Chapter Text
Três da manhã.
TRÊS da manhã nesse caralho e Lenore tinha perdido totalmente a noção do sono por causa de UM ÚNICO livro empoeirado e com cheiro de mofo. O tal livro tinha sido encontrado por ela na biblioteca particular da faculdade, escondido em meio a outros documentos e papéis terrivelmente antigos. Mas nenhum deles chamou sua atenção como aquele.
Para alguém que cursava religião antiga, era um prato cheio.
Sua amiga Nora, a assistente da bibliotecária, a ajudou a tirar o livro de lá escondido.
Liber Solis Extincti
Lenore traçou a gravura com a ponta do dedo indicador e reabriu o livro na página marcada. Valak, a Princesa do Abismo 58. Trovões ecoavam lá fora, e a chuva batia com força contra as janelas do dormitório.
Seu notebook estava conectado ao carregador, e seu brilho amarelado era a única luz em todo o quarto.
Lenore suspirou, as costas doendo de tanto ficar curvada sobre a escrivaninha por horas. Ela afastou uma mecha rebelde de cabelo da testa, desviando os olhos das notas de tradução bagunçadas na tela. Ela precisava de uma pausa. Seu cérebro já tinha virado papa.
Inclinando a cabeça para trás contra a cadeira, seus olhos pousaram exatamente onde sempre pousavam quando ela precisava de uma rota de fuga.
Fixado na parede bem acima de sua escrivaninha estava um pôster grande e brilhante da Cate Blanchett no filme Thor: Ragnarok. A atriz parecia perfeitamente linda, o que sempre fazia o peito de Lenore apertar.
Deuses, ela estava tão incrivelmente cansada daquela rotina monótona. As palestras intermináveis, a vida acadêmica medíocre, a previsibilidade sufocante de tudo. Lenore buscava algo que parecesse a tempestade do lado de fora de suas janelas.
Ela encarou aqueles olhos na parede por um longo momento antes de soltar uma risada seca e autodepreciativa.
"Deixa disso, louca", murmurou para si mesma.
Inclinando-se de volta, ela puxou o pesado volume de couro para mais perto. As páginas de pergaminho eram finas, as bordas afiadas demais. Ela virou a página distraidamente, com a mente ainda totalmente presa ao devaneio. Uma pontada súbita e aguda cortou seus pensamentos.
"Merda", Lenore sibilou, puxando a mão de volta num instinto imediato.
Um corte limpo e profundo havia se aberto na ponta de seu polegar. Antes que pudesse puxar a manga do suéter para estancar, uma gota pesada de sangue carmesim pingou da pele.
Caiu bem no centro da página antiga.
Exatamente em cima de um glifo circular em relevo que estava enterrado sob uma camada espessa de tinta herética desbotada.
Lenore congelou. O pergaminho não apenas manchou. Ele bebeu o sangue instantaneamente, o papel antigo puxando o líquido profundamente para dentro de suas fibras. A tinta preta ao redor do glifo começou a sangrar, mudando para uma cor violeta pulsante que parecia emitir sua própria luz fraca.
O texto praticamente gritava para ela terminar o que começou. Era um impulso imprudente e desesperado, mas Lenore estava tão cheia de estar entediada. Só por pura rebeldia, ela cedeu ao livro, sussurrando a frase em latim em voz alta na sala vazia.
De umbra ad carnem, prodi.
O ar no quarto mudou num piscar de olhos. O aquecedor parou seu chiado baixo. O brilho morno do notebook começou a piscar, oscilando como uma vela moribunda antes que a tela ficasse totalmente preta, mergulhando-a na escuridão.
A temperatura despencou tão rápido que sua respiração instantaneamente se transformou em uma nuvem branca e espessa.
A partir do centro de seu minúsculo quarto, as sombras começaram a se distorcer, unindo-se em algo massivo, aterrorizante e vivo.
A escuridão não apenas se espalhou, ela engrossou, tomando forma física bem no meio do quarto. O coração de Lenore martelava contra suas costelas.
Lenore perdeu o equilíbrio completamente. Sua cadeira raspou barulhentamente contra as tábuas do piso enquanto ela caía para trás no tapete. Ela engatinhou freneticamente de mãos e joelhos até que suas costas bateram contra a estrutura de madeira de sua cama de solteiro, com os olhos arregalados fixos na entidade imponente que agora ocupava seu espaço.
Era uma demônia.
Ela usava um pesado hábito de freira de um preto profundo que se acumulava ao redor de seus pés. Sua pele era de um alabastro aterrorizante e impecável, cortada por fissuras negras que pareciam porcelana rachada.
Mas quando Lenore olhou para cima, qualquer vestígio de grito morreu em sua garganta.
O terror em seu peito se transformou em algo totalmente vertiginoso. O rosto que a encarava de volta possuía exatamente as mesmas maçãs do rosto altas e a linha do maxilar da mulher em sua parede.
Cabelos grossos, pretos como tinta, cascatavam desordenadamente sobre seus ombros, completamente livres do véu habitual de um hábito. Seus olhos eram compostos por íris pálidas e gélidas, cercadas por anéis escuros, encarando-a diretamente.
Valak inclinou a cabeça, suas mechas escuras movendo-se sobre o tecido creme que forrava o decote de seu hábito preto. Uma cruz de metal simples pendia contra seu peito. Um sorriso elegante e lento surgiu em seus lábios cheios e ensanguentados, revelando dentes que eram um pouco pontiagudos demais. Era uma encarnação sombria e profana de seu próprio devaneio, ganhando carne e trazida diretamente para a sua realidade.
"Ora, ora," Valak ronronou. O som era de um veludo incrivelmente baixo e rico que reverberou pelas tábuas do piso, atingindo Lenore direto no peito. "Que mente deliciosamente perversa você tem."
Lenore tentou puxar o ar para os pulmões, mas a atmosfera parecia sufocante e pesada.
A demônia encurtou a distância entre elas até pairar diretamente sobre o chão, encurralando Lenore por completo.
Lentamente, Valak ajoelhou-se, deixando seu rosto ao nível do de Lenore. A proximidade fez o pulso de Lenore disparar. De perto, a perfeição profana de suas feições era ainda mais estonteante.
Aqueles olhos pálidos e gélidos carregavam uma inteligência cruel e predatória que parecia ler cada segredo sujo e desesperado enterrado no fundo da mente de Lenore.
Valak estendeu a mão, seus dedos longos e pálidos fechando-se com firmeza em torno do maxilar de Lenore. O contato era puro gelo, um choque que fez Lenore arquejar, mas o aperto era completamente implacável. O polegar de Valak pressionou com uma autoridade dolorosa o lábio inferior de Lenore, forçando sua boca a se abrir apenas uma fração.
"Você realmente achou que um livro empoeirado e uma única gota de sangue poderiam acorrentar uma princesa do Abismo?"
Valak sussurrou, com o rosto a centímetros de distância.
O perfume de uma doçura sufocante tomou conta delas. Ela inclinou a cabeça de Lenore para trás, forçando-a a olhar diretamente para aqueles anéis abissais de sombra. "Me responda, mortal."
A mente de Lenore corria em pânico cego, seus pensamentos se dispersando sob o peso daqueles olhos penetrantes. Responder a ela? Ela nem sabia pelo que estava respondendo. Não tinha sido uma escolha consciente invocar uma soberana do Inferno.
Ela mal tinha traduzido metade da página antes que seu polegar raspasse na borda do pergaminho. Ela não tinha preparado nenhum dos círculos de proteção obrigatórios, não tinha desenhado os sigilos de estabilização nas tábuas do chão e não tinha proferido os encantamentos de contenção necessários para ancorar uma força demoníaca com segurança. Foi um golpe de sorte imprudente e incrivelmente perigoso.
O silêncio se estendeu, e os dedos de Valak apertaram ainda mais seu maxilar, a pressão fria como gelo machucando sua pele e arrancando um suspiro baixo de sua garganta.
"Eu... eu não queria... eu só estava..." Lenore gaguejou, a voz tremendo violentamente enquanto tentava formular palavras sob o aperto esmagador. "Eu não sabia que o livro era tão poderoso!"
Em vez de raiva, uma risada baixa e rouca vibrou do peito de Valak. A demônia não se afastou. Em vez disso, inclinou-se ainda mais perto, seus olhos pálidos arregalados com uma diversão cruel e inebriante enquanto mergulhava mais fundo na mente de Lenore.
Ela leu tudo. Cada segredo sujo e desesperado que Lenore já havia enterrado nos cantos mais escuros de sua psique foi completamente exposto. Valak viu o esgotamento exaustivo de sua rotina diária, o tédio sufocante e o desejo profundamente reprimido por sexo.
Ela viu os devaneios exatos e proibidos que Lenore alimentava enquanto olhava para o pôster acima de sua escrivaninha, desejos de ser completamente dominada e deixada à mercê absoluta de uma mulher autoritária, linda e implacável.
O fato de Lenore ter falhado em preparar os sigilos de contenção adequados não significava que Valak iria retornar para a escuridão. Significava que ela estava completamente livre. Ela havia ascendido ao plano terreno sem absolutamente nenhuma corrente para segurá-la, e não tinha a menor intenção de retornar às sombras. Ela queria causar o caos absoluto neste mundo sem graça e previsível, e iria começar bem aqui, com a mortal frágil que tolamente havia aberto a porta.
"Uma invocação acidental," Valak ronronou baixo. Ela se aproximou, seus lábios carnudos e manchados de sangue pairando tão perto que Lenore conseguia sentir o sussurro gélido e doce de sua respiração roçando em sua pele. Era como nevasca embrulhada em açúcar. "Pense na liberdade absoluta disso tudo. Nenhum traço de giz sagrado no chão. Nenhuma barreira entediante de proteção para me manter afastada. Nenhuma regra para proteger você de mim."
A demônia fez uma pausa, movendo o polegar de leve para traçar o contorno do maxilar de Lenore com uma lentidão agonizante. Seus olhos pálidos e penetrantes se arregalaram só um pouquinho, brilhando com uma fome predatória enquanto ela absorvia o puro pânico que emanava da mortal.
"Ora, querida... você realmente não tinha a menor ideia, não é? Você destruiu a fechadura completamente por acidente", Valak sussurrou, com seu sorriso se tornando mais amplo, mais sombrio e inteiramente profano. "Você destrancou o portal do Abismo só para escapar da sua vidinha monótona... e a sua mente? Lenore..." Ela estalou a língua. "É uma verdadeira mina de ouro de desejos deliciosos e degenerados. Cada pensamento sujo e proibido que você já desejou na vida, exposto todinho só para mim."
