sufocante crescendo devagar dentro do peito.
Sem perceber, já estava imersa em uma sequência infinita de posts que repetiam, ampliavam e condenavam falas antigas de Giovanna. Comentários, recortes, opiniões, tudo jogado ali, escancarado, sem filtro. Manchetes agressivas demais para caberem numa tela tão pequena.
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"Internet resgata falas problemáticas de Giovanna..."
"Alanis sabia de tudo?"
"O silêncio da atriz gera ainda mais repercussão."
~
Ela travou a mandíbula. "Será mesmo que eu não sabia de nada disso?" A pergunta veio automática, atravessando seus pensamentos antes mesmo que pudesse impedir. "Será mesmo que eu fui tola assim?" Franziu levemente o cenho, passando o polegar pela tela sem realmente ler o que estava diante dos olhos. As palavras já começavam a embaralhar. "Isso foi há, sei lá, quinze anos... mas como eu era há quinze anos?"
A cabeça começou a latejar, como se cada pensamento colidisse contra o outro sem espaço para respirar. Por dentro, tudo girava rápido demais. Por fora, o mundo seguia exatamente igual. Uma risada explodiu em algum canto do camarim. Alguém comentou sobre figurino. Uma assistente passou apressada carregando uma arara de roupas. E Alanis continuava ali, parada no meio do próprio caos.
Virou o celular com a tela para baixo sobre a bancada, como se aquilo fosse suficiente para silenciar o barulho. Não era. Nunca era. Levantou o olhar, e o reflexo no espelho devolveu uma imagem que, por um segundo, ela demorou a reconhecer como sua: os olhos levemente inchados, a tensão acumulada no maxilar, o cansaço escondido — ou mal escondido — nas pequenas linhas de expressão.
E, ainda assim, ali estava ela. Pronta para ser reconstruída. Porque era isso que acontecia ali todos os dias: a cada camada de maquiagem, a cada detalhe ajustado, alguém reorganizava sua aparência até que o que estivesse por dentro deixasse de ser visível. Dar vida a Lorena Ferretti, naquele momento, parecia exigir mais do que técnica. Exigia controle. Exigia contenção. Exigia um tipo de força que ela não tinha certeza se ainda possuía — principalmente quando a culpa aparecia.
E ela sempre aparecia. Sem aviso. Sem pedir licença. A palavra atravessou sua mente com força — culpa — e, quase instantaneamente, um nó se formou em sua garganta, apertando de dentro para fora, dificultando até mesmo a respiração. Ela levou os dedos até a base do pescoço, pressionando de leve a própria pele como se aquilo pudesse aliviar a sensação.
— Estamos finalizando aqui, logo é você, Alanis — disse Dêza, a maquiadora, sem desviar o olhar do trabalho que fazia.
A voz era suave, habitual. Como quem não fazia ideia de que Alanis estava a poucos segundos de desmoronar. Ela assentiu com um sorriso pequeno, automático demais para ser real.
Foi então que o celular vibrou. Uma vez. Depois outra. O aparelho tremia sobre a bancada como uma insistência impossível de ignorar. Ela hesitou por um breve instante antes de pegá-lo, levantando-se logo em seguida e fazendo um gesto discreto de que já voltava. Só quando atravessou a porta do camarim foi que olhou para a tela. Não precisava confirmar. Já sabia quem era.
Ficou parada no corredor, sentindo o aparelho vibrar contra a palma da mão enquanto o som da chamada ecoava alto demais dentro da própria cabeça. Não queria atender. Não sabia o que dizer. E, principalmente, não tinha o que dizer. "Desculpas, talvez?" A ideia soou estranha até para ela. "Mas por que eu me desculparia? Por ter deixado isso acontecer? Por ter causado isso? Por ter aceitado esse trabalho... ou por talvez não desmentir o que estão dizendo?"
A ligação cessou. O silêncio que veio depois não trouxe alívio — só ampliou o vazio. Ela soltou o ar devagar, como se estivesse segurando a respiração há tempo demais, e se deixou cair na poltrona ao lado da porta. A lágrima veio sem aviso, escorrendo quente pelo rosto. Uma só. Mas suficiente para quebrar o pouco de controle que ainda restava.
Alanis fechou os olhos com força. Não podia chorar. Não ali. Não agora.
— Alanis?
A voz suave a fez erguer o rosto rapidamente. Sophie Charlotte estava parada diante dela, observando-a com um cuidado silencioso. Já caracterizada, já pronta para entrar em cena, mas com aquele olhar atento de quem percebe coisas que ninguém comenta.
— A dona Dê está pronta para você.
Alanis respirou fundo, forçando um sorriso que mal se sustentava.
— Obrigada, Gerger...
O apelido arrancou um pequeno riso de Sophie, leve o suficiente para quebrar o peso daquele momento por alguns segundos. Ela se aproximou um pouco mais, avaliando Alanis em silêncio antes de falar.
— Eu não sei se devo... mas, se você me permitir...
Alanis encarou os olhos iluminados da atriz e assentiu sem precisar dizer nada.
— Eles só vão parar quando você fizer alguma coisa — disse Sophie com calma, sem precisar especificar sobre o quê. As duas sabiam. — Não importa o que seja... mas você precisa se posicionar.
Houve uma breve pausa.
— Mas o que importa aqui é... como você está?
A pergunta a atingiu em cheio. Alanis soltou um riso baixo, sem humor, sem força. Nem ela mesma fazia ideia de como responder aquilo.
— Eu não sei... — a voz falhou levemente — eu só queria sumir. Fingir que nada disso tem a ver comigo... com a Giovanna... com a Gabi... — ela parou, respirando fundo. — Fingir que eu não preciso resolver nada disso.
Sophie sustentou o olhar da colega por alguns segundos antes de abrir um sorriso pequeno e empático.
— Agora você só precisa entrar ali, deixar a Dê te transformar em Lorena Ferretti e fazer o que você sabe fazer de melhor, que é atuar.
Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Alanis, deixando sua covinha quase visível.
— Todo esse resto aí... — Sophie fez um movimento circular no ar, como se desenhasse um borrão invisível — deixa que nossa santinha Rita de Cássia resolva depois...
Elas riram com mais uma menção da ficção. Alanis levou alguns segundos até conseguir absorver de verdade aquelas palavras. Então assentiu devagar, transmitindo um olhar silencioso de agradecimento. Sophie passou o braço por seus ombros e a guiou de volta para dentro do camarim. E, por alguns segundos, Alanis quase conseguiu acreditar que realmente seria capaz de deixar tudo aquilo "para depois".
— ✦ —
O restante do dia aconteceu quase no automático. As cenas com Pedro Novais fluíram melhor do que ela esperava. Ele puxava leveza, trazia ritmo, fazia com que ela se mantivesse presente. Pedro, além de irmão de cena, era também um irmão que Alanis havia ganhado para a vida. Os dois já haviam contracenado juntos em outros trabalhos, e a química entre eles havia ultrapassado os estúdios há muito tempo. Existia uma intimidade confortável, construída em anos de convivência, piadas internas e silêncios compreendidos.
Por isso era tão difícil para ele vê-la passando por tudo aquilo. E Pedro sabia. Sabia quando Alanis se dispersava, quando perdia o texto não por falta de concentração, mas porque a mente fugia dali. Sabia quando ela sorria apenas para evitar perguntas. E, sem pressioná-la, sempre encontrava um jeito de trazê-la de volta.
— Corta! — ouviram pela última vez naquele cenário. — Temos, pessoal! Parabéns! Obrigada por mais um trabalho incrível!
A voz da diretora ecoou pelo ambiente enquanto a equipe começava a desmontar parte dos equipamentos e reorganizar o cenário para as próximas gravações. Alanis permaneceu parada na marca da personagem por alguns segundos, soltando o ar lentamente enquanto deixava os ombros relaxarem. Então olhou para Pedro.
— Qual é a sua próxima cena?
— Eu gravo com o Murilo agora... — arqueou uma sobrancelha, tentando puxar da memória a sequência do dia — e fecho com a Lohan. E você?
Alanis abaixou o olhar para a folha em suas mãos antes de responder:
— Gabriela. Todas as minhas próximas cenas são com ela.
Pedro a encarou por alguns segundos, esperando que dissesse algo mais. Mas o silêncio pairou entre os dois, e aquilo já dizia muito. Caminharam juntos até a saída do cenário. Quando chegaram perto da porta, Pedro parou de frente para ela e a puxou para um abraço que foi imediatamente correspondido.
— Você sabe que eu tô aqui, né? — disse ele baixo, próximo ao ouvido dela. — Não hesita em me procurar.
Ele não precisava de resposta. Só precisava que ela soubesse. Alanis fechou os olhos por um breve instante, aproveitando o conforto daquele abraço por mais alguns segundos antes de se afastarem e cada um seguir para um lado.
Ela olhou novamente para a relação de cenas do dia. E ali estavam: Lorena e Juquinha. Gabriela e Alanis. Dobrou a folha devagar, como se o gesto pudesse adiar o inevitável, e segurou a respiração por um segundo inteiro antes de soltar. E, pela primeira vez naquele dia, seu peito apertou de verdade.
