Chapter Text
PRÓLOGO
[Aviso: ler é opcional, porque você pode pular pro capítulo 1, e é grandinho esse prólogo, mas aqui explica mais do que a Marjorie faz da vida e há uns relances breves do que ela vai enfrentar nas próximas páginas… e super combina com o primeiro parágrafo do capítulo a seguir. Fica a seu critério.]
Era primeiro de setembro de 2024, e estava tudo se repetindo de novo: a ansiedade, as tentativas de se manter calma durante o reparo, o último tambor sendo posto pelo manejo, voz do locutor anunciando palavras que perfuravam suas entranhas. Para Marjorie, aquilo era mais do que ocasional, e sim uma rotina que se estendia há anos, e duraria por mais uma grande porção deles se a parte ruim daquela sensação não a consumisse de vez.
Ela queria correr. O animal por entre suas pernas também queria, e se agitava apenas pelo fato de ter escutado o aviso de que a pista estava liberada. A amazona, uma moça loura no auge de seus dezoito anos, mantinha uma postura rígida e profissional na sela enquanto seu cavalo sapateava em rumo ao partidor.
— Segura firme que ela vem aí! — O locutor disse, animado. — Iniciando a última bateria da final do grande Rodeio Feminino Ycambi Ranch... Marjorie Santos... Donnie Leo Beaver!
Ela suspirou fundo, fechando os olhos por um brevíssimo período de tempo. Logo conduziu e ajeitou seu companheiro, um grande baio de canas pretas como carvão, até o ponto de saída ideal para começarem o percurso.
Estavam de costas para ele quando a moça o fitou, a transição entre relutância e audácia soando visível em seu olhar. O cavalo quicava sob Marjorie de forma que aquela valsa impaciente que dançavam a fazia sentir um certo calor florescer em seu peito. Ela tinha que fazer isso, ela ia fazer isso.
E então, virou o cavalo rumo aos tambores, virando o primeiro com tamanha perfeição que arrancou ainda mais falas empolgadas do locutor, que apesar de torcer para todas, exaltava quando o trabalho era bem feito. Haviam feito a virada com tanta maestria que o tambor quase caiu, mas Marjorie o segurou como se tivesse ensaiado bastante para aquele momento.
Donnie por pouco lambeu o segundo virador, deixando clara a sintonia que criara com a dona durante os anos em que foram um conjunto. Eram como uma só criatura; ela pedia com carinho, ele queria correr, e vice-versa. Qualquer coisinha entre os dois era muito, e faltavam apenas conversar um com o outro para fechar o pacote.
Seguiram em direção ao terceiro tambor sem perder tempo, mas quando foram virá-lo, Donnie acabou tropeçando no fundo da virada, mas logo retomou firme a carreira. Os dois dispararam pela reta de chegada, a garota o deixando correr livre apenas lhe encostando a espora.
— Vamo, garoto! vamo, Don! — Ela dizia baixinho, o incentivando.
Marjorie não sabia se aguentava ver para o indicador vermelho vivo da fotocélula, então desviou o olhar para o lado, onde pararia o cavalo. A passada tinha sido equilibrada, e ela não se sentia pronta para escutar o resultado.
Mas, mesmo assim, desejando que o tempo parasse durante uma boa eternidade, ele seguiu rodando... rodando e rodando como uma roleta vertiginosa ao seu redor, a mantendo num estado de grande estupor quando o locutor exclamou, à todos pulmões, o que Marjorie não conseguiria acreditar.
— E É A LIDER DO MOMENTO!!! DEZESSEIS, NOVE OITO TRÊS! DEZESSEIS, NOVECENTOS E OITENTA E TRÊS!
Enquanto a plateia aplaudia e muitos vibravam ao som do tema da vitória de Ayrton Senna, o mundo de Marjorie simplesmente congelou na frente de seus olhos. Ela olhou para a fotocélula, e apenas depois de alguns instantes que processou parte da informação, uma lágrima descuidada desceu por sua bochecha enquanto abraçava o pescoço de seu cavalo.
Dezesseis... ela não conseguia entender. Como? Por quê? Tudo estava contra eles; a pista mais difícil, o contexto, os problemas pessoais. Mesmo assim, aquilo tinha acontecido.
Era mesmo da vontade de Deus. Isso foi a única coisa de que ela teve certeza ao sair da pista, passar pelo juiz de bem-estar animal e agarrar Donnie aos prantos. O acariciava do jeito que dava, mas suas carícias nunca seriam o suficiente para expressar sua gratidão à ele.
Nem se importaram se iriam ganhar o rodeio, se pegariam troféu ou medalha, se ficariam ainda mais reconhecidos. Para Marjorie, Donnie era seu tudo. O motivo de seu viver, o ar que transitava em seus pulmões, sua maior âncora no meio do mar revolto que sua vida se tornara naqueles últimos anos. As cobranças se tornavam mais cruéis, as broncas e críticas também... mas o amor por Donnie sempre vencia.
No fim, aquela dupla venceu o rodeio. Como sempre que competia, Marjorie se pegava pensando em que outras histórias tinham aqueles que também correram com e contra ela. Pensava no tamanho do amor que tinham por seus animais, o motivo de estarem juntos, todas as poucas e boas. Cada um tinha um ponto de vista diferente para contar, e isso a fascinava ainda mais ao perceber que a caneta que escrevia seu destino finalmente ficara bem firme nas mãos do Senhor. Ela sempre confiara Nele, mas naquele momento, soou como se tudo tivesse se encaixado.
Horas depois, porém, quando as provas funcionais acabaram e deixaram aquele domingo com um gostinho de “quero mais” para a maioria, ela andava quase desnorteada em direção à cabine de locução, levando seu baio à cabresto consigo. Quando viram seu rosto no caminho, muitos poderiam ter se perguntado: “Cadê a alegria?”
Ela poderia responder isso a si mesma, mas se fosse outra pessoa perguntando, ficaria calada e mudaria de assunto. Quando chegou em seu destino, forçou um sorrisinho amigável. Ela aprendera aquele truque desde nova, pois sabia que se tensionasse os músculos certos de seu rosto, pareceria feliz em poucos segundos. Um rapaz, trajado completamente em suas vestes countries, começou a ajeitar alguns equipamentos de vídeo enquanto outro relia um pequeno roteiro. Uma mulher, também bem arrumada, conversava com ele e Marjorie rapidamente.
“É só uma entrevista com a campeã do rodeio, e o cavalo vem também se quiser”, disseram. Ela ficou feliz na hora, mas depois que voltou ao trailer e foi exposta ao velho choque de sua realidade...
Ah, putz. Corta, mete aquelas luzinhas coloridas na tela da TV e bate a claquete! Esqueci de dizer de uma vez por todas. Eu sou a Marjorie, e tem horas que é mais fácil em terceira pessoa, mas não vale a pena. Me confundo pacas. É só que, sei lá... parece irreal demais falar tão bem de mim mesmo assim, então desconsidere essa parte e finja que foi uma merda.
Hum, por quê? Ora, porque na minha cabeça, foi isso que aconteceu. A passada, a felicidade, tudo o que passei com meu Donnie até ali; aquilo foi perfeito, uma grande resposta de minhas orações que achei que sempre caíam na caixa postal do escritório lá em cima, porém não foi apenas flores.
Eu fui massacrada, arrebentada, jogada para baixo aos pontapés e deixada no chão para sangrar até morrer. Bom, quando sua saúde mental já está em suporte de vida, é ainda mais difícil de se recuperar daquilo que te mantém naquele coma frio e agoniante; daquilo que te paralisa, te espanca e faz, por alguns momentos, você querer não ter nascido.
— E então, Marjorie — perguntou a entrevistadora, deixando o sorriso mais branco que o normal à mostra. Estava na moda não parecer ter uma dentição de verdade. —, conte um pouco da sua história até aqui, e me conta: como foi fazer o único tempo de dezesseis no Rodeio e vencer pela somatória?
“Você pode fazer quantos tempos de dezesseis for, Marjorie, mas não vai deixar de ser uma desleixada!”, gritara minha mãe, apontando para alguns equipamentos sujos que fiquei de lavar no dia anterior e acabei esquecendo. “É por isso que você não pode ir pra faculdade! Não cuida nem das ligas do seu cavalo, imagina de si mesma. Nunca vai sair de casa desse jeito... e de quem é a culpa? Ah, a culpa é minha! Essa idiota que te criou desse jeito, toda dondoca! Você não lembra de lavar nem o próprio prato, e só faz se tiver um besta pra te mandar!”
Eu já era acostumada a esses golpes, mas ela sempre dava um jeito.
“Um dia, você me mata de vergonha, menina! Vou parar no hospital por tua causa! Por sua causa, entendeu!? Por sua causa!”
Meu pai tentou apartar a confusão, mas chegou tarde demais. O dano já havia sido feito há tempos, e sangrava tanto que nenhum curativo do mundo poderia tratar daquelas cicatrizes invisíveis vindo à tona.
Nunca importou o quanto eu me esforçava, me machucava, me ralava e treinava para agradar. Não eram relevantes as noites em claro que estudei, as manhãs frias em que me virei para montar o máximo que dava, todas as lesões que meu corpo carregava por conta de repetidos bates e desgastes por stress. Não, nunca importou, e nunca importaria o quanto eu me sacrificava, física e mentalmente, para tentar dar o mínimo de orgulho a alguém.
Eu nunca iria ser o suficiente.
— Ah, e fale mais sobre o seu cavalo, Donnie Leo Beaver — perguntou após eu responder a outra questão de jeito mais simples e animado.
Ah, e quanto ao Dom... ele era a melhor coisa que tinha me acontecido. Era a luz de minha vida, uma estrela guia que Deus me mandara quando eu já tinha parado de crer Nele. Sentia que Donnie era a resposta para o problema mais complicado que enfrentei, e mesmo notando que estive errada quanto a isso, ele era aquele que me mantinha acreditando que coisas boas ainda poderiam nos acontecer.
Ele me dava esperanças. Era a única pessoa que me mantinha no lugar. Me fazia achar que, uma hora ou outra, a felicidade nos aguardava no fim daquela tempestade. Porque, quando eu estava com Donnie, tudo de ruim ao redor se ofuscava.
E, toda vez que me sentia mal tendo de omitir minha realidade e acabar relatando um conto de fadas, fazia carícias no focinho de meu cavalo, o que me regulava para continuar estável.
“Ele ama correr, e eu amo ele”, costumava dizer.
— E então, o que você vai levar para casa dessa edição do GP Ycambi? — fez a última pergunta.
Eu me permiti refletir um pouco daquela vez. Não era nada mal, na verdade. Eram só aqueles episódios que me depreciavam, mas fora eles, aquela prova tinha sido um marco especial em nossas vidas.
Depois de tanto sonhar, eu corri dezesseis na pista que tanto almejava competir desde que pisei nela aos doze anos de idade... a pista que me fez pensar alto, querer mais, me esforçar mais para continuar naquele lado gratificante do esporte de três tambores. Podia ter corrido esse tempo mais vezes, mais baixo e de jeito mais relevante em outros lugares, mas o Ycambi era especial para mim.
— Foi de muito aprendizado, emoção e alguma ou outra dificuldade, devo admitir — discursei, soando bem humorada. — Estou me sentindo realizada ao lado de meu Donnie, e isso também é, em muitas partes, por conta das oportunidades que aqui nos oferece. Se não fosse pela boa pista, a infraestrutura confortável e todo o ar acolhedor daqui... ah, não teria tanta graça. O Ycambi, em sua essência, não é apenas a casa das grandes matrizes, mas onde sonhos nascem e podem florescer.
Sonhos... essa palavrinha tão meiga, mas tão cruel em alguns sentidos. Eu tinha vários até ser desiludida, mas havia coisas que nunca poderiam arrancar de mim, e até poderiam ter medo da parte de meu ser que se agarrava a elas. Quando um objetivo me parecia traçado, ou mesmo que seu fim fosse ofuscado por uma neblina no caminho, eu iria tentar ir até o fim.
“Até o fim”, eu pensei, minutos depois de sair daquela atmosfera febril de felicidade que tanto me abalara depois. “Puta que pariu, como eu ainda suporto isso? Até o fim é o caramba! É o cúmulo. Como aguentei tanto? Por quê?”
Embaixo da água morna que caía por sobre meu corpo trêmulo, sofria com as tentativas de abafar os sons de meu choro. Me repreendia por ele ter se tornado tão incontrolável e estar me fazendo demorar naquele banho que deveria ser breve, porém também o deixava correr livre ao perceber que só poderia me expressar ali, entre quatro paredes apertadinhas e um chuveiro. Na solitude, eu tinha direito sim a ser um pouco mais livre.
Tentei pensar em coisas melhores; os resultados dentro da prova, as resenhas com meus colegas, a jaqueta que ganhei de brinde dos donos do rancho e até nos jogos de ligas que comprei para os cavalos. Pensar nessas besteiras e em coisas materiais de vez em quando às vezes me fazia distrair do que realmente estava acontecendo.
Mas meu futuro... meu futuro parecia tão incerto que nem queria mais pensar nele, pois toda vez que eu o fazia, ele se desmoronava na minha frente. Era sempre assim, era sempre a mesma coisa, a mesma desilusão.
Então, depois de tanto reprimir mais questionamentos, uma pergunta floresceu em minha mente, me fazendo suspirar e engavetá-la de novo para evitar mais danos à mim mesma:
Até quando eu aguentaria?
