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and then tomorrow we'll do it again

Summary:

Mikey fazendo chapinha na pia. Ray duvida da sexualidade dele. Gerard e Frank brigando. Sexo mencionado e explícito.

Notes:

eu tenho uma camiseta do Mikey Way fazendo chapinha na pia. É essa a fic. Fragmentos. Ele e o Ray se apaixonando no começo da era Revenge. RAYKEY!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Fim dos Frerard >:). Foi muito divertido escrever essa.

Work Text:

Eu não sou homofóbico.

Antes de tudo, gostaria de esclarecer essa parte. Porque eu to falando isso? É que achei importante. Afinal, não tem como eu ser homofóbico.

Cansei de ir na van jogar meu casaco depois do show e não chegar nem perto, porque o Gerard e o Frank tavam lá fazendo sei lá o que audivelmente eu e você sabemos muito bem o que, mas é melhor não pensar muito nisso — e eu acobertar pro Mikey não ir lá ver, e a gente ter que ficar tomando cerveja no bar até os dois cansarem e voltarem. Ou quando tudo acabava, eles voltavam e eu ia na van abrir as janelas e espirrar algum perfume de um de nós ou um álcool pra não ficar aquele cheiro de sexo suspeito dentro da van. 

 

É normal. É rotina. Tá tudo bem. O problema não é esse, não é. Eu acho legal o lance do Gee e do Frankie, inclusive. Não sei porque eles não assumem alguma coisa, é chato ter que ficar acobertando. O Frank nunca percebeu que eu faço isso, mas o Gee sabe. Aliás, eu acho que é coisa dele os dois não terem algo público…

Enfim. Eu penso demais, reparo demais, sou ansioso demais. Minhas questões são outras. Desde que a gente começou a turnê com o álbum Revenge e tivemos que começar a usar mais trajes e roupas temáticas, eu comecei a reparar mais nos visuais, nos meus, no dos outros, e foi aí onde começou o problema.

 

Na primeira vez que eu reparei demais, foi num dia que estávamos num posto de gasolina, com a van, abastecendo, e tinha um restaurante do lado. O Gee e o Frankie foram pro restaurante fazer nossos pedidos, e o Mikey e eu fomos finalmente — o que era um milagre pro Mikey, pelo menos — tomar banho e se arrumar no posto de gasolina, que tinha um chuveiro no fundo do banheiro, sem cabine, mas dava para trancar a porta. Enquanto o Mikey tomava banho, eu cuidei da van abastecendo, e quando o tanque encheu, estacionei a van no estacionamento do restaurante.

 

Quando eu voltei, com as coisas pra tomar banho, eu vi o Mikey se arrumando na pia do banheiro. Ele tava se maquiando e depois ia começar a fazer chapinha. Não entrei no banheiro, propriamente dito. Só fiquei parado na porta, apoiado no batente, hipnotizado. Eu juro, eu perdi o ar. A camiseta apertada que ele vestia não era longa o suficiente para se encontrar com o cós da calça — provavelmente feminina, igual a camiseta, como sempre — dele. A calça apertava demais, servia perfeitamente no quadril e nas coxas, e ela contornava como uma segunda pele. Não é como se eu nunca tivesse reparado em nada disso, eu só nunca tinha reparado. Por uns instantes eu pensei: “Ah, é só porque ele lembra muito uma menina e eu não transo faz tempo, eu preciso transar” e deixei para lá. Mesmo que… Mesmo que a visão dele fazendo chapinha, ajeitando a franja e passando rímel fossem extremamente magnéticas.

…Ray? Tá tudo bem? Você tá me… Encarando faz bastante tempo? Quer usar essa pia?

— Ah! Desculpa! Nem percebi. Não… Não quero. Aliás, e se eu passasse lápis de olho hoje? Acho que ia ficar legal, não? — Eu não gosto de maquiagem. Eu até acho que fica legal em mim, mas meus olhos lacrimejam muito, e acaba ficando tudo borrado, e também arde um pouco, mas eu precisava de uma desculpa.

 

Depois desse fiasco, aconteceu de eu reparar demais algumas outras vezes. E eu fui perdendo cada vez mais a sanidade em cada uma delas.

 

-|-

 

Na segunda vez, já estávamos com o ônibus da banda, não tínhamos mais a van, e o nosso empresário dirigia. No fundo do ônibus tinham beliches, um banheiro sem chuveiro, no meio uma sala e cozinha, e na frente a cabine do motorista, era super modesto.

 

Num dos incontáveis dias tediosos de folga que passamos nesse ônibus, teve um dia específico onde o Gerard e o Frank tavam brincando de casinha nos beliches, o Bob tava perturbando o Brian, e eu encontrei o Mikey dedilhando o baixo na sala, e cantando. Ele não canta. Ele tava cantando Thank You For The Venom. Ele nunca canta. Ele se recusa a cantar. Mesmo que seja de brincadeira, cantarolar, coisa e tal, simplesmente não canta. Só que naquele dia ele tava cantando. Ele tava sentado bem apoiado no sofá, com as pernas cruzadas de forma delicada e quase feminina, levemente inclinado para cima do baixo, encarando as cordas como se não soubesse tocar. Provavelmente nem notou que cantava, e nem me notou ali na porta, também. Eu — novamente — fiquei parado no batente da porta, dessa vez, controlando minha respiração, como se eu estivesse vendo algo proibido. Eu tava tendo aquela vista privilegiada sozinho, ainda bem, aí eu pude gravar cada momento daquela visão na minha mente. Depois de uns minutos ouvindo a voz surpreendentemente rouca e doce do Mikey, ele finalmente me notou, e deu um pulo de surpresa. Eu realmente tava vendo algo que não era para eu ver. Me senti quase um invasor.

— Você tava cantando! Eu nunca te ouvi cantar, Mikes. Você canta muito bem. — Eu sorri e gesticulei como um maluco, o que provavelmente assustou ele um pouco, já que tava começando a ficar vermelho e tentando fugir de me ver.

— Ray. — O tom de voz que ele usou para falar comigo era o comum de sempre, duro, baixo, furtivo. O Mikey não falava muito, era sempre pontual, apesar de ter um ótimo senso de humor, era quieto. Era mais legal quando ele conversava, aliás. Eu gostava de ouvir ele falar. Não é tão maluco quanto o Gerard, pelo menos, não explicitamente, e isso fazia ser fácil a conversa, só que geralmente curta, também.

 

— É sério. Eu não tô falando que… Você não precisa cantar profissionalmente, mas… Pra você, pra gente, você pode, sabe?

— Ray. Eu não canto. Você não viu nada, ok?

— Para com isso, cara. Sua voz é linda. — Ali me destruiu um pouco, porque ele deu um micro sorriso tímido e eu avancei para perto como um ímã. Ele lentamente largou o baixo e voltou à posição das pernas cruzadas e postura reta que tava, mas dessa vez, já não me olhava mais nos olhos, só corava, e olhava para as próprias mãos no colo. — Eu falo sério, tá bom? Canta comigo? Eu toco junto com você. — Eu não vou mentir que adorei ter algum segredo com o Mikes, quer dizer, eu conheço ele desde sempre, mas… Sempre foi eu e o Gee, ele tava lá também, mas nunca fomos muito amigos, ele só… Tava lá. Agora que o Gerard e o Frank se engoliam escondido como dois adolescentes, eu poderia conhecer melhor o Mikey. O Gee sempre falou de como ele era incrível, porém, eu infelizmente só tava podendo enxergar aquilo naquele momento.

 

Eu sentei do lado dele, com nossos joelhos se tocando, e aí eu peguei o baixo que tava no apoio que ele tinha deixado. Passamos um tempo ali comigo tentando entender que porras se faz com as cordas de um baixo, e ele servindo de uma espécie de capotraste? No braço do instrumento. Ele se divertiu com a minha estupidez e falta de habilidade, e eu consegui fazer ele cantar comigo. Eu juro. Meu coração deu alguns pulos, mas… Eu continuei me convencendo que era porque ele parecia muito uma menina.

Tinha certeza que se ele fosse uma menina eu seria apaixonado por ele.

 

-|-

 

Na terceira vez, eu já comecei a me convencer de que essa minha obsessão em reparar no Mikey, talvez não fosse tão comum assim, e nem em ficar pensando tanto em como ele parece uma mulher. Então… Eu fiz o que eu tinha que fazer. Eu decidi falar com o Gee sobre isso.

Não ia falar sobre o Mikey especificamente, mas ele é inteligente, iria sacar sem eu ter que passar vergonha admitindo coisas sobre o irmão mais novo dele. A turnê tinha uma pausa de três semanas, e na segunda semana, quando já tínhamos descansado da cara um do outro, nos reunimos na minha casa, afinal, eu fui o primeiro a decidir morar sozinho, e fizemos uma noite de pizza. Estávamos todos em nossos pijamas ridículos e talvez até velhos e rasgados demais.

O Gerard com a camiseta furada, o cabelo oleoso e a calça amarela dele do Batman, o Frank com o short de corrida curtinho do pai dele, e uma camiseta do Nirvana velha e desbotada, o Mikey… O Mikey vestia uma camiseta do Iron Maiden que já foi minha um dia, no ensino médio. Eu dei essa camiseta pro Gerard depois dele reclamar que não tinha nenhuma de banda para usar na faculdade, e quando ele se formou, a camiseta virou do Mikey. Eu sentia algo quase… Emotivo? Vendo o Mikey usar minha camiseta da adolescência, que ficava até grande nele, apesar de surrada. Ele provavelmente não sabia que era minha. Eu pensei muito mais do que devia nele usando essa camiseta. Enfim, ele também tava com uma calça de morceguinhos preta e azul, que também já foi do Gerard. E eu? Bom… Boa e velha camiseta furada de cinza de cigarro do Metallica e calça cinza de moletom. Parecíamos adolescentes todos de novo.

 

Depois de eu dar uma aula de cinema para aqueles sem cultura, sobre a importância do diretor Pedro Almodóvar na cinematografia, eu finalmente convenci eles a assistirem um filme que não fosse baseado em Duna, nada intergaláctico ou aventuras heróicas. Foi difícil, mas, por ironia do momento que o Gerard e o Frank passavam, e pelo que eu recém achava que sentia, sugeri que assistíssemos A Lei do Desejo, um filme de “romance” (mais tragédia do que romance) gay do fim dos anos oitenta. Eu assisti esse na faculdade, me chocou bastante, mas tinha o Antonio Banderas, então foi o suficiente para o Gerard aceitar ver, e fazer o Mikey e o Frank corarem só com a ideia. Eu sabia que o Frankie e o Gee eram muito fãs dele, por causa do Zorro e dos filmes de suspense. Porém, eu também já ouvi os dois discutindo de madrugada em como ele era gostoso, e eu nunca esqueci. O Mikey com certeza ficou muito confuso com toda a ideia do filme, mas aceitou mesmo assim, não ousou ir contra o sim de nós três, mesmo que talvez quisesse.

 

Com a proposta do filme da noite finalmente aceita, eu consegui tirar o Frank e o Mikey da sala, dizendo que eles tinham que ir buscar a pizza na portaria, o que, sabendo da natureza atrapalhada do Frank e falta de paciência do Mikey, ia acabar fazendo os dois demorarem mais do que o previsto, o que era perfeito para mim. Significava uns minutos sozinho com o Gee. 

 

Assim que eles fecharam a porta de entrada, eu me certifiquei que não voltariam atrás de dinheiro e chave. Eu me lembrei que morava no décimo andar e não tinha elevador, dei uma risada curiosa pro Gerard, sabendo que ele puxaria assunto para saber qual era a piada.

…Rindo do que, Raymond Toro fã do Antonio Banderas?

Cara, estamos no décimo andar. Não tem elevador. Até eles descerem tudo, pegarem a pizza e voltarem, já vai estar gelada.

— Pelo menos o Frankie gasta um pouco de energia, já que ele não para quieto na cama à noite e- Ern- Uhm… Deixa pra lá. O Michael vai ficar exausto. — Eu não falei nada, só ergui as sobrancelhas e cruzei os braços. Ele sabia o que eu queria dizer. Mas eu não falaria, muito menos ele, então mudei de assunto. Precisava ganhar tempo.

Gee. Eu tenho algumas perguntas sobre… Coisas. Eu acho que só você pode me ajudar, posso fazer? — Ele deu uma risadinha maléfica e assentiu com a cabeça. Deus, como eu odeio ele. — Então… Como é… Ser confundido com uma menina? Digo… É ruim se parecer com uma? Como é quando te dizem isso? Por exemplo, eu tenho cabelo comprido, mas não pareço feminino, então… Não tenho parâmetros. Fico… Curioso sobre… Coisas? Vou chegar lá, responde isso primeiro.

— Você é esquisito, Toro. Enfim, pra mim é… Cotidiano? Na realidade, eu não dou a mínima foda pro que acham que tem no meio das minhas pernas, inclusive, eu acho melhor quando me comparam com mulheres porque elas são objetivamente mais bonitas e limpas que homens, então é bom. É ruim quando vem com preconceito contra elas, mas sempre encaro como elogio. Ruim seria se ficassem reforçando que pareço um homem, me sinto sujo meio… Sujo? Sem ofensa. — Sem ofensas, Gerard, homens são nojentos, eu não, mas os outros sim. — Se eu pudesse escolher, seria mais como uma mulher, mas quase lá, só não…. Lá ainda. — Aquela resposta na realidade foi bem esclarecedora, mas eu precisava de mais.

Perguntei se ele sabia como era pros outros dois patetas. Ele disse que o Frank era sempre confundido com um menino adolescente ou uma menina lésbica, e ele disse que era divertido. Frank sendo Frank, eu deveria adivinhar que não ia muito longe, ele só vive sem pensar muito, mesmo. Sobre o Mikey, o Gerard disse que ele sempre foi muito delicado. Que, quando ele tava na faculdade de música, chegou a sofrer um pouco de preconceito mas… Como sempre gostou de esportes e festas, virava chaveirinho dos populares. Nunca impediu ele de ser afeminado, e também nunca ligou de ser chamado de menina, afinal, sempre pegava mais meninas que todos os outros

Eu sempre fui familiar com a ideia do Mikey ser popular entre as mulheres. Eu vejo como ele flerta, como ele se comporta com elas. Tenho até inveja, o cara tem os movimentos clássicos dele, mas… Chegou num ponto que eu não sabia mais se era inveja ou…

Gee.

— Ray…?

— Como você… Como você e o Frank… Souberam? Que gostavam de caras também?

— Eu simplesmente nunca… Nunca liguei pro que tinha no meio das pernas das pessoas, Ray. Já disse, isso não me importa. Se for bonito o suficiente… É isso. Acho que pro Frank é igual. Pelo menos foi assim que a gente… É. Você sabe. — Ele corou e deu de ombros, ainda acho que ele e o Frank vão acabar se machucando.

— Eu sei. É que tem um cara aí. Ai eu… É, você sabe.

— Eu sei? Toro. Você tá gostando de um cara? — Gerard começou a ficar impaciente aqui, e muito provavelmente é porque ele já sabia.

— Não sei! Eu sinto… Coisas? Eu achava que era porque… Ele me lembra uma menina as vezes e aí eu fiquei confuso mas… Eu acho que não é isso. Eu fico realmente nervoso, Gee. Imagino cenários, tenho sonhos. Como se eu gostasse de uma… Menina? Mas ele… — Claro que ele me interromperia também.

— É quem eu acho que é? Você anda olhando demais pro M- — Eu mesmo coloquei a mão na boca do Gerard. Acho que eu não tava pronto pra ouvir isso ainda.

— Gee. Sim... Não fala nada! Tô nervoso.

— Olha, Ray. Argh! Ok. Eu não vou brigar com você. Eu só não sei se ele também é assim. Mesmo que ele seja afeminado, eu não sei. Ele não fala, você sabe. Eu nunca vi. Acho que você pode se machucar, acho que vocês dois podem se machucar. — O olhar dele. O olhar dele para mim nesse momento. Eu provavelmente nunca vou esquecer. Um olhar de… Pena. Eu não conseguia nem manter mais o meu olhar nele. Eu fiquei tão nervoso que desviei e comecei a gaguejar.

— V-Você acha que eu devia… Tentar esquecer? Antes de mais nada.

— De verdade? Talvez… Não quero que você se machuque. De verdade, Toro. E eu acho que tem chances. Se você achar que consegue conversar sobre isso, você pode falar com ele. Você sabe que ele te escutaria, mas eu não posso te prometer que… Enfim. Cuidado? Por favor. Eu amo muito vocês dois. — Eu nem me atrevi a responder mais nada, eu só balancei a cabeça assentindo e fui lavar o rosto na pia da cozinha mesmo, antes que eu surtasse. Foi questão de segundos até o Frank e o Mikey voltarem, ofegantes.

 

Praga. Diabo. Alguém amarra o Frank. Ele saiu correndo pelas escadas com a pizza, quase ficamos sem ela várias vezes. Eu não aguento mais. Eu não aguento. Inferno! Tirem ele de perto de mim antes que eu cometa um CRIME. — A partir daquela conversa, eu passei a ficar mais autoconsciente perto do Mikey. Quando ele voltou da corrida das escadas com o Frank, todo bagunçado e corado, minha mente imediatamente viajou para lugares perigosos. E foi quando eu percebi que provavelmente já tava fodido. E não tinha mais volta. Só que eu decidi que não ia conseguir falar sobre isso com ele. Então, ia sim tentar deixar para lá.

O problema é que foi se criando situações cada vez mais constrangedoras depois dessa decisão.

 

Na minha sala tinha um sofá de dois lugares, uma poltrona e o chão. O Gerard sentou na poltrona, e o Frank deu algum jeito de descaradamente se agarrar nele ali, que nem um bicho preguiça preso num galho? Ele ficava assim pendurado no Gerard. Só que ele era muito carente de afeto, então o Mikey nem questionou. Ficamos eu e o Michael no sofá. Eu fiz questão de sentar o mais na ponta possível, mesmo que ele tivesse com um cobertor super quentinho, eu decidi que era melhor passar frio, mesmo que isso significasse ficar gripado.

Foda-se, eu ia superar ele na marra. Era só um crush, eu conhecia ele desde criança, eu ia conseguir, ia sim. Eu levantei e coloquei uma meia no pé, e um casaco. O Mikey me olhou confuso, o Gerard riu do meu claro nervosismo, e eu só precisava sobreviver àquela noite sem ficar obcecado com o Mikey. Eu preferi ver o filme. E também esqueci que o filme tinha romance gay. Ótimo. 

Caras. Eu preciso… Argh! Eu preciso de uma cerveja, de um vinho, qualquer merda. Alguém quer? Preciso fazer minha cabeça relaxar.

— Eu posso fazer sua cabeça relaxar, Ray… — Frank. Era só o Frank, eu respirei fundo. Não precisava me estressar com ele. Forcei uma risadinha, ficou tudo bem. 

Não esse tipo de relaxamento, idiota. Achei exatamente dez cervejas aqui, e uma garrafa de vinho com um pouco mais da metade, do meu último encontro que deu errado. Ideias?

— Cerveja!! — Claro que o casal de punkzinhos bobos queriam cerveja.

…Eu quero vinho. Acho que vou esquentar melhor. 

— Ah. Você vai dividir comigo então. Porque to morrendo de frio, e esse vinho é uma delícia.

Eu podia fazer isso, claro. Eu podia dividir um vinho com o Mikey. E daí que não tinha taça? E daí que íamos os dois dividir no bocal da garrafa? E daí que quando eu sentei no sofá ele veio se aconchegar perto me arrastando para baixo do cobertor? E daí que nossas coxas tavam coladas uma na outra? E daí que tinha homens se esfregando na televisão e o Frank e o Gerard tavam se olhando estranho? E daí que eles resolveram pausar o filme para “fumar” e eu fui largado debaixo das cobertas com o Mikey na sala, já bêbado de vinho? E daí que eu resolvi quebrar o gelo do jeito mais imbecil do mundo? Ah, merda.

— Mikey.

— Oi Ray! Você tá… Quieto hoje? Ficou bolado de dividir o vinho? Eu bebi tão menos que você… — Ele apoiou a cabeça no meu ombro, enquanto nossas pernas se tocavam. Ele apoiou. A porra da cabeça. No meu ombro. Eu não sobreviveria essa noite. Eu morreria. Sim, eu tinha certeza. Eu já conseguia ver uma luz chegando para me buscar.

— Nah, tudo bem. Tô com a cabeça cheia só.

— Fala comigo? Eu sei que você geralmente fala com o Gee mas… Eu acho que ele e o Frank… É. Você sabe.

— Eu sei. Não é nada. É só que… Acho que tô confuso com a minha sexualidade. Talvez eu goste de caras.

— Ah, é? Bom. Normal? Tem algum cara mexendo contigo?

— Normal? Você já…

— Pete. Lembra do Pete, Pete Wentz? Fall Out Boy.

— AH! AHHHHH! Faz sentido. É, tudo faz muito sentido agora. Vocês ficaram?

— Muito mais vezes do que eu deveria ter ficado. Ele era legal. Ele é legal, na realidade. Mas eu… É. Você sabe.

— Dessa vez eu não sei. — Não sabia mesmo, só dei uma risadinha e tomei o infeliz do último gole daquele vinho delicioso que ainda me mantinha focado em alguma outra coisa que não fosse minha vontade de agarrar o Mikey.

Eu acho que ele acabou gostando de mim, e eu não… Acho que ainda não tava pronto. E eu não gostava dele tanto assim, eu acho? Ah, sei lá. Eu acabei magoando ele um pouco, mas ficou tudo bem depois, somos amigos.

— Uhum. — Eu tenho certeza que ele conseguia ouvir meu coração dar piruetas, eu conseguia ouvir, pelo menos. Tava no fundo da minha garganta. Eu mal escutava meus pensamentos mais. Mesmo que eles estivessem cheios de… Coisas.

— Me fala do cara que você tá afim. — E é claro que eu menti. Que era um fã que tava na maioria dos nossos shows e me olhava diferente. Que ele era bonito. Eu descrevi um pouco o próprio Mikey, mas ele parecia bêbado o suficiente para não perceber, o que para mim era perfeito, honestamente.

Fica com ele, Toro. É diferente. Você vai gostar.

— Claro. Claro… Me diz uma coisa?

— Todas que você quiser! Eu tô bêbado o suficiente. Hahaha! Deus. Minha cabeça vai me matar amanhã. — Ele segurou a própria cabeça como se ela fosse cair, coitado, é meio louco.

 

Curiosamente, o vinho tinto suave desbloqueou um Mikey desconhecido para mim. O Mikey manhoso. Ele tava tentando se aconchegar no meu peito de qualquer jeito. Já tinha desistido do meu ombro. Só faltava entrar embaixo do meu braço.

 

Por que você não canta? — E foi onde eu senti o corpo dele esquentar e ele entrar realmente embaixo do meu braço, escondendo o rosto na lateral do meu peito.

— Ah! Ray… Você não vai esquecer né? — Dei uma risadinha e neguei. Claro que não esqueceria. — Quando a gente montou a banda, eu era muito ruim no baixo, e o Gee ainda era meio ruim em cantar, também, meio desafinado. Você já era um Deus da guitarra, e eu ficava muito inseguro. Num dos meus surtos de insegurança o Gee me disse que o importante era que nos divertíssemos, e que era muito divertido estar numa banda com os melhores amigos dele, e que era um sonho viver isso com o irmão. Ele disse que era só a gente se concentrar no nosso próprio papel que ficaria tudo bem. E isso entrou na minha mente, sabe? Cantar nunca foi meu papel. Parece errado cantar. Me sinto… Fazendo algo que não é pra eu fazer, entende?

— Você se divertiu? Comigo? Aquele dia que você cantou, e tentou me ensinar o baixo?

— Foi muito divertido! Apesar de que, você aprendeu rápido demais. Por favor desista. Não me substitua. Eu vou chorar.

— Mikey, você é insubstituível. Na banda, você sabe. — Eu falei, e meu coração voltou a enlouquecer, só que dessa vez eu tenho certeza que ele ouviu, esperei que ele esquecesse disso no dia seguinte. Ele me encarou no fundo dos olhos, com os dele brilhando, já desistido de se esconder embaixo do meu braço. Porfavormebeijaporfavormebei-

Você promete? Eu prometo tentar cantar mais nos ensaios se você prometer não me substituir.

— Mikey! Porra? De onde vem essa insegurança? Você não é assim!

— Você sabe que o Pete também é baixista, né? Depois dele eu… Não sei. Me sinto ruim. Eu sei que pratico muito mas… Me sinto substituível.

— Então vamos escrever mais músicas, mais músicas com uma linha de baixo forte, o que você acha? em Hang ‘Em High você consegue ousar mais, em Give ‘Em Hell Kid também, pode ser? Dar uma ousada nos solos, eu converso com o Frank, a gente aumenta o volume do seu amplificador, acho que você tá precisando brilhar mais, mesmo. Você não é substituível, não existe essa banda sem você, Mikey. Você esqueceu que foi você quem fez a gente virar uma banda de verdade? Com gravadora e tudo? Foi sempre você. Relaxa. — Ele voltou a ficar não-falante como sempre, mas o demônio voltou a se encaixar no meu braço, dessa vez, me abraçando e respirando fundo, como se segurasse um choro. 

 

Nunca tinha visto o Mikey vulnerável desse jeito. Era adorável. Ele era bem durão, então era só o efeito do vinho, mas era muito fofo. Quando ele me apertou mais e eu senti que ele choraria de vez, eu passei a cantarolar Perfect do The Smashing Pumpkins para ele se acalmar. No começo ele riu, deu uns gemidos de vergonha entre os soluços do choro, mas foi cantarolando junto, até dormir, e o corpo dele desistir e deitar no meu colo. Foi extremamente romântico. Eu realmente tava fodido.

 

Quando o casal voltou, eu disse que poderiam dormir na minha cama que ficaria por ali mesmo, só pedi para que não sujassem meus lençóis e tomassem cuidado com a minha cama. O Frank me lançou o dedo do meio e o Gerard riu baixinho. Ele me encarou um pouco, encarou o Mikey, ergueu as sobrancelhas e me disse por telepatia “Cuidado.” e eu respondi em voz alta: “Eu sei.”

Eu não sabia de nada. Absolutamente nada. Mas também não tinha nada acontecendo, só um amigo consolando o outro. Desliguei a televisão pelo controle remoto, ajeitei uma almofada do meu lado, e fui deslizando meu corpo até conseguir deitar abraçado com o Mikey de vez, com a cabeça na almofada. Mesmo dormindo, ele se aconchegou o mais perto possível de mim, com a cabeça no meu pescoço e a respiração pesada de quem tinha chorado, o corpo dele ficou entrelaçado no meu, meu nariz e boca encostados no cabelo dele. Tirei os óculos dele e coloquei atrás do sofá, não iria correr o risco de sair daquela posição. Dormimos assim. Eu senti que poderia dormir assim todo dia, pra sempre.

 

-|-

 

Na quarta vez, eu já sabia que tava apaixonado, mas como eu disse, eu tentava superar. Dessa vez, quem começou a reparar demais foi ele.

O Gerard disse que eu deveria talvez desistir… E eu concordava. Eu já mal ficava sozinho com o Mikey, o Gee fazia questão de ficar perto de todos nós de novo, porque ele reparou meu desespero, então ficou como era antes dele e do Frank… Você sabe. O Frank não parecia incomodado, também. Na realidade, ele deu uma camiseta de presente para o Mikey, escrita “Mikey Fuckin Way” e a gente rotacionava a uso dela entre eu, ele e o Mikey, em mais uma tentativa de fazer ele se sentir querido.

O que aconteceu foi depois de um dos nossos shows. Eu tava usando a camiseta no dia, e tava bastante suado, porque o show foi numa dessas casas de show fechadas, então, morrendo de calor. Eu fui para o backstage e tinha uma garrafa enorme de água, dessas de quase dois litros, cheia, geladinha, então eu peguei, abri, e bebi. Sem me importar se me molharia todo, joguei um pouco no meu cabelo também, já que tava insuportável de quente. O que eu não reparei é que, daquela vez, quem me encarava parado no batente da porta era o Mikey. Ele tava de boca aberta, olhos brilhando, famintos. Foi assustador, mas meu cérebro voltou pro estado porfavormeagarramebeijaacabacomigo.

Tá com sede, MikeyWay? Eu lavo a camiseta pra você usar depois, ok? Tem mais água ali na lateral. — Eu apontei para a garrafa e ele assentiu com a cabeça, sem conseguir falar nada. Só desistiu e bebeu a água com a maior vontade do mundo, eu juro, ele deve ter bebido os um litro e meio todo de uma vez. — …Quer ir para o ônibus? Ou fumar? Tá gelado lá fora, acho que vamos ficar doentes se sairmos no frio com o corpo ainda quente do show. Hoje é dia de hotel, lembra? Vamos tomar banho quentinho, ainda bem. — Eu até tentei puxar assunto, cuspindo mil palavras de uma vez, mas foi inútil. Ele tava quieto demais de novo. Eu acho que aqui o jogo começou a virar. 

E talvez, só talvez, eu não precisasse desistir sem antes tentar.

 

-|-

 

Na quinta vez, foi logo no dia seguinte da quarta. Novamente, eu tava lutando espiritualmente com meus instintos pra não agarrar o Mikey, porque era ele que tava autoconsciente demais perto de mim.

Depois do show, os outros dois apareceram junto com o Bob, e fomos beber no bar. Como sempre. Era dia de comemorar. O álbum tava batendo alguns recordes de venda, tínhamos várias entrevistas para fazer, finalmente poderiam arcar com os custos de um quarto de hotel. O Frank dividiria quarto com o Gerard, o Bob com o Brian, e eu… Com o Mikey. Tudo bem, ficaríamos bem, somos amigos. O Frank e o Gerard beberam demais, foram se arrastando para o hotel, que era do lado do bar. O Bob e o Brian já tinham desistido faz tempo, e aí ficou só eu e o Mikey, que tava surpreendentemente falante.

Ray. Tenho perguntas.

— Fala, Mikes.

— O Gee e o Frankie. Eles estão juntos né? E você sabe, não sabe?

— É… Eu não sei se eles são um casal, mas eles definitivamente estão juntos. Sim. Espero que não se machuquem.

— Por que não me contou?

— Achei que o Gerard ia acabar contando.

— Não contou. A outra pergunta era: E o seu crush? Você nunca mais disse nada.

— A-Ah! Esquece aquela conversa, Mikes. Eu superei ele, eu acho. É… Melhor assim.

— É pra eu esquecer as partes que você disse que sou importante também? — Ele fez uma cara falsamente incomodada, ofendida, cruzou os braços, e ainda me lançou um olhar brincalhão. Quis morrer. Quis beijar ele. Deus.

— Nunca! Isso nunca. Essa parte não. Só esquece o crush. Não fiquei com ele.

— Por que não ficou? — Eu sinto que ele tava brincando comigo, também. E eu honestamente ia acabar caindo se ele insistisse demais.

— Nunca cheguei a falar com ele sobre. Não sei se ele iria querer… Não quero atrapalhar ninguém com a minha confusão, também. Apesar de que agora, eu tenho certeza que gosto de caras. Mas já foi, já passou.

— Por que tem certeza? 

— Ouvi os conselhos do Gee. Fez muito mais sentido depois. Eu tava confuso sobre o cara ser meio feminino, aí o Gee me deu uns conselhos sobre, e eu percebi que independente da roupa ou do cabelo eu provavelmente ia continuar… Enfim. É. Acho que sou bissexual.

— Maneiro. Uma banda de bissexuais. Não sei quanto ao Bob, mas prefiro não saber. — Um hi-five. É. Esse foi o contato físico que eu consegui, sem querer me enfiar embaixo da minha pele e me rasgar de dentro pra fora. Melhor que nada, eu acho.

 

Rimos e brindamos nossa milésima cerveja, aproveitando a deixa que o Brian tinha deixado tudo pago e fomos embora, ri do fato do Mikey estar devagar de tão bêbado, eu também tava, mas sabia fingir que não. Ou pelo menos achava que sabia. Quando chegamos no quarto, graças a Deus tinham duas camas. Já tava apavorado com medo de ser um daqueles clichês que “ah eles só tinham uma cama” e de repente tavam transando e- Ok. Eu preciso parar de ler fanfic da banda. Seriamente. E também não era boa ideia eu ficar pensando essas coisas sobre o Mikey, não ia fazer bem para mim. Não ia mesmo. Ele se jogou na cama que ele clamou como dele, e eu arrumei meus pertences do lado da cama que sobrou.

Mikes, vou tomar banho. Você deveria ir depois. Você sabe que eu odeio a sujeira que você e o seu irmão fazem. É até desrespeitoso com você mesmo dormir sujo desse jeito.

— Eu posso ir com você e você me dar banho que tal? Não quero mais me mexer hoje Ray. — Esse maldito queria me matar, com certeza. Ele pediu com uma voz extremamente manhosa e provocativa, batendo os cílios e sorrindo para mim. Que raiva disso. Eu quase caí.

MikeyWay, você tá podre de bêbado. Bebe água. Quando eu voltar… Você vai. — Eu tava pegando minhas roupas pra sair e aí ele puxou a cueca da minha mão.

— Raaaaaaaayy!!! — Ele encarou a minha cueca, que ele tinha pego. A minha cueca, cara. Argh! A cara que ele fez. Eu jurei que morreria naquele momento. — Caraca! Que número de cueca você usa? — Era literalmente só me enterrar, a cova já tava aberta embaixo de mim.

Mikey. Eu já volto, se comporta. — Lidar com ele sóbrio, já era difícil, lidar com ele bêbado e manhoso, era ainda pior. Minha única chance de ter um resto de noite normal era se ele estivesse mais sóbrio quando eu voltasse.

No banho foi uma tortura. Meu corpo inteiro tava ardendo, de tesão, ou sei lá. Eu lembrava da respiração dele no meu pescoço quando dormimos juntos no meu sofá, lembrava do olhar envergonhado dele contando do Pete, lembrava da cara de surpresa dele com o tamanho da minha cueca, e nada disso me ajudou, então eu me toquei, e também quis morrer por isso. mas foi esperando que quando eu voltasse, eu conseguiria descansar e dormir. 

 

No quarto, ele tava sentado na minha cama, mexendo na minha mala, procurando algo. — Way. O que você tá fazendo…?

— Quero uma camiseta sua pra dormir. As minhas roupas estão quase todas sujas e vou lavar elas amanhã. Queria uma camiseta grande pra dormir confortável. — Ai Deus alguém me mata de uma vez. 

Tá, pega a do Anthrax. Eu não uso ela. Mas levo pra todo lado, sei lá… Dá boa sorte.

— Anthrax! Adoro essa banda, você sabe! Pena que a minha tá suja demais. Vou roubar a sua pra mim também. Tudo bem?

— Desde que você tome banho e lave as roupas, faz o que você quiser, Mikey. — Eu tentei, mas só tentei, soar irritado e casual, mas quando ele olhou pra mim por cima dos óculos, eu fui traído pelo meu próprio corpo e acabei sorrindo. Maldito. Pegou a camiseta e uma cueca e correu pro banheiro. 

 

Enquanto eu esperava o Mikey voltar pra desligar de vez as luzes do quarto, decidi retomar a leitura de Duna, é, eu sei, eu sei, eu reclamo mas eu gosto. Essa edição era do Gerard, tinha várias marcações e anotações. Ele queria que eu lesse pra discutir com ele depois, mas… Meu corpo me traiu de novo. Eu desmaiei com o livro em cima do peito. Acordei às três da manhã coberto, o livro na cabeceira, o Mikey deitado num dos meus braços… O MIKEY NOS MEUS BRAÇOS? Ok. Eu desisti, tava com sono demais pra me importar. Voltei a dormir, dessa vez, com o Mikey colado no meu peito de novo. Se for um sonho, espero não acordar.

 

-|-

 

Por que ele não me afasta? Por que ele deixa eu me agarrar nele sempre que tô bêbado? Será que ele tem esperanças?

Eu preciso conversar com o Frank. Por que o Frank? Porque… Porque não quero falar com o Gee sobre isso, definitivamente. É claro que eu acordei antes do Ray, eu sempre acordo. Mesmo quando ele acha que não, eu acordo. Eu só… Não tenho coragem de levantar, porque ele é muito quentinho e macio. Eu poderia usar ele de cobertor humano todos os dias que não cansaria e- 

Ok. Que caralhos eu to falando. Frank. Preciso do Frank. Espero que ele esteja vestido.

 

E é claro que ele não tava, quando eu bati na porta me anunciando e tentando fechar o zíper da minha calça — que parecia mais apertada do que o normal — ele gritou mais alto do que devia pro Gerard se vestir. Ugh, esses dois, inferno.

Frank, eu quero conversar com você sozinho. Sai aí, vamos fumar, não sei. — Escutei uns resmungos sobre ser nove da manhã e que tava muito cedo pra começar a viver, mas e daí? Eles que se fodam, eu tô enlouquecendo! Não é só eles que podem viver um drama adolescente tardio.

Mikey. Tá cedo. Muito cedo. O que você quer?

— Primeiramente, que nojo. Eu não quero nem saber o que é isso no seu cabelo e rosto, meu Deus. Ok. Cigarro. Eu preciso de um cigarro, ou uma carteira inteira deles, não sei. Socorro, Frank.

Claro, depois de todo meu drama, ele aceitou ir fumar nos fundos do hotel, na parte que não tem rua, e sim, do lado dos latões de lixo, era a cena perfeita pro que eu sentia. Nunca na vida pensei que eu seria tão dramático sobre alguém, nem quando eu fiz aquela tatuagem ridícula com a minha ex, enfim. Eu contei tudo.

 

Então… Você tá surtando por que… Tem um crush no Ray? Mikey… Hahaha! — Iero é um cara bonito, ele realmente é, acho que se eu fosse mais “foda-se o mundo” como ele, eu seria mais feliz.

— Eu não disse que tenho um crush no Ray. Frank. Não coloque palavras na minha boca. — Eu acho que desde que expliquei tudo, em cinco minutos fumei um recorde de quatro cigarros.

— Seria melhor pra você mesmo se você admitisse. — A postura debochada do Frank tava me atingindo como um taser, se eu não matasse ele eu me mataria.

— Ok. Nem todo mundo tá inclinado a viver um romance com um amigo da banda.

—  Mikey. Isso é cruel. Você não pode falar isso pra mim. O seu irmão e eu… Não é isso que ele quer comigo. O Ray é diferente. Você sabe disso, Mikey. Qual é o problema?

— Ele me vê, ele me olha e enxerga. Esse é o problema, Frank. Nunca… Nunca aconteceu antes. Ele é… Ele me olha muito diferente. Eu não sei qual é a dele comigo, mas parece que ele consegue ver tudo que eu penso, ao mesmo tempo que ele não parece fazer ideia de como falar comigo. É assustador, e ele é tão bonito e… Frank. Me desculpa? Meu irmão é um idiota, eu não devia ter… Você sabe.

— Tudo bem, é problema meu, eu sei disso. A gente veio falar do Ray, né? Olha, Mikey. — Tava demorando pra ele encostar em mim, mas dessa vez eu não quis fugir. Eu gosto das mãos do Frank, ele deveria usar elas em outras pessoas que não fosse meu irmão, inclusive, ele não merece o Frank. Mesmo que ele seja… Mesmo que ele seja o Frank.

Você sabe que eu tô me esforçando pra não soltar da sua mão agora. Me ajuda! Toda vez que eu bebo, toda santa vez, eu me jogo nele, eu não sei o que acontece. Toda vez que eu vejo ele olhar pra mim daquele jeito, eu não percebo mais as coisas que eu tô fazendo, até sóbrio, é difícil. Desde o dia que eu cantei com ele…

— Você cantou com ele? Oh, Mikey! É amor! É amor, bebê! — Ele soltou das minhas mãos e minhas bochechas viraram alvo.

— Vai se foder, Frank.

— Depois, com o seu irmão. — Que nojo. — Mas primeiro… Então, conversa com ele. Ele é quase da sua família, ele vai te ouvir.

— …Esses dias ele me disse que tava com um crush num cara, num fã. Ele disse que o cara era… Magro, alto, que não sorria muito, usava óculos e… — Eu sei. Eu sei que fui burro. — Ah. É… Para de me olhar assim. Eu já entendi.

— Mikey… Oh, Mikey… Ele tá tão na sua que não vai ter nem graça de correr atrás… Só vai lá e beija ele, antes que ele desista.

— Eu acho que ele já desistiu. Disse que o Gee conversou com ele sobre… E aí ele desistiu, mas disse que é bissexual mesmo. Ele sabe do Pete, aliás, eu contei na casa dele, quando dormimos juntos e… Eu tô sendo idiota, né?

— Eu não ia falar, mas você disse… Só volta pro quarto e conversa com ele, por favor. — Do mesmo jeito que ele me empurrou pelos ombros em direção a porta com muita vontade, eu virei com a mesma vontade. Seria constrangedor, pela nossa proximidade de corpos, se não fosse eu e o Frank. Graças a Deus era eu e o Frank. Se o Ray me segurasse pelos ombros assim e eu segurasse no quadril dele desse jeito, talvez fosse meu último momento respirando em terra.

— Frankie.

— Fala, Mikes. — O olhar dele era muito sério, apesar de cansado, e ele sabia exatamente o que eu ia dizer, então parou de me olhar e jogou a cabeça no meu peito. Às vezes, o Frank parecia uma criança manhosa e assustada, principalmente quando o assunto era meu irmão. Só que eu tinha que falar, é meu irmão, sim, mas ele é meu melhor amigo, também. Pra mim, mesmo que o Gee escondesse os dois, o Frankie já era da minha família mesmo quando me rejeitaram na Pencey Prep.

— Você merece mais. Você sabe. Ele é meu irmão mas… Você merece bem mais.

— Talvez. Corre pros braços dele, Mikey! — Maldito. Mas sim, eu corri, correspondendo a expectativa dele. E a minha.

 

-|-

 

Eu acordei com frio do lado esquerdo do corpo, um buraco vazio na cama, e um Mikey muito furioso esmurrando a porta do quarto, gritando que tava sem chave. Ele provavelmente esqueceu que a porta tranca se você bate ela. Claro que eu corri e abri a porta com tudo, eu não sabia o que podia ter acontecido. — Mikey!? O que aconteceu, pelo amor de Deus? Eu tava dormindo ainda e-

— Ray, senta na cama, a gente precisa conversar. — Eu ainda não tinha começado a ficar nervoso, achei que tinha algo a ver com o Gee sendo bobo com o Frank, ou algum problema de saúde do Frank, mas… É, não demorou muito pra explodir. O Mikey tremeu.

Mikes, o que foi? Você tá… Todo bagunçado…? Você não tava dormindo comigo? Fizeram alguma coisa com você? Quem foi? — Ele colocou a mão na minha boca. Não deu nem tempo de eu reagir, meu coração reagiu antes, batendo quatrocentos e cinquenta e sete vezes por segundo.

— Para. Para de falar. Para de ser bonzinho comigo. Argh! Me deixa falar e aí você fala. — Como ele não tirou a mão da minha boca, eu só ergui os braços, me rendendo, e talvez sorrindo… Ah, eu não resisti. Ele tava adorável todo bagunçado daquele jeito. — Ray. Eu vou te fazer algumas perguntas, você promete não mentir pra mim? Eu preciso saber a verdade, ok? — Como ele ainda não tinha tirado a mão do meu rosto, eu só dei um beijinho na mão dele e tirei ela eu mesmo. Mas eu assenti com a cabeça. Eu tinha… Talvez… Esperanças sobre o tópico da conversa. — Primeiramente. Você acha que eu pareço uma menina? — Engasguei. Essa foi minha reação. Eu engasguei com a minha própria saliva.

Ah. Um pouco? Mas você não parece uma mulher! Você parece um cara… Feminino? Seu irmão parece uma mulher mas… Que pergunta é essa, Mikey?

— Tá. Ok. Então… Eu não pareço uma mulher… Entendi. Quero saber do seu crush.

— Você não vai esquecer isso tão cedo, né? Eu já falei que-

— Quieto! — Ele apontou pro meu rosto com raiva, e eu sorri, afinal, eu talvez tivesse um crush no Mikey bravo. — Eu vou perguntar. Sobre o seu crush, você disse que ele era alto, magro, usava óculos, uma franjinha assim… Eu conheço ele?

— …Ah, Mikey! Argh! Sim! Você conhece ele. Você pode esquecer isso por favor?

— Ray, você já sacou que eu entendi, né?

— O que? O que você entendeu? — É óbvio que eu não conseguiria enganar ele, só que eu decidi arrastar a narrativa pra ver onde ele chegaria.

— Você prometeu não mentir, certo? — Eu assenti com a cabeça, lutando com meu próprio corpo pra não me esconder. — Sou eu. Seu crush. Sou eu, não sou? Não mente! — Eu abri a boca. Aí eu fechei. E abri, e depois fechei. Não importa o quanto eu tentasse, não conseguia falar. Até eu sentir ele me chacoalhar. Aí eu falei a verdade, acho que o chacoalhão dele me trouxe de volta pra realidade. Claro, com o toque daquelas mãos bonitas eu falaria qualquer coisa

S-Sim! É você! Para de me chacoalhar! Eu acabei de acordar, vou vomitar! 

— Por que você não me disse? Era só me contar! Eu não mordo! Faz quanto tempo que isso tá acontecendo? — Ele não parava de sorrir, isso é bom? Eu acho? Eu definitivamente não sabia se isso era bom ou não. Tenho medo dos irmãos Way.

Eu… Eu não sabia se você gostava de caras, e aí eu… Quando você disse que gostava eu não sabia se eu gostava, e se eu não gostasse? Eu poderia te machucar e eu não queria isso! Você também disse que não tava pronto pra ficar com o Pete… Então eu achei que-

Ele me beijou. Ele foi se aproximando durante a minha confissão e eu não percebi, eu não percebi que ele tava a poucos centímetros de mim, nem que encarava minha boca enquanto eu falava. Ele me puxou pela gola da camiseta e me deu um beijo. Só um beijo rápido, assertivo, quase raivoso.

Quanto… Quanto tempo faz, Ray? Você não me respondeu essa parte. — Ele se afastou da minha boca pra falar, mas ficou perto o suficiente pra que eu não conseguisse olhar pra qualquer lugar que não fosse os olhos dele. Porra. Os olhos dele! A mancha castanha que ele tem no olho direito é a coisa mais linda do mundo.

— Faz… Algumas semanas? Talvez um mês e algumas semanas? Não sei… Desde aquele dia que fomos tomar banho no posto de gasolina?

— Ray, já fazem três meses. Eu vou te matar.

— Eu não sei o que falar-

 

Ele me beijou de novo. Mas eu tentei retribuir dessa vez. Os lábios dele se mexiam desesperadamente, ele parecia nervoso, então eu tentei guiar. A gente bateu os dentes um no outro, mas quando ele colocou a língua, tudo encaixou, e eu não consegui deixar de gemer. Minha cabeça tava lentamente ficando vazia, até do barulho de estática que eu sempre escutava o dia todo. Ele parecia tentar foder minha boca com a língua. Foi a coisa mais sexy que eu já senti na vida. Ele passou os dedos por dentro do meu cabelo e me segurou com força, com medo que eu fugisse, e a outra mão se ancorou na minha perna. Mais cinco minutos e ele viria pro meu colo, com certeza. Só que eu precisava saber o significado daquilo tudo. Eu tentei sair do beijo, sem muito sucesso, já que ele grudou em mim que nem um vampiro. Eu virei o rosto, e aí ele foi direto no meu pescoço, mostrando que talvez fosse realmente um vampiro. Deu uma mordida forte perto da minha clavícula, que com certeza ficaria roxa, mas eu consegui falar.

Espera! M-Mikey! Ah! Parou! Solta! — Eu não empurrei ele, mas fiz um sinal de trégua com as mãos.

— Hmm? Você não quer…? — Eu fiquei com dó quase que de imediato, ele se encolheu morrendo de vergonha, talvez tentando se recuperar dos próprios instintos animalescos. Eu peguei nas mãos dele na mesma hora que eu vi ele murchar.

— Eu quero! Eu só… O que tá acontecendo?

— A gente precisa conversar agora? Eu prefiro beijar. — Eu reparei que pra ele era mais fácil se agarrar do que falar sobre sentimentos, era meio óbvio, com o histórico romântico trágico dele, mas era a primeira vez que eu experimentava esse lado dele. Ele tentou me puxar pelo pescoço, mas eu fui muito forte. Só Deus sabe o quanto fui forte.

— Mikey.

— Tá bom! Tá bom! Argh! Eu gosto de você, ok? Eu acho que tô… Apaixonado? P-Para de me olhar assim! Eu não aguento mais!

— Assim como? 

— Você me olha como se eu fosse a única pessoa no mundo, o tempo todo! Me dá dor de cabeça. — Ele se escondeu no meu peito, embaixo do meu braço. Eu já comecei a acreditar que aquele era o lugar preferido dele no meu corpo.

— Hahaha! Quanto tempo faz que você tá apaixonado? — Eu puxei ele pro meu colo e abracei ele, mesmo que não saísse debaixo do meu braço.

— O dia do baixo, no ônibus… Que eu cantei contigo.

— Mikey. Isso já faz mais de um mês. — O Mikey resmungou. Igual um velho ranzinza. Nessas horas era nítida a semelhança dele com o irmão.

— Podemos continuar de onde paramos agora? — Eu ia protestar! Eu juro que eu ia! Só que eu sou apenas um homem, talvez um rato? Ok. Um rato… Mas eu não me arrependo de nada! A conversa podia ficar pra depois. Eu não sabia falar não pro Mikey…

 

-|-

 

Depois de alguns dias, talvez uns quatro dias? Sei lá. Eu tava vivendo um sonho, mas... O Frank e o Gerard não. Aparentemente, o Frank tava tentando terminar seja lá o que eles tem, que o Gee insistia que não era nada. Não parecia nada. Não pro Frank, pelo menos. Nem pra gente. Mas talvez pro Gee, fosse melhor mentir pra si mesmo do que aceitar o amor. Enfim, eles eram o exemplo do que não fazer. Passamos a maioria dos momentos consolando algum dos dois, ou tentando apartar alguma briga deles, enquanto a gente tentava criar harmônia nas letras raivosas de música que eles escreviam, também. Era um caos. Por causa disso, eu e o Mikey não conseguíamos fazer nada além de dar uns beijos aqui e ali, escondidos em backstage, nas beliches, no banheiro, sempre assim. Era um saco, mas, não dava pra assumir um namoro nesse clima ruim que a banda tava. A gente tinha medo de ficar assim… Também. Eu não acho que aconteceria, de qualquer forma, mas… Dava pra esperar. A gente não tentava esconder o sentimento, mesmo que não nos agarrássemos na frente de todos, nem falássemos abertamente, a gente não escondeu. O Frank já sabia, e provavelmente, muito provavelmente, foi um dos motivos dele querer parar de “ficar” com o Gee. Mikey e ele tiveram uma conversa cheia de choros sobre. Frank não aguentava mais sofrer, ele jmerecia ser amado publicamente, e isso o Gerard se recusava a dar, mas também não deixava ele ir. Frank passou a semana pendurado no telefone, conversando com a Jamia. Ele ficaria bem. E esperávamos que sem o Gerard.

 

-|-

 

Depois de meses de inferno, o Mikey perdeu a paciência muito antes de mim.

Gerard e Frank pararam de brigar, porque o Frank decidiu focar apenas no namoro com a Jamia, mas teve uma noite onde o Gerard surtou, bêbado, e brigou com o Frank uma última vez. Por que última? Porque o Mikey se meteu, e deu uns bons empurrões nele. Foi tão feio, que eu e o Frank tivemos que apartar.

 

Aquele dia, teríamos hotel de novo. Era o começo da Warped Tour, em 2005, e o Gerard tava fazendo amizade com outras bandas, outras pessoas… Principalmente o vocalista do The Used, Bert McCracken. Depois da briga toda, o Mikey gritou, dando um ponto final na briga deles:

Eu e o Ray, Gerard. Nós estamos namorando, você sabia? Claro que não, né? Você bebe tanto, briga tanto, que nunca mais nem se interessou pela vida dos seus amigos. Você tá afundando. Afundando e quer levar o Frankie junto. Você precisa parar de beber. Parar de brincar com o coração dos outros. Vai viver uma verdade! Se assumir? Sei lá. Se você tivesse amor na sua vida você seria mais feliz.

— …Você e o Ray? Desde quando…? Frank, você sabia disso? Por que ninguém me- — Antes que ele arranjasse mais um motivo pra brigar com o Frank, ele mesmo o interrompeu. Disse como todo mundo já sabia, até o empresário, até os seguranças, fazendo ele se sentir pequeno, culpado. Também disse que se recusava a cair junto com ele. Falou algumas verdades, mesmo que elas tivessem arrancado uma voz chorosa dele e algumas lágrimas teimosas, o Gerard saiu correndo do ônibus, e eu fui atrás. Ele foi pro ônibus do Bert. Na porta, eu abracei ele até que ele parasse de chorar, e quando ele parou, eu chamei o Bert e o Gerard passou a noite lá.

Na volta, o Mikey fez a mesma coisa com o Frank e o instruiu a ir pro hotel logo, tomar um banho quente e ligar pra Jamia. Ele ia ser feliz de um jeito ou de outro.

Eu e o Mikey… Fomos correndo pro nosso quarto, depois de ter certeza que o Frank ficaria bem sozinho, e encher o saco do Bob pra ele ficar indo lá ver o Frank.

 

Já era de noite, estávamos exaustos, mas podíamos finalmente ser. Naquele momento viramos eu e o Mikey só, na nossa cama de hotel temporária, a nossa noite, sem Frank, sem Gerard, sem ninguém. É claro que ele tava exausto, e eu também. Ele se preocupava com o irmão, o amigo, tudo, mas isso não impediu ele de…

— O que eu terei que fazer agora pra você finalmente me deixar te… — A gente mal tinha entrado no quarto, eu juro. Mal tinha batido a porta, e eu já tava me segurando pra não escutar os pensamentos da cabeça lá de baixo. Ele tava parado atrás da porta, me observando jogar minha mochila no chão, com os olhos cheios de… Coisas.

— Mikey. — Ele se aproximou de mim, da cama, bem devagar, não desviando aquele olhar nem por um minuto, eu já tava a um passo de surtar, mas só segurei ele pelo quadril, sentindo meu corpo todo esquentar. E ele insistiu. 

— Responde.

— Banho. Arruma suas coisas e toma banho, eu vou juntar as camas pra virar uma de casal, e depois… — Eu desviei o olhar, tentando parecer calmo, arrastando as camas, não dando a mínima foda pro barulho, pro hotel. Naquele momento eu só queria…

— …Depois? — Ele tava mais ansioso que eu. Eu acho?

— Veremos.

 

Ele saiu pro banho, relutantemente, me olhando a cada segundo pra ver se eu desistia da ideia e deixava ele dormir. O Mikey e o Gee foram negligenciados demais pela família, os pais trabalhavam demais, eram muito críticos. Eles se educaram juntos e sozinhos, o que resultou na má alimentação e na relutância em tomar banho. A cada dia que eu passava com o Mikey, mais vontade eu tinha de cuidar dele. Não por dó, nem pena, nem nada. Mas porque eu queria que ele sentisse a calma e a felicidade de ter uma família pra onde voltar, além do Gee. Na tour, éramos todos família, mas… Pra além dela. Eu sempre fui difícil de me apegar a alguém, só que com ele nem precisei. Ele só… Tava lá. Sempre teve.

Eu parei na frente da janela do hotel e acendi um cigarro. Os carros tavam todos lá, os mesmos de quando chegamos e vimos do hall. Peguei a garrafa d’água que tava no chão, ainda meio gelada, bebi metade, exatamente quinhentos mililitros. Ia ficar tudo bem. Os meninos iam ficar bem. Eu já sabia que amava o Mikey.

 

E assim que pensei que o amava, ele apareceu na porta. Eu até cheguei a pensar que ele escutava meus pensamentos. — Toro! Banho! Xô!

— Mikey. Não vou me opor a tomar banho, não se preocupa. Não sou você.

— Vou roubar outra camiseta sua, você sabe né? Assim que você passar por essa porta…

— Não sei porque você espera eu sair, se eu já sei o que você vai fazer, e não ligo mais. — Ele veio de novo na minha direção, dessa vez apoiando aqueles… Aqueles dedos longos e magros no meu pescoço, me puxando pra baixo. Sussurrou no meu ouvido.

— Eu gosto quando você me vê com as suas roupas. Eu gosto que são suas. Eu gosto da surpresa. — Vai estar no meu prontuário do hospital, causa da morte: Mikey Way. Senti meu joelho enfraquecer, minhas pernas falharem, eu sabia que cairia naquela conversa se eu ficasse mais dois minutos ali, então, com toda minha coragem, eu corri pro banheiro, mesmo que eu ouvisse ele rir atrás de mim.

 

Meu cabelo tava relativamente limpo, eu não tinha suado tanto e tinha lavado no dia anterior, só fiz um coque de qualquer jeito pra tomar banho e tomei o banho mais quente e mais rápido da minha vida. Foquei em lavar as partes mais necessitadas, onde sua mais. Eu tomava mais de um banho por dia, então, nem se eu quisesse, eu ficaria sujo que nem aqueles dois. Eu nem levei roupas pro banheiro, eu senti que… Não precisava. Eu tava certo.

Quando eu cheguei no quarto, com a toalha amarrada no quadril e o cabelo preso, eu vi um olhar no Mikey que eu desconhecia até então. O homem tava claramente com alguma entidade maligna dentro do corpo, e eu? Claro que não achei ruim.

— Ray. Deita aqui. — Ele apontou pro lado dele na nossa cama de casal improvisada. Eu senti que o esforço de juntar as camas foi em vão. Com certeza ficaríamos grudados em apenas uma delas. Ele tava de cueca, uma preta, super apertada, e com a minha camiseta preferida, a do Iron Maiden, a que eu comprei no show que fui com o Gee e decidimos que teríamos uma banda um dia. Perfeito. Eu faria tudo que ele me pedisse. — Seu cabelo… Fica lindo assim. — Eu deitei, claro. Ele pediu, então eu fiz. Deitei de toalha mesmo, mesmo que ele olhasse pra ela como se ela fosse a maior inimiga dele, enquanto ele soltava meus cachos do elástico de cabelo, da maneira mais desajeitada possível.

— Tô nervoso, Mikes. — Achei melhor falar, antes que eu começasse a tremer. E se me lembro bem, já tava tremendo.

— Hm? Porque?

— Nunca… Você sabe. — É claro que eu não era virgem. Quando eu comecei a sair e beber com o Gee fiz muitas coisas que eu não me lembro nem metade, e nem metade dos nomes das meninas que eu acordei na cama no dia seguinte de alguma festa de porão sujo.

— É eu sei. Mas eu também nunca… Você sabe. — Definitivamente eu não sabia, mas eu sentia que tinha algo criminoso vindo. Eu senti pela carícia diferente que ele fez na minha coxa. Eu senti algo na espinha que nunca senti antes, mas de verdade? Que se fodesse tudo. 

— Eu sei? O que? Mas… E o Pete?

— Com o Pete eu fiquei por baixo. — Era isso. O arrepio estranho, o crime, a afronta. Não esperava que ele… Enfim eu não esperava nada, não me interpretem errado. Não é porque ele era magro e mais delicado ou sei lá, que ele tinha que ser passivo nem nada. Já tinha passado dessa fase, já tinha levado broncas o suficiente sobre roupas, gênero e coisa e tal. Eu só nunca pensei que chegaríamos tão longe, aliás, nunca pensei que chegaríamos. Eu tava uma pilha de nervos.

— E comigo…

— Quero ir por cima. Se não for problema? — Eu nunca me imaginei nessa posição, nessa situação, nem nada, mas também não senti nenhuma vontade de fugir, de dizer não, de que parasse. Eu só… Passei a querer, também. — A gente não precisa fazer nada, também. Só não quero… É, não quero. Você entendeu. — Por que ele decidiu isso, assim, comigo? Por que só agora? Por que não o Pete? Será que com o Pete foi ruim? Eu tinha milhares de perguntas e eu não conseguiria abrir a boca pra fazer nenhuma delas, nem sob ameaça de morte.

— E você sabe? Ir por cima? Você já… Eu tenho um pouco de medo. — Eu já tinha feito anal com mulheres antes, também, só nunca fui eu… Recebendo? Só… É.

— Não com homens, mas com mulheres… Eu tive uma ex que… É. Sei, eu sei ir por cima. Eu acho que pra homens é melhor inclusive e- — Foi quando eu percebi que ele tava mais… Nervoso que eu. Mikey tem essa máscara de expressão ilegível, ele parece sempre sério e certo sobre tudo, mas o corpo dele tremia, as mãos pareciam insertas, e a boca fazia uma careta que eu ainda não tinha decidido o que sentir sobre ela, mas sabia que gostava.

— Mikey. Eu confio em você só que… Ahm. É. Não sei. Tô… Me ajuda? Eu me senti muito patético, até ele sentar no meu colo e encaixar as duas mãos no meu rosto. Ele me beijava como se o mundo lá fora tivesse acabado. Como se aqueles carros que vi do hall não estivessem mais lá. Como se a água de um litro não estivesse pela metade no chão, e aquecendo.

Ele não tinha pressa, nem eu. Nem quando lambeu meus lábios e passou a explorar minha boca, nem quando mordeu meu lábio inferior com força arrancando um gemido dos dois, ou quando ele desceu pro meu pescoço e passou a deixar um colar de roxos, tomando um tempo que eu não sabia que tínhamos.

Minutos antes eu pensei que o mundo tinha parado pra nós, mas na realidade, era reconfortante saber que o mundo podia explodir em guerra lá fora e dentro do quarto eu estaria preso nos lábios dele.

Não demorou pra ele descobrir que meus mamilos eram sensíveis, e nem pra descobrir que eu tinha cócegas na cintura, e nem muito menos pra perceber que se passasse a mão nos pelos da minha virilha meu pau pulsava. Ele era ótimo em ler expressões, emoções não ditas. Mikey é observador, e obrigada Deus por isso, se eu tivesse que falar, ia sair as coisas mais sujas do mundo da minha boca.

Eu tava com tanta vergonha, que mordia minha boca desesperadamente tentando segurar meus gemidos, quase que desesperados, de alguém que parecia nunca ter sido tocado intimamente.

Eu nunca me senti vulnerável assim nos braços de uma mulher. Mas era bom, era ótimo, talvez perfeito, porque era ele.

Ele sumiu com a minha toalha sem que eu percebesse, e com a cueca dele também. Ele só mantinha a camiseta. Eu segurei na barra dela que ficava enorme nele, e essa era a melhor parte e falei:

— M-Mikey, você não vai tirar a camiseta? — Ele olhou pra mim e sorriu sem os dentes, só com aquele sorriso, aquele que os Way fazem, enquanto puxava o cobertor sobre nós dois.

— Não vou tirar. Quero que você lembre que eu sou seu. — Antes disso, nos últimos meses, já que estávamos ficando escondido, furtivos, sem passar as mãos por baixo do cinto, toda vez que avançávamos algum degrau da nossa intimidade, eu pensava que era minha sentença de morte sendo assinada. Mas ouvir aquilo, essa frase, foi a certeza que eu tive que eu poderia morrer naquele momento e não doeria mais. Tive certeza absoluta. Uma fodendo certeza.

 

Ele foi cuidadoso comigo, beijou meu corpo todo, e eu retribui cada beijo com toda a animação que ele tinha. Deixou milhares de roxos, e eu não me importei, afinal, sabia que era só ele tentando demonstrar a devoção e possessividade que ele sentia por mim. E ele sempre demonstrava. Demonstrava quando cantava comigo, comigo.

Ou quando íamos na lanchonete e ele quem chamava a garçonete pra avisar que meu pedido tinha vindo errado.

Ou quando íamos assistir filmes no meu apartamento e ele deixava eu escolher porque segundo ele eu sou a única pessoa com bom gosto no mundo além dele.

Ou quando ele come a azeitona da minha pizza porque não sou muito fã, enfim.

Te amo. Eu te amo, Mikes. — Eu disse, finalmente, mesmo sem namorarmos de verdade, mesmo que ele só tenha dito daquele jeito pro Gee se sentir culpado, mesmo que só nos beijássemos aqui e ali, eu já tinha certeza. Ele tava no meio do caminho dos beijos, indo em direção ao meu… É. E ele parou só pra ouvir e retribuir o que eu disse. Ele disse de volta, mas, inimigo da sutileza que é, quebrou o momento agarrando o meu pau e engolindo todo de uma só vez. 

Quando eu senti que provavelmente cederia, senti meu corpo relaxar e ouvi um zumbido nos ouvidos, eu sabia que tava perto, ele tava usando a língua na cabeça só pra me provocar, e eu pulsava na mão dele a cada movimento da língua, então ele parou. Parou e me olhou. O olhar me queimando, enquanto eu já tava corado até quase a cintura, de tanto gemer. “Por favor” foi a única coisa que eu consegui sussurrar. Ele tomou como um convite e levantou minhas pernas o suficiente, pra que minha bunda ficasse totalmente acessível.

Nesse momento eu me arrependi de não ter me depilado ali, feito alguma preparação com ducha, ou sei lá, porém não deu tempo de sofrer com a autoconsciência, porque os movimentos que ele fez com a boca lá embaixo eram pra além de insanos, pornográficos, eróticos, enfim. Você sabe. Pra alguém que não falava muito, ele sabia muito bem usar a língua.

Depois de minutos de tortura, de eu sentindo que ele me comia como se eu fosse uma fruta suculenta, ele finalmente começou a usar as mãos junto. E eu morri de medo. Medo de… Gostar? De ser bom, aliás, era bom, era ótimo, mas os primeiros movimentos ardiam, e pelos sons assustados que eu fiz, ele pareceu reagir ainda mais assustado que eu. Urgentemente voltou a me beijar, beijar meu corpo, me morder onde alcançava naquela posição, tentando se acalmar, e me acalmar.

Eu mesmo puxei ele pelos cabelos, tentando fazer com que ele ficasse o mais perto possível do meu rosto. Algo naqueles olhos dele me acalmavam mais do que qualquer coisa, e quando ele chegou perto do meu rosto, ele colocou outro dedo e passou a fazer movimentos de vai e vem e abrindo e fechando os dedos. Era o paraíso, e eu tava preso ali naquele olhar, naquele momento, eu me senti muito bem, parei de ter medo de gostar, e fiquei com medo que ele parasse, isso sim, e essa realização só me fez gemer mais alto. Não eram mais gemidos que ficavam na beira do ouvido, mas acho que o prédio todo podia me ouvir, e sinceramente? Dane-se!

Tinha um loiro bonito querendo me foder e eu não tava nem aí mais. E ele ouviu meus pensamentos, porque abriu o lubrificante que ele inteligentemente deixou na mesa de cabeceira enquanto eu tomava banho, e passou em três dedos, dessa vez, voltando com esse dedo a mais nos movimentos de vai e vem, e fazendo um movimento de pinça, e eu senti minha alma sair do corpo. — M-Mikey! Ah! Aí! É a…

— Shh… Eu vou fazer você se sentir bem… — Ele disse isso, mas eu sinto que era pra ele mesmo, afinal, eu já me sentia bem demais. Ele parecia nervoso, então eu apertei o pulso da mão que tava dentro de mim, olhei pra ele e assenti com a cabeça, pra que ele soubesse que eu…

Ele soube, sim, porque tirou bruscamente os dedos de mim, e eu senti quase que um abandono, mas não demorou muito, já que enquanto ele procurava ansiosamente a camisinha na mesa, ele me distraía me masturbando em movimentos erráticos, claramente me provocando. Ele fez um movimento extremamente sexy, que foi rasgar a embalagem com os dentes e desenrolar ela no pau com uma mão só, enquanto a outra ainda me tocava, não tão mais freneticamente, mas ainda de forma intensa, pra mostrar que ainda tava ali.

Ray, você ainda…

— Por favor! Mikey!

E foi só o que precisou. Ele soltou finalmente do meu pau — ainda bem, porque eu não sabia quanto mais eu duraria naquele ritmo — pra poder jogar toneladas de lubrificante na camisinha, em movimentos de vai e vem tentando esquentar, movimentos tão bonitos de se ver que poderiam ser proibidos.

Ele se alinhou no meio das minhas coxas, e me olhou. Procurou dúvidas na minha expressão, mas não tinha, eu assenti de novo, e ele empurrou devagar, enquanto eu puxava ele pelo pescoço pra perto de mim. Ele falava palavras de afirmação no meu ouvido e eu tava sem ar algum no meu pulmão. Só passou a se mexer quando, depois de alguns minutos todo dentro de mim, percebeu que eu voltei a respirar.

Ele era gentil, cuidadoso. Me apertava no corpo inteiro pra enganar meu cérebro da sensação de preenchimento e invasão que eu sentia, que me colocavam num estado de alerta e na beira de surtar, e ele sabia, porque me conhecia bem. Quando meu corpo se acostumou, e ele sentiu que eu relaxei mais, ele foi cada vez mais perdendo o controle, e eu cada vez mais afundando as unhas nos ombros dele. Se eu não tivesse cortado mais cedo, seria uma cena quase que de assassinato.

Apesar da euforia, da selvageria e das respirações confusas e entrecortadas, eu tava muito feliz. Finalmente éramos só nós dois, era o que a gente esperava há meses, uma confirmação que combinávamos, pra podermos namorar. Um preenchimento da lacuna que faltava. Um respiro, do estresse que vivíamos. Uma confissão de um segredo que não era mais segredo.

Não demorou muito pra acabar, estávamos meio bêbados, meio bobos do que tínhamos feito. Ele jogou a camisinha fora, se limpou, me limpou, afinal, ele, depois de gozar, continuou metendo até que visse meu corpo se desfazer inteiro debaixo dele. Um grande cavalheiro, devo dizer. Ele ajeitou o cobertor de novo, deitou no meu peito e perguntou:

Agora sim, você quer namorar comigo? — Eu gargalhava timidamente, preso na sensação leve do pós-sexo, achando tudo muito hilário, bagunçado, e aquilo era nossa forma de romance meio torta, o que eu particularmente adorava. Meu cérebro mal processou a pergunta, mas eu respondi entre risadas.

Claro que sim, óbvio. Você sabe.

— É, eu já sabia mesmo.

Ele desligou as únicas luzes do quarto, as do abajur da mesa de cabeceira, e correu pra ser a conchinha menor debaixo das cobertas. Esqueci a janela aberta, trazendo a brisa da madrugada, mas eu ainda conseguia ver, da cama, os carros que vi do hall. Tava tudo certo. Eu fechei os olhos e senti a paz que eu procurava. O barulho de estática da minha cabeça nem ousou voltar. Era eu, ele, e mais nada.